terça-feira, julho 28, 2015

Anatomia

“Um amigo meu me recomendou um massagista que é médium”, disse M., o que não soou tão estranho assim porque tem aquele personagem que é atendente na padaria e poeta e todo mundo pode ser um monte de coisas ao mesmo tempo, parece. Isso porque comecei a contar da nova fisioterapeuta: ela ficou comigo duas horas, DUAS horas, me virou do avesso, apertou tudo o que era passível de ser apertado e rabiscou meus pés e minhas costas (e não apagou depois), em todos esses anos nunca vi isso, e discorreu longamente sobre travesseiros, alturas, texturas, rolinhos alternativos, tecnologia da Nasa, plumas, deitar de lado só se abraçar um lance, de bruços nem pensar, de barriga pra cima é mais recomendável. Antes de dormir pensei: fudeu, vai ser pior do que se tivesse alguém ao lado, fosse sobrinho ou amante ou qualquer outra pessoa que eu ficaria monitorando de cinco em cinco minutos.

Uma vez acordei com o edredom meio queimado porque adormeci em cima de uma bolsa elétrica dessas que em 1 minuto ficam quentes, em 3 você apaga, em 7 tem ameaça de fogo à própria cama. Uma vez acordei e mal consegui me mexer porque uma contratura tomava tudo – escápula, romboide, escaleno, trapézio, cervical, maxilar, ombro, braço, cotovelo –, lado direito morto, e isso passou a se repetir desde já nem sei mais, pelo menos uns 8 anos, uma dor crônica que não aparece em radiografias e que é descartada com um “mexa-se de vez em quando, levante da cadeira, dê uma volta”, como se tudo fosse uma questão de sair andando pelo escritório, buscar uma água, tomar um café. Uma vez acordei e pensei que devia haver um serviço para domingos, alguém que se encarregasse da água, do milk-shake, do pão, do disco do Caetano, do chocolate, do chá, da Nutella, mas já tem, se chama mãe, mas não dá pra explicar a origem de todas as dores pra mãe porque umas são ortopédicas, outras não. E não dá pra evitar as despedidas, o vazio que fica na parede porque você resolve dar dois quadros de presente antes do voo, o buraco que fica no pé que foi aniquilado por um salto agulha na noite anterior, e todo o David Bowie que há no mundo, e “Freedom 90” fazendo de copos microfones e da pista de dança casa e dos amigos coração, e de repente os copos-de-leite que foram levados amarrados uma semana antes na bici porque o rapaz não tinha troco, nem tão de repente assim porque já fazia mais de meia hora imóvel no sofá, não resta dúvida, estão marrons.

A anomalia na bacia – coxofemoral, ilíaco, psoas, adutor, acetábulo – deve ser resultado de hérnia de disco e agora não posso nem mais cruzar as pernas, nem conversar de lado, nem dobrar a perna esquerda e sentar sobre ela, e vamos ver, não tenho um diagnóstico, preciso entender como seus tecidos reagem e seguir uma ou duas hipóteses mas certamente a gente tem que reverter esse padrão cervical invertido, recuperar a lordose superior perdida, estica essa perna, vocês que são muito alongados, e vira os olhos como se fosse fazer “pfff” depois, seu teste de frouxidão ligamentar deu negativo, mas todo esse en dehors na bacia, pombas, pensei, não serve pra nada mesmo, nem pro balé, porque chegava na altura do joelho e a rotação sumia como mágica, enquanto ela mete o dedo contra o meu pescoço e eu vejo es-tre-las e tudo o mais que Carolina não viu, uma rosa, um samba, tudo lindo. Não faça nada, e eu me contorcia na maca, conforme for te libero pra natação em duas semanas, mas com ressalvas, não alongue nada sob hipótese alguma, jamais puxe a cabeça pro lado, tem um clube ali ao lado da sua casa, o tempo já vai melhorar. Onde será que essa mulher mora? Há séculos não tem inverno, há séculos estamos em julho.

D u a s  h o r a s , o tempo passa com espaço duplo às vezes, e no domingo eu achava que a coisa mais triste do mundo era tirar maquiagem porque ainda não tinha chegado esse dia em que apenas não há possibilidade de habitar meu corpo desconjuntado. Sente-se bem sobre os ísquios, sinta o chão, as partes moles, as articulações, entregue os olhos no rosto, não é lindo isso?, ai que saudade das aulas de dança, de Cecilia, de todo mundo que já foi embora de novo.

“Quero assinar esse feed da fisioterapia”, M. disse, e à noite calculei que tinha sopa de abóbora para uma encarnação, além de ter contado 12 copos de requeijão consumidos ao longo de 12 meses. Não é nada, mas talvez seja alguma coisa. 




quinta-feira, julho 16, 2015

Xô, chuá!

No fim da aula de dança Paulinha vem e dá aquela coçadinha na minha cabeça, aquela que a fisioterapeuta também fazia quando eu chegava totalmente empenada ao consultório e que funcionava como espécie de prêmio, aquela com as pontas dos dedos pelo couro cabeludo todo, aquela que me deixa num misto de encantamento e invalidez temporária e que, portanto, parece paixão fulminante.

