Mostrando postagens com marcador via láctea. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador via láctea. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Cielito lindo


Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos,
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal.

Fabián Casas 


É dezembro e todos estão em praias paradisíacas, inclusive eu: o mar é tão turquesa que parece falso e brilha em certos trechos. Evitamos todas as ruínas maias, deitamos em redes de hotéis onde queremos nos hospedar no próximo verão, comemos peixe ao pôr do sol e caminhamos em direção ao carro com as ondas que chegam fresquinhas em nossos pés. Um barquinho cheio de pelicanos está ancorado no meio de uma tarde e logo mais navegamos com um marinheiro chamado Jesus, o segundo em 2 dias. A internet é precária nessa parte do México e falar de férias e das coisas de deus é tão complicado quanto encontrar cartões postais por aqui. E além disso, o que dizer? “Queria que você estivesse aqui para boiar comigo.” “Saudades.” “Te amo.” “Feliz ano novo.” Não seria mentira, mas quando se está de férias tudo é só mais ou menos verdade.

Come-se gafanhotos em Oaxaca, e também um sal feito de um verme (minhoca? lesma?) com o qual se deve temperar rodelas de laranja para degustar depois de uma dose de Mezcal: 40% de álcool feito de agave, passaporte para confissões e a solução para o Carnaval no Rio. O Lindt é melhor que qualquer chocolate feito por aqui, e sentimos saudades de Nescau. Faltam 43 estudantes no México e nem toda a cor das casas coloniais meio decadentes desvia a atenção das paredes que reivindicam a vida deles, nem todo o alvoroço das piñatas de papel maché impede as manifestações discretas pelas ruazinhas antigas. Cartazes espalhados por todos os cantos anunciam a noite de rabanetes, fogos e foguetes celebram a festa da Virgem, para a qual chegamos atrasados, depois de passar por inúmeras barraquinhas comandadas por zapotecas que vendem todo tipo de artigo religioso cristão. Uma mistura de trajes e longas tranças típicas com cheiro de gordura e cruzes católicas, uma população indígena que come pelas ruas o dia todo. Não se pode nem mesmo chegar perto da entrada da basílica, mal se veem os estandartes que desfilaram pela cidade minutos antes, uma multidão ocupa todo o espaço. Na praça ao lado um grupo de adolescentes ensaia uma dança. 2 dias depois, no jardim etnobotânico, uma dupla ensaia um pas de deux contemporâneo em meio a cactos. “No Brasil as coisas estão na pele, na superfície. No México é tudo na carne.”, diz a mensagem que chega enquanto tentamos entender essa confusão. Pode ser. E ao mesmo tempo, de alguma forma, aqui tudo é mais evidente. “Fue el estado”, dizem as letras apressadas. Desde há muito.

Voamos para o Distrito Federal com as malas mais pesadas. Troco qualquer marca de luxo pelos bordados de Yalalag. Deixo Oaxaca com febre e com uma coleção de vestidos: “Este é o seu traje de boda”, diz a vendedora maravilhosa de uma loja idem que passaria por inverossímil num filme de Almodóvar. Pelo pequeno labirinto do estabelecimento de paredes roxas um sofá está posicionado na entrada, recostada nele uma figura platinada de unhas brancas tão grandes quanto artificiais está descalça e tudo à sua volta está coberto por farelo de pão. Em meio aos trajes há um pequeno altar de flores no chão, uma panela elétrica que guarda um peixe para mais tarde, manequins quebrados, aparelhos de esteira, máquinas de costura, capacetes de bicicletas, bicicletas, jornais velhos, sacos plásticos entulhados de coisas e fotografias, muitas fotografias enquadradas das 3 mulheres que tentam me convencer a levar também uma saia. Jovens, pelo mundo, a cores e em preto e branco. Um dia, talvez, queria ter um lugar fascinante assim, mas com menos sujeira.

Planejamos decorar nossas casas com cactos na volta.

DF é difícil e o Tylenol não resolve nada. Funciono em dias alternados, consigo fazer o roteiro Frida e Diego e desisto definitivamente dos postais. O Zócalo nos deixa a todos mareados, os tacos já não parecem tão atraentes e o Buscopan mexicano é placebo. Entre pavões, mariachis, caveiras e uma quantidade descomunal de gente sinto uma quantidade descomunal de dor. Não tem nada a ver com as nossas impressões do país, mas sim com os dinossauros. Dr. Javier, o médico mexicano, dá soquinhos nas solas dos meus pés e garante que não é apendicite. O ideal seria voltar para a praia ou para o topo daquela montanha de piscinas naturais, aproveitar os últimos dias de idílio azul e água. A gente faz casas mesmo em viagens, e o ideal seria voltar para elas.

O ideal seria que os começos de ano fossem de fato começos, e não continuações mal remendadas de pendências, problemas gástricos e sangramentos indomáveis. O ideal seria que as paixões infundadas fossem como as férias, meio clandestinas para o resto do mundo e com data para terminar. A gente é que nem o México, parece. As coisas do mundo nos perfuram, não ficam mansas na pele, não. Espero a aspirina no calor inclemente do Rio: é uma liberdade ter cortinas em casa e 5 quilos para engordar. 



segunda-feira, agosto 25, 2014

Plateia

Era novembro e eu estava num lugar remoto e molhado na Alemanha quando recebi um email da Paula perguntando quem queria ver uma peça do Bob Wilson na semana seguinte. Àquela altura das férias, com 31 anos de escoliose nas costas, qualquer perspectiva de ficar sentada por mais de uma hora era um alento. Viajar é um elixir da juventude: você anda o que não caminharia uma vida inteira, é capaz de arrastar malas pesadas por estações de trem em língua estrangeira e qualquer incompreensão faz parecer que o mundo é um lugar apaixonante – mesmo que o seu quadril sofra dores semelhantes às de uma agulha repetidamente espetada num boneco de vodu que tenha a sua cara.

Eu vinha de uma apresentação do Nederlands Dans Theater em Haia, num programa irregular belamente encerrado com Gods and dogs, uma coreografia hipnotizante de Jiří Kylián. De lá rumei para Wuppertal, onde em meio a lágrimas irrepresáveis assisti Nelken e Wiesenland, ambas peças de Pina Bausch, a segunda com direito a esbarrão em Dominique Mercy à saída da Opernhaus. Pelos meus cálculos eu só viveria algo próximo disso outra vez se a própria Pina reencarnasse e dançasse Café Müller no Theatro Municipal do Rio. Pelos meus cálculos, portanto, eu estava praticamente liberada do meu papel de plateia pelo tempo que durasse esta vida. Por outro lado, se esta vida melhorava a cada entrada num teatro europeu, a chance de que no penúltimo dia antes de voltar pra casa eu fosse fulminada por alguma coisa não me fez hesitar. E era o Bob Wilson. Em Paris. No Louvre. Com a Paula e mais 2. E sem baldeação no metrô.

Lá fomos nós, então, pirâmide adentro numa noite que prometia mágica, nunca sono. No centro de um palco azul, tomado por cartazes com palavras e pedaços de frases, estava Bob Wilson, de branco, com uma maquiagem carregada que deixava seu rosto tão engessado quanto o ritmo da peça. Sentado a uma mesa ele monologava A lecture on nothing, de John Cage: “More and more I have the feeling that we are getting nowhere. Slowly, as the talk goes on, we are getting nowhere, and that is a pleasure.” O trecho era repetido em looping, em nuances que iam do enfado à exasperação, quando Wilson gritava e despertava risadas nervosas na plateia, possivelmente num reconhecimento de sua própria angústia. Eu mesma procurava o sinal luminoso da saída de emergência, uma que de preferência me levasse diretamente ao encontro de alguém que pudesse me explicar todo o entusiasmo do mundo em torno do diretor, porque naquele momento eu me sentia, sobretudo, burra. Porque se alguém estava achando tudo aquilo chatérrimo, era essa a única explicação possível: burrice crônica.

