quarta-feira, abril 16, 2014

Três

No es para quedarnos en casa que hacemos una casa
no es para quedarnos en el amor que amamos
y no morimos para morir
tenemos sed y
paciencias de animal

Juan Gelman


Sobre fundo branco um quadrado vermelho e a inscrição “sim” em preto logo acima: o quadro da Mira Schendel era uma tatuagem no braço direito de alguém com nome composto. Num outro braço direito, versos de um poema em tipografia com serifa - daqueles que você lê e relê e não entende como é possível.

Nas costas da Ana os sinais de pontuação de um texto que não se lê. E dela, também: as linhas que traçam o contorno das cidades vistas de longe, de fora, de um outro lugar, de um ângulo que a gente mal sabe, de bem depois da arrebentação, desse ponto aonde só se chega de barco, sem peso – “agoniômetro”, ela escreve sobre uma imagem, a borda do outro lado, bater e voltar sem se afogar no meio.

Para mim não são só pautas num caderno ou linhas que se desenham – nas paredes, em telas de silk, em azulejos, em papéis emoldurados lançados em canoas – e tampouco apenas códigos de escrita ou tintas perfurando peles, mas ecocardiogramas, pulso. Vida - que de repente, numa terça-feira de esperas e de afogar pisantes. 


quarta-feira, abril 09, 2014

Moscou - vol. 5

Eu tinha colocado o rodo de pia no potinho junto com as esponjas, mas por alguma razão a Cida achou que era melhor guardá-lo na gaveta e com ela não discuto: sua cama está lisa como a de um hotel, e antes que eu tenha um desfecho para todos esses dias, meu celular apita:

- Acabei de me tocar que ainda não paguei o condomínio. Você lembra quando vence?
- Hoje.
- Putz. Já enchi a cara de vodka.
- Eu pago pra você, seu golpista.
- Você não existe! Brindei a você. Com vodka.
- Existo e sou incrível.
- Sem dúvida. Também sou. Somos incríveis juntos. 

Então volta logo, pombas. 



segunda-feira, abril 07, 2014

Moscou - vol. 4

Acho que o meu café é o Livanto e parece tão complicado escolher cápsulas quanto flores. Há uma banalização de orquídeas no super e todas parecem meio pau mole – M. usou essa expressão outro dia e fiquei viciada. Já pensou em quantas coisas na vida são um pau mole? Essa semana toda: eu não sabia se saía do trabalho e ia pra casa ou para o Galeão e mesmo a sua casa, que era pra ser um refúgio, virou esse lugar onde a qualquer ruído – da máquina de café aos tropeços que dou sem mais nem porquê – podem bater na porta, e eu deveria achar isso ótimo. Talvez seja essa pau molência que me assolou nos últimos dias.

Hoje eu trouxe cervejas para repor as garrafas que esvaziei sozinha ou com Carol. Trouxe uma orquídea também. Espero que ela dure até você chegar.


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Mas pau mole mesmo é passar uma noite de sábado fazendo faxina em casa. É incrível: a vida quase parece fácil quando você só depende de um perfex, um produto de limpeza, uma escadinha e a discografia do Radiohead. 


segunda-feira, março 31, 2014

Moscou - vol. 3

Instruído pelas experiências de minha irmã, sou frequentemente tentado a responder com orgulho “Sou um escritor”, quando me perguntam “O que você é?”. Mas raramente o faço, porque não só é pretensiosamente tolo, como também incorreto – sinto-me como um escritor somente quanto estou escrevendo. Então digo que sou complicado. Gostaria ainda de acrescentar que não sou nada além de um emaranhado de perguntas irrespondíveis, um feixe de outros.

Gostaria de dizer que é muito cedo para saber.

Sasha Hemon, no Livro das minhas vidas


A luz que entra pela sua janela de manhã é tão linda que parece que tudo em Gávea é superlativo: sou capaz de tomar três cafés da manhã com três pessoas com quem esbarro nas esquinas num mesmo sábado e ainda assim dormir tarde adentro. No dia seguinte meu pescoço está ameaçado pelos seus travesseiros que não têm a (minha) altura ideal. Comprei o rodo de pia e comecei uma coleção de coisas para te dar na volta – suas fotos apitam no celular e eu fico horas no sofá perdida em devaneios e no resumo de uma história complicada demais pra te escrever em aplicativos.
Já dá pra começar uma contagem regressiva, já dá pra te alertar da possibilidade de você cruzar com muitos grampos e fios de cabelo pelo caminho – na porta da frente devem ter ficado alguns também. Desculpe-me, eu sou dada a quedas e pequenas fugas. 


