(para Betinha, Bruna e Clara, pelos lenços de papel)
As coisas começaram a desabar todas juntas: eu tropecei numa pedra portuguesa num domingo, engasguei quando entendi que eu tinha inventado muito mais dele do que devia, perdi diversos botões de tantas roupas e uma motosserra rangeu por três dias e três noites me deixando numa insônia devastadora onde desaprendi a ouvir música. Caiu, então, uma chuva que pedia uma sequência inevitável de clichês: guarda-chuva virado ao contrário, água nas canelas, RJTV filmando gente de barquinho pelas ruas, preocupação de mãe, coração estilhaçado e um choro desatinado que demandava abraços, colo e vodca.
Era sábado, minhas roupas encharcadas pendiam no varal da casa dela (sempre ela!) enquanto eu me esforçava para parar de gaguejar, alguma coisa escorria de mim numa velocidade surpreendente, e minhas mãos tremiam. Aquele dia voltei pra casa a 10 por hora, coloquei um cd no som do carro, mas eu apenas não sabia mais como fazer: para ouvir música, para ouvir histórias, para achar que tudo ia ficar bem, para entender que agora era eu sem ele.
Quando as águas baixaram e a cidade começou a secar eu já estava enjaulada em obsessões habituais: listar músicas com a palavra “olhos” (ou eyes – mais ou menos 20 de cada), discutir relação por email, mimar o cão e, aos poucos, colocar no som os cds e lembrar que algumas músicas são como navalhas.
Aconteceu, então, que depois de muitos dias de calor e mar, a rua começou a despencar, com lamas e folhas que desciam nem sei de onde, e barulhos tão próximos e assustadores que pensei em fugir no meio da noite, sem nem dar tempo de inventariar o que eu carregaria comigo. A cidade toda começou a cair de novo, meus remendos se rasgaram com a mesma violência com que as encostas deslizaram e então tudo ficou em alerta. Dessa vez foi o prefeito quem decretou que evitássemos sair, e sem álcool, bobagens ou ânimos, vimos os dias cinzas separadas em nossas janelas sempre com o telefone ao alcance. Lemos quadrinhos e poesia, pregamos os botões das camisas e das calças e por fim juntamos nossas obsessões numa lista que somou 96 canções, umas com a palavra “rain”, outras com a palavra “chuva” no título. E porque aqui as coisas estavam realmente tristes e doloridas, e porque o Morrissey insistia em cantar “come back to Camdem”, comprei minha passagem para onde por duas vezes fui extraordinariamente feliz. Chove sempre na Inglaterra, me disseram. Tudo bem, em mim também.
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quarta-feira, abril 07, 2010
sábado, outubro 10, 2009
O desabotoado céu - vol 3.
Foi mais por causa de Led Zeppelin do que pelo tempo, e me peguei pensando em chuva muito antes de desabar o toró. O caso é que suas duas músicas onde a palavra “rain” consta dos títulos foram precisamente as únicas ocorrências de felicidade daquela semana em que sol nenhum adivinhou o que eu queria, porque, de verdade, ele nunca adivinha.
E porque só a Rita poderia entender a questão e ainda tomar partido dela, enviei por email uma lista de 21 canções que contém o termo inglês no título, para saber se todas são tão brilhantes quanto aquelas, e algumas de fato são, e outras são só outras. Seguimos na empreitada e criamos a tradução da lista, com músicas que contém “chuva” no título (14, valendo uma corruptela para não negligenciar “Chovendo na Roseira”).
A obsessão foi além, a Rita não desligou do assunto e passou dias a fio escutando Plant e Page, e naquela semana me enviou mensagens onde tentava encontrar a melhor canção para escutar na seqüência do Led Zeppelin. Unânimes, resolvemos que só Janis Joplin poderia fazer isso com perfeição, sem estragar ou quebrar o clima. Mas de repente empacamos e eu comecei uma pesquisa ensandecida pela playlist perfeita, o que ainda está em curso e julgamento.
Minhas manias atacam especialmente nesses dias molhados, e agora que dilúvios já me deram lição de moral suficiente para não mais arriscar a vida de meus sapatos por aí, uso o cachorro como esquenta-pés, invisto no meu relacionamento com a atendente da vídeo-locadora e, claro, dou asas à minha síndrome de Rob Gordon. Não estipulo, porém, um all-time-top-5 como ele o faz, e sim reúno a maior quantidade de alguma coisa (preferencialmente inútil) numa lista que nunca tem fim: ditados populares que envolvem animais (39), músicas que contém dias da semana no título (12 em inglês, 5 em português), bandas que começam com “The” (24, mas me pareceu chata no meio), cremes hidratantes para as mãos que já testei (6), músicas com nomes próprios no título (48).
