quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Winter, spring, summer or fall

Aos leitores, amigos e curiosos que passam por esse sítio, tendo se solidarizado ou não com a minha causa, é com orgulho e satisfação que anuncio, depois de meses de árdua batalha, que sou a mais nova amiga do MAM.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Achados de verão


Não perguntávamos sobre todos os guarda-chuvas que víamos e muito menos sobre a diferença que havia entre esses guarda-chuvas pretos e o guarda-sol. Não porque quiséssemos fazer papel de bobos, mas porque, se a gente insistisse muito em obter respostas para uma pergunta como esta, corria o risco de transformar uma coisa rara numa coisa banal.

Lloyd Jones em O Sr. Pip (editora Rocco 2007).

Imagine acordar todo dia e não saber onde estão as coisas – bem, foi assim que acabei. Eu estou me queixando? Espero que não. Minha situação não é um sofrimento. É uma frustração. Você se vê sempre chegando atrasado para a piada. As pessoas à sua volta – no ponto do bonde, por exemplo – estão rindo. Do que elas estarão rindo? Você vê seu rosto se transformando para rir também, mas você tem que esperar. Você tem que esperar por uma pista e partir daí. Talvez você ouça alguém dizer: “Eu achei que ela ia pegar o cachorro.” Então havia um cachorro envolvido, o que quer que fosse; agora já é um acontecimento passado. É assim que você existe no mundo. Brincando de pegar. 

Lloyd Jones em Mundos Roubados (editora Rocco 2012). 

Nenhuma luz na minha cara / Mas ouço o grito na medula / Eu tô sozinha nesse palco / Meu peito bate com a guitarra / Ali no solo da guitarra / Eu sinto aplauso e sinto a vaia / Ah, tudo de novo / Ah, olhos da cara / Ninguém canta pra ninguém / Ninguém me dá uma novo dia / Ninguém me mata de alegria / Ninguém faz nada por ninguém / Se o tempo passa feito bicho / E o bicho come o próprio bicho / Me ama logo, pensa bem /Ai, pensa no amor... / Ah, pensa no amor... / Ou não pensa em mais ninguém

Nuno Ramos, pela voz da Dona Inah, no disco do Rômulo Fróes. 
 

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Os biscoitos recheados do meu tempo

No início era o Trakinas, e a gente só tolerava esse tipo de biscoito porque não tinha lá tanto discernimento. Se a gente encarava Cheetos e Fandangos, não era um Trakinas que ia despertar nosso paladar para a sofisticação da indústria alimentícia. Trakinas de chocolate e morango eram ingeridos com a mesma devoção com que comíamos Mirabel na hora do recreio. Ou Deditos. Da seara dos salgados, o biscoitinho de queijo da Piraquê era o meu preferido, e foi só em 2011 que vim a saber que a embalagem deste e de outros produtos da mesma marca foram originalmente desenhados pela Lygia Pape. Se os Tostines vendiam mais porque eram fresquinhos (ou se eram fresquinhos porque vendiam mais -  e eu gastei muito tempo da minha vida tentando solucionar essa equação), os Piraquês vendiam bem porque eram sensacionais, e a Lygia Pape certamente não tinha nada a ver com isso.

Consta em alguma parte das minhas memórias afetivas que os biscoitos São Luís também tinham seu lugar na merendeira, mas confesso que deles, basicamente, só lembro do jingle: "São Luís Nestlé, qualidade em biscooooitos!" O jingle do Passatempo, por sua vez, poderia ter-nos feito desistir pra todo o sempre de engulir tal massa. Mas o gosto e a nostalgia prevaleceram, e volta e meia compro um pacote de Passatempo recheado no camelô da esquina, só pra voltar a ser criança durante 7 ou 8 mordidas num dia qualquer às 4 da tarde.

Depois de tantos preâmbulos, cheguemos, pois, ao ponto: oOreo, o Negresco e o Bono, ou o que correponderia ao “The good, the bad and the ugly” na gôndola do supermercado.

O Oreo é certamente o único biscoito que faz frente aos biscoitos da minha avó, que já receberam excessivas loas neste blogue. A crocância do Oreo, a cor, o sabor, a brancura do recheio, tudo numa rodelinha de Oreo demonstra a que ponto a humanidade pode se aperfeiçoar e provocar o deleite alheio. Empanturrar-se de açúcar e gorduras trans nunca foi tão justificado quanto quando havia Oreo. Quando estávamos convencidos de que nada podia ser mais alentador que o Oreo, eis que surge o Oreo banhado.

O Oreo banhado, confesso, despertou o egoísmo e a ganância de muitos, afinal, a caixa continha apenas seis bolachas, todas envoltas numa capa de chocolate. Estava aí: o sublime. Nem cinema, nem literatura, nem Chopin, nem religião. Oreos banhados.

Quando os Oreos sumiram dessa terra tropical, meu mundo caiu. Eu, que a essa altura já sofria de abstinência das bolinhas de queijo, tive que encarar mais um luto comestível. E tal qual se dava nos bares, onde eu tentava decifrar a poesia de um bolinho de bacalhau, eu buscava em Negrescos e Bonos a felicidade que nenhum dos dois me daria. Eventualmente recorria ao Chocookie de baunilha, que não tinha nada a ver com a história, mas que passou a ser a melhor opção na tentativa de preencher o buraco do Oreo, que, cá entre nós, passou a ser existencial. O mundo nunca fez muito sentido pra mim. Tudo ficava ainda mais abstrato diante de absurdos como a extinção do Oreo.

O tema Oreo virou quase um tabu para mim. Era melhor não falar sobre o assunto, era melhor não pensar sobre isso, e em hipótese alguma discutir com alguém o sumiço do biscoito. Mas a verdade um dia vem à tona, especialmente quando impulsionada por cerveja, e foi numa mesa de bar (sem bolinhas de queijo), no apagar das luzes de 2011, que confessei a uns e outros a minha dor. Para meu espanto, a solidariedade e a revolta foram instantâneos: eu não estava sozinha.

Naquele dia, voltamos pra casa e descobrimos que a Amazon vendia: Oreo, Oreo banhado, colar com pingente de Oreo. Obviamente, eles não faziam esse tipo de entregas no Brasil. Desolés, seguimos nossas vidas, pulamos sete ondas, conhecemos o Japão, a floresta da Tijuca, o mercado de peixe de Niterói e eis que o Thiago anuncia, via email: habemus Oreo banhado. O Thiago estava voltando da Argentina, terra de Ricardo Darín, Fito Paez e Evita. Terra de gente que pode ler Borges degustando Oreos banhados. Terra de vinhos onde se pode ter mullets e Oreos banhados.