Abro a porta de casa assim, flutuando, mesmo que tenha encarado a São Clemente, e vejo na mesa da sala uma bagunça de farelos e substâncias fétidas que por sorte não foram feitas sobre homeopatia nem literatura. Imaginei uma série de questões mundanas quando resolvi morar sozinha: os serviços que sempre param de funcionar; um possível vício em televisão; fome; alagamentos e/ou vazamentos involuntários; solidão. Definitivamente não adivinharia que sofreria de macacos invasores e ladrões de banana, aveia e cream-cracker.

As visitas começaram pouco antes do meu primeiro verão no Horto: as criaturas entravam e saíam por um basculante que ficava quase totalmente bloqueado por 3 vasinhos de violetas, ou ao menos foi disso que suspeitei, visto que a janela de cima estava constantemente fechada. Rosário, a diarista do 202, um dia me alertou: “Julia os macacos entraram na sua casa e saíram com duas bananas debaixo do braço. Macaco-prego, Julia, grandão assim!” Pelos meus cálculos, era impossível que um macaco-prego entrasse por aquela abertura sem derrubar nem uma folha, nem uma pétala das violetas, o que me fez desconfiar de que minha casa, na verdade, era invadida por gatos. Quando, numa manhã sonolenta, descobri uma marca de mãozinha na parede, na altura correspondente à alça do vidro da janela, desconfiei de que fossem mesmo macacos, treinados pela Socila ou pelo equivalente animal da instituição, afinal a janela permanecia fechada, o que só podia significar que eles entravam e batiam a porta ao sair.

Pasma com a educação e inteligência dos meus macacos, telefonei para um amigo fotógrafo que prometeu me ajudar a montar um esquema de filmagem para flagrar os meliantes. Nos meus devaneios eu teria registros maravilhosos dos macacos em casa, faria edições com uma trilha sonora maneirinha e também fortunas com o novo viral do YouTube. Bel botou fé e disse que faria camisetinhas à la “Sexy Boy”, e desde então a minha vida foi tomada pela música do Air a cada banana surrupiada ou qualquer outro sinal da presença de macacos em minha residência.

Quando dezembro, o calor e as cortinas da janela chegaram, os macacos sumiram e a minha popularidade ficou bastante ameaçada: pessoas me encontravam na rua e perguntavam por eles, os amigos no trabalho apuravam diariamente, mensagens chegavam por redes sociais cobrando as invasões animais no meu apartamento e de repente eu parecia tão desinteressante perante a sociedade, que nem mesmo se preocupava em disfarçar o “então tá” ao notar que eu não tinha nenhum relato novo. Num exercício de livre associação imaginário, as pessoas diriam "Julia" ao ouvirem a palavra "macaco".  Passei a me sentir limitada a essa única possibilidade existencial, e também passei a fechar o basculante. Não foi fácil perder amigos e bananas...

Os macacos voltaram no outono, depois de meses em que me convenci de que a cortina da sala os intimidava. Entrei em casa, peguei o telefone sem fio e no meio da conversa fiquei meio gaga: "Alguém entrou aqui." Um pacote de cream-cracker estava estraçalhado em cima da mesa, pedaços pelo chão. Mas por onde? Como? A porta de correr que isola a área de serviço estava marcada por mãos de macacos. Eu havia usado a máquina de lavar roupa um dia antes, provavelmente esquecera a porta aberta, os macacos entraram pela janela do gás da área e encontraram o caminho livre. Bingo!

Foi nessa altura das invasões que Bruna achou que essa relação estava desigual e que eu deveria ter algum tipo de benefício em troca da alimentação orgânica que involuntariamente oferecia a eles. Minha irmã concordou e sugeriu que eu pedisse uma bolsa-Ibama. De Paris, outra Bel achava melhor eu assumir de uma vez o abastecimento de uma família inteira de macacos-prego. Em Paraty, Lucas ria enquanto eu tentava me desviar das abelhas do Coupé: “Julia e o mundo animal”, ele disse, e no dia seguinte dei de cara com um macaco na minha sala, numa manhã em que não havia dúvida de que eu havia fechado a porta de correr na noite anterior.

O macaco atravessou a cozinha correndo e pulou para a janela do gás da área de serviço, e lá estavam outra vez as pegadas na porta que eu tinha limpado cerca de 8 horas antes. Dei um grito de susto e me sentei no sofá com o coração aos pulos: paixão fulminante e bichos, são diversos os fatores que desencadeiam ataque cardíaco, e quanto eu já escrevia para a minha chefe explicando que chegaria atrasada porque dentro de alguns minutos teria um enfarto, vi o macaco botar a cabeça pra dentro de casa pra verificar se eu ainda estava ali. Ficamos assim durante uns segundos, ele sumia e reaparecia pela janela, como quem quer voltar, eu inspirava e expirava tentando restabelecer o pulso. Aos poucos me aproximei da janela e o macaco, vencido, escapou para o vão do prédio, onde uns 3 ou 4 macacos-prego gigantescos o esperavam. Pareciam gorilas, e calculei que se por um lado a minha popularidade já se estabilizara outra vez, por outro o risco de doenças coronarianas aumentava. Foi quando decidi comprar um trinco para a porta que os bichos abriam sem maiores dificuldades.

