(ou o rei mandou cair dentro da folia)
Eu havia sentado por dois minutos num banco típico de praça que quase não existe mais. Era um daqueles banquinhos de cimento que rodeiam uma mesa onde há um tabuleiro quadriculado desenhado na pedra. A cerca de 50 metros estava o palco e mais um pouco adiante o Bip Bip e tudo naquela rua sem saída parecia ter um toque saudosista. Foi quando uma garotinha vestindo saia jeans e top rosa se aproximou e me perguntou se eu queria um. Eu perguntei se ela vendia, ela disse que não, que se eu quisesse me dava. Ela estendeu sua mão e me deu um saquinho recheado de confete e serpentina. Foi assim que eu conheci Vitória, uma pequena foliã de 7 anos que distribuía alegremente os artefatos de papel a quem quisesse. Em pouco tempo ela se perdeu em meio às pernas dos que dançavam e rapidamente voltou para me entregar mais saquinhos, e também às minhas amigas fanáticas por confete e que competiam pra ver quem acertaria algum galho da árvore com as serpentinas. Havia um concorrente que devia ter a mesma idade de Vitória e percebemos que ele era um novato na arte de jogar serpentina: mirava seus rolinhos de papel, que batiam em duas ou três cabeças próximas e caíam quase inteiros a menos de cinco passos. Foi quando resolvemos incentivar o garoto e lá pelas tantas o menino subiu em cima da mesa, de onde seus arremessos poderiam alcançar distâncias maiores. O Rancho da Flor do Sereno foi assim: marchinhas e crianças convivendo em harmonia, o bloco mais familiar e também o que concentrou a maior quantidade de confete e serpentina.
O Bola Preta, ao contrário, foi uma experiência quase traumática. Se o Rancho concentrou a maior quantidade de papel em forma de artefato carnavalesco e foliões mirins e fofos, o Bola concentrou a maior quantidade de pessoas que eu já vi. Pessoas suadas, devo ressaltar. Pessoas suadas e esmagativas e para ir embora do cordão foi preciso coragem e audácia. Escapar da multidão foi como renascer em meio a um sol escaldante no melhor estilo atravessando o deserto de Saara o sol estava quente e queimou a nossa cara. Uma vez no metrô de volta você conclui que burgueses são os outros e você tem mesmo um pézinho na aristocracia. Bem, alguns concluem isso.
O mais posto-novista dos blocos, por sua vez, foi o responsável pela destruição de parte da minha fantasia (ok, na verdade foi um pitoco desses de rua). A Rocha é apenas isso: um grande Baixo Gávea que segue mais adiante. Ele está ali todo dia na praça esperando por você. Com menos samba talvez, mas certamente bem menos pretensioso.
Já o Boitatá veio acompanhado de café-da-manhã com pão quentinho na casa de amigos e uma revelação: é preciso ter um mínimo de disciplina pra pular carnaval. E também: blocos que não saem muito do lugar são mais divertidos que os que traçam percursos. Pense só: é domingo, são 9 da manhã, o sol começa a fritar as cabeças, não há qualquer lugar decente para fazer xixi, você pula e dança e canta enquanto sente o suor escorrer impiedoso por todas as partes da sua pele (e olha o protetor solar indo embora), você bebe cerveja e também não há lugar próprio para passar mal. A sua sorte é que o Cordão do Boitatá está sobre um palco em vez de sobre um carro de som, o que significa que além disso tudo você não terá que acompanhar o trio elétrico. É nesse momento que você tem a epifania e resolve que bloco bom mesmo é aquele que não anda. Melhor ainda seria se o discurso engajado no começo do baile na praça não tivesse existido. Não me leve a mal, hoje é carnaval e a gente quer marchinhas e não conversa mole para boi dormir.
Outros blocos à parte, eu nem sei bem como acabei gostando de carnaval, só sei que quando bateu a quarta-feira de cinzas e 2007 finalmente deu ares de começo me deu uma tristeza grande, senti o coração apertado e uma lágrima de pierrot querendo escapar.
Findo o Carnaval, não sei o que será pior: esperar pelo próximo ou tirar os confetes do cabelo...
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Alegorias e adereços - II
A idéia é de um folião aposentado e assustado com a horda de gente que invadiu os cordões. Além de fundador, ele também será fiscal do bloco mais vanguarda do próximo carnaval. Eu gostei tanto que resolvi ser co-autora da proposta. Precisamos de adeptos. O nome do bloco é auto-explicativo: Se encher acaba.
Volto depois da quarta-feira de cinzas.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Le cinéma - II
"People just have an affair or even entire relationships, they break up and they forget. They move on like they would have changed brand of cereals. I feel I was never able to forget anyone I've been with because each person had their own specific qualities. You can never replace anyone. What is lost is lost. Each relationship when it ends, really damages me. I never fully recover. That's why I'm very careful with getting involved because it hurts too much. Even getting laid, I actually don't do that because I will miss of the person the most mundane things. Like I'm obsessed with little things."
Celine em Antes do Pôr-do-sol.
Celine em Antes do Pôr-do-sol.
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
girl afraid *
Uma fantasia de colombina consome 7 metros de filó (3 metros de filó roxo, 3 metros de filó lilás e 1 metro de filó preto a 0,99 centavos cada metro), cerca de 5 metros de fita de cetim larga, 2 metros de fita de cetim fina, um ganchinho, mais ou menos 2 metros de elástico, 5 potinhos pequenos de purpurina, uma avó, uma neta, 10 pompons compostos por 30 círculos de filó (sendo 10 círculos roxos, 10 círculos lilás e 10 pretos em cada pompon o equivalente a 300 círculos de filó recortados pela neta) e um mês de trabalho árduo. Até a data de hoje, esse foi o meu maior feito do ano: uma fantasia de colombina. Tudo bem que ninguém sabe do que eu estou vestida. Não importa. Sem contar as roupas de barbie e bonecas, essa é minha primeira incursão no mundo da alta-costura e isso me basta.
Um caderno para a aula de francês constitui-se de folhas brancas sem linhas, capa de papel reciclado e fitinha preta para marcar as páginas. No final do caderno estão os verbos. Os títulos são escritos à caneta (Stabilo) verde; os exemplos e regras à caneta preta de tinta nanquim 0.2 e os exercícios de casa à lapiseira grafite 2B. Fiquei um pouco tensa quando a professora quebrou o padrão cromático escrevendo vocabulários azuis. Os livros de conjugação e exercícios foram comprados essa semana juntamente com um romance clássico nível 1 resumido para estudantes da língua. Dedico cerca de uma hora por dia aos estudos. Me esforço para ser a melhor da classe, mesmo que a aula seja particular.
Uma ida à Travessa do Leblon custa (fora o estacionamento do shopping) cerca de 90 reais e acrescenta 3 livros à mesinha (e futuramente à prateleira). Lavoura Arcaica foi o primeiro, Leminski está quase no fim e Clarice espera sua hora. Um novo Nick Hornby veio juntar-se à turma, que conta ainda com um Vargas Llosa e um Suassuna que é brasileiro e não desiste nunca (esse está na espera há um bom tempo, coitado).
Uma aula de dança depois de dois anos parada te obriga a beber gatorade (a mesma quantidade de tempo sem consumir a bebida), te lembra como seu joelho (e outras partes) ficava roxo, como o collant ficava molhado, como o joanete dói e como essa atividade é completamente anti-anatômica. Te lembra também como essas coisas todas tornam-se detalhes insignificantes pois que no fim da aula você se joga no chão da sala e sorri discretamente.
Em tempos de desemprego, encalhação e êxodo de amigos, são essas as coisas que salvam.
* The Smiths
Um caderno para a aula de francês constitui-se de folhas brancas sem linhas, capa de papel reciclado e fitinha preta para marcar as páginas. No final do caderno estão os verbos. Os títulos são escritos à caneta (Stabilo) verde; os exemplos e regras à caneta preta de tinta nanquim 0.2 e os exercícios de casa à lapiseira grafite 2B. Fiquei um pouco tensa quando a professora quebrou o padrão cromático escrevendo vocabulários azuis. Os livros de conjugação e exercícios foram comprados essa semana juntamente com um romance clássico nível 1 resumido para estudantes da língua. Dedico cerca de uma hora por dia aos estudos. Me esforço para ser a melhor da classe, mesmo que a aula seja particular.
Uma ida à Travessa do Leblon custa (fora o estacionamento do shopping) cerca de 90 reais e acrescenta 3 livros à mesinha (e futuramente à prateleira). Lavoura Arcaica foi o primeiro, Leminski está quase no fim e Clarice espera sua hora. Um novo Nick Hornby veio juntar-se à turma, que conta ainda com um Vargas Llosa e um Suassuna que é brasileiro e não desiste nunca (esse está na espera há um bom tempo, coitado).
