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quinta-feira, outubro 27, 2011

Para o Marcelo

 
O processo de digestão das coisas boas é sempre mais complexo que o das coisas ruins. De um jeito ou de outro, com mais ou menos esforço, mais ou menos suor, mais ou menos palavrões, as coisas ruins a gente deixa por aí, porque acabam saindo de alguma forma: no mar, em folhas de caderno, em sapatilhas de ballet, em 3 atos de uma tragédia ou em 4 taças de margarita.  

Felicidade, geralmente, só sei no dia seguinte, quando fico pairando em vez de andar. 

Felicidade é mais caro, me dá muita solidão e um problema que ainda não sei enfrentar. Fico uma tarde inteira sozinha na praia, tentando guardar as sensações e barulhinhos que o corpo faz, numa tentativa de reter tudo o quanto for possível, segurar com os dentes e as mãos, porque não quero esquecer, não quero perder nenhum detalhe, quero guardar. 

Bate um mutismo que parece irreversível. A desconfiança de que ninguém entende. Nenhuma música é possível, e nem mais nada. Felicidade se apropria das entranhas, é latifúndio do corpo. Eu só queria que tivesse um botão que fizesse parar de chorar e então ia começar a te dizer tudo o que eu queria. 



(esses pequeninos parágrafos estão sendo escritos há dias. Ficaram empacados pelo mutismo que a felicidade causa. Hoje o Marcelo ganhou o prêmio de melhor diretor pelo seu primeiro filme, entitulado "Testemunha 4", que foi exibido na Semana dos Realizadores. Tem repescagem dia 5/11 no Instituto Moreira Salles, RJ)

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Waffles com mel - cena 2

O café está cheio, pelos ruídos da porta já se pode afirmar. Esperamos menos que cinco minutos, vemos sair tantas pessoas sozinhas que consomem com rapidez seus goles, deixam sobre as mesas as moedas, disfarçam a melancolia em pressa. Ela não. É uma dessas que, como nós dois, dedica o fim da tarde de domingo àquele lugar. Em meio a revistas, jornais e gestos vagarosos, tudo nela parece um espreguiçar do tempo: cabelos grisalhos, mania de rabiscar, um jeito de sentar meio de lado, precisão de movimentos que muitas vezes ficam suspensos, uma mania de levar a colher a boca erguendo com exagero o cotovelo, quase um ballet.

Desde a primeira vez que a vimos eu achei que a conhecia de algum lugar, você disse que ela se parecia com aquela atriz e eu concordei. Inauguramos uma época em que a senhora grisalha era centro das nossas atenções.

Fazíamos nossos pedidos habituais e começávamos a inventar mundos inteiros pra ela. Difícil adivinhar onde pousava sua atenção, parecia mirar um ponto sem jamais fixá-lo. Parecia cansada de todas as bobagens compreendidas em diálogos. Parecia cheia de profundezas indecifráveis. Escrevíamos pequenos roteiros e dramas onde sempre havia um filho complicado, um amor perdido ou esquizofrenia. Eu sempre torcia pra que ela fosse a vilã da história, você acabava dando um jeito de absolve-la no final.

Ela permanecia ali por horas, imperturbável.

Aquela senhora virou personagem de diversas histórias sem final feliz que inventávamos entre uma entrada e um bolo desde que nos tornamos fiéis aos waffles dali. Lançávamos olhares curiosos por sobre a mesa daquela senhora, encontrávamos às vezes desenhos e esboços que eram tragicamente amassados pela garçonete sem que pudéssemos desvendá-los antes, caminhávamos em direção ao banheiro na tentativa de decifrar o que ela lia, por quais notícias se interessava. Alheia, ela nunca dava pistas. Ensaiamos alguns métodos de aproximação, perguntamos as horas, tentamos atrair sua atenção de diversas formas e nada, nunca conseguimos captar o olhar dela por mais de dois segundos.

Frustramo-nos, e por acasos da vida, mudamos o dia do café para quinta-feira. A senhora grisalha, porém, continuou a ser o centro de nossas especulações, especialmente naquela semana em que, contrariando as agendas, tornamos a encontrá-la, na última segunda-feira daquele ano. Ela nos assombrava. Só a notamos depois de muitas conversas e de listarmos nossas resoluções para o ano-novo, uma das quais era esquecê-la por completo. Ela estava sentada perto de uma família ruidosa. Rancorosos, engatamos um papo qualquer que nos fizesse abstrair a criatura grisalha, e nos agitamos nas cadeiras quando ela passou distraída por nós dois, depois de devorar um pote de creme chantilly.

