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segunda-feira, abril 24, 2017

clipping # 8

O escritor Ricardo Lísias fez uma linda leitura do Cravos, para o Peixe Elétrico. O link é este. 


sexta-feira, dezembro 30, 2016

clipping # 7


Alguns links para esse blog abandonado:

Em sua lista de boas leituras de 2016, Tatiana Salem Levy encontrou lugar pro meu Cravos. O texto com todas as dicas está na coluna quinzenal que a escritora mantém no suplemento de cultura do jornal Valor Econômico, e o link é este (com um cadastro rápido dá pra ler na íntegra).

Minha estreia na TV foi para o Canal Curta, no programa Revista Curta! que foi ao ar no Natal, 25 de dezembro. A edição é um capricho, agradecimentos especiais à Ana Paula Mansur, que conduziu a entrevista, e ao Toni Rodrigues, que fez uma espécie de assessoria de imprensa afetiva do livro, depois de tê-lo dançado lindamente com a Lu (ainda pretendo escrever sobre isso). Clique aqui, e ainda tem a cena que mais gosto de Pina, doc do Wim Wenders, aquela em que o casal dança no meio da cidade.

Deixei passar essa bela coluna do Fred Coelho para o Segundo Caderno do Globo. Em setembro ele discorreu sobre os pequenos salvamentos que a arte nos proporciona, e cita o Cravos como uma dessas bóias de salvação. Fui aluna do Fred e desde lá paro pra ouvir o que ele tem a dizer, por escrito ou em outros meios, e portanto deu uma alegria especial figurar nesse texto. 

E pra não parecer que só vivo de passado, comecei uma série nova de textos no espaço "Temporada", da Sala Grumo, a convite da Paloma Vidal, escritora de quem sou fã. Em janeiro deve sair a continuação (assim que eu terminar de escrever), por enquanto são quatro relatos que você lê aqui. 

E se tudo der certo, a partir de janeiro atualizo também o endereço do Ornitorrinco com alguma coisa nova, mas não prometo nada, afinal a praia tá ganhando de lavada de qualquer tentativa de ficar no ar condicionado trabalhando.

Feliz ano novo!




terça-feira, setembro 27, 2016

clipping # 6


Duas leituras generosas do Cravos:

No blog Letras In Verso e Re Verso, Pedro Fernandes faz uma leitura cuidadosa e bem reflexiva, e gosto, particularmente, da forma como ele vê a influência da “geração mimeógrafo” em cruzamento com as escritas de si em blogs e redes sociais (mas ele vai bem além disso). O link é este.

No Literasutra, a Adélia Jeveaux foca mais no aspecto da dança e de como escrever o que é o do corpo, e gostei muito da maneira que ela faz da resenha um espaço de confissão de sua própria saudade. Clique aqui para ler. 


quarta-feira, agosto 31, 2016

clipping # 4


Fabiane Pereira me entrevistou para sua coluna que trata de literatura, feminismo e política no site Heloisa Tolipan. À parte o terceiro tópico, conversamos sobre os outros itens e, principalmente, sobre o Cravos, aqui.


sábado, maio 14, 2016

Desvios


Exercício, parte 1:
Trace um caminho pela sala e repita esse caminho em 8, 4, 2 e 1 tempo. Repita toda a sequência acrescentando movimentos com os braços. Repita uma terceira vez incluindo o tronco na movimentação. Na quarta vez feche os olhos, esqueça os tempos e faça o caminho o mais lentamente possível, continuando a movimentar braços e tronco.

Parte 2:
Quando a próxima música começar, ainda de olhos fechados, esqueça o caminho, explore outras direções e continue se movendo o mais lentamente que conseguir.

Parte 3:
Percebeu que você estava num estado de recolhimento, executando gestos que quase entravam em si, e quando pôde abandonar o caminho a sua postura mudou e tanta coisa começou a acontecer no seu corpo? 


terça-feira, julho 28, 2015

Anatomia

“Um amigo meu me recomendou um massagista que é médium”, disse M., o que não soou tão estranho assim porque tem aquele personagem que é atendente na padaria e poeta e todo mundo pode ser um monte de coisas ao mesmo tempo, parece. Isso porque comecei a contar da nova fisioterapeuta: ela ficou comigo duas horas, DUAS horas, me virou do avesso, apertou tudo o que era passível de ser apertado e rabiscou meus pés e minhas costas (e não apagou depois), em todos esses anos nunca vi isso, e discorreu longamente sobre travesseiros, alturas, texturas, rolinhos alternativos, tecnologia da Nasa, plumas, deitar de lado só se abraçar um lance, de bruços nem pensar, de barriga pra cima é mais recomendável. Antes de dormir pensei: fudeu, vai ser pior do que se tivesse alguém ao lado, fosse sobrinho ou amante ou qualquer outra pessoa que eu ficaria monitorando de cinco em cinco minutos.

Uma vez acordei com o edredom meio queimado porque adormeci em cima de uma bolsa elétrica dessas que em 1 minuto ficam quentes, em 3 você apaga, em 7 tem ameaça de fogo à própria cama. Uma vez acordei e mal consegui me mexer porque uma contratura tomava tudo – escápula, romboide, escaleno, trapézio, cervical, maxilar, ombro, braço, cotovelo –, lado direito morto, e isso passou a se repetir desde já nem sei mais, pelo menos uns 8 anos, uma dor crônica que não aparece em radiografias e que é descartada com um “mexa-se de vez em quando, levante da cadeira, dê uma volta”, como se tudo fosse uma questão de sair andando pelo escritório, buscar uma água, tomar um café. Uma vez acordei e pensei que devia haver um serviço para domingos, alguém que se encarregasse da água, do milk-shake, do pão, do disco do Caetano, do chocolate, do chá, da Nutella, mas já tem, se chama mãe, mas não dá pra explicar a origem de todas as dores pra mãe porque umas são ortopédicas, outras não. E não dá pra evitar as despedidas, o vazio que fica na parede porque você resolve dar dois quadros de presente antes do voo, o buraco que fica no pé que foi aniquilado por um salto agulha na noite anterior, e todo o David Bowie que há no mundo, e “Freedom 90” fazendo de copos microfones e da pista de dança casa e dos amigos coração, e de repente os copos-de-leite que foram levados amarrados uma semana antes na bici porque o rapaz não tinha troco, nem tão de repente assim porque já fazia mais de meia hora imóvel no sofá, não resta dúvida, estão marrons.