Uma aula de dança depois de dois anos parada te obriga a beber gatorade (a mesma quantidade de tempo sem consumir a bebida), te lembra como seu joelho (e outras partes) ficava roxo, como o collant ficava molhado, como o joanete dói e como essa atividade é completamente anti-anatômica. Te lembra também como essas coisas todas tornam-se detalhes insignificantes pois que no fim da aula você se joga no chão da sala e sorri discretamente.
Em tempos de desemprego, encalhação e êxodo de amigos, são essas as coisas que salvam.
* The Smiths
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
708.
Deu um fim em todas as comidas que tinha em casa. Encarregou-se dos iogurtes e do sorvete que estava pela metade. Deu a carne congelada ao vizinho, que levou também os queijos. Tomou o ônibus pra Gávea onde morava um amigo e juntos tomaram as 5 latas de cerveja que ele ainda tinha. Era janeiro e não pode ligar o ar-condicionado naquela noite e não poderia nas próximas 29 seguintes. Acordou de ressaca e suado, o dedão do pé ensangüentado, a mesinha derrubada, livros e luminária no chão. A bateria do ipod acabou no terceiro dia e ele imediatamente entendeu que esse seria o seu maior contratempo durante os próximos 27 dias. Em pouco tempo a bateria do celular teria o mesmo destino. No quarto dia comprou um relógio antigo. Arranjou uma caixa onde guardou a televisão e colocou o grande relógio no local do aparelho. Assistia as horas como quem contempla o horizonte e pouco a pouco foi tomado inteiramente pela idéia de viver sem eletricidade. Suas mudanças cotidianas atingiram níveis drásticos. Comprou um pequeno isopor onde mantinha garrafas de água. Encaixotou o computador e pôs a caixa na prateleira mais alta onde não havia possibilidade de topadas ou tropeços. Em apenas 6 dias havia chutado móveis a ponto de quase perder a unha do dedão. O vizinho do 709 o acudia sempre que ouvia seus gemidos e tentava persuadi-lo do plano. Idéia mais sem cabimento, ele dizia. Não lhe dava ouvidos. Depois da primeira semana comprou uma máquina de escrever. Queria relatar os pormenores de sua nova rotina. A máquina ocupava agora o lugar que antes fora do computador. Ficava ao lado do relógio antigo. Uma pilha de papel estava sempre à disposição, alguns com resquícios de cera de vela, que por sua vez estavam em toda parte: na mesinha, sobre a geladeira, na pia do banheiro, perto do relógio, junto à janela. O único lugar pra onde não carregava velas era o closet, o que acabou por lhe custar risos dos pedestres que giravam as cabeças para ver melhor aquele sujeito que vestia calças e camisas tantas vezes descombinadas. Virou piada entre os amigos quando estes começaram a receber suas cartas. Eram cartas escritas à máquina, descrições minuciosas de seu novo estilo de vida, detalhes importantes de como fazia a barba, de seus longos banhos de banheira quando lia páginas e páginas dos livros que comprava em sebos, enfim, suas cartas eram como suas confidências, suas descobertas de pequenos prazeres há tanto esquecidos. Passou a beber vinho, que não precisava gelar e seus lençóis e roupas manchavam com a mesma facilidade com que topava os pés na primeira semana. Em três semanas seu ritmo foi mudando: andava a passos vagarosos, quase não via os amigos e movia-se como um pêndulo. Quem entrasse em seu pequeno apartamento veria ali um cenário: a máquina de escrever e o relógio lado a lado, as ceras de velas que cobriam parte dos móveis e davam ao lugar certo ar sinistro, os livros que se empilhavam pelos cantos no chão e ele sentado à beira da cama trajando vestes amassadas. Tinha se transformado num personagem e em cobaia de seu próprio experimento. Ao final de um mês sua mãe fez o que ele tanto adiara: pagou a conta de luz.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
namastê.
Chega ao fim a saga da yoga. Depois de três meses convivendo com o curioso mundo das posturas da cobra, do guerreiro 1, da criança e afins eu me sento (costas não eretas, respiração descompassada e Jane Monheit cantando ao fundo, nada de Mahavir ou qualquer outro dessa laia) para contar que as amarras da matrícula trimestral se partiram. Final e felizmente, é o fim da era de tapetinhos verdes. Depois de cantar o derradeiro mantra me despeço da prática com a plena satisfação de ter tentado ao máximo gostar da coisa. Falhei. Deixo pra trás o Nirvana e volto pro lugar de onde eu nuca devia ter saído. Minha coluna que se dane.
quinta-feira, janeiro 25, 2007
As bolinhas-de-queijo do meu tempo
As primeiras bolinhas-de-queijo que comi foram provavelmente as de uma festa cujo tema era a She-ra. Talvez antes. De lá pra cá parece que houve uma reviravolta no mundo: as festas não têm mais mesas cheias de brigadeiros e nem o Tio Tom para animar, não têm mais brindes dentro de copos enfeitados e algumas nem comida servem, quiçá bolinhas-de-queijo. As mudanças comportamentais e conceituais de festas eu posso entender e até aprovar afinal, existe música além do Trem da Alegria e drinks além da fanta laranja. Já o sumiço das bolinhas-de-queijo me deixa inconsolável.
Finda a era das festinhas infantis, bolinhas-de-queijo viraram artigo de luxo e bolinhas-de-queijo boas eram quase como achar água no deserto. Foram longos anos sem a convivência com essas pequenas delícias engorduradas, até que a adolescência veio e a W também. A W era uma boate que, se contemporânea, seria prima da Prelude. Eu não tinha ainda tanto escrúpulo assim pra sacar que a W era o ó. Já as bolinhas-de-queijo da W... Eu tolerei noites além do que eu seria capaz e tudo por causa dessa guloseima. Cheguei a ponto de entrar na W, achar um banquinho no segundo andar e gastar toda a minha consumação com elas. O melhor de tudo é que o prato era grande, generoso, eram dois ou três andares de bolinhas-de-queijo e eu as devorava sozinha enquanto meus amigos dançavam e conheciam gente que vivia num mundo bolinha-de-queijo-less. Eu os achava loucos. Eles me achavam um caso perdido. Como tudo o que é bom dura pouco, a W fechou e lá se foram as bolinhas-de-queijo mais deliciosas que já comi.
Anos depois, já refeita do luto, eu descobri que o Manuel e Joaquim fazia bolinhas-de-queijo quase tão boas quanto as da W. Elas vinham em menor quantidade, mas em compensação eu não tinha que aturar música alta e eventuais garotos pós-adolescentes me puxando pelo braço e, ainda, estava livre dos olhares reprovadores dos meus amigos que nunca entenderam o valor de uma boa bolinha-de-queijo. De lá pra cá o impensável aconteceu: o Manuel e Joaquim retirou as bolinhas-de-queijo do seu cardápio. Não houve qualquer satisfação ou comunicação prévia, um belo dia elas simplesmente deixaram de existir. Eu parei de freqüentar o local. Eu não poderia continuar sustentando um botequim excludente de bolinhas-de-queijo boas. Mais uma vez tive de me conformar que teria que viver num mundo sem bolinhas-de-queijo, embora dentro de mim eu ainda me perguntasse até quando isso seria possível.
Eis que o Jobi entrou na minha vida e as bolinhas-de-queijo voltaram. Confesso que as bolinhas do Jobi não são a nona maravilha do mundo (a oitava eram as bolinhas-de-queijo da W), mas num planeta onde a coisa é cada vez mais escassa, as que existem acabam ganhando mais status do que deveriam. É aquele velho ditado: em terra de cego quem tem um olho é rei. O Jobi é como um palácio para mim.
Finda a era das festinhas infantis, bolinhas-de-queijo viraram artigo de luxo e bolinhas-de-queijo boas eram quase como achar água no deserto. Foram longos anos sem a convivência com essas pequenas delícias engorduradas, até que a adolescência veio e a W também. A W era uma boate que, se contemporânea, seria prima da Prelude. Eu não tinha ainda tanto escrúpulo assim pra sacar que a W era o ó. Já as bolinhas-de-queijo da W... Eu tolerei noites além do que eu seria capaz e tudo por causa dessa guloseima. Cheguei a ponto de entrar na W, achar um banquinho no segundo andar e gastar toda a minha consumação com elas. O melhor de tudo é que o prato era grande, generoso, eram dois ou três andares de bolinhas-de-queijo e eu as devorava sozinha enquanto meus amigos dançavam e conheciam gente que vivia num mundo bolinha-de-queijo-less. Eu os achava loucos. Eles me achavam um caso perdido. Como tudo o que é bom dura pouco, a W fechou e lá se foram as bolinhas-de-queijo mais deliciosas que já comi.