A mesa ficava a caminho do banheiro, e com a desculpa da alergia, surrupiei um papel cheio de desenhos, antes que alguém viesse e o jogasse no lixo. Em meio a manchas de café, gotas d’água e o meu espanto, a senhora grisalha desenhara em tinta azul a tua gargalhada.  

Foi a última vez que a vimos por ali.

quarta-feira, junho 16, 2010

Waffles com mel - cena 1

Sentam-se na mesa de sempre, isto é, sempre que o salão está vazio o suficiente para escolherem seus lugares cativos: ela prefere o sofá, ele senta na cadeira e volta e meia não resiste ao espelho em frente. Já sabem que morrem de frio no verão, por isso levam um casaquinho na bolsa, mesmo em janeiro. O primeiro comentário é, portanto, uma discreta revolta contra a potência dos aparelhos de ar-refrigerado nessa época do ano. Um exagero: prevêem gripes para o final de semana, convalescência na piscina. Ela tira da bolsa o caderno de anotações, tá aqui o nome do livro que te falei, como você tá inquieto, o que foi?

A mesma garçonete loira, oi tudo bem? Ué, hoje não vai querer chocolate quente? Ah já sei, no calor é melhor milk-shake, né? Ela se encolhe no banco, pondera: um suco. Dois sucos, dois waffles, uma água sem gás para dividir. Ele muda de idéia: traz um café no lugar do suco?

Como até hoje não sabemos o nome dela? Ele interrompe suas divagações: tenho uma proposta que você não pode recusar. Ela escuta atenta até ser interrompida pelo celular. É minha mãe, preciso atender. Ele passa a mão pelos cabelos três vezes, chacoalha um pouco os pés. Manda um beijo pra ela também. Pronto. Ele começa a sua introdução seriíssima sobre o novo projeto, e antes de explicar efetivamente sobre do que se trata, elege as razões pelas quais ela é a parceira ideal para a empreitada. Envaidecida, se esparrama pelo sofá.

Eclode na mesa ao lado uma briga , um casal já em crise avançada que decide tornar públicas suas amarguras. A mulher, muito nervosa, explode em choros e soluços, o homem percebe que foram longe demais. A garçonete loira desvia o chá de camomila que levava para o senhor dos fundos e o pousa sobre a mesa da discussão, numa tentativa solidária de acalmar a mulher, que segura a bolsa e sai apressada sem olhar pros lados. O homem, constrangido, deixa um dinheiro além do necessário sobre um pires e vai atrás da mulher.

O silêncio se dissolve e o barulho costumeiro do lugar recomeça. Diante do espelho, colherzinha suspensa no ar, imobilizado pelos gritos do casal, ele inunda o título do livro e todas as outras frases do caderno dela: nuvens no café.

terça-feira, agosto 18, 2009

A varanda


As plantas

Eu nunca gostei de cuidar de flores, tanto que na minha varanda eu cultivava aquelas plantas atemporais que ficavam verdes o ano todo. Eram poucos vasos, dois ou três apenas, e também havia a árvore do quintal do prédio, e isso me bastava. O meu sonho de varanda era uma rede, mas no fim das contas o que acabou indo parar ali foi um sofá de vime repleto de almofadas coloridas. Era ali o único lugar da casa em que funcionava o telefone, e portanto a varanda foi ganhando acessórios que atendiam às necessidades das longas chamadas: ventilador, tomada, cinzeiro, copos d’água, frutas da estação, baralho e até uma mantinha que aquecia nos dias mais frios. Eu passava horas na varanda, desfiava histórias sem fim ao telefone para os amigos que moravam longe, confessava amores e ensaiava cometer pecados que nunca passaram de vagas promessas. Eu recontava as últimas piadas que tinha escutado a quem precisasse rir, discutia livros com quem era de livros, tentava convencer um alguns a viajarem comigo, persuadia outro a almoçar naquele restaurante novo e disfarçava em calma (e às vezes em doçura) aquela excitação ao falar com ele. Eu acreditava em todos os conselhos que dava ao meu irmão, e eventualmente me debulhava em lágrimas quando o meu melhor amigo me perguntava: como você está?

