domingo, março 31, 2013

Desvairadamente


quando tem o seu cheiro
dentro de um livro
Dentro da Noite Veloz.

Adriana Calcanhotto em Vambora

 

“Pela passagem de uma grande dor”, página 36: é o quarto conto de Morangos mofados, reeditado há 8 anos atrás. Meu exemplar já guarda certo cheiro de tempo.

Li Morangos dia 15 de novembro. Em dezembro uma amiga leu o meu livro: eu pedi que ela escrevesse seu nome e a data na folha de rosto, debaixo da minha própria marca. Acho lindo livro de biblioteca, daqueles que contém cartões datilografados por máquina de escrever, onde se listam os usuários e empréstimos. Daqueles que não existem mais. Eu achava que o meu Morangos podia tentar ser antigo. Em julho de 2007 foi a vez da Carol deixar sua assinatura.

10 páginas antes, e que é a segunda de “Os sobreviventes”, há 14 linhas sublinhadas a lápis: é o recorde de intervenções. Talvez eu ainda respondesse que este é o meu conto preferido da vida. O que pode ser falso. O que pode ser verdadeiro. O que eu posso nunca saber. Mas quando penso num momento fundador da minha trajetória de leitora, é para estas páginas que eu volto.

Eu estava apaixonada por um sujeito que era apaixonado por Caio. Isso interfere? Ambos se foram. O amor ficou. Os amores, todos.

A edição traz, nas páginas finais, uma carta de 22 de dezembro de 1979, endereçada a Zézim. Outro dia, à saída da aula, Beatriz e eu concordamos que é a mais bonita de Caio. Ela está, também, na coletânea de cartas, um volume que roubei da biblioteca de uma amiga em 2010, e cuja falta ela nunca sentiu. Heresia: a indiferença, não o furto.

Pouco antes da conclusão com Beatriz, Rodrigo dizia da sua experiência em ler o livro seguindo as orientações sonoras de Caio. “Pela passagem” pede Satie. “Os sobreviventes”, Angela Ro Ro. Jacques Loussier Trio executando as Gymnopédies é Satie o suficiente? Ou seria melhor o Nelson Freire? É a mesma coisa? E especificamente: qual música da Ro Ro?

Complicado fazer duas coisas ao mesmo tempo, e o meu livro me causa espirros. E uma saudade, do tipo que rasga: há 8 anos atrás, no café de uma livraria, conta paga, cadeiras arrastadas para trás: ele tirou do bolso uma flor, dessas roubadas de um canteiro na esquina. Murcha e despetalada, foi a primeira de uma série.

Na parte interna da contracapa de Morangos mofados anotei o telefone de alguém. Semana passada apaguei o número dele do meu celular.

Nem sei se a Carol gostou do Caio. Provavelmente não tanto quanto eu. 

2005 foi um ano bom.


 

quinta-feira, março 28, 2013

Huis Clos

Diante da perda da Clô Orozco, minha estilista brasileira preferida, ressuscitei o Meu paletó para um pequeno texto. Meio bobo, meio triste, uma breve homenagem. Aqui.



segunda-feira, março 25, 2013

Quem mexeu no meu pavê



A piada é óbvia, clichê e manjada, mas inevitável em se tratando de uma pequena ode a doces: madeleines não me fariam escrever sequer 7 linhas, quanto mais o grande romance da modernidade. Não que eu tenha pretensões. O que eu queria mesmo era engordar, e no meu cânone alimentício não há espaços para delícias proustianas. Meu elenco seria feito de uma torta-mousse inesquecível, exageradamente consumida entre os anos de 1996 e 1998. Ou um pouco antes, ou um pouco depois.

Do que me lembro dela: o preço exorbitante de R$ 5,00 por fatia obrigava-nos a dividir uma, a minha melhor amiga e eu. Com o mesmo valor, naquele tempo, comprava-se uma oferta inteira do Mcdonalds por pessoa, um festival de açúcar e gordura trans individual, pra agora ou pra viagem. A torta-mousse era bicolor, composta de chocolates preto e branco, e ainda carregava outro binarismo, porque era uma mistura de bolo com camadas mais pastosas. Era recoberta por raspas de chocolate que se volteavam nas extremidades, e sempre pedíamos “uma raspinha a mais”. Sentávamos na mesa redonda e pequenina que imitava mármore. Talvez fosse de mármore. Não sei se é possível descrever sabores, e talvez muito menos o deleite que aquilo proporcionava. As sextas-feiras eram feitas daquele momento, as quintas-feiras eram esperas e os sábados suspiros, nunca literatura.

A sentença se materializou em faixas vermelhas na vitrine: queima total. Godiva-less. Detalhes da despedida se ofuscaram nas minhas lembranças, ensombrecidos pelo luto do qual nunca me refiz completamente. A derradeira fatia da torta-mousse: diria que choramos, o que daria uma ficção overdramática. Comemos, este é o fato. E nos apegamos como pudemos ao pavê de chocolate branco do Amor aos Pedaços.

É claro que não foi do dia pra noite, pois essas transições levam tempo. Fizemos o jejum necessário para que o novo vício se consolidasse. O pavê do Amor aos Pedaços oferecia algumas poucas vantagens em relação à defunta: era possível escolher o tamanho, logo era mais fácil controlar as despesas. Era possível também pedir a tal raspinha, que muitas vezes era acrescentada depois da atendente já ter pesado o doce. E havia mais lojas do Amor aos Pedaços pela cidade, e portanto não éramos mais reféns da expansão do Barra Shopping. Não que nos aventurássemos para o desconhecido, mas havia um alento geográfico na nossa gula.