Anos depois, já refeita do luto, eu descobri que o Manuel e Joaquim fazia bolinhas-de-queijo quase tão boas quanto as da W. Elas vinham em menor quantidade, mas em compensação eu não tinha que aturar música alta e eventuais garotos pós-adolescentes me puxando pelo braço e, ainda, estava livre dos olhares reprovadores dos meus amigos que nunca entenderam o valor de uma boa bolinha-de-queijo. De lá pra cá o impensável aconteceu: o Manuel e Joaquim retirou as bolinhas-de-queijo do seu cardápio. Não houve qualquer satisfação ou comunicação prévia, um belo dia elas simplesmente deixaram de existir. Eu parei de freqüentar o local. Eu não poderia continuar sustentando um botequim excludente de bolinhas-de-queijo boas. Mais uma vez tive de me conformar que teria que viver num mundo sem bolinhas-de-queijo, embora dentro de mim eu ainda me perguntasse até quando isso seria possível.
Eis que o Jobi entrou na minha vida e as bolinhas-de-queijo voltaram. Confesso que as bolinhas do Jobi não são a nona maravilha do mundo (a oitava eram as bolinhas-de-queijo da W), mas num planeta onde a coisa é cada vez mais escassa, as que existem acabam ganhando mais status do que deveriam. É aquele velho ditado: em terra de cego quem tem um olho é rei. O Jobi é como um palácio para mim.
Eu tentei substituir bolinhas-de-queijo por bolinhos de aipim, de bacalhau, filé aperitivo, linguicinha e mais uma série de incontáveis petiscos que encontramos por aí mas o fato é que desde que as bolinhas caíram em desuso que eu nunca mais fui plenamente feliz num bar.
O que eu não consigo entender, meu deus!, é por que diabos o mundo quer se livrar dessa iguaria?
quarta-feira, janeiro 24, 2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
Le cinéma
- O que quer ser?
- Diplomata.
- Tem uma fortuna?
- Não.
- Tem relacionamento com alguém famoso ou ilustre?
- Não.
- Esqueça a diplomacia.
- Mas o que posso ser?
- Um curioso.
-Isso não é profissão.
-Ainda não. Viaje, escreva, traduza. Aprenda a viver em todo lugar. Comece agora.
in Jules et Jim.
- Diplomata.
- Tem uma fortuna?
- Não.
- Tem relacionamento com alguém famoso ou ilustre?
- Não.
- Esqueça a diplomacia.
- Mas o que posso ser?
- Um curioso.
-Isso não é profissão.
-Ainda não. Viaje, escreva, traduza. Aprenda a viver em todo lugar. Comece agora.
in Jules et Jim.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Essa maravilha de cenário
Sente-se na Pizzaria Guanabara às quatro da manhã de uma terça-feira pós Circo Voador vestida de Branca de Neve. De preferência, esteja acompanhada de um amigo tão ou mais engraçado que você. Chame todos que exclamarem “Branca de Neve!” para sentar-se à mesa também. Confirme quando o seu amigo disser que você é socióloga e que parte da sua pesquisa comportamental consiste em vestir-se de princesas da Disney para estudar as diversas reações de pessoas. Diga que mora na Floresta da Tijuca com os Sete Anões, que ficaram em casa porque têm de acordar cedo no dia seguinte para trabalhar (“Just whistle while you work”, lembram-se?). Diga também que substituiu a saia amarela pela bermuda jeans porque assim é mais prático e que a capa esquentava muito. Saia de lá com a barriga doendo de rir, tome um banho quente antes de dormir e aguarde ansiosamente mais um baile da Orquestra Imperial.
domingo, janeiro 14, 2007
Meu caro amigo:
antes de prosseguir sua leitura neste humilde blógui, marque a sua opção verdadeira.
Sua fé estipula que:
a) Chico Buarque é uma entidade suprema e fenomenal de quem não se pode falar um ai sequer e ele figura na minha top 5 list de pessoas com quem eu sonho em ficar presa no elevador;
b) Chico Buarque tem seu valor, é um grande letrista mas creio que o cara acorda com remelas nos olhos e é passível de ter chulé e além do mais ficar presa no elevador com o Johnny Depp deve ser bem mais interessante.
Se você marcou a opção "a" por favor saia deste blógui imediatamente e não olhe para trás.
Eu sou fã confessa do dono dos olhos de ardósia. Muitas de suas canções têm lugar assegurado no meu cd imaginário contenedor das melhores músicas do mundo. Fico embasbacada com algumas de suas composições e em ver como elas resistem ao tempo. Gosto também do Chico intérprete, embora eu ache que Construção foi feita pra ser cantada pelo Ney e Atrás da Porta pela Elis. Reconheço o charme do moço e ainda mais seu carisma. Acho que Chico roubou todas as cenas de Vinícius, o filme.
Mas no palco ele apenas não funcionou para mim. O intérprete ficou morno, o repertório atual não me emociona e o antigo me soa melhor em cd ou na Casa da Matriz com espaço pra (tentar) sambar e abrir os braços que nem nossos pais fazem quando dançam.
Talvez porque o Chico tenha virado uma entidade eu esperasse dele um show arrebatador.
Sem mais delongas, respiro fundo e afirmo sem medo de ser jurada de morte: fui ao show do Chico Buarque, não gostei e fiquei triste.
Sua fé estipula que:
a) Chico Buarque é uma entidade suprema e fenomenal de quem não se pode falar um ai sequer e ele figura na minha top 5 list de pessoas com quem eu sonho em ficar presa no elevador;
b) Chico Buarque tem seu valor, é um grande letrista mas creio que o cara acorda com remelas nos olhos e é passível de ter chulé e além do mais ficar presa no elevador com o Johnny Depp deve ser bem mais interessante.
Se você marcou a opção "a" por favor saia deste blógui imediatamente e não olhe para trás.
Eu sou fã confessa do dono dos olhos de ardósia. Muitas de suas canções têm lugar assegurado no meu cd imaginário contenedor das melhores músicas do mundo. Fico embasbacada com algumas de suas composições e em ver como elas resistem ao tempo. Gosto também do Chico intérprete, embora eu ache que Construção foi feita pra ser cantada pelo Ney e Atrás da Porta pela Elis. Reconheço o charme do moço e ainda mais seu carisma. Acho que Chico roubou todas as cenas de Vinícius, o filme.
Mas no palco ele apenas não funcionou para mim. O intérprete ficou morno, o repertório atual não me emociona e o antigo me soa melhor em cd ou na Casa da Matriz com espaço pra (tentar) sambar e abrir os braços que nem nossos pais fazem quando dançam.
Talvez porque o Chico tenha virado uma entidade eu esperasse dele um show arrebatador.
Sem mais delongas, respiro fundo e afirmo sem medo de ser jurada de morte: fui ao show do Chico Buarque, não gostei e fiquei triste.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Mas não leve isso tudo tão a sério
Você não pode ligar pra ele no dia seguinte porque isso parece desespero, aliás você não pode ligar pra ele porque isso quem deve fazer é o homem.
Você também não pode achar que ele vai ligar no dia seguinte, você não pode contar com isso gera expectativas e você aprendeu desde cedo que não se deve esperar nada de ninguém, assim evita se decepcionar. Mas tome cuidado pra não demonstrar indiferença porque isso pode botar tudo a perder, você deve saber disfarçar na dose certa senão ele acaba te achando independente demais e some. Mas também não fique achando que ele vai sumir de primeira porque pensamento negativo atrai e essa coisa de esperar logo o pior porque o que vier é lucro é tão teórica quanto ineficaz pois numa dessas você deixa de fazer as coisas por medo. Ok, também não se convença você que o telefone vai tocar dentro de três ou quatro dias e se passado esse prazo o rapaz ainda não tiver telefonado nem pense em se adiantar e cumprir a missão, em hipótese alguma você deve telefonar, nem se o motivo for um velório e se o cara não ligar não derrame uma lágrima e nem ache ruim, ficar triste por causa de homem babaca (porque o homem que não liga alcança imediatamente esse status) é o fim e você deve subir no salto e dar a volta por cima, fazer uma hidratação de queratina, pintar as unhas de rubi, trata-lo com educação se esbarrar com ele por aí, enfim, mostrar que é superior. Caso ele ligue, você não pode se mostrar muito disponível porque assim o cara perde o interesse logo. É necessário um charminho, mas não caia no exagero. Você também não pode estar sempre ocupada porque aí ele desiste mesmo, se sente desprezado, acha que você está esnobando e nunca mais dá as caras.
Você não pode sair muito arrumada no segundo encontro porque ele vai achar que você quis impressionar e se você quis impressionar é porque está amarradona e essa é a última coisa que você quer que ele descubra. Você não pode ser muito fofa e meiga porque aí ele vai achar que você é carente. Você também não pode ser muito fria e distante. Ao mesmo tempo não deve ser muito eufórica, você tem que achar aquele meio termo que vai faze-lo ficar na dúvida, o que gera uma grande possibilidade de um terceiro encontro, quando acaba o mistério eles perdem a curiosidade e aí murcha mesmo.
