quarta-feira, abril 29, 2015
quinta-feira, abril 16, 2015
25 de junho Michael Jackson
e apenas posso dizer morreu uma
vez mais
como só ele pôde e ainda por cima
como quase todos, continuará
morrendo por datas seguintes.
30 de junho Pina Bausch e dela
eu sempre soube pouco a não ser
que
também dançava mas sem levar em
conta
a dança. Como Pina Bausch em suas
viagens
integrava ao seu grupo dançarinos
locais
um dia conheci uma moça tão
bonita que
dançara com ela. Nossa despedida
foi ao telefone
e a linha abaixo a última coisa
que ela me disse
tenho que ir, o feijão está no
fogo.
2 de julho Rodrigo de Souza Leão
sobre o qual para efeito de luto
digo
o que disse também ao fim de um
verso
o grande poeta espanhol Pere
Gimferrer
digo-o, é claro, sem o mesmo
brilho e inflexão
qué triste es todo esto.
Leonardo Gandolfi, Kansas
quarta-feira, abril 15, 2015
Míni
O meu
pequenino Diário de Moscou foi lançado na segunda-feira, 13 de abril, ao lado
dos livrinhos do Pedro Rocha, Luca Argel, Victor Heringer, Leonardo Gandolfi e
Thiago Pichi, pelo selo Megamíni, da Editora 7Letras. Obrigada demais à Isadora
e ao Jorge, que me convidaram para integrar a coleção.
Os meus mínis
esgotaram, mas uma nova reimpressão já está a caminho da livraria da 7Letras -
só tem lá (Rua Visconde de Pirajá, 580/3o andar). Ou fale comigo!
terça-feira, março 31, 2015
A última baguete do Garcia & Rodrigues
1.
Éramos
3 pra uma canga numa tarde meio nublada porque Fernando não havia pagado a
conta de luz. Numa Ipanema pré-Smartphone, passamos o dia na praia comendo os
iogurtes que estragariam porque Fernando estava atraído pela ideia de viver um
tempo sem eletricidade. Marcelo e eu pensávamos na parte prática e o que mais
nos preocupava eram possíveis topadas – dedões, joelhos, testa – nos móveis, o sangue
seco que ficaria no lençol, porque a luz da vela não seria suficiente para uma
assepsia adequada. Camisas amassadas, um relógio antigo de parede que com o
passar dos dias transformaria os gestos de Fernando em movimentos pendulares,
ceras de vela que esculpiriam candelabros meio sinistros. Não conseguimos
chegar a um final: nossa narrativa ia ficando cada vez mais suja e amarrotada,
Fernando tornava-se um ser esquisito e anacrônico e a única saída possível para
aquilo tudo era alguém, finalmente, regularizar a situação junto à Light. Anos
depois Marcelo me telefonaria com uma proposta: “vamos ter um roteiro juntos?”
Mas já tínhamos, só não estávamos muito seguros de nosso amor por ele.
2.
A
melhor baguete do bairro era aquela da padaria que ficava na esquina, diziam,
isso antes das obras que deixaram o cenário com cara de filme de zumbi. Quando
anunciaram que o lugar viraria uma churrascaria houve até protesto; talvez se
soubessem que de fato aquilo viraria mais uma Americanas tivesse havido
quebra-quebra e vândalos. As filas daquela última tarde de funcionamento davam
a impressão de que o negócio poderia se sustentar por meses só com aquelas
vendas e o clima, contam, era de desolação e declarações de amor ao fatiador de
frios, ao garçom e a quem mais trabalhasse no estabelecimento. Lucas ficou para
o gran finale e saiu de lá carregando a última baguete do Garcia & Rodrigues.
Passei dias fazendo a cabeça dele para vende-la no Mercado Livre. Mas o pão
estava congelado aguardando uma ocasião especial para ser comido. Por alguma
razão – possivelmente a mesma do Fernando – Lucas ficou sem energia uns dias, e
ainda que tentasse desesperadamente se reconectar com a luz o impensável
aconteceu: a burocracia deixou a última baguete do Garcia & Rodrigues
intragável e passamos uma tarde no Talho comendo empadinhas para esquecer.
3.
“Teve
torcida gritando quando a luz voltou”, diz aquela música da Legião Urbana, e
teve mesmo. Lá em casa falta luz toda semana, parece que vivemos numa
propriedade rural do começo do século XX. Ou parece que vivemos no Rio de
Janeiro do século XXI, já não sei mais. “Você sabe que o fogão funciona mesmo
quando acaba a luz, não é?”, dizia a última mensagem que consegui ler – porque o
sinal de telefone também some nesses dias escuros – depois de dizer
melancolicamente a uma amiga que eu estava jantando as duas gelatinas que
estavam na geladeira. “Eu sei”, escrevi, “mas se com tudo funcionando já
produzo refeições desastrosas, imagina assim”, mas o desabafo ficou pra sempre
preso no whatsapp. Eu tinha acabado de chegar do balé e tinha lido uma matéria
sobre o músculo psoas, que em certas culturas é considerado o “músculo da alma”.