Não foi apenas a (minha) mudança de colégio que interrompeu as sextas-feiras glicêmicas com a minha melhor amiga. Por uma série de fatores, nebulosos como o último pedaço da torta-mousse da Godiva, comer o pavê de chocolate branco do Amor aos Pedaços deixou de ser um programa, e com o tempo, a idade, os hábitos, etc. deixou de ser algo que eu me lembrasse de fazer. Brigadeiros começaram a parecer a opção mais fácil, e tudo na vida passou a ter esse tipo de funcionamento: mais fácil.

“Tente a torta alemã”, alegaram alguns, em momentos em que confessei meu passado de Amor e Godiva. Tolos. A torta alemã, vulgarizada e massificada, exposta nas mais duvidosas vitrines de padarias e biroscas, jamais teria efeito semelhante ao que os antecessores provocavam. De certa forma, continuei fiel ao pavê de chocolate branco, frequentando mais shows do que gostaria no Canecão, apenas para degustar a iguaria na loja do Shopping Rio Sul. Vezes mesmo houve em que fui ao tal shopping apenas para isso: um pedaço de doce. 

Qual então, foi minha surpresa (e minha conclusão) quando, numa terça-feira, disposta a faltar aula e não jantar para ir até Botafogo, estacionar o carro e apontar pra vitrine onde estariam, lado a lado, o pavê de chocolate branco e o preto, entre merengues, tortas, bolos e afins e declarar: quero inteiro, como outras vezes fiz, a fim de presentear os amigos do trabalho, da universidade e quem mais tivesse estômago, insulina e créditos com a balança; qual foi minha surpresa quando descobri que não existe mais Amor aos Pedaços no Rio de Janeiro. O pavê de chocolate branco mais próximo custa, agora, o preço da ponte aérea mais o táxi de Congonhas até o Itaim.

Neste desfecho desolador, a certeza: toda a trajetória gulosêimica é como aquela das bolinhas-de-queijo: uma luta injusta contra o mundo. 



domingo, março 17, 2013

Efeméride - vol. 2


Queria estar onde ele está, e o único âmbito em que me consta que nos encontraríamos é o passado, o não ser e no entanto ter sido. Se fosse passado, pelo menos eu me igualaria a ele nisso, já é alguma coisa, e não estaria na situação de sentir sua falta nem de me lembrar dele. Estaria em seu mesmo nível nesse aspecto, ou em sua dimensão, ou em seu tempo, e já não permaneceria neste mundo precário que vai tirando nossos costumes. Nada mais se tira de nós se nos tiram de cena. Nada mais se acaba para nós se alguém já acabou.

Javier MARÍAS. Os enamoramentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, março 15, 2013

Efeméride

“Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”
José GIL. Movimento total. O corpo e a dança. Lisboa: Relógio d`Água, 2001.

Filha, anote meu telefone. Eu sou espírita e tenho uma coisa pra você. Foi o que disse, ipsis literis, a senhora que emparelhou ao meu lado, em Botafogo, a caminho da volta às aulas. O ceticismo decide que é golpe, mas a vontade acelera um pouco a cadência do peito. Perco a mulher de vista. Na Casa da Empada um temporal se arma, e entre Deleuze, Artaud e Pina um planeta retrógrado indica que é um tempo favorável para releituras – foi o professor que disse, rindo encabulado por resolver acreditar em astrologia. Duas semanas depois, Deleuze guarda os seus ecos, sua voz, e eu não encontro estômago pra estudar.

Perto da impressora do trabalho, depois de uma reunião cujo tema era Clarice, encontro uma barata morta. “Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu” – está lá, na primeira página da Paixão segundo G.H. Se isso é coincidência demais?

E não é coincidência também que, depois de ouvir “Space oddity” pela centésima vez, só ontem eu tenha me dado conta de que o Major Tom morre no fim da música? Achei tristíssimo.  Chorei potes.

As pessoas morrem. E chega o dia que faz um ano que elas morreram.



quarta-feira, fevereiro 20, 2013

O novo porteiro da noite - vol. 2


Data de agosto meu último relato sobre o novo porteiro da noite, e a proximidade do fim do mês de fevereiro por si só já pauta o assunto evidente: a nova safra de férias escolares e o meu reencontro com tal funcionário noturno, numa temporada estendida que atende pelo nome de verão. Confesso, tenho encontrado mais os porteiros diurnos, porque minha popularidade despenca, a temperatura se eleva e hay que boiar no mar, que até ali pelo posto 12 anda com cores que mais parecem artificiais, e ainda que band-aids, embalagens de iogurte e afins continuem lutando por um pedaço de onda, já dá pra chamar de paraíso aquela faixa marinha. Numa próxima vida eu quero saber pegar jacaré, tomar eventuais caldos, me virar pra segurar as partes dos biquínis enquanto os cabelos se enchem de areia. 

Deve ser desejo dos porteiros diurnos também, derretidos pela portaria abafada e pela ineficácia do ventilador. Notei que mudaram até a cadeira, dispensando almofadas e estofados por um reles modelo de plástico, mais fresco, menos grudante e tais condições climáticas e mobiliárias só reforçam a insistência do novo porteiro da noite em permanecer acordado. Pudera. 