A anomalia na bacia – coxofemoral, ilíaco, psoas, adutor, acetábulo – deve ser resultado de hérnia de disco e agora não posso nem mais cruzar as pernas, nem conversar de lado, nem dobrar a perna esquerda e sentar sobre ela, e vamos ver, não tenho um diagnóstico, preciso entender como seus tecidos reagem e seguir uma ou duas hipóteses mas certamente a gente tem que reverter esse padrão cervical invertido, recuperar a lordose superior perdida, estica essa perna, vocês que são muito alongados, e vira os olhos como se fosse fazer “pfff” depois, seu teste de frouxidão ligamentar deu negativo, mas todo esse en dehors na bacia, pombas, pensei, não serve pra nada mesmo, nem pro balé, porque chegava na altura do joelho e a rotação sumia como mágica, enquanto ela mete o dedo contra o meu pescoço e eu vejo es-tre-las e tudo o mais que Carolina não viu, uma rosa, um samba, tudo lindo. Não faça nada, e eu me contorcia na maca, conforme for te libero pra natação em duas semanas, mas com ressalvas, não alongue nada sob hipótese alguma, jamais puxe a cabeça pro lado, tem um clube ali ao lado da sua casa, o tempo já vai melhorar. Onde será que essa mulher mora? Há séculos não tem inverno, há séculos estamos em julho.

D u a s  h o r a s , o tempo passa com espaço duplo às vezes, e no domingo eu achava que a coisa mais triste do mundo era tirar maquiagem porque ainda não tinha chegado esse dia em que apenas não há possibilidade de habitar meu corpo desconjuntado. Sente-se bem sobre os ísquios, sinta o chão, as partes moles, as articulações, entregue os olhos no rosto, não é lindo isso?, ai que saudade das aulas de dança, de Cecilia, de todo mundo que já foi embora de novo.

“Quero assinar esse feed da fisioterapia”, M. disse, e à noite calculei que tinha sopa de abóbora para uma encarnação, além de ter contado 12 copos de requeijão consumidos ao longo de 12 meses. Não é nada, mas talvez seja alguma coisa. 




quarta-feira, maio 13, 2015

I never can say goodbye


Músicas para ouvir no fim da festa:

1)      There is a light that never goes out, The Smiths

2)    I never can say goodbye, Jackson 5

3)     Turn your lights down low, Bob Marley

4)    I can’t take my eyes off you, na versão Frankie Valli & the Four Seasons

5)     Because the night, Patti Smith


segunda-feira, maio 11, 2015

Dança contemporânea

“Alterne os planos, Julia, dificulte sua vida”, disse a professora, na aula de dança. Fez sentido.


quinta-feira, abril 16, 2015

25 de junho Michael Jackson
e apenas posso dizer morreu uma vez mais
como só ele pôde e ainda por cima
como quase todos, continuará
morrendo por datas seguintes.
30 de junho Pina Bausch e dela
eu sempre soube pouco a não ser que
também dançava mas sem levar em conta
a dança. Como Pina Bausch em suas viagens
integrava ao seu grupo dançarinos locais
um dia conheci uma moça tão bonita que
dançara com ela. Nossa despedida foi ao telefone
e a linha abaixo a última coisa que ela me disse
tenho que ir, o feijão está no fogo.
2 de julho Rodrigo de Souza Leão
sobre o qual para efeito de luto digo
o que disse também ao fim de um verso
o grande poeta espanhol Pere Gimferrer
digo-o, é claro, sem o mesmo brilho e inflexão
qué triste es todo esto.

Leonardo Gandolfi, Kansas 

quarta-feira, novembro 12, 2014

Panorama - dias 2 e 3

Um a um, seguindo as instruções da mulher sentada na mesa de som à direita do palco, os atores do teatro Hora adentram a cena, se posicionam no centro e encaram a plateia por cerca de um minuto – um ou outro se vira e dispara em direção à coxia em questão de segundos. Outra vez, e ainda individualmente, os mesmos atores voltam ao palco para dizerem seus nomes, idades, profissões e deficiências. A maioria dos atores da companhia suíça têm síndrome de down e reencenam em Disabled theater a relação que estabeleceram com o anticoreógrafo francês Jérôme Bel, também chamado por críticos e especialistas de um “provocador” da dança.
As instruções seguintes, então, determinavam que os atores escolhessem uma música e executassem uma coreografia. Bel escolheria as melhores para compor a performance. Todos os atores permanecem no palco, sentados em cadeiras em semicírculo, enquanto os eleitos dançam.

A trilha vai de Charleston a Michael Jackson. “They don’t really care about us” é dançada ipsis literis por Julia Häusermann, que até o momento de seu solo tentava chamar a atenção do rapaz sentado a seu lado, o mesmo que tem um certo grau de autismo. Julia se joga languidamente no colo do garoto, depois de demonstrar uma energia pélvica de dar inveja, arrancando ainda mais aplausos. Os atores também se agitam nas cadeiras em movimentos ora sincronizados, ora espontâneos, marcando batidas ou frases das canções escolhidas com os pés ou erguendo braços e punhos, às vezes cantando trechos.

Em seguida, os atores voltam ao centro do palco para dizerem o que acham da performance e do trabalho com Bel. Um deles reclama que queria dançar também, expondo sua mágoa com o diretor, que acaba cedendo aos apelos e dá mais tempo para a execução das coreografias que haviam sido deixadas de lado. Julia aproveita o momento para reclamar que queria mesmo dançar ao som de Justin Bieber, ao que é atendida. Ela canta “Baby” com emoção: é a grande estrela da noite. Saímos do (xexelento) Carlos Gomes encantados por ela.