A minha, a julgar pelo psoas, não parecia que voltaria a funcionar antes que a
conta de luz chegasse. Resolvi, portanto, fazer 3 ou 4
alongamentos pra ver se alguma coisa melhorava.
4.
Fiz
uma lista mental de tudo o que se pode fazer em noites assim, e pensando no meu psoas avacalhado e em tudo o que isso acarreta, fui prática e excluí utopias como sexo, drogas ou gato mia: escrever uma carta para Isabel, tomar banho, iluminar o globo de espelhos com a lanterna até minha sala parecer uma
discoteca em fim de festa, ouvir música até acabar a bateria do computador. A
luz voltou depois que eu já estava havia uns 15 minutos abraçada à bola de
pilates. Fiz um estrogonofe. Ficou uma bosta.
quarta-feira, fevereiro 18, 2015
Carnaval
“I think I might be a terrible person.”
For a split second I believed him – I thought he was about
to confess a crime, maybe a murder. Then I realized that we all think we might
be terrible people. But we only reveal this before we ask someone to love us.
It is a kind of undressing.
Miranda July, The first bad man
(...) o grupo era diverso como a humanidade, e a
humanidade, como se sabe, é uma soma de debilidades.
Roberto Bolaño, Os detetives selvagens
quarta-feira, janeiro 21, 2015
As coisas são mais fáceis na televisão
Foi numa dessas tardes de trabalho em que, entre uma
leitura e outra, alguém diz que a Coca-Cola mexicana é a melhor do mundo.
Fiquei incrédula, duvidando que a industrialização seja capaz de tais nuances:
Toddy tem sempre gosto de Toddy, requeijão dificilmente fica melhor ou pior e
todas as coisas que não dependem de safra ou de mim, em geral, são sinônimo de alegria.
Ainda assim, resolvi conferir e foi batata: igualzinha, deliciosa, Coca-Cola
com gosto de Coca-Cola.
A minha vida culinária tem sido feita de pequenos
desastres. Receitas que sigo ao pé da letra e dão errado, carnes que ficam com
sabor de nada e eventuais acidentes em que quebro sem querer um pote de
mostarda em grãos no chão da cozinha, que é integrada com a sala, e então é
domingo no verão e eu tento varrer os grãozinhos que se chocam uns contra os
outros indo parar no lavabo, sob a máquina de lavar e eventualmente no quarto,
como num jogo de bilhar em que o único vencedor é esse mundo tão cruel que te
faz suar uns 3 quilos em meia hora. Nem o chuveiro é aliado porque
a água está quente, mesmo que você gire a torneira fria ensandecidamente.
Achei que com a chegada da páprica e das folhas de louro à
minha prateleira algumas coisas se resolveriam, ao menos foi isso que me
venderam. Que nada. Minhas refeições seguem insípidas, inodoras e quase
insuportáveis. Toda vez que alguma coisa dá errada no meu fogão, portanto, abro
uma Coca-Cola, carioca e gelada pela minha Brastemp que às vezes arruína as
gelatinas, que viram uma mistura daquele vermelho envenenado com gelo. Tenho
economizado os biscoitos Maria mexicanos para esses momentos em que tudo parece perdido, esses sim bastante superiores aos
brasileiros.
Toda vez também que a gelatina se inviabiliza eu tento
instalar minha impressora. É uma busca meio ilógica por algum sucesso
doméstico, visto que impressoras foram feitas para vencer o homem, por mais que
você se esforce. Na tentativa de descobrir algum talento para me virar comigo
mesma, pego em armas e tento prender na parede a prateleira para abrigar todos
os potinhos de temperos que nunca garantirão a satisfação gastronômica. Tenho
até mentido para os amigos que me passam receitas “essa é mole, não tem o que
errar”. É claro que tem, até a tapioca se quebra quando a transfiro da
frigideira para o prato. A minha vida culinária, em resumo, se parece com a
minha vida amorosa: uso perfume Chanel antes de refogar qualquer coisa, ponho a culpa na panela, vou dormir com fome e concluo que aquela música do Kid Abelha, afinal, serve para tudo, inclusive para aquela crase que
você deixou passar no livro que estava preparando.
Somado a isso tenho agora 4 buracos na parede, duas
prateleiras que jamais ficarão suspensas como deveriam e uma encomenda da
Domino’s, que sempre terá aquele gosto (ruim) de Domino’s. É esse o meu
consolo: a constância e a segurança desse tipo de comida, a certeza de que
algumas coisas nunca frustram as expectativas e não sacaneiam a autoestima de ninguém.
