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terça-feira, março 31, 2015

A última baguete do Garcia & Rodrigues

1.      Éramos 3 pra uma canga numa tarde meio nublada porque Fernando não havia pagado a conta de luz. Numa Ipanema pré-Smartphone, passamos o dia na praia comendo os iogurtes que estragariam porque Fernando estava atraído pela ideia de viver um tempo sem eletricidade. Marcelo e eu pensávamos na parte prática e o que mais nos preocupava eram possíveis topadas – dedões, joelhos, testa – nos móveis, o sangue seco que ficaria no lençol, porque a luz da vela não seria suficiente para uma assepsia adequada. Camisas amassadas, um relógio antigo de parede que com o passar dos dias transformaria os gestos de Fernando em movimentos pendulares, ceras de vela que esculpiriam candelabros meio sinistros. Não conseguimos chegar a um final: nossa narrativa ia ficando cada vez mais suja e amarrotada, Fernando tornava-se um ser esquisito e anacrônico e a única saída possível para aquilo tudo era alguém, finalmente, regularizar a situação junto à Light. Anos depois Marcelo me telefonaria com uma proposta: “vamos ter um roteiro juntos?” Mas já tínhamos, só não estávamos muito seguros de nosso amor por ele.

2.     A melhor baguete do bairro era aquela da padaria que ficava na esquina, diziam, isso antes das obras que deixaram o cenário com cara de filme de zumbi. Quando anunciaram que o lugar viraria uma churrascaria houve até protesto; talvez se soubessem que de fato aquilo viraria mais uma Americanas tivesse havido quebra-quebra e vândalos. As filas daquela última tarde de funcionamento davam a impressão de que o negócio poderia se sustentar por meses só com aquelas vendas e o clima, contam, era de desolação e declarações de amor ao fatiador de frios, ao garçom e a quem mais trabalhasse no estabelecimento. Lucas ficou para o gran finale e saiu de lá carregando a última baguete do Garcia & Rodrigues. Passei dias fazendo a cabeça dele para vende-la no Mercado Livre. Mas o pão estava congelado aguardando uma ocasião especial para ser comido. Por alguma razão – possivelmente a mesma do Fernando – Lucas ficou sem energia uns dias, e ainda que tentasse desesperadamente se reconectar com a luz o impensável aconteceu: a burocracia deixou a última baguete do Garcia & Rodrigues intragável e passamos uma tarde no Talho comendo empadinhas para esquecer.

3.     “Teve torcida gritando quando a luz voltou”, diz aquela música da Legião Urbana, e teve mesmo. Lá em casa falta luz toda semana, parece que vivemos numa propriedade rural do começo do século XX. Ou parece que vivemos no Rio de Janeiro do século XXI, já não sei mais. “Você sabe que o fogão funciona mesmo quando acaba a luz, não é?”, dizia a última mensagem que consegui ler – porque o sinal de telefone também some nesses dias escuros – depois de dizer melancolicamente a uma amiga que eu estava jantando as duas gelatinas que estavam na geladeira. “Eu sei”, escrevi, “mas se com tudo funcionando já produzo refeições desastrosas, imagina assim”, mas o desabafo ficou pra sempre preso no whatsapp. Eu tinha acabado de chegar do balé e tinha lido uma matéria sobre o músculo psoas, que em certas culturas é considerado o “músculo da alma”. A minha, a julgar pelo psoas, não parecia que voltaria a funcionar antes que a conta de luz chegasse. Resolvi, portanto, fazer 3 ou 4 alongamentos pra ver se alguma coisa melhorava.

4.     Fiz uma lista mental de tudo o que se pode fazer em noites assim, e pensando no meu psoas avacalhado e em tudo o que isso acarreta, fui prática e excluí utopias como sexo, drogas ou gato mia: escrever uma carta para Isabel, tomar banho, iluminar o globo de espelhos com a lanterna até minha sala parecer uma discoteca em fim de festa, ouvir música até acabar a bateria do computador. A luz voltou depois que eu já estava havia uns 15 minutos abraçada à bola de pilates. Fiz um estrogonofe. Ficou uma bosta.




quarta-feira, janeiro 21, 2015

As coisas são mais fáceis na televisão


Foi numa dessas tardes de trabalho em que, entre uma leitura e outra, alguém diz que a Coca-Cola mexicana é a melhor do mundo. Fiquei incrédula, duvidando que a industrialização seja capaz de tais nuances: Toddy tem sempre gosto de Toddy, requeijão dificilmente fica melhor ou pior e todas as coisas que não dependem de safra ou de mim, em geral, são sinônimo de alegria. Ainda assim, resolvi conferir e foi batata: igualzinha, deliciosa, Coca-Cola com gosto de Coca-Cola.

A minha vida culinária tem sido feita de pequenos desastres. Receitas que sigo ao pé da letra e dão errado, carnes que ficam com sabor de nada e eventuais acidentes em que quebro sem querer um pote de mostarda em grãos no chão da cozinha, que é integrada com a sala, e então é domingo no verão e eu tento varrer os grãozinhos que se chocam uns contra os outros indo parar no lavabo, sob a máquina de lavar e eventualmente no quarto, como num jogo de bilhar em que o único vencedor é esse mundo tão cruel que te faz suar uns 3 quilos em meia hora. Nem o chuveiro é aliado porque a água está quente, mesmo que você gire a torneira fria ensandecidamente. 

Achei que com a chegada da páprica e das folhas de louro à minha prateleira algumas coisas se resolveriam, ao menos foi isso que me venderam. Que nada. Minhas refeições seguem insípidas, inodoras e quase insuportáveis. Toda vez que alguma coisa dá errada no meu fogão, portanto, abro uma Coca-Cola, carioca e gelada pela minha Brastemp que às vezes arruína as gelatinas, que viram uma mistura daquele vermelho envenenado com gelo. Tenho economizado os biscoitos Maria mexicanos para esses momentos em que tudo parece perdido, esses sim bastante superiores aos brasileiros.

Toda vez também que a gelatina se inviabiliza eu tento instalar minha impressora. É uma busca meio ilógica por algum sucesso doméstico, visto que impressoras foram feitas para vencer o homem, por mais que você se esforce. Na tentativa de descobrir algum talento para me virar comigo mesma, pego em armas e tento prender na parede a prateleira para abrigar todos os potinhos de temperos que nunca garantirão a satisfação gastronômica. Tenho até mentido para os amigos que me passam receitas “essa é mole, não tem o que errar”. É claro que tem, até a tapioca se quebra quando a transfiro da frigideira para o prato. A minha vida culinária, em resumo, se parece com a minha vida amorosa: uso perfume Chanel antes de refogar qualquer coisa, ponho a culpa na panela, vou dormir com fome e concluo que aquela música do Kid Abelha, afinal, serve para tudo, inclusive para aquela crase que você deixou passar no livro que estava preparando.

Somado a isso tenho agora 4 buracos na parede, duas prateleiras que jamais ficarão suspensas como deveriam e uma encomenda da Domino’s, que sempre terá aquele gosto (ruim) de Domino’s. É esse o meu consolo: a constância e a segurança desse tipo de comida, a certeza de que algumas coisas nunca frustram as expectativas e não sacaneiam a autoestima de ninguém.

