Mostrando postagens com marcador efeméride. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador efeméride. Mostrar todas as postagens

sábado, abril 13, 2013

Efeméride - vol. 3


O curioso, no entanto, é que esta soma infinita do que não fará continue sendo aplicada a ele, como uma sentença. Quem morre não tem perdoada a vida que deixou de ter. Não fica isento do aquém, do dia-a-dia que ainda nos domina, descansando num respeito solene dentro do túmulo. Não, nós o prendemos em nossa culpa e em nosso amor, procurando lembrá-lo (mas quem é ele agora?) de cada gesto que não fez, de cada entardecer que não viu. O morto torna-se aos poucos um devedor, e quanto mais tempo passa, maior a vida que nos deve (porque morreu). Sei que não há como lembrá-lo disso, mas não importa – sua surdez é apenas mais uma de suas dívidas: Hoje você não ouviu minhas queixas. Assim, se houver um Além, somos nós que assombramos os que passaram, enchendo sua eternidade de cobranças e lamentos.

Nuno Ramos, Ó. 



domingo, março 17, 2013

Efeméride - vol. 2


Queria estar onde ele está, e o único âmbito em que me consta que nos encontraríamos é o passado, o não ser e no entanto ter sido. Se fosse passado, pelo menos eu me igualaria a ele nisso, já é alguma coisa, e não estaria na situação de sentir sua falta nem de me lembrar dele. Estaria em seu mesmo nível nesse aspecto, ou em sua dimensão, ou em seu tempo, e já não permaneceria neste mundo precário que vai tirando nossos costumes. Nada mais se tira de nós se nos tiram de cena. Nada mais se acaba para nós se alguém já acabou.

Javier MARÍAS. Os enamoramentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, março 15, 2013

Efeméride

“Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”
José GIL. Movimento total. O corpo e a dança. Lisboa: Relógio d`Água, 2001.

Filha, anote meu telefone. Eu sou espírita e tenho uma coisa pra você. Foi o que disse, ipsis literis, a senhora que emparelhou ao meu lado, em Botafogo, a caminho da volta às aulas. O ceticismo decide que é golpe, mas a vontade acelera um pouco a cadência do peito. Perco a mulher de vista. Na Casa da Empada um temporal se arma, e entre Deleuze, Artaud e Pina um planeta retrógrado indica que é um tempo favorável para releituras – foi o professor que disse, rindo encabulado por resolver acreditar em astrologia. Duas semanas depois, Deleuze guarda os seus ecos, sua voz, e eu não encontro estômago pra estudar.

Perto da impressora do trabalho, depois de uma reunião cujo tema era Clarice, encontro uma barata morta. “Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu” – está lá, na primeira página da Paixão segundo G.H. Se isso é coincidência demais?

E não é coincidência também que, depois de ouvir “Space oddity” pela centésima vez, só ontem eu tenha me dado conta de que o Major Tom morre no fim da música? Achei tristíssimo.  Chorei potes.

As pessoas morrem. E chega o dia que faz um ano que elas morreram.