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domingo, novembro 06, 2011

This could be the first trumpet*


Uma sexta-feira de julho

Tudo deu errado com os músculos que sustentam e envolvem a escápula direita. Nada mais funciona: pescoço, ombro e mesmo o braço parece que vai despencar de tão pesado. Prometi passar no lançamento do livro de um amigo. Confirmei presença num jantar na casa de uma amiga onde certamente não vou conhecer ninguém. Socializar com contratura muscular é tão complicado quanto fazer baliza em dia de torcicolo. Deixo o livro do amigo pra depois, compro a garrafa de vinho pedida pela anfitriã e rezo, quase me ajoelho, pra que tenha maconha. Faz uns 10 anos desde a última vez que fumei maconha, e depois de ter tentado alopatia, bolsa de água quente, cânfora, fisioterapia, massagem, relaxante muscular e Lexotan, me apego à possibilidade da cura fitoterápica. Um trago (tapa?) na maconha alheia e tenho certeza que tudo vai dar certo de novo nas proximidades dos músculos rombóides. Chego ao Humaitá, o vinho na bolsa, fecho os olhos antes de tocar a campainha. Eu deveria conhecer o homem da minha vida nesse jantar, mas agora só consigo pensar no momento em que alguém vai perguntar “e aí, vamos fumar um?”. Meus passos, de repente, parecem passos de reggae. Meu colar de pérolas poderia facilmente ser substituído por um colar de conchas. Amanhã vou à praia na Joatinga, penso. Com o Bruno. Todo mundo conversa sobre artes plásticas com a propriedade de quem comenta o tempo no elevador. Todo mundo bebe vinho e trabalha com cultura, e eu só sinto uma dor lancinante que me define como alguém que sofre. Muito. Quando o sujeito louro e baixinho sai à caça de um isqueiro, me instalo na poltrona e agarro meu terço imaginário: faz uns 10 anos desde a última vez que fumei maconha, ri feito uma demente, e agora toda essa gente aqui vai testemunhar. Mas que nada. É uma sexta-feira de julho de 2011 e todo mundo está eufórico pra fumar sálvia. Eu pensava que sálvia era ingrediente de pizza, salada ou horta. Um tititi se arma em torno do sujeito louro baixinho, uma euforia maior que a que se desencadeia quando anunciam que o Strokes vem ao Brasil. Esse é o retrato da minha desolação. Não tenho ingressos pro Planeta Terra, não tenho maconha pra fumar. Amanhã não vou à Joatinga com o Bruno porque é inverno e o sol vai embora de lá bem cedo. Aproveito a ocasião pra recuperar minha bolsa e saio de fininho pensando desde quando as pessoas fumam sálvia. Sálvia. Amanhã vou à feira.



Quinta-feira à noite, setembro

É sempre o pior dia pra se chegar em casa, a cidade empaca, o horário de verão ainda não começou e eu li uns 4 livros naquela semana. Tudo ao meu redor alucina, e ao parar na praia de Ipanema quase em frente ao Laura Alvim vejo a menor palmeira do jardim em frente à casa girar. Esfrego os olhos e já não há mais nenhum movimento. Mando uma mensagem pro Lucas, que me garante que não estou tendo visões e que sim, a palmeira do jardim da Laura Alvim gira. Ele é meu chefe, não ouso discordar, seria como desafiar hierarquias. Mas guardo certa desconfiança. Desde então, nunca mais a palmeira deu piruetas e eu não tive coragem de perguntar a mais gente se aquilo era real ou fruto de ervas que sequer ando consumindo.




Quartas-feiras e domingos

Entre um “mengooooo” e outro, ou melhor, verdade seja dita, entre xingamentos débeis como “filha da puta”, “viado” e expressões de mesmo escalão como “chupa ______”, meu vizinho do 202 fuma baseados superpotentes com seus amigos que sempre assistem aos jogos rubro-negros aqui no prédio. O cheiro invade meu quarto, minha mãe já me olha divertida e eu durmo embalada pela marola que bate aqui, enquanto meu vizinho e seus amigos gastam a onda jogando ping-pong no play. E xingando uns aos outros, obviamente.