Enquanto o Thiago não voltou ao Brasil são e salvo e com os Oreos banhados intactos na mala, a Bibs e eu mal pudemos dormir. A gente abusou do Olcadil, teve dor de barriga, tremedeira, bebeu, fumou etc. Então, na mesma semana que confirmaram os shows do Morrissey no Rio, os Oreos banhados aportaram no Leblon, e mais não digo, porque o que se seguiu à abertura das caixas de Oreos banhados é impróprio.

Não deu nem tempo de preparar uma trilha sonora adequada, mas eu diria que o hit do momento traduz com exatidão o nosso sentimento no segundo em que, depois de um brinde, e depois de anos de delirium tremens, nossas bocas abocanharam um Oreo banhado: nossa, nossa, assim você me mata.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

curtas


Moro num apartamento que parece casa, com janela pintada de verde e jardim inclinado. Minhas espreguiçadeiras precisariam de cinto de segurança. Tenho gatos e violões, amigos que tocam músicas do Álbum Branco e de Gilberto Gil. E vizinhos adolescentes que ainda sonham ser rockstars. O repertório podia ser pior. Podia ser melhor também. O que quer que fosse, irrevogável é o fato de que o vizinho e sua banda de garagem tocam mal. Durante anos sonhei que o vizinho de baixo, um dia, bateria à minha porta reclamando, justamente, das minhas habilidades como guitarrista. Ele faria elogios ao meu gosto musical, se declararia fã dos mesmos solos que eu treinava com afinco, mas incentivaria fortemente que eu abandonasse tudo aquilo. Nunca mereci sequer uma cutucada do vizinho, dessas que fazem com a vassoura no teto. Agora, ao meu lado, competindo com a conversa que meus convidados tentam estabelecer, a banda de garagem ensaia o repertório de Ok Computer. É a pior versão de Karma Police que alguém poderia aguentar. Abrimos latas e mais latas de cerveja. Tentamos desesperadamente esquecer.

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Você parecia uma Frida Kahlo deslocada no tempo, com leque, turbante e brincos tão grandes. Saboneteiras, pescoço, tudo em você era de outra década. Eu me senti, instantaneamente, a última pessoa da Terra. Caía um temporal de interditar cidades e você cada vez mais podia ser alguém que chegou tarde demais pra semana de 22. Calada, aprofundava o mistério sobre si mesma, olhando fixamente para o espetáculo de raios que se dava a três passos da varanda onde estávamos. Te peguei pela mão, era incrível: sua maquiagem permanecia intacta sob a chuva.

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Hoje de manhã tinha brownie, coca-cola, um império a ser editado na minha mesa e uma vontade quase insana de te convidar pra comer rabanadas fora de época. 





quinta-feira, janeiro 12, 2012

Lanterna dos afogados - capítulo V


Well we all need someone we can dream on, and if you want it, baby, well you can dream on me. - Rolling Stones in Let it bleed.  



Minha incursão pelo mundo das piscinas teve fases bem distintas e definidas. Em comum, todas serviram de pretexto para abandonar a atividade. Estranhamente, segui adiante, com o mantra de se cheguei até aqui, só mais um pouco não vai doer. Quando ultrapassei a marca dos 1600 metros, confesso, achei que nem as inflamações escapulares (cada vez mais freqüentes) poderiam me parar. Virei uma máquina. Mais que todos os benefícios que a natação proporciona, mais que o impacto do livro do Haruki Murakami sobre corrida (eu sei, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mas no fim dá no mesmo), o que me incentivou a continuar desbravando raias foi o Zé.

Até a minha amizade com o Zé começar, eu enfrentei: a) o pânico de morrer afogada; b) o pânico de ter um treco; c) o Paulão, ou Carlão?; d) a saudade doída do ballet.

Por partes:

a)     O ritual matinal nos primeiros 3 meses da natação consistia em dar um beijo na minha mãe ainda adormecida, afagar o cão idem e dar uma última olhada na cozinha de casa. Mentalmente me despedir de tudo, saber que aqueles gestos de carinho seriam minhas derradeiras delicadezas para com o mundo, porque depois de uma série de crawl, certamente morreria afogada. E eu sabia que era quase impossível tal façanha, visto que era só ficar de pé na piscina pra evitar tal tragédia, e mesmo que não conseguisse, havia ainda cerca de 3 ou 4 professores a postos que não hesitariam em mergulhar pra me salvar, provendo os mecanismos necessários para me ressuscitar. Nada, porém, me convencia, e meu epitáfio era certo: tal qual Ofélia, afogou-se.

b)     Quando entendi que não iria me afogar, achei, então, que pararia de nadar porque teria um treco. O desespero da falta de ar me faria, numa manhã chuvosa, interromper bruscamente uma braçada de costas, caminhar até a margem oposta, subir pela escada, buscar meus pertences e entrar no elevador ainda pingando, sem olhar pra trás, alheia às súplicas da Lili, ou de quem quer que fosse, de voltar pra água. Nunca aconteceu: numa raia de 3, fazer isso atrapalharia o ritmo do nado dos outros 2 atletas, e pra essas coisas sou solidária, portanto não tive um treco por excesso de compaixão e falta de espaço.


c)      O Paulão. Até hoje eu não sei se ele se chama Paulão ou Carlão, mas tanto faz porque Paulões e Carlões são, conceitualmente, a mesma pessoa. Ando destreinada para reconhecer flertes, mas quando o sujeito puxa assunto no elevador e te dá umas sacadas, é batata. No começo achei que era impossível alguém curtir alguém que tinha,  antes: marca do travesseiro no rosto, cabelos desgovernados, calça de pijama por cima do maiô; durante: maiô, touca, óculos, pé-de-pato; depois: marca de touca na testa, toalha amarrada na cintura, cabelos amassados, bochechas rosas. Mas cada olhada do Paulão (ou Carlão) em minha direção falava sobre coisas que eu nem sei dizer. Em vez de ficar lisonjeada ou orgulhosa do meu poder de sedução atroz, achei que a existência do Carlão (ou Paulão) na raia ao lado era motivo o suficiente pra abandonar tudo aquilo, porque aquele pretendente era demais até pra quem tem uma casa afetiva como a minha. 

d)     Em dezembro, também, eu fui assistir a uma apresentação de dança contemporânea e lembrei de como era ridiculamente feliz no ambiente bem menos molhado de uma sala de aula de dança, e toda vez que eu nadava e que tudo era igual e nunca outra coisa, eu pensava puta que pariu, o que eu to fazendo aqui? Drama bem fácil de entender.

Comecei a perceber que o que me mantinha ali chafurdada nas águas cloradas daquela escola de natação era o Zé.