Portanto lá estava ele: na primeira noite de férias em dezembro, abrindo a porta do carro quando cheguei do trabalho carregada dos livros que o patrão não queria mais, me ajudando com as sacolas, sentindo meu bafo de chá depois de uma noite agradável na minha livraria preferida. Também não falhou quando, dias depois, cheguei ao prédio de madrugada, depois de um vôo latino e de dias que me deixaram subnutrida, quatro quilos a menos para carregar as malas, que ele prontamente tirou do taxi e alocou no elevador. O novo porteiro da noite testemunhou a minha chegada da festa de réveillon, sóbria como nunca, depois de uma overdose de água de coco. Testemunhou, ainda, os momentos em que mais valorizo a minha solidão: a cantoria que faço no carro, o meu show particular pra mim mesma, uma performance que envolve pulmões, mãos, braços e, sobretudo, a certeza de que ninguém me escuta. Até que veio ele, sempre: o novo e eficaz porteiro da noite. 

Comecei a ficar incomodada com a mania do novo porteiro da noite de se antecipar à minha chegada no terceiro pavimento da garagem: toda vez que eu estacionava o carro, lá estava ele, posicionado para abrir a porta. Começou a bater um constrangimento, e uma irritação pela interrupção que o cavalheirismo do novo porteiro da noite causava. Pense bem: são 11 da noite, o Caetano ainda nem chegou no refrão de “Eclipse oculto” e você tem que desligar sua música, sua voz e descer do automóvel. Em outros prédios onde morei ou dormi, e que eram desprovidos de porteiros da noite, eu era capaz de esperar o disco todo acabar pra subir pra casa. Música tem dessas coisas: às vezes é preciso ouvir o grito final, o suspiro derradeiro, os acordes últimos pra ela fazer sentido. Pra sua vida, naquele momento, fazer sentido. Eu andava super tropicalista, e fiquei realmente puta quando, numa quinta-feira, o porteiro abriu minha porta e a Gal ainda nem tinha se descabelado e afirmado que era o amor da cabeça aos pés. Mais furiosa ainda foi quando, no auge de “Back to Bahia”, eu já quicando no banco, o porteiro se postou ao meu lado e ficou olhando pra minha cara com aquele sorriso permanente que ele tem. Foi quando me dei conta de que o novo porteiro da noite era meio parecido com o Russell Crowe. 

Então passei a me programar pra chegar em casa só no momento que eu julgava propício, musicalmente falando. Eu fazia hora na esquina, diminuía radicalmente a velocidade ou dava uma volta no quarteirão antes de entrar na garagem. Não deu tão certo, porque às vezes a música terminava antes do tempo. A magia da cantoria automotiva ficou seriamente comprometida com as gentilezas do porteiro da noite, a quem eu, obviamente, passei a detestar. Depois de quase dois meses de férias, saindo para jantar, para dançar (cof cof) e/ou para tantos outros compromissos sociais da minha badalada vida, acertei o timing e reconquistei o prazer de deixar o carro no G3. 

Aí veio o Oscar, eu fui assistir Les Misérables num domingo, e na sexta-feira a Anne Hathaway continuava cantando na minha cabeça. Meu carro virou um silêncio até eu comprar a trilha sonora do filme. Tomada pelo desespero de Fantine, engasgada da emoção dos tempos pré-Revolução Francesa e descabelada pelo fim inesperado do antifrizz e da volta às aulas de ballet, chorei copiosamente na primeira execução da canção no meu Volkswagen. O porteiro da noite, a partir de então apelidado Javert, pela semelhança já citada com o ator, e pela falta de sensibilidade, estava com aquele sorriso, dessa vez ligeiramente mais esgarçado, segurando a porta aberta, enquanto eu chorava lágrimas sinceras e cantava, sem acertar nenhuma nota, a música belíssima e cortante da personagem de Anne Hathaway. 

Por sorte março já se aproxima, assim como uma monografia e uma promoção no trabalho que sinalizam que só volto a encontrar o porteiro da noite em setembro, quando as férias de verdade chegarão. Até lá, espero, a Anne Hathaway terá lentamente se dissipado e terei recuperado as rédeas do meu espetáculo. Ainda assim, já penso em tentar o Mestrado.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

dispensa


"Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?"
Alejandra Pizarnik via Alexandra Lucas Coelho, no livro e a noite roda (Tinta da China, 2012).


Na minha mesa agora habita um cardápio do Lamas. Uma pasta de cardápio do Lamas.  A pasta de cardápio do Lamas, há poucos meses, abrigou um mapa de Paraty, tickets para mesas de debate, cartões de restaurantes. Agora vazia. Agora um intervalo.

Não quero falar como se você tivesse morrido. Mas é que quando nos arrancam coisas é assim mesmo que ficamos: sem coisas, porque tomadas.

Nunca me puxaram o tapete, mas a sensação que tenho é essa, a de estar com o nariz colado ao chão, a cara tão próxima da madeira que mesmo uma aspiração tímida vai fazer entrar em mim poeiras repousadas durante anos. Não quero me entupir disso, não disso. Não quero mais encontrar buracos: nas roupas assaltadas, nas baias desocupadas, na minha barriga instável, nas brigas silenciosas, nos suicídios repentinos, no primeiro ano sem ele que se completa, e nunca tão real o para sempre como agora. Um para sempre sinônimo de nunca mais.