Mais burra ainda, calculei, quando fiz o caminho até a Barra da Tijuca para ver The old woman, no fim de semana. Eu gosto de dança, pensei, não de toda essa exatidão de luz e sons. Gosto da respiração e dos baques dos corpos, do peso e dos improvisos de quando os pés se desencontram. Gosto dos esbarrões. E ali naquele palco de Bob Wilson, me parecia, nada disso cabia. Mas era o Bob Wilson. No Rio. Na Cidade das Artes. Com o Marcelo e mais quantos? E com o Willem Dafoe e o Baryshnikov.

Lá fomos nós, naquele monumento de concreto e vento, numa noite que prometia tédio, e tudo ia bem com a coluna e o quadril, eu poderia até recusar ficar sentada. Em todos os cantos de um palco que exibia cores desconhecidas, o que vi tinha tudo daquilo que eu já tinha visto: uma precisão desconcertante de luz, palavra, música. Mas era absolutamente outra coisa, apesar de ser quase a mesma. “This is how hunger begins”: uma comédia com tintas de palhaçaria, melancolias e um nonsense pontuado por estalos, gestos marcados e tão sincronizados que é difícil acreditar que Dafoe e Baryshnikov façam outra coisa que não passar o tempo juntos, se aprendendo. Também existe ali a possibilidade de uma narrativa, mas seu roteiro é constantemente torcido, te desviando para lugares opostos - ora incômodos, ora familiares - sempre absurdos.

Como da primeira vez, não falta chatice a The old woman, tampouco histrionice ou repetição. Falas são executadas como um mantra, à saída do teatro decoramos trechos. Em seu Exercises de style, Raymond Queneau escreve a mesma história 108 vezes. É cansativo como as repetições de Wilson, até quando se gosta delas, até quando as escolhas cênicas e inflexões, como as palavras e ritmos de Queneau, transformam o que está sendo dito. É aquela máxima levada à exaustão na prática: haverá tantas histórias para se contar quanto existam leitores para ler, e tantos palcos para desvendar quanto cadeiras numeradas na plateia.

Perseguir Wuppertal é a minha ambição, e não apenas no que ali havia de deslumbramento, mas no que havia de viver uma experiência em que se é tragado para um universo do qual se torna difícil sair. Ainda que fosse insuportável, a Leitura sobre o nada de Wilson me fisgou de forma tão absoluta que ficou marcada. Dificilmente vou esquecer aquela noite, e quando me lembrar ou falar dela sentirei todo o incômodo físico, me contorcerei na cadeira em que estiver sentada, elevarei a voz e farei caretas. Quando conversar com alguém sobre A velha, tudo voltará pro corpo de outra forma: sorriso, mãos que tentam desenhar movimentos de luzes e toda uma mímica do gostar, com uma breve interrupção, talvez até bufe para concluir que, apesar de tudo, tem uma ameaça de de repente tudo se tornar chato de aturar. 

Perseguir essa desmedida das coisas, nem tanto pela perspectiva do aplauso ou do choro, mais por habitar durante algumas horas esse mundo instável e tão vivo, esses mundos efêmeros aos quais queremos nos agarrar. Em alguns casos funciona. E então começa a fome.   


quarta-feira, agosto 06, 2014

Paraty para malogrados - ano 2


Saiu a programação da Flip 2014 e meu primeiro pensamento foi “quem são essas pessoas?”. Meu segundo pensamento foi que eu deveria saber quem eram aquelas pessoas, afinal trabalho numa editora e supõe-se que eu seja bem informada sobre o que acontece à minha volta. Meu terceiro pensamento, então, foi na verdade um levantamento de hipóteses, sendo a primeira delas a de que eu estaria no lugar errado, e nem quero comentar as outras, mas mais ou menos todas levavam a crer que no mínimo eu andaria lendo as coisas erradas. Basicamente, que eu estava perdida. 

Uma vez começada a Flip, meu desbaratinamento só piorou: eu não estava lá quando todo mundo se emocionou com o Marcelo Rubens Paiva na mesa da ditadura, tampouco fui plateia da elogiada mesa de Eduardo Viveiros de Castro e Beto Ricardo. Não vi Fernanda Torres dominar uma das últimas mesas da festa (nem li seu romance, aliás), não testemunhei o primeiro russo a participar do evento e, claro, não entrei na festa da concorrente onde Xico Sá deveria estar causando na pista. Nem no Banana da Terra eu consegui comer, nem um cappuccino no Café Pingado eu consegui beber, e se sentei no Coupé uma noite foi mais por acidente que intenção. O que, então, eu fiz nessa festa, além de discordar de que esta tenha sido a “Flip das Flips”?  Pois bem. 

Frustrei-me com o que mais esperava, como geralmente acontece: entrei na tenda dos autores para assistir à mesa que reunia Davi Kopenawa e Claudia Andujar. (Importante assinalar que pouco tempo antes eu saíra da mesa do Michael Pollan com desejo de moqueca e acabei caindo no conto do “a moqueca fica pronta em meia hora”, ou seja, cheguei ao pavilhão subnutrida.) Paulo Werneck – com pintura indígena no rosto – chama ao palco o líder ianomâmi e a fotógrafa. A fala de ambos é pausada, lenta, e a dele bastante elementar, ingênua, até. Davi Kopenawa quer salvar o seu povo, proteger a floresta e conta com nosso apoio. Entre aplausos, frio, fome e a projeção de imagens sem contraste e distantes demais mesmo para os míopes em dia com seus óculos (o que não é o meu caso), saí da sala antes da conversa terminar, derrotada por constatar como são mundos e tempos completamente diferentes os nossos e os dos índios, e consequentemente pensar como parecem distantes as chances de conciliações das partes, muito mais por intolerância dos não-índios. No dia seguinte, conversando com uma amiga que bravamente não abandonou o barco, falamos justamente dessa pressa maluca que colocamos em tudo, e em como o ritmo devagar do outro cansa por evidenciar em nós a calma que desaprendemos. 

::

Fiz alguns acertos literários (falarei dos acertos turísticos mais à frente), convém dizer, dentre eles acompanhar a participação de Etgar Keret no evento, autor de quem venho falando há cerca de um mês para um grupo de amigos que já nem deve me aguentar mais. O israelense subiu ao palco de bermuda, andando com os pés en dehors e uma aura meio estropiada de bailarino contemporâneo que acabou de sair de um ensaio. Dividiu a mesa com o mexicano Juan Villoro, apenas um pouco menos impecável que Ángel Gurría-Quintana, o mediador. Incentivados por este a falarem de seus pais, Villoro contou uma boa história sobre a taqueria marxista que seu pai abriu e que faliu em tempo recorde. Keret emendou com uma narrativa que poderia ser um de seus contos hilários e absurdos. Sobrevivente do holocausto, seu pai resolveu que viveria várias vidas, e para isso mudava de profissão a cada X anos. Em alguns ofícios era ótimo e a família fazia viagens internacionais; em outras ocupações era péssimo e mal tinham dinheiro para comprar sapatos, o que fazia o pequeno Keret perguntar “pai, estamos pobres agora?”. Keret é seu texto, parece. Falou, também, do humor como forma de protesto contra a realidade, e de como ele funciona como uma espécie de pano que é o que te permite tocar algo muito quente, como uma panela. Gosto dessa imagem e converso sobre ela mais tarde com Luciana, na casa Rocco. 

:: 
 
A casa da editora é uma das muitas belezas do Centro Histórico, situada bem pertinho ali daquela confusão da rua do Comércio, o Champs-Elysées local. É ampla, tem um mezanino de madeira onde habita uma cama de outros tempos, tem bancos compridos que acolhem, tem um jardim interno com plantas e janela para a cozinha. Principalmente, tem um espaço de encontro com Luciana, Diana e Florencia, para citar apenas 3 autores da casa com quem troco e-mails há meses. É uma alegria dar corpo às pessoas, e é curioso o vínculo que se cria com alguém em cujo livro você mexeu. Há um afeto e uma cumplicidade espontâneos e é como se o processo de edição virasse entre nós um segredo, uma história que tecemos juntas e que se torna especial, como se essas coisas que compartilhamos longe dos olhos do público fossem uma preciosidade. É bom ter um ponto de encontro e de respiro nessa margem direita tão tumultuada. E é sempre sol quando vejo R. barriguda, microfone na mão apresentando ao público escritores e livros que ela mesma ajudou a parir. 

