quarta-feira, abril 18, 2012

MAM


     And he stole from the rich and the poor
     and the not-very-rich
     and the very poor
     and he stole all hearts away

     Morrissey in First of the gang to die.
 

     - Você acha que quando a gente sonha com os mortos, são eles mesmos falando com a gente?
     - Acho que sim. Por que?
     - Você já sonhou alguma vez?
     - Nunca. Tenho medo. Toda noite antes de dormir eu rezo e peço pra nenhum deles aparecer.
     - Você tem tantos mortos assim?
     - Bisavô, bisavó...
     - E quando você encontra a mesma pessoa sistematicamente?
     - Em vida? O quê que tem?
     - Você acha que Alan Kardec também tem alguma coisa a ver com isso?
     - Não, acho que a gente mora no Rio e não teve verba pro elenco.
     - Mas e se tiver outra razão?
     - Você quer que tenha?
     - Quero.
     - Por que?
     - Porque as coisas não podem ser tão simples e geográficas assim. Você passa dias pensando num fulano, de repente encontra o fulano três vezes na mesma semana. É muita coincidência, não acha?
     - Alan Kardec não acredita em coincidências.
     - Eu sei. É isso que eu to dizendo.
     - Entendo. Tipo aquele cara ali de bermuda verde. Eu vejo esse cara tanto por aí que eu fico achando...
     - Que tem uma razão ainda desconhecida pra vocês se cruzarem tanto, é claro!!
     - Eu ia dizer que fico achando que ele tem um gêmeo ou dois. Ele é onipresente.
     - O nome dele é Pablo.
     - Como você sabe?
     - Eu o encontro sempre também.
     - Mas você conhece ele?
     - Não. Mas sei que ele se chama Pablo, é ator, mora na Gávea.
     - E como você sabe isso tudo? Você investigou o cara?
     - Não investiguei nada, só acabei sabendo. Esse cara é o começo da minha desconfiança de que tem um mistério aí que a gente não tá descobrindo. Outro dia eu estava no cinema em São Conrado, olhei pro lado e lá estava: Pablo. Ninguém vai ao cinema em São Conrado!
      - Você acha o que? Que tem um misticismo que poderia ser interpretado como “ele é o homem da sua vida”? Ou que é tudo mais triste e ele está te seguindo porque é psicótico?
      - Às vezes parece que eu é que sou a psicótica e o estou seguindo. Mas não sei. Talvez ele seja o homem da minha vida. Ou talvez ele tenha gêmeos mesmo. O que me angustia é pensar que eu nunca vou saber. 
      - Mas você pode simplesmente ir se apresentar pra ele, ora.
      - Poderia.
      - Então por que não aproveita?
      - Porque e se for tudo o contrário do que eu imagino?
      - Mas...
      - Pode perder a graça, entende?
      - Pode ter muito mais graça! Ele pode ter 4 irmãos gêmeos e ser justamente o que a gente nunca encontra porque foi fazer mestrado na Sorbonne, e ele pode achar graça da abordagem e te convidar pra tomar um drink. Ou ele pode mesmo ser o Pablo-ator-que-mora-na-Gávea e te dar um folheto pra assistir a peça dele, que pode ser engraçada pacas e salvar seu domingo, ou pode ser bem caída porque ele é péssimo ator ou porque o figurino é vergonhoso. Ou ele pode ser o Pablo-ator-que-mora-na-Gávea e ser um estúpido achando que você é mais uma fã histérica que o persegue em exposições.
      - Ele não tem fãs. Muito menos histéricas.
      - Como você sabe?
      - Ele tá sempre sozinho. Acho que é por isso que a gente o vê tanto. Ele é um andarilho que fica por aí fazendo vitrine de si mesmo.
      - Mas que mania de botar solidão nos outros!
      - Não é mania.
      - É sim. Toda história sua tem alguém sozinho ou que perde o trem ou que sonha com mortos.
      - Do jeito que você fala parece que toda história minha é composta de gente deprimida e viciada em prozac. 
      - E não é?
      - Claro que não.
      - Claro que sim! Em todos os seus casos, nunca ouvi de nenhum que a pessoa tenha perdido o trem por causa de um descontrole de gargalhada.
     -  Eu nem nunca te contei nenhuma história de gente perdendo trem. De onde você tirou isso?
      - Do Pablo, ora! Foi só eu sugerir uma multidão de irmãos pro Pablo que você rapidamente desinventou minha versão e deixou o cara abandonado, sentado numa sala escura de projeção de slide de fotos de gente comum em que todo mundo se ama, menos o próprio Pablo.
      - É você que está dizendo isso! Você tá distorcendo toda a ideia que eu faço do Pablo.
      - E qual é a ideia que você faz do Pablo, então?
      - Nem sei. E quer saber? Nem me interessa tanto assim o que o Pablo faz, onde está em cartaz a suposta peça dele ou qual foi a resenha que ele possa ter recebido da Barbara Heliodora.
      - Ah foi, péssima, coitadinho, lembra aquela segunda-feira no Baixo? Aposto que ele estava bebendo pra esquecer...
      - Debochada.
      - Alto lá, foi você que começou com toda essa especulação a respeito do Pablo.
      - Eu estava especulando sobre esses encontros repetidos que acontecem. Essas pessoas ficam no meu imaginário mais tempo do que eu gostaria e acabo me perguntando se elas não estão aí pra dar algum recado. Ou se é porque em algum momento eu vou começar a atuar com elas.
      - Por isso te sugeri ir lá e tornar alguma coisa concreta, contracenar e, quem sabe, descobrir se ele tem uma revelação, se daqui a seis meses ele vai te pedir em casamento ou assassinar seu irmão por espancamento. Ou se ele é só alguém que tem mais ou menos a nossa idade, os nossos interesses, o nosso nível de escolaridade e o nosso tédio e frequenta os 4 lugares que ainda sobraram pra se frequentar por essas bandas.
      - Você acha mesmo que o Pablo é tão básico assim?
      - Nós somos tão básicas assim. Se ele for, qual é o problema?
      - O problema é que aí ele não teria muito o que agregar, caso ele fosse uma pessoa destinada a agregar alguma coisa na minha vida.
      - Falando assim você deixa o Pablo sem saída. Ele virou uma equação insolucionável e me parece que a única tábua de salvação pro Pablo voltar a ser alguém interessante é matá-lo.
      - Você tá tratando o Pablo como se ele fosse personagem de uma peça ou de um texto.     
      - E mesmo assim, mesmo morto, ele poderia voltar e te assombrar num sonho onde ele explicaria que ele não passa de um ator que mora na Gávea e que sequer teve uma resenha publicada no jornal, que a performance dele nunca mereceu atenção e que ele se sente, ou se sentia, honrado com todas as possibilidades que você criava pra vida dele.
      -  Você criava.
      - Nós criávamos.
      - Por que a gente tá falando no passado?
      - Porque o Pablo morreu.
      - Quando?!
      - Agora há pouco. Acidente de carro. As pessoas já estão comentando nas redes sociais, encontrando fotos do Pablo adolescente, do Pablo com a primeira mulher, do Pablo na muralha da China...
      - Como era bonito...
      - Mas estava magro demais. Quando o vimos naquela exposição achamos que ele estava doente, lembra?
      - Lembro...
      - Ele tinha emagrecido pra encarar um papel no cinema...
      - E te prometeu convites pra pré-estreia...
      - E eu perdi a pré-estreia e nunca mais falei com o Pablo depois porque você ficou com ciúmes.
      - Eu não fiquei com ciúmes. Você inventou isso pra se afastar dele porque no fim concluiu que ele era meio chato.
      - Quer saber? Acho que você amava o Pablo. Ele tinha um jeito de falar com você que parecia que seus olhos iam explodir de tanta luz. E você ria do Pablo, e ria com ele, mesmo ele sendo básico ou mágico ou sei lá como era a cada vez que você forjava uma novidade sobre ele. O Pablo teria gostado de saber, mesmo que fosse paixão platônica. Talvez até ele te amasse também.