Quando algum resquício de sanidade volta à minha cabeça e eu preciso atender o telefone ou beber água, penso que já escrevi tanta coisa sobre chuva e me dou conta de que o temporal deu trégua. É quando decido comer, e percebo que sob as árvores nunca pára de chover. De repente sonho com as calhas da casa de Penedo, que me davam os melhores banhos das tardes de verão.
Mas é primavera, eu não te amo e Santo Antonio nunca veio em meu socorro.
À saída do restaurante um sujeito de boné me aborda, eu aperto a bolsa pensando que é assalto, e só quando engato a primeira marcha é que me dou conta de que ele queria saber meu nome, e de como ficou impossível ser romântica nessa cidade. Suspiro, e me ataca isso que também brota com a água que não pára de cair: saudade. Encho a cara de chocolate-quente e me especializo numa preguiça chorosa, e por fim decreto essa lista que encerra meu fim-de-semana e que só possui um item: pessoas com quem eu dividiria o edredom hoje, e com o lápis já gasto, providencio o conserto: pessoa, você.
vols. 1 aqui e 2 aqui.
E porque só a Rita poderia entender a questão e ainda tomar partido dela, enviei por email uma lista de 21 canções que contém o termo inglês no título, para saber se todas são tão brilhantes quanto aquelas, e algumas de fato são, e outras são só outras. Seguimos na empreitada e criamos a tradução da lista, com músicas que contém “chuva” no título (14, valendo uma corruptela para não negligenciar “Chovendo na Roseira”).
A obsessão foi além, a Rita não desligou do assunto e passou dias a fio escutando Plant e Page, e naquela semana me enviou mensagens onde tentava encontrar a melhor canção para escutar na seqüência do Led Zeppelin. Unânimes, resolvemos que só Janis Joplin poderia fazer isso com perfeição, sem estragar ou quebrar o clima. Mas de repente empacamos e eu comecei uma pesquisa ensandecida pela playlist perfeita, o que ainda está em curso e julgamento.
Minhas manias atacam especialmente nesses dias molhados, e agora que dilúvios já me deram lição de moral suficiente para não mais arriscar a vida de meus sapatos por aí, uso o cachorro como esquenta-pés, invisto no meu relacionamento com a atendente da vídeo-locadora e, claro, dou asas à minha síndrome de Rob Gordon. Não estipulo, porém, um all-time-top-5 como ele o faz, e sim reúno a maior quantidade de alguma coisa (preferencialmente inútil) numa lista que nunca tem fim: ditados populares que envolvem animais (39), músicas que contém dias da semana no título (12 em inglês, 5 em português), bandas que começam com “The” (24, mas me pareceu chata no meio), cremes hidratantes para as mãos que já testei (6), músicas com nomes próprios no título (48).
Quando algum resquício de sanidade volta à minha cabeça e eu preciso atender o telefone ou beber água, penso que já escrevi tanta coisa sobre chuva e me dou conta de que o temporal deu trégua. É quando decido comer, e percebo que sob as árvores nunca pára de chover. De repente sonho com as calhas da casa de Penedo, que me davam os melhores banhos das tardes de verão.
Mas é primavera, eu não te amo e Santo Antonio nunca veio em meu socorro.
À saída do restaurante um sujeito de boné me aborda, eu aperto a bolsa pensando que é assalto, e só quando engato a primeira marcha é que me dou conta de que ele queria saber meu nome, e de como ficou impossível ser romântica nessa cidade. Suspiro, e me ataca isso que também brota com a água que não pára de cair: saudade. Encho a cara de chocolate-quente e me especializo numa preguiça chorosa, e por fim decreto essa lista que encerra meu fim-de-semana e que só possui um item: pessoas com quem eu dividiria o edredom hoje, e com o lápis já gasto, providencio o conserto: pessoa, você.
vols. 1 aqui e 2 aqui.
