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quarta-feira, maio 13, 2015

I never can say goodbye


Músicas para ouvir no fim da festa:

1)      There is a light that never goes out, The Smiths

2)    I never can say goodbye, Jackson 5

3)     Turn your lights down low, Bob Marley

4)    I can’t take my eyes off you, na versão Frankie Valli & the Four Seasons

5)     Because the night, Patti Smith


quarta-feira, setembro 03, 2014

Ou o jeito que você erra

“Um dia eu vou ficar bem
Só pra te querer mais”
Marcelo Camelo em Pode ser, da Banda do Mar

Todo aquele disco, afinal, despertou em mim uma vontade maluca de fazer cafuné em alguém, justamente na semana em que eles disseram que era ótimo que eu não escrevesse sobre amor e afins, e a essa altura da conversa eu já estava distraída demais pensando se aqueles cabelos à minha frente eram propícios a todo o carinho que eu poderia oferecer. A possibilidade de me apaixonar naquela semana ficou totalmente condicionada ao que a minha imaginação construía ao redor dos cabelos das pessoas com quem eu me deparei. A textura certa e a quantidade ideal de ondas, além do controle dos índices de oleosidade, poderiam me levar a um enamoramento daqueles que põem medo.

Põe medo quando ele se levanta para ver alguma coisa na parede e aproveita para deslizar dois ou três dedos pelo meu braço apoiado no espaldar da cadeira: para, faz um comentário e esquece a mão ali no meu ombro esquerdo, como se fosse muito natural arranjar qualquer desculpa ou ameaça de mosquito no meio da sobremesa só pra encostar em mim neste lado onde tenho mais sardas. Calculo mentalmente o tempo que ainda falta para ser plausível dizer a ele que já está tarde, assusto-me ao perceber.


Assusta a quantidade de uvas em nossos copos cheios de cachaça, nossa incapacidade com furadeiras, pregos e parafusos e a variedade de padrões de tomadas e lâmpadas que há neste mundo. A única decisão que podemos tomar, afinal, é a disposição dos quadros, quase todas as serigrafias e desenhos a carvão invadidos por fungos, apesar de todas as blindagens e químicas prometidas numa etiqueta no verso das molduras. Desenhamos nas paredes os retângulos, levamos as obras para o carro e antes que eu fale qualquer coisa – e pra você eu nunca falaria – você diz que já está tarde, que eu preciso dormir, que amanhã, nem dá tempo de treinar na sua cabeça as linhas e rabiscos que eu iniciaria depois de fingir que havia alguma coisa presa nos cachos dele, peraí, vem cá. E nem comeríamos as entradas, emaranhados em nossas ferrugens e saudades, isso sim põe medo, isso sim. 

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Chuva, Wuppertal, elefantes e outras obs.

Os elefantes, de acordo com os estudiosos do assunto, são criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas.
Clarice Lispector in A legião estrangeira

“Julia, quando fui pra lá vi uma placa de boas-vindas indicando que a cidade tinha 3 McDonald’s. É menos do que existe no Barra Shopping!” – com esse argumento, e não que fosse a primeira tentativa de persuasão, Lucas me impediu de confirmar minha reserva de 5 dias no hotel Ibis de Wuppertal, cidade alemã que não figura em guias de viagem. Tente o Fodor’s, o Lonely Planet, o Guia Visual da Folha ou qualquer outra publicação da seção de turismo: Wuppertal não está lá.

Tente a Wikipedia brasileira e você vai descobrir 3 filhos ilustres de Wuppertal: a aspirina, Engels e o Hans Donner. Se o braço nacional da enciclopédia precisa de 31 linhas para descrever o cenário, a Wikipedia de língua inglesa revela-se bem mais prolixa: 49 linhas e 34 colunáveis. Ambos os endereços jogam luz sobre o Schwebebahn, o monotrilho (ou monorail) que há 110 anos transporta os habitantes, os visitantes e, eventualmente, um elefante pela cidade de Wuppertal. Tente o site oficial da municipalidade: há um relato insólito que narra a curta viagem de Tuffi, garota-propaganda do circo Althoff, no trem suspenso. Pouco após ser colocada em um dos vagões, a filhote de elefante saltou para a liberdade e para a fama mundial entre aqueles que se deparam com Wuppertal em seus caminhos.