Uma terça-feira de outubro

Estaciono o carro na Lagoa e descubro um comando que muda a posição do retrovisor esquerdo quando engato a ré. Mostro pra Eugênia, sentada no banco do carona, e repito a operação algumas vezes. Achamos graça e de repente lembramos Beavis e Butthead, mas em vez de AC/DC, ouvimos “Turn your lights down low”, do Bob Marley. O trânsito estava surpreendentemente bom, o que nos fez chegar cedo demais, e portanto fazemos hora no carro antes de subirmos pra aula. Quando “Redemption Song” começa, Eugênia e eu pensamos num pequeno menu da larica perfeita: burrata do Braz, pão-de-queijo da Adriana Lunardi, brigadeiros da tia da Helaine, Kusmi tea. Desde o jantar em que as pessoas fumavam sálvia que eu não pensava mais em fumar maconha, e agora estamos as duas aqui, falando de Laird Hamilton e as ondas de Teahupoo, pensando hibiscos, elencando comidas disparatadas para uma larica que provavelmente não se produzirá e rindo dos efeitos especiais do carro novo. Talvez a gente não precise de drogas mesmo. Por via das dúvidas, porém, já penso em bater na porta do 202, pedir açúcar, talvez seja um bom começo. 


* Bob Marley em Natural Mystic. 

sexta-feira, abril 15, 2011

Ensaio sobre a umidade

(trilha sonora sugerida: Get me Away From Here I'm dying, Belle and Sebastian)


Já faz alguns anos desde que me instalei nessa casa que ainda acho que é nova. Sempre morei noutro lugar e não estabeleci uma relação de tempo confortável com nenhum dos endereços. Acho que já estou aqui há tempo suficiente pra ir embora, parece que saí do outro apartamento numa vida anterior, porém quando me acho por lá, não sei. Não chamo mais nenhum dos lugares de lar, faço planos de pintar as paredes e arranjar novas mesas e quadros, mas deixo pra depois porque algo me levou a crer que ambos os CEPs eram temporários.

Divagações à parte, eu pensava neste 102 de agora e em como, um dia que não sei precisar, abri as portas do armário de sapatos e vi uma fina camada esverdeada que cobria tudo. Não chegou a ser uma surpresa. O cheiro dos outros armários denunciava que a umidade por aqui era maior que no resto dos lugares, e isso eu percebia toda vez que me vestia para sair e sentia certo calor na rua. A sensação térmica do meu apartamento e o aroma duvidoso que começava a se impregnar nas roupas deviam ter sido alertas suficientes pra correr para a corretora mais próxima, ligar para o Procon ou, no mínimo, traçar um plano de combate ao mofo, que começava a dar provas de seu caráter implacável.  

Eu ainda não conhecia todos os paradoxos da umidade, e tudo o que sua presença neste apartamento implicaria: restaurações, zelo, nostalgia, desapego, faxina, anti-histamínico.

Numa linha do tempo imaginária, diria que a minha personalidade ficou marcada pelas sucessivas vezes em que abri as portas do armário dos sapatos e, esperança em punho, fui vencida pelos fungos que se apoderavam da minha coleção de sapatilhas. Usasse substantivos para descrever cada fase da minha luta contra o mofo, começaria por ingenuidade. No meio caberia um breve período de êxtase, seguido de meses intermináveis de desespero, e por fim, rendição.

A era da ingenuidade durou pouco, felizmente. O otimismo que veio junto com a pilha de Secar e Pingu adquiridos no supermercado durou o tempo que os potes com cloreto de cálcio demoraram pra absorver a umidade dos armários e quase transbordar: 24 horas. Entendi que teria de pegar em armas mais pesadas e comecei a desprezar os conselhos de gente pacifista que achava que fórmulas como água morna e vinagre poderiam trazer algum tipo de benefício aos meus calçados. Iniciei um período de intensas pesquisas e limpezas, e quando voltei a acreditar que seria possível vencer a praga que começava a se alastrar para as bolsas e jaquetas, me deparei com algo que fez toda a minha crença tombar por terra: os álbuns de fotos começavam a ser tragados pelos fungos.