É claro, sempre haverá um técnico credenciado para resolver as pendengas tecnológicas, assim como sempre haverá Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, que combina um horário e aparece e faz parecer que algumas coisas podem funcionar. Pessoas Coca-Cola. Felicidade garantida. 


terça-feira, julho 15, 2014

Onde eu possa plantar meus amigos

É tanto cabelo que a gente encontra pelo chão que já penso em usar touca dentro de casa, disse M. quando foi morar em Barcelona com uma amiga. O chão branco deve ter a ver com isso, eu pensei, vai ver meu cabelo já caía assim. O caso é que quando você mora sozinho começa a lidar com coisas nunca dantes enfrentadas, como a poeira inclemente que parece entrar por todas as frestas, os fios de cabelo que parecem multiplicar-se bem mais na sua cozinha que na sua cabeça, o fato de que o tapete do banheiro que você acabou de lavar não vai secar nunca, nem se o verão chegar. E os legumes e verduras na geladeira.

Já na segunda semana a minha Brastemp virou um cemitério de hortaliças e eu acompanhei, desolada, o apodrecimento de beterrabas, folhas e raízes. Aquela gaveta ingrata, além de dor nas costas, agora me dava corpos putrefatos quase que diariamente: as coisas não morrem ao mesmo tempo. O prazo de validade dos verdes é pequeno, sim, e se agrava quando você é adepta dos orgânicos e inapta a se organizar emocionalmente para amanhecer na feira de sábado. Sendo assim, você vira refém das bandejinhas de abobrinhas que nunca tem menos que três exemplares, e o mesmo se dá com tomate, pepino etc. e é batata (rá!): você percebe que também é inapta para montar uma logística de aproveitamento e apenas não dá conta de consumir 6 rabanetes em 5 dias.

Numa outra esfera da cotidianidade, B. adotou a política de, numa mesma semana, usar apenas roupas brancas, na seguinte apenas roupas pretas, na outra apenas roupas estampadas/coloridas, numa tentativa de otimizar sua lavanderia caseira. Tenho procurado fazer o mesmo, mas há algo de hipnotizante e terapêutico em observar as roupas girando na máquina de lavar e quando dou por mim estou lavando panos de chão, panos de prato e o que mais estiver ao alcance. Num destes momentos de ausência do mundo em que toalhas e lençóis rodavam à minha frente pensei até em deslocar o sofá para a área de serviço. E pensei, também, em me unir a alguém, porque fui tomada pela certeza de que o casamento só pode estar situado numa interseção entre o amor e uma bandeja de couve-flor.

Num desabafo com L., que assim como eu é inapto da feira, da lógica alimentícia e do coração, confessei que todo o meu histórico amoroso vinha me assombrando violentamente ao percorrer os corredores do Hortifruti. Eu me lamentava não poder dividir o brócolis orgânico com a pessoa amada e portanto evitar o desperdício, ao mesmo tempo que via que um buquê de alface poderia abastecer três residências de solteiros por uma semana sem qualquer percalço. Lamentava, também, o destino cruel que a vida me reservava: sem agrião ou acelga para o tempo que dure a minha solidão. Segundo L., havia, porém, uma saída para o gengibre e bastava quebrá-lo em pedaços menores na gôndola do super. É óbvio, pensei, e diante do fato reavaliei toda a minha ética hortifrútica.

Foi assim que passei a surrupiar folhas de alface e escondê-las nos maços de couve que compro e que só são consumidas graças ao suco verde diário. Ramos de agrião e de cheiro verde foram incorporados ao espinafre. E outro dia, numa festa, me dei conta de que estava há 15 minutos revoltada com 2 amigos que também não se conformam com o tempo de cozimento das beterrabas, e discorremos sobre legumes durante 5 ou 6 músicas, sendo uma delas do Daft Punk, enquanto à nossa volta as pessoas normais ficavam bêbadas e/ou lânguidas.

É uma obsessão, não sei como controlar, e apesar dos furtos terem dado certo, o grau de tensão que eu senti não compensou o crime. A questão já virou pauta de análise, e fico feliz da minha psicóloga entender que as picuinhas da vida a um podem ser muito mais eloquentes do que crises de identidade. As pessoas esperam que você apareça no divã toda semana com uma grande questão e uma série de abstrações e indagações existenciais, ou no mínimo com uma dor de cotovelo avassaladora: a minha dor é a privação de aspargos, berinjelas e repolho. 


Na tentativa de remendar tais agruras, convoquei B. e L. para o super. Fomos munidos de tupperwares, facas e saquinhos, e uma vez que tudo havia sido computado dividimos nossos verdes, embalamos nossas porções e recebemos olhares duvidosos dos caixas e consumidores locais. Se naquela noite alguém pensou em se aproximar de um de nós para dar aquela cantada ali perto dos congelados, desistiu para sempre. Pouco importa: em nosso devaneio, criamos um site de compra coletiva apenas de comida: nunca mais um ramo de hortelã murchará em vão. 


sexta-feira, setembro 27, 2013

Assum branco - vol. III

Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê.


Camões

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Identifico-me ao porteiro, que trata logo de abrasileirar as coisas, e assim entro em casa de Manu. De repente é muita gente com o mesmo nome nos meus dias, e eu penso se isso é evidência de alguma coisa: pretexto, horóscopo ou um destino inescapável – cancelar o inverno alemão e ir ler Pessoa à beira-mar.

Mas ainda é quinta-feira, Manu tem um sotaque francês que eu adoro, uma habilidade para fazer coisas – tranças, cartões, cadernos – e talvez seja o mês, o horóscopo ou um pretexto: tem sido muito difícil não gostar das pessoas, de pisos de taco, das calçadas do Flamengo.

Na janela L. e eu falamos de encontros – ainda que pela metade – e trocamos um daqueles abraços que só mesmo na primavera, e  agora parece-me impossível narrar isto que ainda se dá em algum lugar de nossas barrigas e ressacas, porque Manu faz de suas delicadezas carimbos – reais e metafóricos – e eu não tenho preparo emocional para tanto: uma poção mágica da Mongólia; um foie gras feito pela avó já falecida, armazenado em pote datado; a foto da avó, de negro, imponente; hortelã com rum em copos de geleia com enfeite artesanal feito com a mão dela – e penso nos copos do Pedro e quero ter uma casa toda assim, com objetos transformados, coisas que eram outras, interferências – conquistar um território.


E toda aquela revoada de pássaros espalhada por ali, ou nuvens, porque tem sempre alguma coisa que voa em dias assim. 




sexta-feira, setembro 20, 2013

O dia que jantei com César Aira

pessoas são permeáveis ou impermeáveis, mãe? 

Muito antes de tudo isso acontecer eu tinha andado por Santiago atrás de todos os livros possíveis do Alan Pauls e do César Aira. Eu tinha até pensado em mudar o destino, desembarcar em Buenos Aires, entrar numa livraria e sair um ano depois, hablando sola e cantando uma música do Devendra, uma que talvez ainda nem existisse, mas que meses depois seria mais ou menos a trilha sonora perfeita daqueles dias.

Antes, também, num café com P., a gente tinha trocado figurinha sobre alimentação saudável: o que M. achava impossível, visto que eu era irônica demais para ser hippie; o que L. achava meio hilário, a ponto de revelar que houve um tempo até que eu passava ghee no olho (e Aira riu) – o que não nos impediu de encher a cara de cerveja e pão com manteiga, mesmo que eu estivesse com a pior dor de garganta do mundo e que a nossa mesa fosse praticamente numa esquina onde ventava pacas.

