terça-feira, setembro 27, 2016

clipping # 6


Duas leituras generosas do Cravos:

No blog Letras In Verso e Re Verso, Pedro Fernandes faz uma leitura cuidadosa e bem reflexiva, e gosto, particularmente, da forma como ele vê a influência da “geração mimeógrafo” em cruzamento com as escritas de si em blogs e redes sociais (mas ele vai bem além disso). O link é este.

No Literasutra, a Adélia Jeveaux foca mais no aspecto da dança e de como escrever o que é o do corpo, e gostei muito da maneira que ela faz da resenha um espaço de confissão de sua própria saudade. Clique aqui para ler. 


sábado, setembro 10, 2016


Está enganado quem pensa que o aleijado não sabe nada das sanhas do corpo. Somos nós, os mancos, os malformados, os amputados, os obesos e minúsculos, os alérgicos, os hemofílicos, os hemiplégicos, para, tri e tetraplégicos, os anões, os albinos, os sempre-gripados, a legião inteira de indivíduos salvos da seleção natural pela compaixão humana, somos nós que entendemos a glória dos músculos e tendões, as minúcias da troca de calores. (Tantas vezes imaginei jogar bola, brigar de galo, tacar pedra em vidraça!) O corpo sadio que nos falta foi refeito tantas vezes em sonho que somos capazes de inventar um novo corpo, um corpo além, um corpo além de lindo, um corpo de Cristo, mas de pele tão firme que a coroa de espinhos não feriria e os pregos não conseguiriam perfurar. Imagina quão mais belo teria saído o Davi se Michelangelo não tivesse os braços. E a Vênus de Milo.

Victor Heringer em O amor dos homens avulsos (Cia das Letras, 2016)


sexta-feira, setembro 09, 2016

clipping # 5


A edição de setembro da Vogue Brasil indica, entre outros, o Cravos.  



quarta-feira, agosto 31, 2016

clipping # 4


Fabiane Pereira me entrevistou para sua coluna que trata de literatura, feminismo e política no site Heloisa Tolipan. À parte o terceiro tópico, conversamos sobre os outros itens e, principalmente, sobre o Cravos, aqui.


segunda-feira, agosto 22, 2016

clipping #3


Conversei com o Bolívar Torres sobre o Cravos para o “Segundo Caderno” d’O Globo. Ele fez uma ótima síntese do livro e de tudo o que trocamos, leia aqui. 




segunda-feira, agosto 01, 2016

clipping #2


O escritor Carlos Henrique Schroeder fez uma entrevista comigo para o blog do Record. Falo um pouco sobre os bastidores de Cravos, meu romance que começa a chegar às livrarias essa semana. Leia aqui. 


domingo, julho 24, 2016

clipping


O Bolívar Torres, jornalista e escritor, criou a seção “Abstrações” na revista Pessoa, uma série de entrevistas surreais e divertidíssimas com as perguntas que realmente importam. Respondi a nove delas essa semana, veja aqui. 



sexta-feira, julho 08, 2016

Sonho #2


Acordei com a impressão de ter passado a noite abraçada a M., e escrevi para ele imediatamente, antes mesmo de me levantar para ir ao banheiro. “Sonhou comigo?” “Como você sabe?” No sonho dele a gente jogava golfe, ou melhor, eu fazia tacadas sensacionais enquanto uma amiga se encarregava de pegar as bolas. No meu a gente se encontrava num apartamento enorme na praia de Copacabana, e se abraçava tanto que era quase como esses remédios que a gente toma pra esquecer. Ele respondeu com emojis de coração. Eu disse que depois de um tempo a namorada dele ficava meio brava, e ele disse que na vida real isso era improcedente. E combinamos, então, ficar um dia inteiro abraçados, pra ver se passa. 


segunda-feira, junho 20, 2016

Havia dias em que eu escrevia tanto a seu respeito que ele já não era muito real, de modo que, se de repente eu ficava face a face com ele numa rua, ele parecia mudado. Eu tinha conseguido drená-lo de sua substância, eu pensava, e preenchido meu caderno com aquilo, o que significava que em certo sentido eu o matara. Mas então, quando voltava para casa, a substância parecia estar nele mais um vez, onde quer que ele estivesse, porque o que agora estava vazio e sem vida era o que eu escrevera.