Sentadas num banco no meio do mezanino do museu de arte moderna, uma delas derruba uma lágrima. Se abraçam. Descem as escadas apressadas, fazem sinal para um taxi, dão ordem de seguir até o São João Batista.

terça-feira, abril 17, 2012


vai
e
esqueça a linha que te segue
                                    te cega
                                    te trança

não há costura que te possa


Ericson Pires , Canto II in Pele tecido, 7 Letras 2010. 

quarta-feira, abril 04, 2012

( )


Não faz muito tempo fiquei fã do Paulo Henriques Britto, que lançou seu novo livro na Travessa essa segunda. Eu estava lá na fila de assinaturas, dispensei o chope com os amigos pra vir pra casa e começar logo a ler.

Hoje quando postei os poemas (abaixo), não tinha ideia de que a mulher de Paulo Henriques Britto tinha acabado de morrer em decorrência de um AVC, que se deu no final da noite do lançamento.

Eu não conheço o Paulo e nem sua mulher, mas nesses tempos estranhos em que todo mundo morre de repente, fiquei profundamente comovida com mais essa.

A gente não assina esses acordos, o que torna essa negociação da morte muito injusta e chocante pra nós que ficamos.

Esse sítio tende a ficar mórbido. Desculpem-me, não sou ficcionista e por aqui o negócio tá feio.

Quatro bagatelas

I.
Todas as soluções são boas,
menos a que você escolher. 
Escolha, sim. (Mesmo que doa,
dá uma espécie de prazer.)

II.

Nenhuma explicação 
entre o pé e a mão. 
Transcendência nenhuma
entre o sabugo e a unha. 

Ao corpo, masmorra sem porta,
pouco importa que você morra. 

III.

Viver momento a momento
com a insensatez dos insetos
que arremetem impávidos
contra o real da vidraça
obedecendo sem trégua
à lógica imperturbável
que trazem em suas entranhas.

IV.

Vida sempre rascunho, folha sem pauta,
pasto de lacunas e rasuras,
risco sobre risco, pré-
-texto de nada.



Paulo Henriques Britto in Formas do nada, Companhia das Letras, 2012. 

terça-feira, março 27, 2012

R.I.P

Para Bebel


- E então, como você está? Como foi tudo?
- Estou achando tudo bem mais complicado do que imaginei que ia ser.
- Demora pra entender, né? Pra passar mais ainda.
- Muito.
- E não tem indenização...
- Não tem... Acho que levei umas cantadas na saída do cemitério.
- Como assim?
- Assim mesmo.
- Mas é permitido?
- Bom, que eu saiba não é proibido...
- Mas é meio bipolar, não acha? O cara se acaba de chorar e de repente vira pro lado e te passa uma cantada?
- Completamente.
- O que ele disse?
- Ele era o Paulão. Ou Carlão, nunca sei.
- Quem é esse?
- O da natação, falei dele outro dia, lembra?
- Ah claro, o Paulão! Que puxa assunto com você no elevador, né?
- Esse. 
- Ele te canta de manhã vestindo touca e também no cemitério? Esse cara te ama! 
 -Ele me cumprimentou e eu demorei pra entender que ele era ele. E de repente ele diz “estamos aí, dentro e fora das piscinas”. Não sei se foi uma cantada, mas dado o histórico do sujeito...
- Ele estava com cara de sedutor?
- Estava. Acho que sim. Eu estava meio embaçada, não deu pra ver direito.
- E você não correspondeu?
- Eu não estava lá muito em condições de corresponder a muita coisa. Mas não, definitivamente. Paulão ou Carlão não me convence.
- E depois?
- Depois eu fui apresentada pra alguém, achei que era uma coisa de praxe, sabe quando você chega num grupinho e tem um cara desconhecido e um amigo te apresenta?
- Sim.
- Aí na missa de sétimo dia eu fui descobrir que não, que tinha sido apresentada pro fulano porque ele me achou interessante.
- Meu deus! Você é a musa dos velórios!
- Acho que sim.
- Um pretinho básico não é um pretinho básico à toa, afinal!
- Acho que não.
- Já que a gente ta falando disso, eu queria conversar com você.
- Sobre a Chanel?
- Não boboca, sobre o meu velório!
- Fale.
- Jura?!
- Juro, ué.
- É que já tentei essa conversa com o Simon mas ele nunca quer me ouvir, e sinto que preciso passar as instruções pra alguém. É sobre a minha partida. Eu quero ser cremada.
- Ah eu também.
- E não quero que as minhas cinzas fiquem no cemitério. Quero que elas sejam espalhadas por vários lugares: Rue de Rennes, Palais Royal, na minha Barra da Tijuca... onde mais?
- Bon Marché? Cherche Midi?
- Boa, ali na calçada! Em frente à National Portrait Gallery. Não me deixa apodrecer no cemitério, pelo amor de deus. Eu quero ser cremada, Jules! Promete?
- Prometo. É bem mais higiênico.
- E minimalista também.
- Mas será que vão me deixar embarcar com suas cinzas no avião?
- Claro que vão.
- Será que eu ainda terei condições de viajar de avião?
- Claro que vai.
- E se eu estiver esclerosada?
- Se bem que com essa sua coluna aí...
- E se eu morrer antes?
- Você não vai morrer antes porque você vai ter que falar no meu funeral.
- Tipo um discurso?
- É, todos os amigos vão ter seu momento. Você, Beto, Carol...
- Pfff, a Carol no seu funeral, essa eu quero ver. Quer dizer, não quero, prefiro morrer antes de você. E é melhor também você passar essas instruções pro Marcelo, que é mais novo e tal. De repente ele canta no velório.
- Fantástico. Será que a gente consegue a Beyoncé pro meu funeral?
- Acho que você ta sonhando muito alto.
- Tradução simultânea vai ser necessária. Cada um que chegar vai ganhar um fone. O Fred pode fazer meu cabelo. Temos que pensar em alguém pra fazer a maquiagem.
- E o figurino?
- Meu vestido Lanvin.
- Você vai entrar no forno usando um Lanvin?
- E meu batom coral.
- Sou contra.
- Mas o batom coral me cai como uma luva...
- Sou contra queimar o Lanvin. É uma heresia.
- Tenho que pensar em mais lugares pra espalhar minhas cinzas. Onde você quer que joguem as suas?
- Tanto faz, acho que pode ser numa praia qualquer.
- Que desapego, Jule!
- Desapego é cremar o Lanvin. E de qualquer forma, pelos seus planos, você já vai estar morta quando chegar a minha vez.
- Vai sobrar tudo pro Marcelo. É melhor eu ter essa conversa com mais gente, pra ele não ficar sobrecarregado. Vai ser lindo! Marcelo cantando e você lá fazendo os corações idosos suspirarem.
- Haha acho que não. Será que a gente morre e se encontra de novo em algum lugar? Eu ficaria mais tranquila sabendo que a gente ainda se vê de novo. Que de repente dá tempo de dizer pros outros o que a gente nunca disse aqui. Que de alguma forma a gente consegue remendar umas coisas.
- Você acha que deixou de dizer coisas pra ele?
- Tenho certeza que sim.
- Você acha que teria sido diferente?
- Às vezes acho que sim. Outras vezes acho que foi do jeito que poderia ter sido. Mas ficar com essa dúvida é uma corrosão.
- Acho que é assim, Jules, com todo mundo. Mas não conforta muito saber, né?
- Acho que não.
- Posso fazer alguma coisa?
- Pode. Morrer depois.
- Eu morro antes e isso é inegociável.
- Então me faz rir muito até lá?
- Prometo. 
- Te amo. 
- Eu também.  