Por fim, eles agradecem com a vênia habitual, o público delira e eu não sei o que fazer. Fico atenta aos comentários da plateia à saída do teatro, converso com um casal de amigos que também estava lá, leio mil críticas e mando os links para eles, porque teremos tempo suficiente do Centro à Cidade das Artes, no dia seguinte, para debater tudo o que for pertinente. A única coisa que concluo é que morro de preguiça, e então para mudar de assunto conto para eles que uma vez, há uns anos, denunciei um foco de mosquito que havia no lobby do teatro. Era o auge da dengue e havia uma espécie de disque-denúncia de focos de mosquitos, o que provavelmente ainda existe, e você podia acompanhar o desenrolar das ações municipais.

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A Cidade das Artes é quase tão desoladora, numa outra esfera, quanto o Carlos Gomes, e nunca sei se as obras estão prontas ou se ainda faltam coisas – grama, acabamentos e afins – mas também nunca sei se a Travessa de Botafogo está completamente concluída.


Drumming é uma coreografia de 1998 do Rosas, a companhia belga de Anne Theresa de Keersmaeker. Com música de Steve Reich e figurinos de Dries van Noten. Drumming é exaustiva, composta de uma sequência de movimentos e gestos espiralados, e te coloca num transe, parte por causa da música, parte por causa da dança. Uns acham datado, outros saem da grande sala reproduzindo braços e pernas aqui e ali e eu não sei o que fazer, mas por outra razão. Drumming, para mim, é até meio simples: gente dançando num patamar de excelência bonito de se ver. É mais ou menos o que eu quero, sempre. 


domingo, novembro 02, 2014

Panorama - dia 1


"You were born naked and the rest is drag."
Ru Paul 

Trajal Harrell está na porta do Teatro Café Pequeno cumprimentando cada um que chega para assistir seu número. Ele é um negro americano baixinho com olhos que ocupam quase todo o seu corpo e que imagina o que teria acontecido se alguém da tradição Vogue tivesse encontrado os bailarinos pós-modernos da Judson Church em 1962, em NY. Por acaso eu mais ou menos sei um pouco das duas coisas, e o que me leva até ali numa tarde quente de 2012 é justamente a expectativa de ver uma possibilidade desse encontro impossível. Poucas pessoas têm a mesma curiosidade que eu e quando fica evidente que ninguém mais vai aparecer ele nos convoca a sentarmo-nos em círculo no chão, explica sua ideia e nos distribui textos em uma espécie de apostila. Ele nos avisa que treme em função da intensidade dessa performance e da proximidade com o público. E numa quase escuridão nos entrega a versão XS de seu “20 looks or Paris is burning at the Judson Church”.

Dois anos depois entro num taxi com um casal de amigos e comento que sim, sei mais ou menos do que se trata o espetáculo para o qual nos encaminhamos num novembro não menos inclemente. Pouco depois o mesmo Trajal, com seus olhos engolidores, mas agora de cabeça raspada, está na entrada do acesso à plateia do Teatro Municipal, e logo no palco, microfone em punho, contando para todos nós que a versão L de “20 looks or Paris is burning at the Judson Church” não tem qualquer intenção de recriação histórica, mas que se trata de uma hipótese imaginativa que só pode acontecer hoje e agora, conosco. É bom se sentir especial, mesmo que.

Trajal treme. Seu espetáculo pode variar de tamanho e duração dependendo das condições e locais de apresentação. O que nos espera é uma versão que ainda mistura Antígona em cerca de duas horas que ele nos garante que passarão mais rápido do que possamos perceber. Um de seus bailarinos entoa, à capella, o hino da casa deles: “Hit me baby one more time”, da Britney Spears, arranca risadas. A minha solidão também está me matando.

Bailarinos vestidos discretamente de preto e branco dançam músicas pop alternadamente, iluminados por um foco de luz sobre um quadrado branco e já desconfio de que passarei o domingo todo ouvindo repetidamente uma canção da Tori Amos que é quase uma intimação para se jogar. Além de Trajal, são mais 4 em cena, e todos são um acontecimento, especialmente aquele que, calçando saltos vertiginosos e exibindo um peito de pé inverossímil, encarnará o apresentador do desfile de príncipes, sem se dar por satisfeito. O desfile das “mães” vem logo em seguida, e é um pouco mais alentador assistir a tudo isso se você tiver visto Paris is burning, o documentário de Jennie Levingston que retrata os bailes do Harlem dos anos 80, movimento de um submundo gay e transgênero em que a dança Vogue surgiu, em alusão à revista de mesmo nome. O clipe da Madonna ajuda a entender um pedacinho, mas tudo vai muito além, inclusive a performance de Trajal.

À parte qualquer didatismo ou escola de dança envolvidos nesse encontro imaginário, o show de Trajal é louco, divertido, interminável e lá pelas tantas faz pensar que uma versão tamanho M poderia ser melhor. Confesso que a poucos minutos do final abandonei o barco, otimista com a perspectiva de fazer xixi sem fila e divertida com a mensagem de uma amiga que me perguntava “você também está neste suplício travecoso?” – e que, depois que furei o jantar, me desejaria mais 5 horas de “travestis convulsionantes”. Realmente, que canseira. Realmente, que liberdade, e eu que achava que ter cortinas em casa te dava aval para qualquer coisa.

Entre narrações, músicas cantadas pelo próprio coreógrafo, jograis insanos (“Se fossem alunos da CAL num teatro obscuro a gente ia achar uma merda, Julia!”, disse alguém no caminho de volta, e eu ri), fios que se estenderam das mãos de Trajal até os fundos da plateia do teatro por sobre nossas cabeças graças ao bailarino francês pulando de cadeira em cadeira, mitologia, questões de gênero, sexualidade e recortes culturais de coisas que amaria ter visto ao vivo o que sobressai é um mundo tão de Trajal que muitas coisas soam como piada interna. Mas todo mundo se contorce quando ele afirma que deveríamos reivindicar uma Uniqlo à Dilma.