Quase sempre eu estava de pijama porque gostava de falar no telefone à noite, quando todas as coisas que eram do dia tinham terminado, quando o cabelo ainda estava úmido e cheirando a condicionador, quando o prédio ficava tranqüilo e propício a abrir correspondências, e quase sempre eu sentia esse desamparo, sobre o qual só era possível falar com ele.

O inverno

Aconteceu então que depois de dois anos, pela primeira vez, choveu durante todos os dias daquele inverno, e porque caía barbaramente a temperatura quando chovia, e porque o toldo não era suficiente pra proteger, e porque o chão escorregava, naquele inverno, eu trouxe tudo pra dentro e fechei a varanda. E, ao fechar a varanda, fechei meu mundo, que ficou em suspenso e aflito, ansioso pela primavera.

O aquário

Nos primeiros dias de chuva eu gostava de ver os pingos escorrendo pelas folhas das plantas, e gostava da sensação de estar seca e protegida atrás do vidro. Gostava do barulho também, que apaziguava em parte a falta de notícias do outro lado do interurbano. Eu imaginava que desabava o céu em todo canto, e que todas as pessoas deviam fazer a mesma coisa que eu: tecer cachecóis, colecionar recortes de revistas e encharcar as pernas de cremes. Pela primeira vez reparei nas outras varandas com seus toldos que pareciam ser mais eficazes que o meu. Notei que os meus vasos eram infinitamente mais feios que quase todos os outros, exceto uns de plástico preto que faziam casa a galhos frágeis que já se tinham quebrado desde a segunda tempestade, numa outra varanda. Mas a chuva apertava e em poucos minutos já não se via nada.

Eu pensava distinguir uma brasa de cigarro que se demorava na varanda em frente, mas a noite deixava tudo tão preto, e a chuva tornava tudo tão turvo que eu julgava não ser possível que alguém fumasse do lado de fora.

O encontro

Na quarta semana aconteceu que pequenos papéis cheios de anotações começaram a chegar. Era sempre o mesmo tipo de papel, provavelmente tirado do mesmo caderno. Dobrados e envelopados cuidadosamente, e deslizavam sob a porta em horários diversos. O objeto de escrita variava, e a caligrafia funcionava em tinta azul, preta ou à lápis (a minha letra nunca obedeceu a nada que não fosse bic preta). Eu estranhei que não houvesse selo, e logo ficou claro que os bilhetes só poderiam vir de alguém muito próximo. Mas não eram bilhetes: logo eu entendi que eram respostas, a muitas das perguntas que eu tinha feito durante os anos em que não choveu. Essas respostas continuaram chegando durante todo aquele inverno, e à medida que o volume da chuva crescia, aumentava a quantidade de envelopes pela porta. Eu respeitava o anonimato do remetente, e me mantinha à distância, sempre na cozinha ou no quarto, e espiava a entrada da sala periodicamente, e esfregava as mãos, porque ficavam geladas e inquietas e afoitas, e vibrava a cada “shoop” por debaixo da porta, e me surpreendia ao reconhecer neles respostas e comentários a muitas das histórias que eu tinha contado e inventado, e muitas vezes chorei ao entender algumas daquelas linhas que falavam de coisas que eu já nem lembrava mais. Eu me indagava como era possível que alguém guardasse tantos detalhes, e como era possível que alguém tão absolutamente desconhecido pudesse saber tudo aquilo: que eu não tinha muita paciência para flores, que eu não lidava bem com quem não gostasse de Raduan Nassar, que o meu riso era de nervoso quando falava com ele, e que eu abreviava domingo de manhã porque me distraía da conversa com o barulho das crianças no play.

Só um dos vizinhos poderia saber que eu adorava desligar o telefone aos domingos pra ficar debruçada no pára-peito achando graça dos risinhos chacoalhantes das crianças pequenas do prédio. Mas eu tinha receio em descobrir quem era, e substituí a curiosidade por uma espécie de conforto, e fiz desses acontecimentos um recanto tão macio quanto as almofadas do sofá de vime. A primavera chegou, e fui eu quem escreveu o último bilhete, que deixei sobre o tapete de entrada do hall para que o remetente recolhesse quando viesse deixar seu envelope: amanhã é 23 de setembro e faz tempo que não tomo um sorvete.