Ainda que Wuppertal já ostente 9 McDonald’s, segui os conselhos do Lucas e reservei um quarto em Colônia: a previsão era de trens, chuva e duas peças da Tanztheater de Wuppertal, companhia de dança que durante quase 40 anos esteve sob a direção de Pina Bausch e que justifica o itinerário que eu nunca pensara em escolher para as minhas férias.

Tudo começou bem antes, quando me sentei na poltrona 33, fila H, balcão nobre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Era 7 de abril de 2011: as cortinas abertas revelavam um rabo de baleia à direita do palco, o público tomava seus assentos, eu enrolava e desenrolava meu ingresso nos dedos enquanto esperava os primeiros movimentos de Ten Chi, peça de 2004 fruto de uma residência da companhia no Japão. Até o final da performance cerca de 3 horas teriam sido transcorridas; 8 pessoas teriam aproveitado o intervalo para abandonar seus lugares na fila G à minha frente; uma torrente de neve – ou flores de cerejeira – teria forrado de branco o palco do Municipal, encobrindo bailarinos, vestidos e cabelos, estes adquirindo vida própria e executando uma coreografia paralela àquela dos corpos em cena.

Saí do Theatro num choro tão físico, de soluços e arquejos, segurando-me pelo corrimão escada abaixo: Ten Chi penetra os alicerces do corpo, alterando principalmente as capacidades musculares e gástricas. Tivesse uma epígrafe, a do meu pranto seria aquela de Barthes que diz que “a leitura seria o lugar onde a estrutura se descontrola”.

Esse descontrole: uma invasão de afetos não catalogados; gatilho de lágrimas e de uma paralisia momentânea; o choque de reconhecer no corpo alguma coisa tão primária e ao mesmo tempo tão complicada de dimensionar; motor de ideias e de gestos que substituem a fala quando você tenta, inutilmente, explicar para alguém -  braços e mãos que se dobram e se projetam da direção do abdome para a frente, como se pudessem tirar do estômago alguma tradução diante dessa dança. Esse descontrole: convém persegui-lo.

E ele está ali, 3 de novembro de 2013, 10 euros de taxi da Hauptbahnhof até a Opernhaus de Wuppertal, nos meus olhos que se inundam quando reconheço Lutz Förster no foyer do teatro, na minha boca que não fecha ao olhar os pôsteres espalhados pelas paredes, no meu riso que escapa quando vislumbro o tapete de cravos cor de rosa que cobre o palco, nos primeiros acordes de uma versão da década de 1920 de The man I love com aquele homem de terno sozinho no meio das flores fazendo sua linguagem de sinais, nos meus pés ritmados e o cantarolar baixinho das Pastorinhas que eu não esperava na trilha, na minha tentativa frustrada de roubar um cravo pisoteado do cenário quando Nelken se encerra e as pessoas já deixam a plateia.

E também: 5 dias depois, 8 de novembro, no palco uma espécie de gramado vertical ou um pedaço de um penhasco – uma parede de superfície irregular coberta de folhagens e plantas -, do verde cai uma goteira ininterrupta, como se poucas horas antes tivesse chovido uma tempestade e nós víssemos, então, o depois: cheios de vontade de abrir a boca e beber da água que escorre, como fazíamos quando éramos crianças.

Uma das bailarinas, usando camisola fina e branca, caminha em direção ao fundo da cena. Agachada próxima ao penhasco, ela se banha com a ajuda de um balde e fica ali numa calma inabalável, indiferente à entrada de uma música e de um bailarino. Ele veste calça e camisa social, entra correndo no palco e em algum ponto tenho a impressão de que desliza seus pés descalços pelo chão até frear e iniciar uma sequência de movimentos: o corpo todo participa e os braços constantemente se voltam para os céus, assim como a cabeça, e tudo parece sair bem do meio do seu tronco para as extremidades, como se lançasse raios de si mesmo ao redor. Ele se reveza com outros bailarinos que se alternam nessa sequência de corrida, deslize, freio: braços e cabeças para além (quando entrarem para os agradecimentos vou perceber que eles são muito menores do que parecem) e há uma urgência nessa escala – o palco não pode ficar sozinho, nós, sentados ali na frente, não podemos e não queremos ficar sozinhos, e de repente os homens entram e saem velozes, enchendo a cena em contraste com ela: lenta, brincando com seus cabelos, roupa agarrada na pele.