domingo, março 23, 2014

Moscou - vol. 2


Toda vez que vou ao IMS fico pensando em como seria viver lá, ela diz, e aqui também. Você fecha a porta e a gente ri e eu já nem me lembro mais pra onde fomos naquela noite – certamente pra um lugar onde rimos potes, mas sempre rimos potes quando nos reunimos. Sonhei com vocês todos essa madrugada: estávamos ali naquele cantinho do 11ème e por alguma razão vocês só me levavam pra comer em lugares horríveis, o que era inverossímil porque volta e meia eu também sonhava com aquele couscous inesquecível e uma outra tarde em que nos destrambelhamos de falar e engordar enroladas num cachecol de lã que me dava um pouco de alergia. Aqui com um pouco de sorte e muito sol se cozinham couscous memoráveis também, concluo. Mas o thé à la menthe não consigo: vira uma água quente com um traço longínquo de hortelã. 

Aprendi a operar a máquina de café na primeira manhã em que acordei aqui, me sentindo meio intrusa por estar sozinha num lugar que é tão seu, ainda que em quase todas as paredes eu veja um pouco de mim também: o quadro marcado eternamente por mensagens de boas vindas, o pôster no banheiro, as polaroides no corredor e a tripa de photomaton colada num mapa de Paris. Despejo todo o conteúdo da xícara na pia, amargurada com goles que não têm o mesmo sabor desse cheiro que eu adoro. Espero a chuva e adormeço no meio da seção de cultura do jornal e finalmente lembro de perguntar por que aquele isqueiro da cozinha tem o seu nome e um número: mensagem enviada, mas já nem sei bem qual é o fuso horário que nos separa. Desço a rua para um cappuccino e no caminho um muro diz que Life is beautiful. Subo a rua com uma escova de dentes que deixo no banheiro, menos um item na próxima mochila ou na próxima semana. Da porta da frente vem sempre uma música, às vezes um cheiro de curry. Da janela vejo quatro pessoas saírem de um carro com seus vestidos, tatuagens e barbas. Um deles olha pra cima e eu me escondo atrás da cortina, tímida de não querer ser flagrada com tanta saudade.

Lavo a louça, ponho o lixo pra fora, nunca lembro de comprar um rodo de pia e deixo o dinheiro da diarista na porta da geladeira: daqui até o Leblon é um pulo, da rue du Dahomey até o CDG são mais de 60 euros e um choro sem tamanho. Termino o novo livro do Zambra: Formas de voltar para casa: marco as páginas 53, 66 e 144. Cuidado com a rede, me alertam: é complicado ir embora quando se fica muito confortável.

sexta-feira, março 21, 2014

Moscou

- Você rega as minhas plantas esse mês?

- Mas você não tem plantas.

- Mas você rega mesmo assim?







terça-feira, janeiro 28, 2014

Notas sobre o calor

"Eu estava com meu estilo surfista pelo segundo verão consecutivo, camisetas brancas e azuis. A maioria das pessoas que vinha me ver não me reconhecia a princípio se eu não estivesse pintando, porque as fotos nos jornais geralmente me mostravam usando roupa de couro Leather Man, no Village. Mas era verão – o verão da música 'Summer in the city', dos Spoonful, aliás – e estava simplesmente quente demais para minha marca registrada. Então, como eu não estava como as pessoas esperavam, muitas vezes elas nem me notavam. 

Uma tarde, vi um cara alto, de cabelo escuro e encaracolado sair do elevador com um grande envelope debaixo do braço. (...) Ninguém ergueu os olhos do que estava fazendo - ninguém nunca olhava -, então o cara não sabia com quem falar e começou a circular por ali, olhando as telas, as pranchas, o vinil, o plástico, as paredes caindo aos pedaços. Se alguém 'recebia' as pessoas na Factory, esse alguém era Gerard, mas ele tinha acabado de sair. O cara avançou até três quartos do espaço da Factory e quando me viu sentado num canto quase deu um pulo – fazia tanto calor que eu não me mexia havia uma hora."

Andy Warhol sobre um verão em NY nos anos 60, no livro Popismo. Os anos sessenta segundo Warhol, da ed. Cobogó. 

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Chuva, Wuppertal, elefantes e outras obs.