O começo

Eu não recoloquei o sofá de vime na varanda. Resolvi levar adiante a idéia da rede. Era o que me aconselhava um dos bilhetes, o penúltimo, pra ser mais exata. Era o único que usava um papel diferente, maior, colorido, num desses envelopes pardos e grandes.O último bilhete trazia a única pergunta à qual nenhum de nós dois sabia responder: o que acontecera com ele, porque ele não viera me visitar esse inverno, onde tinha ido parar aquele amor.

Eu queria me balançar e olhar o pedaço de céu que me cabia, e esperar que soasse a campainha. Perto do meio dia eu abri a porta e parado diante de mim estava um homem que tinha mais ou menos a minha altura, mais ou menos a mesma cor de cabelo que a minha, que também usava óculos, e que também esbanjava para o mundo a possibilidade de, finalmente, usar chinelos. Eu o convidei a entrar, mas ele sabia que no fundo eu não gostava muito de receber visitas. Busquei a bolsa, e embora qualquer um julgasse que essa situação era completamente absurda, não encontrei qualquer susto na chegada do meu vizinho. Após o sorvete percebi que a brasa de seu cigarro queimava no mesmo ritmo daquela que eu julgava distinguir no escuro. Ele explicou que se sentira muito só naquele inverno, que tinha saudade de ouvir minhas histórias, minha voz, meus engasgos. Ele explicou que foi sem querer que tudo aconteceu, e que por minha causa tinha desistido de parar de fumar. Ele explicou muitas outras coisas de sua vida, que gostava de ver filmes na TV, que mascava chicletes em dias alternados, que preferia campo a praia e que eu ficasse tranqüila porque Lavoura Arcaica era um de seus livros preferidos também. Temi que ele fosse voltar à questão principal desses amores perdidos quando ele disse que também tinha um. Seus óculos embaçaram e achei que era hora de voltar pra casa, telefonar praquela amiga que tinha ido morar longe, saber se o inverno tinha sido generoso para o amigo que escrevia um livro, e roer disfarçadamente as unhas esperando que a primavera trouxesse pra mim ele, e mais: ter a certeza de que meu vizinho estaria ali escutando tudo.

Antes de nos despedirmos, meu vizinho queria fazer uma última pergunta. Duas, ele emendou. A primeira foi tão fácil que até hoje rimos dela: posso voltar? A segunda foi uma surpresa, e o verdadeiro começo dessa coisa que aconteceu logo em seguida: qual é o seu nome?

quinta-feira, agosto 06, 2009

No meu descaminho

Passei dois dias na banheira e quando resolvi sair de casa eu tinha trocado de pele. Mas aquele resto de tristeza ficou, porque era anterior, e porque era abstrata demais pra sair na água.

Me dei conta da calamidade no metrô, quando me vi sentada numa cadeira branca a esperar um trem, mas vários vieram e se foram sem que eu me mexesse. Uma sucessão de trens ia e vinha ao passo que por algum motivo desconhecido o ipod repetia exaustivamente a mesma música, uma que parecia com o sofrimento que sentira nas vésperas daquela tarde.

Depois de um tempo que não sei precisar, um senhorzinho metido em camisa e terno xadrez me estendeu o lenço amarelado que carregava no bolso do paletó. Ele tinha ainda uma camiseta de malha, dessas esportivas com tecido furadinho, que ia por debaixo da camisa.

Percebi que as minhas bochechas estavam inundadas, e que minhas mãos largadas no colo tremiam um pouco. O que fez aquele senhor se aproximar de mim foi o fato de que, embora eu não percebesse, eu cantava.

Eu cantava e chorava um choro doído, e as pessoas me olhavam com espanto e se afastavam com pena e pressa para dentro dos trens ou para as escadas. Umas ainda viravam os pescoços, mas todas seguiam seus caminhos enquanto eu continuava fincada, sem parecer saber que Norte era meu.

Quando finalmente tirei os fones dos ouvidos e polidamente recusei o lenço que o senhorzinho me estendia, consegui distinguir que seus murmúrios eram, na verdade, uma tímida e melancólica cantoria: sim, vai e diz, diz assim que eu rodei que eu bebi que eu caí que eu não sei que eu só sei que cansei enfim dos meus desencontros, corre e diz a ela que eu entrego os pontos.