Às 7:48 de uma manhã de quarta-feira Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, tocou meu interfone. Ele estava com o irmão que não usa cardigan, mas que é igualmente simpático e fã de Nespresso, e tomamos um café enquanto eu explicava pra eles o drama selvagem. Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, mas sem cardigan naquela ocasião, e o irmão, começaram a me contar histórias de macacos. Na mais trágica de todas um macaco era encontrado morto numa banheira de um apartamento do Jardim Botânico. Causa mortis: excesso de consumo de xampu. Se não fosse um bom ajudante de faz-tudo, o irmão de Edilson, o faz-tudo etc., daria um bom ficcionista. Às 8:15 Edilson me perguntou se podia fazer barulho com a furadeira: “Vai lá e arrasa, Edilson”, eu disse, pensando que esta é, por enquanto, a única vingança ao meu alcance contra a família barulhenta do apartamento da frente. Larguei Edilson e o irmão e dei a triste notícia para Bel, Bruna, outra Bel e todos os outros amigos que também já estavam apegados aos meus macacos. Tal como John Lennon, anunciei: o sonho acabou.


Às vezes no silêncio da noite eu fico imaginando todas as conversas que terei daqui pra frente: o último livro que li, a praia de domingo, a festa junina da rua, a chatice que é a segunda temporada de True Detective. É uma liberdade que me assusta, até, ter que criar pautas e provar que meu carisma vai além dos macacos, não deixar a peteca cair. Às vezes no silêncio da noite, também, eu fico imaginando macacos adestrados, desses que já deixam a cebola e o alho picados ou que, no auge do devaneio, vêm dar aquela coçadinha na minha cabeça quando não consigo dormir. 


terça-feira, julho 07, 2015

Paraty

As abelhas voam por entre os copos e demais utensílios sobre a mesa e aperto o botão para chamar o garçom. P. repete imediatamente a operação, e quando ele chega para nos atender explica que basta uma chamada. Seguro nas mãos o livro com a dedicatória que ela acabou de escrever a caneta preta e que me define como “viajante e sorridente”. Gosto de mim assim. Eu peço uma água, P. um café com leite. Há mais 3 pessoas conosco. Passamos uma parte daquela tarde em cadeiras amarelas de plástico numa praia decididamente bastante imprópria. Um sujeito muito branco e muito estrangeiro passa sem camisa, sem sapatos, sem saber que aquilo ali não é uma boa ideia de mergulho. Ainda por cima bem diante de nossos casacos e de uma tosse.

Três dias depois me reconheço na página 23 como “minha amiga”. Gosto de mim assim também, e agora sei como é quando as conversas reais viram diálogos em livros.


É por isso que insisto. 


sábado, junho 06, 2015

Led Zeppelin


Nado 500 m crawl e quando chego à borda e me seguro por dois minutos tomando fôlego é como quando te beijo às 4 da manhã. Logo alguém ordena a série de costas. Já não sei se estou dormindo, se tá amanhecendo ou se aqueles brilhos são estrelas.




quarta-feira, junho 03, 2015

Como fazer amizades

Enrolada no cachecol vinho da mãe, a menina (3 anos?) puxa assunto com a nossa mesa, depois de algumas informações perguntamos o nome dela:

- Meu nome é Julieta.

- Ah! E o meu é Julia. Acho que nossos nomes são primos, né? (muito animada)


- Mas a minha prima se chama Marina!


quarta-feira, maio 27, 2015

Diálogos com o sobrinho - vol. 3

Nós repetimos nossos pais, e de repente me peguei falando para meu sobrinho, que naquele dia não queria nada e emendava um "ah não" atrás do outro: “Você sabe o que é ‘anão’? Anão é um sujeito baixinho, que tem pernas e braços curtos. Anão é alguém pequenininho.” 

(Isso ainda é permitido em 2015? Ou ficou politicamente incorreto?)

Horas depois, passeando pela rua, fiz um comentário a respeito de um cachorro que cruzou nosso caminho:

- Ele deve ter 97 anos, Dinda.
- Por que você acha isso?
- Ou 90 anos. Porque ele é grande.
- Os cachorros não vivem tantos anos assim, Bê. E também, alguns cachorros ficam bem velhinhos e continuam pequenos. É diferente. Depende de cada tipo. Alguns crescem bastante, outros continuam pequeninos. Você se lembra do João Caetano, o cachorro da vovó?
- Lembro.
- Ele já era bem velhinho e ainda era pequenininho.  
- Então ele era um anão, né?


quarta-feira, maio 13, 2015

I never can say goodbye


Músicas para ouvir no fim da festa:

1)      There is a light that never goes out, The Smiths

2)    I never can say goodbye, Jackson 5

3)     Turn your lights down low, Bob Marley

4)    I can’t take my eyes off you, na versão Frankie Valli & the Four Seasons

5)     Because the night, Patti Smith


segunda-feira, maio 11, 2015

Dança contemporânea

“Alterne os planos, Julia, dificulte sua vida”, disse a professora, na aula de dança. Fez sentido.


quinta-feira, maio 07, 2015

Maio

Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.



E isso

diz muito sobre a minha caixa torácica.

Matilde Campilho, do Jóquei 

C. me entope de sotaques portugueses enquanto luto para respirar neste outono ingrato. Há uma mortandade de mini mosquitos no batente da minha janela, um vizinho do bairro disse que na casa dele também. Tombamentos por toda a parte. Deve ser essa configuração sociopolítica, ela diz. Deve ser. Ou deve ser que a gente queria passar os dias a ler poesia em vez de todo esse calhamaço teórico que ocupa nossas mesas e que eventualmente acaba ficando mesmo soterrado por essas obsessões que só divido com ela e ela comigo.