::

É igualmente bom encontrar Antonio e José na Rive Gauche paratiense – e arrancar uma risada do Gregorio Duvivier ao denominar assim as coisas – a caminho do que chamamos Saint-Germain, vindo do que chamamos de Pigalle, certos de que terminaremos o dia no que chamamos de Marais. 

E não é só com eles que rio, ao contrário: Antonio Prata está no mundo para potencializar nossa endorfina e rio duplamente, uma vez na casa do IMS onde ele fala sobre Campos de Carvalho, e outra vez na mesa que divide com o paquistanês Mohsin Hamid. No IMS, Antonio fala da decepção de entrar na casa de Campos de Carvalho – “uma empresa de demolição” – e dar de cara com um tapete de peixinho no banheiro, uma entre outras mediocridades da decoração. Na mesa da programação principal ele provoca gargalhadas descontroladas na plateia pela menção que faz a uma crônica de 2008. Antonio é seu texto também, parece: ágil, cheio de tiradas e tão fluido, tão natural, faz parecer que alguma coisa pode ser fácil e ótima. 
 
No IMS, painéis com diversas frases de Millôr causam alegria e likes no instagram. A minha preferida, contudo, é ouvida na mesa bônus, que reúne Mathieu Lindon e Silviano Santiago: “Esnobar é pedir café fervendo e deixar esfriar.” É um pouco o que eles fazem, talvez, especialmente o francês. Pense: Foucault emprestava o apartamento ao amigo para experiências com LSD e ópio, nos anos 1970, na rue de Vaugirard, na Rive Gauche – essa sim - parisiense. Em seu O que amar quer dizer ele conta da amizade com o filósofo, e na mesa diz do privilégio de ter vivido esse encontro. Supomos que sim, mas Lindon é vago, rodeia o assunto e escapa de nos revelar tudo o que gostaríamos de saber. Silviano é medroso, ele mesmo confessa, mas tem algo ali que o deixa mais desarmado, e o que diz do trecho de Montaigne que deu título à mesa (“Se me obrigassem a dizer porque o amava, sinto que a minha única resposta seria: porque era ele, porque era eu.”) é tão bonito que já não anoto mais nada no caderno, fico pensando nessas amizades decisivas. 

:: 

Um carneiro de para-quedas – é o que Lev, de 9 anos, pede ao pai para desenhar na minha dedicatória, e quando termina, Etgar Keret rouba a minha caneta. O menino come a mesma massa que eu no jantar e diz “thank you” quando eu o ajudo a arrastar sua cadeira para trás. Ele tem os mesmos olhos da mãe, que é uma dessas figuras fascinantes com um rosto poderoso do qual quase não consigo desviar. Nos despedimos com a perspectiva de mar, e antes que o domingo chegue tento entender a conversa entre dois jornalistas – Graciela, a argentina que fala loucamente, e David Carr, o colunista do NY Times que parece um astro do rock pós-rehab. Já não entendo mais nada, a cidade ferve de gente, decidimos jantar pela segunda vez no mesmo dia, e o domingo já vem.  

:: 

Glaucimara, a traineira com almofadas em forma de coração, nos leva para uma prainha pequenina, um mar da cor dos olhos de Lev e uma mansidão quase ianomâmi, não fosse o horário de voltar. L. e eu falamos abobrinhas, praticamos nossa imitação de tradução simultânea, nadamos até a areia e planejamos comprar cachaça mais tarde, almoçar crepe, viajar para o México em dezembro. É um bom encontro, eu penso, no sentido spinoziano, mesmo que eu não tenha credencial para fazer citações. Em retrospecto, concluo, são bons os outros também, mesmo a fuga. São pedaços de uma história, e organizar as anotações e papeis que estufam a bolsa é procurar o meu texto, procurar um lugar possível em meio à balbúrdia de tudo que Paraty se tornou. 
Num próximo ano, talvez, apostar em tudo o que for completamente estranho, tudo o que parecer meio perdido, como eu. Comprar mais um colar de índio. Certamente navegar. 




quarta-feira, janeiro 08, 2014

Chuva, Wuppertal, elefantes e outras obs.

Os elefantes, de acordo com os estudiosos do assunto, são criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas.
Clarice Lispector in A legião estrangeira

“Julia, quando fui pra lá vi uma placa de boas-vindas indicando que a cidade tinha 3 McDonald’s. É menos do que existe no Barra Shopping!” – com esse argumento, e não que fosse a primeira tentativa de persuasão, Lucas me impediu de confirmar minha reserva de 5 dias no hotel Ibis de Wuppertal, cidade alemã que não figura em guias de viagem. Tente o Fodor’s, o Lonely Planet, o Guia Visual da Folha ou qualquer outra publicação da seção de turismo: Wuppertal não está lá.

Tente a Wikipedia brasileira e você vai descobrir 3 filhos ilustres de Wuppertal: a aspirina, Engels e o Hans Donner. Se o braço nacional da enciclopédia precisa de 31 linhas para descrever o cenário, a Wikipedia de língua inglesa revela-se bem mais prolixa: 49 linhas e 34 colunáveis. Ambos os endereços jogam luz sobre o Schwebebahn, o monotrilho (ou monorail) que há 110 anos transporta os habitantes, os visitantes e, eventualmente, um elefante pela cidade de Wuppertal. Tente o site oficial da municipalidade: há um relato insólito que narra a curta viagem de Tuffi, garota-propaganda do circo Althoff, no trem suspenso. Pouco após ser colocada em um dos vagões, a filhote de elefante saltou para a liberdade e para a fama mundial entre aqueles que se deparam com Wuppertal em seus caminhos.

Ainda que Wuppertal já ostente 9 McDonald’s, segui os conselhos do Lucas e reservei um quarto em Colônia: a previsão era de trens, chuva e duas peças da Tanztheater de Wuppertal, companhia de dança que durante quase 40 anos esteve sob a direção de Pina Bausch e que justifica o itinerário que eu nunca pensara em escolher para as minhas férias.

Tudo começou bem antes, quando me sentei na poltrona 33, fila H, balcão nobre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Era 7 de abril de 2011: as cortinas abertas revelavam um rabo de baleia à direita do palco, o público tomava seus assentos, eu enrolava e desenrolava meu ingresso nos dedos enquanto esperava os primeiros movimentos de Ten Chi, peça de 2004 fruto de uma residência da companhia no Japão. Até o final da performance cerca de 3 horas teriam sido transcorridas; 8 pessoas teriam aproveitado o intervalo para abandonar seus lugares na fila G à minha frente; uma torrente de neve – ou flores de cerejeira – teria forrado de branco o palco do Municipal, encobrindo bailarinos, vestidos e cabelos, estes adquirindo vida própria e executando uma coreografia paralela àquela dos corpos em cena.

Saí do Theatro num choro tão físico, de soluços e arquejos, segurando-me pelo corrimão escada abaixo: Ten Chi penetra os alicerces do corpo, alterando principalmente as capacidades musculares e gástricas. Tivesse uma epígrafe, a do meu pranto seria aquela de Barthes que diz que “a leitura seria o lugar onde a estrutura se descontrola”.

Esse descontrole: uma invasão de afetos não catalogados; gatilho de lágrimas e de uma paralisia momentânea; o choque de reconhecer no corpo alguma coisa tão primária e ao mesmo tempo tão complicada de dimensionar; motor de ideias e de gestos que substituem a fala quando você tenta, inutilmente, explicar para alguém -  braços e mãos que se dobram e se projetam da direção do abdome para a frente, como se pudessem tirar do estômago alguma tradução diante dessa dança. Esse descontrole: convém persegui-lo.

E ele está ali, 3 de novembro de 2013, 10 euros de taxi da Hauptbahnhof até a Opernhaus de Wuppertal, nos meus olhos que se inundam quando reconheço Lutz Förster no foyer do teatro, na minha boca que não fecha ao olhar os pôsteres espalhados pelas paredes, no meu riso que escapa quando vislumbro o tapete de cravos cor de rosa que cobre o palco, nos primeiros acordes de uma versão da década de 1920 de The man I love com aquele homem de terno sozinho no meio das flores fazendo sua linguagem de sinais, nos meus pés ritmados e o cantarolar baixinho das Pastorinhas que eu não esperava na trilha, na minha tentativa frustrada de roubar um cravo pisoteado do cenário quando Nelken se encerra e as pessoas já deixam a plateia.