Lydia Davis, O fim da história (José Olympio, 2016, tradução de Julián Fuks)


quarta-feira, maio 18, 2016

Sonho #1

Recebo um convite com um mapa e um desenho de uma biblioteca, sigo os passos indicados e vou dar no mesmo cenário ilustrado pelo papel, percebo aos poucos pelos elementos: um relógio antigo, as almofadas aveludadas do sofá e uma estranha ausência de livros, exceto pelo seu, novo, um volume de contos, e é por isso que você está ali, numa biblioteca que aos poucos se revela o segundo andar de uma livraria no Centro da Cidade, eu sou a primeira a chegar, uma saudade que não posso medir, e dou de cara com você, bigode e cabelos louros que nunca vi, me abraça e me beija com uma saudade igual à minha, como se não tivesse havido hiato algum, ou ao contrário, como se tivéssemos ficado tempo demais tão longe, e imediatamente após me deixar sem fôlego cola um post-it sobre a minha boca, me pede pra te esperar ali embaixo e vai receber os amigos que já começam a chegar, leio um “te amo” escrito em caligrafia estranha, noto que você está mais alto, vejo de longe uma festa começar, você no meio, lançando pedidos de espera com os olhos, eu desço as escadas sem entender, você morava em outro país, e de repente acordo e percebo que, apesar dos esforços, ainda dói um bocado, me dou uns tapinhas nas costas e digo pra mim mesma “calma, vai passar, já passou”. 


sábado, maio 14, 2016

Desvios


Exercício, parte 1:
Trace um caminho pela sala e repita esse caminho em 8, 4, 2 e 1 tempo. Repita toda a sequência acrescentando movimentos com os braços. Repita uma terceira vez incluindo o tronco na movimentação. Na quarta vez feche os olhos, esqueça os tempos e faça o caminho o mais lentamente possível, continuando a movimentar braços e tronco.

Parte 2:
Quando a próxima música começar, ainda de olhos fechados, esqueça o caminho, explore outras direções e continue se movendo o mais lentamente que conseguir.

Parte 3:
Percebeu que você estava num estado de recolhimento, executando gestos que quase entravam em si, e quando pôde abandonar o caminho a sua postura mudou e tanta coisa começou a acontecer no seu corpo? 


quarta-feira, fevereiro 24, 2016

The blues

(Para Elisa)

"Once I travelled to the Tate in London to see the blue paintings of Yves Klein, who invented and patented his own shade of ultramarine, International Klein Blue (IKB), then painted canvases and objects with it throughout a period of his life dubbed ‘l’époque bleue’. Standing in front of these blue paintings, or propositions, at the Tate, feeling their blue radiate out so hotly that it seemed to be touching, perhaps even hurting my eyeballs, I wrote but one phrase in my notebook: too much. I had come all this way, and I could barely look. Perhaps I had inadvertently brushed up against the Buddhist axiom , that enlightenment is the ultimate disappointment. ‘From the mountain you see the mountain’, wrote Emerson."
Maggie Nelson, Bluets (Wave Books, 2009)

Os primeiros grifos da minha edição de Estação Atocha, do Ben Lerner, estão nas páginas 10 e 11, no trecho em que o narrador fala sobre os guardas de museus e o fato de os mesmos passarem boa parte de suas vidas diante de quadros eternos, ao passo em que o público só se dirige a eles para perguntar pelos banheiros e pelo horário de encerramento dos museus. 10:04, o meu segundo Ben Lerner, chegou no fundo de uma caixa da Amazon, debaixo de dois livros da Maggie Nelson. Dele, até agora, só sei que tem alguma relação com o De volta para o futuro – o exato horário em que um raio atingiu a torre do relógio, permitindo a Marty McFly voltar a 1985 no primeiro filme da triologia – e que traz na quarta-capa da edição americana um elogio de Maggie Nelson.

Outra caixa da Amazon, recebida no mesmo dia da primeira, continha, por sua vez, 6 livros da Cosac, porque resolvi estocar e presentear amigos com alguns livros que amo e que logo não poderemos mais comprar. Nove livros numa terça-feira em que que abri espaço nas estantes, encontrando, por isso, Uma idéia toda azul, com acento mesmo, livro da Marina Colasanti com a etiqueta da Malasartes na folha de rosto, um dos poucos que guardei da infância. Não tenho nenhuma recordação da história, mas numa folheada encontrei fadas e Kublai Kahn, o que me fez pensar que talvez seja um Calvino disfarçado.