Os elefantes, de acordo com os estudiosos do assunto, são criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas.
Clarice Lispector in A legião estrangeira

“Julia, quando fui pra lá vi uma placa de boas-vindas indicando que a cidade tinha 3 McDonald’s. É menos do que existe no Barra Shopping!” – com esse argumento, e não que fosse a primeira tentativa de persuasão, Lucas me impediu de confirmar minha reserva de 5 dias no hotel Ibis de Wuppertal, cidade alemã que não figura em guias de viagem. Tente o Fodor’s, o Lonely Planet, o Guia Visual da Folha ou qualquer outra publicação da seção de turismo: Wuppertal não está lá.

Tente a Wikipedia brasileira e você vai descobrir 3 filhos ilustres de Wuppertal: a aspirina, Engels e o Hans Donner. Se o braço nacional da enciclopédia precisa de 31 linhas para descrever o cenário, a Wikipedia de língua inglesa revela-se bem mais prolixa: 49 linhas e 34 colunáveis. Ambos os endereços jogam luz sobre o Schwebebahn, o monotrilho (ou monorail) que há 110 anos transporta os habitantes, os visitantes e, eventualmente, um elefante pela cidade de Wuppertal. Tente o site oficial da municipalidade: há um relato insólito que narra a curta viagem de Tuffi, garota-propaganda do circo Althoff, no trem suspenso. Pouco após ser colocada em um dos vagões, a filhote de elefante saltou para a liberdade e para a fama mundial entre aqueles que se deparam com Wuppertal em seus caminhos.

Ainda que Wuppertal já ostente 9 McDonald’s, segui os conselhos do Lucas e reservei um quarto em Colônia: a previsão era de trens, chuva e duas peças da Tanztheater de Wuppertal, companhia de dança que durante quase 40 anos esteve sob a direção de Pina Bausch e que justifica o itinerário que eu nunca pensara em escolher para as minhas férias.

Tudo começou bem antes, quando me sentei na poltrona 33, fila H, balcão nobre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Era 7 de abril de 2011: as cortinas abertas revelavam um rabo de baleia à direita do palco, o público tomava seus assentos, eu enrolava e desenrolava meu ingresso nos dedos enquanto esperava os primeiros movimentos de Ten Chi, peça de 2004 fruto de uma residência da companhia no Japão. Até o final da performance cerca de 3 horas teriam sido transcorridas; 8 pessoas teriam aproveitado o intervalo para abandonar seus lugares na fila G à minha frente; uma torrente de neve – ou flores de cerejeira – teria forrado de branco o palco do Municipal, encobrindo bailarinos, vestidos e cabelos, estes adquirindo vida própria e executando uma coreografia paralela àquela dos corpos em cena.

Saí do Theatro num choro tão físico, de soluços e arquejos, segurando-me pelo corrimão escada abaixo: Ten Chi penetra os alicerces do corpo, alterando principalmente as capacidades musculares e gástricas. Tivesse uma epígrafe, a do meu pranto seria aquela de Barthes que diz que “a leitura seria o lugar onde a estrutura se descontrola”.

Esse descontrole: uma invasão de afetos não catalogados; gatilho de lágrimas e de uma paralisia momentânea; o choque de reconhecer no corpo alguma coisa tão primária e ao mesmo tempo tão complicada de dimensionar; motor de ideias e de gestos que substituem a fala quando você tenta, inutilmente, explicar para alguém -  braços e mãos que se dobram e se projetam da direção do abdome para a frente, como se pudessem tirar do estômago alguma tradução diante dessa dança. Esse descontrole: convém persegui-lo.

E ele está ali, 3 de novembro de 2013, 10 euros de taxi da Hauptbahnhof até a Opernhaus de Wuppertal, nos meus olhos que se inundam quando reconheço Lutz Förster no foyer do teatro, na minha boca que não fecha ao olhar os pôsteres espalhados pelas paredes, no meu riso que escapa quando vislumbro o tapete de cravos cor de rosa que cobre o palco, nos primeiros acordes de uma versão da década de 1920 de The man I love com aquele homem de terno sozinho no meio das flores fazendo sua linguagem de sinais, nos meus pés ritmados e o cantarolar baixinho das Pastorinhas que eu não esperava na trilha, na minha tentativa frustrada de roubar um cravo pisoteado do cenário quando Nelken se encerra e as pessoas já deixam a plateia.

E também: 5 dias depois, 8 de novembro, no palco uma espécie de gramado vertical ou um pedaço de um penhasco – uma parede de superfície irregular coberta de folhagens e plantas -, do verde cai uma goteira ininterrupta, como se poucas horas antes tivesse chovido uma tempestade e nós víssemos, então, o depois: cheios de vontade de abrir a boca e beber da água que escorre, como fazíamos quando éramos crianças.

