sábado, março 31, 2007

sem título

Preguiça ou solidão, tédio ou ressaca, por alguma razão resolvi passar o dia enfiada na camisola, olhava as formigas que andavam pelo chão e ouvia uma música quase triste que me lembrou você e enquanto eu tentava resolver se devia me lembrar sorrindo ou te odiando bateu um ventinho e eu cochilei.

Quando levantei já era noite e você tinha deixado um bilhetinho, a música tinha mudado. As formigas continuavam por ali, o cachorro me dava a barriga pra fazer carinho e eu segurava o seu bilhete sem entender muito como é que aquilo tinha ido parar ali.

Sua caligrafia torta, tinta azul, uma folha de caderno mal arrancada, fim do disco e sem querer assassinei duas ou três das formiguinhas que iam e vinham num tropeço como uma bêbada esgueirando-me pela parede.

Quando realmente acordei entendi como era fácil que você pudesse consertar tudo em sonho, o disco já acabara há meia hora, a luz da secretária eletrônica indicava um recado que não era o seu e eu não era uma criminosa.

Preguiça ou solidão, tédio ou ressaca, por alguma razão resolvi passar o dia enfiada na cama, o cachorro guardando a porta do meu quarto, as formigas em seu vai-e-vem habitual e eu ouvia a mesma música quase triste que me lembrou você e entendi que eu só podia fazer isso com uma saudade dilacerante.

:: I wish I was in a suitcase on my way back home to you... The Magic Numbers em Which Way to Happy

quinta-feira, março 29, 2007

T.O.C

duas trufas tradicionais, dois pães-de-queijo simples, duas garrafinhas de água sem gás, duas bolhas em cada pé, duas olheiras que aumentam, dois travesseiros, duas músicas que eu quero compôr, duas pastas de trabalho, duas semanas de shopping, duas ilhas pra conquistar, duas amigas que eu quero perto, duas casas, duas unhas quebradas, dois remédios na mochila, duas ressonâncias, dois pés atrás, dois joelhos cansados, duas lentes insuficientes, um par de elásticos, dois pedaços de fruta, duas chaves, dois telefonemas constantes, duas aulas por semana, um par de livros, dois graus de astigmatismo, será?, duas tintas faltando na impressora, dois passos lentos, dois erros, duas listas enviadas por email, duas vontades: é matar ou morrer.

quinta-feira, março 22, 2007

É uma ave no chão

“O problema não é você, sou eu” é a frase que eu mais tenho desejado ouvir e, clichês à parte, a esperança é a última que morre; é impossível subir escadas rolantes sem olhar para as pessoas que descem na escada ao lado e vice-versa; a capacidade de fazer baliza é inversamente proporcional ao tamanho da vaga; natação é a próxima tentativa e a grande questão é como ficar decente dentro de uma touca; 1/3 da vida dormindo, 1/3 dirigindo e 1/3 tentando; “ ‘não entender’ era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado.” na página 43 eu me apaixonei definitivamente por Clarice Lispector; achar o carro no estacionamento do shopping Leblon é tarefa árdua o bastante pra tirar o bom-humor; o shopping Leblon, por si só cumpre bem esse papel: para ir à administração do shopping você passa, ora veja, pelo estacionamento, não faz sentido algum; a vontade de comer crayons ataca toda vez que os vejo coloridos e enfileirados; para uns, “ralação” está exclusivamente ligada à capacidade que a pessoa tem de carregar sacolas, manequins e afins, bem como de ouvir grosseria o dia todo; ortopedista novo é o suficiente pra você se iludir outra vez só para então constatar que a medicina ainda não achou solução legal pro seu caso e sim, você terá que encarar toda aquela chatice; tylenol é tão tão tão bom que eu desconfio que haja alguma substância anti-depressiva em sua fórmula; o Parque Lage é um dos lugares mais quentes do mundo; lá vem as águas de março e o que me anima mesmo é a promessa de vida; alguém tem que avisar a esses seres de cabelo esquisito que mullets não é cool, é só horrendo; eu sou art-nouveau, dê uma olhada nas figuras do Schiele (e do Klimt) e lá estou eu; eu costumo errar a verificação de palavras que os blogs pedem quando deixo comentários, o que me desanima às vezes; o melhor de Marie Antoinette, o filme, é a trilha sonora e quando você a escuta sem ver o filme ela fica ainda melhor; Marie Antoinette até o começo do mês era apenas a rainha que havia inspirado Sofia Coppola e de repente essa mulher virou uma perseguição; noite de sábado vendo curtas com os amigos e a gente tentando achar uma solução, noite de quarta a caminho do curso com amiga e a gente tentando achar uma solução, noite de terça no bar com amiga e a gente tentando achar alguma solução, quando foi que todo mundo entrou em crise?; parece letra de Belchior e a música fica repetindo na cabeça eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens mas também pode ser aquela do Renato vamos sair mas não temos mais dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego e haverá sempre o otimista insuportável que vai dizer que é um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão e prefiro crer que é um pouco sozinho; é possível abastecer o carro na Zona Sul?; e Wikipedia, é possível viver sem Wikipedia?; havia vida antes de Targus?; e The Magic Numbers, é possível não ouvi-los?; o bom de voltar a estudar é que você pode dar a incrível sorte de ter aula com um cara fabuloso e esse cara pode te abrir os olhos e até mesmo arregalar seus olhos e de repente tudo aquilo que você sabia cai por terra e você tem a oportunidade de pensar tudo de novo e optar por deixar as coisas como estão ou pegar o caminho mais longo e a música dessa vez é Candeia: deixe-me ir, preciso andar.