Boquiaberta (atrás de uma máscara cirúrgica que amenizava a aspiração de ainda mais ácaros e afins), folheei álbum atrás de álbum e comecei a ver sorrisos derretidos, abraços grudentos e afetos estragados. Diversas imagens 10 X 15 se agarravam aos plásticos dos álbuns de retrato e fundiam-se neles para jamais saírem dali, tumbas definitivas para lembranças que eu não queria esquecer. Eu me sentia derrotada. A umidade começava a destruir não apenas as coisas de verdade, mas também um passado organizado, feliz e seco de gente que agora mofava nas minhas prateleiras.

A fase mais radical e prolífera da batalha começou com essa constatação, com a chegada do inverno e de uma máquina que impunha respeito no meu quarto, diagnosticado como o ponto mais úmido da casa. Um desumidificador vinha pra ridicularizar ainda mais qualquer tentativa anterior de salvar meus pertences do aspecto aveludado que o mofo conferia a tudo. Segui rigorosamente as instruções da máquina que anunciava um novo tempo e fui acordada por apitos da mesma, por volta das duas da madrugada: ela atingira sua capacidade máxima de absorção, e me presenteava com cerca de 5 litros de água armazenados em seu compartimento. Esvaziei a máquina e começamos de novo. Às 10 da manhã, mais apitos. Durante uma semana a rotina de despejar a água na varanda se repetiu à exaustão. O sorriso ao abrir as portas dos armários também. O desumidificador era mágico, eu era feliz e me deixei levar por esses dias em que deitei de lado os panos e materiais de limpeza. Naquele inverno comprei uma jaqueta de couro e planejei dominar o mundo: eu ia convencer os moradores da minha rua e de outros focos de mofo da cidade a comprarem a mesma máquina que eu, e juntos iríamos desumidificar nossas casas e produzir água. Comecei a armazenar litros e litros de água e já previa as manchetes dos jornais, anunciando mega obra para construção de dutos que levariam nossas águas para abastecer diversos locais necessitados. Eu seria líder do movimento “água para todos”, cogitava até virar mártir porque certamente a minha empreitada geraria tramoias, crimes e sangue.

Minha derrocada começou justamente aí. Tomada pela megalomania que meu plano exigia, comecei a desencanar dos fungos, das sapatilhas, das fotos e de tudo o mais que estava à minha volta. Ocupei-me de tal forma em reaproveitar a água produzida que esqueci dos cuidados que o meu ambiente pedia. A primavera terminava, eu escrevia cartas para as autoridades, me inscrevia em editais e estava cega à vingança silenciosa que a umidade tramava. O destino não é criativo e a treva se abateu sobre mim da mesma forma que outrora, ao abrir as portas do armário de sapatos. Mas já era tarde, eu subestimara a natureza e comecei a cavar minha sepultura quando, ao me deparar com a camada esverdeada que cobria as sapatilhas, espirrei compulsivamente. A sentença era clara: eu estava alérgica e descalça.

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Uns sugeririam budismo, e teria sido o momento propício de me agarrar à fé, já que tive de me desfazer de metade dos sapatos. A jaqueta de couro, argh, teve o mesmo destino. Eu simplesmente não tinha mais ânimo, coragem ou estômago pra limpar ou salvar minhas roupas. Os paradoxos se estabeleciam. Eu praticava o desapego.

Guardei as energias para as fotos, que limpava com ardor. Tirei todas as impressões de dentro dos álbuns, arejei, sequei, testei todas as técnicas e os conselhos que me foram dados: cânfora, carvão, giz, vinagre, por momentos me julgava ingênua de novo, pobrezinha, tive até pena de mim. Acreditei ter salvado os retratos, respirei aliviada depois de uma sessão de nebulização.

Eu segurava o telefone com uma das mãos enquanto esperava a secretária do alergista encontrar o melhor horário para mim. Eu tentava alinhar os quadros nas paredes com a mão livre quando um grito de horror se libertou da garganta. As litografias apresentavam os sinais da peste. O mofo arrebentava lacres, vidros e varria tudo: os cds mofavam, os livros, os dicionários, as revistas.