Ele me contou sua história, e soube descrever tudo o que era necessário, e não mais que isso, pra que eu entendesse, e não era muito complicado e a partir de então tudo foi imediato: eu respirei três vezes e coloquei um dos fones no ouvido daquele senhorzinho, e passamos a tarde juntos a ver os trens que partiam e a cantarolar sem vergonha todo o nosso desalento na estação Cinelândia.

sexta-feira, maio 29, 2009

Argumento

Eu não sabia
Que virar pelo avesso
Era uma experiência mortal.

Ana Cristina César, Fagulha, dentro de Inéditos e Dispersos.

Toda livraria deveria começar pela sessão de História. Mas assim como todas as outras, essa aqui também tem uma seqüência de prateleiras e corredores que não segue lógica alguma. Dobrando à direita após a Culinária, por exemplo, você chega à Literatura Nacional. Mais à frente ficam os livros de cinema. É a segunda parada, porque geralmente cortamos caminho pela sessão de Design, que é também bastante folheada quando a gente vem tomar café. Tá certo, toda livraria deveria começar pelo café. Comprar um livro sentindo todo o corpo quentinho, com aquele resquício de creme chantilly no fundo do céu da boca. E waffles: comprar um livro depois de ter comido waffles com mel num domingo chuvoso, qualquer orelha ou contra-capa fica com ares de prêmio Nobel, e os filmes dos livros ficam ainda mais clássicos, e alguns mais injustiçados pelo Oscar.

O intervalo no Cinema é seguido por uma espécie de férias, que acontece sempre que chegamos na Poesia: uma prateleira tímida que deveria durar corredores inteiros, que deveriam abrigar sofás e poltronas revestidos por camurças cor de vinho, que deveriam afagar leitores aquecidos por xícaras de chocolates-quentes. O único sofá, porém, fica ali perto da porta da entrada, dando boas vindas aos ventos frios que sopram toda vez que alguém chega aqui.

Perto da gente, sobre nossos joelhos, aterrissam versos e estrofes que nunca vamos comprar. A prateleira de poesia é tão envolvente que resolvemos nunca comprar nenhum daqueles volumes, só pra voltar sempre. A gente opta por se esparramar pelo chão em frente, e resolve colher aos poucos os poemas grudados nas páginas, a cada domingo chuvoso ou sonolento que acorda no fim de tarde com doses de cafeína e açúcar em pacotinho. Escolhemos obras distintas, passeamos pelas folhas até que um de nós comece a falar: sabe, e se eu te contasse que nunca li um livro do Ferreira Gullar? A gente resolve que não é desaforo: tudo bem, eu também não. A gente ri um pouco, olha pros lados, não queremos que ninguém pense que é deboche, não aqui, não a gente, vamos levantar? Só mais esse, peraí, é o que comecei semana passada, é curtinho.

Os livros do Shakespeare estão sempre perto da coleção do Nelson Rodrigues que toda vez eu digo que vou comprar, desde que os meus sumiram na mudança ou foram comidos pelas traças. São pesados e lindos. Os livros, não as histórias. E se eu te disser que não saco nada de Shakespeare? Oras, você não precisa me dizer tudo o que pensa. Mas que tudo bem, cada livro do Shakespeare dessa edição deve valer 3 ou 4 selos no cartão fidelidade.

No caminho até o caixa rodamos o display dos livros de bolso. Ele gira meia volta, pára meio emperrado, a gente descobre que ainda dá tempo, passa por todos os países do mundo e no fim acaba voltando: semana que vem comemos bolo de laranja de sobremesa, tomamos suco pra não entalar e terminamos aquele volume pequeno do Manuel Bandeira se os dois prometerem não revelar pecados na Literatura Estrangeira. Tem dessas coisas, a gente sempre deixa a Poesia com rimas acidentais. E se a gente completar os selos do cartão com Flaubert, de quem também não sabemos muita coisa? Mas e o Shakespeare? Mas e todos os outros? Suspiramos.