sexta-feira, março 16, 2007

Shadowboxer

Todo esse tempo foi como um duelo imaginário que eu travei pra dar sentido às coisas que você jamais me explicou. Foi uma luta de forças que eu inventei pra me distrair porque não houve nenhuma resposta à minha simples questão que você ignorou categoricamente. Nisso você caprichou: foi o meu melhor fora não dado, o meu melhor sono perdido e a minha melhor perturbação durante dias a fio. Você foi a melhor desculpa que eu achei pra não me apaixonar de novo por qualquer pessoa e também foi a promessa que eu me auto-impus de jamais me deixar capturar de novo por jogos parecidos com o seu, principalmente o seu. Você foi a melhor pessoa pra decidir tudo por nós dois de forma egoísta e todo esse tempo foi como um exercício de esquecimento, de tentar desesperadamente apagar qualquer resquício que você possa ter deixado. Você foi o maior responsável pela minha decisão tão certa de agir com um mínimo de sanidade e todo esse tempo foi como se a minha saúde mental tivesse sido definida quase que exclusivamente por causa da sua partida e por isso eu nunca fui à sua procura. Você foi a reticência mais longa e arbitrária que me atropelou de surpresa e todo esse tempo foi como um tempo em suspenso em que eu desenvolvi uma máscara protetora capaz de convencer qualquer pessoa de que você tinha sido apenas um acidente de percurso em vez de uma perseguição que me atormentava à ligeira menção do seu nome. Você foi a melhor fuga que eu testemunhei e que eu quis apelidar de tal forma pelo simples pavor de encarar a verdade inalienável de que você, de fato, não presta. Você foi a minha melhor invenção de tantas noites porque você foi a melhor coisa que não se concretizou e portanto tornou-se o mais cativante personagem da minha alucinação particular. Você foi a minha melhor decepção e a que eu mais quis proteger, para a que eu mais procurei subterfúgios e desculpas e por sua causa eu tentei de todas as formas crer que havia um sentido oculto e que você devia estar tão dilacerado quanto eu me sentia e eu precisei desenvolver essa fé dia a dia. Você foi o meu pesadelo mais constante e todo esse tempo que você me deu sem mesmo eu opinar se queria ou não, todo esse tempo que não nos cruzamos uma só vez, todo esse tempo de uma obstinação cega de te expulsar de mim por completo, todo esse tempo de uma sede insaciável que eu tive de te ter de novo, todo esse tempo em que eu queria tanto te encontrar pra que você pudesse ter se transformado em você mesmo mas sem a confusão que até hoje eu não sei exatamente qual foi, todo esse tempo foi você que armou e quis e você foi a perseguição mais insistente da qual eu tentei desesperadamente me libertar e depois de todo esse tempo e de quase, quase mesmo conseguir achar que foi melhor assim e que talvez só pudesse ter sido assim, depois disso tudo, depois de você ter me arruinado completa e totalmente você aparece e em trinta segundos...

:: But oh it's so evil, my love, the way you've no reverence to my concern. So I'll be sure to stay wary of you, love, to save the pain of once my flame and twice my burn. (Fiona Apple na música que dá título ao post.)

domingo, março 11, 2007

Alá meu bom Alá

Borrachas e lápis são os objetos mais duradouros que existem. Pense em quantos desses você já viu chegarem ao fim e verá que lápis e borrachas parecem não acabar nunca. São como as minhas idas ao Saara. A diferença sutil entre esses dois exemplos é que ir ao Saara, concluo, é karma enquanto que borrachas e lápis são apenas intermináveis (eu não me atreveria a elevar a condição desses utensílios a karma).

O Saara entrou mais uma vez em minha vida numa manhã de quarta-feira e eu desconfio que a minha sina, karma, chame do que preferir, é andar pelas ruas estreitas mais cheias da cidade. No verão.

35 metros de acrilon, 2 tubos de hair spray, 12 tintas de tingimento, 2 tubos de cola prego, cerca de 100 metros de fitas de veludo, uns 200 metros de fitas de organza, flores de massa, 40 metros de arame, tesouras de picote, 30 carretéis de linhas para pesponto, tudo isso eu comprei e mais um monte de itens que iam de fita dupla-face a fibra de cabelo para fazer perucas dos tempos de rainhas. Tudo isso porque uma coleguinha, sabendo do meu ócio demasiadamente prolongado, me recrutou para a missão de ajudar na produção da exposição sobre Maria Antonieta, portanto esse tem sido meu trabalho: comprar trecos e coisas que só encontramos no mercado popular ou nas cercanias. Calor e sacolas à parte (e bolhas nos pés, que ficam pretos ao longo do dia), há diversão no fim do túnel.