Tenho vontade, também, de copiar os meus versos preferidos em todos os lugares por onde passo: no espelho do banheiro, na porta da geladeira, na cortina da sala, na mesa de trabalho, no volante do carro, no carrinho do supermercado, nas paredes de M., nos e-mails que envio para os amigos e em toda forma possível de mensagem eletrônica numa tentativa, talvez, de obcecar mais gente.


“Acho que é nesse ponto que a gente mais se encontra, né?”, ela pergunta. Nessas manias e fissuras que a gente têm. Todo dia ela escuta aquele poema, espécie de reza pra quem acredita mais em literatura que em divindades. Todo dia ela queria poder fazer como eles fazem. Todo dia, agora, eu também. 


quarta-feira, abril 29, 2015


Meu míni livro, Diário de Moscou, está à venda no site da Editora 7Letras, aqui.


quinta-feira, abril 16, 2015

25 de junho Michael Jackson
e apenas posso dizer morreu uma vez mais
como só ele pôde e ainda por cima
como quase todos, continuará
morrendo por datas seguintes.
30 de junho Pina Bausch e dela
eu sempre soube pouco a não ser que
também dançava mas sem levar em conta
a dança. Como Pina Bausch em suas viagens
integrava ao seu grupo dançarinos locais
um dia conheci uma moça tão bonita que
dançara com ela. Nossa despedida foi ao telefone
e a linha abaixo a última coisa que ela me disse
tenho que ir, o feijão está no fogo.
2 de julho Rodrigo de Souza Leão
sobre o qual para efeito de luto digo
o que disse também ao fim de um verso
o grande poeta espanhol Pere Gimferrer
digo-o, é claro, sem o mesmo brilho e inflexão
qué triste es todo esto.

Leonardo Gandolfi, Kansas 

quarta-feira, abril 15, 2015

Míni


O meu pequenino Diário de Moscou foi lançado na segunda-feira, 13 de abril, ao lado dos livrinhos do Pedro Rocha, Luca Argel, Victor Heringer, Leonardo Gandolfi e Thiago Pichi, pelo selo Megamíni, da Editora 7Letras. Obrigada demais à Isadora e ao Jorge, que me convidaram para integrar a coleção. 


Os meus mínis esgotaram, mas uma nova reimpressão já está a caminho da livraria da 7Letras - só tem lá (Rua Visconde de Pirajá, 580/3o andar). Ou fale comigo! 


segunda-feira, abril 06, 2015


Segunda-feira, 13 de abril, lanço um mini livro ao lado de todos esses rapazes. 

terça-feira, março 31, 2015

A última baguete do Garcia & Rodrigues

1.      Éramos 3 pra uma canga numa tarde meio nublada porque Fernando não havia pagado a conta de luz. Numa Ipanema pré-Smartphone, passamos o dia na praia comendo os iogurtes que estragariam porque Fernando estava atraído pela ideia de viver um tempo sem eletricidade. Marcelo e eu pensávamos na parte prática e o que mais nos preocupava eram possíveis topadas – dedões, joelhos, testa – nos móveis, o sangue seco que ficaria no lençol, porque a luz da vela não seria suficiente para uma assepsia adequada. Camisas amassadas, um relógio antigo de parede que com o passar dos dias transformaria os gestos de Fernando em movimentos pendulares, ceras de vela que esculpiriam candelabros meio sinistros. Não conseguimos chegar a um final: nossa narrativa ia ficando cada vez mais suja e amarrotada, Fernando tornava-se um ser esquisito e anacrônico e a única saída possível para aquilo tudo era alguém, finalmente, regularizar a situação junto à Light. Anos depois Marcelo me telefonaria com uma proposta: “vamos ter um roteiro juntos?” Mas já tínhamos, só não estávamos muito seguros de nosso amor por ele.

2.     A melhor baguete do bairro era aquela da padaria que ficava na esquina, diziam, isso antes das obras que deixaram o cenário com cara de filme de zumbi. Quando anunciaram que o lugar viraria uma churrascaria houve até protesto; talvez se soubessem que de fato aquilo viraria mais uma Americanas tivesse havido quebra-quebra e vândalos. As filas daquela última tarde de funcionamento davam a impressão de que o negócio poderia se sustentar por meses só com aquelas vendas e o clima, contam, era de desolação e declarações de amor ao fatiador de frios, ao garçom e a quem mais trabalhasse no estabelecimento. Lucas ficou para o gran finale e saiu de lá carregando a última baguete do Garcia & Rodrigues. Passei dias fazendo a cabeça dele para vende-la no Mercado Livre. Mas o pão estava congelado aguardando uma ocasião especial para ser comido. Por alguma razão – possivelmente a mesma do Fernando – Lucas ficou sem energia uns dias, e ainda que tentasse desesperadamente se reconectar com a luz o impensável aconteceu: a burocracia deixou a última baguete do Garcia & Rodrigues intragável e passamos uma tarde no Talho comendo empadinhas para esquecer.