segunda-feira, março 19, 2012

segunda-feira, março 12, 2012


Minha amiga Jeanne Duval escreveu muito do que eu adoraria dizer nessa 2a pós desabamentos. Aqui.

segunda-feira, março 05, 2012

I still read a lot  of history, and of course I’ve followed all the official history that’s happened in my own lifetime – the fall of Communism, Mrs Thatcher, 9/11 global warming – with the normal mixture of fear, anxiety and cautious optimism. But I’ve never felt the same about it – I’ve never quite trusted it – as I do events in Greece and Romeo r the British Empire, or the Russian Revolution. Perhaps I just feel safer with the history that’s been more or less agreed upon. Or perhaps it’s that same paradox again: the history that happens underneath our noses ought to be the clearest, and yet it’s the most deliquescente. We live in time, it bounds us and defines us, and time is supposed to measure history, isn’t it? But if we can’t understand time, can’t grasp its mysteries of pace and progress, what chance do we have with history – even our own small, personal, largely undocumented piece of it? 

Julian Barnes in The sense of an ending (ganhador do Man Booker Prize 2011) em breve sai pela Rocco e é, para mim, um dos livros mais comoventes dos últimos tempos. 

quinta-feira, março 01, 2012

Carta a E.

 Querido,

A primeira lembrança que tenho sua é uma que nem você sabe. Vestido de amarelo, uma faixa preta que tentava domar teus cabelos, botas remendadas com fita prateada, sentado num sofá de um museu em Niterói e a mesma expressão desafiadora que você ainda usava há cerca de um mês atrás, última vez que te vi: agitado, batucando, com álcool nos olhos e um resquício de um sussurro pra mim.

Me acostumei a te saber assim: colorido, inquieto, com asas nos pés e uma rouquidão de tanto falar. Por anos achei que você fosse uma dessas pessoas que não podem ser detidas, e no fundo sempre tive certeza de que você sequer dormia. Pra contabilizar tudo o que eu sabia que você já tinha sido, eu precisaria de umas cinco vidas com uma média de 6 horas de sono por noite. Mas você conseguia tudo aqui, perambulando pela cidade, roubando flores de canteiros para presentear os seus amores e gesticulando a ponto de ficar enorme.

Sempre gostei de alguma coisa em você que eu nem sabia explicar. Os cabelos, óbvio. Mas não dá pra justificar uma paixão assim. Ou pode? Numa eternidade inventada pra nós, eu ficaria dias a fio fazendo cafuné na sua cabeça, enquanto você, pioneiro das curvas do meu pescoço, ia chafurdar o nariz e a boca nos recônditos das minhas saboneteiras. E só. Sempre gostei, também, do meu nome na sua voz. E de toda a curiosidade que eu sentia quando você tirava da manga tantas ideias, assuntos, filmes, músicas e histórias, além de uma doçura que algumas pessoas não acreditam que você seja capaz de ter. Sempre gostei dessa calma que, numa distração, você despejava perto de mim.

Nunca soube exatamente onde te colocar no meu mundo. Não saberia te classificar. Nunca consegui fazer sentido de você, e também nunca encontrei uma lógica que sanasse os olhares confusos dos amigos que me viam sumir com você por aí, de tempos em tempos.

Desde que você ameaçou morrer, um turbilhão de outras tantas interrogações me assalta. Eu acredito que você vai acordar. Mas se não, pra onde vão todas as coisas que eu não disse, como fica o seu pequeno, e todos os outros órfãos que vão chorar, quem vai me achar tão linda, quem vai encontrar sentido, quem vai abrir caminhos e cantarolar, quem vai revolver o chão, quem vai saber todas as coisas que você sabe? Vai ter carnaval ainda?

Desde que você ameaçou morrer, também, que uma torcida ferrenha montou guarda, mostrando o tamanho que você tem. As dimensões são extensas. Você é tão alto que chega ao topo das árvores, das nuvens, e deve ser capaz de atravessar o mar com apenas duas braçadas. Talvez isso decifre o (meu) enigma: você é tão grande que não cabe.

Espero que essa correspondência chegue a você cedo ou tarde, quando tiver os olhos bem abertos, os sorrisos e abraços dos seus amigos e escudeiros por perto. Se eu não estiver no meio deles, não é por falta de afeto, é só por não saber como.

Te beijo,

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Cotton journal


Há um tratado velado que se impõe a todo visitante que chega a Algodões e que se deduz depois do terceiro atoleiro à direita da estrada. O que aprende o visitante, depois das primeiras vistas que se tem da praia e da maré baixa, é que qualquer divulgação do nome do local deve ser evitada, a fim de que não despontem por lá turistas e/ou pessoas indesejadas com suas máquinas de cartão Cielo, sapatos fechados e conversas de asfalto. Sobretudo, evitar a todo custo que substituam os atoleiros, que são os verdadeiros guardiões de tal paraíso, por estrada pavimentada, sinalizada, iluminada e, por consequência, propulsora de uma invasão de gente que poderia, do dia pra noite, transformar qualquer idílio perdido em Itacaré.