Deveríamos ter tirado fotos do grupo de drag queens que causou furor no Teatro, possivelmente deveríamos ter nos entregado mais quando Trajal conclamou uma festa em todos os setores do teatro e parte do público, resistente, levantou, dançou, gritou, aplaudiu enquanto outra parte se sentiu obrigada a, na expectativa de que aquilo fosse o encerramento tão aguardado.Outros já tinham ido embora há tempos.

Deve ser anarquia. E depois de revirar os olhos seguidamente, eis que fiquei parte do dia seguinte atormentada. Deve ser aquilo que o Salinger diz nas últimas frases do Apanhador: “Don’t ever tell anybody anything. If you do, you start missing everybody.”

 

segunda-feira, agosto 25, 2014

Plateia

Era novembro e eu estava num lugar remoto e molhado na Alemanha quando recebi um email da Paula perguntando quem queria ver uma peça do Bob Wilson na semana seguinte. Àquela altura das férias, com 31 anos de escoliose nas costas, qualquer perspectiva de ficar sentada por mais de uma hora era um alento. Viajar é um elixir da juventude: você anda o que não caminharia uma vida inteira, é capaz de arrastar malas pesadas por estações de trem em língua estrangeira e qualquer incompreensão faz parecer que o mundo é um lugar apaixonante – mesmo que o seu quadril sofra dores semelhantes às de uma agulha repetidamente espetada num boneco de vodu que tenha a sua cara.

Eu vinha de uma apresentação do Nederlands Dans Theater em Haia, num programa irregular belamente encerrado com Gods and dogs, uma coreografia hipnotizante de Jiří Kylián. De lá rumei para Wuppertal, onde em meio a lágrimas irrepresáveis assisti Nelken e Wiesenland, ambas peças de Pina Bausch, a segunda com direito a esbarrão em Dominique Mercy à saída da Opernhaus. Pelos meus cálculos eu só viveria algo próximo disso outra vez se a própria Pina reencarnasse e dançasse Café Müller no Theatro Municipal do Rio. Pelos meus cálculos, portanto, eu estava praticamente liberada do meu papel de plateia pelo tempo que durasse esta vida. Por outro lado, se esta vida melhorava a cada entrada num teatro europeu, a chance de que no penúltimo dia antes de voltar pra casa eu fosse fulminada por alguma coisa não me fez hesitar. E era o Bob Wilson. Em Paris. No Louvre. Com a Paula e mais 2. E sem baldeação no metrô.

Lá fomos nós, então, pirâmide adentro numa noite que prometia mágica, nunca sono. No centro de um palco azul, tomado por cartazes com palavras e pedaços de frases, estava Bob Wilson, de branco, com uma maquiagem carregada que deixava seu rosto tão engessado quanto o ritmo da peça. Sentado a uma mesa ele monologava A lecture on nothing, de John Cage: “More and more I have the feeling that we are getting nowhere. Slowly, as the talk goes on, we are getting nowhere, and that is a pleasure.” O trecho era repetido em looping, em nuances que iam do enfado à exasperação, quando Wilson gritava e despertava risadas nervosas na plateia, possivelmente num reconhecimento de sua própria angústia. Eu mesma procurava o sinal luminoso da saída de emergência, uma que de preferência me levasse diretamente ao encontro de alguém que pudesse me explicar todo o entusiasmo do mundo em torno do diretor, porque naquele momento eu me sentia, sobretudo, burra. Porque se alguém estava achando tudo aquilo chatérrimo, era essa a única explicação possível: burrice crônica.

Mais burra ainda, calculei, quando fiz o caminho até a Barra da Tijuca para ver The old woman, no fim de semana. Eu gosto de dança, pensei, não de toda essa exatidão de luz e sons. Gosto da respiração e dos baques dos corpos, do peso e dos improvisos de quando os pés se desencontram. Gosto dos esbarrões. E ali naquele palco de Bob Wilson, me parecia, nada disso cabia. Mas era o Bob Wilson. No Rio. Na Cidade das Artes. Com o Marcelo e mais quantos? E com o Willem Dafoe e o Baryshnikov.

Lá fomos nós, naquele monumento de concreto e vento, numa noite que prometia tédio, e tudo ia bem com a coluna e o quadril, eu poderia até recusar ficar sentada. Em todos os cantos de um palco que exibia cores desconhecidas, o que vi tinha tudo daquilo que eu já tinha visto: uma precisão desconcertante de luz, palavra, música. Mas era absolutamente outra coisa, apesar de ser quase a mesma. “This is how hunger begins”: uma comédia com tintas de palhaçaria, melancolias e um nonsense pontuado por estalos, gestos marcados e tão sincronizados que é difícil acreditar que Dafoe e Baryshnikov façam outra coisa que não passar o tempo juntos, se aprendendo. Também existe ali a possibilidade de uma narrativa, mas seu roteiro é constantemente torcido, te desviando para lugares opostos - ora incômodos, ora familiares - sempre absurdos.

Como da primeira vez, não falta chatice a The old woman, tampouco histrionice ou repetição. Falas são executadas como um mantra, à saída do teatro decoramos trechos. Em seu Exercises de style, Raymond Queneau escreve a mesma história 108 vezes. É cansativo como as repetições de Wilson, até quando se gosta delas, até quando as escolhas cênicas e inflexões, como as palavras e ritmos de Queneau, transformam o que está sendo dito. É aquela máxima levada à exaustão na prática: haverá tantas histórias para se contar quanto existam leitores para ler, e tantos palcos para desvendar quanto cadeiras numeradas na plateia.

Perseguir Wuppertal é a minha ambição, e não apenas no que ali havia de deslumbramento, mas no que havia de viver uma experiência em que se é tragado para um universo do qual se torna difícil sair. Ainda que fosse insuportável, a Leitura sobre o nada de Wilson me fisgou de forma tão absoluta que ficou marcada. Dificilmente vou esquecer aquela noite, e quando me lembrar ou falar dela sentirei todo o incômodo físico, me contorcerei na cadeira em que estiver sentada, elevarei a voz e farei caretas. Quando conversar com alguém sobre A velha, tudo voltará pro corpo de outra forma: sorriso, mãos que tentam desenhar movimentos de luzes e toda uma mímica do gostar, com uma breve interrupção, talvez até bufe para concluir que, apesar de tudo, tem uma ameaça de de repente tudo se tornar chato de aturar. 