Eles dançam e dançam e dançam enquanto ela se encharca e nem percebo quando ou como desaparece. Tudo isso acontece embalado por uma música que fala de Angola e que cantarei ininterruptamente na minha cabeça nos dias seguintes, e tudo isso perfura coisas em mim, órgãos em mim, e à saída do teatro meu guarda-chuva esbarra no de Dominique Mercy e no trem para Colônia eu nunca mais quero esquecer esses dias, nunca mais quero apaziguar esse corpo. Quero conservar esse desejo, preservar vaga-lumes, saborear o meu devir-bailarino. Quero que esse trajeto dure tanto.

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Escreva sobre suas vivências em Wuppertal, me aconselharam. Mas como dizer? Como contar de elefantes que se aventuram por entre as janelas de um trem suspenso? E de bailarinos que se lançam numa reinvenção de seus corpos e de si mesmos, e de nós mesmos – um só existindo às custas do outro, todos bambos à procura de um eixo quando os aplausos cessam? Como escrever sobre o que se passa nessa cidade insólita que nem sequer existe?

No prólogo de seu Movimento total, José Gil traz uma fala de Merce Cunningham que é um alento às minhas perguntas e, possivelmente, às inquietações de Tuffi*: “Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”

Agradecimento final em Nelken, Ein Stück von Pina Bausch - Wuppertal, 3 de novembro de 2013.


* De acordo com o site oficial da cidade de Wuppertal, o salto de Tuffi lhe rendeu um bumbum machucado. 

sexta-feira, março 15, 2013

Efeméride

“Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”
José GIL. Movimento total. O corpo e a dança. Lisboa: Relógio d`Água, 2001.

Filha, anote meu telefone. Eu sou espírita e tenho uma coisa pra você. Foi o que disse, ipsis literis, a senhora que emparelhou ao meu lado, em Botafogo, a caminho da volta às aulas. O ceticismo decide que é golpe, mas a vontade acelera um pouco a cadência do peito. Perco a mulher de vista. Na Casa da Empada um temporal se arma, e entre Deleuze, Artaud e Pina um planeta retrógrado indica que é um tempo favorável para releituras – foi o professor que disse, rindo encabulado por resolver acreditar em astrologia. Duas semanas depois, Deleuze guarda os seus ecos, sua voz, e eu não encontro estômago pra estudar.

Perto da impressora do trabalho, depois de uma reunião cujo tema era Clarice, encontro uma barata morta. “Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu” – está lá, na primeira página da Paixão segundo G.H. Se isso é coincidência demais?

E não é coincidência também que, depois de ouvir “Space oddity” pela centésima vez, só ontem eu tenha me dado conta de que o Major Tom morre no fim da música? Achei tristíssimo.  Chorei potes.

As pessoas morrem. E chega o dia que faz um ano que elas morreram.



quarta-feira, fevereiro 20, 2013

O novo porteiro da noite - vol. 2


Data de agosto meu último relato sobre o novo porteiro da noite, e a proximidade do fim do mês de fevereiro por si só já pauta o assunto evidente: a nova safra de férias escolares e o meu reencontro com tal funcionário noturno, numa temporada estendida que atende pelo nome de verão. Confesso, tenho encontrado mais os porteiros diurnos, porque minha popularidade despenca, a temperatura se eleva e hay que boiar no mar, que até ali pelo posto 12 anda com cores que mais parecem artificiais, e ainda que band-aids, embalagens de iogurte e afins continuem lutando por um pedaço de onda, já dá pra chamar de paraíso aquela faixa marinha. Numa próxima vida eu quero saber pegar jacaré, tomar eventuais caldos, me virar pra segurar as partes dos biquínis enquanto os cabelos se enchem de areia. 

Deve ser desejo dos porteiros diurnos também, derretidos pela portaria abafada e pela ineficácia do ventilador. Notei que mudaram até a cadeira, dispensando almofadas e estofados por um reles modelo de plástico, mais fresco, menos grudante e tais condições climáticas e mobiliárias só reforçam a insistência do novo porteiro da noite em permanecer acordado. Pudera. 