O Zé divide raia comigo nas aulas de quarta-feira. O que eu sei do Zé: ele tem uma neta Julia de seis meses e um outro neto mais velho. Ele costumava dirigir até Campinas, completando o percurso em cerca de 5 horas. Ele gosta de vinhos. Ele tem voz de Nelson Gonçalves e sempre que o avisto entrando na piscina, cantarolo Chão deEstrelas mentalmente. O Zé, não sei por que, me dá vontade de chorar. Ele tem uns 80 anos, nada tranquilamente e ainda se preocupa se não vou bater com as unhas na parede da piscina, e se oferece pra tocar de lado comigo na raia. Eu mostro pra ele que mantenho as unhas curtas, e sinto vontade de chorar de novo.

Desde que eu descobri a doçura do Zé que chego mais cedo às quartas-feiras e faço alongamento com ele, a Elda e o Jimmy na piscina, antes de começarmos de fato a nadar. A Elda e o Jimmy também são mais velhos, não tanto quanto o Zé, mas ainda assim. A identificação com essa turminha é imediata e já penso em convidá-los pra um cineminha. Algo me diz que teremos muito assunto.

Hoje, às 7h01, fiquei presa no elevador do prédio da natação. Me veio todo esse flashback na cabeça, vi minha vida natatícia passar diante dos meus olhos. Por sorte, o Paulão não estava comigo. Tudo, sempre, poderia pior. Ficar presa no elevador do prédio da natação, ainda que por 3 minutos, foi como morrer afogada duas vezes na mesma quinta-feira, porque de repente, ao dar as primeiras braçadas do dia, tudo começou a doer (ombro, escápulas e pescoço), eu engoli água pacas e eu voltei à estaca zero. Quando consegui me libertar e chegar até a escada de acesso à piscina, não vi o Zé, porque não era o dia dele. Nem a Elda e nem o Jimmy estavam lá. Verdade seja dita, no estado em que me encontrava, até o Carlão poderia ter servido de alento, porque minhas pernas tremiam e eu só pensava em sair correndo, mas desde dezembro que esse ser está desaparecido.

O episódio dessa manhã anunciou que essa história de natação já foi longe demais. O Zé, posto que era chama, foi eterno enquanto durou. Já sinto saudades. Na hora do almoço vou comprar sapatilhas. Ballet é um massacre, mas é bem mais seguro.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Olha vai chover, é verão

A praia sempre foi imprópria, e tem gente que se horroriza quando você pega emprestada a escova de dentes de um amigo. Quando a gente era criança, não tinha grade de proteção nas janelas. A gente lidava bem com sacadas, varandas, claraboias e afins. A maioria de nós, ao que consta. A gente comia batata Pringles, uma lata atrás da outra, e elas tinham um sabor delicioso de industrialização. Fiquei bem aborrecida com minha última incursão no mundo da Pringles. Junto com a gordura trans, ou o que quer que fosse que significasse veneno, lá se foi toda a gostosura. A gente sempre comeu legumes e frutas com agrotóxicos e morangos gigantescos. O abacaxi bom era o do caminhão que ficava parado na esquina. Com o advento Marcos Palmeira + Hortifruti, os tomates ficaram do tamanho de uvas, a tangerina dá o ano todo e o preço das saladas do Gula Gula ficou proibitivo. Cinto de segurança não era obrigatório (isso sim, uma maluquice) e manicure usava raspas de sabão branco diluídos em água quente pra fazer nossas unhas. Sabor de picolé era chocolate, uva ou côco, sorvete Itália era uma questão de muita sorte, cada um levava seu próprio guarda-sol pra praia, onde não havia cartela de consumação, altinha e nem filtro solar específico pra pele de rostos oleosos: todo mundo usava Sundown e era feliz ao meio-dia na areia.

Os tempos se complicaram de tal forma que a gente trocou os futriques do Orkut por uma opinião no Facebook. A Natalie cantou a bola há uns meses, dizendo que achava tudo chato. Eu curti, porque é o que de melhor fazemos. Eu nem sei se ela pensava em tudo isso quando desabafou, mas minha intuição diz que a preguiça generalizada que a Natalie sentia tem muito a ver com a minha.

Eu tenho saudade do Free Jazz Festival e dos tempos em que colecionava testimonials elogiosos sobre mim mesma. Hoje pra ganhar um polegar levantado hay que suar a camisa, dizer frases de efeito, ter uma visão política bem fundamentada, odiar a Globo, lutar por Belo Monte etc. Ou conhecer vídeos fantásticos e músicas idem. Eu tenho saudade do tempo em que a gente ficava na fila do cinema pra garantir um lugar bom, e eventualmente tinha que sentar longe do coleguinha. Sobretudo, tenho saudade da época em que chovia e esse comentário ficava restrito ao elevador, à avó do seu namorado ou ao vigia da rua. Quando fazia sol a gente telefonava pros amigos e ia dar um mergulho, em vez de ficar postando aos quatro ventos súplicas pra desligar o maçarico. Cá entre nós, a piada nem tem graça. Pra nossa sorte, as pessoas ainda não tem muito o que dizer a respeito de um dia nublado.

Eu não sei quando é que a gente acreditou que tinha tanta coisa a proferir assim, e nem quando resolvemos ter um milhão de amigos virtuais, tampouco sei justificar porque trocamos as comunidades com lasers (e Woody Allen, que sempre nos ligava) e os fotologs por instagrams e ativismo. Tem coisa mais cafona que uma foto da sua geladeira com essa estética 2011? Uma geladeira é uma geladeira é uma geladeira, e precisa bem mais que um iphone pra melhorar seu eletrodoméstico, seu gato, seu pé, seu par de óculos no parapeito da janela (com grade de proteção).

Eu sempre fui ranzinza, isso não mudou. O McDonalds, por mais que venda maçãs e água, sempre será o McDonalds, e não um fraco como a Batata Pringles. O Balada Sucos era bem melhor antes de virar Mix. Todo mundo usava condicionador Neutrox, as pessoas nem pensavam em clarear os dentes e Supra Sumo não tinha esse nome à tôa. Eu gostava mesmo quando a gente mexericava a vida alheia na internet e todo mundo era bem mais legal. Quando a gente queria ter um milhão de amigos mesmo, e não sair por aí deletando as pessoas.