É claro, sempre haverá um técnico credenciado para
resolver as pendengas tecnológicas, assim como sempre haverá Edilson, o
faz-tudo que usa cardigan, que combina um horário e aparece e faz parecer que
algumas coisas podem funcionar. Pessoas Coca-Cola. Felicidade garantida.
quinta-feira, janeiro 01, 2015
Cielito lindo
Esperando que la
aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas
estúpidas, escucho discos viejos,
me pregunto en qué momento
me pregunto en qué momento
los dinosaurios
sintieron
que algo andaba mal.
Fabián Casas
que algo andaba mal.
Fabián Casas
É dezembro e todos estão em praias paradisíacas, inclusive eu: o mar é tão turquesa que parece falso e brilha em certos trechos. Evitamos todas as ruínas maias, deitamos em redes de hotéis onde queremos nos hospedar no próximo verão, comemos peixe ao pôr do sol e caminhamos em direção ao carro com as ondas que chegam fresquinhas em nossos pés. Um barquinho cheio de pelicanos está ancorado no meio de uma tarde e logo mais navegamos com um marinheiro chamado Jesus, o segundo em 2 dias. A internet é precária nessa parte do México e falar de férias e das coisas de deus é tão complicado quanto encontrar cartões postais por aqui. E além disso, o que dizer? “Queria que você estivesse aqui para boiar comigo.” “Saudades.” “Te amo.” “Feliz ano novo.” Não seria mentira, mas quando se está de férias tudo é só mais ou menos verdade.
Come-se gafanhotos em Oaxaca, e também um sal feito de um
verme (minhoca? lesma?) com o qual se deve temperar rodelas de laranja para degustar depois de
uma dose de Mezcal: 40% de álcool feito de agave, passaporte para confissões e
a solução para o Carnaval no Rio. O Lindt é melhor que qualquer chocolate feito
por aqui, e sentimos saudades de Nescau. Faltam 43 estudantes no México e nem
toda a cor das casas coloniais meio decadentes desvia a atenção das paredes que
reivindicam a vida deles, nem todo o alvoroço das piñatas de papel maché impede
as manifestações discretas pelas ruazinhas antigas. Cartazes espalhados por
todos os cantos anunciam a noite de rabanetes, fogos e foguetes celebram a
festa da Virgem, para a qual chegamos atrasados, depois de passar por inúmeras
barraquinhas comandadas por zapotecas que vendem todo tipo de artigo religioso
cristão. Uma mistura de trajes e longas tranças típicas com cheiro de gordura e
cruzes católicas, uma população indígena que come pelas ruas o dia todo. Não se
pode nem mesmo chegar perto da entrada da basílica, mal se veem os estandartes
que desfilaram pela cidade minutos antes, uma multidão ocupa todo o espaço. Na
praça ao lado um grupo de adolescentes ensaia uma dança. 2 dias depois, no
jardim etnobotânico, uma dupla ensaia um pas de deux contemporâneo em meio a
cactos. “No Brasil as coisas estão na pele, na superfície. No México é tudo na
carne.”, diz a mensagem que chega enquanto tentamos entender essa confusão. Pode
ser. E ao mesmo tempo, de alguma forma, aqui tudo é mais evidente. “Fue el
estado”, dizem as letras apressadas. Desde há muito.
Voamos para o Distrito Federal com as malas mais pesadas.
Troco qualquer marca de luxo pelos bordados de Yalalag. Deixo Oaxaca com febre
e com uma coleção de vestidos: “Este é o seu traje de boda”, diz a vendedora
maravilhosa de uma loja idem que passaria por inverossímil num filme de
Almodóvar. Pelo pequeno labirinto do estabelecimento de paredes roxas um sofá
está posicionado na entrada, recostada nele uma figura platinada de unhas
brancas tão grandes quanto artificiais está descalça e tudo à sua volta está
coberto por farelo de pão. Em meio aos trajes há um pequeno altar de flores no
chão, uma panela elétrica que guarda um peixe para mais tarde, manequins
quebrados, aparelhos de esteira, máquinas de costura, capacetes de bicicletas,
bicicletas, jornais velhos, sacos plásticos entulhados de coisas e fotografias,
muitas fotografias enquadradas das 3 mulheres que tentam me convencer a levar
também uma saia. Jovens, pelo mundo, a cores e em preto e branco. Um dia,
talvez, queria ter um lugar fascinante assim, mas com menos sujeira.
Planejamos decorar nossas casas com cactos na volta.