Você não pode dar de primeira e nem de segunda, na verdade meu bem, você não pode dar nunca porque essa é sua passagem de volta pra casa. Você também não pode não dar porque eles se cansam e procuram outra mais fácil. Você não pode ter um relacionamento puramente carnal porque estaria se desvalorizando e poderia parecer meio piranha, mas você também não pode fazer planos de relacionamentos sérios porque o sujeito se sentiria pressionado. Você também não pode ser a eterna ficante, mas não deve achar que vai ser logo namorada.
Você não pode fazer cobranças porque os moços sempre fogem de compromissos, não pode carregar na maquiagem sob risco de parecer perua, você não pode demonstrar toda a sua sofisticação sob pena de assustar o cara, você não pode busca-lo em casa pra não parecer feminista, você não pode aceitar carona sempre pra não parecer submissa, você não pode usar batom porque homem não gosta, você não pode demonstrar ciúme, você não pode reclamar do futebol, você não pode agir impulsivamente, você não pode querer ser emancipada e nem Amélia, nem oito e nem oitenta e só o que você pode é ter muita, muuuuuuuita preguiça dessas regras antiquadas e chatas demais, pode bocejar e inventar uma brincadeira nova.
E quem é que vai saber jogar?
Você também não pode achar que ele vai ligar no dia seguinte, você não pode contar com isso gera expectativas e você aprendeu desde cedo que não se deve esperar nada de ninguém, assim evita se decepcionar. Mas tome cuidado pra não demonstrar indiferença porque isso pode botar tudo a perder, você deve saber disfarçar na dose certa senão ele acaba te achando independente demais e some. Mas também não fique achando que ele vai sumir de primeira porque pensamento negativo atrai e essa coisa de esperar logo o pior porque o que vier é lucro é tão teórica quanto ineficaz pois numa dessas você deixa de fazer as coisas por medo. Ok, também não se convença você que o telefone vai tocar dentro de três ou quatro dias e se passado esse prazo o rapaz ainda não tiver telefonado nem pense em se adiantar e cumprir a missão, em hipótese alguma você deve telefonar, nem se o motivo for um velório e se o cara não ligar não derrame uma lágrima e nem ache ruim, ficar triste por causa de homem babaca (porque o homem que não liga alcança imediatamente esse status) é o fim e você deve subir no salto e dar a volta por cima, fazer uma hidratação de queratina, pintar as unhas de rubi, trata-lo com educação se esbarrar com ele por aí, enfim, mostrar que é superior. Caso ele ligue, você não pode se mostrar muito disponível porque assim o cara perde o interesse logo. É necessário um charminho, mas não caia no exagero. Você também não pode estar sempre ocupada porque aí ele desiste mesmo, se sente desprezado, acha que você está esnobando e nunca mais dá as caras.
Você não pode sair muito arrumada no segundo encontro porque ele vai achar que você quis impressionar e se você quis impressionar é porque está amarradona e essa é a última coisa que você quer que ele descubra. Você não pode ser muito fofa e meiga porque aí ele vai achar que você é carente. Você também não pode ser muito fria e distante. Ao mesmo tempo não deve ser muito eufórica, você tem que achar aquele meio termo que vai faze-lo ficar na dúvida, o que gera uma grande possibilidade de um terceiro encontro, quando acaba o mistério eles perdem a curiosidade e aí murcha mesmo.
Você não pode dar de primeira e nem de segunda, na verdade meu bem, você não pode dar nunca porque essa é sua passagem de volta pra casa. Você também não pode não dar porque eles se cansam e procuram outra mais fácil. Você não pode ter um relacionamento puramente carnal porque estaria se desvalorizando e poderia parecer meio piranha, mas você também não pode fazer planos de relacionamentos sérios porque o sujeito se sentiria pressionado. Você também não pode ser a eterna ficante, mas não deve achar que vai ser logo namorada.
Você não pode fazer cobranças porque os moços sempre fogem de compromissos, não pode carregar na maquiagem sob risco de parecer perua, você não pode demonstrar toda a sua sofisticação sob pena de assustar o cara, você não pode busca-lo em casa pra não parecer feminista, você não pode aceitar carona sempre pra não parecer submissa, você não pode usar batom porque homem não gosta, você não pode demonstrar ciúme, você não pode reclamar do futebol, você não pode agir impulsivamente, você não pode querer ser emancipada e nem Amélia, nem oito e nem oitenta e só o que você pode é ter muita, muuuuuuuita preguiça dessas regras antiquadas e chatas demais, pode bocejar e inventar uma brincadeira nova.
E quem é que vai saber jogar?
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Te adorando pelo avesso
Eu queria ligar pra ela e dizer o buraco que eu sentia e queria que ela entendesse e sentisse o mesmo e queria que ela tivesse a fórmula que consertasse tudo. Eu queria que ela encontrasse um jeito, um traço, um lugar onde tudo pudesse ser de novo do jeito que era antes dela estragar o jogo. Eu queria que ela me pegasse no colo e dissesse que ia passar, mas não está passando, não vê que não está passando? Eu queria gritar no ouvido dela todos os insultos e barbaridades que eu pudesse lembrar e queria que doesse tanto nela quanto doeu em mim. Eu queria que ela visse como eu vejo, eu queria que ela enxergasse o quanto todo mundo perdeu, eu queria que ela visse como eu sofro e eu queria que ela se importasse, eu queria que ela fizesse um esforço qualquer que não surtisse efeito mas que demonstrasse algum sinal de preocupação, algum resquício de decência. Eu queria que ela sentisse o cheiro do que ela fez, eu queria enfiar uma faca nas costas dela que nem ela fez na minha, eu queria que ela comesse azedo, queria jogar em cima dela toda a lama onde ela me deixou, eu queria ver na cara dela uma tristeza profunda e irremediável. Eu queria que ela sentisse os mesmos golpes que me deu no estômago, queria que em cada som que lembrasse o meu nome ela sentisse o enjôo subindo pela garganta. Eu queria que ela não mais pudesse ouvir as músicas que a gente dançava, eu queria que um dia ela se visse engasgada e magra como eu fui no dia quando. Eu queria que ela caísse numa rua imunda, joelhos contra a calçada e uma dor tremenda, mãos raladas e uma humilhação impiedosa. Eu queria que ela entendesse que confiança é definitivo e que eu não saberia continuar uma conversa com ela, não depois de tudo, eu queria que ela me desse a resposta, eu queria que tivesse resposta.
Eu queria ligar pra ela e dizer o buraco que eu sentia e queria que ela tivesse o jeito certo e que todas as coisas boas que eu sentia por ela voltassem à tona, eu queria ao menos poder pensar nela sem achar que é tudo tão radical. Eu queria não sentir raiva por ter tanta memória de carinho, eu queria sufocar um gostar dela.
Eu queria que ela voltasse a fazer sentido.
Eu queria ligar pra ela e dizer o buraco que eu sentia e queria que ela tivesse o jeito certo e que todas as coisas boas que eu sentia por ela voltassem à tona, eu queria ao menos poder pensar nela sem achar que é tudo tão radical. Eu queria não sentir raiva por ter tanta memória de carinho, eu queria sufocar um gostar dela.
Eu queria que ela voltasse a fazer sentido.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
terça-feira, dezembro 26, 2006
Last night
She said: oh baby, I feel so down...