3.     “Teve torcida gritando quando a luz voltou”, diz aquela música da Legião Urbana, e teve mesmo. Lá em casa falta luz toda semana, parece que vivemos numa propriedade rural do começo do século XX. Ou parece que vivemos no Rio de Janeiro do século XXI, já não sei mais. “Você sabe que o fogão funciona mesmo quando acaba a luz, não é?”, dizia a última mensagem que consegui ler – porque o sinal de telefone também some nesses dias escuros – depois de dizer melancolicamente a uma amiga que eu estava jantando as duas gelatinas que estavam na geladeira. “Eu sei”, escrevi, “mas se com tudo funcionando já produzo refeições desastrosas, imagina assim”, mas o desabafo ficou pra sempre preso no whatsapp. Eu tinha acabado de chegar do balé e tinha lido uma matéria sobre o músculo psoas, que em certas culturas é considerado o “músculo da alma”. A minha, a julgar pelo psoas, não parecia que voltaria a funcionar antes que a conta de luz chegasse. Resolvi, portanto, fazer 3 ou 4 alongamentos pra ver se alguma coisa melhorava.

4.     Fiz uma lista mental de tudo o que se pode fazer em noites assim, e pensando no meu psoas avacalhado e em tudo o que isso acarreta, fui prática e excluí utopias como sexo, drogas ou gato mia: escrever uma carta para Isabel, tomar banho, iluminar o globo de espelhos com a lanterna até minha sala parecer uma discoteca em fim de festa, ouvir música até acabar a bateria do computador. A luz voltou depois que eu já estava havia uns 15 minutos abraçada à bola de pilates. Fiz um estrogonofe. Ficou uma bosta.




quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Carnaval


“I think I might be a terrible person.”
For a split second I believed him – I thought he was about to confess a crime, maybe a murder. Then I realized that we all think we might be terrible people. But we only reveal this before we ask someone to love us. It is a kind of undressing.
Miranda July, The first bad man

(...) o grupo era diverso como a humanidade, e a humanidade, como se sabe, é uma soma de debilidades.
Roberto Bolaño, Os detetives selvagens



quarta-feira, janeiro 21, 2015

As coisas são mais fáceis na televisão


Foi numa dessas tardes de trabalho em que, entre uma leitura e outra, alguém diz que a Coca-Cola mexicana é a melhor do mundo. Fiquei incrédula, duvidando que a industrialização seja capaz de tais nuances: Toddy tem sempre gosto de Toddy, requeijão dificilmente fica melhor ou pior e todas as coisas que não dependem de safra ou de mim, em geral, são sinônimo de alegria. Ainda assim, resolvi conferir e foi batata: igualzinha, deliciosa, Coca-Cola com gosto de Coca-Cola.

A minha vida culinária tem sido feita de pequenos desastres. Receitas que sigo ao pé da letra e dão errado, carnes que ficam com sabor de nada e eventuais acidentes em que quebro sem querer um pote de mostarda em grãos no chão da cozinha, que é integrada com a sala, e então é domingo no verão e eu tento varrer os grãozinhos que se chocam uns contra os outros indo parar no lavabo, sob a máquina de lavar e eventualmente no quarto, como num jogo de bilhar em que o único vencedor é esse mundo tão cruel que te faz suar uns 3 quilos em meia hora. Nem o chuveiro é aliado porque a água está quente, mesmo que você gire a torneira fria ensandecidamente. 

Achei que com a chegada da páprica e das folhas de louro à minha prateleira algumas coisas se resolveriam, ao menos foi isso que me venderam. Que nada. Minhas refeições seguem insípidas, inodoras e quase insuportáveis. Toda vez que alguma coisa dá errada no meu fogão, portanto, abro uma Coca-Cola, carioca e gelada pela minha Brastemp que às vezes arruína as gelatinas, que viram uma mistura daquele vermelho envenenado com gelo. Tenho economizado os biscoitos Maria mexicanos para esses momentos em que tudo parece perdido, esses sim bastante superiores aos brasileiros.

Toda vez também que a gelatina se inviabiliza eu tento instalar minha impressora. É uma busca meio ilógica por algum sucesso doméstico, visto que impressoras foram feitas para vencer o homem, por mais que você se esforce. Na tentativa de descobrir algum talento para me virar comigo mesma, pego em armas e tento prender na parede a prateleira para abrigar todos os potinhos de temperos que nunca garantirão a satisfação gastronômica. Tenho até mentido para os amigos que me passam receitas “essa é mole, não tem o que errar”. É claro que tem, até a tapioca se quebra quando a transfiro da frigideira para o prato. A minha vida culinária, em resumo, se parece com a minha vida amorosa: uso perfume Chanel antes de refogar qualquer coisa, ponho a culpa na panela, vou dormir com fome e concluo que aquela música do Kid Abelha, afinal, serve para tudo, inclusive para aquela crase que você deixou passar no livro que estava preparando.

Somado a isso tenho agora 4 buracos na parede, duas prateleiras que jamais ficarão suspensas como deveriam e uma encomenda da Domino’s, que sempre terá aquele gosto (ruim) de Domino’s. É esse o meu consolo: a constância e a segurança desse tipo de comida, a certeza de que algumas coisas nunca frustram as expectativas e não sacaneiam a autoestima de ninguém.

É claro, sempre haverá um técnico credenciado para resolver as pendengas tecnológicas, assim como sempre haverá Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, que combina um horário e aparece e faz parecer que algumas coisas podem funcionar. Pessoas Coca-Cola. Felicidade garantida. 


quinta-feira, janeiro 01, 2015

Cielito lindo


Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos,
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal.