DF é difícil e o Tylenol não resolve nada. Funciono em
dias alternados, consigo fazer o roteiro Frida e Diego e desisto
definitivamente dos postais. O Zócalo nos deixa a todos mareados, os tacos já
não parecem tão atraentes e o Buscopan mexicano é placebo. Entre pavões, mariachis,
caveiras e uma quantidade descomunal de gente sinto uma quantidade descomunal
de dor. Não tem nada a ver com as nossas impressões do país, mas sim com os
dinossauros. Dr. Javier, o médico mexicano, dá soquinhos nas solas dos meus pés e garante que não é apendicite. O ideal seria voltar para a praia ou para o topo daquela montanha
de piscinas naturais, aproveitar os últimos dias de idílio azul e água. A gente
faz casas mesmo em viagens, e o ideal seria voltar para elas.
O ideal seria que os começos de ano fossem de fato
começos, e não continuações mal remendadas de pendências, problemas gástricos e
sangramentos indomáveis. O ideal seria que as paixões infundadas fossem como as
férias, meio clandestinas para o resto do mundo e com data para terminar. A gente é que nem o México, parece. As coisas do mundo nos perfuram, não ficam mansas
na pele, não. Espero a aspirina no calor inclemente do Rio: é uma liberdade ter cortinas em casa e 5
quilos para engordar.
terça-feira, novembro 18, 2014
Bilhetinho para M.P.
Toda vez que novembro chega eu acho que a
progressão do cansaço está diretamente ligada com o passar dos meses, como se o
calendário, afinal, fizesse algum sentido cumulativo sobre a minha disposição,
quiçá da humanidade. Não deveria ser: o meu ano novo em 2013, por exemplo, foi
ali entre setembro e outubro, ainda que tenhamos estourado fogos e quebrado
taças no Reveillon.
Estou tão gasta que fiquei até cafona,
simplesmente não tenho capacidade de abrir o armário e entender o que se pode
combinar com o quê. Eu percebo nessas coisas: todo arroz gruda na panela, faço
suco com os ingredientes que encontro, mesmo que fiquem pela metade, deixo o mesmo disco no repeat, desisto de brigar com e/ou de me render a ele e fico
nesse limbo em que nada acontece. Nenhum beijo, nenhuma ruptura dramática, uma sucessão
de ponderações, análises, dúvidas, livros que nunca serão publicados e quando
me dou conta perdi as chaves da casa de M. Parece aquele filme em que todas as
manhãs o sujeito acorda no mesmo dia, um em que alguém fatalmente ficará sem
chaves, sem saco e sem saber. É claro, o chaveiro estava numa outra bolsa, mas
por um momento pensei que havia alguma espécie de maldição.
Você sabe diferenciar cisma de paixão? Ou é a
mesma coisa? Hoje vi num site de listas um par de brincos redondos com a cara
da Sylvia Plath estampada e é claro que pensei em você e gargalhei. Hoje vi, também, um farol onde as pessoas podem se hospedar, e agora me pergunto por que nunca pensamos nisso antes.
Talvez seja bom sair de férias em dezembro, ter a perspectiva
ilusória de que janeiro será janeiro e que alguma coisa, como naquela
primavera, vai mudar. Ainda que tudo acabe voltando.
Por favor, não se tranque pra fora de casa. Mas
caso o faça, me chame pra esperar o chaveiro com você. Ele pode querer
esquartejar duas pessoas.
quarta-feira, novembro 12, 2014
Panorama - dias 2 e 3
Um a um, seguindo as instruções da mulher sentada
na mesa de som à direita do palco, os atores do teatro Hora adentram a cena, se
posicionam no centro e encaram a plateia por cerca de um minuto – um ou outro
se vira e dispara em direção à coxia em questão de segundos. Outra vez, e ainda
individualmente, os mesmos atores voltam ao palco para dizerem seus nomes,
idades, profissões e deficiências. A maioria dos atores da companhia suíça têm
síndrome de down e reencenam em Disabled
theater a relação que estabeleceram com o anticoreógrafo francês Jérôme Bel,
também chamado por críticos e especialistas de um “provocador” da dança.
As instruções seguintes, então, determinavam que
os atores escolhessem uma música e executassem uma coreografia. Bel escolheria
as melhores para compor a performance. Todos os atores permanecem no palco,
sentados em cadeiras em semicírculo, enquanto os eleitos dançam.
A trilha vai de Charleston a Michael Jackson. “They
don’t really care about us” é dançada ipsis literis por Julia Häusermann, que até o momento de seu solo
tentava chamar a atenção do rapaz sentado a seu lado, o mesmo que tem um certo
grau de autismo. Julia se joga languidamente no colo do garoto, depois de
demonstrar uma energia pélvica de dar inveja, arrancando ainda mais aplausos. Os
atores também se agitam nas cadeiras em movimentos ora sincronizados, ora
espontâneos, marcando batidas ou frases das canções escolhidas com os pés ou
erguendo braços e punhos, às vezes cantando trechos.