Em Algodões, deve-se abandonar relógios, apertos e desconfortos de qualquer espécie, que o lugar não foi feito para vaidades, preocupações, horários, pressa, noticiários, jornais, cenhos franzidos, contas e nem qualquer tipo de contato com um mundo que não seja formado por quilômetros de areias onde ainda se veem tatuís, lagartos, siris e pegadas de tamanhos e escalas variados. Eventualmente, olhar para o chão, a fim de evitar encontrões de dedões com cocos. Não tomar tal precaução, contudo, à noite, onde só se deve ter olhos para o céu, pouco importando os apelos de chamegos, beijos, carícias ou massagem de quem estiver ao seu lado.

Logo você perceberá que o céu de Algodões é a recompensa natural e mais lógica que se poderia esperar de um lugar onde há mais: coqueiros que gente, silêncio que barulho, luz que nuvens, canto de pássaro que carregador de ipod.

A dieta ideal que se adota em Algodões envolve muito camarão, muqueca de todos os tipos, uma farinha fininha que cai bem com qualquer peixe, legumes para temperar, pimenta para os fortes, carne do sol, aipim e um drink gelado cheio de raspas e mel de cacau. Na falta do tal mel, a mistura de qualquer outra fruta com cachaça, gelo e açúcar, compensa. Ou cerveja. Estão banidos refrigerantes, mate e/ou genéricos engarrafados/enlatados tais como ice-tea, H2O ou bebidas cheias de aditivos e que podem ser facilmente encontradas em quaisquer esquinas das cidades grandes. Os mais ousados podem se aventurar na degustação de guaiamuns, dando pequenas marretadas na casca do bicho para extrair dele a carne. Os pacifistas preferem as opções citadas anteriormente neste mesmo parágrafo. Água de coco deve ser ingerida a qualquer momento.

A propósito do mar de Algodões, deve-se fazer uso dele irrestritamente. Aconselha-se boiar nas piscininhas naturais à tarde. Os mais inquietos (se bem que não há quem não se entregue à pasmaceira local, convicto de que deveria ter sucumbido ao ritmo da rede muito antes) podem dispor de acessórios para desbravar a água transparente de outras formas. Estão ao alcance da mão: caiaques, pranchas, jangadas, canoas, bóias, máscaras de mergulho, pés de pato e, na falta de um desses, um colchão de ar do tipo usado em acampamentos, pode abrigar uma família toda e fazer deslizar em marolas e espumas em direção à areia, próximo item a ser abordado.

A areia de Algodões está preparada para receber tênis de corrida ou caminhada, bolas de fisioterapia, posturas de yoga, motos, bicicletas, altinha, futebol, vôlei, castelos, buracos que terminam no Japão, partidas de gamão e/ou buraco ou apenas uma canga (toalha, esteira ou nenhuma das opções) estendida onde o visitante poderá se deitar, sentar, dormir etc.

Não espere encontrar em Algodões: farmácias, mercadinhos, padaria, telefone fixo, sinal de telefone móvel (salvo uma operadora), caixa eletrônico, banco, lava-jato, posto de gasolina, comércio, multidão, muvuca. Algumas surpresas podem leva-lo a dar de encontro a um bloco de carnaval (formado por aproximadamente 10 pessoas, das quais um boneco de Olinda, 5 instrumentistas e 4 foliões), que corresponde a aproximadamente 10% da densidade demográfica do local. Chegada a terça-feira gorda, os componentes do cortejo terão ido embora, baixando ainda mais a possibilidade de crowd em um dos 3 bares locais. Deve-se aproveitar a temporada em Algodões para esquecer: de pierrots e colombinas, de todo elemento que remeta à vida urbana, de calçados que não sejam chinelos, do twitter, da lista de mais vendidos do NY Times, do mundo.

Sobre a bagagem, é preciso carregar para Algodões: biquíni, maiô, sunga e similares; chapéu; proteção UVA; colírio para olhos sensíveis ao sal; b-pantol para lábios com tendência a rachar depois de dois dias no mar; apetrechos adjacentes já antes mencionados (i.e. canga, raquetes de frescobol, peteca); cremes restauradores para cabelos com tendência a morrer depois de três dias de praia; câmera fotográfica para os desmemoriados de visões inesquecíveis.

Diz-se dos visitantes que uma vez ali aportam que alguns perdem seus voos de volta, que outros compram lotes de terra e não constroem nada (querem apenas que outros não construam também, evitando assim a possibilidade da propagação de Itacarés pelo mundo), que um ou outro se casa com um local e que qualquer um aprende a ser solitário. Os que retornam para suas cidades de origem passam semanas prostrados, melancólicos e com os celulares foras da área de cobertura, até comprarem novamente as passagens que os podem levar de volta para esse pedaço de paraíso. Desta feita, são tragados aos poucos pela rotina e pelo contato social com gente que não compreende a esfera do local de nome impublicável que seus afortunados amigos deixaram pra trás, lugar encalacrado entre uma extensão extensa de coqueiros e quilômetros de estrada de terra esburacada capaz de dar hérnia de disco e de fazer desistir de chegar o turista/viajante que procura resorts, ar-condicionado e lula à dorê.

Diz-se, também, que depois de conhecer tal pecado, que o visitante pode adquirir um sotaque temporário, um bronzeado que pode acarretar inveja e o hábito de dormir 10 hora por noite. Tudo isso é passageiro, assim como as férias, o carnaval e todo feriado que possa ser revertido numa temporada em Algodões. Por fim, conclui-se que só deve ser conhecedor do nome e das maravilhas de tal destino aquele que for merecedor do maior presente que se pode dar: uma imersão num tempo que não se mede como o conhecemos, um desligamento do excesso de coisas, a imensidão do conceito que é não fazer nada.

Do contrário, é excesso de bagagem, ruído, frescuras e um sem número de praias, pousadas e resorts esperando você, com conexão pra todas as coisas das quais deveríamos nos livrar.

No próximo intervalo, estarei em Algodões. O resto do mundo, tanto faz.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Casa França Brasil


Anotei a hora que saí da sala de exposições, mas a verdade é que permaneci ali por muito mais tempo em meio às toras de madeira por onde passaram bailarinos entrelaçados, rolando no chão, com bocas grudadas nos pescoços de seus pares, olhos fechados naquela lentidão que o cinema usa pra indicar a proximidade do êxtase ou da morte, o que no fim dá no mesmo.

Senti borboletas no estômago, o que há muito não acontecia. Me agachei encostada à parede, a mão simbólica sobre o peito. Merda. Amar era assim: ficar fraca dos joelhos, vacilar e não poder explicar pra ninguém.

Aquela música me violava sem pressa, o público se deslocava pra acompanhar a ação do ballet e a minha mão subia em direção à boca, ansiosa por esconder o riso que denunciaria a minha confusão. Encontrei o chão e fiz percurso semelhante ao dos bailarinos em dupla, no meu ritmo mais lento, abraçada ao meu próprio vestido.

Devem ter me recolhido junto com a desmontagem da exposição. Tenho a lembrança dos olhares curiosos, de pés que desviavam do meu lento rolar, da música incessante que me fazia continuar naquela embriaguez, do cabelo que me borrava a cada volta.