César escolheu o magret por causa do comissário Maigret, e eu ri lembrando da aula de francês em que desisti do Simenon por ter chegado à conclusão que Madame Maigret era uma submissa e que seu marido era um machista. Sim, eu já fui dada a extremismos, muito antes de tudo isso acontecer.

Tentamos arrancar dele o que fosse, desde as declarações mais banais até um spoiler de um livro futuro. Conseguimos uma ideia para uma novela que ele gostaria de escrever, mas foi P. quem me fez rir de novo, dessa vez para todos, quando disse que tinha comprado uma centrífuga e que incluíra o episódio do suco verde em sua peça de teatro – o que ao mesmo tempo me fez ficar vermelha de vergonha.

César ficou ali à deriva em meio ao nosso português, a uma ou outra declaração não-ortodoxa sobre a vida conjugal de Alan Pauls (chacun son coluna social) e outras gentes mais próximas, algumas delas em estado de pré-surto (ou cocaína, como sugeriu M.). No fim da noite o mistério permanecia no meio sorriso insistente de César, e quando ele pediu uma sobremesa de morangos fui sensata o suficiente para perder a piada óbvia e sem graça que eu poderia fazer – obrigada, a quem quer que seja o responsável.


O fato é que aquela combinação de morangos com o vento e o cigarro que César fumou depois – e que eu fumei junto em pensamentos – pareciam a mim muito fieis a duas novelas que ele já tinha escrito, que eu lera embasbacada, que eu não sabia mais quantos delírios continham, e eu fiquei quietinha vagando pela minha cabeça de leitora paranoica. Mas é incrível: assim como livros, tem vidas que não existem, e eu fico monga em eventos desse porte. Hay que aceptarlo. 




quarta-feira, abril 24, 2013

The suco verde issue


2 maçãs orgânicas, 3 folhas de couve orgânica, 1 cenoura ou inhame orgânicos, 1 mão de grãos germinados, 1 pepino médio (já entendemos que tudo é orgânico), um punhado de agrião, 3 ramos de hortelã, 1 lasca de gengibre. Há controvérsias, diriam alguns: no armazém do Marcos Palmeira a moça coloca salsa e pergunta se você quer adicionar clorofila. Fora todas as outras variantes da receita de suco verde. A minha veio de um livro de um médico, e mesmo que eu tenha tido um namorado atleta e saudável que tomava o suco verde diariamente foi preciso todo esse tempo (uma década) para eu me render a ele (o suco, obviamente).

Há justificativas possíveis: o ex-namorado mostrou-se um equívoco, o que significa que durante anos não comi coisas verdes; durante anos, também, tomei milk-shake no café da manhã, o que é muitas vezes mais delicioso que suco verde; acordar sempre foi uma tarefa complicada e portanto sempre quis facilitar a vida matinal (e o suco verde, como se verá, só a dificulta).

O milk-shake: lá em casa sempre o chamamos “leite batido” – leite, colheres de sorvete de creme e achocolatado de sua preferência (Nescau para minha irmã, Toddy para mim) e estava pronta a bomba de açúcar, gordura hidrogenada e muco. Pareceu absurdo a todos os meus amigos do trabalho que eu tomasse milk-shake no café, e eles tinham mesmo razão. O fato é que antes da pressão social eu já havia diminuído consideravelmente o consumo de milk-shake, incentivada pela promessa da redução da alergia caso eu parasse de beber leite. Aos poucos, e à medida que fui editando livros de saúde, pareceu mesmo descabido tomar tudo isso de manhã. O milk-shake foi substituído por sucos em geral.

Acordar: a minha irmã me ensinou a dormir com o uniforme da escola. Era uma estratégia para barganhar 15 ou 20 minutos de sono pela manhã. A calça não amassava e a gente não tinha tanto critério assim em relação à blusa, questão que no inverno era resolvida com um casaco de moletom por cima. A dificuldade resiste ao tempo, e até hoje funciono com 2 despertadores e ações cronometradas para que tudo seja feito da maneira mais rápida possível: o banho não ultrapassa 7 minutos, a escovação dos dentes é dinâmica e aboli o secador de cabelos. A roupa é resolvida na véspera, a bolsa idem. E já nem me importo mais com as olheiras, porque querer disfarça-las significaria mais 8 minutos acordada. Não há vaidade que sucumba.

O suco verde: foi uma conjuntura de fatores, nenhum dos quais relacionado ao ex-namorado, posto que grande parte dos fatores envolveram leituras e livros editados por mim. E por mais que isso deponha contra mim, é tempo da verdade emergir: meu ex-namorado falava “seje”. Eu sabia. Tanto é que não durou muito.

Eis que, por vias outras, o suco verde voltou. A logística do mesmo, porém, ainda não está consolidada. Encontrar todos os ingredientes no mesmo estabelecimento não é tarefa que se cumpra com facilidade. Onde tem maçã não tem couve, onde tem couve não tem hortelã e assim sucessivamente. Hay que peregrinar, não tem sido fácil. Hay, também, que acordar com antecedência: o meu primeiro preparo do suco consumiu cerca de 40 minutos entre lavar, descascar, cortar, bater e coar tudo. Uma vez que todos os ingredientes estavam dentro do liquidificador, fechá-lo foi uma missão: não cabia. Desiludida, fui tomar o suco no armazém do Marcos Palmeira, onde a atendente enfiou tudo numa centrífuga (exceto a clorofila), e de onde o suco saiu, líquido, espumante e verdinho, em menos de 4 minutos. Delirei. Era muita rapidez e eficácia, e tudo por causa de uma centrífuga, que foi imediatamente comprada.

Tivesse um diário do suco verde, a entrada do dia em que usei a centrífuga pela primeira vez seria uma piegas, cafona e laudatória. Eu escreveria versinhos para a centrífuga depois que me vi com cerca de 30 minutos de uma manhã sobrando. A centrífuga realizava um trabalho mais limpo, prático e saboroso por apenas 10 minutos. Comoção na cozinha. O final feliz esperado estaria aí, não fosse a segunda entrada imaginária num diário idem uma de tristeza e decepção quando, no segundo dia, a centrífuga não funcionou. Eu não estou preparada pra lidar com intempéries tão cedo. Não tenho estrutura emocional para driblar esse tipo de contratempo. Atarantada, depois de montar e desmontar a centrífuga duas vezes – operação que durou cerca de 35 minutos - mastiguei o gengibre até chorar e, sem querer, joguei as couves no lixo junto com a casca da banana que me serviu de consolo. Eu, que já tinha fumado um cigarro de nervoso naquela semana, não hesitei: parei o carro no posto de gasolina e pedi “mal batido”. Adentrei minha sala do trabalho meio escondida, tomando um belo Ovomaltine.  


segunda-feira, março 25, 2013

Quem mexeu no meu pavê



A piada é óbvia, clichê e manjada, mas inevitável em se tratando de uma pequena ode a doces: madeleines não me fariam escrever sequer 7 linhas, quanto mais o grande romance da modernidade. Não que eu tenha pretensões. O que eu queria mesmo era engordar, e no meu cânone alimentício não há espaços para delícias proustianas. Meu elenco seria feito de uma torta-mousse inesquecível, exageradamente consumida entre os anos de 1996 e 1998. Ou um pouco antes, ou um pouco depois.