Meu top 3. Os anúncios da rádio Saara são impagáveis, essa talvez seja a minha melhor distração. As idéias e vozes e slogans que saem das caixas de som são melhores do que qualquer spot de FM feito por estudantes da ESPM. As lojas de cabelo humano. Elas ficam no comecinho da Sete de Setembro e na Praça Tiradentes onde há mocinhas posicionadas pra te oferecer cabelo e mão-de-obra quando você passa. Confesso que fiquei tentada, já me imaginava ruiva com um cabelão liso ou com os cabelos loiros e anelados, as lojas de cabelo são quase tão lúdicas quanto o Carnaval. Por fim, as Igrejas. A da Avenida passos ocupa a primeira posição no meu ranking, seguida de uma bem mais modesta cuja localização exata me escapa. A Igreja da Passos é de uma beleza impressionante enquanto que a menorzinha, também bonita, me ganhou quando li os bilhetes deixados pelos fiéis em um dos altares. Eram muitos bilhetes repletos de erros ortográficos, todos de gente humilde e crente na religião, uma fé latente que chegou a me comover.

Depois de quatro dias de andanças no Saara mais uma missão derretedora me foi dada: tingir veludo. Depois de quatro dias de Saara e cerca de 8 horas no fogão tingindo eu comecei a achar que essa história de trabalho é muito perigosa e agora terei mais cuidado ao querer e pedir coisas em voz alta. Amanhã tem mais, e até quinta-feira deve ser assim. Quando tudo ficar lindo e pronto eu vou esquecer que quase morri de calor e só o que vai ficar vai ser mais uma vez a sensação de dever cumprido e certeza de que estou mais que preparada para o aquecimento global. Quando tudo ficar lindo e pronto eu vou estar tão torta com dor nas costas que vou precisar de um dia inteiro de massagem e mais um dia inteiro de sauna e mais um dia inteiro de natação (ahãm) e mais um dia inteiro de paracetamol na veia. Quando tudo ficar lindo e pronto e eu chegar em casa e concluir que essa loucura vale à pena eu vou pingar 30 gotinhas de tylenol, ligar o ar-condicionado e me conformar com o fato de que o Saara é dessas coisas que não terminam nunca.

terça-feira, março 06, 2007

Sobre ser mãe

Aquecimento global, crimes brutais, falta de bolinhas-de-queijo, previsões alarmistas sobre a falta d’água potável, internet wireless, cinema a dezoito reais, fila no consulado americano pra visto que será provavelmente negado, homens que não ligam no dia seguinte, falta de verba pro cinema nacional, contentamento em sentar-se no Diagonal porque o Jobi vive cheio, trânsito caótico, RH que não liga nunca, roupas na Maria Bonita a preços indecentes, mercado de trabalho saturado, falta de espaço pra exibição de curtas, salários fictícios, spams, falta de grana pra sair de casa, Farminização (da loja Farm, não da Rua GLS), multidão nos blocos de carnaval, perda de fãs no orkut, praia lotada e outros temas fizeram parte de recentes conversas sobre o que nos aflige. Chegamos à conclusão que botar mais gente nesse mundo é um ato insano. Eu já sabia disso e finalmente ganhei adeptos.

Foi no meio de uma conversa com amigas que uma delas afiliou-se à minha causa. Ela queria ter três filhos mas confessou que já pensa em ter um só. Foi mais radical: pensa em adotar o único filho. Do Camboja. Quando este completar 18 anos e quiser conhecer seu país de origem ela lhe dará apenas a passagem de ida.

Desenvolvendo o assunto e pensando que a maternidade pode ser uma experiência incrível concluí que só vale a pena povoar o mundo com filhos se você puder garantir que no futuro ele seja (e se puder ser tudo ao mesmo tempo é ainda mais vantajoso) evangélico, dono de botequim, grafiteiro, economista ou gay. Isso não o impedirá de desmilingüir-se quando no inverno ele enfrentar temperaturas de 35 graus. Ao menos ele será bem-sucedido o suficiente pra sair da casa dos pais, fazer um curso em Paris e comprar uma cadeira Barcelona sem ter de gastar todas as folhas do talão de cheques. Além disso, é menos uma aflição pra nós, que não teremos de nos preocupar com o destino que nosso filho tomará. Vai por mim. Filho gay e evangélico ou adote um cachorro da Suípa.

segunda-feira, março 05, 2007

Sobre como a Globo me fez chorar (por duas semanas seguidas)

Muitos são os dilemas da minha atribulada vida, dentre eles o principal é o eterno confronto entre praia e piscina. A piscina vence quando a preguiça é muita e a praia quando a consciência pesa, donde conclui-se que a segunda opção devia ganhar sempre visto que preguiça em demasia causa dor de consciência. Seria assim, mas depois de tanto tempo de inércia os critérios vão pro brejo e você se apega ao que está mais próximo do seu alcance.