Desse dia conservei o coração aos tropeços, o ingresso amassado, o vestido cheio de rasgos, essa loucura branda que me faz dançar quando não é hora e nem lugar.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Winter, spring, summer or fall

Aos leitores, amigos e curiosos que passam por esse sítio, tendo se solidarizado ou não com a minha causa, é com orgulho e satisfação que anuncio, depois de meses de árdua batalha, que sou a mais nova amiga do MAM.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Achados de verão


Não perguntávamos sobre todos os guarda-chuvas que víamos e muito menos sobre a diferença que havia entre esses guarda-chuvas pretos e o guarda-sol. Não porque quiséssemos fazer papel de bobos, mas porque, se a gente insistisse muito em obter respostas para uma pergunta como esta, corria o risco de transformar uma coisa rara numa coisa banal.

Lloyd Jones em O Sr. Pip (editora Rocco 2007).

Imagine acordar todo dia e não saber onde estão as coisas – bem, foi assim que acabei. Eu estou me queixando? Espero que não. Minha situação não é um sofrimento. É uma frustração. Você se vê sempre chegando atrasado para a piada. As pessoas à sua volta – no ponto do bonde, por exemplo – estão rindo. Do que elas estarão rindo? Você vê seu rosto se transformando para rir também, mas você tem que esperar. Você tem que esperar por uma pista e partir daí. Talvez você ouça alguém dizer: “Eu achei que ela ia pegar o cachorro.” Então havia um cachorro envolvido, o que quer que fosse; agora já é um acontecimento passado. É assim que você existe no mundo. Brincando de pegar. 

Lloyd Jones em Mundos Roubados (editora Rocco 2012). 

Nenhuma luz na minha cara / Mas ouço o grito na medula / Eu tô sozinha nesse palco / Meu peito bate com a guitarra / Ali no solo da guitarra / Eu sinto aplauso e sinto a vaia / Ah, tudo de novo / Ah, olhos da cara / Ninguém canta pra ninguém / Ninguém me dá uma novo dia / Ninguém me mata de alegria / Ninguém faz nada por ninguém / Se o tempo passa feito bicho / E o bicho come o próprio bicho / Me ama logo, pensa bem /Ai, pensa no amor... / Ah, pensa no amor... / Ou não pensa em mais ninguém

Nuno Ramos, pela voz da Dona Inah, no disco do Rômulo Fróes
 

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Os biscoitos recheados do meu tempo

No início era o Trakinas, e a gente só tolerava esse tipo de biscoito porque não tinha lá tanto discernimento. Se a gente encarava Cheetos e Fandangos, não era um Trakinas que ia despertar nosso paladar para a sofisticação da indústria alimentícia. Trakinas de chocolate e morango eram ingeridos com a mesma devoção com que comíamos Mirabel na hora do recreio. Ou Deditos. Da seara dos salgados, o biscoitinho de queijo da Piraquê era o meu preferido, e foi só em 2011 que vim a saber que a embalagem deste e de outros produtos da mesma marca foram originalmente desenhados pela Lygia Pape. Se os Tostines vendiam mais porque eram fresquinhos (ou se eram fresquinhos porque vendiam mais -  e eu gastei muito tempo da minha vida tentando solucionar essa equação), os Piraquês vendiam bem porque eram sensacionais, e a Lygia Pape certamente não tinha nada a ver com isso.

Consta em alguma parte das minhas memórias afetivas que os biscoitos São Luís também tinham seu lugar na merendeira, mas confesso que deles, basicamente, só lembro do jingle: "São Luís Nestlé, qualidade em biscooooitos!" O jingle do Passatempo, por sua vez, poderia ter-nos feito desistir pra todo o sempre de engulir tal massa. Mas o gosto e a nostalgia prevaleceram, e volta e meia compro um pacote de Passatempo recheado no camelô da esquina, só pra voltar a ser criança durante 7 ou 8 mordidas num dia qualquer às 4 da tarde.

Depois de tantos preâmbulos, cheguemos, pois, ao ponto: oOreo, o Negresco e o Bono, ou o que correponderia ao “The good, the bad and the ugly” na gôndola do supermercado.

O Oreo é certamente o único biscoito que faz frente aos biscoitos da minha avó, que já receberam excessivas loas neste blogue. A crocância do Oreo, a cor, o sabor, a brancura do recheio, tudo numa rodelinha de Oreo demonstra a que ponto a humanidade pode se aperfeiçoar e provocar o deleite alheio. Empanturrar-se de açúcar e gorduras trans nunca foi tão justificado quanto quando havia Oreo. Quando estávamos convencidos de que nada podia ser mais alentador que o Oreo, eis que surge o Oreo banhado.

O Oreo banhado, confesso, despertou o egoísmo e a ganância de muitos, afinal, a caixa continha apenas seis bolachas, todas envoltas numa capa de chocolate. Estava aí: o sublime. Nem cinema, nem literatura, nem Chopin, nem religião. Oreos banhados.

Quando os Oreos sumiram dessa terra tropical, meu mundo caiu. Eu, que a essa altura já sofria de abstinência das bolinhas de queijo, tive que encarar mais um luto comestível. E tal qual se dava nos bares, onde eu tentava decifrar a poesia de um bolinho de bacalhau, eu buscava em Negrescos e Bonos a felicidade que nenhum dos dois me daria. Eventualmente recorria ao Chocookie de baunilha, que não tinha nada a ver com a história, mas que passou a ser a melhor opção na tentativa de preencher o buraco do Oreo, que, cá entre nós, passou a ser existencial. O mundo nunca fez muito sentido pra mim. Tudo ficava ainda mais abstrato diante de absurdos como a extinção do Oreo.

O tema Oreo virou quase um tabu para mim. Era melhor não falar sobre o assunto, era melhor não pensar sobre isso, e em hipótese alguma discutir com alguém o sumiço do biscoito. Mas a verdade um dia vem à tona, especialmente quando impulsionada por cerveja, e foi numa mesa de bar (sem bolinhas de queijo), no apagar das luzes de 2011, que confessei a uns e outros a minha dor. Para meu espanto, a solidariedade e a revolta foram instantâneos: eu não estava sozinha.

Naquele dia, voltamos pra casa e descobrimos que a Amazon vendia: Oreo, Oreo banhado, colar com pingente de Oreo. Obviamente, eles não faziam esse tipo de entregas no Brasil. Desolés, seguimos nossas vidas, pulamos sete ondas, conhecemos o Japão, a floresta da Tijuca, o mercado de peixe de Niterói e eis que o Thiago anuncia, via email: habemus Oreo banhado. O Thiago estava voltando da Argentina, terra de Ricardo Darín, Fito Paez e Evita. Terra de gente que pode ler Borges degustando Oreos banhados. Terra de vinhos onde se pode ter mullets e Oreos banhados.

Enquanto o Thiago não voltou ao Brasil são e salvo e com os Oreos banhados intactos na mala, a Bibs e eu mal pudemos dormir. A gente abusou do Olcadil, teve dor de barriga, tremedeira, bebeu, fumou etc. Então, na mesma semana que confirmaram os shows do Morrissey no Rio, os Oreos banhados aportaram no Leblon, e mais não digo, porque o que se seguiu à abertura das caixas de Oreos banhados é impróprio.