Do que me lembro dela: o preço exorbitante de R$ 5,00 por fatia obrigava-nos a dividir uma, a minha melhor amiga e eu. Com o mesmo valor, naquele tempo, comprava-se uma oferta inteira do Mcdonalds por pessoa, um festival de açúcar e gordura trans individual, pra agora ou pra viagem. A torta-mousse era bicolor, composta de chocolates preto e branco, e ainda carregava outro binarismo, porque era uma mistura de bolo com camadas mais pastosas. Era recoberta por raspas de chocolate que se volteavam nas extremidades, e sempre pedíamos “uma raspinha a mais”. Sentávamos na mesa redonda e pequenina que imitava mármore. Talvez fosse de mármore. Não sei se é possível descrever sabores, e talvez muito menos o deleite que aquilo proporcionava. As sextas-feiras eram feitas daquele momento, as quintas-feiras eram esperas e os sábados suspiros, nunca literatura.

A sentença se materializou em faixas vermelhas na vitrine: queima total. Godiva-less. Detalhes da despedida se ofuscaram nas minhas lembranças, ensombrecidos pelo luto do qual nunca me refiz completamente. A derradeira fatia da torta-mousse: diria que choramos, o que daria uma ficção overdramática. Comemos, este é o fato. E nos apegamos como pudemos ao pavê de chocolate branco do Amor aos Pedaços.

É claro que não foi do dia pra noite, pois essas transições levam tempo. Fizemos o jejum necessário para que o novo vício se consolidasse. O pavê do Amor aos Pedaços oferecia algumas poucas vantagens em relação à defunta: era possível escolher o tamanho, logo era mais fácil controlar as despesas. Era possível também pedir a tal raspinha, que muitas vezes era acrescentada depois da atendente já ter pesado o doce. E havia mais lojas do Amor aos Pedaços pela cidade, e portanto não éramos mais reféns da expansão do Barra Shopping. Não que nos aventurássemos para o desconhecido, mas havia um alento geográfico na nossa gula.

Não foi apenas a (minha) mudança de colégio que interrompeu as sextas-feiras glicêmicas com a minha melhor amiga. Por uma série de fatores, nebulosos como o último pedaço da torta-mousse da Godiva, comer o pavê de chocolate branco do Amor aos Pedaços deixou de ser um programa, e com o tempo, a idade, os hábitos, etc. deixou de ser algo que eu me lembrasse de fazer. Brigadeiros começaram a parecer a opção mais fácil, e tudo na vida passou a ter esse tipo de funcionamento: mais fácil.

“Tente a torta alemã”, alegaram alguns, em momentos em que confessei meu passado de Amor e Godiva. Tolos. A torta alemã, vulgarizada e massificada, exposta nas mais duvidosas vitrines de padarias e biroscas, jamais teria efeito semelhante ao que os antecessores provocavam. De certa forma, continuei fiel ao pavê de chocolate branco, frequentando mais shows do que gostaria no Canecão, apenas para degustar a iguaria na loja do Shopping Rio Sul. Vezes mesmo houve em que fui ao tal shopping apenas para isso: um pedaço de doce. 

Qual então, foi minha surpresa (e minha conclusão) quando, numa terça-feira, disposta a faltar aula e não jantar para ir até Botafogo, estacionar o carro e apontar pra vitrine onde estariam, lado a lado, o pavê de chocolate branco e o preto, entre merengues, tortas, bolos e afins e declarar: quero inteiro, como outras vezes fiz, a fim de presentear os amigos do trabalho, da universidade e quem mais tivesse estômago, insulina e créditos com a balança; qual foi minha surpresa quando descobri que não existe mais Amor aos Pedaços no Rio de Janeiro. O pavê de chocolate branco mais próximo custa, agora, o preço da ponte aérea mais o táxi de Congonhas até o Itaim.

Neste desfecho desolador, a certeza: toda a trajetória gulosêimica é como aquela das bolinhas-de-queijo: uma luta injusta contra o mundo. 



sexta-feira, janeiro 27, 2012

Os biscoitos recheados do meu tempo

No início era o Trakinas, e a gente só tolerava esse tipo de biscoito porque não tinha lá tanto discernimento. Se a gente encarava Cheetos e Fandangos, não era um Trakinas que ia despertar nosso paladar para a sofisticação da indústria alimentícia. Trakinas de chocolate e morango eram ingeridos com a mesma devoção com que comíamos Mirabel na hora do recreio. Ou Deditos. Da seara dos salgados, o biscoitinho de queijo da Piraquê era o meu preferido, e foi só em 2011 que vim a saber que a embalagem deste e de outros produtos da mesma marca foram originalmente desenhados pela Lygia Pape. Se os Tostines vendiam mais porque eram fresquinhos (ou se eram fresquinhos porque vendiam mais -  e eu gastei muito tempo da minha vida tentando solucionar essa equação), os Piraquês vendiam bem porque eram sensacionais, e a Lygia Pape certamente não tinha nada a ver com isso.

Consta em alguma parte das minhas memórias afetivas que os biscoitos São Luís também tinham seu lugar na merendeira, mas confesso que deles, basicamente, só lembro do jingle: "São Luís Nestlé, qualidade em biscooooitos!" O jingle do Passatempo, por sua vez, poderia ter-nos feito desistir pra todo o sempre de engulir tal massa. Mas o gosto e a nostalgia prevaleceram, e volta e meia compro um pacote de Passatempo recheado no camelô da esquina, só pra voltar a ser criança durante 7 ou 8 mordidas num dia qualquer às 4 da tarde.

Depois de tantos preâmbulos, cheguemos, pois, ao ponto: oOreo, o Negresco e o Bono, ou o que correponderia ao “The good, the bad and the ugly” na gôndola do supermercado.

O Oreo é certamente o único biscoito que faz frente aos biscoitos da minha avó, que já receberam excessivas loas neste blogue. A crocância do Oreo, a cor, o sabor, a brancura do recheio, tudo numa rodelinha de Oreo demonstra a que ponto a humanidade pode se aperfeiçoar e provocar o deleite alheio. Empanturrar-se de açúcar e gorduras trans nunca foi tão justificado quanto quando havia Oreo. Quando estávamos convencidos de que nada podia ser mais alentador que o Oreo, eis que surge o Oreo banhado.

O Oreo banhado, confesso, despertou o egoísmo e a ganância de muitos, afinal, a caixa continha apenas seis bolachas, todas envoltas numa capa de chocolate. Estava aí: o sublime. Nem cinema, nem literatura, nem Chopin, nem religião. Oreos banhados.

Quando os Oreos sumiram dessa terra tropical, meu mundo caiu. Eu, que a essa altura já sofria de abstinência das bolinhas de queijo, tive que encarar mais um luto comestível. E tal qual se dava nos bares, onde eu tentava decifrar a poesia de um bolinho de bacalhau, eu buscava em Negrescos e Bonos a felicidade que nenhum dos dois me daria. Eventualmente recorria ao Chocookie de baunilha, que não tinha nada a ver com a história, mas que passou a ser a melhor opção na tentativa de preencher o buraco do Oreo, que, cá entre nós, passou a ser existencial. O mundo nunca fez muito sentido pra mim. Tudo ficava ainda mais abstrato diante de absurdos como a extinção do Oreo.