Uma das bailarinas, usando camisola fina e branca, caminha em direção ao fundo da cena. Agachada próxima ao penhasco, ela se banha com a ajuda de um balde e fica ali numa calma inabalável, indiferente à entrada de uma música e de um bailarino. Ele veste calça e camisa social, entra correndo no palco e em algum ponto tenho a impressão de que desliza seus pés descalços pelo chão até frear e iniciar uma sequência de movimentos: o corpo todo participa e os braços constantemente se voltam para os céus, assim como a cabeça, e tudo parece sair bem do meio do seu tronco para as extremidades, como se lançasse raios de si mesmo ao redor. Ele se reveza com outros bailarinos que se alternam nessa sequência de corrida, deslize, freio: braços e cabeças para além (quando entrarem para os agradecimentos vou perceber que eles são muito menores do que parecem) e há uma urgência nessa escala – o palco não pode ficar sozinho, nós, sentados ali na frente, não podemos e não queremos ficar sozinhos, e de repente os homens entram e saem velozes, enchendo a cena em contraste com ela: lenta, brincando com seus cabelos, roupa agarrada na pele.

Eles dançam e dançam e dançam enquanto ela se encharca e nem percebo quando ou como desaparece. Tudo isso acontece embalado por uma música que fala de Angola e que cantarei ininterruptamente na minha cabeça nos dias seguintes, e tudo isso perfura coisas em mim, órgãos em mim, e à saída do teatro meu guarda-chuva esbarra no de Dominique Mercy e no trem para Colônia eu nunca mais quero esquecer esses dias, nunca mais quero apaziguar esse corpo. Quero conservar esse desejo, preservar vaga-lumes, saborear o meu devir-bailarino. Quero que esse trajeto dure tanto.

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Escreva sobre suas vivências em Wuppertal, me aconselharam. Mas como dizer? Como contar de elefantes que se aventuram por entre as janelas de um trem suspenso? E de bailarinos que se lançam numa reinvenção de seus corpos e de si mesmos, e de nós mesmos – um só existindo às custas do outro, todos bambos à procura de um eixo quando os aplausos cessam? Como escrever sobre o que se passa nessa cidade insólita que nem sequer existe?

No prólogo de seu Movimento total, José Gil traz uma fala de Merce Cunningham que é um alento às minhas perguntas e, possivelmente, às inquietações de Tuffi*: “Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”

Agradecimento final em Nelken, Ein Stück von Pina Bausch - Wuppertal, 3 de novembro de 2013.


* De acordo com o site oficial da cidade de Wuppertal, o salto de Tuffi lhe rendeu um bumbum machucado. 

terça-feira, dezembro 31, 2013

Natal


O dia da faxina é segunda-feira: a sua é a história de amor mais triste de todas, ela disse, entre uma colherada de canja de galinha e outra, e eu pensei que 90% do tempo que estou viva e consciente (acordada) consigo não pensar nisso, mas que quando os 10% batem é como uma locomotiva que descarrila e não sobra ninguém e a gente muda de assunto, fala de viagens, desses destinos onde chove sem trégua, fileira de poças e lenços de papel e aquela impressão de que os ossos ficam úmidos, as articulações ficam rangendo e o corpo se torna esse porão com tantas camadas de lã e tecidos protegendo móveis, joelhos que falham, quadris que deslizam um pouco para fora do lugar – e todos esses cartões postais por escrever – e é como se andar te maltratasse a ponto de você passar tardes cochilando num quarto de hotel, até o dia de pegar um trem, desembarcar numa plantação de cravos and so all else above sonhar que todo ano essa volta seria possível, esses dias em língua estrangeira e schnitzel em excesso, todo o tempo do mundo para observar vitrais em catedrais góticas, e esse domingo ameno feito de papel de presente e embrulhos coloridos, piadas e mapas pra colocar em dia, esse domingo adiando a constatação de que a poeira está sempre ali, à espreita, basta arrastar o sofá. 

domingo, outubro 27, 2013

Um discurso amoroso


e bilíngue para o casamento de C. e P., com todo o coração. 

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Queridos,

Uma confissão: para escrever este pequeno discurso li livros, fiz pesquisas, enquetes, conversei com veteranos bem sucedidos no assunto... e meus rascunhos continuavam um misto de clichê, cafona e, pior, acadêmico.

Pensando naquele poema do Fernando Pessoa (“Todas as cartas de amor são / ridículas / Não seriam cartas de amor se não fossem / ridículas”) concluí que os discursos de amor também só poderiam ser ridículos. Exceto o do Barthes, é claro. O que não ajudou em nada.