Não deu nem tempo de preparar uma trilha sonora adequada, mas eu diria que o hit do momento traduz com exatidão o nosso sentimento no segundo em que, depois de um brinde, e depois de anos de delirium tremens, nossas bocas abocanharam um Oreo banhado: nossa, nossa, assim você me mata.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

curtas


Moro num apartamento que parece casa, com janela pintada de verde e jardim inclinado. Minhas espreguiçadeiras precisariam de cinto de segurança. Tenho gatos e violões, amigos que tocam músicas do Álbum Branco e de Gilberto Gil. E vizinhos adolescentes que ainda sonham ser rockstars. O repertório podia ser pior. Podia ser melhor também. O que quer que fosse, irrevogável é o fato de que o vizinho e sua banda de garagem tocam mal. Durante anos sonhei que o vizinho de baixo, um dia, bateria à minha porta reclamando, justamente, das minhas habilidades como guitarrista. Ele faria elogios ao meu gosto musical, se declararia fã dos mesmos solos que eu treinava com afinco, mas incentivaria fortemente que eu abandonasse tudo aquilo. Nunca mereci sequer uma cutucada do vizinho, dessas que fazem com a vassoura no teto. Agora, ao meu lado, competindo com a conversa que meus convidados tentam estabelecer, a banda de garagem ensaia o repertório de Ok Computer. É a pior versão de Karma Police que alguém poderia aguentar. Abrimos latas e mais latas de cerveja. Tentamos desesperadamente esquecer.

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Você parecia uma Frida Kahlo deslocada no tempo, com leque, turbante e brincos tão grandes. Saboneteiras, pescoço, tudo em você era de outra década. Eu me senti, instantaneamente, a última pessoa da Terra. Caía um temporal de interditar cidades e você cada vez mais podia ser alguém que chegou tarde demais pra semana de 22. Calada, aprofundava o mistério sobre si mesma, olhando fixamente para o espetáculo de raios que se dava a três passos da varanda onde estávamos. Te peguei pela mão, era incrível: sua maquiagem permanecia intacta sob a chuva.

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Hoje de manhã tinha brownie, coca-cola, um império a ser editado na minha mesa e uma vontade quase insana de te convidar pra comer rabanadas fora de época. 





quinta-feira, janeiro 12, 2012

Lanterna dos afogados - capítulo V


Well we all need someone we can dream on, and if you want it, baby, well you can dream on me. - Rolling Stones in Let it bleed.  



Minha incursão pelo mundo das piscinas teve fases bem distintas e definidas. Em comum, todas serviram de pretexto para abandonar a atividade. Estranhamente, segui adiante, com o mantra de se cheguei até aqui, só mais um pouco não vai doer. Quando ultrapassei a marca dos 1600 metros, confesso, achei que nem as inflamações escapulares (cada vez mais freqüentes) poderiam me parar. Virei uma máquina. Mais que todos os benefícios que a natação proporciona, mais que o impacto do livro do Haruki Murakami sobre corrida (eu sei, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mas no fim dá no mesmo), o que me incentivou a continuar desbravando raias foi o Zé.

Até a minha amizade com o Zé começar, eu enfrentei: a) o pânico de morrer afogada; b) o pânico de ter um treco; c) o Paulão, ou Carlão?; d) a saudade doída do ballet.

Por partes:

a)     O ritual matinal nos primeiros 3 meses da natação consistia em dar um beijo na minha mãe ainda adormecida, afagar o cão idem e dar uma última olhada na cozinha de casa. Mentalmente me despedir de tudo, saber que aqueles gestos de carinho seriam minhas derradeiras delicadezas para com o mundo, porque depois de uma série de crawl, certamente morreria afogada. E eu sabia que era quase impossível tal façanha, visto que era só ficar de pé na piscina pra evitar tal tragédia, e mesmo que não conseguisse, havia ainda cerca de 3 ou 4 professores a postos que não hesitariam em mergulhar pra me salvar, provendo os mecanismos necessários para me ressuscitar. Nada, porém, me convencia, e meu epitáfio era certo: tal qual Ofélia, afogou-se.

b)     Quando entendi que não iria me afogar, achei, então, que pararia de nadar porque teria um treco. O desespero da falta de ar me faria, numa manhã chuvosa, interromper bruscamente uma braçada de costas, caminhar até a margem oposta, subir pela escada, buscar meus pertences e entrar no elevador ainda pingando, sem olhar pra trás, alheia às súplicas da Lili, ou de quem quer que fosse, de voltar pra água. Nunca aconteceu: numa raia de 3, fazer isso atrapalharia o ritmo do nado dos outros 2 atletas, e pra essas coisas sou solidária, portanto não tive um treco por excesso de compaixão e falta de espaço.


c)      O Paulão. Até hoje eu não sei se ele se chama Paulão ou Carlão, mas tanto faz porque Paulões e Carlões são, conceitualmente, a mesma pessoa. Ando destreinada para reconhecer flertes, mas quando o sujeito puxa assunto no elevador e te dá umas sacadas, é batata. No começo achei que era impossível alguém curtir alguém que tinha,  antes: marca do travesseiro no rosto, cabelos desgovernados, calça de pijama por cima do maiô; durante: maiô, touca, óculos, pé-de-pato; depois: marca de touca na testa, toalha amarrada na cintura, cabelos amassados, bochechas rosas. Mas cada olhada do Paulão (ou Carlão) em minha direção falava sobre coisas que eu nem sei dizer. Em vez de ficar lisonjeada ou orgulhosa do meu poder de sedução atroz, achei que a existência do Carlão (ou Paulão) na raia ao lado era motivo o suficiente pra abandonar tudo aquilo, porque aquele pretendente era demais até pra quem tem uma casa afetiva como a minha. 

d)     Em dezembro, também, eu fui assistir a uma apresentação de dança contemporânea e lembrei de como era ridiculamente feliz no ambiente bem menos molhado de uma sala de aula de dança, e toda vez que eu nadava e que tudo era igual e nunca outra coisa, eu pensava puta que pariu, o que eu to fazendo aqui? Drama bem fácil de entender.

Comecei a perceber que o que me mantinha ali chafurdada nas águas cloradas daquela escola de natação era o Zé.

O Zé divide raia comigo nas aulas de quarta-feira. O que eu sei do Zé: ele tem uma neta Julia de seis meses e um outro neto mais velho. Ele costumava dirigir até Campinas, completando o percurso em cerca de 5 horas. Ele gosta de vinhos. Ele tem voz de Nelson Gonçalves e sempre que o avisto entrando na piscina, cantarolo Chão deEstrelas mentalmente. O Zé, não sei por que, me dá vontade de chorar. Ele tem uns 80 anos, nada tranquilamente e ainda se preocupa se não vou bater com as unhas na parede da piscina, e se oferece pra tocar de lado comigo na raia. Eu mostro pra ele que mantenho as unhas curtas, e sinto vontade de chorar de novo.