O tema Oreo virou quase um tabu para mim. Era melhor não falar sobre o assunto, era melhor não pensar sobre isso, e em hipótese alguma discutir com alguém o sumiço do biscoito. Mas a verdade um dia vem à tona, especialmente quando impulsionada por cerveja, e foi numa mesa de bar (sem bolinhas de queijo), no apagar das luzes de 2011, que confessei a uns e outros a minha dor. Para meu espanto, a solidariedade e a revolta foram instantâneos: eu não estava sozinha.

Naquele dia, voltamos pra casa e descobrimos que a Amazon vendia: Oreo, Oreo banhado, colar com pingente de Oreo. Obviamente, eles não faziam esse tipo de entregas no Brasil. Desolés, seguimos nossas vidas, pulamos sete ondas, conhecemos o Japão, a floresta da Tijuca, o mercado de peixe de Niterói e eis que o Thiago anuncia, via email: habemus Oreo banhado. O Thiago estava voltando da Argentina, terra de Ricardo Darín, Fito Paez e Evita. Terra de gente que pode ler Borges degustando Oreos banhados. Terra de vinhos onde se pode ter mullets e Oreos banhados.

Enquanto o Thiago não voltou ao Brasil são e salvo e com os Oreos banhados intactos na mala, a Bibs e eu mal pudemos dormir. A gente abusou do Olcadil, teve dor de barriga, tremedeira, bebeu, fumou etc. Então, na mesma semana que confirmaram os shows do Morrissey no Rio, os Oreos banhados aportaram no Leblon, e mais não digo, porque o que se seguiu à abertura das caixas de Oreos banhados é impróprio.

Não deu nem tempo de preparar uma trilha sonora adequada, mas eu diria que o hit do momento traduz com exatidão o nosso sentimento no segundo em que, depois de um brinde, e depois de anos de delirium tremens, nossas bocas abocanharam um Oreo banhado: nossa, nossa, assim você me mata.

segunda-feira, março 07, 2011

Reminiscências

(ou: a evolução da liberdade)

Praia de Ipanema, fevereiro, 2006 –

Orgulhosa de uma trança postiça que me serve de fantasia e alheia a toda a areia que entra pelo tênis, arquiteto com o grupo de amigos qual será o próximo bloco daquele dia. É sábado de Carnaval e bem perto de nós, dois ou três gringos bebem cerveja e observam tudo ao redor. Eles são o Franz Ferdinand, nós somos 6 ou 7 bêbados que resolvem se refugiar no meu quarto quando a chuva começa, porque não queremos nos separar, porque somos o epicentro dessa epidemia contagiante que faz qualquer um aprender a sambar, porque embora ainda tenhamos muitos dias de folia pela frente não queremos desperdiçar nenhum segundo. Acabamos de perder a cabeça juntos, dividindo os últimos toddynhos da despensa e os cobertores quentinhos da minha casa. Antes das seis da manhã a Bebel vai tocar o interfone, parte do grupo vai seguir serelepe para o Boitatá. Você e eu, ressacas e vontades semelhantes, vamos dormir até mais tarde, reintegrando a trupe depois do almoço. 

Búzios, fevereiro, 2007 –

Junto pequenos círculos de diferentes cores de tule com linha e agulha, são os detalhes finais da minha originalíssima fantasia de Colombina. Ela é uma cópia de um modelo da infância que minha irmã combinava com gel de purpurina no cabelo, nos anos 80, sabe-se lá onde. Ao embalo da rede eu alinhavo com calma as rodelas, dou alguns palpites no papo dos amigos cineastas sem poder imaginar que em cerca de uma semana estarei segura e ofegante na estação Carioca após um quase esmagamento em decorrência do Cordão da Bola Preta. Mais um sábado de Carnaval, dessa vez reúno forças para o amanhecer na Praça XV, de onde saio bem depois do meio-dia à procura de Coca-cola, ventilador e relaxante muscular.

Praça XV, fevereiro, 2008 –

É domingo de Carnaval e parte da minha saia de Colombina ficou presa num gelo baiano da Gávea no ano anterior quando ia de encontro a um bloco que não existe mais. Não sei como estou de pé, mas algo me diz que é preciso ter fé mesmo sob dilúvio. Estou de volta ao lugar onde a folia é mais feliz, onde executo pulos e coreografias que independem das minhas pernas.  Algo, porém, mudou. A cerveja não desce, a capa de chuva não impede que meus óculos se alaguem e meus pés afundam em poças até que começo toda a sentir frio. Entro num taxi com vontade de chorar: cadê meu Carnaval de arremesso de serpentinas, de beijos roubados, de alegrias desmedidas, de estandartes e Sanatórios Gerais?

Praia da Barra, fevereiro, 2009 –

Mergulho no mar, bóio e quase não noto quando o celular é levado por uma onda. É segunda-feira e eu não vi o Boitatá passar. Não corri risco de vida no meio da multidão suada. Não deixei rastro de confete ao entrar em casa porque a água das mangueiras de Santa Teresa lavou todas as provas de que estive no Céu na Terra daquele ano. Ninguém desconfiou quando afirmei que não fui às touradas em Madri e descobri como sobreviver a mais um mês de Fevereiro. 

Inhotim, fevereiro, 2010 –

Cansamos de especulações acerca da sexualidade de Zezé e nos refugiamos no meio de obras de arte. É quarta-feira de Cinzas na estrada, um padre e um índio me fizeram perder, um dia antes, a Orquestra Voadora e mais tarde juntos na praça Pio XI preferimos deixar o Último Gole pra trás. Nos recolhemos já foscos, cansados, sem disfarçar suspiros e uma saudade tímida do Empolga às 9h de quatro anos antes. Paramos o carro para esticar as pernas e conferir o mapa. Não sabemos da massa fresca que nos espera pro jantar, tampouco adivinhamos que um quadrado mágico número 5 pode ser mais divertido que entoar marchinhas da década de 30 cercados de gente que ostenta antenas, agora ridículas, na cabeça. Dentro de poucas horas estaremos libertos, convencidos de que podemos viver sem mais um Carnaval e sem toda aquela gente bronzeada e feliz arrastada pelos cordões. Brumadinho é o nosso grito do Ipiranga.

Rua Capitão Salomão, Botafogo, março, 2011 –

Já não me importa o caráter de Aurora, há tempos que o amor de Pierrot e Colombina parece mais sem sentido que qualquer um dos meus ex-namorados e não suplico mais pra que você não me esqueça ou não desapareça. Bandeira branca, amor. Não posso mais, e ainda assim lá vamos nós. Esvaziamos latas de cerveja sem muita convicção e todas as conversas convergem para aqueles anos dourados onde éramos felizes dentro de narizes de palhaço e metros de poliéster, e onde fazer xixi na rua era condição sine qua non dum Carnaval de rua sem banheiros. Entre uma melancolia e outra, a vendedora de cerveja informa que estou resistindo bravamente a mais uma festa de Momo sobre o cadáver de um rato cujas tripas estão para fora. Estamos em frente à casa da Matriz, qualquer menção a Ozzy Osbourne seria plenamente justificável, mas um rato morto com as tripas para fora me põe a correr antes mesmo do batuque começar. Em poucos minutos estou com um grupo de amigos desiludidos gastando fortunas num de nossos restaurantes preferidos. Crônica de uma morte anunciada, somos defuntos cabisbaixos querendo passar adiante todas as idéias de fantasias que prometemos nunca mais usar. Caímos de boca na vodca, uma Madonna e um Robert Smith se juntam a nós, e de repente lá estão novamente o padre e índio do ano anterior, ambos mais velhos, com menos alegorias e adereços. Eu vomito todo o risotto de limão siciliano, horas depois, no aconchego do meu banheiro. Minha bota que, mais cedo, supostamente esmagara as tripas de um rato, repousa na varanda até que a terça-feira de Carnaval me acorde.