Resolvi começar por Bluets, um ensaio da Maggie Nelson que trata de tudo o que é azul, principalmente a saudade. Abri o livro enquanto aguardava uma sessão de cinema, grifei uma frase na página 5 e por coincidência encontrei uma amiga que também estava ali sozinha para o mesmo horário.

A garota dinamarquesa é um filme azul acinzentado, sobretudo quando Eddie Redmayne e Alicia Vikander estão em Copenhague. As paredes do apartamento dos protagonistas são azuis, muitos dos figurinos de ambos são azuis – você e eu cometeríamos crimes por algumas das peças usadas por Gerda – e a complexidade da questão central é da mesma cor, em uma de suas muitas tonalidades. As cenas parecem pinturas, daquelas que nos fazem desafiar os guardiães da ordem dos museus, o impulso é tocá-las para ver o que há por trás das tintas.

Sonhei com nosso antigo trabalho, o que tem acontecido religiosamente de duas a três vezes por semana, e nessas ocasiões acordo e vou pedalando para a yoga, quase sempre com roupas verdes, simbólico, talvez. E ao chegar no trabalho novo esbarrei com uma reportagem sobre as civilizações antigas que não reconheciam a cor azul. Não li, ficou guardada para depois, Maggie Nelson foi mais urgente. Hesitei, mas acabei colando na parede do novo escritório o velho postal de uma pintura azul do Yves Klein que habitava aquela nossa baia também azul, mesmo que fosse too much.

Terminei o livro enquanto assava batatas. Quis plagiá-lo. E pensei que escrever é sempre uma tentativa fracassada de plagiar o que vai nas nossas cabeças e peles, ainda que, quando os outros o fazem, não pareça nada disso. Parece apenas que pode dar certo, de algum jeito.

Pensei numa conversa que tivemos há pouco tempo, quando o Tico falou que gostava de McDonald’s e do De volta para o futuro quando está triste. Acho que é nessa lembrança que esse texto talvez faça algum sentido.

A playlist mais óbvia começaria com “Almost blue” ou "Space Oddity" ("Planet Earth is blue and there's nothing I can do"), mas acabei me lembrando de “Um bilhetinho todo azul”, música do Cazuza, que termina com os versos “Ver o amor feito um abraço curto /Pra não sufocar”. 



domingo, novembro 29, 2015

Diário de Lisboa - parte 2


Está lá, finalmente, na página 295 da poesia completa da Alejandra Pizarnik, numa edição bonita que estava juntando poeira há tempos na mesinha, o verso que Alexandra Lucas Coelho citava na página 123 de um romance, ou ainda cita, citará toda vez: “Alguna vez, tal vez, encontraremos refugio en la realidade verdadeira. Entretanto ¿puedo decir hasta qué punto estoy en contra?” Foi como encontrar um tesouro. Há um ou dois dias Raduan Nassar completou 80 anos e, claro, folheei os 3 volumes dele, coisas como “suas mãos eram inesgotáveis” sublinhadas, justo no dia em que decidi terminar de escrever o meu próprio livro, que fala de mãos inesgotáveis. Parecem sinais, não sei bem de quê, L. usou essa frase uma ou duas vezes durante a curta vida que tivemos juntos, quando descobriu no meu corpo algumas medidas que tinham o exato tamanho de suas mãos (inesgotáveis, evidentemente), ou quando nos cruzamos em Botafogo sem combinar, já achando (ou tentando achar) que não nos veríamos mais.

Carol é da opinião de que o aniversário é dele mas o presente deveria ser nosso, um lançamento de um livro que já ninguém mais especula que exista, ou que já ninguém mais julgue necessário depois do que ele já escreveu. Tem uma beleza aí, Raduan em sua fazenda enquanto todos nós tentamos desesperadamente alguma reclusão que dê conta de nossos manuscritos. Eu poderia pegar um avião e me instalar numa praia por dias até que resolvesse isso, mas tenho tido inércia até pra comprar pão. De tempos em tempos, portanto (de horas em horas, mais precisamente), arrumo a bagunça do sofá, ponho pra fora os jornais acumulados e passo o olho pelo arquivo que leva o nome de Cravos_nov2015, com a desconfiança de que ainda tem um buraco ali, com a suspeita de que eu talvez já não saiba mais como preencher porque já misturei todas as histórias possíveis, com a certeza de que nunca o darei por encerrado. Na prática, às vezes, alguma teoria literária afinal faz sentido. Mas eu diria que é mais angústia do que qualquer outra coisa, esse medo que é ter de fazer essa coisa totalmente sozinha, mesmo que as estantes estejam já abauladas de tantos livros.