Em seguida, os atores voltam ao centro do palco
para dizerem o que acham da performance e do trabalho com Bel. Um deles reclama
que queria dançar também, expondo sua mágoa com o diretor, que acaba cedendo
aos apelos e dá mais tempo para a execução das coreografias que haviam sido
deixadas de lado. Julia aproveita o momento para reclamar que queria mesmo
dançar ao som de Justin Bieber, ao que é atendida. Ela canta “Baby” com emoção:
é a grande estrela da noite. Saímos do (xexelento) Carlos Gomes encantados por
ela.
Por fim, eles agradecem com a vênia habitual, o
público delira e eu não sei o que fazer. Fico atenta aos comentários da plateia
à saída do teatro, converso com um casal de amigos que também estava lá, leio
mil críticas e mando os links para eles, porque teremos tempo suficiente do
Centro à Cidade das Artes, no dia seguinte, para debater tudo o que for
pertinente. A única coisa que concluo é que morro de preguiça, e então para
mudar de assunto conto para eles que uma vez, há uns anos, denunciei um foco de
mosquito que havia no lobby do teatro. Era o auge da dengue e havia uma espécie
de disque-denúncia de focos de mosquitos, o que provavelmente ainda existe, e
você podia acompanhar o desenrolar das ações municipais.
::
A Cidade das Artes é quase tão desoladora, numa
outra esfera, quanto o Carlos Gomes, e nunca sei se as obras estão prontas ou
se ainda faltam coisas – grama, acabamentos e afins – mas também nunca sei se a
Travessa de Botafogo está completamente concluída.
Drumming é uma coreografia de 1998
do Rosas, a companhia belga de Anne Theresa de Keersmaeker. Com música de Steve
Reich e figurinos de Dries van Noten. Drumming
é exaustiva, composta de uma sequência de movimentos e gestos espiralados, e te
coloca num transe, parte por causa da música, parte por causa da dança. Uns
acham datado, outros saem da grande sala reproduzindo braços e pernas aqui e
ali e eu não sei o que fazer, mas por outra razão. Drumming, para mim, é até meio simples: gente dançando num patamar
de excelência bonito de se ver. É mais ou menos o que eu quero, sempre.
domingo, novembro 02, 2014
Panorama - dia 1
"You were born naked and the rest is drag."
Ru Paul
Trajal Harrell está na porta do Teatro Café Pequeno cumprimentando cada um que chega para assistir seu número. Ele é um negro americano baixinho com olhos que ocupam quase todo o seu corpo e que imagina o que teria acontecido se alguém da tradição Vogue tivesse encontrado os bailarinos pós-modernos da Judson Church em 1962, em NY. Por acaso eu mais ou menos sei um pouco das duas coisas, e o que me leva até ali numa tarde quente de 2012 é justamente a expectativa de ver uma possibilidade desse encontro impossível. Poucas pessoas têm a mesma curiosidade que eu e quando fica evidente que ninguém mais vai aparecer ele nos convoca a sentarmo-nos em círculo no chão, explica sua ideia e nos distribui textos em uma espécie de apostila. Ele nos avisa que treme em função da intensidade dessa performance e da proximidade com o público. E numa quase escuridão nos entrega a versão XS de seu “20 looks or Paris is burning at the Judson Church”.
Ru Paul
Trajal Harrell está na porta do Teatro Café Pequeno cumprimentando cada um que chega para assistir seu número. Ele é um negro americano baixinho com olhos que ocupam quase todo o seu corpo e que imagina o que teria acontecido se alguém da tradição Vogue tivesse encontrado os bailarinos pós-modernos da Judson Church em 1962, em NY. Por acaso eu mais ou menos sei um pouco das duas coisas, e o que me leva até ali numa tarde quente de 2012 é justamente a expectativa de ver uma possibilidade desse encontro impossível. Poucas pessoas têm a mesma curiosidade que eu e quando fica evidente que ninguém mais vai aparecer ele nos convoca a sentarmo-nos em círculo no chão, explica sua ideia e nos distribui textos em uma espécie de apostila. Ele nos avisa que treme em função da intensidade dessa performance e da proximidade com o público. E numa quase escuridão nos entrega a versão XS de seu “20 looks or Paris is burning at the Judson Church”.
Dois anos depois entro num taxi com um casal de amigos e
comento que sim, sei mais ou menos do que se trata o espetáculo para o qual nos
encaminhamos num novembro não menos inclemente. Pouco depois o mesmo Trajal, com
seus olhos engolidores, mas agora de cabeça raspada, está na entrada do acesso
à plateia do Teatro Municipal, e logo no palco, microfone em punho,
contando para todos nós que a versão L de “20 looks or Paris is burning at the
Judson Church” não tem qualquer intenção de recriação histórica, mas que se
trata de uma hipótese imaginativa que só pode acontecer hoje e agora, conosco.
É bom se sentir especial, mesmo que.