Recebo mensagens de amigos que ainda não perceberam que estou liquidada, velha ou tanto faz. Por sorte tenho um vôo a pegar. Amanhã, eu sei: luvas e o direito a uma alegria fugaz: todos os quadros do Hopper só pra mim.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Waffles com mel - cena 2

O café está cheio, pelos ruídos da porta já se pode afirmar. Esperamos menos que cinco minutos, vemos sair tantas pessoas sozinhas que consomem com rapidez seus goles, deixam sobre as mesas as moedas, disfarçam a melancolia em pressa. Ela não. É uma dessas que, como nós dois, dedica o fim da tarde de domingo àquele lugar. Em meio a revistas, jornais e gestos vagarosos, tudo nela parece um espreguiçar do tempo: cabelos grisalhos, mania de rabiscar, um jeito de sentar meio de lado, precisão de movimentos que muitas vezes ficam suspensos, uma mania de levar a colher a boca erguendo com exagero o cotovelo, quase um ballet.

Desde a primeira vez que a vimos eu achei que a conhecia de algum lugar, você disse que ela se parecia com aquela atriz e eu concordei. Inauguramos uma época em que a senhora grisalha era centro das nossas atenções.

Fazíamos nossos pedidos habituais e começávamos a inventar mundos inteiros pra ela. Difícil adivinhar onde pousava sua atenção, parecia mirar um ponto sem jamais fixá-lo. Parecia cansada de todas as bobagens compreendidas em diálogos. Parecia cheia de profundezas indecifráveis. Escrevíamos pequenos roteiros e dramas onde sempre havia um filho complicado, um amor perdido ou esquizofrenia. Eu sempre torcia pra que ela fosse a vilã da história, você acabava dando um jeito de absolve-la no final.

Ela permanecia ali por horas, imperturbável.

Aquela senhora virou personagem de diversas histórias sem final feliz que inventávamos entre uma entrada e um bolo desde que nos tornamos fiéis aos waffles dali. Lançávamos olhares curiosos por sobre a mesa daquela senhora, encontrávamos às vezes desenhos e esboços que eram tragicamente amassados pela garçonete sem que pudéssemos desvendá-los antes, caminhávamos em direção ao banheiro na tentativa de decifrar o que ela lia, por quais notícias se interessava. Alheia, ela nunca dava pistas. Ensaiamos alguns métodos de aproximação, perguntamos as horas, tentamos atrair sua atenção de diversas formas e nada, nunca conseguimos captar o olhar dela por mais de dois segundos.

Frustramo-nos, e por acasos da vida, mudamos o dia do café para quinta-feira. A senhora grisalha, porém, continuou a ser o centro de nossas especulações, especialmente naquela semana em que, contrariando as agendas, tornamos a encontrá-la, na última segunda-feira daquele ano. Ela nos assombrava. Só a notamos depois de muitas conversas e de listarmos nossas resoluções para o ano-novo, uma das quais era esquecê-la por completo. Ela estava sentada perto de uma família ruidosa. Rancorosos, engatamos um papo qualquer que nos fizesse abstrair a criatura grisalha, e nos agitamos nas cadeiras quando ela passou distraída por nós dois, depois de devorar um pote de creme chantilly.

A mesa ficava a caminho do banheiro, e com a desculpa da alergia, surrupiei um papel cheio de desenhos, antes que alguém viesse e o jogasse no lixo. Em meio a manchas de café, gotas d’água e o meu espanto, a senhora grisalha desenhara em tinta azul a tua gargalhada.  

Foi a última vez que a vimos por ali.

quarta-feira, junho 16, 2010

Waffles com mel - cena 1

Sentam-se na mesa de sempre, isto é, sempre que o salão está vazio o suficiente para escolherem seus lugares cativos: ela prefere o sofá, ele senta na cadeira e volta e meia não resiste ao espelho em frente. Já sabem que morrem de frio no verão, por isso levam um casaquinho na bolsa, mesmo em janeiro. O primeiro comentário é, portanto, uma discreta revolta contra a potência dos aparelhos de ar-refrigerado nessa época do ano. Um exagero: prevêem gripes para o final de semana, convalescência na piscina. Ela tira da bolsa o caderno de anotações, tá aqui o nome do livro que te falei, como você tá inquieto, o que foi?

A mesma garçonete loira, oi tudo bem? Ué, hoje não vai querer chocolate quente? Ah já sei, no calor é melhor milk-shake, né? Ela se encolhe no banco, pondera: um suco. Dois sucos, dois waffles, uma água sem gás para dividir. Ele muda de idéia: traz um café no lugar do suco?

Como até hoje não sabemos o nome dela? Ele interrompe suas divagações: tenho uma proposta que você não pode recusar. Ela escuta atenta até ser interrompida pelo celular. É minha mãe, preciso atender. Ele passa a mão pelos cabelos três vezes, chacoalha um pouco os pés. Manda um beijo pra ela também. Pronto. Ele começa a sua introdução seriíssima sobre o novo projeto, e antes de explicar efetivamente sobre do que se trata, elege as razões pelas quais ela é a parceira ideal para a empreitada. Envaidecida, se esparrama pelo sofá.

Eclode na mesa ao lado uma briga , um casal já em crise avançada que decide tornar públicas suas amarguras. A mulher, muito nervosa, explode em choros e soluços, o homem percebe que foram longe demais. A garçonete loira desvia o chá de camomila que levava para o senhor dos fundos e o pousa sobre a mesa da discussão, numa tentativa solidária de acalmar a mulher, que segura a bolsa e sai apressada sem olhar pros lados. O homem, constrangido, deixa um dinheiro além do necessário sobre um pires e vai atrás da mulher.

O silêncio se dissolve e o barulho costumeiro do lugar recomeça. Diante do espelho, colherzinha suspensa no ar, imobilizado pelos gritos do casal, ele inunda o título do livro e todas as outras frases do caderno dela: nuvens no café.

quarta-feira, maio 05, 2010

O dia em que cortei cebolas

Teve garoa à tarde no dia em que cortei cebolas, e porque desde que cheguei nessa terra só fazia calor e sol eu pensei que a chuva fina tinha um quê de especial porque anunciava o frio, o casaco de lã, um guarda-chuva novinho em folha e quiçá epifanias.