Então um dia ouvi no rádio uma música que a certa altura diz: “E até quem me vê / lendo o jornal / na fila do pão / sabe que eu te encontrei”* e pensei naquela primeira vez que a C. me falou do P., e naquele momento eu entendi que a fila do pão, do banco, do aeroporto nunca mais seriam problemas pra ela.

Portanto o que eu desejo para vocês agora é que aproveitem muito aquele aparelho de som incrível que P. comprou e que não deixem faltar música em casa: para encontrarem a afinação todos os dias, para aprenderem um o ritmo do outro, para que o encontro de vocês seja sempre uma dança com os passos que vocês inventarem juntos, esses que driblarão eventuais descompassos e notas fora do tom. E que vocês possam dançar a toda hora e em qualquer lugar, até na padaria – ridículo é falar de amor, vivê-lo é uma sorte!

Com carinho,


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Avant d’entamer ce petit discours, une confession : j’ai lu des livres, fait des recherches, des enquêtes, j’ai parlé à de grands orateurs et mes brouillons restaient clichés, kitschs et, pire encore, académiques.

J’ai pensé au poème de Fernando Pessoa (“Toutes les lettres d’amour sont / ridicules / Elles ne seraient pas des lettres d’amour si elles n’étaient pas / ridicules”) et j’en ai conclu que les discours d’amour ne pourraient qu’être pareillement ridicules. Sauf celui de Barthes, évidemment. Ce qui ne m’a pas aidée.

Jusqu'au jour où j’ai entendu une chanson à la radio : “Et même ceux qui me voient / lire le journal / faire la queue à la boulangerie / savent que je t’ai rencontrée” et j’ai alors repensé à la première fois où C. m’a parlé de P., et  comment, à ce moment-là, j’ai compris que faire la queue dans les boulangeries, les banques, les aéroports ne serait plus un problème pour elle.  

Ce que je vous souhaite, c’est que vous profitiez pleinement de l’incroyable chaîne que P. a achetée et que la musique ne manque jamais chez vous : pour que vous trouviez le ton juste chaque jour, que vous appreniez le rythme l’un de l’autre, pour que les moments passés ensemble soient toujours une danse avec des pas inventés par vos soins, ces pas qui esquiveront d’éventuels décalages et fausses notes. Et que vous puissiez danser à n’importe quel moment et n’importe quel endroit, même dans la boulangerie – parler d’amour est ridicule, le vivre est une grande chance !

Avec tendresse,

Jules


* Último romance, Los Hermanos


terça-feira, outubro 08, 2013


Eu também quis expor o meu buraco como um zero flutuante entre dois ventiladores ligados diante da plateia silenciosa, estupefata ou apenas indiferente. Eu também fingi ter visto Halley atravessar o céu, eu também usei frases dos meus livros prediletos como se fossem minhas. Eu também tive pesadelos com um país de sincronias infernais em que todos os sapatos faziam o mesmo estalo ao tocarem o chão. Eu também nunca acreditei na existência de um sexto sentido e imaginei que o mundo terminaria no auge como uma frase de Flaubert. Eu também sonhei que guiava minha próproa ambulância. Eu também, como num filme de Lynch, nunca vejo o rosto de quem me persegue. Eu também como num filme de Lynch não sei aonde estou indo. Eu também como num filme de Lynch vejo coelhos nas tarefas mais domésticas. 

Coelhos e louça suja por toda parte. 

(...)

Tanta coisa pode surgir das elucubrações de um jovem solitário em algum lugar isolado. O mais difícil é viver a vida no atacado e no varejo e saber que tudo não passa de falta de sincronia, ovulação e violência consentida.

Laura Erber, Os esquilos de Pavlov. 


sexta-feira, outubro 04, 2013

Diários da yoga - vol. I da retomada

No fim da prática (e não aula), sentados na mesma posição do início, o professor faz as devidas considerações, pronuncia algo que eu nunca entendo e todo mundo se inclina pra frente e fica ali com a cabeça sobre as mãos em prece por um tempo indeterminado enquanto eu só penso “mas o que diabos”. Eu poderia perguntar – e eventualmente aderir – mas têm esses mundos nos quais eu permanecerei para sempre como mera observadora. A constatação começa antes, quando misturo meus lindos sapatos aos tênis e chinelos (enfeitados com miçangas) que ficam na porta do Studio de Yoga onde vim dar. É incrível que tanta coisa evolua, exceto a estética hippie. 