Portanto lá estava ele: na primeira noite de férias em dezembro, abrindo a porta do carro quando cheguei do trabalho carregada dos livros que o patrão não queria mais, me ajudando com as sacolas, sentindo meu bafo de chá depois de uma noite agradável na minha livraria preferida. Também não falhou quando, dias depois, cheguei ao prédio de madrugada, depois de um vôo latino e de dias que me deixaram subnutrida, quatro quilos a menos para carregar as malas, que ele prontamente tirou do taxi e alocou no elevador. O novo porteiro da noite testemunhou a minha chegada da festa de réveillon, sóbria como nunca, depois de uma overdose de água de coco. Testemunhou, ainda, os momentos em que mais valorizo a minha solidão: a cantoria que faço no carro, o meu show particular pra mim mesma, uma performance que envolve pulmões, mãos, braços e, sobretudo, a certeza de que ninguém me escuta. Até que veio ele, sempre: o novo e eficaz porteiro da noite. 

Comecei a ficar incomodada com a mania do novo porteiro da noite de se antecipar à minha chegada no terceiro pavimento da garagem: toda vez que eu estacionava o carro, lá estava ele, posicionado para abrir a porta. Começou a bater um constrangimento, e uma irritação pela interrupção que o cavalheirismo do novo porteiro da noite causava. Pense bem: são 11 da noite, o Caetano ainda nem chegou no refrão de “Eclipse oculto” e você tem que desligar sua música, sua voz e descer do automóvel. Em outros prédios onde morei ou dormi, e que eram desprovidos de porteiros da noite, eu era capaz de esperar o disco todo acabar pra subir pra casa. Música tem dessas coisas: às vezes é preciso ouvir o grito final, o suspiro derradeiro, os acordes últimos pra ela fazer sentido. Pra sua vida, naquele momento, fazer sentido. Eu andava super tropicalista, e fiquei realmente puta quando, numa quinta-feira, o porteiro abriu minha porta e a Gal ainda nem tinha se descabelado e afirmado que era o amor da cabeça aos pés. Mais furiosa ainda foi quando, no auge de “Back to Bahia”, eu já quicando no banco, o porteiro se postou ao meu lado e ficou olhando pra minha cara com aquele sorriso permanente que ele tem. Foi quando me dei conta de que o novo porteiro da noite era meio parecido com o Russell Crowe. 

Então passei a me programar pra chegar em casa só no momento que eu julgava propício, musicalmente falando. Eu fazia hora na esquina, diminuía radicalmente a velocidade ou dava uma volta no quarteirão antes de entrar na garagem. Não deu tão certo, porque às vezes a música terminava antes do tempo. A magia da cantoria automotiva ficou seriamente comprometida com as gentilezas do porteiro da noite, a quem eu, obviamente, passei a detestar. Depois de quase dois meses de férias, saindo para jantar, para dançar (cof cof) e/ou para tantos outros compromissos sociais da minha badalada vida, acertei o timing e reconquistei o prazer de deixar o carro no G3. 

Aí veio o Oscar, eu fui assistir Les Misérables num domingo, e na sexta-feira a Anne Hathaway continuava cantando na minha cabeça. Meu carro virou um silêncio até eu comprar a trilha sonora do filme. Tomada pelo desespero de Fantine, engasgada da emoção dos tempos pré-Revolução Francesa e descabelada pelo fim inesperado do antifrizz e da volta às aulas de ballet, chorei copiosamente na primeira execução da canção no meu Volkswagen. O porteiro da noite, a partir de então apelidado Javert, pela semelhança já citada com o ator, e pela falta de sensibilidade, estava com aquele sorriso, dessa vez ligeiramente mais esgarçado, segurando a porta aberta, enquanto eu chorava lágrimas sinceras e cantava, sem acertar nenhuma nota, a música belíssima e cortante da personagem de Anne Hathaway. 

Por sorte março já se aproxima, assim como uma monografia e uma promoção no trabalho que sinalizam que só volto a encontrar o porteiro da noite em setembro, quando as férias de verdade chegarão. Até lá, espero, a Anne Hathaway terá lentamente se dissipado e terei recuperado as rédeas do meu espetáculo. Ainda assim, já penso em tentar o Mestrado.

quinta-feira, junho 07, 2012

Bartleby


-       Quanto tempo durava a conversa ao telefone?
-       Uns quarenta minutos.
-       E assim foi durante cinco anos?
-       Assim foi durante cinco anos.
-       Você nunca viu João pessoalmente?
-       Não, nunca vi.
-       O entregador chegou a ver ele?
-       Só uma sombra, ou a mão que surgia de detrás da porta para, rapidinho, estender o dinheiro. Às vezes, ele já deixava um envelope com o dinheiro no chão.
-       Mas isso é piração, Garrincha.
-       Isso é João Gilberto, meu senhor.