Desci a Rua Augusta cantando e, distraída que estava, fui andando pra casa sem me importar com a poluição. Não arrisquei respirar fundo, porém, seria um descuido e uma impossibilidade, visto que por volta das 18 horas o nariz começa a entupir: em São Paulo, parece, até a alergia é profissional e cumpre horário de trabalho. E junto da alergia vem essa coisa que dá nos olhos, e que é um misto de coceira e ardência, e atravessei a 9 de Julho pingando colírio, aquele prescrito cheio de substâncias e que promete aumentar a produção de lágrimas, essas que haviam sido decretadas escassas e insuficientes para meus olhos.

Eu já andava pelas ruas engarrafadas do Itaim quando entrei no supermercado, uma vontade de comer massa ou qualquer outra comida que ficasse pronta depois do simples e sublime ato de ferver água: brócolis para acompanhar, queijo derretido pra jogar por cima e gelatina de sobremesa. E uma salada de tomates e cebolas, que aí é mais mágico ainda e só precisa de azeite. Com sorte haveria ainda alguns goles de vinho no armário, e mesmo que não houvesse, eu ficaria enrolada em cachecol, esquecida no sofá. Com mais sorte ainda, dessas que nem amuletos ou simpatias garantem, a gata passaria mais um dia sem me atacar.

Panelas no fogão e abridor de vinho decifrado: seriam necessários mais lenços de papel, mais gotas do suposto milagroso colírio e em outros dias seria preciso, também, janelas anti-ruído que silenciassem os esperançosos torcedores do Corinthians.

Mas no dia em que eu cortei cebolas nada poderia estragar minha noite, tamanha foi a especialidade do evento anunciado pela garoa.

No dia em que cortei cebolas o porteiro me deu boa noite me chamando pelo nome, eu fui útil na Alameda Lorena e o risoto do almoço compensou a espera. O ponto alto do dia em que cortei cebolas teria sido o fato de que a gata lambeu meus dedos da mão, selando o começo de algo que pode vir a ser uma grande amizade de 3 semanas. A revelação, porém, era outra: no dia em que cortei cebolas chorei lágrimas em abundância.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

As tangerinas do meu tempo

Era sempre primavera ou verão, e especialmente os meses de outubro e novembro, que era quando as jabuticabas estavam prontas para serem devoradas. Antes disso era esperar pacientemente, dar pulinhos quando as primeiras bolinhas verdes apareciam nos galhos, e torcer pra que pipocassem logo nos três pés da fruta, além de condicionar todo o nosso desejo por elas, pra que casassem com os meses certos em que poderíamos colhe-las. Por sorte, havia uma mãe bastante convincente que nos incentivava a saborea-las ali mesmo, ao pé da árvore, sem água ou lavagem. “É da natureza”, ela dizia, e seu argumento era o suficiente. Subíamos o mais alto que alcançassem nossas perninhas para pegar os frutos gordos, e escapavam suspiros quando elas estavam já murchas, bicadas por passarinhos: felizes por eles, e com uma pontinha de inveja.

O mesmo com as goiabas: é da natureza. Mas também eram da natureza os bichos que eventualmente as habitavam, e por isso eu nunca comi goiabas. Por via das dúvidas, nunca comi, também, goiabadas ou qualquer derivado da fruta. Gostar de goiabas, como se pode deduzir, era bem mais complicado que gostar de jabuticabas.

Amoras, então! Quase sempre azedas e fazendo ameaças de manchas nas roupas e biquinis, só dava uma vez por ano e era um salve-se quem puder: crianças afoitas ao redor do pé que era alto demais pros nossos bracinhos. Comer amoras começou a ser legal depois dos 12 anos, ou a partir de 1m40.

Mais convidativas eram as mangueiras, cheias de galhos grossos que pareciam ter sido esculpidos pras nossas aventuras de escalada, e que ficavam bem mais atraentes com a ajuda de uma cadeira estrategicamente posicionada. As boas eram as mangas Carlotinha, que eu jurava terem sido batizadas assim pela minha mãe (que então tinha a mania de cantar músicas que eu também jurava terem sido inventadas por ela, mas isso é outra história). E sim, já sabíamos que as mangas eram da natureza, e por isso cravávamos os dedos casca adentro e comíamos as Carlotinhas lá no topo das árvores, e deixávamos o líquido laranja escorrer, e chupávamos o caroço, e às vezes até o roíamos um pouquinho até sentir os dentes cheios de fiapos. E se desse preguiça era só sacudir um pouco os galhos que caíam as mangas, e tinha dias em que nem precisava e que descobríamos as frutas esparramadas pelo gramado, ou entre os dentes dos cães sortudos que as atacavam com igual prazer.

As mangas em abundância viravam uma sorte de produtos que comíamos depois do almoço: sorvete, suco e doces que a minha avó preparava, e que lotavam o freezer e a geladeira, e todos tão naturais que nos restavam fiapos nos dentes também.

Difícil mesmo, e bem mais complicado que gostar de goiaba ou alcançar as amoras, e bem mais saborosa que qualquer manga, era a tangerina. Eu nunca me conformei com a sazonalidade da tangerina, e vivia perguntando se já estava na época. Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, todo mês eu perguntava, na esperança de que algo pudesse ter alterado o curso da tangerina na história do mundo, ao menos do meu mundo. Pra piorar, não havia pés de tangerina na casa de campo. A época de tangerina, portanto, era a mais aguardado do ano, e passava tão rápido que dava vontade de chorar. Eu perseguia o sorveteiro (Itália) na praia, e na maioria das vezes era obrigada a um confronto cruel (e suado) com a realidade: tangerina não tem, serve manga? Era tão frustrante que eu comia o sorvete de manga desbaratinada enquanto, sem querer, levava à morte por pisões meus pobres castelos de areia.

27 anos se passaram até eu dar de cara com tangerinas no supermercado em janeiro. Eu nunca cogitei que se pudesse comer tangerinas em janeiro, mais dramático, até: eu me conformei que não comeria, nunca, tangerinas em janeiro, e condicionei todo meu amor por tangerinas para a época em que elas floresciam.

De repente pareceu que eu não precisava mais gostar de jabuticabas só em outubro, e que poderia ser viável comer, sei lá, morangos em março. O gosto da liberdade, ainda que eu estivesse meio escondida atrás de uma gôndola de carnes, foi tão mágico quanto alcançar sozinha a primeira amora, tão surpreendente quanto se dar conta de que havia comido mais de cem jabuticabas em meia hora, tão delicioso quanto ter o rosto inteiro besuntado de manga, só que muito mais, como dizer, espontâneo, porque isso sim, ah isso sim: comer tangerinas no supermercado em janeiro foi uma enorme transgressão.

domingo, julho 06, 2008

My Lasanha de Palmito Nights

Quantas panelas existem em Paraty? – foi a pergunta que nos fizemos enquanto esperávamos a sobremesa que já demorava mais de 40 minutos para chegar à mesa. Não foi só a sobremesa. A média de espera de qualquer prato na maioria dos restaurantes é de 40 minutos, o que nos fez questionar a existência de fogões e panelas nas cozinhas de cada estabelecimento. A demora em conseguirmos a conta também foi um mistério. O refrigerante, a entrada e os peixes, por que tudo demora tanto? Será que os peixes são pescados no momento em que se faz um pedido aos atendentes?