Desde que eu descobri a doçura do Zé que chego mais cedo às quartas-feiras e faço alongamento com ele, a Elda e o Jimmy na piscina, antes de começarmos de fato a nadar. A Elda e o Jimmy também são mais velhos, não tanto quanto o Zé, mas ainda assim. A identificação com essa turminha é imediata e já penso em convidá-los pra um cineminha. Algo me diz que teremos muito assunto.

Hoje, às 7h01, fiquei presa no elevador do prédio da natação. Me veio todo esse flashback na cabeça, vi minha vida natatícia passar diante dos meus olhos. Por sorte, o Paulão não estava comigo. Tudo, sempre, poderia pior. Ficar presa no elevador do prédio da natação, ainda que por 3 minutos, foi como morrer afogada duas vezes na mesma quinta-feira, porque de repente, ao dar as primeiras braçadas do dia, tudo começou a doer (ombro, escápulas e pescoço), eu engoli água pacas e eu voltei à estaca zero. Quando consegui me libertar e chegar até a escada de acesso à piscina, não vi o Zé, porque não era o dia dele. Nem a Elda e nem o Jimmy estavam lá. Verdade seja dita, no estado em que me encontrava, até o Carlão poderia ter servido de alento, porque minhas pernas tremiam e eu só pensava em sair correndo, mas desde dezembro que esse ser está desaparecido.

O episódio dessa manhã anunciou que essa história de natação já foi longe demais. O Zé, posto que era chama, foi eterno enquanto durou. Já sinto saudades. Na hora do almoço vou comprar sapatilhas. Ballet é um massacre, mas é bem mais seguro.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Olha vai chover, é verão

A praia sempre foi imprópria, e tem gente que se horroriza quando você pega emprestada a escova de dentes de um amigo. Quando a gente era criança, não tinha grade de proteção nas janelas. A gente lidava bem com sacadas, varandas, claraboias e afins. A maioria de nós, ao que consta. A gente comia batata Pringles, uma lata atrás da outra, e elas tinham um sabor delicioso de industrialização. Fiquei bem aborrecida com minha última incursão no mundo da Pringles. Junto com a gordura trans, ou o que quer que fosse que significasse veneno, lá se foi toda a gostosura. A gente sempre comeu legumes e frutas com agrotóxicos e morangos gigantescos. O abacaxi bom era o do caminhão que ficava parado na esquina. Com o advento Marcos Palmeira + Hortifruti, os tomates ficaram do tamanho de uvas, a tangerina dá o ano todo e o preço das saladas do Gula Gula ficou proibitivo. Cinto de segurança não era obrigatório (isso sim, uma maluquice) e manicure usava raspas de sabão branco diluídos em água quente pra fazer nossas unhas. Sabor de picolé era chocolate, uva ou côco, sorvete Itália era uma questão de muita sorte, cada um levava seu próprio guarda-sol pra praia, onde não havia cartela de consumação, altinha e nem filtro solar específico pra pele de rostos oleosos: todo mundo usava Sundown e era feliz ao meio-dia na areia.

Os tempos se complicaram de tal forma que a gente trocou os futriques do Orkut por uma opinião no Facebook. A Natalie cantou a bola há uns meses, dizendo que achava tudo chato. Eu curti, porque é o que de melhor fazemos. Eu nem sei se ela pensava em tudo isso quando desabafou, mas minha intuição diz que a preguiça generalizada que a Natalie sentia tem muito a ver com a minha.

Eu tenho saudade do Free Jazz Festival e dos tempos em que colecionava testimonials elogiosos sobre mim mesma. Hoje pra ganhar um polegar levantado hay que suar a camisa, dizer frases de efeito, ter uma visão política bem fundamentada, odiar a Globo, lutar por Belo Monte etc. Ou conhecer vídeos fantásticos e músicas idem. Eu tenho saudade do tempo em que a gente ficava na fila do cinema pra garantir um lugar bom, e eventualmente tinha que sentar longe do coleguinha. Sobretudo, tenho saudade da época em que chovia e esse comentário ficava restrito ao elevador, à avó do seu namorado ou ao vigia da rua. Quando fazia sol a gente telefonava pros amigos e ia dar um mergulho, em vez de ficar postando aos quatro ventos súplicas pra desligar o maçarico. Cá entre nós, a piada nem tem graça. Pra nossa sorte, as pessoas ainda não tem muito o que dizer a respeito de um dia nublado.

Eu não sei quando é que a gente acreditou que tinha tanta coisa a proferir assim, e nem quando resolvemos ter um milhão de amigos virtuais, tampouco sei justificar porque trocamos as comunidades com lasers (e Woody Allen, que sempre nos ligava) e os fotologs por instagrams e ativismo. Tem coisa mais cafona que uma foto da sua geladeira com essa estética 2011? Uma geladeira é uma geladeira é uma geladeira, e precisa bem mais que um iphone pra melhorar seu eletrodoméstico, seu gato, seu pé, seu par de óculos no parapeito da janela (com grade de proteção).

Eu sempre fui ranzinza, isso não mudou. O McDonalds, por mais que venda maçãs e água, sempre será o McDonalds, e não um fraco como a Batata Pringles. O Balada Sucos era bem melhor antes de virar Mix. Todo mundo usava condicionador Neutrox, as pessoas nem pensavam em clarear os dentes e Supra Sumo não tinha esse nome à tôa. Eu gostava mesmo quando a gente mexericava a vida alheia na internet e todo mundo era bem mais legal. Quando a gente queria ter um milhão de amigos mesmo, e não sair por aí deletando as pessoas.

Pra não dizerem que não me adapto aos tempos, deixo aqui meu apelo a São Pedro: por favor, abotoa o céu, deixa o verão chegar, que no mar todo mundo fica quieto. Do contrário, é como disse a Natalie: eu acho tudo muito chato.

quarta-feira, dezembro 28, 2011


estou no ar
sem garantia ou validade
em várias estações no ar
o coração vibrando em overbass
não há, não há explicações, não há
sou agora assim
simplesmente
cansei
de ser
como deveria ser

vou agora assim
seguindo em direção alguma
agora sim
partindo
o chão com meus pés

aberto para balanço
vou errando as previsões
quantas danças você me dá?
quantos passos pra pisar?

sem garantia ou validade
sem previsões de tempo
não me espere
vou
sem torre de comando
alço voo
faço
meu próprio vento

Omar Salomão in Impreciso, Dantes Editora.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Fax


Pedro Lago sugeriu um texto sobre beijo na boca, de língua. A Bel me deixou uns quinze dias pensando na inexplicabilidade do fax, entre outros. Voilà. E feliz natal.

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Manual para fazer origamis, porque dobraduras são as primeiras trocas que se estabelecem com qualquer um. Saber o que esconder é vital, se os defeitos, as qualidades, os vícios. Indicações para construir seu próprio pássaro. Ela responde de letra corrida dizendo “ok, deu certo”. Para enviar, aperte o botão verde.