fim de ano, natal, amiga longe, amiga perto, mãe, pai, cachorro, ateliê, seda, metrô, calor, viagem, avião, praia, maiô, café, vaga, suco, livro, dormir, bebedeira, discos, coca-cola, piscina, rpg, sauna, irmã, shopping, jardim, yoga, produção, redação, Ipanema, brechós, casa da vó, casa do pai, casa da mãe, casa de quem?, poesias, violão, cantoria, los hermanos, filmes, curtas, figurino, teresópolis, o globo, revistas, muitas, jamie lidell, stevie wonder, mergulho, som roubado, caetano, orquestra imperial, pizza, diagonal, travessa, dança, professor de dança, marvin gaye, coluna, joelho, miopia, saara, tingimento, renda, guipir, museus, ccbb, paris, rue de rennes, encontro, reunião, jobi, bazar, lojas, leblon, baixo gávea, soul baby soul, strip-tease, the strokes, matriz, cabaret kalesa, informal, petiscos, zero zero, dj, aniversário, casa nova, barcelona, gaudí, mosaico, andança, domitila, maria bonita extra, zara, huis clos, fnac, cidadão instigado, b-52's, cerveja, todinho, salada de frutas, gula-gula, sono de manhã, alongamento, dança de salão, gotan project, natalie merchant, taschen, fotos digitais, cirque du soleil, o clipe da madonna, carro, vale do loire, vinícolas, castelos de princesa, tapeçaria, caio f, a dama e o unicórnio, vintage, praia da reserva, pepê perto do wind, asa-delta, bloco de rua, elis e tom, tom zé, novos baianos, egon schiele, musa, desenho, gerchman, terapia, discussão, jane monheit, kubrick, peanuts, tribuneiros, blóguis, fotolog, orkut, mensagem de texto, aula de francês, voar de balão, primos, primas, tios, tias, qinho e os cara, os outros, copacabana, fotógrafos, fashion rio, caderno ela, chapéu, vestidão, chinelo, lygia fagundes telles, livro novo do nick hornby, mario vargas llosa, dias ferreira, gasolina, roberto carlos, maria bethânia, peer gynt, almodovar, woody allen, o ano em que meus pais saíram de férias, paulinho da viola, marisa, são paulo, leonilson na galeria luisa strina, casa batló, hang on little tomato, chororô, despedidas, calcinha da verve, esther weitzman cia de dança, isadora duncan, focus cia de dança, vivienne westwood, yoshimoto nara, caronas pra todo mundo, calça xadrez, jeans skinny, je vais étudier, palaphitas, belmonte de ipanema, cafeína, minha cama, travesseiro, brownie da didi, doc dog, sapato de cetim, flor na cabeça, cabeleireiro novo, a bunda da marylin monroe, george michael ao vivo, giverny, jardim das ninféias, planos, conclusões e quase tudo inacabado.
como diria o lobão: 2006 foi roquenrou meio nonsense.
(tô de autos e volto em 2007)
fim de ano, natal, amiga longe, amiga perto, mãe, pai, cachorro, ateliê, seda, metrô, calor, viagem, avião, praia, maiô, café, vaga, suco, livro, dormir, bebedeira, discos, coca-cola, piscina, rpg, sauna, irmã, shopping, jardim, yoga, produção, redação, Ipanema, brechós, casa da vó, casa do pai, casa da mãe, casa de quem?, poesias, violão, cantoria, los hermanos, filmes, curtas, figurino, teresópolis, o globo, revistas, muitas, jamie lidell, stevie wonder, mergulho, som roubado, caetano, orquestra imperial, pizza, diagonal, travessa, dança, professor de dança, marvin gaye, coluna, joelho, miopia, saara, tingimento, renda, guipir, museus, ccbb, paris, rue de rennes, encontro, reunião, jobi, bazar, lojas, leblon, baixo gávea, soul baby soul, strip-tease, the strokes, matriz, cabaret kalesa, informal, petiscos, zero zero, dj, aniversário, casa nova, barcelona, gaudí, mosaico, andança, domitila, maria bonita extra, zara, huis clos, fnac, cidadão instigado, b-52's, cerveja, todinho, salada de frutas, gula-gula, sono de manhã, alongamento, dança de salão, gotan project, natalie merchant, taschen, fotos digitais, cirque du soleil, o clipe da madonna, carro, vale do loire, vinícolas, castelos de princesa, tapeçaria, caio f, a dama e o unicórnio, vintage, praia da reserva, pepê perto do wind, asa-delta, bloco de rua, elis e tom, tom zé, novos baianos, egon schiele, musa, desenho, gerchman, terapia, discussão, jane monheit, kubrick, peanuts, tribuneiros, blóguis, fotolog, orkut, mensagem de texto, aula de francês, voar de balão, primos, primas, tios, tias, qinho e os cara, os outros, copacabana, fotógrafos, fashion rio, caderno ela, chapéu, vestidão, chinelo, lygia fagundes telles, livro novo do nick hornby, mario vargas llosa, dias ferreira, gasolina, roberto carlos, maria bethânia, peer gynt, almodovar, woody allen, o ano em que meus pais saíram de férias, paulinho da viola, marisa, são paulo, leonilson na galeria luisa strina, casa batló, hang on little tomato, chororô, despedidas, calcinha da verve, esther weitzman cia de dança, isadora duncan, focus cia de dança, vivienne westwood, yoshimoto nara, caronas pra todo mundo, calça xadrez, jeans skinny, je vais étudier, palaphitas, belmonte de ipanema, cafeína, minha cama, travesseiro, brownie da didi, doc dog, sapato de cetim, flor na cabeça, cabeleireiro novo, a bunda da marylin monroe, george michael ao vivo, giverny, jardim das ninféias, planos, conclusões e quase tudo inacabado.
como diria o lobão: 2006 foi roquenrou meio nonsense.
(tô de autos e volto em 2007)
sexta-feira, dezembro 22, 2006
quinteto.
Foi no dia em que ela teve insônia e a gente discutiu relação platônica no telefone. Foi no dia em que ela me ensinou a apagar postes. Foi no dia em que a gente conversou mais no telefone que no café. Foi no dia em que ela riu quando eu disse "bocó" e foi nesse dia em que ela me mandou tomar vergonha na cara e ir atrás dele. Foi no dia em que ela desmarcou e eu fiquei brava. Foi no dia em que ela sacou que era sério e eu também.
Foi no dia em que eu fiquei sentada no sofá e ele me contou histórias. Foi no dia que a gente falou até a garganta secar e que a gente percebeu o poder que tínhamos de virarmos seres inquietos e que não calam a boca na companhia um do outro. Foi no dia em que a gente falou muito dos medos e eu vi que ele era tão confuso quanto eu sou e foi no dia em que a gente teve idéias geniais e que a gente descobriu que ser vizinho era melhor.
Foi no dia em que a gente se despediu no café e ela foi andando pra só voltar depois de quatro meses e foi no dia em que a gente resolveu que trabalhar juntas era tão bom quanto as trufas que comeríamos juntas meses depois. Foi quando a gente leu Vogue num frio de bater queixo, foi no dia em que a gente trocou figurinha sobre produtos de cabelo. Foi nesse dia que a gente viu Lecuona no DVD e amaldiçoou aquelas bailarinas invertebradas. Foi no dia em que a gente foi no parque de diversões e brincou de bate-bate, foi no dia em que ela agiu como eu adoraria que ela agisse.
Foi no dia em que a gente descobriu que tínhamos o cd do Cardigans em comum, foi no dia em que a gente voltou da festa de vidro aberto e som roubado cantando Hopelessly Devoted to You. Foi no dia em que eu cuidei dela de bebedeira e foi no dia em que ela me ensinou que convite pra almoçar não podia ser recusado. Foi no dia em que eu não me importei se ia falir no fim do mês por causa dela. Foi no dia em que ela me ensinou mergulho de roupa às 5 da manhã. Foi no dia em que eu entrei na casa dela lá em outro país e a gente se abraçou forte à beca.
Foi no dia em que tudo furou e eu fiquei em casa ouvindo B-52’s e eu só queria todos juntos bebendo e rindo que nem antes. Foi no dia em que eu vi a dimensão que eles tomaram na minha vida e o espaço que eles passaram a ocupar. Foi nesse dia em que bateu uma puta saudade. Foi no dia em que eu espalhei fotos deles na parede do quarto. Foi no dia em que eu vi que isso era irreversível.
:: Nothing compares to you - Prince
Foi no dia em que eu fiquei sentada no sofá e ele me contou histórias. Foi no dia que a gente falou até a garganta secar e que a gente percebeu o poder que tínhamos de virarmos seres inquietos e que não calam a boca na companhia um do outro. Foi no dia em que a gente falou muito dos medos e eu vi que ele era tão confuso quanto eu sou e foi no dia em que a gente teve idéias geniais e que a gente descobriu que ser vizinho era melhor.
Foi no dia em que a gente se despediu no café e ela foi andando pra só voltar depois de quatro meses e foi no dia em que a gente resolveu que trabalhar juntas era tão bom quanto as trufas que comeríamos juntas meses depois. Foi quando a gente leu Vogue num frio de bater queixo, foi no dia em que a gente trocou figurinha sobre produtos de cabelo. Foi nesse dia que a gente viu Lecuona no DVD e amaldiçoou aquelas bailarinas invertebradas. Foi no dia em que a gente foi no parque de diversões e brincou de bate-bate, foi no dia em que ela agiu como eu adoraria que ela agisse.
Foi no dia em que a gente descobriu que tínhamos o cd do Cardigans em comum, foi no dia em que a gente voltou da festa de vidro aberto e som roubado cantando Hopelessly Devoted to You. Foi no dia em que eu cuidei dela de bebedeira e foi no dia em que ela me ensinou que convite pra almoçar não podia ser recusado. Foi no dia em que eu não me importei se ia falir no fim do mês por causa dela. Foi no dia em que ela me ensinou mergulho de roupa às 5 da manhã. Foi no dia em que eu entrei na casa dela lá em outro país e a gente se abraçou forte à beca.