Para comer em Paraty são necessários bons amigos, paciência, bom humor e eventualmente uma (ou mais) rodada de pôquer. Essa talvez seja a primeira das dicas de nosso guia especial de sobrevivência na Flip, que foi esboçado entre um bobó e outro. Que não se deve olhar pra frente ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico, isso todo mundo sabe. O que nós revelamos, porém, nem o Lonely Planet desconfia.

Os restaurantes, em sua maioria, não fazem reservas e não organizam lista de espera com o incompreensível argumento de que a mesma causaria confusão. A aventura já começa aí: conseguir uma mesa requer astúcia e vigilância. Ou um bom guardador, foi o que descobrimos no restaurante tailandês. Uma vez sentados, entre tosses e espirros (causados pelos fortes aromas que impossibilitavam qualquer frase longa sem obstáculos), observamos a poucas mesas de distância um homem que ocupava 6 lugares. Ele estava sozinho, falava ao celular e não consumia sequer um copo d’água. Pouco depois, cerca de 5 pessoas chegaram e o homem calma, e quem sabe famintamente?, se foi. O mesmo homem foi visto no dia seguinte guardando um lugar na fila de autógrafos para seus contratantes. Uma bela sacada.

Idéia genial, também, é perguntar se o prato que você escolheu está realmente disponível, literal e metaforicamente falando. Pode acontecer de você descobrir, depois de cinqüenta minutos de espera, que o seu pedido não chegou porque faltou arroz na casa. Ou água na cozinha e por isso as louças não puderam ser lavadas ainda. Não é piada. Depois de ter perguntado três vezes sobre o meu picadinho que não chegava nunca fui informada de que não havia picadinho na casa, o famoso tem...mas acabou!. É nesse momento, então, que se tem a maior revelação: Paraty fica mesmo é na Bahia.

No caso da água que acaba, carregue seus talheres, copos e pratos descartáveis, ou tenha sempre um balde água para contribuir. O mesmo balde pode servir para o banho, visto que 90% dos chuveiros das pousadas e hotéis da região são elétricos daqueles de água ralinha, o que faz com que nós possuidores de cabelos cacheados demoremos o triplo de tempo na função. Baterias para secadores de cabelos também são boas opções para não causar curto-circuitos indesejáveis. Mas pra não haver perigo mesmo, duas soluções práticas: escova progressiva antes da viagem (daquelas em que a pessoa é proibida de lavar os cabelos por três ou quatro dias) ou uma coleção de chapéus.

Tenha certeza de que pelo menos um dos chapéus possui abas que encobrirão parcialmente seu rosto, isso evita olhares reprovadores de vizinhos de cadeiras quando você acordar de um cochilo no meio de uma palestra arrastada, sem graça e complicada, elas existem, felizmente não tanto quanto as portas coloridas que enfeitam a cidade. Os chapéus também servirão para você tentar enterrar-se nele quando as declamações constrabgedoras de poesia começarem, essa dica é quente: fique longe do sarau da casa do príncipe. Fique longe também da praça decorada por artesãos e crianças locais, isso pode ser ainda mais assustador que as pessos amalucadas fazendo performances de versos. Se for inevitável passar pela praça e se o tema for "personagens da infantil" por favor, faça de tudo para não se deparar com o poeta Gentileza. Sim, ele está lá, deve ter algo a ver com o não-fazer lista de espera, vai entender...

Tenha a certeza também de que todo e qualquer mau humor, fome, susto ou leitura dramática (no pior sentido) será recompensado por coisas muito simples: você terá tempo para papear com um bocado de gente bacana, as ruas tem nomes como "Rua do Fogo" ou "Rua do Comércio", o que a todo momento nos remete aos tempos de império, os passeios de charrete sobrevivem por lá, pintores de paisagens ingênuas montam seus cavaletes nos caminhos de pedras antigas, cachorros dormem no meio de filas para palestras sem se incomodar. O melhor, porém, é que em Paraty, algumas flores crescem sobre os telhados das antigas casas.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

As bolinhas-de-queijo do meu tempo

As primeiras bolinhas-de-queijo que comi foram provavelmente as de uma festa cujo tema era a She-ra. Talvez antes. De lá pra cá parece que houve uma reviravolta no mundo: as festas não têm mais mesas cheias de brigadeiros e nem o Tio Tom para animar, não têm mais brindes dentro de copos enfeitados e algumas nem comida servem, quiçá bolinhas-de-queijo. As mudanças comportamentais e conceituais de festas eu posso entender e até aprovar afinal, existe música além do Trem da Alegria e drinks além da fanta laranja. Já o sumiço das bolinhas-de-queijo me deixa inconsolável.

Finda a era das festinhas infantis, bolinhas-de-queijo viraram artigo de luxo e bolinhas-de-queijo boas eram quase como achar água no deserto. Foram longos anos sem a convivência com essas pequenas delícias engorduradas, até que a adolescência veio e a W também. A W era uma boate que, se contemporânea, seria prima da Prelude. Eu não tinha ainda tanto escrúpulo assim pra sacar que a W era o ó. Já as bolinhas-de-queijo da W... Eu tolerei noites além do que eu seria capaz e tudo por causa dessa guloseima. Cheguei a ponto de entrar na W, achar um banquinho no segundo andar e gastar toda a minha consumação com elas. O melhor de tudo é que o prato era grande, generoso, eram dois ou três andares de bolinhas-de-queijo e eu as devorava sozinha enquanto meus amigos dançavam e conheciam gente que vivia num mundo bolinha-de-queijo-less. Eu os achava loucos. Eles me achavam um caso perdido. Como tudo o que é bom dura pouco, a W fechou e lá se foram as bolinhas-de-queijo mais deliciosas que já comi.

Anos depois, já refeita do luto, eu descobri que o Manuel e Joaquim fazia bolinhas-de-queijo quase tão boas quanto as da W. Elas vinham em menor quantidade, mas em compensação eu não tinha que aturar música alta e eventuais garotos pós-adolescentes me puxando pelo braço e, ainda, estava livre dos olhares reprovadores dos meus amigos que nunca entenderam o valor de uma boa bolinha-de-queijo. De lá pra cá o impensável aconteceu: o Manuel e Joaquim retirou as bolinhas-de-queijo do seu cardápio. Não houve qualquer satisfação ou comunicação prévia, um belo dia elas simplesmente deixaram de existir. Eu parei de freqüentar o local. Eu não poderia continuar sustentando um botequim excludente de bolinhas-de-queijo boas. Mais uma vez tive de me conformar que teria que viver num mundo sem bolinhas-de-queijo, embora dentro de mim eu ainda me perguntasse até quando isso seria possível.

Eis que o Jobi entrou na minha vida e as bolinhas-de-queijo voltaram. Confesso que as bolinhas do Jobi não são a nona maravilha do mundo (a oitava eram as bolinhas-de-queijo da W), mas num planeta onde a coisa é cada vez mais escassa, as que existem acabam ganhando mais status do que deveriam. É aquele velho ditado: em terra de cego quem tem um olho é rei. O Jobi é como um palácio para mim.

Eu tentei substituir bolinhas-de-queijo por bolinhos de aipim, de bacalhau, filé aperitivo, linguicinha e mais uma série de incontáveis petiscos que encontramos por aí mas o fato é que desde que as bolinhas caíram em desuso que eu nunca mais fui plenamente feliz num bar.

O que eu não consigo entender, meu deus!, é por que diabos o mundo quer se livrar dessa iguaria?