Perseguir essa desmedida das coisas, nem tanto pela perspectiva do aplauso ou do choro, mais por habitar durante algumas horas esse mundo instável e tão vivo, esses mundos efêmeros aos quais queremos nos agarrar. Em alguns casos funciona. E então começa a fome.   


quarta-feira, janeiro 08, 2014

Chuva, Wuppertal, elefantes e outras obs.

Os elefantes, de acordo com os estudiosos do assunto, são criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas.
Clarice Lispector in A legião estrangeira

“Julia, quando fui pra lá vi uma placa de boas-vindas indicando que a cidade tinha 3 McDonald’s. É menos do que existe no Barra Shopping!” – com esse argumento, e não que fosse a primeira tentativa de persuasão, Lucas me impediu de confirmar minha reserva de 5 dias no hotel Ibis de Wuppertal, cidade alemã que não figura em guias de viagem. Tente o Fodor’s, o Lonely Planet, o Guia Visual da Folha ou qualquer outra publicação da seção de turismo: Wuppertal não está lá.

Tente a Wikipedia brasileira e você vai descobrir 3 filhos ilustres de Wuppertal: a aspirina, Engels e o Hans Donner. Se o braço nacional da enciclopédia precisa de 31 linhas para descrever o cenário, a Wikipedia de língua inglesa revela-se bem mais prolixa: 49 linhas e 34 colunáveis. Ambos os endereços jogam luz sobre o Schwebebahn, o monotrilho (ou monorail) que há 110 anos transporta os habitantes, os visitantes e, eventualmente, um elefante pela cidade de Wuppertal. Tente o site oficial da municipalidade: há um relato insólito que narra a curta viagem de Tuffi, garota-propaganda do circo Althoff, no trem suspenso. Pouco após ser colocada em um dos vagões, a filhote de elefante saltou para a liberdade e para a fama mundial entre aqueles que se deparam com Wuppertal em seus caminhos.

Ainda que Wuppertal já ostente 9 McDonald’s, segui os conselhos do Lucas e reservei um quarto em Colônia: a previsão era de trens, chuva e duas peças da Tanztheater de Wuppertal, companhia de dança que durante quase 40 anos esteve sob a direção de Pina Bausch e que justifica o itinerário que eu nunca pensara em escolher para as minhas férias.

Tudo começou bem antes, quando me sentei na poltrona 33, fila H, balcão nobre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Era 7 de abril de 2011: as cortinas abertas revelavam um rabo de baleia à direita do palco, o público tomava seus assentos, eu enrolava e desenrolava meu ingresso nos dedos enquanto esperava os primeiros movimentos de Ten Chi, peça de 2004 fruto de uma residência da companhia no Japão. Até o final da performance cerca de 3 horas teriam sido transcorridas; 8 pessoas teriam aproveitado o intervalo para abandonar seus lugares na fila G à minha frente; uma torrente de neve – ou flores de cerejeira – teria forrado de branco o palco do Municipal, encobrindo bailarinos, vestidos e cabelos, estes adquirindo vida própria e executando uma coreografia paralela àquela dos corpos em cena.

Saí do Theatro num choro tão físico, de soluços e arquejos, segurando-me pelo corrimão escada abaixo: Ten Chi penetra os alicerces do corpo, alterando principalmente as capacidades musculares e gástricas. Tivesse uma epígrafe, a do meu pranto seria aquela de Barthes que diz que “a leitura seria o lugar onde a estrutura se descontrola”.

Esse descontrole: uma invasão de afetos não catalogados; gatilho de lágrimas e de uma paralisia momentânea; o choque de reconhecer no corpo alguma coisa tão primária e ao mesmo tempo tão complicada de dimensionar; motor de ideias e de gestos que substituem a fala quando você tenta, inutilmente, explicar para alguém -  braços e mãos que se dobram e se projetam da direção do abdome para a frente, como se pudessem tirar do estômago alguma tradução diante dessa dança. Esse descontrole: convém persegui-lo.

E ele está ali, 3 de novembro de 2013, 10 euros de taxi da Hauptbahnhof até a Opernhaus de Wuppertal, nos meus olhos que se inundam quando reconheço Lutz Förster no foyer do teatro, na minha boca que não fecha ao olhar os pôsteres espalhados pelas paredes, no meu riso que escapa quando vislumbro o tapete de cravos cor de rosa que cobre o palco, nos primeiros acordes de uma versão da década de 1920 de The man I love com aquele homem de terno sozinho no meio das flores fazendo sua linguagem de sinais, nos meus pés ritmados e o cantarolar baixinho das Pastorinhas que eu não esperava na trilha, na minha tentativa frustrada de roubar um cravo pisoteado do cenário quando Nelken se encerra e as pessoas já deixam a plateia.

E também: 5 dias depois, 8 de novembro, no palco uma espécie de gramado vertical ou um pedaço de um penhasco – uma parede de superfície irregular coberta de folhagens e plantas -, do verde cai uma goteira ininterrupta, como se poucas horas antes tivesse chovido uma tempestade e nós víssemos, então, o depois: cheios de vontade de abrir a boca e beber da água que escorre, como fazíamos quando éramos crianças.