Foi no dia em que tudo furou e eu fiquei em casa ouvindo B-52’s e eu só queria todos juntos bebendo e rindo que nem antes. Foi no dia em que eu vi a dimensão que eles tomaram na minha vida e o espaço que eles passaram a ocupar. Foi nesse dia em que bateu uma puta saudade. Foi no dia em que eu espalhei fotos deles na parede do quarto. Foi no dia em que eu vi que isso era irreversível.
:: Nothing compares to you - Prince
segunda-feira, dezembro 18, 2006
O que não tem cansaço, nem nunca terá
Eu esperava ansiosamente o mês de dezembro. Os preparativos começavam em Agosto e o burburinho ia aumentando com o passar das semanas, de repente víamos as manhãs de sábado serem ocupadas por ensaio e num piscar de olhos o chão da academia virava um grande tapete colorido e brilhante de sapatos e sapatilhas enfileirados cobertos de purpurina e tinta. Todas as etapas do processo eram motivo de excitação e ansiedade: da escolha do tema à apresentação final, os menores detalhes viravam motivo de alegria. O espetáculo de fim de ano de dança era mais que uma apresentação para os pais e amigos, era uma celebração da nossa vontade de comunicar movimento, de uma união de pessoas que falavam através de corpo. Todo aquele exercício diário de ballet e outras técnicas, as eventuais contusões e dores, os tendões sobrecarregados, os desafios e tantas frustrações por não conseguir a pirueta perfeita, os ensaios que nos tomavam o tempo da praia e do sono, enfim, subir naquele palco era a compensação pela disciplina e uma catarse coletiva de meninas que viam na dança um meio, não um fim.
18 anos depois e uma retrospectiva de tantos espetáculos vividos me deixa com um nó na garganta e os olhos marejados. No começo era uma farra de criança e experimentar a fantasia era um delírio e merecia algazarra. Com o tempo a fantasia virou figurino, eu fui para os bastidores desenhar as roupas que eu mesma ia vestir e o prazer dobrado me dava ainda mais borboletas no estômago. As borboletas desapareciam no momento em que eu ficava meio cega ao pisar no palco e espremer levemente os olhos contra a luz forte. No fim de cada número eu nem lembrava que minutos antes quase fizera xixi de nervoso. Com o tempo os números aumentaram e eu me via trocando de roupa encolhidinha na coxia, uma pessoa desamarrando meus sapatos, outra molhando o meu cabelo pra mudar o penteado e de repente a maquiagem que escorria já não era tão importante assim. Nos primeiros anos de dança gel era acessório básico tão importante quanto a sapatilha. Com a coisa cada vez mais contemporânea só o que precisava era de um borrifador pra manter o cabelo molhado e solto e dos meus pés cheios de calos e pele machucada. Com o tempo os dias de ensaio geral eram passados o dia todo no teatro colando linóleo no chão, dormindo nos camarins e transformando em amizade aquela relação de aluno e professor. Com o tempo a gente começou a achar o iluminador um gato, a costureira me ligava quando tinha dúvidas e eu pesquisava preços de gráficas para imprimir o programa da festa. Com o tempo eu fui percebendo o quanto eu era completamente dominada pela vontade de dançar e dançar e com o tempo também eu fui crescendo e nem sei bem como de repente tudo ficou tão diferente que eu virei platéia.
Descobri que ser platéia era bacana mas que eu me emocionava demais num misto de nostalgia e boas lembranças e certeza de ter aproveitado tão bem e de ter vivido um caso de amor eterno com essa coisa, e também uma certa melancolia de estar do outro lado e uma certeza maior ainda que eu estava do lado errado.
Amanhã é o dia do espetáculo e eu já avisei que vou chorar. O problema da dança é que ela te satisfaz de modo que 18 anos não são suficientes. Seria preciso uma vida inteira.
:: You really got a hold on me - The Beatles
18 anos depois e uma retrospectiva de tantos espetáculos vividos me deixa com um nó na garganta e os olhos marejados. No começo era uma farra de criança e experimentar a fantasia era um delírio e merecia algazarra. Com o tempo a fantasia virou figurino, eu fui para os bastidores desenhar as roupas que eu mesma ia vestir e o prazer dobrado me dava ainda mais borboletas no estômago. As borboletas desapareciam no momento em que eu ficava meio cega ao pisar no palco e espremer levemente os olhos contra a luz forte. No fim de cada número eu nem lembrava que minutos antes quase fizera xixi de nervoso. Com o tempo os números aumentaram e eu me via trocando de roupa encolhidinha na coxia, uma pessoa desamarrando meus sapatos, outra molhando o meu cabelo pra mudar o penteado e de repente a maquiagem que escorria já não era tão importante assim. Nos primeiros anos de dança gel era acessório básico tão importante quanto a sapatilha. Com a coisa cada vez mais contemporânea só o que precisava era de um borrifador pra manter o cabelo molhado e solto e dos meus pés cheios de calos e pele machucada. Com o tempo os dias de ensaio geral eram passados o dia todo no teatro colando linóleo no chão, dormindo nos camarins e transformando em amizade aquela relação de aluno e professor. Com o tempo a gente começou a achar o iluminador um gato, a costureira me ligava quando tinha dúvidas e eu pesquisava preços de gráficas para imprimir o programa da festa. Com o tempo eu fui percebendo o quanto eu era completamente dominada pela vontade de dançar e dançar e com o tempo também eu fui crescendo e nem sei bem como de repente tudo ficou tão diferente que eu virei platéia.
Descobri que ser platéia era bacana mas que eu me emocionava demais num misto de nostalgia e boas lembranças e certeza de ter aproveitado tão bem e de ter vivido um caso de amor eterno com essa coisa, e também uma certa melancolia de estar do outro lado e uma certeza maior ainda que eu estava do lado errado.
Amanhã é o dia do espetáculo e eu já avisei que vou chorar. O problema da dança é que ela te satisfaz de modo que 18 anos não são suficientes. Seria preciso uma vida inteira.
:: You really got a hold on me - The Beatles
sábado, dezembro 16, 2006
Esmalte
Foi na semana que fez aquele dia quente de doer, pés inchados e eu ia sentindo a roupa toda grudando e a testa oleosa, cabeça no tanque e deu meio-dia quando ela ligou. Ela sempre ligava essa hora, acordando, perguntando do vestido. Eu descrevia um pouco a peça, e sempre ocultava um detalhe para que houvesse surpresa. Eu separava as rendas e arrumava as fitas de cetim enquanto que ela bocejava lá num outro bairro e ia como se arrastando até a xícara de café. Duas colheres de açúcar. Eu esquentava meu almoço e ela esquecida no sofá, xícara na mão, jornal espalhado em volta e a unha do pé sempre vermelha. Impecável, ela era, sempre com suas roupas bem cuidadas e os cabelos num penteado daqueles de revista. Eu enfiava os cachos pra debaixo de um lenço e comia correndo, com pressa e então ia cortar as sedas, comprar a linha certa e sentava na máquina, o tecido fininho ia escorregando devagar, sempre numa linha reta e muito calculada, eu começava a juntar os pedaços pro vestido que fazia pra ela. Ela preparava a banheira e jogava na água quente pequenos saches de lavanda, ficava horas compridas, olhos fechados e o barulhinho dos seus braços se movendo na água. Eu fervia água pra tingir sua seda, combinava pozinhos de cores diversas até conseguir o azul que ela gostava, um tom com uma pitada de turquesa, mas muito discreto e chique, como tudo o que eu costurava pra ela. Eu via a luz do dia cair e pregava as rendas no barrado, debaixo do abajour eu ia ia dando ponto por ponto, fazendo uma pequena trama de rendinhas muito estreitas. Eu experimentava a roupa na manequim, checava se não havia esquecido alfinetes espetados nas rendas e por fim amarrava a fita de cetim na cintura. Embrulhava o vestido em papel fino e o acomodava numa sacola. Eu deixava o embrulho pontualmente às 19:45 na casa dela, que vinha à porta em seu roupão estampado, sua pele muito clara contrastando com as flores pretas do tecido japonês e ela me oferecia um chá. Eu sentava na cozinha bebericando da caneca enquanto ela provava a roupa. Voltava com um cheque e um sorriso satisfeito, e toda semana era assim: eu era sua costureira há 8 anos e ela nunca se queixava dos vestidos, usava-os em suas festas e jantares, desfilava meus modelos pelos países por onde viajava e eu sempre imaginava que devia deixar um rastro de flores pelo caminho, sempre achei que de seus pés saíam pétalas e folhas perfumadas e que a cada passo dela podiam-se ouvir suspiros. Eu ia para casa feliz por ter agradado, tomava um banho morno e me enrolava no lençol, dormia cansada e no dia seguinte começava um vestido novo. Foi então que a vi, pela primeira vez a vi na rua, eu estava a caminho de sua casa para entregar-lhe um novo modelo e ia andando 20 minutos adiantada. Ela abria o portão da frente e parecia uma boneca de porcelana: usava o vestido com roda plissada, cetim de seda de um vinho escuro, na cintura o laço um tom acima e sandálias de salto muito fino, de um cobre envelhecido. Esperei a hora certa e fiquei espiando pela janela. Como de hábito, bebi meu chá na cozinha. Demorou mais que de costume e parou na minha frente, as duas mãos na cintura, o roupão colorido e em poucas palavras sentenciou minha morte: não preciso mais deles, não preciso mais de vestidos novos. Lentamente me recompus do susto, peguei a sacola com o vestido recusado e tantos outros que eu agora sabia que não faria mais. Me virei sem dar tchau, sem perguntas e fui caminhando pra casa a pé. Nenhuma explicação, nenhum sentido e quando girei a chave na porta de casa foi que caí. Demorei no banho. Coloquei meu melhor perfume e vesti o modelo recusado, o meu melhor trabalho, uma composição de rendas das mais finas, 4 metros de fitas de cetim, o tom bege como se tivesse caído no chá e pequenos cristais que reluziam com o movimento. Calcei meu sapato de festa e apliquei o batom. Quase já não ouvia a vitrola. Pus a flor no cabelo e assim como num tango lento e arrastado e dramático ateei fogo nas roupas. Morri com as unhas dos pés pintadas de vermelho.