Pouco antes de encontrar os versos da Pizarnik, deparei com estes também dela: “Sí, lo malo de la vida es que no es lo que creemos pero tampoco lo contrario.”

Fiz o terceiro chá do dia e fiquei aqui pensando numa música que ouvi essa tarde num aniversário de criança e que diz: “Caranguejo não é peixe / caranguejo peixe é / caranguejo só é peixe na enchente da maré”. É bom que o autor explique a confusão, mas tá na cara que seguimos produzindo adultos confusos, ou que, ao menos, em algum ponto desses dias chuvosos, precisem de comprovação científica de alguns fatos. Ou poética. 



quarta-feira, novembro 18, 2015

Diário de Lisboa - parte 1


Se acabó la bossa nova
y empezamos a correr el dial.
Los pájaros hambrientos
que estuvieron viajando durante la noche
ahora picotean los techos de nuestros autos. 
Las calles están cortadas, no hay comida
y ya nadie cree
que podamos organizar el próximo Mundial. 

Fabián Casas


Minha mãe sempre conta de quando o Collor confiscou o dinheiro de todo mundo: ela e os amigos que moravam perto de nós passavam o dia todo na praia sem saber o que fazer, tomando sorvete Itália, que era raro de passar naquela época, ao contrário do Dragão Chinês e da Maria Thereza Weiss. Acho que ainda não tinha ciclovia na Barra, quando começaram a substituir os trailers por quiosques padronizados foi super esquisito. Talvez ainda tivesse o caminhão do Churros Del Uruguay estacionado na Praça do Ó, em frente ao Via 11. Eu fazia jazz na esquina de casa e ainda não sofria do quadril, e tudo o mais sobre aquela época já foi contado em crônicas hilárias do Antonio Prata: as pessoas fumavam em restaurantes, ninguém usava cinto de segurança e os pais alertavam suas crianças pra não chegarem muito perto das janelas, que não tinham redes de proteção. Quem queria ser louro acreditava no xampu de camomila, todo mundo usava aquele Sundown gordurento no rosto e a gente entulhava gente em carros no rodízio para a escola. Eu marcava cinema com a Marcelle e a gente se encontrava no meio do caminho, no Barrinha verde. Ou não, posso estar confundindo tudo.

O caso é que ontem Carol me falou que o Jagged Little Pill, da Alanis Morissette, fez 20 anos e eu não podia crer que tinha só 13 e cantava “You oughta know” com sentimento. Eu assistia muito MTV, amava os clipes do Foo Fighters e dos Paralamas do Sucesso e pensava em ser diretora de arte, ainda que não soubesse que essa profissão existia. Meu quarto era uma bagunça sem nenhuma referência artística decente e cheio de pôsteres do Kurt Cobain, o que já dava provas de uma vocação nula para a coisa. Eu gostava das colunas de um Marcelo Pires na Capricho e colecionava páginas dela, que se chamava “PS do PS do PS”. Numa delas ele citava uns poemas da Martha Medeiros, e parte da minha adolescência foi feita de leituras dos livros dela. Hoje torço o nariz, e imagino o que terá acontecido ao Marcelo Pires e àquela minha pasta de recortes. Em 2015 eu continuo amando aquela caixa de leite otimista do clipe do Blur e por alguma razão toda vez que escuto “Tender”, da mesma banda, imagino a caixinha fazendo um lip synch simpático. Há pouco tempo ouvi uma música do Gorillaz que dancei muito em festas, ou acho que dancei muito em festas. Há uns meses coloquei “Changes”, do Tupac, pra tocar numa festa. A reação foi menos entusiasmada do que eu esperava. Há uns dias coloquei Alice in Chains no iTunes, Laney Stanley eternamente soará para mim como um gato miando, eternamente amarei o verso final de “Would”. Eu sabia tocar (mal) “Come as you are” no violão, hoje tenho parte da letra escrita na parede de casa, junto a poemas contemporâneos que falam de dinossauros, boleros, danças. Ainda guardo, também, uma camiseta do Nirvana que ainda me cabe. Uso pra dormir. Às vezes.