Falam de agostos. Caio se escondia deles. Não sabem dos janeiros.


domingo, janeiro 20, 2013


Sartre disse bem: “Por que se leem romances? Falta alguma coisa na vida da pessoa que lê, e é isso que ela procura no livro. O sentido, evidentemente, é o sentido de sua vida, dessa vida que para todo mundo é torta, mal vivida, explorada, alienada, enganada, mistificada, mas acerca da qual, ao mesmo tempo, aquele que a vive sabe muito bem que poderia ser outra coisa.”

Ricardo Piglia, O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. (trad. Heloisa Jahn)

quarta-feira, janeiro 09, 2013

2 links

O ano começa bem, com a descoberta de um blogue amável (Alexandra Lucas Coelho, aqui) e o tumblr das pessoas mais divertidas que conheci em 2011, neste outro aqui.

sábado, dezembro 22, 2012

ho ho ho

 A tirinha veio daqui.

Um bom fim de ano a todos, obrigada pela audiência e até logo!


terça-feira, dezembro 18, 2012

retrospectiva 2012


Envoi

O tempo, que a tudo distorce,
às vezes alisa, conserta,
e a golpes cegos acerta:

em seu tosco código Morse
de instantes sem rumo e roteiro
então dá forma a algo de inteiro.

Não um verso, que em folha esquiva
a gente retoca e remenda
até ser coisa que se entenda,

mas algo que na carne viva
se esboça, se inscreve
bem mais a fundo, ainda que breve –

pois todo poema é murmúrio
frente ao amor e sua fúria. 

Paulo Henriques Britto, Formas do nada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.  

E se alguém objetar que não vale à pena tanto esforço, citarei Cioran: "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. 'Para que lhe servirá?', pergutaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer.'"

Italo Calvino, Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Danço eu, dança você


Ficou tudo muito complicado pra mim esse ano: perdi os 2 shows da Baby, não frequentei o Arpex, não fui a nenhum comício político, não vi o Stevie Wonder ao vivo e não me empolguei com a ideia da Praça São Salvador como local de socialização, mesmo porque lá estão todas as pessoas que certamente me achariam boçal, visto que moro no Leblon e sou proprietária de um veículo automotivo. Pra piorar, não acho tanta graça assim no Fábio Porchat, não postei nenhum almoço no instagram e outro dia, ao rapidamente conhecer a dupla que lançou a moda das plaquinhas “respeite: um carro a menos”, sugeri que eles deviam lançar uma campanha pelo uso de capacete dos usuários de magrelas. Ficaram desarmados com meu mau humor.

Senti a exclusão na pele: os convites para chopes foram ficando cada vez mais escassos, a praia cada vez mais solitária, as idas à livraria cada vez mais diárias. Não é fácil ser equivocada nessa vida, e numa tentativa desesperada de integração, comprei um smartphone. Julguei que tal ato fosse me colocar no centro da pós-modernidade onde todo mundo usa whatsapp, twitter da Lei Seca e fotos mirabolantes de seus pés, pugs e plantas. Eu, que ainda vivo na era dos poodles, achei que bastava um pacote de dados para me atualizar.

Os primeiros sinais de infelicidade pós-smartphone vieram no mesmo dia que saí com ele na bolsa pela primeira vez: não pude me comunicar com ninguém por incapacidade de teclar. As poucas palavras que acertei foram prontamente corrigidas pelo aparelho, e rapidamente “lindona” (a nova cadeira da minha irmã), virou “linfoma”, o apelido da Julia – “xará” – virou “cara” e eu nem pude atualizar meu status do facebook com um versinho porque o meu Samsung jamais entenderia minha poesia. Às 3 da tarde a bateria já dava sinais de falência e eu resolvi comprar um relógio. No dia seguinte, depois de uma noite na tomada, o alarme, batizado de “todo dia” (no smartphone você pode nomear seus alarmes, veja só), não tocou, eu perdi a hora e às 10h15 estava no camelô que me vendera o relógio de pulso, dessa vez procurando por um de mesa, daqueles cuja pecinha você levanta antes de dormir e abaixa quando se põe de pé. Salve a tradição.

Os segundos sinais de que algo não ia bem vieram na praia de sábado, quando o celular transformou-se num espelho: não se via nada na tela além do meu rosto refletido. Eu fazia sombra com as mãos, colocava o aparelho e a minha cabeça dentro da bolsa e nada, não se enxergava nada. Eu queria telefonar pra Bruna pra avisar que estava ali em frente à JL, que o mar parecia um presente, mas nada parecia possível e só um milagre nos reuniria naquela manhã de sol. Fui pra casa e liguei o ar-condicionado no máximo, mandei 3 mensagens pra ver se descolava companhia pra jantar, mas acabei comendo uma salada do Gula-gula em frente à tv, desejando que Elaine e George fossem reais, porque nem as séries certas eu assisti esse ano.

Veio domingo e uma chuva de espantar os habituais bailarinos, digo, skatistas da orla, e calcei os tênis para sair à caça de uma bici. Na terceira estação havia algumas disponíveis, e um crowd de gente na disputa. Perdi qualquer chance quando, depois de discar o número praticamente debaixo de um carro que me dava sombra suficiente pra enxergar a tela, a mocinha eletrônica disse “digite o número da estação” e não havia teclado disponível. Derrotada, me arrastei pra fora do carro, me levantei com dificuldade e fui me consolar comendo waffles na Argumento: eu estava ficando patética e gorda, e a possibilidade de fazer amigos no Vigilantes do Peso me deu ânimo. Quem dera. Depois de 15 minutos esperando uma mesa, tomei o caminho de casa, rumei ladeira acima e postei uma foto da capa de um livro no instagram.