Se eu fui fazer natação a primeira vez por causa de um número da piauí, é natural que eu tenha ido parar na yoga outra vez depois de editar um livro (mais ou menos) sobre, o que me faz temer o meu futuro pós pós-graduação.

De certa forma, a yoga é o mais próximo que tenho conseguido de todas as teorias sobre o corpo que tenho lido. Ali o professor te incentiva a “encontrar seu corpo confortável”, a conhecer seus limites e se deixar transportar pelo fluxo da sua respiração. Seria lindo não fosse um tédio. Pior: cafona. Não tem corpo sem órgãos que se constitua, e o único devir que eu experimento é o da dor. No fundo a yoga é um misto de RPG (as in Reeducação postural global, não o jogo) com autoajuda. É um “deixe seus problemas lá fora” seguido de um “aproveite este momento que você escolheu para dedicar-se a si mesmo”.

O fato é que eu sou muito influenciável, e que a minha permanência na yoga se deve muito mais a coisas aparentemente sem importância, mas que se grudam em mim de forma irremediável.

Por exemplo: eu comentava com a minha avó as agruras da prática e do discurso, e ela me contou que o professor Hermógenes, um mito da yoga carioca, foi cadete do meu avô no exército. O meu avô fazia os maiores elogios ao professor Hermógenes, e por mais que não tenha lógica alguma, lá fui eu, renovar o plano mensal e me comprometer com os mantras até dezembro. Eu não conheci o meu avô, mas a essa altura já deu pra entender a minha linha de raciocínio. Acho.

É como quando encontro T. nos lugares e momentos mais improváveis: na bienal do livro, num cruzamento no Leblon, e a gente recebe esses acontecimentos como um plano celestial maior e que de repente se revela tão óbvio. Sempre me perguntam por você, a gente diz. Ele segue na moto, eu desenrolo o tapetinho verde e de repente me dá uma cãimbra daquelas que só pode ser praga de alguém. Mas penso na minha avó, no meu avô, naquela hérnia de disco de seis anos atrás, e lá no fundo da minha cabeça aquela música do Lulu Santos fica se repetindo: “Eu ando tentando ver o lado zen / o que é que nos ensinam nossos mesmos velhos males”. Gostar de música pop, nessas horas, é uma merda.


Essa noite, na sala de espera, todo mundo tem mil palpites sobre a energia, e tem uma líder que se encarrega de fechar as portas que dão acesso à sala da prática, pra preservar aquele ambiente dos maus fluidos. Se energia tem a ver com alergia, então tô nessa também, mas desconfio de que, tal qual aquele trecho de uma música dos Strokes (“In spaceships they won’t understand / And me I ain’t ever gonna understand”) esse seja outro papo sobre o qual eu não entendo patavinas. 




sexta-feira, setembro 27, 2013

Assum branco - vol. III

Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê.


Camões

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Identifico-me ao porteiro, que trata logo de abrasileirar as coisas, e assim entro em casa de Manu. De repente é muita gente com o mesmo nome nos meus dias, e eu penso se isso é evidência de alguma coisa: pretexto, horóscopo ou um destino inescapável – cancelar o inverno alemão e ir ler Pessoa à beira-mar.

Mas ainda é quinta-feira, Manu tem um sotaque francês que eu adoro, uma habilidade para fazer coisas – tranças, cartões, cadernos – e talvez seja o mês, o horóscopo ou um pretexto: tem sido muito difícil não gostar das pessoas, de pisos de taco, das calçadas do Flamengo.

Na janela L. e eu falamos de encontros – ainda que pela metade – e trocamos um daqueles abraços que só mesmo na primavera, e  agora parece-me impossível narrar isto que ainda se dá em algum lugar de nossas barrigas e ressacas, porque Manu faz de suas delicadezas carimbos – reais e metafóricos – e eu não tenho preparo emocional para tanto: uma poção mágica da Mongólia; um foie gras feito pela avó já falecida, armazenado em pote datado; a foto da avó, de negro, imponente; hortelã com rum em copos de geleia com enfeite artesanal feito com a mão dela – e penso nos copos do Pedro e quero ter uma casa toda assim, com objetos transformados, coisas que eram outras, interferências – conquistar um território.


E toda aquela revoada de pássaros espalhada por ali, ou nuvens, porque tem sempre alguma coisa que voa em dias assim. 




segunda-feira, setembro 23, 2013



Quero dizer que se todos nos importamos com comer imediatamente, importa-nos ainda mais não desperdiçar apenas na preocupação de comer imediatamente nossa simples força de ter fome. 

Artaud em O teatro e seu duplo. 




sexta-feira, setembro 20, 2013

O dia que jantei com César Aira

pessoas são permeáveis ou impermeáveis, mãe? 