Pra não dizerem que não me adapto aos tempos, deixo aqui meu apelo a São Pedro: por favor, abotoa o céu, deixa o verão chegar, que no mar todo mundo fica quieto. Do contrário, é como disse a Natalie: eu acho tudo muito chato.

quarta-feira, dezembro 28, 2011


estou no ar
sem garantia ou validade
em várias estações no ar
o coração vibrando em overbass
não há, não há explicações, não há
sou agora assim
simplesmente
cansei
de ser
como deveria ser

vou agora assim
seguindo em direção alguma
agora sim
partindo
o chão com meus pés

aberto para balanço
vou errando as previsões
quantas danças você me dá?
quantos passos pra pisar?

sem garantia ou validade
sem previsões de tempo
não me espere
vou
sem torre de comando
alço voo
faço
meu próprio vento

Omar Salomão in Impreciso, Dantes Editora.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Fax


Pedro Lago sugeriu um texto sobre beijo na boca, de língua. A Bel me deixou uns quinze dias pensando na inexplicabilidade do fax, entre outros. Voilà. E feliz natal.

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Manual para fazer origamis, porque dobraduras são as primeiras trocas que se estabelecem com qualquer um. Saber o que esconder é vital, se os defeitos, as qualidades, os vícios. Indicações para construir seu próprio pássaro. Ela responde de letra corrida dizendo “ok, deu certo”. Para enviar, aperte o botão verde.

Bilhetinho de bom dia, mesmo que não seja todo azul. Uma foto de montanha, quase não dá pra ver direito. Cartão de visita, trecho de livro, extrato bancário pra programar as férias, página de revista, receita de nirá, versinhos meio bobos sem rima, notícia de jornal, um fio de cabelo, cinzas de um incenso, uma manchinha de sangue da ponta do dedo pra ter certeza de que é real, mesmo que tudo perca a cor.

E tudo o mais que pode passar de um país pro outro com o mesmo mecanismo de apertar o botão, fazer a folha rodar e se materializar tão longe. Até bula de remédio analgésico: perceba como dói minha cabeça só de não estar perto de você.

Letra de música: piscinas de silêncio, hinos do sem lugar.* Tenta imaginar como é o ritmo: é o primeiro bocejo depois de uma tarde toda no mar. A voz: é uma respiração tão funda e quieta.

Ele fica aguando tudo o que não pode reter. Dobraduras gastas, beija a máquina como se a saliva pudesse atravessar, língua frenética, como se ela fizesse o mesmo do outro lado, como se a temperatura das bocas, como se o esbarrar de dentes, como se fogo.

Retalhos de língua, finas camadas colocadas sobre o papel como se fosse um quebra-cabeças. O delírio dos cortes, a mensagem urgente: aqui sou eu, enlaçando a tua cintura. Peles dos lábios nas margens. Se pudesse, arrancava um molar. Te dou uma leve mordiscada no lábio inferior. Gosto de sugar sua língua e depois cravar a boca no teu pescoço. A folha se encharca de sangue. Para enviar, aperte o botão verde. Setas que indicam pra onde a língua roda, duração dos segundos, e começamos um novo movimento. Para enviar, aperte o botão verde. Começo a perder o fôlego. Aperte o bot. (apito). Ap. (FALHA). Para enviar. Aperte.

* in Acalanto, de Arthur Nestrovski e Zé Miguel Wisnik, do disco Indivisível.


sexta-feira, dezembro 02, 2011

André quer transar


Ou melhor, André precisa transar. Não é um palpite, é uma constatação do próprio, que postou tal afirmativa em sua página do Facebook. Ele não escreveu: “quero”, “gostaria de” ou “estou com saudades de” transar. André foi categórico: “Preciso transar."

André disse que precisava transar numa noite de quinta-feira, justamente o dia em que eu já pensava que queria transar também. Segundo uma reportagem da revista Alfa, quinta-feira é o melhor dia para fazer sexo (a mesma pesquisa afirma que a sexta-feira é o melhor dia pra parar de fumar, mas isso ninguém reparou). Não sei se o André leu essa matéria ou não. O fato é que André precisava transar, e eu fui tomar banho. Frio.

Uma ducha fria diária: ajuda na prevenção do envelhecimento; libera pequenas quantidades de endorfina, diminuindo assim a ansiedade, a depressão e a fadiga; melhora a qualidade do sono quando tomada antes de dormir; abaixa ligeiramente a temperatura corporal (pense no princípio do “congelar conserva” e voilà) e tem menos impacto ambiental que um banho quente. Isso eu li num livro naquela tarde de quinta-feira, no trabalho. Por uma razão bem óbvia e consoladora, o autor da obra em questão aborda os benefícios da ducha fria diária depois de ter exposto que: relações sexuais regulares nos protegem, no sentido de moderar a aparição de diversas doenças, como cânceres e doenças cardiovasculares; 3 relações sexuais por semana aumentam em 10 anos a expectativa de vida; 21 ejaculações mensais previnem contra o câncer de próstata.

Minhas endorfinas e eu saímos do banho frio. Mas eu ainda queria transar. E André também. Pior: André precisava transar, e eu começava a concluir que: eu também. Precisava. Transar. Pensei em quantas duchas frias o André devia ter tomado antes de concluir que precisava transar. Quanta água gelada o André teria gasto antes de anunciar aos quatro ventos que precisava transar.

Foi fácil admitir. Difícil seria a conversa que eu teria com André antes de transar com ele. Evidentemente eu não era a pessoa mais indicada pra transar com o André naquela quinta-feira, visto que eu queria, antes de tirar a roupa, estabelecer um estatuto em concordância com as minhas vontades e as vontades do André, pra me cercar de possibilidades de que aquilo seria bom pros dois (porque, cá entre nós, sexo casual comigo nunca dá certo). Achei que era necessário criar algumas regras pra essa trepada, só pra ficar tudo esclarecido: André poderia tirar minha roupa, desde que não rasgasse nada; strip-tease estava fora de cogitação, sou muito atrapalhada; tapas não rolam; mordidas, só no pescoço; evitar posições que possam despertar hérnia de disco (de quatro, por exemplo); evitar preservativos com sabor ou cheiro de frutas (ânsia de vômito); evitar trilha sonora; nunca, em hipótese alguma, ligar o shuffle do iTunes; não dormir de conchinha; telefonar no dia seguinte. Ok, telefonar no dia seguinte era uma cláusula que não fazia o menor sentido pra esse tipo de sexo que o André precisava e eu queria. Precisava.

Escolhi um vestido preto de malha, básico, sem muito desespero ou castidade. Salto alto era indispensável. Sem batom. Quando entrei no carro, uma rádio anunciava exatamente as previsões para o meu signo naquela noite: eu ia encontrar um grande amor. Fiquei confusa. “Amanhã de manhã vou pedir o café pra nós dois”, cantava o Rei quando dei play no cd. Tudo naquele dia parecia um roteiro escrito onde o final só podia ser exaustão a dois numa cama. Em que momento o amor entrava na história ainda não estava claro pra mim.