A sessão infantil fica do outro lado do caixa. Chama a atenção o colorido, a leveza, os risinhos chacoalhantes que se escutam por ali. Escolhemos aqueles cheios de brincadeiras e sensações táteis onde a língua do cachorro é de veludo, o pêlo do gatinho é de pelúcia e as ondas do mar são de algodão que nem barba de Papai Noel. O banquinho em formato de flor é pequeno demais para nossos 50 anos somados, sorte que somos dois. ‘O rapto das cebolinhas’ era livro ou peça de teatro? E o menino do dedo verde, o que ele fazia mesmo? Eu amava ‘Lúcia já vou indo’, mas quase chorava toda vez. E ‘Marcelo, Marmelo, Martelo’, que tinha o meu nome na capa, que história era essa? E ‘Mamãe Monstrinho’? Será que daqui a muito tempo a gente vai esquecer ‘A Peste’? E se um dia eu não lembrar mais como era ‘Morangos Mofados’? Será que o mundo acaba? E se a gente começar a reler todas essas prateleiras? Abandonamos a poesia, aqui o chão é macio e nunca dói. Mas os infantis ficam fora do caminho, depois do caixa, longe da porta, lado oposto do sofá, nem se vê o Cinema daqui e o cheiro do café não chega. Mas a Poesia fica ao lado da Política. Mas a Literatura Nacional fica bem ali.

Toda livraria deveria começar pela sessão de História, e se a gente trocar de café? Sabe, tem um ali do outro lado da rua, na calçada, sem livraria acoplada, sem sustos ou tropeços, moço, onde fica a auto-ajuda?

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

708.

Deu um fim em todas as comidas que tinha em casa. Encarregou-se dos iogurtes e do sorvete que estava pela metade. Deu a carne congelada ao vizinho, que levou também os queijos. Tomou o ônibus pra Gávea onde morava um amigo e juntos tomaram as 5 latas de cerveja que ele ainda tinha. Era janeiro e não pode ligar o ar-condicionado naquela noite e não poderia nas próximas 29 seguintes. Acordou de ressaca e suado, o dedão do pé ensangüentado, a mesinha derrubada, livros e luminária no chão. A bateria do ipod acabou no terceiro dia e ele imediatamente entendeu que esse seria o seu maior contratempo durante os próximos 27 dias. Em pouco tempo a bateria do celular teria o mesmo destino. No quarto dia comprou um relógio antigo. Arranjou uma caixa onde guardou a televisão e colocou o grande relógio no local do aparelho. Assistia as horas como quem contempla o horizonte e pouco a pouco foi tomado inteiramente pela idéia de viver sem eletricidade. Suas mudanças cotidianas atingiram níveis drásticos. Comprou um pequeno isopor onde mantinha garrafas de água. Encaixotou o computador e pôs a caixa na prateleira mais alta onde não havia possibilidade de topadas ou tropeços. Em apenas 6 dias havia chutado móveis a ponto de quase perder a unha do dedão. O vizinho do 709 o acudia sempre que ouvia seus gemidos e tentava persuadi-lo do plano. Idéia mais sem cabimento, ele dizia. Não lhe dava ouvidos. Depois da primeira semana comprou uma máquina de escrever. Queria relatar os pormenores de sua nova rotina. A máquina ocupava agora o lugar que antes fora do computador. Ficava ao lado do relógio antigo. Uma pilha de papel estava sempre à disposição, alguns com resquícios de cera de vela, que por sua vez estavam em toda parte: na mesinha, sobre a geladeira, na pia do banheiro, perto do relógio, junto à janela. O único lugar pra onde não carregava velas era o closet, o que acabou por lhe custar risos dos pedestres que giravam as cabeças para ver melhor aquele sujeito que vestia calças e camisas tantas vezes descombinadas. Virou piada entre os amigos quando estes começaram a receber suas cartas. Eram cartas escritas à máquina, descrições minuciosas de seu novo estilo de vida, detalhes importantes de como fazia a barba, de seus longos banhos de banheira quando lia páginas e páginas dos livros que comprava em sebos, enfim, suas cartas eram como suas confidências, suas descobertas de pequenos prazeres há tanto esquecidos. Passou a beber vinho, que não precisava gelar e seus lençóis e roupas manchavam com a mesma facilidade com que topava os pés na primeira semana. Em três semanas seu ritmo foi mudando: andava a passos vagarosos, quase não via os amigos e movia-se como um pêndulo. Quem entrasse em seu pequeno apartamento veria ali um cenário: a máquina de escrever e o relógio lado a lado, as ceras de velas que cobriam parte dos móveis e davam ao lugar certo ar sinistro, os livros que se empilhavam pelos cantos no chão e ele sentado à beira da cama trajando vestes amassadas. Tinha se transformado num personagem e em cobaia de seu próprio experimento. Ao final de um mês sua mãe fez o que ele tanto adiara: pagou a conta de luz.