Muito antes de tudo isso acontecer eu tinha andado por Santiago atrás de todos os livros possíveis do Alan Pauls e do César Aira. Eu tinha até pensado em mudar o destino, desembarcar em Buenos Aires, entrar numa livraria e sair um ano depois, hablando sola e cantando uma música do Devendra, uma que talvez ainda nem existisse, mas que meses depois seria mais ou menos a trilha sonora perfeita daqueles dias.

Antes, também, num café com P., a gente tinha trocado figurinha sobre alimentação saudável: o que M. achava impossível, visto que eu era irônica demais para ser hippie; o que L. achava meio hilário, a ponto de revelar que houve um tempo até que eu passava ghee no olho (e Aira riu) – o que não nos impediu de encher a cara de cerveja e pão com manteiga, mesmo que eu estivesse com a pior dor de garganta do mundo e que a nossa mesa fosse praticamente numa esquina onde ventava pacas.

César escolheu o magret por causa do comissário Maigret, e eu ri lembrando da aula de francês em que desisti do Simenon por ter chegado à conclusão que Madame Maigret era uma submissa e que seu marido era um machista. Sim, eu já fui dada a extremismos, muito antes de tudo isso acontecer.

Tentamos arrancar dele o que fosse, desde as declarações mais banais até um spoiler de um livro futuro. Conseguimos uma ideia para uma novela que ele gostaria de escrever, mas foi P. quem me fez rir de novo, dessa vez para todos, quando disse que tinha comprado uma centrífuga e que incluíra o episódio do suco verde em sua peça de teatro – o que ao mesmo tempo me fez ficar vermelha de vergonha.

César ficou ali à deriva em meio ao nosso português, a uma ou outra declaração não-ortodoxa sobre a vida conjugal de Alan Pauls (chacun son coluna social) e outras gentes mais próximas, algumas delas em estado de pré-surto (ou cocaína, como sugeriu M.). No fim da noite o mistério permanecia no meio sorriso insistente de César, e quando ele pediu uma sobremesa de morangos fui sensata o suficiente para perder a piada óbvia e sem graça que eu poderia fazer – obrigada, a quem quer que seja o responsável.


O fato é que aquela combinação de morangos com o vento e o cigarro que César fumou depois – e que eu fumei junto em pensamentos – pareciam a mim muito fieis a duas novelas que ele já tinha escrito, que eu lera embasbacada, que eu não sabia mais quantos delírios continham, e eu fiquei quietinha vagando pela minha cabeça de leitora paranoica. Mas é incrível: assim como livros, tem vidas que não existem, e eu fico monga em eventos desse porte. Hay que aceptarlo. 




quarta-feira, setembro 18, 2013

Yoga for dummies

Voltei ao mundo om, mas a verdade é que toda vez que deparo com um texto de alguém que nada meu coração se treme todo. Clica aqui, desça um pouco e lá estarão os versos do Ismar. 

Enquanto isso, um soft opening por esse outro caminho.



segunda-feira, setembro 16, 2013

Assum branco - vol. II

(outros sinônimos)

Ali naquela conversa eles planejavam fazer mesas com as próprias mãos – é o que os artistas perseguem, não é? Deixar seu rastro. Da outra vez que estive ali havia um martelo displicente sobre uma pilha de livros e eu comecei uma coleção de fotos dos cantinhos, dos ramos de flores, das folhagens na cozinha, das fotos e postais. Desta agora o desenho da porta emoldurado na parede, maços e maços na varanda, uma briga que eu nem sei se acabou bem, um hematoma na perna direita que me faz crer que nos atacamos.


Entre uma dose de vinho e outra, na confusão dos copos de requeijão Aviação que nos serviram de taças, no barulho que 12 pessoas fazem juntas numa tarde, Pedro puxa uma cadeira e me conta de suas aulas de teatro, da temporada, da tentativa de entender o que acontece consigo depois de experimentar estar em cena, seu corpo, sua carne – eu quase choro, porque ele sabe que aconteceu um troço meio mágico que ele não dá conta de explicar, e sinto saudade de sentir isso também, e devoro tomates quando ele diz que está dançando. Pedro está dançando – uma caixa de surpresas – e tem como mestra uma ex-bailarina de Pina Bausch – e eu vejo toda uma vida que eu poderia levar em Pinheiros, vizinha da cozinha com piso de ladrilhos, da estante de livros que contém dois Suicídios exemplares emparelhados, do armário amarelo. Pedro está dançando – eu esqueço de contar para ele que comprei passagens para Wuppertal – e com certeza ele vai entender tudo o que precisa. 




quarta-feira, setembro 11, 2013

Assum branco*


Onde está teu sinônimo no mundo?
Clarice Lispector, Um sopro de vida

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Estou obcecada por uma música tão linda quanto triste* e não sei o que fazer, eu disse a ela. É como se eu perseguisse uma melancolia. Faz sentido?, eu perguntei e ela riu. Deve fazer. 