Estabeleci uma rotina de faxinas minuciosas. Pedi demissão. Terças e quintas eu me dedicava aos armários de roupa e sapatos. Segundas e quartas eu limpava fotos, músicas, páginas e páginas de poesia. Inevitavelmente, enveredei pelas rimas pobres onde amor só combinava com dor. Aquele ritual de abrir baús e caixas e se deparar com o passado começou a me assombrar. Os términos de namoro, as amigas que se afastaram, de repente me via discutindo relações remotas com gente que me olhava com desconfiança, porque eu começava a reviver aqueles dias e paixões sepultadas pelo tempo. A umidade me tornou nostálgica de um jeito irreversível. Eu queria seguir adiante, me libertar dos fantasmas, mas eles voltavam duas vezes por semana: verdes, bolorentos, mas ali, imortalizados em sorrisos quase apagados e que por isso mesmo se tornaram inesquecíveis. Fixei na minha mente todos aqueles rostos, encomendei um carregamento de ginko biloba e revistinhas de palavras-cruzadas. Eu só podia contar com a minha memória. Meu coração, tomado pela pieguice e pela lógica que consumia tudo o que morava comigo, começava a mofar também.

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Foi um período de contradições e gastos extraordinários. As litografias foram recuperadas e os livros também, embora alguns versos tenham ficado para sempre incompreensíveis. Me desfiz das revistas e dos dicionários, com suas tendências e ortografias superadas. Aproveitei a promoção da Zara e repus alguns dos sapatos. Tentei baixar meu nível de exigência, mas até as Havaianas pareciam contaminar-se do mofo, de modo que continuei comprando sapatilhas.

A umidade alterou meus hábitos, minha saúde, meu mundo material. Ao mesmo tempo em que desenvolvi T.O.C., por motivos mais que óbvios, comecei a me sentir à vontade em ambientes não aprovados pela Vigilância Sanitária. Albergues, motéis, banheiros públicos, não que eu frequentasse qualquer um desses espaços, ganharam meu voto de confiança. Minha alergia galopante consumia caixas e caixas de Allegra D e lenços de papel, e minha congestão ininterrupta me fez parar de fumar, questão de sobrevivência. Minha vida social sofreu abalos profundos. Ocupada que estava em salvar minhas coisas, parei de sair, de telefonar, de ver o mundo. Eventualmente ia à praia, onde me esturricava pra ter certeza que toda e qualquer umidade agarrada à minha pele se evaporaria em questão de uma tarde. Funcionava, eu acho. Nesses dias eu retomava minha juventude, encontrava pessoas, combinava programas, confessava saudades. A reciprocidade, porém, foi diminuindo à medida que todos percebiam minhas obsessões.

Quando, um ano depois da restauração das litografias, percebi novamente os sinais dos fungos ultrapassando as molduras e vidros preparados com material anti-mofo, joguei a toalha. E joguei fora fotos, livros, discos e uma sorte de objetos. Eu já não controlava o tempo que envelhecia precocemente tudo, eu estava apática e pálida, cansada. Concluí que essa casa nunca seria minha porque todo o espaço ali estava tomado por essa força capaz de afundar tudo. Numa fúria mais intensa que os estragos provenientes do mofo, joguei o pouco que sobrava pela janela. Chorei por três dias e três noites, liguei o desumidificador, produzi piscinas de água, decretei vitória ao inimigo e enfim, encontrei um CEP seco, livre desta merda chamada umidade: comprei passagem só de ida para Brasília.






sábado, outubro 17, 2009

Cry me a river

Respeito muito minhas lágrimas, a ponto de categorizar meus prantos e saber que todos, ainda que inúteis, são necessários. As noites me proporcionam esse sono pesado que se inicia banhado delas, porque é sempre antes de dormir que tudo dói e assenta no corpo, e portanto é preciso chorar. Sem esforços, sem dramas, só é preciso deixar que escorram gotas, que elas tombem sobre o travesseiro, que elas levem alguma coisa pra fora. Prevejo os olhos inchados no dia seguinte, as perguntas desconfiadas de quem os notará mais vermelhos, as respostas evasivas de “alergia, logo passa”. Me dedico ao ato de chorar com a mesma entrega que tenho para a dança porque quero a exaustão que vem depois, e a tranqüilidade que se segue.

