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terça-feira, julho 24, 2018

Capivara




Conversávamos sobre nossos livros e ele falou do perigo que é quando as pessoas reais se deparam com os personagens, ficções às vezes próximas demais de certos fatos, talvez até mesmo de certos nomes, e vislumbrei um momento em que, quem sabe, eu pudesse contar a ele da angústia que é quando essas ficções acabam por me paralisar – reavalio meus métodos, e percebo que são os piores possíveis. Mas não falo nada, apenas concordo, e gargalho quando ele conta uma história que de tão inverossímil parece um conto do Keret. E nos encontramos outra vez aí, nas ficções de terceiros que nos fazem querer um pouco daquilo, sem ter ideia se esses escritores também passam pelo que passamos, os julgamentos, as confusões, as crises que nos fazem querer desistir.

Eu digo, então, que num documentário do Netflix a Joan Didion afirma – a partir de um texto em que descreve o hotel havaiano no qual está hospedada com marido e filha, embora achasse que devesse mesmo era pedir o divórcio – que o marido não só leu o texto, como o editou. Tudo isso ela fala como se fosse óbvio, como se as pessoas reais suportassem a ideia de se ver em letras sem objeções, frustrações ou mágoas, mesmo que, eventualmente, se tornem bundas nas ficções. O entrevistador, então, pergunta qual era o contrato entre o casal? Por que tornar pública a intimidade? E Didion responde, no mesmo tom, talvez fazendo um gesto com seus braços e mãos tão finos, envelhecidos, quiçá retorcidos por artrite ou artrose, nunca sei: não havia contrato. Nunca houve contrato. O que havia era o entendimento mútuo de que cada um usava o material de que dispunha, e aconteceu d’ela ter aquele material – o hotel havaiano em vez do divórcio, e a plena consciência disso.

Mas é a Joan Didion quem diz, com todo o peso de seu nome, sua obra, suas perdas, seus dedos finos e retorcidos, seus dentes amarelados e fotos nas quais aparece de óculos escuros durante toda a cerimônia de seu casamento. Sabemos que estamos distantes dela e dessa autoridade, e começo a me perguntar se a mesa entre nós, e um certo tempo de ausência, agravam a minha dúvida a respeito dessa noite, tão diferente daquela primeira em que, com certa audácia, ele perguntou se corria o risco de se tornar um personagem do qual, talvez, não gostasse, ou um que não aprovasse, e a pergunta, ele a fez enquanto se levantava, dava a volta na mesa e vinha para o meu lado, para me beijar. Mas dessa vez tudo demora mais, talvez porque estejamos bebendo chá, e não cerveja, e conto a ele que Didion tomava Coca-Cola no café da manhã, ao que ele torce a cara, porque não toma Coca-Cola desde os 10 anos.

Ou vai que é por causa daquilo, do tempo de duração dos intervalos, do meu não entender, da minha recusa em perguntar, da minha vontade que tudo fosse outra vez como aquela primeira noite, depois da qual pensei que se as coisas desandassem, como sempre acontece, eu mudaria de analista. Eu não teria mais condições de repetir sempre a mesma história, quem sabe se mudando o ouvinte, sei lá, as ficções também começassem a se transformar noutra coisa.

Dessa vez ficamos um tempo abraçados, meus óculos meio esmagados e embaçados contra o pescoço dele até que tudo, então, começou a se parecer, de novo, com o que eu queria.


domingo, abril 29, 2018

Conversas botânicas


- Mas ela sobrevive bem dentro de casa, sem sol?
- Sim. Só não pode esquecer de regar, ela precisa de bastante água. 
- Isso eu posso fornecer, porque sol mesmo não tem, só a minha luz própria. 
- Ela precisa de pouca luz. Você pode matá-la com a sua.

sexta-feira, agosto 11, 2017

Horto

Hoje comecei a ler um livro
que é a correspondência
entre dois poetas.
Dela, gosto muito,
dele, não sei nada.
Sei que ela escreveu seus versos
enquanto morou no apartamento
dele,
por um tempo.
Como eu fiz com M.,
há dois anos,
mas em prosa.

Você achou que aquele livro,
o meu primeiro,
era sobre o vizinho.
Eu ri, embriagada,
negando com a cabeça,
que tola.
É que o vizinho
não merecia
e nem merece, ainda,
e ainda mais assim,
na estreia,
e nem merecerá.
A única coisa
que deu certo com ele
foi uma planta.
E desconfio, aliás
que tenha dado certo
porque não depende dele,
e ficou só minha,
aqui,
nesse apartamento que planejo abandonar
e que você queria
povoar de antúrios.

Hoje, também,
comprei antúrios.
Não por sua causa,
é claro,
mas porque
os antúrios de M.
estão incríveis.
E porque antúrios,
dizem,
podem viver muito bem
dentro de apartamentos.

“Eu queria ter te dado aquela planta
cujas folhas têm formato de coração”
e desenha no guardanapo de papel,
e do meio do coração sai uma flor
que mais parece uma espiga,
ou um pau,
depende.
Mas não digo.
“Nossa relação é muito erótica”,
você dizia.
Agora
é só muito triste,
ou muito nada.

Teria feito aquele livro,
o primeiro,
de outro jeito.
Sem o vizinho,
nunca o vizinho.
Teria quebrado tudo,
pelo menos,
pra tentar fazer versos,
pra tentar parecer
alguma outra coisa.

Hoje comecei a ler um livro
que é a correspondência
entre dois poetas.
E comprei um vaso de antúrios,
corações vermelhos que trouxe pra sala,
onde você queria
deixar alguma coisa
“que ficasse, sabe?”.
Eu lia sentada à esquerda, no sofá,
onde antes a sua fala,
arrematada por uma última olhada
ao redor,
quase um suspiro,
certamente uma despedida,
como se alguma coisa,
que não você,
pudesse ficar
e ser suficiente.

Você jamais saberá dos antúrios,
já não me escreve,
não me responde,
não nada.
O quinto livro 
talvez comece de alguma dessas entrelinhas,
ou de todas que,
assim como a casa,
penso em abandonar.
Não quero que tudo que eu escreva
tenha que se tornar alguma coisa.
sobretudo não quero
que tudo que eu escreva
seja sempre
endereçado.
Afinal,
você sabe melhor que eu,
como é fácil inventar o personagem,
que ficção é se apaixonar.

Se eu der enter entre uma palavra e outra já é poesia?