E também: 5 dias depois, 8 de novembro, no palco uma espécie de gramado vertical ou um pedaço de um penhasco – uma parede de superfície irregular coberta de folhagens e plantas -, do verde cai uma goteira ininterrupta, como se poucas horas antes tivesse chovido uma tempestade e nós víssemos, então, o depois: cheios de vontade de abrir a boca e beber da água que escorre, como fazíamos quando éramos crianças.

Uma das bailarinas, usando camisola fina e branca, caminha em direção ao fundo da cena. Agachada próxima ao penhasco, ela se banha com a ajuda de um balde e fica ali numa calma inabalável, indiferente à entrada de uma música e de um bailarino. Ele veste calça e camisa social, entra correndo no palco e em algum ponto tenho a impressão de que desliza seus pés descalços pelo chão até frear e iniciar uma sequência de movimentos: o corpo todo participa e os braços constantemente se voltam para os céus, assim como a cabeça, e tudo parece sair bem do meio do seu tronco para as extremidades, como se lançasse raios de si mesmo ao redor. Ele se reveza com outros bailarinos que se alternam nessa sequência de corrida, deslize, freio: braços e cabeças para além (quando entrarem para os agradecimentos vou perceber que eles são muito menores do que parecem) e há uma urgência nessa escala – o palco não pode ficar sozinho, nós, sentados ali na frente, não podemos e não queremos ficar sozinhos, e de repente os homens entram e saem velozes, enchendo a cena em contraste com ela: lenta, brincando com seus cabelos, roupa agarrada na pele.

Eles dançam e dançam e dançam enquanto ela se encharca e nem percebo quando ou como desaparece. Tudo isso acontece embalado por uma música que fala de Angola e que cantarei ininterruptamente na minha cabeça nos dias seguintes, e tudo isso perfura coisas em mim, órgãos em mim, e à saída do teatro meu guarda-chuva esbarra no de Dominique Mercy e no trem para Colônia eu nunca mais quero esquecer esses dias, nunca mais quero apaziguar esse corpo. Quero conservar esse desejo, preservar vaga-lumes, saborear o meu devir-bailarino. Quero que esse trajeto dure tanto.

::

Escreva sobre suas vivências em Wuppertal, me aconselharam. Mas como dizer? Como contar de elefantes que se aventuram por entre as janelas de um trem suspenso? E de bailarinos que se lançam numa reinvenção de seus corpos e de si mesmos, e de nós mesmos – um só existindo às custas do outro, todos bambos à procura de um eixo quando os aplausos cessam? Como escrever sobre o que se passa nessa cidade insólita que nem sequer existe?

No prólogo de seu Movimento total, José Gil traz uma fala de Merce Cunningham que é um alento às minhas perguntas e, possivelmente, às inquietações de Tuffi*: “Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”

Agradecimento final em Nelken, Ein Stück von Pina Bausch - Wuppertal, 3 de novembro de 2013.


* De acordo com o site oficial da cidade de Wuppertal, o salto de Tuffi lhe rendeu um bumbum machucado. 

segunda-feira, agosto 05, 2013

1923

A minha avó, naquela manhã, mais parecia uma estrela de cinema ou uma imagem sagrada, dessas que todos querem tocar e adorar. A cabeça branca da minha avó – cor de neve brilhante, anos de xampu especial – se via de longe rodeada por outros cabelos, muitos adornados de brilhos e flores de domingo. A minha avó, naquela manhã, recebeu cumprimentos, apertos de mão, abraços e exclamações que saíam pelas mãos e pelos sorrisos de todos que foram parabeniza-la pelos seus 90 anos.

A minha avó, naquela manhã, desceu do carro em frente à estação ferroviária de Nilópolis, subiu as escadas da igreja apoiando-se no corrimão – que ela julga indispensável – e sentou-se no terceiro ou quarto banco do lado esquerdo. Recebeu as saudações do Frei José – que há uns 40 anos atrás casou uma das minhas tias, e que há uns 30 anos atrás me batizou, e que já fez outras bênçãos para a família – e acompanhou uma missa repleta de crianças, cantos, palmas e gestos, aqui e ali, que interpretavam algumas das canções. Minha avó subiu ao altar ao término do culto e leu, encabulada, palavras sobre as graças de se fazer aniversário. Minha avó rezou, levou uma salva de palmas e à saída comeu um pastel de queijo típico de feira, iguaria disputadíssima pelos fieis dali.

A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição recebeu a minha avó com tanto carinho que quase que ela teve que sair fugida, pois cada um que ia cumprimentá-la queria também falar com as filhas e a neta a tiracolo. A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, naquela manhã em que a minha avó parecia uma estrela, me deu a exata noção da ideia de comunidade, e uma inveja tão grande do subúrbio que, no caminho de volta, olhei praquelas casinhas imaginando a minha avó por ali, comendo bolos e gostosuras de uma vizinhança que jamais a deixaria voltar pro Leblon – e nem suas filhas e neta a tiracolo.

A gente vai passando pelas pessoas no dia a dia, e aquela gente dali vai parando pelas pessoas, numa tônica tão distante da nossa, e tão mais lógica. A minha avó, de fato, é uma estrela, e o subúrbio desperta mesmo uma ternura, porque é justamente o que emana. E suas filhas e neta a tiracolo, que sorte, provaram desse espelho, lugar que é contra a assepsia dos afetos.

Na volta pra casa eu fui pensando em alguns poucos sambas que sei cantarolar, e em como muitos deles nasceram desse sentimento de pertencimento, de uma relação com o seu lugar. Velhas rixas que compuseram hinos declaratórios a diversos berços, ou apenas odes a seus morros e feitiços. Tem alguma coisa nisso que eu queria pra mim. Eu não sei a minha avó mas eu, quando cheguei em casa, nem tomei banho e passei aquele dia sem lavar as mãos, querendo guardar um pouco mais, com um cd do Noel Rosa no som. Desconfio de que ela tenha feito o mesmo. 



segunda-feira, setembro 10, 2012

Sei que nada será como antes, amanhã*


Não sei como soube da existência de Inhotim, mas lembro de um dia, num bar com amigos, ouvir um deles contar que uma amiga recém-chegada de lá tinha definido o lugar como a Disney das artes. Também não sei se ela foi a curadora do termo, que apareceu depois em diversas reportagens e virou lugar-comum para descrever o instituto. 

Quando fui a Inhotim pela primeira vez, no carnaval de 2010, constatei a pertinência do adjetivo. Quando fui a Inhotim pela segunda vez, na Independência em 2012, constatei como a expressão havia extrapolado a conotação inicial e tinha virado outra coisa. E entendi como virar uma saudosista nesse intervalo de 2 anos. 

Previously, Inhotim era a Disney porque aquele lugar parecia não existir: uma terra de 400 hectares numa cidade do interior de Minas Gerais, sítio de um milionário da mineração, amigo de Burle Marx, que decidiu construir galerias para abrigar sua coleção de arte contemporânea, e que decidiu abrir seus portões à visitação. Era a Disney porque os pavilhões e galerias eram fruto de sonho, funcionavam à perfeição, eram limpos e cheios de funcionários simpáticos (em Minas isso não é de se espantar), e porque a experiência era sensorial, calma, em momentos até bucólica. Estar em Inhotim era renegociar sua relação com o tempo. Era tirar os tênis, caminhar sem quase cruzar com outras pessoas. Era, também, derramar lágrimas ao entrar em contato com instalações e obras que fogem à compreensão total, deixar de lado o condicionamento de ter que entender e dar conta de tudo, quase como desaprender racionalidade. Inhotim era um vazamento: um ter que administrar sua própria sensibilidade. Sentar na grama, olhar por outro ângulo, tentar ver ilimitado. Como dizem na Academia: ser atravessado por afetos. 

Passados 2 anos, Brumadinho me revelou a Disney sob outros aspectos. Alguma coisa se democratizou, mas não necessariamente a arte. 