segunda-feira, junho 04, 2007
o desabotoado céu - vol. 2
Os elásticos de cabelo continuam sumindo. Os grampos, ao contrário, não param de dar cria, não sei o que acontece, só sei que eles estão por toda parte: na mesinha, na escrivaninha, na pia do banheiro, na gaveta do banheiro, na gaveta do escritório, no carro, no bolso da mochila, nas bolsas, nos bolsos de calças e casacos e desconfio que eles sejam fruto de geração espontânea, escaparam à evolução darwinista. Desconfio também dos sábados. De uns tempos pra cá os sábados viraram uma ameaça constante aos meus sapatos e agora só saio de casa com galochas, o que exclui qualquer possibilidade de ficar elegante na estação do ano mais propícia para isso. É triste porque usando galochas as chances de conhecer alguém legal caem pela metade e juntando o fato de que na fila pra vacina de rubéola as chances de conhecer alguém legal caem pela mesma proporção então pronto, está feita a matemática: mais um sábado chuvoso e encalhado, ainda por cima de galochas (de onde veio, aliás, a expressão “chata de galochas”?). Depois de passar quase uma hora na fila do posto de saúde lendo um livro chatérrimo (é o segundo livro chatérrimo que leio de maio pra cá, talvez porque depois de Camus seja impossível que algo seja bom de novo) eu achei melhor entender logo o recado e procurar ajuda num lugar seguro, antes de dar chance pra que os sábados virassem uma novela tão chata quanto a das oito (que me causou arrepios no sábado anterior) onde eu teria muita quantidade (de chuva e grampos de cabelo) e pouca qualidade (galochas de plástico não são exatamente scarpins do Manolo Blahnik). E então veio o lugar seguro e mudou o rumo da prosa, eu voltei pra casa onde podia me livrar das galochas e do livro chato e ainda prender os cabelos com grampos, o que na verdade eu posso fazer em todo e qualquer lugar. E eu ainda tinha Buñuel e um telefone que com alguma sorte poderia não tocar naquela noite onde o que mais queria era ficar em casa no sofá porque a essa altura a minha maior felicidade era ter um pijama de flanela e meias quentinhas. E só porque era sábado e esse dia da semana tem sido sacana comigo o telefone tocou e depois de hesitar eu resolvi dar uma chance. Com muita dificuldade eu saí do pijama e quando voltei pra ele já era domingo, eu tinha falado, cochilado, rido e bebido bastante com a minha versão tupiniquim de Jules et Jim (salvo restrições), além de ter roubado filmes da videoteca de Jules (ou Jim?). E também ouvido Jim (ou Jules?) cantar bêbado no caminho de volta, numa língua que deve ter sido inspirada no francês. Acordei certa de que a maldição dos sábados havia passado e com certo receio de que o domingo traria a vingança. Me armei como pude: galochas, grampos e um chocolate quente com creme em companhia de uma amiga para quem eu não conseguiria achar personagem equivalente. E não me interessava mais conhecer alguém legal no domingo, ou eu não me iludia mais achando que isso seria possível com o tipo de calçado que eu usava. O domingo acabou bem, com a única esquisitice d’eu ter saído da livraria sem qualquer aquisição. Foi quando cheguei em casa e comecei a arrumar a mochila do dia seguinte, coisas de trabalho e grampos de cabelo que fazem as vezes de clipes que me dei conta, tolamente eu tinha esquecido: marquei aula de natação na segunda-feira. Galocha pouca é bobagem...
domingo, maio 20, 2007
o desabotoado céu
Era sábado e chovia forte e apenas com a segunda informação você já deduz que o caos instalou-se na aldeia. Pois bem. Tudo começou a dar errado antes: uma amiga furou o jantar, acordei sem querer às 7 da manhã, o cachorro comeu parte de um sapato verde, eu errei toda a concordância do passe composé e a cera de depilação acabou na metade da perna esquerda. O toró desabou no meio do caminho e eu quase desisti de ir ao show com medo do meu sapatinho cor de rosa se desmantelar na chuva, eu não podia me dar ao luxo de perder dois sapatos em menos de 24 horas, mas quando uma amiga disse que me buscava no Leblon eu achei que a sorte estava mudando e fui. Fato é que a chuva apertou, o show foi cancelado e a amiga resolveu se aventurar pelas ladeiras de Santa, eu procurei abrigo no shopping e lembrei que não se arranja carona impunemente. O shopping parecia festa de criança, sabe como é, sábado chuvoso e as mães levam os filhos ao teatro, uma barulheira, muitas babás e criancinhas correndo de lá pra cá e eu tive que me abrigar ainda mais, no cabeleireiro enquanto resolvia se voltava pra casa pra salvar meu sapatinho ou se usava o celular pra tentar salvar a minha noite. Achei que ambos estavam perdidos no exato momento em que a manicure sem querer derrubou o pote de água em cima do meu sapato. Quase chorei porque a contabilidade não estava a meu favor: dois sapatos agonizantes, metade de uma perna não-depilada, olheiras e uma lista quilométrica de exercícios de francês. Saí do shopping correndo com medo de que mais uma tragédia acontecesse e fui buscar abrigo na casa da vovó, por alguns segundos pensei em ser recebida por uma vó que me ofereceria uma mantinha, acenderia a lareira e me traria biscoitos saídos do forno junto com uma xícara de chá, ha-ha, a vida não é filme você não entendeu. Sentamos pra ver o jornal e de repente começou a novela das oito e aí sim é que coisa ficou preta, poucas vezes eu senti tanta vergonha pelos outros e quando numa cena em que o casal se encontrava no aeroporto tudo ficou em câmera lenta eu achei que era hora de ir pra casa dormir. E foi assim numa noite de tempestade em pleno sábado que eu tirei meu Santo Antonio do fundo do armário mas na última hora fiquei na dúvida se pedia pra ele um namorado ou pra São Pedro um solzinho e porque a sorte me fugia pedi pro meu pai um edredom e um travesseiro de pena de ganso e agora está resolvido: dia de chuva eu fico em casa.
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