Fabián Casas 


É dezembro e todos estão em praias paradisíacas, inclusive eu: o mar é tão turquesa que parece falso e brilha em certos trechos. Evitamos todas as ruínas maias, deitamos em redes de hotéis onde queremos nos hospedar no próximo verão, comemos peixe ao pôr do sol e caminhamos em direção ao carro com as ondas que chegam fresquinhas em nossos pés. Um barquinho cheio de pelicanos está ancorado no meio de uma tarde e logo mais navegamos com um marinheiro chamado Jesus, o segundo em 2 dias. A internet é precária nessa parte do México e falar de férias e das coisas de deus é tão complicado quanto encontrar cartões postais por aqui. E além disso, o que dizer? “Queria que você estivesse aqui para boiar comigo.” “Saudades.” “Te amo.” “Feliz ano novo.” Não seria mentira, mas quando se está de férias tudo é só mais ou menos verdade.

Come-se gafanhotos em Oaxaca, e também um sal feito de um verme (minhoca? lesma?) com o qual se deve temperar rodelas de laranja para degustar depois de uma dose de Mezcal: 40% de álcool feito de agave, passaporte para confissões e a solução para o Carnaval no Rio. O Lindt é melhor que qualquer chocolate feito por aqui, e sentimos saudades de Nescau. Faltam 43 estudantes no México e nem toda a cor das casas coloniais meio decadentes desvia a atenção das paredes que reivindicam a vida deles, nem todo o alvoroço das piñatas de papel maché impede as manifestações discretas pelas ruazinhas antigas. Cartazes espalhados por todos os cantos anunciam a noite de rabanetes, fogos e foguetes celebram a festa da Virgem, para a qual chegamos atrasados, depois de passar por inúmeras barraquinhas comandadas por zapotecas que vendem todo tipo de artigo religioso cristão. Uma mistura de trajes e longas tranças típicas com cheiro de gordura e cruzes católicas, uma população indígena que come pelas ruas o dia todo. Não se pode nem mesmo chegar perto da entrada da basílica, mal se veem os estandartes que desfilaram pela cidade minutos antes, uma multidão ocupa todo o espaço. Na praça ao lado um grupo de adolescentes ensaia uma dança. 2 dias depois, no jardim etnobotânico, uma dupla ensaia um pas de deux contemporâneo em meio a cactos. “No Brasil as coisas estão na pele, na superfície. No México é tudo na carne.”, diz a mensagem que chega enquanto tentamos entender essa confusão. Pode ser. E ao mesmo tempo, de alguma forma, aqui tudo é mais evidente. “Fue el estado”, dizem as letras apressadas. Desde há muito.

Voamos para o Distrito Federal com as malas mais pesadas. Troco qualquer marca de luxo pelos bordados de Yalalag. Deixo Oaxaca com febre e com uma coleção de vestidos: “Este é o seu traje de boda”, diz a vendedora maravilhosa de uma loja idem que passaria por inverossímil num filme de Almodóvar. Pelo pequeno labirinto do estabelecimento de paredes roxas um sofá está posicionado na entrada, recostada nele uma figura platinada de unhas brancas tão grandes quanto artificiais está descalça e tudo à sua volta está coberto por farelo de pão. Em meio aos trajes há um pequeno altar de flores no chão, uma panela elétrica que guarda um peixe para mais tarde, manequins quebrados, aparelhos de esteira, máquinas de costura, capacetes de bicicletas, bicicletas, jornais velhos, sacos plásticos entulhados de coisas e fotografias, muitas fotografias enquadradas das 3 mulheres que tentam me convencer a levar também uma saia. Jovens, pelo mundo, a cores e em preto e branco. Um dia, talvez, queria ter um lugar fascinante assim, mas com menos sujeira.

Planejamos decorar nossas casas com cactos na volta.

DF é difícil e o Tylenol não resolve nada. Funciono em dias alternados, consigo fazer o roteiro Frida e Diego e desisto definitivamente dos postais. O Zócalo nos deixa a todos mareados, os tacos já não parecem tão atraentes e o Buscopan mexicano é placebo. Entre pavões, mariachis, caveiras e uma quantidade descomunal de gente sinto uma quantidade descomunal de dor. Não tem nada a ver com as nossas impressões do país, mas sim com os dinossauros. Dr. Javier, o médico mexicano, dá soquinhos nas solas dos meus pés e garante que não é apendicite. O ideal seria voltar para a praia ou para o topo daquela montanha de piscinas naturais, aproveitar os últimos dias de idílio azul e água. A gente faz casas mesmo em viagens, e o ideal seria voltar para elas.

O ideal seria que os começos de ano fossem de fato começos, e não continuações mal remendadas de pendências, problemas gástricos e sangramentos indomáveis. O ideal seria que as paixões infundadas fossem como as férias, meio clandestinas para o resto do mundo e com data para terminar. A gente é que nem o México, parece. As coisas do mundo nos perfuram, não ficam mansas na pele, não. Espero a aspirina no calor inclemente do Rio: é uma liberdade ter cortinas em casa e 5 quilos para engordar. 



terça-feira, novembro 18, 2014

Bilhetinho para M.P.