Foi por essa e outras que acabei acompanhando os últimos capítulos da novela do horário nobre. Assistir novela quando ela está com seus dias contados é batata e sendo o autor o Manoel Carlos, pronto, está aí a cena. Sofá, controle na mão e de repente a mãe da Gabi morre tragicamente num incêndio de ônibus, o Renato finalmente fica com a Isabel, a Nanda aparece pros filhos e o Alex consegue a guarda do Francisco. Sim, eu chorei e não foi só uma vez. Sim, senti-me um pouco idiota, bastante até e repensei uma série de conceitos, achei que essa história de chorar em novelas era dramático demais até pra mim, além de ser um bocado cafona. Mas pior do que esse episódio foi outro que ocorrera semana antes e eu deveria ter vergonha, mas diante dos meus dias tão intensos e promissores eu resolvi achar graça: chorei com o paredão do Big Brother. Tem salvação?

quinta-feira, março 01, 2007

a arte de viver da fé

A auto-escola foi pra mim uma evolução de “isso é impossível”. A frase adquiriu motivos diferentes com o passar das aulas, mas esteve presente durante o começo do meu aprendizado. Primeiro era a troca de marchas, depois a baliza e por último subir o Alto da Boa Vista em dia de chuva. Eu acreditava piamente que seria impossível dirigir sem bater em outros veículos ou em postes, árvores e até mesmo atropelar pessoas. Dirigir me parecia uma tarefa árdua que aos poucos foi se revelando tão fácil que o meu julgamento sobre a impossibilidade mudou completamente: era impossível que algumas pessoas dirigissem tão horrivelmente mal.

O mesmo ocorreu com wings. Wings era o passo mais improvável de ser realizado pelas minhas pernas e pés nas aulas de sapateado. Era um fato pra mim que eu quebraria ambos os pés em fratura exposta, no mínimo uma torção que me deixaria dois meses sem pisar. Passadas duas ou três semanas o wings atingiu o status de flap e eu podia faze-lo com as duas pernas e até mesmo em uma perna só. Fazer wings nunca me deu nem calos.

Com o CPE foi bem parecido. Essa é uma das mais difíceis (e inúteis, hoje sei) provas de Cambridge. Do tipo de prova que o sujeito tem de saber a diferença entre glare, glance e gaze além de ter de usar termos como nevertheless e hence em uma carta imaginária formal ao seu vizinho comunicando-lhe as novas leis de segurança predial. Haha, eu pensava. Passei com o conceito C, o mínimo que se deve tirar pra ser aprovado e concluí que o CPE não era tão inatingível assim.

As sessões de RPG também me deixaram incrédula no início. Eu achava impossível que a pessoa deixasse de sentir dores nas costas depois de passar uma hora fazendo 4 ou 5 posturas onde em cada uma dessas você não faz mais do que respirar. Passados seis meses, fui vencida pela técnica quase imóvel e melhorei 70 por cento da coluna.

Com o tempo eu descobri como tantas dessas e outras coisas eram possíveis e no fim das contas o que eu não consegui de fato fazer foi um desenho decente na aula de modelo vivo. E seqüência de frapê de ballet aceitável (se o ballet fosse como o CPE minha nota não seria satisfatória).

A bola da vez é trabalho. Será possível arranjar emprego ou isso é tarefa pra Nijinsky?

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Eu fui às touradas em Madrid

(ou o rei mandou cair dentro da folia)

Eu havia sentado por dois minutos num banco típico de praça que quase não existe mais. Era um daqueles banquinhos de cimento que rodeiam uma mesa onde há um tabuleiro quadriculado desenhado na pedra. A cerca de 50 metros estava o palco e mais um pouco adiante o Bip Bip e tudo naquela rua sem saída parecia ter um toque saudosista. Foi quando uma garotinha vestindo saia jeans e top rosa se aproximou e me perguntou se eu queria um. Eu perguntei se ela vendia, ela disse que não, que se eu quisesse me dava. Ela estendeu sua mão e me deu um saquinho recheado de confete e serpentina. Foi assim que eu conheci Vitória, uma pequena foliã de 7 anos que distribuía alegremente os artefatos de papel a quem quisesse. Em pouco tempo ela se perdeu em meio às pernas dos que dançavam e rapidamente voltou para me entregar mais saquinhos, e também às minhas amigas fanáticas por confete e que competiam pra ver quem acertaria algum galho da árvore com as serpentinas. Havia um concorrente que devia ter a mesma idade de Vitória e percebemos que ele era um novato na arte de jogar serpentina: mirava seus rolinhos de papel, que batiam em duas ou três cabeças próximas e caíam quase inteiros a menos de cinco passos. Foi quando resolvemos incentivar o garoto e lá pelas tantas o menino subiu em cima da mesa, de onde seus arremessos poderiam alcançar distâncias maiores. O Rancho da Flor do Sereno foi assim: marchinhas e crianças convivendo em harmonia, o bloco mais familiar e também o que concentrou a maior quantidade de confete e serpentina.