Marc Fisher, em diálogo com Garrincha, o cozinheiro que durante anos preparou o steak ao sal grosso que João Gilberto encomendava (Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto. Companhia das Letras, 2011).

terça-feira, janeiro 31, 2012

Achados de verão


Não perguntávamos sobre todos os guarda-chuvas que víamos e muito menos sobre a diferença que havia entre esses guarda-chuvas pretos e o guarda-sol. Não porque quiséssemos fazer papel de bobos, mas porque, se a gente insistisse muito em obter respostas para uma pergunta como esta, corria o risco de transformar uma coisa rara numa coisa banal.

Lloyd Jones em O Sr. Pip (editora Rocco 2007).

Imagine acordar todo dia e não saber onde estão as coisas – bem, foi assim que acabei. Eu estou me queixando? Espero que não. Minha situação não é um sofrimento. É uma frustração. Você se vê sempre chegando atrasado para a piada. As pessoas à sua volta – no ponto do bonde, por exemplo – estão rindo. Do que elas estarão rindo? Você vê seu rosto se transformando para rir também, mas você tem que esperar. Você tem que esperar por uma pista e partir daí. Talvez você ouça alguém dizer: “Eu achei que ela ia pegar o cachorro.” Então havia um cachorro envolvido, o que quer que fosse; agora já é um acontecimento passado. É assim que você existe no mundo. Brincando de pegar. 

Lloyd Jones em Mundos Roubados (editora Rocco 2012). 

Nenhuma luz na minha cara / Mas ouço o grito na medula / Eu tô sozinha nesse palco / Meu peito bate com a guitarra / Ali no solo da guitarra / Eu sinto aplauso e sinto a vaia / Ah, tudo de novo / Ah, olhos da cara / Ninguém canta pra ninguém / Ninguém me dá uma novo dia / Ninguém me mata de alegria / Ninguém faz nada por ninguém / Se o tempo passa feito bicho / E o bicho come o próprio bicho / Me ama logo, pensa bem /Ai, pensa no amor... / Ah, pensa no amor... / Ou não pensa em mais ninguém

Nuno Ramos, pela voz da Dona Inah, no disco do Rômulo Fróes. 
 

quarta-feira, novembro 10, 2010

Domingo no Parque

Brotam flores das cabeças nesse domingo, estamos no Parque sob uma árvore, tomando notas mentais, alheios às milhares de lagartas que nos olham por entre os galhos e folhas, possivelmente atropelando formigas. Tudo derrete lá fora, desde o sol até as solas emborrachadas dos nossos sapatos de verão, as saias rodadas das moças e as vozes encolhidas nas sombras. Dedos no botão de disparo, frames ensaiados antes de começar um balé. Ainda existe centopéia? Onde? Alguns vaga-lumes dançam à noite na minha sala, para espanto do cão e de todas as crianças que ainda vão chegar. As pessoas aguardam num círculo, um homem de meia-idade parece dormir recostado num tronco, uma toalha cretinamente xadrez cobre parte do chão, provavelmente atropelando formigas também. Não tem sorvete nem rosa nem roda-gigante nem faca. Em vez de amor, cobiçamos alguns doces e espumas cor de champanhe. Tudo parece tão surreal que se a era de aquário despencar sobre nossas cabeças talvez a gente entenda e aprecie toda a performance que se desenrola diante de nossos olhos. Agora além de flores brotam espessas gotas de suor de nossas têmporas, jorra água do chafariz e percebemos como o verão é cruel em nos fazer sair mais cedo. É mais fácil gostar das coisas no inverno. Saímos do Parque sem conseguir enxugar da testa toda a incompreensão, com a triste lembrança de que em vez de voar ou nos enfeitiçar com seus passos de dança, a bailarina, coitada, desabou no chão.

sexta-feira, julho 16, 2010

O dia em que engasguei cantando um refrão do Bon Jovi

Disciplinei meus pensamentos pra que eles viessem à tona naquela terça-feira. Primeiro porque ia chover, e angústia combina mais com céu desabotoado que com sol. E depois porque eu sabia que tinha um percurso longo a ser feito de carro, onde há anos dedico-me a cantar e a debater assuntos: em voz alta, com fervor, sozinha.