Uma das bailarinas, usando camisola fina e branca, caminha em direção ao fundo da cena. Agachada próxima ao penhasco, ela se banha com a ajuda de um balde e fica ali numa calma inabalável, indiferente à entrada de uma música e de um bailarino. Ele veste calça e camisa social, entra correndo no palco e em algum ponto tenho a impressão de que desliza seus pés descalços pelo chão até frear e iniciar uma sequência de movimentos: o corpo todo participa e os braços constantemente se voltam para os céus, assim como a cabeça, e tudo parece sair bem do meio do seu tronco para as extremidades, como se lançasse raios de si mesmo ao redor. Ele se reveza com outros bailarinos que se alternam nessa sequência de corrida, deslize, freio: braços e cabeças para além (quando entrarem para os agradecimentos vou perceber que eles são muito menores do que parecem) e há uma urgência nessa escala – o palco não pode ficar sozinho, nós, sentados ali na frente, não podemos e não queremos ficar sozinhos, e de repente os homens entram e saem velozes, enchendo a cena em contraste com ela: lenta, brincando com seus cabelos, roupa agarrada na pele.

Eles dançam e dançam e dançam enquanto ela se encharca e nem percebo quando ou como desaparece. Tudo isso acontece embalado por uma música que fala de Angola e que cantarei ininterruptamente na minha cabeça nos dias seguintes, e tudo isso perfura coisas em mim, órgãos em mim, e à saída do teatro meu guarda-chuva esbarra no de Dominique Mercy e no trem para Colônia eu nunca mais quero esquecer esses dias, nunca mais quero apaziguar esse corpo. Quero conservar esse desejo, preservar vaga-lumes, saborear o meu devir-bailarino. Quero que esse trajeto dure tanto.

::

Escreva sobre suas vivências em Wuppertal, me aconselharam. Mas como dizer? Como contar de elefantes que se aventuram por entre as janelas de um trem suspenso? E de bailarinos que se lançam numa reinvenção de seus corpos e de si mesmos, e de nós mesmos – um só existindo às custas do outro, todos bambos à procura de um eixo quando os aplausos cessam? Como escrever sobre o que se passa nessa cidade insólita que nem sequer existe?

No prólogo de seu Movimento total, José Gil traz uma fala de Merce Cunningham que é um alento às minhas perguntas e, possivelmente, às inquietações de Tuffi*: “Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”

Agradecimento final em Nelken, Ein Stück von Pina Bausch - Wuppertal, 3 de novembro de 2013.


* De acordo com o site oficial da cidade de Wuppertal, o salto de Tuffi lhe rendeu um bumbum machucado. 

segunda-feira, setembro 16, 2013

Assum branco - vol. II

(outros sinônimos)

Ali naquela conversa eles planejavam fazer mesas com as próprias mãos – é o que os artistas perseguem, não é? Deixar seu rastro. Da outra vez que estive ali havia um martelo displicente sobre uma pilha de livros e eu comecei uma coleção de fotos dos cantinhos, dos ramos de flores, das folhagens na cozinha, das fotos e postais. Desta agora o desenho da porta emoldurado na parede, maços e maços na varanda, uma briga que eu nem sei se acabou bem, um hematoma na perna direita que me faz crer que nos atacamos.


Entre uma dose de vinho e outra, na confusão dos copos de requeijão Aviação que nos serviram de taças, no barulho que 12 pessoas fazem juntas numa tarde, Pedro puxa uma cadeira e me conta de suas aulas de teatro, da temporada, da tentativa de entender o que acontece consigo depois de experimentar estar em cena, seu corpo, sua carne – eu quase choro, porque ele sabe que aconteceu um troço meio mágico que ele não dá conta de explicar, e sinto saudade de sentir isso também, e devoro tomates quando ele diz que está dançando. Pedro está dançando – uma caixa de surpresas – e tem como mestra uma ex-bailarina de Pina Bausch – e eu vejo toda uma vida que eu poderia levar em Pinheiros, vizinha da cozinha com piso de ladrilhos, da estante de livros que contém dois Suicídios exemplares emparelhados, do armário amarelo. Pedro está dançando – eu esqueço de contar para ele que comprei passagens para Wuppertal – e com certeza ele vai entender tudo o que precisa. 




quarta-feira, setembro 11, 2013

Assum branco*


Onde está teu sinônimo no mundo?
Clarice Lispector, Um sopro de vida

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Estou obcecada por uma música tão linda quanto triste* e não sei o que fazer, eu disse a ela. É como se eu perseguisse uma melancolia. Faz sentido?, eu perguntei e ela riu. Deve fazer. 

Perguntei, também, se era muito cedo pra falar dele, e é claro que era, e ela concordou. É que aquele dia, no sofá, tudo o que ele falava eu emendava, exceto o final: comecei a chorar naquele segundo ato (eu também); e aquela neve (eu também); e não conseguia parar (eu também); e como é que se levanta da cadeira depois? (eu também); eu estava bem perto do palco, peguei um pouco da neve e guardei no bolso do casaco (ele disse, e como é que se levanta do sofá depois? E, de alguma forma, acho que ainda estou por ali, esparramada sentindo o peito dele subir e descer.)






sexta-feira, maio 10, 2013

O Boticário (e eu) na dança


Fiquei muito feliz quando, já não lembro quando, li uma matéria que anunciava a chegada de um novo festival de dança contemporânea no Rio, São Paulo e Curitiba. Aqui na cidade maravilhosa nós vivíamos condenados ao Panorama, consolidado há muitos anos na praça. Não me entendam mal por “condenados”: a programação do Panorama é sempre riquíssima e graças a ele diversas companhias (nacionais e internacionais, consagradas ou consagráveis, clássicas e experimentais, boas ou ruins) pisaram nossos palcos, parques e jardins. Mas é pouco para uns, esses que, impossibilitados do próprio movimento, precisam do gesto alheio.

É uma sina: conversando com a Luiza no balcão nobre do Theatro, falávamos das nossas tentativas de yoga, pilates, natação e que tais. Mas as coisas não bastam, e tem sempre o momento em que, numa tentativa de fazer os outros entenderem, tentamos verbalizar essa falta. Citamos suor, sempre, e sempre falta. Somos como o revés daquela personagem de Andersen, atrás de um par de sapatos vermelhos que nos restitua esse pedaço que fica meio morto enquanto não dançamos.