O crowd na porta anunciava uma experiência muito diferente da que tive pela primeira vez. Inhotim 2012, usando emprestada uma expressão pejorativa, está infestado de haoles. Filas para a comida, para o banheiro, para a entrada, para os carrinhos que nos transportam aos pontos mais distantes, fila até para os bancos de madeira, para uma ou duas galerias, para fotos no caleidoscópio de Olafur Eliasson, que ganhou ares de entretenimento. A Disney dessa vez se operou nessa vertente: diversão. O que mais ouvi foram comentários irônicos e até debochados a respeito das obras expostas em Inhotim, coisas na linha do “mas isso até eu faria”. Outras falas demonstravam a completa incompreensão diante de trabalhos que parecem mesmo incompreensíveis. Vi guerra de almofadas dentro das Cosmococas de Hélio Oiticica, redutos de famílias inteiras que de certa maneira subverteram toda a lógica daqueles ambientes. Crianças nadando na piscina de abecedário, restaurantes lotados de grupos de amigos, poses e mais poses para fotografias dos belos cantinhos dos jardins, brincadeiras, lanches, instagrams e outras tantas posturas que indicavam que boa parte dos visitantes não estava tendo epifania alguma, tampouco se preocupava com conceitos, ideologias, intenções ou discursos artísticos. A Disney, para eles, é feita dessa alegria descompromissada, de um bonito dia de sol, de achar graça das coisas, e a outra Disney, de certa forma, diminui frente a esta, bem mais barulhenta e caótica, e que acaba se impondo aqui e ali.

Então fico nessa encruzilhada: de um jeito ou de outro, todos estão expostos à arte. Conversando com uma amiga à saída do instituto, caímos naquele papo cheio de crença nesses encontros: "Ainda que inconscientemente, Inhotim forma um público, a arte ganha adeptos e é melhor pra todo mundo." A gente que mergulha nesse universo tende a achar que é melhor pra todo mundo, porque às vezes o que parece não fazer sentido é indiferença, ou ficar longe de toda essa produção, não querer entender o processo, passar batido por cores e sons, ignorando toda e qualquer possibilidade de redenção. Mas a impressão que dá é que aquele também virou um lugar de lazer, de passeios, de paisagens. Não é pecado nenhum, é só outra coisa, e eu mesma me peguei nadando e rindo numa piscina que, cá pra nós, ninguém me convence de que seja algo mais que uma piscina. 

Não deixa de ser elitista ou preconceituoso achar que meu jeito de viver Inhotim é melhor do que essa nova Disney. Não deixa de ser romântico achar que todo mundo deveria sentir o que senti quando, neste sete de setembro, passei meia hora na galeria Miguel Rio Branco, ou quando voltei ao galpão Cardiff & Miller pela terceira vez, e tudo aquilo veio à garganta de novo. Se todo clichê fosse permitido, diria que é mágico, porque é se esquecer de si mesmo um pouco. 

Inhotim, para mim, é esse estado de suspensão. É cenário onírico, quase utopia. Um súbito gostar de patos.



obs. didática: fui muito feliz em Inhotim ambas as vezes. Mas para pessoas irritadiças como eu, recomendo evitar feriados. 


* Nada será como antes, Milton Nascimento.

 

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Cotton journal


Há um tratado velado que se impõe a todo visitante que chega a Algodões e que se deduz depois do terceiro atoleiro à direita da estrada. O que aprende o visitante, depois das primeiras vistas que se tem da praia e da maré baixa, é que qualquer divulgação do nome do local deve ser evitada, a fim de que não despontem por lá turistas e/ou pessoas indesejadas com suas máquinas de cartão Cielo, sapatos fechados e conversas de asfalto. Sobretudo, evitar a todo custo que substituam os atoleiros, que são os verdadeiros guardiões de tal paraíso, por estrada pavimentada, sinalizada, iluminada e, por consequência, propulsora de uma invasão de gente que poderia, do dia pra noite, transformar qualquer idílio perdido em Itacaré.

Em Algodões, deve-se abandonar relógios, apertos e desconfortos de qualquer espécie, que o lugar não foi feito para vaidades, preocupações, horários, pressa, noticiários, jornais, cenhos franzidos, contas e nem qualquer tipo de contato com um mundo que não seja formado por quilômetros de areias onde ainda se veem tatuís, lagartos, siris e pegadas de tamanhos e escalas variados. Eventualmente, olhar para o chão, a fim de evitar encontrões de dedões com cocos. Não tomar tal precaução, contudo, à noite, onde só se deve ter olhos para o céu, pouco importando os apelos de chamegos, beijos, carícias ou massagem de quem estiver ao seu lado.

Logo você perceberá que o céu de Algodões é a recompensa natural e mais lógica que se poderia esperar de um lugar onde há mais: coqueiros que gente, silêncio que barulho, luz que nuvens, canto de pássaro que carregador de ipod.

A dieta ideal que se adota em Algodões envolve muito camarão, muqueca de todos os tipos, uma farinha fininha que cai bem com qualquer peixe, legumes para temperar, pimenta para os fortes, carne do sol, aipim e um drink gelado cheio de raspas e mel de cacau. Na falta do tal mel, a mistura de qualquer outra fruta com cachaça, gelo e açúcar, compensa. Ou cerveja. Estão banidos refrigerantes, mate e/ou genéricos engarrafados/enlatados tais como ice-tea, H2O ou bebidas cheias de aditivos e que podem ser facilmente encontradas em quaisquer esquinas das cidades grandes. Os mais ousados podem se aventurar na degustação de guaiamuns, dando pequenas marretadas na casca do bicho para extrair dele a carne. Os pacifistas preferem as opções citadas anteriormente neste mesmo parágrafo. Água de coco deve ser ingerida a qualquer momento.

A propósito do mar de Algodões, deve-se fazer uso dele irrestritamente. Aconselha-se boiar nas piscininhas naturais à tarde. Os mais inquietos (se bem que não há quem não se entregue à pasmaceira local, convicto de que deveria ter sucumbido ao ritmo da rede muito antes) podem dispor de acessórios para desbravar a água transparente de outras formas. Estão ao alcance da mão: caiaques, pranchas, jangadas, canoas, bóias, máscaras de mergulho, pés de pato e, na falta de um desses, um colchão de ar do tipo usado em acampamentos, pode abrigar uma família toda e fazer deslizar em marolas e espumas em direção à areia, próximo item a ser abordado.

A areia de Algodões está preparada para receber tênis de corrida ou caminhada, bolas de fisioterapia, posturas de yoga, motos, bicicletas, altinha, futebol, vôlei, castelos, buracos que terminam no Japão, partidas de gamão e/ou buraco ou apenas uma canga (toalha, esteira ou nenhuma das opções) estendida onde o visitante poderá se deitar, sentar, dormir etc.

Não espere encontrar em Algodões: farmácias, mercadinhos, padaria, telefone fixo, sinal de telefone móvel (salvo uma operadora), caixa eletrônico, banco, lava-jato, posto de gasolina, comércio, multidão, muvuca. Algumas surpresas podem leva-lo a dar de encontro a um bloco de carnaval (formado por aproximadamente 10 pessoas, das quais um boneco de Olinda, 5 instrumentistas e 4 foliões), que corresponde a aproximadamente 10% da densidade demográfica do local. Chegada a terça-feira gorda, os componentes do cortejo terão ido embora, baixando ainda mais a possibilidade de crowd em um dos 3 bares locais. Deve-se aproveitar a temporada em Algodões para esquecer: de pierrots e colombinas, de todo elemento que remeta à vida urbana, de calçados que não sejam chinelos, do twitter, da lista de mais vendidos do NY Times, do mundo.

Sobre a bagagem, é preciso carregar para Algodões: biquíni, maiô, sunga e similares; chapéu; proteção UVA; colírio para olhos sensíveis ao sal; b-pantol para lábios com tendência a rachar depois de dois dias no mar; apetrechos adjacentes já antes mencionados (i.e. canga, raquetes de frescobol, peteca); cremes restauradores para cabelos com tendência a morrer depois de três dias de praia; câmera fotográfica para os desmemoriados de visões inesquecíveis.