E foi então que tudo se iluminou: André era um estrategista. Com seu desabafo virtual, André estava arranjando sexo pra muitos e muitos dias. Ia chover gente na horta dele. Por minha parte, eu ia transar com André aquela noite e ia passar o resto do ano tomando banho frio, até no inverno, enquanto ele talvez começasse a recusar trepadas. Numa terça-feira próxima (dia mais propício ao trabalho, segundo a revista Alfa), André escreveria: “Não aguento mais transar.”

Quando cheguei ao restaurante onde meus amigos me esperavam pra jantar, anunciei:
André precisa transar. Eles não tinham ideia de quem era André. Sequer sabiam se André era alto ou baixo, gordo ou magro, e percebi que nem eu sabia mais qual era a cara do André. Fazia meio século desde uma noite em que, bêbado, André enfiou a língua na minha boca e me beijou. Agora parecia até ridícula a ideia de transar com André, porque se a gente não trepou naquele dia, não ia trepar nunca mais.

Minha quinta-feira terminou com a rotina de lavar o rosto, passar creme hidratante e programar o despertador pro dia seguinte. Sem sexo. E sem um amor novinho em folha. Na sexta-feira, antes de sair para trabalhar, lá estava o anúncio de André com muitos, muitos comentários. Cliquei "Curtir" e escrevi: eu também. Entrei no banho. Decidi parar de fumar.

quarta-feira, novembro 30, 2011

Carta a G.


Caro,

Faz dois ou três dias que escrevo na minha cabeça um epitáfio para esse blog. Não é a primeira vez que pego em armas e faço ameaças contra mim mesma. Tampouco é a primeira vez que afirmo que dessa vez é de verdade. Mas dessa vez, receio que seja de verdade.

Vou te explicar.

Estou chata. Embora eu mesma tenha levantado uma bandeira a meu favor, o fato é que, recentemente, nada acontece. Até a natação perdeu o sabor, desde que me convenci de que é inviável morrer afogada na piscina, alcancei certa tranquilidade e hoje saio da aula achando que poderia ter nadado ainda uns 100 metros. Bizarro, não é? Minha nova persona é assim: comprei um par de tênis pra correr na orla, apliquei dinheiro num fundo de investimentos e desenvolvi uma doença de pele cuja causa principal é um “estado psicológico”.  Devo evitar, entre outros, bebidas quentes, álcool e vento. Como é que se evita vento? O tratamento homeopático pra alergia, por sua vez, proíbe cânfora, mentol, eucaliptol, trident, bala halls, salompas. Penso em voltar pra análise. A lista do que não fazer é tão grande que me restam poucas coisas.

Meus novos amigos são bebês que acham graça das vozes que eu sei fazer, e das músicas que gosto de cantar. Eles também riem de coisas bobas. Eles não discutem Belo Monte, USP, crise na Europa, o poder da China e, provavelmente, também acham que esse conceito de fuso-horário não faz o menor sentido.

Tá tudo assim: morno. Em seu Bartleby e Companhia, Vila-Matas cita: “Muitos anos depois, Beckett diria que até as palavras nos abandonam e que com isso tudo está dito.” Em Luz em agosto, Faulkner escreveu: “Quero dizer como eu disse a você uma vez que existe um preço por ser bom como por ser mau; um custo a pagar. E são os bons que não podem recusar a conta quando ela aparece.” Eu sei, não tem nada a ver. Mas tá vendo? Eu poderia fazer um blog só de citações imperdíveis.

Não falo isso em tom de reclamação. Clayton Fabio, o astrólogo, disse que era tempo de ficar empacada mesmo, mas que em breve isso passa. Espero que sim. Espero, também, que esse curto relato do meu paradeiro aquiete suas expectativas.

Cordialmente,

domingo, novembro 06, 2011

This could be the first trumpet*


Uma sexta-feira de julho

Tudo deu errado com os músculos que sustentam e envolvem a escápula direita. Nada mais funciona: pescoço, ombro e mesmo o braço parece que vai despencar de tão pesado. Prometi passar no lançamento do livro de um amigo. Confirmei presença num jantar na casa de uma amiga onde certamente não vou conhecer ninguém. Socializar com contratura muscular é tão complicado quanto fazer baliza em dia de torcicolo. Deixo o livro do amigo pra depois, compro a garrafa de vinho pedida pela anfitriã e rezo, quase me ajoelho, pra que tenha maconha. Faz uns 10 anos desde a última vez que fumei maconha, e depois de ter tentado alopatia, bolsa de água quente, cânfora, fisioterapia, massagem, relaxante muscular e Lexotan, me apego à possibilidade da cura fitoterápica. Um trago (tapa?) na maconha alheia e tenho certeza que tudo vai dar certo de novo nas proximidades dos músculos rombóides. Chego ao Humaitá, o vinho na bolsa, fecho os olhos antes de tocar a campainha. Eu deveria conhecer o homem da minha vida nesse jantar, mas agora só consigo pensar no momento em que alguém vai perguntar “e aí, vamos fumar um?”. Meus passos, de repente, parecem passos de reggae. Meu colar de pérolas poderia facilmente ser substituído por um colar de conchas. Amanhã vou à praia na Joatinga, penso. Com o Bruno. Todo mundo conversa sobre artes plásticas com a propriedade de quem comenta o tempo no elevador. Todo mundo bebe vinho e trabalha com cultura, e eu só sinto uma dor lancinante que me define como alguém que sofre. Muito. Quando o sujeito louro e baixinho sai à caça de um isqueiro, me instalo na poltrona e agarro meu terço imaginário: faz uns 10 anos desde a última vez que fumei maconha, ri feito uma demente, e agora toda essa gente aqui vai testemunhar. Mas que nada. É uma sexta-feira de julho de 2011 e todo mundo está eufórico pra fumar sálvia. Eu pensava que sálvia era ingrediente de pizza, salada ou horta. Um tititi se arma em torno do sujeito louro baixinho, uma euforia maior que a que se desencadeia quando anunciam que o Strokes vem ao Brasil. Esse é o retrato da minha desolação. Não tenho ingressos pro Planeta Terra, não tenho maconha pra fumar. Amanhã não vou à Joatinga com o Bruno porque é inverno e o sol vai embora de lá bem cedo. Aproveito a ocasião pra recuperar minha bolsa e saio de fininho pensando desde quando as pessoas fumam sálvia. Sálvia. Amanhã vou à feira.



Quinta-feira à noite, setembro

É sempre o pior dia pra se chegar em casa, a cidade empaca, o horário de verão ainda não começou e eu li uns 4 livros naquela semana. Tudo ao meu redor alucina, e ao parar na praia de Ipanema quase em frente ao Laura Alvim vejo a menor palmeira do jardim em frente à casa girar. Esfrego os olhos e já não há mais nenhum movimento. Mando uma mensagem pro Lucas, que me garante que não estou tendo visões e que sim, a palmeira do jardim da Laura Alvim gira. Ele é meu chefe, não ouso discordar, seria como desafiar hierarquias. Mas guardo certa desconfiança. Desde então, nunca mais a palmeira deu piruetas e eu não tive coragem de perguntar a mais gente se aquilo era real ou fruto de ervas que sequer ando consumindo.