Perguntei, também, se era muito cedo pra falar dele, e é claro que era, e ela concordou. É que aquele dia, no sofá, tudo o que ele falava eu emendava, exceto o final: comecei a chorar naquele segundo ato (eu também); e aquela neve (eu também); e não conseguia parar (eu também); e como é que se levanta da cadeira depois? (eu também); eu estava bem perto do palco, peguei um pouco da neve e guardei no bolso do casaco (ele disse, e como é que se levanta do sofá depois? E, de alguma forma, acho que ainda estou por ali, esparramada sentindo o peito dele subir e descer.)






quinta-feira, agosto 29, 2013

Moradas

En la mano crispada de un muerto,
en la memoria de un loco,
en la tristeza de un niño,
en la mano que busca el vaso,
en el vaso inalcanzable,
en la sed de siempre. 


Invocaciones

Insiste em tu abrazo,
redobla tu fúria,
crea um espacio de injurias
entre yo e el espejo,
crea um espacio de leprosa
entre yo y la que me creo.

::

explicar con palabras de este mundo
que partió de mí un barco llevándome



Alejandra Pizarnik






segunda-feira, agosto 05, 2013

1923

A minha avó, naquela manhã, mais parecia uma estrela de cinema ou uma imagem sagrada, dessas que todos querem tocar e adorar. A cabeça branca da minha avó – cor de neve brilhante, anos de xampu especial – se via de longe rodeada por outros cabelos, muitos adornados de brilhos e flores de domingo. A minha avó, naquela manhã, recebeu cumprimentos, apertos de mão, abraços e exclamações que saíam pelas mãos e pelos sorrisos de todos que foram parabeniza-la pelos seus 90 anos.

A minha avó, naquela manhã, desceu do carro em frente à estação ferroviária de Nilópolis, subiu as escadas da igreja apoiando-se no corrimão – que ela julga indispensável – e sentou-se no terceiro ou quarto banco do lado esquerdo. Recebeu as saudações do Frei José – que há uns 40 anos atrás casou uma das minhas tias, e que há uns 30 anos atrás me batizou, e que já fez outras bênçãos para a família – e acompanhou uma missa repleta de crianças, cantos, palmas e gestos, aqui e ali, que interpretavam algumas das canções. Minha avó subiu ao altar ao término do culto e leu, encabulada, palavras sobre as graças de se fazer aniversário. Minha avó rezou, levou uma salva de palmas e à saída comeu um pastel de queijo típico de feira, iguaria disputadíssima pelos fieis dali.

A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição recebeu a minha avó com tanto carinho que quase que ela teve que sair fugida, pois cada um que ia cumprimentá-la queria também falar com as filhas e a neta a tiracolo. A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, naquela manhã em que a minha avó parecia uma estrela, me deu a exata noção da ideia de comunidade, e uma inveja tão grande do subúrbio que, no caminho de volta, olhei praquelas casinhas imaginando a minha avó por ali, comendo bolos e gostosuras de uma vizinhança que jamais a deixaria voltar pro Leblon – e nem suas filhas e neta a tiracolo.

A gente vai passando pelas pessoas no dia a dia, e aquela gente dali vai parando pelas pessoas, numa tônica tão distante da nossa, e tão mais lógica. A minha avó, de fato, é uma estrela, e o subúrbio desperta mesmo uma ternura, porque é justamente o que emana. E suas filhas e neta a tiracolo, que sorte, provaram desse espelho, lugar que é contra a assepsia dos afetos.

Na volta pra casa eu fui pensando em alguns poucos sambas que sei cantarolar, e em como muitos deles nasceram desse sentimento de pertencimento, de uma relação com o seu lugar. Velhas rixas que compuseram hinos declaratórios a diversos berços, ou apenas odes a seus morros e feitiços. Tem alguma coisa nisso que eu queria pra mim. Eu não sei a minha avó mas eu, quando cheguei em casa, nem tomei banho e passei aquele dia sem lavar as mãos, querendo guardar um pouco mais, com um cd do Noel Rosa no som. Desconfio de que ela tenha feito o mesmo.