Diz-se dos visitantes que uma vez ali aportam que alguns perdem seus voos de volta, que outros compram lotes de terra e não constroem nada (querem apenas que outros não construam também, evitando assim a possibilidade da propagação de Itacarés pelo mundo), que um ou outro se casa com um local e que qualquer um aprende a ser solitário. Os que retornam para suas cidades de origem passam semanas prostrados, melancólicos e com os celulares foras da área de cobertura, até comprarem novamente as passagens que os podem levar de volta para esse pedaço de paraíso. Desta feita, são tragados aos poucos pela rotina e pelo contato social com gente que não compreende a esfera do local de nome impublicável que seus afortunados amigos deixaram pra trás, lugar encalacrado entre uma extensão extensa de coqueiros e quilômetros de estrada de terra esburacada capaz de dar hérnia de disco e de fazer desistir de chegar o turista/viajante que procura resorts, ar-condicionado e lula à dorê.

Diz-se, também, que depois de conhecer tal pecado, que o visitante pode adquirir um sotaque temporário, um bronzeado que pode acarretar inveja e o hábito de dormir 10 hora por noite. Tudo isso é passageiro, assim como as férias, o carnaval e todo feriado que possa ser revertido numa temporada em Algodões. Por fim, conclui-se que só deve ser conhecedor do nome e das maravilhas de tal destino aquele que for merecedor do maior presente que se pode dar: uma imersão num tempo que não se mede como o conhecemos, um desligamento do excesso de coisas, a imensidão do conceito que é não fazer nada.

Do contrário, é excesso de bagagem, ruído, frescuras e um sem número de praias, pousadas e resorts esperando você, com conexão pra todas as coisas das quais deveríamos nos livrar.

No próximo intervalo, estarei em Algodões. O resto do mundo, tanto faz.

sábado, maio 07, 2011

Ticket to ride


Jamie Lidell não cantou minha música preferida no show de sexta-feira, o que pode estar diretamente ligado  ao fato de eu ter perdido o voo para Berlin hoje. Coisas aparentemente desconexas podem ser intimamente relacionadas quando eu sou a pessoa por trás da teoria. 

Tento me acalmar enquanto decido se chá é bom, ou só água quente. Parto para a cerveja minutos depois e meus lábios incham e fico rosa e coçando e alien. Aposto que é reação alérgica a um dos novos cremes da dermatologista. Edito a nécessaire e acrescento Polaramine na bolsinha de remédios. Há que se ter disciplina e ócio pra cumprir o roteiro da Dra. Luisa, que subiu para o topo da lista de pessoas que eu espancaria hoje. 

Choro e auto-xingamento, é o que se pode ter em dias como esse, além de uma saudade eterna de acentos ortográficos que nem eu mesma vivi.

Mas triste mesmo eu fiquei quando soube que o porteiro da noite, protagonista dos momentos áureos deste blog, quem diria, pediu demissão... 




terça-feira, março 22, 2011

Broadway

Fiz minhas malas de novo, peguei um trem pra longe e entre hambúrgueres e sopas de tomate resolvi ir além. Trem, pontes e marrecos pelo caminho, lagos que pareciam cercados de trigos, não tinha sequer como fotografar. Subi um caminho que poderia ser uma pintura do Hopper, vi tanto espaço e luz que dancei por entre riscos e cores. Tudo ali pode parar o tempo, e é pra esses lugares que sempre quero voltar: um castelo do século XVIII, uma praia onde se criam tartarugas, um jardim cheio de esculturas, a tela de um pintor. Virei a barra da minha calça jeans, cruzei as pernas, mas a pose funcionaria melhor se fosse você. Entendi que não se pode listar quadros que nos fazem nascer de novo, tampouco contar os blocos que nos separam de uma foto inesquecível. Qualquer cidade nova me faz andar. It might just be fantastic, don’t get me wrong*. Enchi a cara e ainda sinto os efeitos: ando alcoólatra esses dias, tomando apple martinis imaginários que me reviram o estômago como você faria, se pudesse. Guardei tickets, ingressos e ainda algumas poucas atrações para poder voltar, além de uma folha seca pra minha coleção. Apertei tanto os amigos que juntos explodimos e combinamos um dia, talvez, voltarmos a viver na mesma cidade. Combinamos também dias num barco, com sol. Não encontrei vazios ou buracos no skyline, não me escondi do vento, não economizei nos vestidos. Cruzei com tantas pessoas interessantes, teria feito tantos retratos quanto pudessem os negativos, mas depois do segundo dia perdi o foco. Fiz um novo álbum de viagem e voltei pra casa sem nenhum caderno a mais na bolsa. Eu soube ouvir e conversar sobre todas as coisas sem qualquer tropeço. Eu coube com perfeição entre você e as almofadas do teu sofá, e combinei de namorar o Daniel. Eu fiquei meia hora parada em frente a um Klimt e não vou saber explicar. Sempre chego inteira nos destinos e saio deixando pra trás alguma coisa. Dessa vez eu diria que foram as pernas, mas ainda não inventariei meus órgãos vitais pra ter certeza de que estão todos aqui. No trem de volta batia um sol no rosto e o ipod adivinhava tudo. De repente era possível ser estupidamente feliz. Será que se a gente tivesse mais das coisas, conseguiria saciar a saudade delas?



* Pretenders in Don't get me wrong.

sábado, dezembro 25, 2010

Neve, Paris, Rue de Rennes e outras obs.




(voume 1 aqui)

À frente dos ônibus e sob olhares incrédulos, abandonamos o barco. Não hasteamos bandeira, mas a ocasião era épica o suficiente. Tomás, Lilia, Jerome e eu agora só podíamos contar uns com os outros. Não tínhamos mais qualquer apoio ou informação dos funcionários da Air France, o que, a bem da verdade, não fazia qualquer diferença nesse momento.

Uma vez traçado o plano, nos apresentamos formalmente. Eu não descobri tanto da minha pequena infantaria quanto do surfista húngaro que mora na Tijuca. De fato, pouco ficou de cada um: Jerome é um francês de Fontainebleau que casou-se com uma brasileira. Chegou ao Rio em 1997, abriu um escritório de design, divorciou-se, casou-se de novo e agora já contabiliza 10 funcionários em seu negócio. Gosta de aipim, mora em Botafogo e usa o metrô para o trabalho. Tem cabelo liso e castanho, mas não o reconheceria nem mesmo se ele estivesse exposto numa vitrine do Louvre. Tomás tem 24 anos, sua mãe é psicóloga e aparentemente me conhece pois teceu comentários a meu respeito ainda no aeroporto do Rio, sua mãe certamente foi casada com um francês, com quem teve Tomás e que nos avisou sobre a possibilidade das estradas estarem caóticas. Tomás passou um perrengue de ônibus na Colômbia, este é o adendo mais pessoal que posso informar a respeito do líder. Lilia ainda é um mistério: seu marido passa uma temporada em Paris a trabalho, mais precisamente em La Défense. Lilia não fala francês. Aprendeu Espanhol durante uma temporada em que o marido passou em Buenos Aires, a trabalho. Depois de Paris, Lilia vai encarar a Austrália. Além de andante, Lilia é baixinha e vestia preto da cabeça aos pés, e não arrisco mais palpites.

Não, essas coisas todas não foram ditas na apresentação. Foram descobertas ao longo do caminho que nos levou à gare de Nantes, onde também descobrimos coisas sobre um norueguês que mora no Rio há 13 anos e que ainda não tinha entrado na quadrilha. Ele foi nosso quinto elemento no trajeto de ônibus. Nos contou sobre seu barco, sobre sua mulher brasileira, sobre a Petrobras e o Pré-Sal. Eu não teria tanta criatividade pra imaginar um diálogo sobre o Pré-Sal em Nantes com um norueguês. O surfista húngaro que mora na Tijuca já havia contribuído de forma significativa pro inusitado da história.

Nos despedimos do norueguês ao avistarmos a Gare. Em menos de cinco minutos possuíamos bilhetes de um TGV que nos levaria à Gare de Montparnasse, em Paris. A essa altura eu já sabia que o Charles de Gaulle e Heathrow continuavam fechados, e acreditava que tudo se resolveria uma vez que: eu chegasse a Montparnasse, pegasse um taxi, adentrasse o 83 da Rue de Rennes, tomasse um banho, gargalhasse por uma noite e no dia seguinte entrasse no Eurostar com destino a London London, a Camden, a Kensington e à Guinness. Bollocks. O Eurostar não funcionava há dois dias.