sábado, dezembro 16, 2006

Esmalte

Foi na semana que fez aquele dia quente de doer, pés inchados e eu ia sentindo a roupa toda grudando e a testa oleosa, cabeça no tanque e deu meio-dia quando ela ligou. Ela sempre ligava essa hora, acordando, perguntando do vestido. Eu descrevia um pouco a peça, e sempre ocultava um detalhe para que houvesse surpresa. Eu separava as rendas e arrumava as fitas de cetim enquanto que ela bocejava lá num outro bairro e ia como se arrastando até a xícara de café. Duas colheres de açúcar. Eu esquentava meu almoço e ela esquecida no sofá, xícara na mão, jornal espalhado em volta e a unha do pé sempre vermelha. Impecável, ela era, sempre com suas roupas bem cuidadas e os cabelos num penteado daqueles de revista. Eu enfiava os cachos pra debaixo de um lenço e comia correndo, com pressa e então ia cortar as sedas, comprar a linha certa e sentava na máquina, o tecido fininho ia escorregando devagar, sempre numa linha reta e muito calculada, eu começava a juntar os pedaços pro vestido que fazia pra ela. Ela preparava a banheira e jogava na água quente pequenos saches de lavanda, ficava horas compridas, olhos fechados e o barulhinho dos seus braços se movendo na água. Eu fervia água pra tingir sua seda, combinava pozinhos de cores diversas até conseguir o azul que ela gostava, um tom com uma pitada de turquesa, mas muito discreto e chique, como tudo o que eu costurava pra ela. Eu via a luz do dia cair e pregava as rendas no barrado, debaixo do abajour eu ia ia dando ponto por ponto, fazendo uma pequena trama de rendinhas muito estreitas. Eu experimentava a roupa na manequim, checava se não havia esquecido alfinetes espetados nas rendas e por fim amarrava a fita de cetim na cintura. Embrulhava o vestido em papel fino e o acomodava numa sacola. Eu deixava o embrulho pontualmente às 19:45 na casa dela, que vinha à porta em seu roupão estampado, sua pele muito clara contrastando com as flores pretas do tecido japonês e ela me oferecia um chá. Eu sentava na cozinha bebericando da caneca enquanto ela provava a roupa. Voltava com um cheque e um sorriso satisfeito, e toda semana era assim: eu era sua costureira há 8 anos e ela nunca se queixava dos vestidos, usava-os em suas festas e jantares, desfilava meus modelos pelos países por onde viajava e eu sempre imaginava que devia deixar um rastro de flores pelo caminho, sempre achei que de seus pés saíam pétalas e folhas perfumadas e que a cada passo dela podiam-se ouvir suspiros. Eu ia para casa feliz por ter agradado, tomava um banho morno e me enrolava no lençol, dormia cansada e no dia seguinte começava um vestido novo. Foi então que a vi, pela primeira vez a vi na rua, eu estava a caminho de sua casa para entregar-lhe um novo modelo e ia andando 20 minutos adiantada. Ela abria o portão da frente e parecia uma boneca de porcelana: usava o vestido com roda plissada, cetim de seda de um vinho escuro, na cintura o laço um tom acima e sandálias de salto muito fino, de um cobre envelhecido. Esperei a hora certa e fiquei espiando pela janela. Como de hábito, bebi meu chá na cozinha. Demorou mais que de costume e parou na minha frente, as duas mãos na cintura, o roupão colorido e em poucas palavras sentenciou minha morte: não preciso mais deles, não preciso mais de vestidos novos. Lentamente me recompus do susto, peguei a sacola com o vestido recusado e tantos outros que eu agora sabia que não faria mais. Me virei sem dar tchau, sem perguntas e fui caminhando pra casa a pé. Nenhuma explicação, nenhum sentido e quando girei a chave na porta de casa foi que caí. Demorei no banho. Coloquei meu melhor perfume e vesti o modelo recusado, o meu melhor trabalho, uma composição de rendas das mais finas, 4 metros de fitas de cetim, o tom bege como se tivesse caído no chá e pequenos cristais que reluziam com o movimento. Calcei meu sapato de festa e apliquei o batom. Quase já não ouvia a vitrola. Pus a flor no cabelo e assim como num tango lento e arrastado e dramático ateei fogo nas roupas. Morri com as unhas dos pés pintadas de vermelho.