Toda vez que novembro chega eu acho que a progressão do cansaço está diretamente ligada com o passar dos meses, como se o calendário, afinal, fizesse algum sentido cumulativo sobre a minha disposição, quiçá da humanidade. Não deveria ser: o meu ano novo em 2013, por exemplo, foi ali entre setembro e outubro, ainda que tenhamos estourado fogos e quebrado taças no Reveillon.

Estou tão gasta que fiquei até cafona, simplesmente não tenho capacidade de abrir o armário e entender o que se pode combinar com o quê. Eu percebo nessas coisas: todo arroz gruda na panela, faço suco com os ingredientes que encontro, mesmo que fiquem pela metade, deixo o mesmo disco no repeat, desisto de brigar com e/ou de me render a ele e fico nesse limbo em que nada acontece. Nenhum beijo, nenhuma ruptura dramática, uma sucessão de ponderações, análises, dúvidas, livros que nunca serão publicados e quando me dou conta perdi as chaves da casa de M. Parece aquele filme em que todas as manhãs o sujeito acorda no mesmo dia, um em que alguém fatalmente ficará sem chaves, sem saco e sem saber. É claro, o chaveiro estava numa outra bolsa, mas por um momento pensei que havia alguma espécie de maldição.

Você sabe diferenciar cisma de paixão? Ou é a mesma coisa? Hoje vi num site de listas um par de brincos redondos com a cara da Sylvia Plath estampada e é claro que pensei em você e gargalhei. Hoje vi, também, um farol onde as pessoas podem se hospedar, e agora me pergunto por que nunca pensamos nisso antes. 

Talvez seja bom sair de férias em dezembro, ter a perspectiva ilusória de que janeiro será janeiro e que alguma coisa, como naquela primavera, vai mudar. Ainda que tudo acabe voltando.


Por favor, não se tranque pra fora de casa. Mas caso o faça, me chame pra esperar o chaveiro com você. Ele pode querer esquartejar duas pessoas. 


quarta-feira, novembro 12, 2014

Panorama - dias 2 e 3

Um a um, seguindo as instruções da mulher sentada na mesa de som à direita do palco, os atores do teatro Hora adentram a cena, se posicionam no centro e encaram a plateia por cerca de um minuto – um ou outro se vira e dispara em direção à coxia em questão de segundos. Outra vez, e ainda individualmente, os mesmos atores voltam ao palco para dizerem seus nomes, idades, profissões e deficiências. A maioria dos atores da companhia suíça têm síndrome de down e reencenam em Disabled theater a relação que estabeleceram com o anticoreógrafo francês Jérôme Bel, também chamado por críticos e especialistas de um “provocador” da dança.
As instruções seguintes, então, determinavam que os atores escolhessem uma música e executassem uma coreografia. Bel escolheria as melhores para compor a performance. Todos os atores permanecem no palco, sentados em cadeiras em semicírculo, enquanto os eleitos dançam.

A trilha vai de Charleston a Michael Jackson. “They don’t really care about us” é dançada ipsis literis por Julia Häusermann, que até o momento de seu solo tentava chamar a atenção do rapaz sentado a seu lado, o mesmo que tem um certo grau de autismo. Julia se joga languidamente no colo do garoto, depois de demonstrar uma energia pélvica de dar inveja, arrancando ainda mais aplausos. Os atores também se agitam nas cadeiras em movimentos ora sincronizados, ora espontâneos, marcando batidas ou frases das canções escolhidas com os pés ou erguendo braços e punhos, às vezes cantando trechos.

Em seguida, os atores voltam ao centro do palco para dizerem o que acham da performance e do trabalho com Bel. Um deles reclama que queria dançar também, expondo sua mágoa com o diretor, que acaba cedendo aos apelos e dá mais tempo para a execução das coreografias que haviam sido deixadas de lado. Julia aproveita o momento para reclamar que queria mesmo dançar ao som de Justin Bieber, ao que é atendida. Ela canta “Baby” com emoção: é a grande estrela da noite. Saímos do (xexelento) Carlos Gomes encantados por ela.

Por fim, eles agradecem com a vênia habitual, o público delira e eu não sei o que fazer. Fico atenta aos comentários da plateia à saída do teatro, converso com um casal de amigos que também estava lá, leio mil críticas e mando os links para eles, porque teremos tempo suficiente do Centro à Cidade das Artes, no dia seguinte, para debater tudo o que for pertinente. A única coisa que concluo é que morro de preguiça, e então para mudar de assunto conto para eles que uma vez, há uns anos, denunciei um foco de mosquito que havia no lobby do teatro. Era o auge da dengue e havia uma espécie de disque-denúncia de focos de mosquitos, o que provavelmente ainda existe, e você podia acompanhar o desenrolar das ações municipais.

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A Cidade das Artes é quase tão desoladora, numa outra esfera, quanto o Carlos Gomes, e nunca sei se as obras estão prontas ou se ainda faltam coisas – grama, acabamentos e afins – mas também nunca sei se a Travessa de Botafogo está completamente concluída.