segunda-feira, dezembro 11, 2006
nós.
“Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você.”
Eram 7 e 45 da noite quando eu senti os primeiros sintomas. Era quinta-feira e o tempo ameaçava chover, eu calçava sandálias e andava por ruazinhas quase prendendo a respiração, o cheiro dos becos do Centro da Cidade, urina escorrendo para os bueiros e uma chuva que não chove, a gente aqui nesse lugar abafado e tanta coisa abafada além do ar e eu com uma vontade do seu perfume. Nessa época a cidade parece que fica invadida por luzes que não páram de piscar e a paisagem some e desaparece em segundos e toda vez que eu volto a abrir os olhos e as luzes se acendem de novo você não está mais onde estava. Eu procurava um chiclete na bolsa enquanto olhava no relógio, 7 e 47 agora e a gente dançando abraçados, suas mãos no lugar certo e eu querendo e pedindo pra música não acabar. Volto à tona e dou meia-volta, pisco de novo e nada, você some e anda em outra direção e eu fico dando voltas, enfio as mãos no bolso e desenho círculos com as solas das sandálias gastas.
Eu enlouqueci nesse dia. Cheguei em casa e Caio F me olhava incrédulo da prateleira, como quem sabe e como quem diz finalmente, baby, agora vai conhecer a China ou espetar agulhas nesses braços finos, grita até perder a voz, mergulha bem cedo sem roupa no mar e anda até a curva mais longe e então procura uma montanha bem alta e salta, mas antes disso, por favor, criatura, AME de novo. Ele sabe que eu fiquei diferente, assim meio descrente e com raiva. Ele me olha do alto da sua experiência e me manda sair dessa obssessão que isso não é paixão que nada, isso é essa mania de ser só, esse medo de somar, essa covardia que você não assume, agora fica aí, entre lamentos e torturas, parada, imóvel e doida e andando no meio de gente que não vai te empurrar nem pra frente nem pra trás.
Eu deixo escapar uma lágrima e sento no cantinho meio encolhida, quase cena de novela.
Caio F disfarça e ri assim meio cúmplice me chamando de boba, eu sei como é, ele diz, e acrescenta que isso passa, que loucura de vez em quando é que nem um soco que a gente precisa levar, que é nessa crise que a gente realiza um monte de vontades, que é nos acessos de raiva que a gente bota pra fora, que essa coisa que cresce e consome e bagunça os cabelos, que essa coisa põe a gente em alerta. Caio F acha que eu tenho mais é que ficar doida e sair por aí falando sem parar, Caio mesmo fala pelos cotovelos e lamenta não poder me visitar no auge dos meus dias insanos, imagina a gente enchendo cinzeiros, sim porque com ele os cinzeiros sempre transbordam e então a gente ia sair numa noite fria pulando poças, íamos entrar num lugar escuro qualquer e encher a cara de tanto álcool que um de nós dormiria jogado no corredor do prédio assim como um rockstar entorpecido.
Caio F sabe que eu enlouqueci numa quinta-feira que ameaçava chover e me olha da prateleira como quem diz um monte de coisas essenciais e quando eu tento me reprimir e procurar um remédio terapia tarô hipnose cerveja ou um maço de cigarros ele me manda sentar e me diz desaforos, diz que eu não posso viver assim desistindo dos planos. Ele odeia quando eu deixo os sonhos irem se esmaecendo. Ele me manda sentar e me olha escancarado: vai fazendo assim até que um dia a inteligência vai martelar na sua cabeça que a sua vida não foi nada linda por sua grande incompetência em enterrar seus medos, você sempre dando tantos passos pra trás, fugindo de sorrir, receosa dos seus dentes tortos, querendo ser perfeita com esse jeito de Madre Tereza e no fim só vai te sobrar isso, esse horror, esse amargo forte, um gosto de ressaca e a garganta seca, a torneira sem água e as mãos pesadas enfiadas nos bolsos da calça, ah seu eu soubesse...
Vou dormir sem dar boa-noite e Caio cai displiscente da prateleira como que adivinhando. Ele sabe que ando com vontade de cantar. “Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático”. Não faz mal, ele diz. Caio F me beija e me abraça, nossos ossinhos se batem até fazerem clack e a gente chora um pouquinho, meio envergonhados, baixinho pra não acordar ninguém.
Antes de fechar os olhos eu ainda pisco um tanto, à procura dele. É Caio quem aparece. O máximo que você vai ter é uma cara quebrada, um coração picado e moído e toda aquela coisa te rasgando que você já teve e agora você está aí inteira, não está? Viro pro lado, me cubro até os olhos, pisco mais duas ou três vezes. Caio F sabe, não adianta fugir. Um dia desses ainda fico presa no elevador com ele e então.
:: Canto de Ossanha, versão Elis Regina.
Eram 7 e 45 da noite quando eu senti os primeiros sintomas. Era quinta-feira e o tempo ameaçava chover, eu calçava sandálias e andava por ruazinhas quase prendendo a respiração, o cheiro dos becos do Centro da Cidade, urina escorrendo para os bueiros e uma chuva que não chove, a gente aqui nesse lugar abafado e tanta coisa abafada além do ar e eu com uma vontade do seu perfume. Nessa época a cidade parece que fica invadida por luzes que não páram de piscar e a paisagem some e desaparece em segundos e toda vez que eu volto a abrir os olhos e as luzes se acendem de novo você não está mais onde estava. Eu procurava um chiclete na bolsa enquanto olhava no relógio, 7 e 47 agora e a gente dançando abraçados, suas mãos no lugar certo e eu querendo e pedindo pra música não acabar. Volto à tona e dou meia-volta, pisco de novo e nada, você some e anda em outra direção e eu fico dando voltas, enfio as mãos no bolso e desenho círculos com as solas das sandálias gastas.
Eu enlouqueci nesse dia. Cheguei em casa e Caio F me olhava incrédulo da prateleira, como quem sabe e como quem diz finalmente, baby, agora vai conhecer a China ou espetar agulhas nesses braços finos, grita até perder a voz, mergulha bem cedo sem roupa no mar e anda até a curva mais longe e então procura uma montanha bem alta e salta, mas antes disso, por favor, criatura, AME de novo. Ele sabe que eu fiquei diferente, assim meio descrente e com raiva. Ele me olha do alto da sua experiência e me manda sair dessa obssessão que isso não é paixão que nada, isso é essa mania de ser só, esse medo de somar, essa covardia que você não assume, agora fica aí, entre lamentos e torturas, parada, imóvel e doida e andando no meio de gente que não vai te empurrar nem pra frente nem pra trás.
Eu deixo escapar uma lágrima e sento no cantinho meio encolhida, quase cena de novela.
Caio F disfarça e ri assim meio cúmplice me chamando de boba, eu sei como é, ele diz, e acrescenta que isso passa, que loucura de vez em quando é que nem um soco que a gente precisa levar, que é nessa crise que a gente realiza um monte de vontades, que é nos acessos de raiva que a gente bota pra fora, que essa coisa que cresce e consome e bagunça os cabelos, que essa coisa põe a gente em alerta. Caio F acha que eu tenho mais é que ficar doida e sair por aí falando sem parar, Caio mesmo fala pelos cotovelos e lamenta não poder me visitar no auge dos meus dias insanos, imagina a gente enchendo cinzeiros, sim porque com ele os cinzeiros sempre transbordam e então a gente ia sair numa noite fria pulando poças, íamos entrar num lugar escuro qualquer e encher a cara de tanto álcool que um de nós dormiria jogado no corredor do prédio assim como um rockstar entorpecido.