Eu fiquei pensando se as pessoas que moram na Sibéria enfrentam esse tipo de coisa. Será que elas estocam provisões e não saem de casa até que passe o inverno? E em Moscow? E em Seattle? E em todo o resto do mundo onde a neve cai em dezembro? Será que essas pessoas tem uma Nantes para chamarem de suas? “Desolée” fazia sentido e me descrevia com exatidão.

Nos separamos no trem, somente Jerome e eu ficamos no mesmo carro, o que explica o fato de eu saber mais coisas a respeito da vida dele. Mas a conversa não foi pra frente: Jerome disse que eu parecia a filha do Chico Buarque e eu achei melhor fingir que estava dormindo. Nos meus sonhos, Tomás, Lilia, Jerome e eu nos abraçávamos emocionados ao chegar à Gare Montparnasse, trocávamos e-mails e promessas de um bom croissant matinal na Rive Gauche e nunca mais nos víamos, na melhor das hipóteses nos adicionávamos no Facebook. Bollocks de novo.

Um trem nunca foi tão revolucionário quanto naquele momento: em duas horas e meia estávamos em Paris. Em Montparnasse. Em duas horas e quarenta e cinco minutos eu estava no 83 da Rue de Rennes. Em três horas e meia eu estava na H&M da Rue de Rennes. 5 dias depois, eu continuo na Rue de Rennes. Chegar a Londres mostrou-se inviável, primeiro por causa do aeroporto, segundo por causa do Eurostar, terceiro por incompatibilidade de agendas. Foto segurando a Tour Eiffel em Trocadéro também se provou complicado.

Eu ando por aqui entrando em cafés a cada quarteirão, não porque procuro discos voadores, a Lilia ou o surfista húngaro que mora na Tijuca. Cada pausa nos cafés é pra que as mãos voltem a funcionar. Neva em Paris. Os telhados e carros estão cobertos por camadas brancas de gelo. Os jardins do Palais Royal continuam em obra, já faz mais de um ano e meio. O metrô continua cheio, fétido e assustador, porém apaixonante. Paris deve ser um deslumbre até cinza, infelizmente não disponho de habilidade pra tirar os dedos de dentro da luva e bater fotos ao mesmo tempo que seguro guarda-chuva e acerto o foco, tampouco disponho de coragem pra flanar pelas ruas, desde que cheguei aqui ainda não vi o Sena. Substituí a Guinness por vinho, Kensington pela Rive Gauche, só Camden ainda não parece resolvido. Cissa parece um pouco inconformada. Eu também.

No fim das contas, na manhã de Natal, o sol apareceu. Apresso o fim desse capítulo para correr até a margem, tirar boina, cachecol, luvas e acionar o timer da câmera. É a quinta vez que estou aqui e não tenho sequer uma foto com a Notre Dame ao fundo. Tem uma música também do Morrissey que não me sai da cabeça: I’m throwing my arms around Paris. C’est La vie!

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Neve, Nantes, o surfista hungaro e outras obs


À minha frente a pequena tela da TV individual oferecida pela Air France exibia o itinerário do vôo, a temperatura externa, a previsão de chegada ao destino, o restante a ser percorrido: 45 minutos. Todos nós, ligeiramente amassados, nos inquietamos um pouco em nossas insuficientes cadeiras da classe econômica. Meu vizinho, que passara o vôo todo dormindo sem nem sequer levantar para fazer xixi, pareceu despertar com a ansiedade de pousar em Paris e seguir até a China, seu país natal. Os brasileiros sentados na fila detrás estavam maravilhados com a possibilidade de ficarem horas no Trocadéro até que a foto saísse perfeita: mãe amparando a Tour Eiffel de um lado, filha do outro.

Eu sonhava com o todo o curry que Londres me reservava. Com Kebabs. Com Camdem Town e todas as camisetas que eu compraria. Com o momento mágico em que eu sairia à superfície e veria as luzes de Picadilly Circus. Com Kensington: eu sonhava com Kensington e com um pint de Guinness.

Eis que então o comandante anuncia que a neve nos impedia de seguir adiante, e que faríamos um pouso em Nantes para aguardar as novidades do Charles de Gaulle. Meu vizinho só entendeu quando o comunicado foi traduzido pro inglês, sorriu amarelo pra mim e aproveitou pra cochilar mais um pouco. Uma vez que o avião estava em terra firme e que comissários e comissárias não sabiam nada além de que a temperatura externa era de 12 graus, resolvi eu também dormir. E dormimos todos, por horas e horas até que o comandante anunciou que o Charles de Gaulle estava pronto para nos receber e que seguiríamos viagem. Comecei a ficar tensa aí: Nantes e a neve me fariam perder a conexão pra Londres. Eu podia vislumbrar minha mala rodando sozinha na esteira de Heathrow. A Cissa telefonando pro aeroporto pra saber se o vôo estava dentro do horário previsto. 

Oh God.

Eu nunca cheguei a Londres. Durante as quase 48 horas que demoraram pra que eu chegasse a Paris, três versos do Morrissey ficaram ecoando na minha cabeça: “and still we say / come back, come back to Camden / and I’ll be good”. Eu dizia calma, estou indo. Mas não estava.

Saímos do avião, buscamos as malas na esteira em Nantes, entramos num ônibus que nos levou a um hotel próximo ao aeroporto. Sim, viramos primeira pessoa do plural quando o comandante, logo após termos apertado os cintos para a decolagem, anunciou que estava “desolé” e que não poderíamos ir a Paris. Os franceses adoram dizer que estão desolés. Acho que é parte da cultura deles, algo como “vamos tomar um chope um dia desses?”

E foi no ônibus que o surfista húngaro entrou na história. Ele perguntou se eu falava inglês e começou uma conversa de amenidades que logo ficou bastante chata, mas àquela altura eu já tinha fugido de uma brasileira chatérrima, do meu vizinho chinês e não podia me dar ao luxo de desperdiçar companhia. O surfista húngaro era louro e parecia saído do Surf Adventures, ou do catálogo da Redley, ou sei, lá, da Califórnia, menos da Hungria. No trajeto do aeroporto até o hotel, uma parte da vida do surfista híngaro se revelou: casara-se com uma brasileira que trabalha no Leblon, na Oi, sabe? Dividia seu tempo entre surfe e kitesurfe, na Barra, perto do Pepe, eventualmente no posto 4, porém lá as pessoas não eram tão bacanas. Morara 4 anos em Dublin, para onde retornava agora pra um curto período de férias e natal, e antes disso vivera em Estocolmo. Habitava, agora, a Tijuca, porém anunciou que se mudaria para o Recreio com a mulher. Eu mal tive tempo de desejar boa sorte à mulher no trânsito e o surfista húngaro que mora na Tijuca começou a contar que vai começar a trabalhar na H Stern e que portanto terá menos tempo para surfar e kitesurfar. Não me atrevi a pensar que ele era chato, não nesse momento.

Dia seguinte, café da manhã às 4h, partida pro aeroporto em comboio às 4h30. Na fila do check in o surfista húngaro que mora na Tijuca veio perguntar se eu havia dormido bem, eu disse que sim, me arrependi de te-lo julgado mal e encarei uma hora e meia na fila. Passei pelo raio-x e vi um tumulto no portão de embarque. Ao pedir informação pro mocinho da Air France, o mesmo orientou que eu buscasse minha mala. Eu disse que acabara de deixar a mala no check in, ele disse que eu pegasse a mala e eu achei que não estava mais entendendo a língua local quando ele informou que o vôo havia sido cancelado, e eu perguntei de novo?? E ele disse “desolé” e era mais do que nítido que ele não estava desolé, en fait, ele não poderia se importar menos com o fato de que Camden, Kensington e Guinness ficavam vez mais distantes.

Pegamos as malas de novo, eu, o vizinho chinês, a brasileira chatérrima, o surfista húngaro que mora na Tijuca e dessa vez fomos informados que a Air France nos levaria de ônibus para o aeroporto de Paris. A previsão era de seis horas de viagem. Todos nos aglomerávamos em frente aos ônibus que esperavam do lado de fora, pessoas acenavam tickets para os motoristas, malas eram forçadas para dentro dos bagageiros e nessa hora tudo parecia um filme onde as pessoas precisavam fugir da guerra e só restavam aqueles ônibus. Até o surfista húngaro que mora na Tijuca virou um bárbaro (ou um viking?) e deu as costas a mim e a todos, garantindo o lugar da sua mala sem se importar com os exilados à sua volta.