Faz 2 dias que choro sem parar pensando no meu velho Nokia, na minha velha vida, naqueles dias românticos pré-3G em que eu conseguia falar com as pessoas. Meu único consolo tem sido a faixa 3 do novo cd do Caetano, uma tão miserável quanto a minha conversão à tecnologia e que diz: “estou triste tão triste / e o lugar mais frio do Rio / é o meu quarto.”

segunda-feira, novembro 05, 2012

Meus subúrbios


Tem essa tosse que vem de tempos em tempos. Explode junto com uma mancha rosada na bochecha. Todas as soluções disponíveis, das sementes ao silêncio, não vão resolver: a tosse é a tentativa de expulsão, ainda que você não esteja mais aqui. A mancha na bochecha, dizem, não tem cura. Como se alguma coisa tivesse. 

É lindo como os portugueses não usam gerúndio e precisam do infinitivo do verbo.  Outro dia, em aula, alguém disse: o infinito do verbo. Não só o texto, mas a palavra também: descosturada, a esfiapar: sem ponto de chegada. 

Tem essa tosse que me deixa sem voz, e ainda que eu quisesse conversar com alguém. Sem fala,  sem o seu barulho e sem o seu me enxergar: passo em branco, eventualmente acordo a chorar, como é que te deixei morrer assim? 

Implosão sobre travesseiros, saudade entranhada, lembranças que não desgrudam, e essa tosse a insistir na impossibilidade. Você, infinito: a única coisa que eu sei.


sexta-feira, outubro 26, 2012

Lanterna dos afogados - capítulo VII


Foi uma professora de dança que descobriu: escoliose. Havia uma escápula muito mais pontuda que a outra, um lado das costas mais alto. Uma perna era mais en dehors que a outra, um braço girava mais pra trás que o outro. Minha sequência de piqués era melhor pra um lado do que pro outro. Observando bem, meu olho direito é mais escuro que o esquerdo, e tenho mais cabelos brancos de um lado da cabeça, além de mais pintas e sardas numa das bochechas que na outra. O novo paradigma poderia até mesmo justificar escolhas afetivas, gosto musical, ideologia política. Posição pra dormir, certamente. Não demorou muito até a escoliose começar a dar problemas. 

Um belo dia, a fisioterapeuta decretou, e lá fui eu. E quando, meses atrás, decidi largar a natação, por tantos motivos mais que autoexplicativos, dei de cara, na seção de quadrinhos da Travessa, com um livro que era minha biografia. Um fisioterapeuta dá um ultimato a seu paciente, que passa a encarar o mundo das piscinas. Desavisado, ele começa a nadar sem óculos. Despreparado, atropela gente na água, morre de falta de ar e usa as bordas da piscina para sobreviver. 

É tudo tão lindo no livro, e tudo começava a se enferrujar em mim. Senti que eu estava encolhendo e percebi que, em todas as idas à praia (e foram muitas, porque tive férias e sol), me atirava no mar com muita urgência, e que até os banhos ficaram mais demorados. Morri de saudades da água sem nem saber que isso era possível. 

 Munida de um novo maiô, consciente de que minha pele e meus cabelos voltariam a ficar opacos, mas ao mesmo tempo esperançosa de que poderia pegar meu sobrinho no colo outra vez, voltei, e tudo parecia mais aprazível desta vez, a começar pelo horário da noite. Terrível engano. A natação noturna logo mostrou sua verdadeira face, e quando me dei conta a atividade tinha virado uma piscina cheia de gente conhecida. 

Começou por M., que um dia apareceu exclamando “Julieta!” e desde então R., o odioso professor de natação se achou no direito de socializar também, ainda mais depois que encontrei S. Eis que R., que por semanas me chamou de Juliana (e eu não podia argumentar, porque durante 2 meses eu pensei que ele se chamava Eduardo), perguntou se eu trabalhava com produção. Quando respondi que era editora (tem sido minha resposta preferida nos últimos tempos, e desconfio de que tenho respondido “editora” mesmo quando me dão bom dia), ele pareceu felicíssimo por poder dizer “então você deve conhecer Z., que é editora também, ela nada aqui!”. Z. é alguém da alta hierarquia de uma editora que fica a uma quadra da natação. Além dela, S., designer de jóias, M., diretor de fotografia, Fulano, do Bangalafumenga, e, pasmem, Paulão/Carlão (!) que trabalha com produção sei lá onde. De repente concluí que eu nadava nas águas mais fucking cool da cidade. 

Seria fácil se esse fosse o único defeito de R. (falar). 

Há uma ou duas semanas atrás, quando encontrei M. numa festinha, aproveitei pra desabafar e perguntei se ele não concordava que o R. era um bunda. Foi preciso argumentar: R. passou semanas me chamando pelo nome errado; começa a aula atrasado; é meio grosso; é preguiçoso e não tem criatividade; só me manda nadar crawl. Eu que achava que a natação já era uma definição de chatice, e que portanto não tinha como piorar, vi que tudo se supera: não dá pra ser feliz nadando uma coisa só a aula inteira. A escoliose, porém, pôs fim à discussão: quando ela aperta, o ombro cai pra frente e o elevador da escápula logo se contrai – “você precisa nadar costas”, disse a fisioterapeuta, e repeti a fórmula para R. A essa altura, M. já estava convencido: passei a nadar só costas e R. é um bunda.