Caio F sabe que eu enlouqueci numa quinta-feira que ameaçava chover e me olha da prateleira como quem diz um monte de coisas essenciais e quando eu tento me reprimir e procurar um remédio terapia tarô hipnose cerveja ou um maço de cigarros ele me manda sentar e me diz desaforos, diz que eu não posso viver assim desistindo dos planos. Ele odeia quando eu deixo os sonhos irem se esmaecendo. Ele me manda sentar e me olha escancarado: vai fazendo assim até que um dia a inteligência vai martelar na sua cabeça que a sua vida não foi nada linda por sua grande incompetência em enterrar seus medos, você sempre dando tantos passos pra trás, fugindo de sorrir, receosa dos seus dentes tortos, querendo ser perfeita com esse jeito de Madre Tereza e no fim só vai te sobrar isso, esse horror, esse amargo forte, um gosto de ressaca e a garganta seca, a torneira sem água e as mãos pesadas enfiadas nos bolsos da calça, ah seu eu soubesse...
Vou dormir sem dar boa-noite e Caio cai displiscente da prateleira como que adivinhando. Ele sabe que ando com vontade de cantar. “Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático”. Não faz mal, ele diz. Caio F me beija e me abraça, nossos ossinhos se batem até fazerem clack e a gente chora um pouquinho, meio envergonhados, baixinho pra não acordar ninguém.
Antes de fechar os olhos eu ainda pisco um tanto, à procura dele. É Caio quem aparece. O máximo que você vai ter é uma cara quebrada, um coração picado e moído e toda aquela coisa te rasgando que você já teve e agora você está aí inteira, não está? Viro pro lado, me cubro até os olhos, pisco mais duas ou três vezes. Caio F sabe, não adianta fugir. Um dia desses ainda fico presa no elevador com ele e então.
:: Canto de Ossanha, versão Elis Regina.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Transtorno obssessivo
(sobre yoga e calor)
A função do dia foi fazer o curativo da tatuagem da Charlotte, que a propósito é a minha “par” na confecção mais quente do mundo. A Charlotte parece ser uma das pessoas mais calmas do planeta, já até combinamos de fazer yoga juntas. Foi a Charlotte que me explicou, finalmente, o que é astanga mysore. Astanga Mysore, até quinta-feira, era apenas uma categoria curiosa de ioga para mim. A tabela de horários do Nirvana contém duas observações sobre esta aula: o aluno poderá chegar até 30 minutos do término da prática, que dura o triplo do tempo. A coisa ficou ainda mais estranha quando descobri a segunda obs: de acordo com a tradição, a astanga mysore não será praticada em período de lua cheia. Segundo a Charlotte, a tal da aula de astanga mysore é uma aula “livre” onde o aluno (a essa altura eu diria que o aluno atingiu o status de iógui-jr) pratica a sua própria prática independentemente da turma. Nenhum tipo de astanga deve ser feito ou melhor, praticado em período de lua cheia porque o exercício de iôga astanga já é muito intenso, bem como os períodos de lua cheia, portanto seria um exagero fazer os dois juntos. Ao que parece, yoga também é astrologia (antigamente yoga se escrevia com y e se dizia ióga, como eu não sei mais quem está certo eu escrevo e falo de várias formas).
Um dia desses eu estava esperando pelo começo da minha iyengar e uma aula de mysore ia começar. Notei que o professor estava 10 minutos atrasado e concluí que essa aula só pode ser uma zona: você chega uma hora atrasado e faz o que quer. É a graduação da yoga.
Iyengar, por sua vez, consiste numa prática muito paradona onde as posturas são exploradas minuciosa e demoradamente. É bastante recomendada para nós possuidores de colunas estragadas, bem como iniciantes da prática, pois que nela você aprende a usar seu corpo de forma a não se machucar e a atingir um alongamento intenso. Iyengar é chato pra cacete e dói que nem um cão, mas creio ser a forma mais rápida de aprender anatomia, inclusive a sua própria. Dia desses na aula de Iyengar básico o professor começou a dizer o quanto era importante conhecermos os nossos limites e nos ajustarmos a eles (e creio que as explicações e filosofices dos mestres ultrapassem o caráter didático em alguns casos podendo ser aplicados metaforicamente em diversas situações – olha a yoga virando psicologia aplicada). Foi quando ele deu um exemplo: você olha pro lado e vê a pessoa com a perna lá na orelha e fica triste porque a sua nem chega perto. Mas aí você pensa naquela macarronada que só você sabe fazer.
Foi quando concluí que a iyengar é quase uma terapia em grupo: você divide suas dores com o professor, que tem tempo de corrigir todo mundo e ainda busca apoio nos ensinamentos dele.
Isso tudo eu pensei no mesmo dia em que eu vi um sujeito vendendo coelhos no Saara. Eram tão pequeninos que cabiam na palma de sua mão. Eu pensei que era muita sacanagem o cara vender coelhos naquela confusão, que se nós humanos (com coluna boa ou não) já sofremos naquele ambiente imagina um coelho bebê.
Foi nesse mesmo dia que eu concluí que a sala da costura onde as máquinas trabalham é muito mais fresquinha do que a sala onde eu passo a maior parte do tempo. Além disso concluí que cinco técnicos de ar-condicionado foram incapazes de consertar o nosso. Por que mesmo eles são chamados de técnicos? Não sei. Só sei que foi assim.
A função do dia foi fazer o curativo da tatuagem da Charlotte, que a propósito é a minha “par” na confecção mais quente do mundo. A Charlotte parece ser uma das pessoas mais calmas do planeta, já até combinamos de fazer yoga juntas. Foi a Charlotte que me explicou, finalmente, o que é astanga mysore. Astanga Mysore, até quinta-feira, era apenas uma categoria curiosa de ioga para mim. A tabela de horários do Nirvana contém duas observações sobre esta aula: o aluno poderá chegar até 30 minutos do término da prática, que dura o triplo do tempo. A coisa ficou ainda mais estranha quando descobri a segunda obs: de acordo com a tradição, a astanga mysore não será praticada em período de lua cheia. Segundo a Charlotte, a tal da aula de astanga mysore é uma aula “livre” onde o aluno (a essa altura eu diria que o aluno atingiu o status de iógui-jr) pratica a sua própria prática independentemente da turma. Nenhum tipo de astanga deve ser feito ou melhor, praticado em período de lua cheia porque o exercício de iôga astanga já é muito intenso, bem como os períodos de lua cheia, portanto seria um exagero fazer os dois juntos. Ao que parece, yoga também é astrologia (antigamente yoga se escrevia com y e se dizia ióga, como eu não sei mais quem está certo eu escrevo e falo de várias formas).
Um dia desses eu estava esperando pelo começo da minha iyengar e uma aula de mysore ia começar. Notei que o professor estava 10 minutos atrasado e concluí que essa aula só pode ser uma zona: você chega uma hora atrasado e faz o que quer. É a graduação da yoga.
Iyengar, por sua vez, consiste numa prática muito paradona onde as posturas são exploradas minuciosa e demoradamente. É bastante recomendada para nós possuidores de colunas estragadas, bem como iniciantes da prática, pois que nela você aprende a usar seu corpo de forma a não se machucar e a atingir um alongamento intenso. Iyengar é chato pra cacete e dói que nem um cão, mas creio ser a forma mais rápida de aprender anatomia, inclusive a sua própria. Dia desses na aula de Iyengar básico o professor começou a dizer o quanto era importante conhecermos os nossos limites e nos ajustarmos a eles (e creio que as explicações e filosofices dos mestres ultrapassem o caráter didático em alguns casos podendo ser aplicados metaforicamente em diversas situações – olha a yoga virando psicologia aplicada). Foi quando ele deu um exemplo: você olha pro lado e vê a pessoa com a perna lá na orelha e fica triste porque a sua nem chega perto. Mas aí você pensa naquela macarronada que só você sabe fazer.
Foi quando concluí que a iyengar é quase uma terapia em grupo: você divide suas dores com o professor, que tem tempo de corrigir todo mundo e ainda busca apoio nos ensinamentos dele.
Isso tudo eu pensei no mesmo dia em que eu vi um sujeito vendendo coelhos no Saara. Eram tão pequeninos que cabiam na palma de sua mão. Eu pensei que era muita sacanagem o cara vender coelhos naquela confusão, que se nós humanos (com coluna boa ou não) já sofremos naquele ambiente imagina um coelho bebê.
Foi nesse mesmo dia que eu concluí que a sala da costura onde as máquinas trabalham é muito mais fresquinha do que a sala onde eu passo a maior parte do tempo. Além disso concluí que cinco técnicos de ar-condicionado foram incapazes de consertar o nosso. Por que mesmo eles são chamados de técnicos? Não sei. Só sei que foi assim.
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