Quartas-feiras e domingos

Entre um “mengooooo” e outro, ou melhor, verdade seja dita, entre xingamentos débeis como “filha da puta”, “viado” e expressões de mesmo escalão como “chupa ______”, meu vizinho do 202 fuma baseados superpotentes com seus amigos que sempre assistem aos jogos rubro-negros aqui no prédio. O cheiro invade meu quarto, minha mãe já me olha divertida e eu durmo embalada pela marola que bate aqui, enquanto meu vizinho e seus amigos gastam a onda jogando ping-pong no play. E xingando uns aos outros, obviamente.



Uma terça-feira de outubro

Estaciono o carro na Lagoa e descubro um comando que muda a posição do retrovisor esquerdo quando engato a ré. Mostro pra Eugênia, sentada no banco do carona, e repito a operação algumas vezes. Achamos graça e de repente lembramos Beavis e Butthead, mas em vez de AC/DC, ouvimos “Turn your lights down low”, do Bob Marley. O trânsito estava surpreendentemente bom, o que nos fez chegar cedo demais, e portanto fazemos hora no carro antes de subirmos pra aula. Quando “Redemption Song” começa, Eugênia e eu pensamos num pequeno menu da larica perfeita: burrata do Braz, pão-de-queijo da Adriana Lunardi, brigadeiros da tia da Helaine, Kusmi tea. Desde o jantar em que as pessoas fumavam sálvia que eu não pensava mais em fumar maconha, e agora estamos as duas aqui, falando de Laird Hamilton e as ondas de Teahupoo, pensando hibiscos, elencando comidas disparatadas para uma larica que provavelmente não se produzirá e rindo dos efeitos especiais do carro novo. Talvez a gente não precise de drogas mesmo. Por via das dúvidas, porém, já penso em bater na porta do 202, pedir açúcar, talvez seja um bom começo. 


* Bob Marley em Natural Mystic. 

sexta-feira, outubro 28, 2011

I'm gonna crawl*

Não posso ignorar minhas próprias obsessões, e depois de ler esse texto, tá decidido: passarei as próximas férias em Berlin nadando com Bernardo Carvalho.


* Led Zeppelin

quinta-feira, outubro 27, 2011

Para o Marcelo

 
O processo de digestão das coisas boas é sempre mais complexo que o das coisas ruins. De um jeito ou de outro, com mais ou menos esforço, mais ou menos suor, mais ou menos palavrões, as coisas ruins a gente deixa por aí, porque acabam saindo de alguma forma: no mar, em folhas de caderno, em sapatilhas de ballet, em 3 atos de uma tragédia ou em 4 taças de margarita.  

Felicidade, geralmente, só sei no dia seguinte, quando fico pairando em vez de andar. 

Felicidade é mais caro, me dá muita solidão e um problema que ainda não sei enfrentar. Fico uma tarde inteira sozinha na praia, tentando guardar as sensações e barulhinhos que o corpo faz, numa tentativa de reter tudo o quanto for possível, segurar com os dentes e as mãos, porque não quero esquecer, não quero perder nenhum detalhe, quero guardar. 

Bate um mutismo que parece irreversível. A desconfiança de que ninguém entende. Nenhuma música é possível, e nem mais nada. Felicidade se apropria das entranhas, é latifúndio do corpo. Eu só queria que tivesse um botão que fizesse parar de chorar e então ia começar a te dizer tudo o que eu queria. 



(esses pequeninos parágrafos estão sendo escritos há dias. Ficaram empacados pelo mutismo que a felicidade causa. Hoje o Marcelo ganhou o prêmio de melhor diretor pelo seu primeiro filme, entitulado "Testemunha 4", que foi exibido na Semana dos Realizadores. Tem repescagem dia 5/11 no Instituto Moreira Salles, RJ)

quinta-feira, outubro 20, 2011

Com que roupa

Às vezes a revolucionária que há dentro de mim desperta. Hoje ela acordou aqui.

Hoje, também, seria aniversário de Rimbaud. E ontem de Vinícius de Moraes. Eu ando amando o Paulo Henriques Britto. Fazer o que?

Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo. 
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo. 

Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Agora não


And people they don’t understand
No, girlfriends they can’t understand
In spaceships, they won’t understand
And on top of this I ain’t ever gonna understand

The Strokes in Last Nite



Eu sou muito legal. Tão legal que não deveria me justificar no meu próprio blog, e se você vem aqui há muito tempo (ou há pouco tempo também) já deve ter percebido isso. Eu sou imperdível. Se eu fosse enumerar minhas top 5 qualidades, ia ser difícil pacas. Eu falo “pacas”, só isso já faz de mim uma pessoa peculiar, e pessoas peculiares costumam ser bastante engraçadas. Domingo o Marcelo disse que eu sou hilária. Até o Gustavo, que nunca me viu na vida, disse que eu sou diversão garantida. E sou mesmo. Tenho sempre uma história pra contar. E sou muito disponível pros meus amigos: encaro festa falida em play de prédios estranhos, topo ser apresentada pra gente que sua exageradamente, faço cópias de fotos impressas pra eles guardarem de lembrança, mando cds temáticos por correio pra todo mundo ficar de bom humor no trânsito na terra da garoa. Coleciono tirinhas do Snoopy pros momentos em que as pessoas precisam respirar, aviso por email sobre todas as promoções de livros que descubro, aviso por mensagem quando a praia tá esperando. Quer mais? Ajudo a comprar roupa, sempre encontro a ponta do durex, sou boa com molduras, conheço o endereço dos melhores brigadeiros, bebo cerveja ou drinks elaborados, sei um ou dois passos de dança descolados e tenho o sobrinho mais bochechudo e gostoso da cidade. E uma Polaroid. Além de imperdível eu sou também inesquecível. Ontem, no bar, um sujeito que era amigo do namorado de adolescência da minha irmã lembrou de mim. Um francês que conheci num trem a caminho de Paris, no meio de uma nevasca pré-natalina também lembrou de mim quando me encontrou, semanas atrás, na Cinelândia. A minha professora de natação me chama de Juju. Até a Anne Rice me acha lovely!