Bilhetinho de bom dia, mesmo que não seja todo azul. Uma foto de montanha, quase não dá pra ver direito. Cartão de visita, trecho de livro, extrato bancário pra programar as férias, página de revista, receita de nirá, versinhos meio bobos sem rima, notícia de jornal, um fio de cabelo, cinzas de um incenso, uma manchinha de sangue da ponta do dedo pra ter certeza de que é real, mesmo que tudo perca a cor.

E tudo o mais que pode passar de um país pro outro com o mesmo mecanismo de apertar o botão, fazer a folha rodar e se materializar tão longe. Até bula de remédio analgésico: perceba como dói minha cabeça só de não estar perto de você.

Letra de música: piscinas de silêncio, hinos do sem lugar.* Tenta imaginar como é o ritmo: é o primeiro bocejo depois de uma tarde toda no mar. A voz: é uma respiração tão funda e quieta.

Ele fica aguando tudo o que não pode reter. Dobraduras gastas, beija a máquina como se a saliva pudesse atravessar, língua frenética, como se ela fizesse o mesmo do outro lado, como se a temperatura das bocas, como se o esbarrar de dentes, como se fogo.

Retalhos de língua, finas camadas colocadas sobre o papel como se fosse um quebra-cabeças. O delírio dos cortes, a mensagem urgente: aqui sou eu, enlaçando a tua cintura. Peles dos lábios nas margens. Se pudesse, arrancava um molar. Te dou uma leve mordiscada no lábio inferior. Gosto de sugar sua língua e depois cravar a boca no teu pescoço. A folha se encharca de sangue. Para enviar, aperte o botão verde. Setas que indicam pra onde a língua roda, duração dos segundos, e começamos um novo movimento. Para enviar, aperte o botão verde. Começo a perder o fôlego. Aperte o bot. (apito). Ap. (FALHA). Para enviar. Aperte.

* in Acalanto, de Arthur Nestrovski e Zé Miguel Wisnik, do disco Indivisível.


sexta-feira, dezembro 02, 2011

André quer transar


Ou melhor, André precisa transar. Não é um palpite, é uma constatação do próprio, que postou tal afirmativa em sua página do Facebook. Ele não escreveu: “quero”, “gostaria de” ou “estou com saudades de” transar. André foi categórico: “Preciso transar."

André disse que precisava transar numa noite de quinta-feira, justamente o dia em que eu já pensava que queria transar também. Segundo uma reportagem da revista Alfa, quinta-feira é o melhor dia para fazer sexo (a mesma pesquisa afirma que a sexta-feira é o melhor dia pra parar de fumar, mas isso ninguém reparou). Não sei se o André leu essa matéria ou não. O fato é que André precisava transar, e eu fui tomar banho. Frio.

Uma ducha fria diária: ajuda na prevenção do envelhecimento; libera pequenas quantidades de endorfina, diminuindo assim a ansiedade, a depressão e a fadiga; melhora a qualidade do sono quando tomada antes de dormir; abaixa ligeiramente a temperatura corporal (pense no princípio do “congelar conserva” e voilà) e tem menos impacto ambiental que um banho quente. Isso eu li num livro naquela tarde de quinta-feira, no trabalho. Por uma razão bem óbvia e consoladora, o autor da obra em questão aborda os benefícios da ducha fria diária depois de ter exposto que: relações sexuais regulares nos protegem, no sentido de moderar a aparição de diversas doenças, como cânceres e doenças cardiovasculares; 3 relações sexuais por semana aumentam em 10 anos a expectativa de vida; 21 ejaculações mensais previnem contra o câncer de próstata.

Minhas endorfinas e eu saímos do banho frio. Mas eu ainda queria transar. E André também. Pior: André precisava transar, e eu começava a concluir que: eu também. Precisava. Transar. Pensei em quantas duchas frias o André devia ter tomado antes de concluir que precisava transar. Quanta água gelada o André teria gasto antes de anunciar aos quatro ventos que precisava transar.

Foi fácil admitir. Difícil seria a conversa que eu teria com André antes de transar com ele. Evidentemente eu não era a pessoa mais indicada pra transar com o André naquela quinta-feira, visto que eu queria, antes de tirar a roupa, estabelecer um estatuto em concordância com as minhas vontades e as vontades do André, pra me cercar de possibilidades de que aquilo seria bom pros dois (porque, cá entre nós, sexo casual comigo nunca dá certo). Achei que era necessário criar algumas regras pra essa trepada, só pra ficar tudo esclarecido: André poderia tirar minha roupa, desde que não rasgasse nada; strip-tease estava fora de cogitação, sou muito atrapalhada; tapas não rolam; mordidas, só no pescoço; evitar posições que possam despertar hérnia de disco (de quatro, por exemplo); evitar preservativos com sabor ou cheiro de frutas (ânsia de vômito); evitar trilha sonora; nunca, em hipótese alguma, ligar o shuffle do iTunes; não dormir de conchinha; telefonar no dia seguinte. Ok, telefonar no dia seguinte era uma cláusula que não fazia o menor sentido pra esse tipo de sexo que o André precisava e eu queria. Precisava.

Escolhi um vestido preto de malha, básico, sem muito desespero ou castidade. Salto alto era indispensável. Sem batom. Quando entrei no carro, uma rádio anunciava exatamente as previsões para o meu signo naquela noite: eu ia encontrar um grande amor. Fiquei confusa. “Amanhã de manhã vou pedir o café pra nós dois”, cantava o Rei quando dei play no cd. Tudo naquele dia parecia um roteiro escrito onde o final só podia ser exaustão a dois numa cama. Em que momento o amor entrava na história ainda não estava claro pra mim.

E foi então que tudo se iluminou: André era um estrategista. Com seu desabafo virtual, André estava arranjando sexo pra muitos e muitos dias. Ia chover gente na horta dele. Por minha parte, eu ia transar com André aquela noite e ia passar o resto do ano tomando banho frio, até no inverno, enquanto ele talvez começasse a recusar trepadas. Numa terça-feira próxima (dia mais propício ao trabalho, segundo a revista Alfa), André escreveria: “Não aguento mais transar.”

Quando cheguei ao restaurante onde meus amigos me esperavam pra jantar, anunciei:
André precisa transar. Eles não tinham ideia de quem era André. Sequer sabiam se André era alto ou baixo, gordo ou magro, e percebi que nem eu sabia mais qual era a cara do André. Fazia meio século desde uma noite em que, bêbado, André enfiou a língua na minha boca e me beijou. Agora parecia até ridícula a ideia de transar com André, porque se a gente não trepou naquele dia, não ia trepar nunca mais.

Minha quinta-feira terminou com a rotina de lavar o rosto, passar creme hidratante e programar o despertador pro dia seguinte. Sem sexo. E sem um amor novinho em folha. Na sexta-feira, antes de sair para trabalhar, lá estava o anúncio de André com muitos, muitos comentários. Cliquei "Curtir" e escrevi: eu também. Entrei no banho. Decidi parar de fumar.