Talvez R. não seja o único culpado pelo bode de nadar à noite. Falta a música da hidroginástica ao lado (nesse horário não tem mais aula), falta democracia na faixa etária dos alunos. De repente me vi nadando sempre em meio a 3 homens de barba, sem nenhum sexagenário pra me consolar, ou sem a iminência do xixi e dos brinquedinhos da turminha infantil. Pra piorar, quando estou nas séries finais (embora a aula não pareça ter começo, meio e fim, vide que nado a mesma modalidade o tempo todo), um sujeito começa a estender sobre a água uma capa de proteção. É muita solidão. Quando chego em casa posso imaginar o silêncio. Água não foi feita pra ficar parada. Talvez seja isso que R. não tenha entendido, e por isso se agarra ao marasmo da mesmice. É triste. 

Eu tinha decidido voltar a dançar. Mas nós, portadores de escoliose, não temos livre arbítrio. Tentei caminhada e corrida, e foi um desastre lombar. Comprei o passe para as bicis, que simplesmente desaparecem das baias nos fins de semana. Quando a homeopata me pesou na quarta-feira e calculou 4 quilos a mais, o desespero de encontrar outra atividade me fez entrar no site da Bodytech, mas logo recobrei o juízo (ou parte dele). Agora que eu já me acostumei a encontrar gente de touca, decidi: aumentei a natação para 4 vezes por semana. 




segunda-feira, outubro 01, 2012

Paraty para malogrados

Tenho uma pilha de trabalhos acadêmicos pra fazer, um amor pra conquistar e a Carol ainda me pede que eu atualize o blog. Então recorro a uma canastrice das piores, e deixo aqui as minhas anotações pós-Flip pela metade, além de uma dedicatória (for dummies) enquanto um novo texto não vem. (Gustavo, por favor, não me abandone.)



1. Da alimentação

Cada 3 quadradinhos de Passatempo recheado contem 140 calorias. Multiplique esse valor pelo equivalente a 2 pacotes e teremos o total de calorias ingeridas em substituição a 2 almoços que nunca chegaram. Comer em Paraty é um desafio peloqual eu havia passado em 2008, e de lá pra cá já era possível ter havido uma intervenção do SEBRAE, SESC ou SENAC (ou outro órgão afim) no sentido de estruturar a cidade para receber seus visitantes, especialmente durante o período em que ela fica mais cheia. Antes mesmo. A média de espera por um prato é de 1 hora e 15. As ameaças de cancelamento de pedidos chegam a 90% por refeição. Contei 3 panelas no restaurante tailandês onde um garçom tatuado cometeu de 5 a 7 grosserias em 3 horas (das quais, duas esperando: mesa, comida, Godot), e pedi uma banana de tira-gosto porque tive a certeza de que iria desmaiar de fome. Numa conversa com amigos livreiros, igualmente subnutridos como eu, pensamos que em tempos de Flip devia haver pequenas ilhas de alimentação rápida espalhadas pelo centro histórico, com barracas de temaki, uma versão express da Bruscheteria, sorvete Itália, crepes de palito etc. Para 2013, já planejo levar um personal cozinheiro, equipado de fogareiro, sopas e que tais. E o Itaú, em vez de distribuir aqueles bancos de papelão, pintando inutilmente a cidade de laranja, devia oferecer cachorro-quente Geneal. Fica a dica.

2. Das pedras

 O Itaú podia distribuir, também, fisioterapeutas. Eu comentava com a Rosana que Paraty era excludente, e que devia haver uma Para-Flip. Pouco depois, recebemos a notícia de que a chefe de nossa delegação quebrara o pé em acidente ocorrido dentro da tenda dos autores, quando Zambra dizia que Emilia tinha morrido e Julio não tinha morrido e o resto era literatura. Para além da escuridão e da falta de grades na tenda dos autores, as depressões e desnivelamentos das ruas são um suplício para qualquer flâneur, e se Flaubert fosse caiçara a história da literatura ocidental seria outra. Poucos sapatos resistem, muitas torções nos espreitam, não há coluna que se sustente, e na segunda-feira, passados alguns quilômetros de olhos mirando o chão, decreto: estou em frangalhos. Tivesse o Itaú distribuído bolas de pilates, massageadores de madeira que deslizam bolinhas pelas costas e relaxantes musculares, ou mesmo mucamos para carregar os mais escolióticos, nem precisaríamos de repouso no primeiro dia útil pós festa literária. 

3. Das dedicatórias

Ao começo da mesa de Laerte e Angeli, anunciaram que seriam distribuídas apenas 50 senhas para autógrafos após o debate. É um processo de seleção natural e cruel que exclui automaticamente os tantos sentados nas tendas dos autores e do telão. É cruel, também, quando o autor, em vez de fazer uma dedicatória, por mais boba e impessoal que seja, declara que só vai assinar seu livro. A caminho de um almoço, desolados sob o sol do meio-dia, carregando 2 livros com apenas duas assinaturas, pensamos em falsificar as mesmas. Inserir um “to Julieta”, seguido de um “love your glasses” ou algo do tipo, algo que desse testemunho do encontro pífio entre leitor e escritor. Era só ter a mesma caneta, copiar a letra, quem ia saber? Nós que gostamos de ficção temos um acordo tácito com a vida: estamos dispostos a ser manipulados e iludidos por toda espécie de manobras. Mas no caso da dedicatória, talvez a mentira perdesse mesmo o sentido. O sonho acabou, disse John. Acho que agora entendo...