O Bola Preta, ao contrário, foi uma experiência quase traumática. Se o Rancho concentrou a maior quantidade de papel em forma de artefato carnavalesco e foliões mirins e fofos, o Bola concentrou a maior quantidade de pessoas que eu já vi. Pessoas suadas, devo ressaltar. Pessoas suadas e esmagativas e para ir embora do cordão foi preciso coragem e audácia. Escapar da multidão foi como renascer em meio a um sol escaldante no melhor estilo atravessando o deserto de Saara o sol estava quente e queimou a nossa cara. Uma vez no metrô de volta você conclui que burgueses são os outros e você tem mesmo um pézinho na aristocracia. Bem, alguns concluem isso.

O mais posto-novista dos blocos, por sua vez, foi o responsável pela destruição de parte da minha fantasia (ok, na verdade foi um pitoco desses de rua). A Rocha é apenas isso: um grande Baixo Gávea que segue mais adiante. Ele está ali todo dia na praça esperando por você. Com menos samba talvez, mas certamente bem menos pretensioso.

Já o Boitatá veio acompanhado de café-da-manhã com pão quentinho na casa de amigos e uma revelação: é preciso ter um mínimo de disciplina pra pular carnaval. E também: blocos que não saem muito do lugar são mais divertidos que os que traçam percursos. Pense só: é domingo, são 9 da manhã, o sol começa a fritar as cabeças, não há qualquer lugar decente para fazer xixi, você pula e dança e canta enquanto sente o suor escorrer impiedoso por todas as partes da sua pele (e olha o protetor solar indo embora), você bebe cerveja e também não há lugar próprio para passar mal. A sua sorte é que o Cordão do Boitatá está sobre um palco em vez de sobre um carro de som, o que significa que além disso tudo você não terá que acompanhar o trio elétrico. É nesse momento que você tem a epifania e resolve que bloco bom mesmo é aquele que não anda. Melhor ainda seria se o discurso engajado no começo do baile na praça não tivesse existido. Não me leve a mal, hoje é carnaval e a gente quer marchinhas e não conversa mole para boi dormir.

Outros blocos à parte, eu nem sei bem como acabei gostando de carnaval, só sei que quando bateu a quarta-feira de cinzas e 2007 finalmente deu ares de começo me deu uma tristeza grande, senti o coração apertado e uma lágrima de pierrot querendo escapar.

Findo o Carnaval, não sei o que será pior: esperar pelo próximo ou tirar os confetes do cabelo...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Alegorias e adereços - II

A idéia é de um folião aposentado e assustado com a horda de gente que invadiu os cordões. Além de fundador, ele também será fiscal do bloco mais vanguarda do próximo carnaval. Eu gostei tanto que resolvi ser co-autora da proposta. Precisamos de adeptos. O nome do bloco é auto-explicativo: Se encher acaba.


Volto depois da quarta-feira de cinzas.


terça-feira, fevereiro 13, 2007

Le cinéma - II

"People just have an affair or even entire relationships, they break up and they forget. They move on like they would have changed brand of cereals. I feel I was never able to forget anyone I've been with because each person had their own specific qualities. You can never replace anyone. What is lost is lost. Each relationship when it ends, really damages me. I never fully recover. That's why I'm very careful with getting involved because it hurts too much. Even getting laid, I actually don't do that because I will miss of the person the most mundane things. Like I'm obsessed with little things."

Celine em Antes do Pôr-do-sol.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

girl afraid *

Uma fantasia de colombina consome 7 metros de filó (3 metros de filó roxo, 3 metros de filó lilás e 1 metro de filó preto a 0,99 centavos cada metro), cerca de 5 metros de fita de cetim larga, 2 metros de fita de cetim fina, um ganchinho, mais ou menos 2 metros de elástico, 5 potinhos pequenos de purpurina, uma avó, uma neta, 10 pompons compostos por 30 círculos de filó (sendo 10 círculos roxos, 10 círculos lilás e 10 pretos em cada pompon o equivalente a 300 círculos de filó recortados pela neta) e um mês de trabalho árduo. Até a data de hoje, esse foi o meu maior feito do ano: uma fantasia de colombina. Tudo bem que ninguém sabe do que eu estou vestida. Não importa. Sem contar as roupas de barbie e bonecas, essa é minha primeira incursão no mundo da alta-costura e isso me basta.

Um caderno para a aula de francês constitui-se de folhas brancas sem linhas, capa de papel reciclado e fitinha preta para marcar as páginas. No final do caderno estão os verbos. Os títulos são escritos à caneta (Stabilo) verde; os exemplos e regras à caneta preta de tinta nanquim 0.2 e os exercícios de casa à lapiseira grafite 2B. Fiquei um pouco tensa quando a professora quebrou o padrão cromático escrevendo vocabulários azuis. Os livros de conjugação e exercícios foram comprados essa semana juntamente com um romance clássico nível 1 resumido para estudantes da língua. Dedico cerca de uma hora por dia aos estudos. Me esforço para ser a melhor da classe, mesmo que a aula seja particular.