Daí a boa surpresa. Uma empreitada ambiciosa de cinco dias no Municipal. O mesmo programa em São Paulo e um pocket para o Guaíra, no sul. Cinco dias de um ar condicionado impiedoso, que deixou congelados (quiçá necrosados) narizes, mãos e toda pele exposta. Sete companhias, oito performances, duas paixões tão potentes quanto o frio e um sem número de inquietações temperadas de cachecóis, algumas lágrimas e uma vontade louca de comprar colônias, batons e xampus.

Minhas notas são mais ou menos as seguintes.

Shen Wei Dance Arts (dia 1)

A minha primeira Sagração da Primavera (ao vivo) é a coreografia de um chinês radicado em NY e sou completamente feliz na plateia. Shen Wei traduz as nuances da música nos corpos precisos, nos braços a princípio tensos e que aos poucos se descolam da lateral do corpo, nos movimentos que começam por escápulas que se deslocam e nos braços que desenham e desenham e desenham. Gosto desse corpo ágil, dos fluxos que detonam novos giros, da forma como o espaço se ocupa. Nos dias seguintes ouviria comentários como “era só dança”. Não que houvesse menosprezo, mesmo porque, me parece uma extravagância que ainda se possa só dançar. No segundo ato entra em cena Folding, que descortina um mundo plástico fascinante. As criaturas de saia vermelha escarlate se movem lentas. Criaturas da mesma espécie, mas vestidas de negro, atravessam o palco aos pares, carregando-se uns aos outros em ângulos que desafiam os músculos abdominais. A velocidade é sutil, a luz é divina e, embora completamente diferente da Sagração da abertura, Folding é nitidamente cria do mesmo coreógrafo: estão lá outra vez as escápulas que levantam ombros, que por sua vez flexionam um braço enquanto o outro se estica para o céu, numa contorção de tronco que confere sinuosidade e ainda mais estranhamento aos seres brancos, oníricos, sensacionais.

Hofesh Shechter Company (dia 2)

Não me arriscaria à pronúncia do nome, batismo do coreógrafo ex-baterista de uma banda de rock. O israelense de Londres suscita cisões no público e no dia seguinte há quem insinue que detestamos a apresentação porque havia ousadia demais. Vejamos: o coreógrafo recupera tradições da dança judaica num palco cujo pano de fundo é uma banda de percussionistas fardados, guitarristas gélidos e um cantor-ditador que berra coisas incompreensíveis. A trupe de bailarinos (elenco da Benetton em campanha da Gap – um quê de David Parsons no ar, algo de Jesus Christ Superstar também) dança, pula, se estrebucha, subjugada por essa banda opressiva. É possível vislumbrar alguns elementos no meio de tanto clichê. Gosto da agressividade inicial, mas ao longo da encenação ela se pasteuriza e parece ensaiada, nada autêntica. Cavando na memória, lembro da violência de Violet, da Meg Stuart, essa sim mais possível, com seus sopros que transformavam os bailarinos em pêndulos. De agora, gosto das posturas, sempre meio curvadas; mesmo quando erguem braços e mãos para cima ainda resta um peso, como se seus centros tivessem sempre ligados à terra. Gosto da investigação dos gestos judaicos e de um ou outro duo que se desenvolve. Quando a frase engraçadinha aparece – “Where there is pressure... there is folk dance” – os celulares disparam e há um flood no instagram, e então alguma coisa mais concreta se delineia no meio das impressões: é tão bobo. A música à la Disney encerra com o rewind do haraquiri que abrira, constrangedoramente, a peça, sob o letreiro projetado com o título da coisa: Political mother. “Deus queira que não haja um Political father”, disse o Reis. Concordei, ainda que não tenha sentido a metade da fúria que ele provou aquele dia. “A luz era foda”, ponderou o Marcelo. É, a luz era foda.

Peeping Tom (dia 3)

A companhia belga faz cinema no palco e eu, enrolada numa pashmina que é quase uma manta, procuro posição na diminuta cadeira para dormir: quando os primeiros personagens adentram o belíssimo cenário (neve, poste, trailers) e uma das bailarinas (?) começa um número de contorções, entendo que aquilo não é para mim. Todo mundo ri e eu não vejo nada engraçado. Quando a dupla de asiáticos entra no palco e o burro de carga se desequilibra e cai com o peso da bagagem, se desequilibra e cai, se desequilibra e cai... todo mundo ri muito. A mim parece um reunião de pessoas mostrando o que sabem fazer. As pequenas narrativas existem para que essas aptidões tenham seu holofote. Tem gente feliz, que bom. À saída, concordo com a Carla, que diz: “Não é fácil querer ser Pina Bausch.” Um rapaz da produção comenta com um colega: “Isso foi uma das coisas mais lindas que já vi nesse palco. Isso e o Momix.” Uma conhecida para quem dou carona declara ter vivido uma noite mágica, como quando viu Donka. “É que eu não gosto de circo”, digo, e ficamos combinadas assim. No dia seguinte, no trabalho, a Rosana está preocupada com a minha alegria, nitidamente comprometida. Pensando bem, concluo, gosto dessa polaridade: é sinal de vida. Pior seria todo mundo ficar indiferente.

Mimulus e Maribor Ballet (dia 4)

As primeiras luzes de Mimulus se acendem com essa contabilidade desfavorável: ainda que goste do debate e das falas entreouvidas aqui e ali, gosto mais do êxtase que certas coisas provocam. Mais do que querer, esta noite eu preciso gostar, por uma questão de sobrevivência. O ar-condicionado atinge temperaturas intoleráveis e eu estou munida de 2 pashminas e fé, se não cega, muito míope. Não é preciso mais que 10 minutos para saber que os corredores, bem menos glaciais que o balcão, são a felicidade de que disponho por ora. Quando saio me esquivando entre as fileiras, percebo rumores de reclamação, gente bufando à minha passagem. Tenho certeza que bufavam pelo que acontecia a metros dali, sob as luzes nada fodas da companhia mineira. No intervalo, Reis e eu discutimos a nossa permanência no local. 