A simpática dedicatória de Enrique Vila-Matas (juro).






segunda-feira, setembro 10, 2012

Sei que nada será como antes, amanhã*


Não sei como soube da existência de Inhotim, mas lembro de um dia, num bar com amigos, ouvir um deles contar que uma amiga recém-chegada de lá tinha definido o lugar como a Disney das artes. Também não sei se ela foi a curadora do termo, que apareceu depois em diversas reportagens e virou lugar-comum para descrever o instituto. 

Quando fui a Inhotim pela primeira vez, no carnaval de 2010, constatei a pertinência do adjetivo. Quando fui a Inhotim pela segunda vez, na Independência em 2012, constatei como a expressão havia extrapolado a conotação inicial e tinha virado outra coisa. E entendi como virar uma saudosista nesse intervalo de 2 anos. 

Previously, Inhotim era a Disney porque aquele lugar parecia não existir: uma terra de 400 hectares numa cidade do interior de Minas Gerais, sítio de um milionário da mineração, amigo de Burle Marx, que decidiu construir galerias para abrigar sua coleção de arte contemporânea, e que decidiu abrir seus portões à visitação. Era a Disney porque os pavilhões e galerias eram fruto de sonho, funcionavam à perfeição, eram limpos e cheios de funcionários simpáticos (em Minas isso não é de se espantar), e porque a experiência era sensorial, calma, em momentos até bucólica. Estar em Inhotim era renegociar sua relação com o tempo. Era tirar os tênis, caminhar sem quase cruzar com outras pessoas. Era, também, derramar lágrimas ao entrar em contato com instalações e obras que fogem à compreensão total, deixar de lado o condicionamento de ter que entender e dar conta de tudo, quase como desaprender racionalidade. Inhotim era um vazamento: um ter que administrar sua própria sensibilidade. Sentar na grama, olhar por outro ângulo, tentar ver ilimitado. Como dizem na Academia: ser atravessado por afetos. 

Passados 2 anos, Brumadinho me revelou a Disney sob outros aspectos. Alguma coisa se democratizou, mas não necessariamente a arte. 

O crowd na porta anunciava uma experiência muito diferente da que tive pela primeira vez. Inhotim 2012, usando emprestada uma expressão pejorativa, está infestado de haoles. Filas para a comida, para o banheiro, para a entrada, para os carrinhos que nos transportam aos pontos mais distantes, fila até para os bancos de madeira, para uma ou duas galerias, para fotos no caleidoscópio de Olafur Eliasson, que ganhou ares de entretenimento. A Disney dessa vez se operou nessa vertente: diversão. O que mais ouvi foram comentários irônicos e até debochados a respeito das obras expostas em Inhotim, coisas na linha do “mas isso até eu faria”. Outras falas demonstravam a completa incompreensão diante de trabalhos que parecem mesmo incompreensíveis. Vi guerra de almofadas dentro das Cosmococas de Hélio Oiticica, redutos de famílias inteiras que de certa maneira subverteram toda a lógica daqueles ambientes. Crianças nadando na piscina de abecedário, restaurantes lotados de grupos de amigos, poses e mais poses para fotografias dos belos cantinhos dos jardins, brincadeiras, lanches, instagrams e outras tantas posturas que indicavam que boa parte dos visitantes não estava tendo epifania alguma, tampouco se preocupava com conceitos, ideologias, intenções ou discursos artísticos. A Disney, para eles, é feita dessa alegria descompromissada, de um bonito dia de sol, de achar graça das coisas, e a outra Disney, de certa forma, diminui frente a esta, bem mais barulhenta e caótica, e que acaba se impondo aqui e ali.

Então fico nessa encruzilhada: de um jeito ou de outro, todos estão expostos à arte. Conversando com uma amiga à saída do instituto, caímos naquele papo cheio de crença nesses encontros: "Ainda que inconscientemente, Inhotim forma um público, a arte ganha adeptos e é melhor pra todo mundo." A gente que mergulha nesse universo tende a achar que é melhor pra todo mundo, porque às vezes o que parece não fazer sentido é indiferença, ou ficar longe de toda essa produção, não querer entender o processo, passar batido por cores e sons, ignorando toda e qualquer possibilidade de redenção. Mas a impressão que dá é que aquele também virou um lugar de lazer, de passeios, de paisagens. Não é pecado nenhum, é só outra coisa, e eu mesma me peguei nadando e rindo numa piscina que, cá pra nós, ninguém me convence de que seja algo mais que uma piscina. 

Não deixa de ser elitista ou preconceituoso achar que meu jeito de viver Inhotim é melhor do que essa nova Disney. Não deixa de ser romântico achar que todo mundo deveria sentir o que senti quando, neste sete de setembro, passei meia hora na galeria Miguel Rio Branco, ou quando voltei ao galpão Cardiff & Miller pela terceira vez, e tudo aquilo veio à garganta de novo. Se todo clichê fosse permitido, diria que é mágico, porque é se esquecer de si mesmo um pouco. 