Uma ida à Travessa do Leblon custa (fora o estacionamento do shopping) cerca de 90 reais e acrescenta 3 livros à mesinha (e futuramente à prateleira). Lavoura Arcaica foi o primeiro, Leminski está quase no fim e Clarice espera sua hora. Um novo Nick Hornby veio juntar-se à turma, que conta ainda com um Vargas Llosa e um Suassuna que é brasileiro e não desiste nunca (esse está na espera há um bom tempo, coitado).

Uma aula de dança depois de dois anos parada te obriga a beber gatorade (a mesma quantidade de tempo sem consumir a bebida), te lembra como seu joelho (e outras partes) ficava roxo, como o collant ficava molhado, como o joanete dói e como essa atividade é completamente anti-anatômica. Te lembra também como essas coisas todas tornam-se detalhes insignificantes pois que no fim da aula você se joga no chão da sala e sorri discretamente.

Em tempos de desemprego, encalhação e êxodo de amigos, são essas as coisas que salvam.

* The Smiths

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

708.

Deu um fim em todas as comidas que tinha em casa. Encarregou-se dos iogurtes e do sorvete que estava pela metade. Deu a carne congelada ao vizinho, que levou também os queijos. Tomou o ônibus pra Gávea onde morava um amigo e juntos tomaram as 5 latas de cerveja que ele ainda tinha. Era janeiro e não pode ligar o ar-condicionado naquela noite e não poderia nas próximas 29 seguintes. Acordou de ressaca e suado, o dedão do pé ensangüentado, a mesinha derrubada, livros e luminária no chão. A bateria do ipod acabou no terceiro dia e ele imediatamente entendeu que esse seria o seu maior contratempo durante os próximos 27 dias. Em pouco tempo a bateria do celular teria o mesmo destino. No quarto dia comprou um relógio antigo. Arranjou uma caixa onde guardou a televisão e colocou o grande relógio no local do aparelho. Assistia as horas como quem contempla o horizonte e pouco a pouco foi tomado inteiramente pela idéia de viver sem eletricidade. Suas mudanças cotidianas atingiram níveis drásticos. Comprou um pequeno isopor onde mantinha garrafas de água. Encaixotou o computador e pôs a caixa na prateleira mais alta onde não havia possibilidade de topadas ou tropeços. Em apenas 6 dias havia chutado móveis a ponto de quase perder a unha do dedão. O vizinho do 709 o acudia sempre que ouvia seus gemidos e tentava persuadi-lo do plano. Idéia mais sem cabimento, ele dizia. Não lhe dava ouvidos. Depois da primeira semana comprou uma máquina de escrever. Queria relatar os pormenores de sua nova rotina. A máquina ocupava agora o lugar que antes fora do computador. Ficava ao lado do relógio antigo. Uma pilha de papel estava sempre à disposição, alguns com resquícios de cera de vela, que por sua vez estavam em toda parte: na mesinha, sobre a geladeira, na pia do banheiro, perto do relógio, junto à janela. O único lugar pra onde não carregava velas era o closet, o que acabou por lhe custar risos dos pedestres que giravam as cabeças para ver melhor aquele sujeito que vestia calças e camisas tantas vezes descombinadas. Virou piada entre os amigos quando estes começaram a receber suas cartas. Eram cartas escritas à máquina, descrições minuciosas de seu novo estilo de vida, detalhes importantes de como fazia a barba, de seus longos banhos de banheira quando lia páginas e páginas dos livros que comprava em sebos, enfim, suas cartas eram como suas confidências, suas descobertas de pequenos prazeres há tanto esquecidos. Passou a beber vinho, que não precisava gelar e seus lençóis e roupas manchavam com a mesma facilidade com que topava os pés na primeira semana. Em três semanas seu ritmo foi mudando: andava a passos vagarosos, quase não via os amigos e movia-se como um pêndulo. Quem entrasse em seu pequeno apartamento veria ali um cenário: a máquina de escrever e o relógio lado a lado, as ceras de velas que cobriam parte dos móveis e davam ao lugar certo ar sinistro, os livros que se empilhavam pelos cantos no chão e ele sentado à beira da cama trajando vestes amassadas. Tinha se transformado num personagem e em cobaia de seu próprio experimento. Ao final de um mês sua mãe fez o que ele tanto adiara: pagou a conta de luz.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

namastê.

Chega ao fim a saga da yoga. Depois de três meses convivendo com o curioso mundo das posturas da cobra, do guerreiro 1, da criança e afins eu me sento (costas não eretas, respiração descompassada e Jane Monheit cantando ao fundo, nada de Mahavir ou qualquer outro dessa laia) para contar que as amarras da matrícula trimestral se partiram. Final e felizmente, é o fim da era de tapetinhos verdes. Depois de cantar o derradeiro mantra me despeço da prática com a plena satisfação de ter tentado ao máximo gostar da coisa. Falhei. Deixo pra trás o Nirvana e volto pro lugar de onde eu nuca devia ter saído. Minha coluna que se dane.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

As bolinhas-de-queijo do meu tempo

As primeiras bolinhas-de-queijo que comi foram provavelmente as de uma festa cujo tema era a She-ra. Talvez antes. De lá pra cá parece que houve uma reviravolta no mundo: as festas não têm mais mesas cheias de brigadeiros e nem o Tio Tom para animar, não têm mais brindes dentro de copos enfeitados e algumas nem comida servem, quiçá bolinhas-de-queijo. As mudanças comportamentais e conceituais de festas eu posso entender e até aprovar afinal, existe música além do Trem da Alegria e drinks além da fanta laranja. Já o sumiço das bolinhas-de-queijo me deixa inconsolável.