Preparei-me pra ida ser apenas o ensaio da volta, afinal eu dirigia-me a compromissos profissionais, onde não podia chegar destrambelhada, o que ocorreria caso alguma canção me pusesse a chorar. Evitei o caminho da praia e escolhi uma lista de músicas segura onde a cantoria fosse apenas digna de final feliz, e concentrei-me nas resoluções (agora) tolas: que iogurte também é leite, e portanto deve ser cortado; que gostaria de ter um par de cada cor do modelo dos meus óculos novos; que preciso investir mais que R$4,00 num xampu. E que preciso, oras, decidir um time de futebol pra chamar de meu.

Foi aí que começou o drama. Por sorte eu já estava na recepção, concentrando-me agora nas coisas sérias do trabalho, crachá na mão, atenta às placas das salas, ufa, é aqui. Interrompi qualquer divagação, fiz cara de simpática e fingi que entendia tudo de novela.

Depois de mais de seis horas de encontros eu estava de volta ao carro, confusa porque a praia da Macumba parecia a maior extensão de areia do planeta, enquanto que a orla da praia da Reserva teimava em não acabar, indiferente às minhas investidas no acelerador. O dilema, então se apoderou de mim, e da seleção musical que agora acontecia em shuffle, descontrolada. Me vi frente às seguintes considerações: não era possível a essa idade tornar-me flamenguista, que pra isso precisava ter vocação. E Vasco, bem, era impossível ser vascaína, por todas as razões óbvias que envolvem um ex-namorado e um time que não sai da condição de vice. Verdade seja dita que meu espírito competitivo se esqueceu em algum lugar distante, mas minha tolerância para piadas futebolísticas é baixíssima.

E mais essa. Torcer pra um time de futebol significa que você tem que interagir e enfrentar as risadas e coisas do tipo? Faz parte do jogo?

Pensei no Botafogo, que adotei em algum momento da vida, e guardei por alguns anos uma camisa no armário. Foi a segunda das camisas esportivas que ostentei, sendo a primeira a que levava o número do Romário e que foi exaustivamente usada na Copa de 94, e a terceira uma camisa de remo do Vasco usada nas aulas de surfe. Ok, pano rápido, pula parágrafo.

Daí que só sobra o Fluminense, que muito me seduz, porque acho o conceito todo do time super vintage. Treinos em Laranjeiras cercados por palmeiras, as cores da camisa. Mas será que são argumentos suficientes pra sustentar uma escolha dessa importância? Começo a achar que não se pode ser torcedor impunemente, da mesma forma que não é possível, do dia pra noite, querer que a Mocidade de Padre Miguel ganhe o Carnaval. São escolhas que envolvem convicções, critérios, afinidades.

Estou sendo dramática?

Chego à praia da Barra desordenada: aflição me consome, cheia de indecisões, diante dum impasse. Como é que eu posso resolver o que fazer com as minhas dores de amor se não consigo nem resolver que camisa vestir? Como pode ser possível escolher profissão se não consigo decidir em que lado da arquibancada quero estar?

É assim, diante desse retrato que agora parece tão claro, que entro no túnel em direção a São Conrado e o ipod explode em guitarras, e mesmo que a música não tivesse nada a ver com a questão da torcida (e realmente não tinha), tudo convergia pra um desabafo em choro. Numa tentativa de retardar as lágrimas, enchi os pulmões e comecei a cantar o refrão: ooooh we're half way there, ooooh living on a prayer. Take my hand and we'll make it, I swear... Mas em vez disso engasguei, e num acesso de tosse achei que morreria sufocada sem assumir uma posição, umazinha que fosse, e num nervosismo crescente estendi o engasgo até a porta de casa, sem mais saber se a música era a mesma ou se uma sinfonia de Beethoven tentava em vão me apaziguar.

Meus olhos lacrimejantes e esmagados em meio à tosse avassaladora clamavam por um tapa nas costas. Inundada de água e ar fresco, e respaldada pela futilidade das minhas atividades, achei que poderia usar como único argumento a estética, e estava prestes a anunciar aos quatro ventos que era a mais nova integrante da torcida fluminense quando o Mauro se meteu na conversa e contou uma história tristíssima sobre o time. A Ritinha por sua vez, mandou um email um pouco revoltado sobre o assunto, apresentando queixas consistentes pelas quais eu deveria descartar os argumentos do Mauro.

No dia em que engasguei cantando um refrão do Bon Jovi eu xinguei esses dois por terem tornado a minha escolha tão mais complexa do que parecia, morri de saudades da Copa do Mundo e decretei: sou América desde criancinha.