Inhotim, para mim, é esse estado de suspensão. É cenário onírico, quase utopia. Um súbito gostar de patos.



obs. didática: fui muito feliz em Inhotim ambas as vezes. Mas para pessoas irritadiças como eu, recomendo evitar feriados. 


* Nada será como antes, Milton Nascimento.

 

quarta-feira, agosto 29, 2012


Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Procura da poesia, Carlos Drummond de Andrade. 


 

quinta-feira, agosto 16, 2012

Conclusões # 01


 O trânsito é sempre pior às terças e quintas e é sempre quinta quando sucumbo à Coca-cola e a confissões inconfessáveis, como confessar que não tenho entendido nada, nada mesmo, e que hoje cheguei em casa e não sabia nem se tinha tomado banho de manhã.

quinta-feira, agosto 09, 2012

O novo porteiro da noite


Não passa de três semanas a data do email da professora de literatura em que ela dizia ter gostado muito do meu pequeno trabalho acadêmico, por sua vez enviado cerca de um mês antes da nota 10 que me chegou via gmail. Desconfiei um pouco dos critérios dela, porque no fundo sabia que haveria trabalhos bem mais relevantes que o meu, mas sorri assim mesmo: a nota 10 me tornava oficialmente uma cdf, e justificava as semanas, até mesmo meses, em que vivi uma vida regrada onde quase não havia espaço para refrigerantes, carne vermelha ou badalações. Tudo isso e um outro 10 na disciplina de artes visuais me levaram a uma rotina reclusa, e foi preciso entrar de férias para perceber a presença de um novo porteiro da noiteno prédio.

Eu chegava de taxi de um jantar que me deixou apaixonada por polvo, e um tanto embriagada por causa de duas ou mais jarras de sangria. Desconfio que dois goles de cerveja já teriam sido suficientes para aquele levitar do álcool, frente à abstinência autoimposta dos meses precedentes. Fato é que, antes que eu pudesse encontrar minhas chaves no fundo da bolsa, o novo porteiro da noite abriu a porta para mim. Não era um horário extravagante, confesso, mas já era hora dos bêbados voltarem aos lares, o que automaticamente significava que porteiros da noite estariam adormecidos. Fiquei surpresa, mas julguei que aquela era a primeira semana de trabalho do novo funcionário. Ao me informar sobre o assunto, descobri que o novo porteiro da noite assumira o cargo bem antes do que eu pensava, e já completava seu segundo mês ali. Blame it on literatura, pensei. Meu argumento era mais que justificável pro meu total desconhecimento do novo porteiro da noite.

As férias seguiram animadas, e cada vez que cheguei à portaria depois da meia-noite me surpreendi com o fato do novo porteiro da noite seguir sempre alerta. Foram inúmeras as vezes que saí do taxi ou da carona com as chaves na mão, eventualmente até mesmo com os sapatos na mão pra não acordar o homem, e lá estava ele: de olhos bem abertos, acionando portas, dando bom dia, chamando o elevador. Sem me dar conta, apliquei um teste à resistência do porteiro da noite, chegando em casa cada vez mais tarde. Tão tarde, às vezes, que o turno já havia sido trocado e eu dava de cara com o porteiro da manhã.

O fato do novo porteiro da noite não dormir alterava a ordem das coisas a tal ponto que fiquei ligeiramente obcecada. Toda vez que alguém me dava carona até em casa eu puxava assuntos com a pessoa, a fim de ficarmos estacionados em frente ao prédio, pra que eu pudesse observar o comportamento do porteiro, pra que eu pudesse flagrá-lo acordando. Eu não me conformava, e nesse exercício de arranjar cúmplices, acabei arranjando alguns beijos também, porque os meninos começaram a interpretar essa minha demora em sair do carro como uma tentativa de sedução, mesmo que eu explicasse toda essa história de novo porteiro da noite. Tava na cara que isso só fazia sentido pra mim.

Quando as férias terminaram, descobri duas coisas: todo mundo tinha tirado 10 nos trabalhos de ambas as disciplinas da pós-graduação, o que foi um balde de água-fria em 14 pessoas. A segunda coisa é que tinha havido uma mudança de síndico no prédio, e que ele pensava em eliminar o porteiro da noite, não só o novo, mas a função em si, a fim de corte de gastos. Convocou-se uma reunião extraordinária em que defendi com unhas e dentes a permanência do porteiro da noite, especificamente daquele, que àquela altura só me via chegar de taxi, porque ninguém mais agüentava minha conversa nonsense na porta do prédio, e porque meu ritmo de estudos recomeçava. Em breve, eu nunca mais veria o novo porteiro da noite até dezembro, porque estaria estudando feito louca pra manter meu c.r., mesmo que ele fosse um embuste.

Logo depois da assembléia que votou a favor da permanência do porteiro da noite, assegurado de seu emprego, o novo porteiro da noite sucumbiu: tirou um cochilo justo quando esqueci de levar minhas chaves.

quarta-feira, agosto 08, 2012


And the vampires. You used to know where you stood with them – smelly, evil, undead – but now they are virtuous vampires and disreputable vampires, and sexy vampires and glittery vampires, and none of the old rules about them are true any more. Once you could depend on garlic, and the rising sun, and on crucifixes. You could get rid of the vampires once and for all. But not any more.

Margaret Atwood em I dream of Zenia with the bright red teeth, conto que está no livro dos 10 anos da Flip.