Então por que eu sou constantemente abandonada é uma resposta bastante complexa de se resolver, possivelmente um mistério sem solução. Além de ser muito legal por todos os motivos acima citados, eu estou sempre cheirosa, bem vestida e dou carona pra todo mundo no meu carro. Dirijo bem, sei fazer baliza e no porta-luvas moram trilhas sonoras confiáveis. Talvez um dos meus poucos defeitos seja não saber a regra dos porquês. Não faz o menor sentido, portanto, que toda primeira vez que eu saia com um sujeito legal ou bonitinho acabe virando também a última. Menos ainda que 45% dos meus amigos mais queridos tenha ido morar do outro lado do oceano. Quando nenhuma criatura tá a fim de dançar a madrugada toda na casa da Matriz ao som de um dj da minha inteira confiança, eu evoco um deus pra tentar decifrar o motivo. Mas o cúmulo da rejeição, dessas impensáveis, é o fato do MAM me ignorar sistematicamente. Quando uma instituição aparentemente falida decide por não te aceitar no círculo de amizades dele, é que alguma coisa está fora da ordem.

Clayton Fabio, o astrólogo, explica. Eu explico também: desde que voltei a trabalhar no centro da cidade, o MAM virou local de peregrinação. Eu almoço lá, decoro minha casa imaginária com os móveis da lojinha, vejo metades de exposições quando sobram 20 minutos da hora de almoço, passeio pelo jardim de pedras e faço planos de voltar no fim do dia pra assistir um filme na Cinemateca. Dia desses, então, porque me pareceu uma solução obvia demais, me inscrevi para ser “amiga do MAM”. Entreguei o panfleto preenchido para o sujeito da chapelaria, que sorridente garantiu que a pessoa responsável entraria em contato comigo pra que eu pudesse efetuar o pagamento da anuidade. Semanas se passaram até que tomei coragem de ir lá perguntar o que estava acontecendo. Preenchi novamente o formulário, entreguei ao mesmo chapeleiro sorridente, e nada. Nenhum contato. Nenhum telefonema. Nenhum email, e eu tenho vasculhado o SPAM diariamente. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro não quer minha amizade. Faz menos sentido que qualquer obra contemporânea concorrendo ao Prêmio Pipa.

Marcelo acha que eu sou a primeira cidadã a me candidatar a tal empreitada, e que Luiz Camilo Osório e cia estão reunidos em cúpula, pensando o que fazer e/ou elaborando uma carteirinha cujo design ainda não sabem se será assinado pelo Cildo Meirelles ou pelo Tunga.

Clayton Fabio, o astrólogo, é mais certeiro: a minha casa afetiva está bem vazia. Isso não explica, porém, os abandonos e a rejeição. Ele não disse que a casa estava sendo evacuada. Ele não disse que eu estava perdendo gente, ele só confirmou que o marasmo nas relações deve durar ainda um tempo. Ele chegou mesmo a empregar a expressão “um longo e tenebroso inverno.” Eu não sei como pode ficar mais tenebroso que o atual quadro, que já está abstrato o bastante.

Sem saber o que fazer, deixei escapar uma lágrima quando Clayton Fabio, o astrólogo, sentenciou minha solidão. Ele sacou que o assunto era espinhento e foi logo passando pro próximo, que tinha a ver com o fato de fazer exercícios. Clayton Fabio, o astrólogo, foi convicto ao afirmar que eu não podia abandonar a natação. Ele disse que preciso de muito alongamento muscular. Mas pra mim é óbvio demais: a abandonada sou eu, e portanto só resta me agarrar com unhas e dentes a tudo o que eu puder reter, especialmente se tal objeto produzir endorfinas. Clayton Fabio, o astrólogo, viu a natação como minha última boia de salvação.

Por alguma razão que, desconfio, pode ter a ver com a posição dos astros no céu, o Tiago me deu um dvd do Peanuts de presente semana passada, e a Eugênia deixou um monte de livros na minha mesa de trabalho, frisando que todos eram para “uso pessoal”, logo a Eugênia, que também ri comigo e me acha engraçada...

O que mais eu posso fazer pra te convencer? Eu sou muito legal. Juro. 

quinta-feira, outubro 13, 2011

Ali onde teu doce voo se detém*


Sem dislexias ou mudanças, dessa vez obedeci ao que sugeriu o Pedro Lago: um texto sobre sexo oral e a Nona Sinfonia (e se isso for contravenção, então confesso que escrevi ouvindo os Noturnos de Chopin por Nelson Freire, que acabaram tendo participação especial no texto). 
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De onde eu estava, via o topo da sua cabeça. Fios brancos despontavam aqui e ali. Seus dedos cravados nas minhas coxas. De onde ele estava, se levantasse os olhos, poderia adivinhar meu sorriso escapando entre uma ou duas almofadas. Meus pés em suas costas. Pensava se minhas unhas estavam bem cortadas. Sempre pensava nessas coisas quando havia uma cabeça entre minhas pernas, até sentir uma penetração mais profunda, como se algo me espetasse, então esquecia das unhas e fechava os olhos quando o mundo começava a se apagar à minha volta.

Do sofá de onde agora o observo dormir, refaço os passos que nos trouxeram até aqui. 

Alguns dias antes, da mesa do almoço, podia ver que ele tomava a mesma sopa que eu. Não era destino nenhum, era apenas inverno no centro da cidade, e o fato de que a sopa era a melhor sugestão daquele cardápio. Via o caderno de esportes do jornal na cadeira vazia à sua frente, o celular ao lado do prato, certa calma em sua fome, e a barba. Uma barba preta, espessa, impenetrável, e milimetricamente desenhada sobre maxilares fortes, geométricos. 

Poucos dias depois, do fundo de uma livraria ali perto, podia ver seu tamanho, sua camisa jeans, sua nuca. Ele inclinava-se para a frente, folheava alguns volumes. Fiquei imóvel durante os segundos que ele usou para se virar em minha direção. Os olhos negros como os pelos do rosto, em perfeitas linhas aparadas que desciam até onde começa o pescoço. Ficamos ligeiramente mais lentos, como o segundo Noturno de Chopin, trilha sonora daquela tarde modorrenta. Ele franziu um pouco as sobrancelhas, senti minhas bochechas vermelhas e desviei-me do caminho. Espirrou enquanto eu saía pela porta. 

Na quinta-feira ele tomava um café no bar da esquina. Coçava o rosto enquanto lia uma notícia sobre o aumento do dólar. As unhas se perdiam na barba impecável e eu quase ouvia o ruído. Eu trazia um guarda-chuva que deixei cair enquanto repetia seu gesto, e entrei no carro antes que ele pudesse me ver. 