O princípio do espanto é quando o oftalmologista diz que a qualidade da minha lágrima é péssima. Ele sentencia o diagnóstico com calma, como se o mundo já não fosse absurdo o suficiente, como se tal afirmação fosse tão natural quanto ter cárie aos 11 anos. Em seguida ele acrescenta que a quantidade de lágrima produzida é a esperada. Enquanto ele mostra imagens pouco convincentes dos meus olhos cheios de nervos inflamados e lágrimas não-lubrificantes, lembro dos tempos em que o ortopedista dizia que todo o problema das articulações era que eu tinha crescido rápido demais. Lembro, ainda, de uma fisioterapeuta que sequer me conhecia afirmar que a minha cabeça estava fora do centro de gravidade.

Como se a conformidade fosse a única reação possível, evito a conversa que eu poderia ter com o oftalmologista. Eu poderia argumentar que, sim, eventualmente chorei lágrimas podres justificadas por motivos ainda piores. Eu poderia, sem embaraço, contar que despejei litros de lágrimas de raiva quando o que eu mais queria era apenas disparar tiros de revólver contra alguém. Eu não hesitaria em apontar todas as lágrimas escorridas por causa de amores insólitos, términos covardes ou declarações pela metade. Eu poderia ter dito, também, que o crescimento acelerado não me havia transformado numa pessoa mais culta ou mais madura, que a minha altura repentina não tinha feito mais por mim que o curso da faculdade, e que as articulações eram, portanto, o malefício menos importante dentro de todas as metáforas que eu conseguia listar na minha cabeça torta, fora do eixo de gravidade. Eu adoraria cometer o clichê mais idiota e sem graça e afirmar que sim, tenho a cabeça mesmo no mundo da lua, e gerar aquela cara enfadada e constrangida de quem se vê obrigada a encerrar a conversa por motivos de força maior.

Isso tudo eu poderia ter dito a ele(s), mas não disse. Fiquei mais pobre por causa de todos os colírios e de toda a fisioterapia que se provou tão ineficaz quanto chata. Fiquei, também, mais obcecada com listas (músicas que contém a palavra “lágrima”: 7; a palavra “tear”: 8; a palavra “cry”: 15) e mais perplexa com o descuidado alheio em proferir frases que podem perturbar uma pobre alma. Tenho a plena certeza de que continuarei chorando em vão, literal e metaforicamente falando, com o agravante de que logo após de secarem as tormentas terei de correr para a geladeira, onde agora mora um colírio milionário, este que restabelecerá meus nervos ópticos (quiçá os outros todos).

Que me deixem chorar, com ou sem qualidade, e que os dias chuvosos se estendam ainda por mais tempo, que perfeição maior eu não consigo imaginar: já pensou que ridículo os soluços pós-choro na praia?

quarta-feira, junho 03, 2009

Cravo bem temperado

Assim como as mães e os homens, todas as avós devem ser iguais, mas certamente nenhuma se compara com a minha. A minha avó tem um cabelo branquinho mais comestível que algodão-doce e sempre aquela voz de conforto que só as avós sabem ter. A minha avó arregala os olhos quando fica embatucada, porque ela sim sabe bem o que é ficar embatucada. Ela fica intisicada também, e só ela sabe quando alguém fica uma ou outra coisa. Quando eu penso que ela vai dizer que fulano estava embatucado ela diz intisicado e vice-versa. Só a minha avó tem sabedoria e vivência suficientes pra distinguir estados de espírito tão semelhantes.

A minha avó faz doces politicamente incorretos que arrepiariam os cabelos de qualquer americano babaca se entendesse que eles vêm embrulhadinhos um a um e se chamam preto-de-alma-branca. A minha avó certamente iria para a corte. Muito embatucada.

Foi a minha avó que disse que eu deveria passar leite de mamão verde nas perebas da sola do pé. A minha avó é assim: ela tem netas que às vezes pisam onde não deveriam. Então, por causa de minha avó, aqui em casa de manhã todo dia tem gritaria quando o leite de mamão verde encosta na primeira ferida. Eu não fico embatucada nem intisicada porque com a dor que dá só tem um sentimento possível de se sentir: solidão. Eu dou pulinhos até o quarto, coloco o pé pra cima e faço origamis.