Trajal treme. Seu espetáculo pode variar de tamanho e
duração dependendo das condições e locais de apresentação. O que nos espera é
uma versão que ainda mistura Antígona em cerca de duas horas que ele nos garante
que passarão mais rápido do que possamos perceber. Um de seus bailarinos entoa,
à capella, o hino da casa deles: “Hit me baby one more time”, da Britney
Spears, arranca risadas. A minha solidão também está me matando.
Bailarinos vestidos discretamente de preto e branco dançam músicas pop alternadamente, iluminados por um foco de luz sobre um quadrado
branco e já desconfio de que passarei o domingo todo ouvindo repetidamente uma canção da Tori Amos que é quase uma intimação para se jogar. Além de Trajal, são
mais 4 em cena, e todos são um acontecimento, especialmente aquele que,
calçando saltos vertiginosos e exibindo um peito de pé inverossímil, encarnará o apresentador do desfile de príncipes, sem se dar por satisfeito. O
desfile das “mães” vem logo em seguida, e é um pouco mais alentador assistir a
tudo isso se você tiver visto Paris is
burning, o documentário de Jennie Levingston que retrata os bailes do
Harlem dos anos 80, movimento de um submundo gay e transgênero em que a dança
Vogue surgiu, em alusão à revista de mesmo nome. O clipe da Madonna ajuda a
entender um pedacinho, mas tudo vai muito além, inclusive a performance de
Trajal.
À parte qualquer didatismo ou escola de dança envolvidos
nesse encontro imaginário, o show de Trajal é louco, divertido, interminável e lá pelas
tantas faz pensar que uma versão tamanho M poderia ser melhor. Confesso que a
poucos minutos do final abandonei o barco, otimista com a perspectiva de fazer
xixi sem fila e divertida com a mensagem de uma amiga que me perguntava “você
também está neste suplício travecoso?” – e que, depois que furei o
jantar, me desejaria mais 5 horas de “travestis convulsionantes”. Realmente,
que canseira. Realmente, que liberdade, e eu que achava que ter cortinas em
casa te dava aval para qualquer coisa.
Entre narrações, músicas cantadas pelo próprio coreógrafo,
jograis insanos (“Se fossem alunos da CAL num teatro obscuro a gente ia achar
uma merda, Julia!”, disse alguém no caminho de volta, e eu ri), fios que se
estenderam das mãos de Trajal até os fundos da plateia do teatro por sobre
nossas cabeças graças ao bailarino francês pulando de cadeira em cadeira,
mitologia, questões de gênero, sexualidade e recortes culturais de coisas que
amaria ter visto ao vivo o que sobressai é um mundo tão de Trajal que muitas
coisas soam como piada interna. Mas todo mundo se contorce quando ele afirma
que deveríamos reivindicar uma Uniqlo à Dilma.
Deveríamos ter tirado fotos do grupo de drag queens que
causou furor no Teatro, possivelmente deveríamos ter nos entregado mais quando
Trajal conclamou uma festa em todos os setores do teatro e parte do público,
resistente, levantou, dançou, gritou, aplaudiu enquanto outra parte se sentiu
obrigada a, na expectativa de que aquilo fosse o encerramento tão aguardado.Outros já tinham ido embora há tempos.
Deve ser anarquia. E depois de revirar os olhos seguidamente, eis que fiquei parte do dia seguinte atormentada. Deve ser aquilo que o Salinger diz
nas últimas frases do Apanhador:
“Don’t ever tell anybody anything. If you do, you start missing everybody.”
quinta-feira, outubro 23, 2014
-
Definitivamente
a vida de uma pessoa pode ser dividida entre antes e depois de você.
-
Antes
era quando ninguém te perseguia, né?
-
Antes
era quando ninguém me amava com o teu padrão de excelência. Não tem comparação,
todos viram amadores perto de você.
-
Minha
analista tá te dando dinheiro?
-
Taí
um bom freela.
-
Se
ela aumentar o preço da consulta eu já sei a razão.
-
Eu
posso ser o HD externo da sua autoestima!
-
Então
posso transcrever isso e colar na porta da geladeira?
segunda-feira, outubro 20, 2014
NY - vol. 5
É engraçado, ontem me dei conta: paixões
começaram fulminantes e terminaram idem nesse tempo em que você esteve fora, e
parece que tanta coisa aconteceu na sua vida e em outras que quando você me perguntar
das novidades eu só poderei te contar que queimei um risoto, quebrei tapiocas e
fiz sopas sem gosto, porque acho que foi isso mesmo o que aconteceu comigo. A
minha vida culinária é como a minha vida amorosa: eu digo que está tudo bem,
mas no fundo não tenho tanta certeza, e é fácil botar a culpa na panela, às
vezes. Tenho dormido com fome, mas ainda não emagreci. Às vezes, também, quero
falar com você o tempo todo. De certa forma já o faço, mas é melhor quando é de
verdade.