E sexta. De novo. Já não sabia como aquilo tinha virado uma pequena perseguição. Da mesa central do sebo onde agora estava, vi quando ele entrou, sacudindo um pouco o meu guarda-chuva do dia anterior. Sua camiseta tinha respingos, suas olheiras eram mais evidentes e sua barba imaculada continuava ali, preta, cerrada. Senti que meus batimentos aceleravam ao ritmo da Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven, como se o local tivesse sido invadido por uma horda de violinos. Quando o primeiro solista tomou conta da música e ele me estendeu o guarda-chuva, meu impulso levou minhas mãos diretamente ao seu rosto. Saímos dali quase românticos, pouco antes do coro e do meu coração explodirem, pouco depois que fechei os olhos e o mundo começou a desaparecer ao redor. 

As minhas unhas estavam bem cortadas, concluí. Arranhões marcavam o interior das minhas coxas. Riscos e traços com resquícios de sangue seco. A potência da língua abafada pela barba cortante. Os pelos afiados do rosto dele. A indecisão de saber o que ele tinha bebido de mim, e se as minhas lágrimas eram de prazer ou de dor. 

Sem fazer nenhum barulho, fui até o banheiro e descobri na primeira gaveta uma navalha. Reluzia. Ao pé da cama, calculei: três respirações dele cabiam dentro de apenas uma minha. Eu murmurava aquele mesmo trecho da Nona Sinfonia enquanto seus pelos iam caindo sobre o travesseiro branco. Minha destreza me espantou. Seu rosto ficava liso e branco. No escuro parecia um vampiro. Em questão de minutos, estava feito: passei os dedos lentamente sobre aquele pedaço de carne exposta, a pela macia, escancarada, a antiga barba espalhada sobre a fronha onde ele dormia. 

Peguei minha bolsa, bati a porta no exato momento em que o último compasso da Nona Sinfonia morria em meus lábios. No elevador, passei as mãos entre as pernas, fechei os olhos e senti: não demoraria a cicatrizar.




* tradução (wikipedia) de um dos versos do poema de Schiller, parte da Ode à Alegria, da Nona Sinfonia de Beethoven. 

domingo, outubro 09, 2011

FAQ


But it’s about reading something while you’re working and your heart is just longing for your project, and the joy of reading this book by somebody else is actually what makes you turn up at the desk the next day in the broader sense, you see. If I can just generate the same feeling in the reader that this writer generated in me then I’ll have succeeded. And that is probably the biggest influence.

Ian McEwan em entrevista a Zadie Smith para a Believer, falando de influências que não se veem em sua prosa.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Tesouros

(ou: do que se encontra dentro de livros comprados em sebos)

(clique nas imagens para ampliar)

1. Pedaço de embalagem da Kopenhagen;
2. Canhoto de bilhete de ônibus para uma  viagem que foi feita na poltrona 8 do dia 13/10/1970, quando empresa tinha acento circunflexo;
3. Etiqueta de lavagem de uma peça cuja composição era 60% algodão, 30% poliamida e 10% elastano;
4. Páginas 45 e 46, por sorte, vieram dentro do próprio livro a que pertencem (ou pertenciam).

Os dois primeiros itens foram encontrados dentro do livro "Virginia Woolf, a commentary", de Bernard Blackstone, de 1949 pela Hogwarth Press, London. Este é o volume verde que aparece na foto, e que foi originalmente comprado na Freitas Bastos, Livraria Editora, então situada no Largo da Carioca. 



O item 3 estava perdido entre as páginas de "Les Fleurs du Mal", de Baudelaire, em edição presentée par Jean-Paul Sartre, pela Livre de Poche Classique e que pertenceu à Zezinha, que o comprou em julho de 1964, sublinhou 2 frases do prefácio e logo abandonou o poema (creio). 



O item 4 foi (felizmente) achado dentro de um exemplar de "Selected Poems, T. S. Eliot", pela Harbrace Paperbound Library.

Alguns dos itens foram trocados por livros que nunca consegui terminar, por culpa única dos autores dos mesmos. A trilha sonora que acompanhou as escolhas variaram de Cake a Chopin (acho). Um sujeito que vestia camisa jeans olhava a mesma mesa que eu, onde encontrei 2 das obras, mas ele não se animou a espirrar em casa. Os livros chegaram à minha biblioteca no final do mês de setembro.

domingo, outubro 02, 2011

O dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi


Sempre tive medo de conhecer autores e dividir com eles frases, mesmo que cumprimentos educados, bom dia ou boa noite. Achava que ter contato com um deles fosse demais pra um leitor. Que não se podiam misturar as ficções, que talvez fosse até proibido. Tinha medo que os livros como eu os conhecia morressem no momento em que descobrisse as vozes, tamanhos e gestos das pessoas que os escreveram.

Consta que meu primeiro contato com Adriana Lunardi se deu em 2008, em Paraty, portanto 3 anos antes do dia em que tomei champanhe com ela. É o que atesta a data abaixo da sua assinatura, um A em forma de estrela a tinta fraca de uma caneta preta que naquela tarde marcou o meu exemplar de Vésperas. No dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi, ela me perguntou se foi simpática comigo aquele dia, e eu não soube dizer. Pensei em forjar alguma lembrança, mas a verdade é que eu jamais poderia mentir para Adriana Lunardi.

Acontece, então, que por uma dessas coisas que desabam na gente, passei a frequentar a casa de Adriana Lunardi uma vez por semana. E diante dela, um mágica ainda maior se operou.

Até o dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi, não entendia como ela podia ser a mesma pessoa de 3 anos antes, e tampouco achava possível que aquela moça magra de mãos pequenas e pousadas sobre um livro de Virginia Woolf fosse a mesma escritora que me assombrava com palavras e frases que só poderiam vir de alguém que não ela. Aquela moça de vestido, e cujas prateleiras amarelas carregavam uma biblioteca onde era possível habitar, aquela moça de voz mansa, de cadência de outono. Eu achava que Adriana Lunardi era duas, que não dava pra existir aquela Adriana que esquentava pães-de-queijo e servia champanhe rosé em taças de vidro dentro da mesma Adriana que inventava aquelas palavras e frases. Que organizar guardanapos era mundano demais pra quem fazia toda aquela literatura. E mesmo comprar flores.

O dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi foi milagroso porque juntei as duas coisas, porque vi como Adriana Lunardi me olhava com olhinhos brilhando, e como esse brilho abraçava as coisas à sua volta. Eu, que achava não ser possível que Adriana Lunardi desse conta dessa vida tão rotineira de que todos nós nos ocupamos, fiquei maravilhada de entender que ela sim, cuidava do seu mundo e inventava outros tantos. 

O dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi ficou marcado no calendário, com caneta especial e estrela no canto da página.


domingo, setembro 25, 2011

convite


“Falar de sentimentos é o mesmo que explicar o sabor do pão pela receita. Nunca dá certo.”

Adriana Lunardi in A vendedora de fósforos, página 105, ed. Rocco.