Verdade seja dita: eu tento fazer origamis. Origamis combinam muito bem com esse sentimento de solidão profunda que a dor te traz: ninguém, ninguém mesmo, nem sua avó nem sua mãe nem sua irmã podem te ajudar.

Avós podem fazer quantos doces indecorosos forem possíveis, que não vai melhorar a dor. Mães podem dizer quantas vezes forem necessárias pra filhas olharem por onde andam que eventualmente elas vão enfiar o pé na jaca. Irmãs podem dividir o sofá todas as noites para verem juntas a novela que não tem jeito, o pé vai continuar queimando. E nem mesmo as três juntas seriam capazes de decifrar os confusos desenhos do livro de origamis, o que me leva à conclusão de que todos os japoneses devem ser também iguais: não-embatucados, não-intisicados, felizes, tranqüilos e zens com acupuntura, yoga, medicina oriental e avós que lhes ensinam desde cedo a fazer dobraduras, porque só assim mesmo pra conseguir fazer girafas e sapinhos saltitantes.

Quando o embatucamento começa a dar lugar à solidão é que o pé já parou de doer e eu já gastei uns cinco papéis especiais e não consegui fazer um cisne. A minha avó diz ‘não se preocupa, na maciota você consegue’. Então a minha avó faz mais uma demonstração de sua experiência e me aconselha a montar meus origamis com o bisneto dela, um rapazinho de três anos, engraçado e serelepe também conhecido como meu primo. Só que meu primo, eu juro, está mais interessado em escutar óperas. Me dou por vencida: no fim de semana faço uma visita de taxi, caminho manca até o quartinho dele e resignada pergunto: quer ouvir um pouco de Bach?

terça-feira, janeiro 13, 2009

Considerações sobre miopia

Stress da córnea, acontece com todo mundo que usa lentes por muito tempo, nada grave, uns dois meses sem elas, muita hidratação nos olhos, faça esses exames, seus olhos parecem ótimos para serem operados, é rapidíssimo, em menos de um minuto o laser conserta isso aí, seu grau é baixo.

É, é baixo, mas o suficiente pra não enxergar quase nada, o mundo todo fica como um quadro impressionista visto de perto. E quando vou à praia os óculos escorregam pelo nariz que sua. E tenho de mergulhar com eles na cara mesmo, senão não sei se as ondas estão perto ou longe, e onde encontrar as pessoas na volta pro guarda-sol.

E esse é só o menor dos problemas e dilemas estéticos.

Óculos não combinam com brinco grande, e nem dá pra usar arco. Óculos são ruim pra dirigir porque se saio com os de sol, entro no túnel e fica uma escuridão, e se troco os pares nesse momento fico confusa. E não consigo mais fazer sobrancelha, preciso estar com os óculos na cara pra enxergar os fios, o que impede o acesso a eles. E se tiro os óculos me grudo no espelho, minha respiração embaça e dá no mesmo. E também não pinto mais os cabelos, porque preciso abaixar a cabeça pra enxergar o máximo de raiz possível, portanto olho por cima da armação e não vejo mais.

E me sinto completamente vulnerável e insegura, como se a qualquer momento os óculos pudessem cair ou ser levados e então ai de mim, sento na calçada e esperneio até que alguém venha em meu socorro.

Com a proximidade do carnaval o pânico só aumenta. Vou ter que me fantasiar de nerd.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Bipolar

Eu sei que às vezes (muitas) esse blog fica pessoal demais, e que algumas perguntas são recorrentes. Pior: são mais perguntas a cada post, a maioria delas julietanas ao extremo.

Enfim. Existem coisas que me consomem de tal forma que não posso deixar passar, e a luz da esperança se acende quando penso que possíveis resoluções podem vir de eventuais comentários. Eu sou do tipo que acredita em letras de música, por que não em leitores virtuais?

Esse é mais um caso que me aflige, daqueles em que a ambigüidade dos fatos gera sentimentos inconciliáveis, de maneira que preciso de ajuda (psiquiátrica, talvez): como faz pra conciliar a morte do Gonçalo na novela com show da Madonna no dia seguinte?!