Drumming é uma coreografia de 1998 do Rosas, a companhia belga de Anne Theresa de Keersmaeker. Com música de Steve Reich e figurinos de Dries van Noten. Drumming é exaustiva, composta de uma sequência de movimentos e gestos espiralados, e te coloca num transe, parte por causa da música, parte por causa da dança. Uns acham datado, outros saem da grande sala reproduzindo braços e pernas aqui e ali e eu não sei o que fazer, mas por outra razão. Drumming, para mim, é até meio simples: gente dançando num patamar de excelência bonito de se ver. É mais ou menos o que eu quero, sempre. 


domingo, novembro 02, 2014

Panorama - dia 1


"You were born naked and the rest is drag."
Ru Paul 

Trajal Harrell está na porta do Teatro Café Pequeno cumprimentando cada um que chega para assistir seu número. Ele é um negro americano baixinho com olhos que ocupam quase todo o seu corpo e que imagina o que teria acontecido se alguém da tradição Vogue tivesse encontrado os bailarinos pós-modernos da Judson Church em 1962, em NY. Por acaso eu mais ou menos sei um pouco das duas coisas, e o que me leva até ali numa tarde quente de 2012 é justamente a expectativa de ver uma possibilidade desse encontro impossível. Poucas pessoas têm a mesma curiosidade que eu e quando fica evidente que ninguém mais vai aparecer ele nos convoca a sentarmo-nos em círculo no chão, explica sua ideia e nos distribui textos em uma espécie de apostila. Ele nos avisa que treme em função da intensidade dessa performance e da proximidade com o público. E numa quase escuridão nos entrega a versão XS de seu “20 looks or Paris is burning at the Judson Church”.

Dois anos depois entro num taxi com um casal de amigos e comento que sim, sei mais ou menos do que se trata o espetáculo para o qual nos encaminhamos num novembro não menos inclemente. Pouco depois o mesmo Trajal, com seus olhos engolidores, mas agora de cabeça raspada, está na entrada do acesso à plateia do Teatro Municipal, e logo no palco, microfone em punho, contando para todos nós que a versão L de “20 looks or Paris is burning at the Judson Church” não tem qualquer intenção de recriação histórica, mas que se trata de uma hipótese imaginativa que só pode acontecer hoje e agora, conosco. É bom se sentir especial, mesmo que.

Trajal treme. Seu espetáculo pode variar de tamanho e duração dependendo das condições e locais de apresentação. O que nos espera é uma versão que ainda mistura Antígona em cerca de duas horas que ele nos garante que passarão mais rápido do que possamos perceber. Um de seus bailarinos entoa, à capella, o hino da casa deles: “Hit me baby one more time”, da Britney Spears, arranca risadas. A minha solidão também está me matando.

Bailarinos vestidos discretamente de preto e branco dançam músicas pop alternadamente, iluminados por um foco de luz sobre um quadrado branco e já desconfio de que passarei o domingo todo ouvindo repetidamente uma canção da Tori Amos que é quase uma intimação para se jogar. Além de Trajal, são mais 4 em cena, e todos são um acontecimento, especialmente aquele que, calçando saltos vertiginosos e exibindo um peito de pé inverossímil, encarnará o apresentador do desfile de príncipes, sem se dar por satisfeito. O desfile das “mães” vem logo em seguida, e é um pouco mais alentador assistir a tudo isso se você tiver visto Paris is burning, o documentário de Jennie Levingston que retrata os bailes do Harlem dos anos 80, movimento de um submundo gay e transgênero em que a dança Vogue surgiu, em alusão à revista de mesmo nome. O clipe da Madonna ajuda a entender um pedacinho, mas tudo vai muito além, inclusive a performance de Trajal.

À parte qualquer didatismo ou escola de dança envolvidos nesse encontro imaginário, o show de Trajal é louco, divertido, interminável e lá pelas tantas faz pensar que uma versão tamanho M poderia ser melhor. Confesso que a poucos minutos do final abandonei o barco, otimista com a perspectiva de fazer xixi sem fila e divertida com a mensagem de uma amiga que me perguntava “você também está neste suplício travecoso?” – e que, depois que furei o jantar, me desejaria mais 5 horas de “travestis convulsionantes”. Realmente, que canseira. Realmente, que liberdade, e eu que achava que ter cortinas em casa te dava aval para qualquer coisa.

Entre narrações, músicas cantadas pelo próprio coreógrafo, jograis insanos (“Se fossem alunos da CAL num teatro obscuro a gente ia achar uma merda, Julia!”, disse alguém no caminho de volta, e eu ri), fios que se estenderam das mãos de Trajal até os fundos da plateia do teatro por sobre nossas cabeças graças ao bailarino francês pulando de cadeira em cadeira, mitologia, questões de gênero, sexualidade e recortes culturais de coisas que amaria ter visto ao vivo o que sobressai é um mundo tão de Trajal que muitas coisas soam como piada interna. Mas todo mundo se contorce quando ele afirma que deveríamos reivindicar uma Uniqlo à Dilma.

Deveríamos ter tirado fotos do grupo de drag queens que causou furor no Teatro, possivelmente deveríamos ter nos entregado mais quando Trajal conclamou uma festa em todos os setores do teatro e parte do público, resistente, levantou, dançou, gritou, aplaudiu enquanto outra parte se sentiu obrigada a, na expectativa de que aquilo fosse o encerramento tão aguardado.Outros já tinham ido embora há tempos.

Deve ser anarquia. E depois de revirar os olhos seguidamente, eis que fiquei parte do dia seguinte atormentada. Deve ser aquilo que o Salinger diz nas últimas frases do Apanhador: “Don’t ever tell anybody anything. If you do, you start missing everybody.”