Poderia te contar, também, de como os antúrios
ficaram esquisitos, mas é melhor você ver com seus próprios olhos, e eu juro
que não tenho nada a ver com isso, assim como não tenho nada a ver com o fato
da porta da frente ter voltado a se abrir quando estou por aí – mas há
controvérsias. Portanto mais um motivo pra voltar logo, preciso de ajuda para
evitar os desvios.
sexta-feira, outubro 10, 2014
NY - vol. 4
Tenho percorrido supermercados, feiras e barraquinhas de
plantas atrás de vasinhos de temperos e ervas e hoje, ao perguntar a um sujeito
que tinha pimentas em abundância se por acaso ele teria hortelã a resposta foi
“não, mas tenho begônia” e eu fiquei pensando se era uma piada que eu tinha
perdido, ou só uma tentativa de compensar pelas coisas que a gente não
encontra.
Sinto os braços doloridos da ginástica, e outro dia, ao
ficar meio flutuando de cabeça para baixo e perceber como as outras 3 pessoas
ficaram me observando enquanto não conseguiam chegar na postura, fiquei
pensando sobre essas partes de nós que a gente não enxerga. Dançar é um pouco
assim. É claro, nem sempre, você sabe as linhas do balé e tem sempre um espelho
pra denunciar seu arabesque torto. Mas com as outras danças, as que eu gosto,
você dá forma ao corpo sem ver, e é só quem está do lado que pode avaliar se a
sua falta de jeito pode virar outra coisa. O tempo todo você dança com a
hipótese de uma “deformidade”, ou no mínimo de uma imagem inapreensível, e é
esse o motivo: descolar da cabeça essa busca por um movimento bonito, simétrico
ou belo, porque o que vale é o gesto.
Acho que é por isso, também, que pra mim é tão difícil me
desligar de algumas pessoas. No meu desktop ficou um arquivo inconcluído
chamado “é menos você no mundo”. Foi uma conversa com C. Falávamos de alguém
que morreu, mas com os vivos também é assim, porque o outro tem uma parte de
nós que só ele tem, que só existe com ele. E a gente vai perdendo pedaços. Sei
que isso não deveria servir como justificativa para certas reincidências. Mas
serve. Tenho medo de perder pedaços que eu ainda nem sei direito que cara têm.
Acho que é por isso, também, que talvez a oferta de begônias faça mais sentido
do que pareça.
domingo, setembro 28, 2014
NY - vol. 3
Tenho feito tentativas estúpidas de frequentar festas sem
você. Mesmo que as músicas às vezes sejam as minhas, as danças nunca são as
nossas. Sábado terminei o livro, faltei compromissos, distribuí desculpas para
lá e para cá, e parte da noite delirei com 3 músicas no repeat e um componente
ilícito. Domingo não tem erro: leio poesia na rede, penso em ficar para dormir,
mas tem toda a problemática do meu café-da-manhã homeopaticamente correto e já
penso em te comprar uma centrífuga de presente.
sexta-feira, setembro 26, 2014
NY - vol. 2
"Retrospectivamente, é inacreditável: quando Michel me anuncia
que passará dois meses fora de Paris no verão e me pergunta se quero ficar em
seu apartamento durante esse tempo - e apresenta a proposta como sendo uma
ajuda minha, as plantas da varanda precisam ser regadas todos os dias -, aceito
sem pestanejar. No entanto, novidade desse tipo não faz meu gênero. Tenho a
impressão de que o apartamento já vive em mim. Ele é dos mais espaçosos, dos
mais luxuosos, não há melhor. Morar ali é morar na própria juventude."
Comecei a ler
o Mathieu Lindon e queria que leitura fosse algo que se pudesse fazer a dois ou a muitos, como uma sessão de cinema. O Michel a que ele se refere é o Foucault, que em algum ponto da história pouco se importa por todas as plantas terem morrido. Não se preocupe, eu jamais faria isso.
quinta-feira, setembro 25, 2014
NY - vol. 1
Verdade seja dita, é tanta ida e vinda que eu já
nem sei mais onde você está, quando volta, se a diarista vai aparecer, se devo
repor as laranjas que bebi, se tudo bem deixar os papeis espalhados pela sua
mesa mais alguns dias. Sua orquídea me parece bem morta e todo sábado considero
os copos-de-leite numa esquina próxima, mas há muitas variantes como todas as
acima, afinal não sei qual é o prazo de validade deles, menos ainda quando te devolvo
suas chaves.