Finda a era das festinhas infantis, bolinhas-de-queijo viraram artigo de luxo e bolinhas-de-queijo boas eram quase como achar água no deserto. Foram longos anos sem a convivência com essas pequenas delícias engorduradas, até que a adolescência veio e a W também. A W era uma boate que, se contemporânea, seria prima da Prelude. Eu não tinha ainda tanto escrúpulo assim pra sacar que a W era o ó. Já as bolinhas-de-queijo da W... Eu tolerei noites além do que eu seria capaz e tudo por causa dessa guloseima. Cheguei a ponto de entrar na W, achar um banquinho no segundo andar e gastar toda a minha consumação com elas. O melhor de tudo é que o prato era grande, generoso, eram dois ou três andares de bolinhas-de-queijo e eu as devorava sozinha enquanto meus amigos dançavam e conheciam gente que vivia num mundo bolinha-de-queijo-less. Eu os achava loucos. Eles me achavam um caso perdido. Como tudo o que é bom dura pouco, a W fechou e lá se foram as bolinhas-de-queijo mais deliciosas que já comi.

Anos depois, já refeita do luto, eu descobri que o Manuel e Joaquim fazia bolinhas-de-queijo quase tão boas quanto as da W. Elas vinham em menor quantidade, mas em compensação eu não tinha que aturar música alta e eventuais garotos pós-adolescentes me puxando pelo braço e, ainda, estava livre dos olhares reprovadores dos meus amigos que nunca entenderam o valor de uma boa bolinha-de-queijo. De lá pra cá o impensável aconteceu: o Manuel e Joaquim retirou as bolinhas-de-queijo do seu cardápio. Não houve qualquer satisfação ou comunicação prévia, um belo dia elas simplesmente deixaram de existir. Eu parei de freqüentar o local. Eu não poderia continuar sustentando um botequim excludente de bolinhas-de-queijo boas. Mais uma vez tive de me conformar que teria que viver num mundo sem bolinhas-de-queijo, embora dentro de mim eu ainda me perguntasse até quando isso seria possível.

Eis que o Jobi entrou na minha vida e as bolinhas-de-queijo voltaram. Confesso que as bolinhas do Jobi não são a nona maravilha do mundo (a oitava eram as bolinhas-de-queijo da W), mas num planeta onde a coisa é cada vez mais escassa, as que existem acabam ganhando mais status do que deveriam. É aquele velho ditado: em terra de cego quem tem um olho é rei. O Jobi é como um palácio para mim.

Eu tentei substituir bolinhas-de-queijo por bolinhos de aipim, de bacalhau, filé aperitivo, linguicinha e mais uma série de incontáveis petiscos que encontramos por aí mas o fato é que desde que as bolinhas caíram em desuso que eu nunca mais fui plenamente feliz num bar.

O que eu não consigo entender, meu deus!, é por que diabos o mundo quer se livrar dessa iguaria?

quarta-feira, janeiro 24, 2007

terça-feira, janeiro 23, 2007

Le cinéma

- O que quer ser?
- Diplomata.
- Tem uma fortuna?
- Não.
- Tem relacionamento com alguém famoso ou ilustre?
- Não.
- Esqueça a diplomacia.
- Mas o que posso ser?
- Um curioso.
-Isso não é profissão.
-Ainda não. Viaje, escreva, traduza. Aprenda a viver em todo lugar. Comece agora.

in Jules et Jim.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Essa maravilha de cenário

Sente-se na Pizzaria Guanabara às quatro da manhã de uma terça-feira pós Circo Voador vestida de Branca de Neve. De preferência, esteja acompanhada de um amigo tão ou mais engraçado que você. Chame todos que exclamarem “Branca de Neve!” para sentar-se à mesa também. Confirme quando o seu amigo disser que você é socióloga e que parte da sua pesquisa comportamental consiste em vestir-se de princesas da Disney para estudar as diversas reações de pessoas. Diga que mora na Floresta da Tijuca com os Sete Anões, que ficaram em casa porque têm de acordar cedo no dia seguinte para trabalhar (“Just whistle while you work”, lembram-se?). Diga também que substituiu a saia amarela pela bermuda jeans porque assim é mais prático e que a capa esquentava muito. Saia de lá com a barriga doendo de rir, tome um banho quente antes de dormir e aguarde ansiosamente mais um baile da Orquestra Imperial.

domingo, janeiro 14, 2007

Meu caro amigo:

antes de prosseguir sua leitura neste humilde blógui, marque a sua opção verdadeira.