Uma vez instalados no ônibus, prontos para a partida, eis que um novo e salvador personagem entra na história. Tomás anuncia que está “desolé” e que não partirá no ônibus conosco, que seu pai informara de Paris que as estradas estavam cheias de neve e que a viagem demoraria no mínimo 9 horas, e que Tomás, que realmente devia estar desolé e não fez uso da palavra à toa, pegasse um trem imediatamente. Um burburinho se forma ao redor de Tomás e eu vou atrás averiguar. Em 10 minutos ficamos reduzidos a um grupo de quatro: e assim, liderados por Tomás, Lilia, Jerome e eu desertamos.  

(a seguir cenas do proximo capitulo: Neve, Nantes, Rue de Rennes e outras obs)

domingo, maio 10, 2009

Air France

Se alguém perguntar por mim diz que ando andando pacas, dentro e fora de estações de metrô que nunca estão onde deveriam. Diz que o único problema por aqui é a minha pele, que não suporta frio e que se rasga e se descola das pernas e do rosto. E o meu tênis, que está tentando me matar. Diz que minhas mãos estão morrendo e que meus olhos ficam encolhidinhos quando venta, e que pingo uma porção de colírio que felizmente os fazem arregalar-se nas horas certas. Diz que ando cometendo todos os pecados possíveis: que saltito pela Rive Gauche, que uso boina no Marais e que suspiro nas escadas rolantes do Pompidou. Diz que ando comendo pães por convicção, e bebendo vinhos por precaução. Diz que atravesso a London Bridge escutando The Smiths (até o ipod é clichê) e embarco no Eurostar cantarolando Rolling Stones. Diz que fico com mania de tirar fotos de crianças de bochechas vermelhas nos Jardins de Luxemburgo. Diz que sento nos cafés de Saint Germain e fico com uma vontade louca de escrever alguma coisa, nem que seja qualquer coisa, um postal, um diário, uma página pequenina do caderninho amarelo que divide a bolsa com a câmera. Diz que ando apaixonada pelo Capitão Haddock. Diz que desisti de usar os mapas que comprei ou as lentes de contato, aqui os óculos combinam. Diz que quase choro quando entro na Saint Sulpice e tem missa de domingo. Diz que começo a acreditar de novo nessa fé irracional que me faz acender vela na igreja medieval, que me faz achar graça em fila e nos preços em euros. Diz que até a Beatriz Milhazes passou a fazer sentido pra mim. Se alguém perguntar por mim, diz que piso em poças, atravesso pontes e olho para os canais de Veneza pensando em Charles Aznavour: adieu Pont des Soupirs, adieu rêves perdus*. Diz que encho as malas de máscaras enfeitadas e souvenirs cafonas que vão entulhar ainda mais as estantes. Diz que me desapeguei de revistas e de telefones, e que me divirto tanto sem poder ser encontrada. Diz que pouco importa se não entendo muito do que dizem no filme, e que não quero voltar, não agora, não ainda. Diz também que ando comprando cadernos, muitos, de todas as cores e tamanhos, e que por isso faço planos para escrevê-los, pode ser no meu quarto mesmo, pode ser na esquina da Rue de Rennes, pode ser no terraço de uma casinha branca em Santorini.

* Que c'est triste Venise, na voz de Aznavour.

quarta-feira, abril 23, 2008

Caminito

Encolhida na cadeira da classe econômica, a luz individual não funciona do lado direito da aeronave, menos mal, assim ninguém vê que por dentro da mochila eu tento trocar o cd do meu discman Toshiba verde. Eu estava de saco cheio da dengue, do caso Isabella, do fato das pessoas apedrejarem supostos assassinos e esquecerem dos cartões corporativos e etc, resolvi passar o feriado junto dos hermanos que são muito mais revolucionários do que nós e o meu discman verde era uma forma de protesto, a minha ego-revolta contra a mp3 e computadores e internet e a falta de calor humano e o-que-aconteceu-com-hábito-de-escrever-cartas?, sabe essas coisas?

Foi assim que fui parar em Buenos Aires, torcendo pro avião poder pousar, torcendo para que a tal fumaça que invadiu a cidade nos últimos dias não fosse tão ruim assim e torcendo pra sei lá, caminhar, ver os parques, sentar nas praças e basicamente não ter que pensar durante alguns dias, não precisar conversar seriamente com alguém, sair de casa sem relógio e sem telefone.
::

Banhos de banheira, passeios pelas avenidas, pães quentinhos e deliciosos no café da manhã, confortos e mimos dos anfitriões, flores na varanda, todos os episódios de Seinfeld a meu dispor, todos os episódios de I Love Lucy idem, pilhas de Vanity Fair para folhear, Vinícius e Caio F na cabeceira improvisada, folhas do outono começando a cobrir as calçadas. Eu sei, eu devia querer dançar tango, tomar vinho, comer bifes de chorizo no Puerto Madero e comprar bolsas e botas de couro a preços ótimos. Mas nós que não temos i-pod fazemos isso na Argentina: assistimos a uma série de 1952 no sofá da casa da tia enquanto tomamos sopa. Nós somos incompreendidos. Um dia nos chamarão vanguardistas.

::

Tarsila do Amaral está em cartaz no Malba. Surpreendentemente não compro nada na lojinha do museu, eu que as adoro, saio de mãos abanando. Não compro a Lomo que queria, fico perdida entre latas antigas e compro uma de talco de 1920 e um liseuse que a vendedora afirma ser Vitoriano. Não duvido. A loja, numa das esquinas da praça de San Telmo é uma viagem no tempo. Com um pouco de imaginação, a parte do subsolo reservada às roupas vira um imenso camarim das antigas óperas francesas e italianas. A qualquer momento as bailarinas estarão por ali vestindo-se a apertando as sapatilhas. Suspiro. Quero morar na loja de dois andares da praça de San Telmo. Quero comprar as meias que não estão à venda. Quero a camisola de 1890 que custa muitos dólares.

::

Fotografo postes, pombos, estátuas no cemitério, árvores, placas, bonecas antigas, os potes com utensílios de cozinha, o banco perto da porta, o banco sob a árvore, meu pé.

Me esforço na série "auto-retrato com braço esticado". Lembro da Carol e das considerações que ela fez quando viajou sozinha. Concluo que, mais que gostar, preciso viajar sozinha.

::

Quase que tudo vai por água abaixo quando na volta o aeroporto está lotado, as luzes individuais do lado direito da aeronave seguem defeituosas, o sujeito ao meu lado insiste em puxar conversa e faz tanto frio tanto frio dentro do avião, peço um cobertor mas não há mais mantas disponíveis, tomo uma taça de vinho em copo plástico, como é que as coisas ficam decadentes assim? eu quero matar todos da Siberian Airlines.

Abro a caixa de chocolates, o discman parece não funcionar, insisto mais um pouco, verifico a posição das pilhas, penso que um tênis Keds e um perfume CK One combinariam com o meu jeito anos 90 de ouvir música durante viagens e de repente a música começa “She says Hello! You fool, I love you! Come on join the joyride” ha ha , não era Roxette, era Adele. Não posso mudar o volume, essa função, assim como as luzes individuais, está com defeito. Me pergunto se as pessoas à minha volta estarão ouvindo a música que sai dos fones azuis. Acho que não. O meu vizinho que tentara puxar conversa parece dormir. Os gays à minha frente fazem perguntas sobre o meu brinco.

Final e infelizmente chego em casa, cachorro late, todos conversam, querem saber, bla bla bla. Desfaço as malas, deixo tudo meio bagunçado, retiro as pilhas do Discman para não melarem, arrumo a mochila para amanhã, ponho o despertador para mais uma vez tentar ir à natação cedinho. Quando a casa atinge relativo silêncio caio na cama cansada, as costas ruins de novo, dou um suspiro. Amanhã é segunda e eu pedi demissão. Preciso organizar meus manifestos.