Sonhei que íamos a Búzios ou outra cidade
litorânea para a inauguração de uma filial da Shakespeare and Co. Na praia ela
era uma mistura de Saraiva com a seção infantil da Travessa de Botafogo. Sim,
um pesadelo. Acordei e comprei 12 livros na Amazon.com, alguns dos quais já
estavam no meu carrinho há meses. Ok, confesso, é o que tenho feito na sua
rede: compras imaginárias em carrinhos virtuais, nunca vou até o fim do
processo, até porque o wi-fi não chega muito bem ali. Os papeis na mesa são
apenas cenário, não pense que estou escrevendo. Mas quem sabe. Ainda temos
tempo. Temos, né?
segunda-feira, setembro 15, 2014
Vitória - vol. 1
O cachorro já não anda e saí prejudicada da
última aula de ginástica: estas seriam razões suficientes para ficar gripada,
perder todas as festas, as mostras, os acontecimentos e me recuperar somente a
tempo de assistir a uma peça de teatro que vocês também odiaram. Outras
desculpas possíveis têm a ver com aquela série que finalmente comecei a
assistir, mas algo me diz que o verdadeiro motivo para a minha voz constipada é
esse deserto simultâneo em Gávea e na Pompeu Loureiro. Sinto falta de cuidar
das plantas e dos bichos alheios e de ficar imaginando o que eu copiaria de
outras casas caso tivesse a minha.
Tomo o meu cappuccino preferido sozinha, aquele
industrializado o suficiente que me esquenta sempre com o mesmo sabor. É só
comigo ou é reconfortante poder confiar em alguma constância na vida?
Quando acordar na segunda-feira vou me render a
um Neosoro, outra coisa que sempre dá certo. Vou almoçar kafta, talvez. Desejar
uma recaída para ver o quarto episódio com o poodle roncando na minha barriga.
quarta-feira, setembro 03, 2014
Ou o jeito que você erra
“Um dia eu vou ficar bem
Só pra te querer mais”
Marcelo Camelo em Pode ser, da Banda do Mar
Todo aquele disco, afinal, despertou em mim uma
vontade maluca de fazer cafuné em alguém, justamente na semana em que eles
disseram que era ótimo que eu não escrevesse sobre amor e afins, e a essa
altura da conversa eu já estava distraída demais pensando se aqueles cabelos à
minha frente eram propícios a todo o carinho que eu poderia oferecer. A
possibilidade de me apaixonar naquela semana ficou totalmente condicionada ao
que a minha imaginação construía ao redor dos cabelos das pessoas com quem eu
me deparei. A textura certa e a quantidade ideal de ondas, além do controle dos
índices de oleosidade, poderiam me levar a um enamoramento daqueles que põem
medo.
Põe medo quando ele se levanta para ver alguma
coisa na parede e aproveita para deslizar dois ou três dedos pelo meu braço
apoiado no espaldar da cadeira: para, faz um comentário e esquece a mão ali no
meu ombro esquerdo, como se fosse muito natural arranjar qualquer desculpa ou
ameaça de mosquito no meio da sobremesa só pra encostar em mim neste lado onde
tenho mais sardas. Calculo mentalmente o tempo que ainda falta para ser
plausível dizer a ele que já está tarde, assusto-me ao perceber.
Assusta a quantidade de uvas em nossos copos
cheios de cachaça, nossa incapacidade com furadeiras, pregos e parafusos e a variedade
de padrões de tomadas e lâmpadas que há neste mundo. A única decisão que
podemos tomar, afinal, é a disposição dos quadros, quase todas as serigrafias e
desenhos a carvão invadidos por fungos, apesar de todas as blindagens e
químicas prometidas numa etiqueta no verso das molduras. Desenhamos nas paredes
os retângulos, levamos as obras para o carro e antes que eu fale qualquer coisa
– e pra você eu nunca falaria – você diz que já está tarde, que eu preciso
dormir, que amanhã, nem dá tempo de treinar na sua cabeça as linhas e rabiscos
que eu iniciaria depois de fingir que havia alguma coisa presa nos cachos dele,
peraí, vem cá. E nem comeríamos as entradas, emaranhados em nossas ferrugens e saudades, isso sim põe medo, isso sim.
Eu
não suporto OS DEPRIMIDOS. Parece um emprego, é a única coisa que merece algum
esforço da parte deles. Olá, minha depressão vai muito bem hoje. Olá, hoje
estou com outro sintoma misterioso e vou estar com um diferente amanhã. Os
DEPRIMIDOS são cheios de ódio e bile, e quando não estão tendo ataques de
pânico estão escrevendo poemas. O que eles querem que seus poemas FAÇAM? A
depressão é o que há de mais VITAL neles. Seus poemas são ameaças. SEMPRE
ameaças. Não existe sensação mais aguda ou mais ativa do que o sofrimento
deles. Eles não têm nada exceto sua depressão. É só mais um serviço de
utilidade pública. Como eletricidade e água e gás e democracia. Eles não
poderiam sobreviver sem isso. MEUS DEUS, EU ESTOU MORTO DE SEDE. ONDE ESTÁ
CLAUDE?
Deborah Levy em Nadando de volta para casa
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