Sua fé estipula que:

a) Chico Buarque é uma entidade suprema e fenomenal de quem não se pode falar um ai sequer e ele figura na minha top 5 list de pessoas com quem eu sonho em ficar presa no elevador;
b) Chico Buarque tem seu valor, é um grande letrista mas creio que o cara acorda com remelas nos olhos e é passível de ter chulé e além do mais ficar presa no elevador com o Johnny Depp deve ser bem mais interessante.

Se você marcou a opção "a" por favor saia deste blógui imediatamente e não olhe para trás.

Eu sou fã confessa do dono dos olhos de ardósia. Muitas de suas canções têm lugar assegurado no meu cd imaginário contenedor das melhores músicas do mundo. Fico embasbacada com algumas de suas composições e em ver como elas resistem ao tempo. Gosto também do Chico intérprete, embora eu ache que Construção foi feita pra ser cantada pelo Ney e Atrás da Porta pela Elis. Reconheço o charme do moço e ainda mais seu carisma. Acho que Chico roubou todas as cenas de Vinícius, o filme.

Mas no palco ele apenas não funcionou para mim. O intérprete ficou morno, o repertório atual não me emociona e o antigo me soa melhor em cd ou na Casa da Matriz com espaço pra (tentar) sambar e abrir os braços que nem nossos pais fazem quando dançam.

Talvez porque o Chico tenha virado uma entidade eu esperasse dele um show arrebatador.

Sem mais delongas, respiro fundo e afirmo sem medo de ser jurada de morte: fui ao show do Chico Buarque, não gostei e fiquei triste.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Mas não leve isso tudo tão a sério

Você não pode ligar pra ele no dia seguinte porque isso parece desespero, aliás você não pode ligar pra ele porque isso quem deve fazer é o homem.

Você também não pode achar que ele vai ligar no dia seguinte, você não pode contar com isso gera expectativas e você aprendeu desde cedo que não se deve esperar nada de ninguém, assim evita se decepcionar. Mas tome cuidado pra não demonstrar indiferença porque isso pode botar tudo a perder, você deve saber disfarçar na dose certa senão ele acaba te achando independente demais e some. Mas também não fique achando que ele vai sumir de primeira porque pensamento negativo atrai e essa coisa de esperar logo o pior porque o que vier é lucro é tão teórica quanto ineficaz pois numa dessas você deixa de fazer as coisas por medo. Ok, também não se convença você que o telefone vai tocar dentro de três ou quatro dias e se passado esse prazo o rapaz ainda não tiver telefonado nem pense em se adiantar e cumprir a missão, em hipótese alguma você deve telefonar, nem se o motivo for um velório e se o cara não ligar não derrame uma lágrima e nem ache ruim, ficar triste por causa de homem babaca (porque o homem que não liga alcança imediatamente esse status) é o fim e você deve subir no salto e dar a volta por cima, fazer uma hidratação de queratina, pintar as unhas de rubi, trata-lo com educação se esbarrar com ele por aí, enfim, mostrar que é superior. Caso ele ligue, você não pode se mostrar muito disponível porque assim o cara perde o interesse logo. É necessário um charminho, mas não caia no exagero. Você também não pode estar sempre ocupada porque aí ele desiste mesmo, se sente desprezado, acha que você está esnobando e nunca mais dá as caras.

Você não pode sair muito arrumada no segundo encontro porque ele vai achar que você quis impressionar e se você quis impressionar é porque está amarradona e essa é a última coisa que você quer que ele descubra. Você não pode ser muito fofa e meiga porque aí ele vai achar que você é carente. Você também não pode ser muito fria e distante. Ao mesmo tempo não deve ser muito eufórica, você tem que achar aquele meio termo que vai faze-lo ficar na dúvida, o que gera uma grande possibilidade de um terceiro encontro, quando acaba o mistério eles perdem a curiosidade e aí murcha mesmo.

Você não pode dar de primeira e nem de segunda, na verdade meu bem, você não pode dar nunca porque essa é sua passagem de volta pra casa. Você também não pode não dar porque eles se cansam e procuram outra mais fácil. Você não pode ter um relacionamento puramente carnal porque estaria se desvalorizando e poderia parecer meio piranha, mas você também não pode fazer planos de relacionamentos sérios porque o sujeito se sentiria pressionado. Você também não pode ser a eterna ficante, mas não deve achar que vai ser logo namorada.

Você não pode fazer cobranças porque os moços sempre fogem de compromissos, não pode carregar na maquiagem sob risco de parecer perua, você não pode demonstrar toda a sua sofisticação sob pena de assustar o cara, você não pode busca-lo em casa pra não parecer feminista, você não pode aceitar carona sempre pra não parecer submissa, você não pode usar batom porque homem não gosta, você não pode demonstrar ciúme, você não pode reclamar do futebol, você não pode agir impulsivamente, você não pode querer ser emancipada e nem Amélia, nem oito e nem oitenta e só o que você pode é ter muita, muuuuuuuita preguiça dessas regras antiquadas e chatas demais, pode bocejar e inventar uma brincadeira nova.

E quem é que vai saber jogar?