A segunda parte do programa da noite previa um Romeu e Julieta ao som de Radiohead, dançado por um balé esloveno. Ficamos. “Vamos sentar no corredor”, eu disse, “se quisermos sair no meio vai ser mais fácil”. Ele concordou. O trauma une as pessoas. Alguns minutos de expectativa, que aumentou à medida que o vídeo em PB projetado no palco se desenrolava. E de repente: “Fitter, happier, more productive...” Um ser de outro planeta sola, para assombro dos mortais. Classicamente deformada, enorme, naturalmente branca como as criaturas de Shen Wei. Nervosa, rígida, com gestos calculados e uma precisão desconcertante. Braços e pernas a perder de vista. Meu deus. O que podia ser um desastre prova-se um presente para nós. Fugindo a qualquer obviedade, as escolhas musicais formam uma trilha que parece ter sido inteiramente composta para a criação de Edward Clug. O frio da Eslováquia, representado tão bem pelo sistema de refrigeração do Theatro e presente nos gestos e movimentos daquele corpo de baile, é uma porrada. E ainda que o espetáculo de Clung tenha lá seus percalços, não havia outro destino para nós aquela noite: bênção. Choramos, amamos e chafurdamos em chocolate quente até de madrugada, sem nem querer conversar muito para não atrapalhar os rastros que ficaram na nossa carne.

Quasar e Grupo de rua (dia 5 e último)

Foi no teatro da UERJ onde vi o Quasar pela primeira vez, num tempo remoto pré-dadaísta. De lá pra cá, os balés de Henrique Rodovalho foram flertando cada vez mais com o nonsense e o aleatório, a ponto de todo mundo sair de sua plateia desnorteado, sem entender, sem decifrar, sem saber porque um amigo não o aconselhou a abandonar um ou outro trecho. O Quasar na UERJ era uma dança que falava de solidão. Um cenário que retratava dois apartamentos vizinhos tinha uma parede que os separava e que era derrubada ao final. Um dos moradores passava uma parte da performance num conversa telefônica à la disk-amizade não fictícia. O vizinho pedia uma pizza que, minutos depois, era entregue por um motoqueiro que adentrava o palco sem ter muita certeza do que estava fazendo. Rodovalho não abandonou o humor. Ao contrário: se apropriou dele com tal vigor que o público gargalha e aplaude com vontade. Outro Quasar que vi: um solo que Daniel Calvet dançou no SESC e que era inacreditável de tão bom e do que o menino, magrinho, conseguia fazer. Ele era a perfeita incorporação do estilo do coreógrafo: aquela desconjunção pontuada por chicotadas de cabeça e quebra de articulações e dobras. Mas meu queixo caiu mesmo com Só tinha de ser com você, uma dança que se fazia ao som de Elis & Tom, disco dos anos 1970. O que se passava ali era dança pura, como na Sagração de Shen Wei (ele ficou, não tem jeito): bailarinos dançavam, e era lindo e suficiente. Sinto saudade desse Quasar. 

O deste festival tem seus momentos: os duos de “Recanto” são belos e pautados por uma luta gingada, referência constante nas dinâmicas do goiano à frente da trupe. Algumas piadas me embarcam e está lá o Calvet, desta vez um pouco eclipsado pela presença de um bailarino que rouba os brilhos. Gosto da Valeska, bailarina que criou raízes na companhia e tem uma postura entre a empáfia e a ironia. Debochada, talvez. A trilha sonora pode ter Camille e Céu, entre outros. Uma piração que não junta lé com cré e que parece entreter os bailarinos e o público. Para fechar este No singular, um dos bailarinos anuncia que é chegada a hora que muitos haviam esperado, e de repente o palco se enche de espectadores que haviam ensaiado uma variação para dançar junto com o excelente elenco do Quasar. Um flashmob cheio de pompa. Luiza e eu nos olhamos sem acreditar que perderíamos essa. E lá estava: uma cabeçada executava a sequência que, em vídeo postado no YouTube, Calvet e Rodovalho tinham ensinado. Apoteose de quem subiu. Que inveja...

A Dança de Rua de Bruno Beltrão, reconhecida internacionalmente, abriu as entranhas do palco do Municipal, deixando à mostra coxias (agora extintas) e a parafernália que sempre se escondem. Surpreendente, a companhia é formada por uma mulher e diversos homens. Ousada (agora sim) pacas, a movimentação é aeróbica, parece luta e as corridas em rewind são vertiginosas (e irônicas pra quem já correu – muito, em círculos e para frente – em aulas de dança contemporânea), pontuadas pelos ruídos dos tênis no piso, uma sinfonia incômoda, a buzina do (prolongamento do) corpo. A rua está ali, numa dinâmica de encontros e perfume de gangues, por vezes fazendo alusão a um MMA. A luz de Bruno Beltrão também é foda, e não demora até sua porção Nijinski vir à tona: debandada da plateia. Salvas as devidas proporções, o coreógrafo fluminense desperta reações como as que a Sagração de 1913 causou. Apesar da singularidade da coisa e do trabalho consistente, estou entre aqueles que desistem da performance antes do seu fim. Acho chato. Parece incongruente, mas acontece mais do que eu queria: acho ótimo, mas acho chato.

Desdobramentos (dia 6 e subsequentes)

As coisas funcionam quando continuam, e este mérito não se pode negar a aventuras como um festival de dança. Sobreviventes das tosses que furam os silêncios, reféns dos casacos ainda com cheiro de armário e espectadores acidentais de barracos em balcões — nobres ou não — somos corpos com mais possibilidades de afetos. A ampliação do calendário de dança e os fundos de apoio que acenam são luzes para nós que já fomos fisgados, e uma isca para novas plateias. Queremos gostar e queremos descobrir beleza, mesmo quando ela não é óbvia. Ao menos, eu quero. A julgar pelos vídeos e reportagens que agora inundam a caixa de mensagens, e todos com anexos de uma respiração descompassada, diria: missão cumprida. Reis e eu já planejamos montar um balé ao som de AMOK. 

Agora é encontrar calmante até que a Sagração da Pina abra o Panorama, no fim do ano. E antes: mel com limão.