3 outros amigos foram demitidos, já não sabemos mais se é melhor acreditar no Rumos do Itaú Cultural, na Mega Sena ou numa casa coletiva em Mauá. Os remédios pra dormir, há relatos, também estão falhando com todos, parece que só sexo mesmo. "Voltamos a viver como há 10 anos atrás" (sic), a conta de luz aumentou outra vez, eu ainda acho que quebrei o pé, apesar do raio-x que me desmente, e torço pra que pelo menos um edema apareça na ressonância, porque alguma coisa precisa fazer sentido nesse novembro em que tenho que checar se os amigos foram atingidos por ataques terroristas.

Em 1996 o ingresso do show da Alanis Morissette no Metropolitan custou R$ 25,00, a Carol estava lá também, mas ainda não sonhávamos em nos conhecer. Imagina? Uma leve bateção de cabelos virgens de Minoxydil e/ou tonalizante. Não me lembro quem estava comigo, mas tenho vivos na memória os gestos característicos da Alanis, achava o máximo ela cantar “I’m broke but I’m happy”, achava meio romântico, sei lá. Carol identificava Alanis ao feminismo, embora ainda não se falasse de empoderamento e ainda não se usasse frases de “Águas de março” no Facebook toda vez que chove em março. Não que uma coisa tenha a ver com a outra, mas você sabe.

Hoje meu sobrinho faz 5 anos. Corremos pelo shopping e caí no chão com ele. Um dia antes, marquei meu primeiro peeling na dermatologista. Idade é um troço relativo mesmo, veja só, em um momento a gente luta com o moleque em espaço público, no outro passa ácido na cara pra dormir em guerra contra as sardas. Hoje deu praia, um sujeito esquisito me pediu opinião para escolher um par de óculos do vendedor ambulante no posto 12, eu fingi que não entendi e aumentei o volume dos fones, tão óbvio, “I’m lost but I’m hopeful, baby”, como é que vou opinar nos óculos alheios, não estou esperançosa, certamente bem desnorteada, isso parece aquele conto do Caio Fernando Abreu em que eles cantam Angela Ro Ro até altas horas? Ele veio uma década à frente pra mim, melhor não misturar as estações, e na real nem sei porque te escrevo isso tudo, talvez pra concluir que tem mais coisa não perecível no mundo além do Caetano. 


quinta-feira, novembro 05, 2015

Conversas botânicas


Entramos no Jardim Botânico e caminhamos em direção ao cactário. Nosso objetivo era encontrar um da espécie Mammilaria que havia florescido contra as expectativas dos pesquisadores locais, que temiam que a planta não se adaptasse à umidade carioca. A foto no jornal era de uma fofura tamanha que convoquei M. para a expedição, acreditando numa possível epifania frente a uma beleza natural tão perto de casa. Já entre as árvores comentei que ficara um pouco decepcionada com o lago de vitórias-régias onde planejava me jogar depois de passar mais de três horas na Caixa Econômica Federal do bairro. Expliquei que aquilo parecia um amontoado de folhas chapadas sobre a água sem nenhum planejamento estético. Como assim?, ele perguntou. Eu achava que as vitórias-régias eram folhas grandes com aquela moldurinha em volta e uma flor no meio. Mas na prática era apenas um aglomerado de folhas sem graça flutuando, nenhuma organização, nenhum método. Um dia antes eu conversava com C. sobre metodologia de pesquisa, talvez isso tenha me influenciado. O caso é que desde que me associei ao Jardim Botânico tenho feito um esforço enorme para gostar do lugar como as pessoas acham que eu deveria. Ou poderia. Mas até a excursão aos cactos eu só tinha deparado com jacas e aves não identificadas, além de ter tirado duas ou três fotografias de transeuntes que queriam ser eternizados em frente ao chafariz ou no corredor das palmeiras reais, além de uma galeria de grávidas e/ou casais posando para retratos tão mal ensaiados quanto as vitórias-régias.

O cactário, por sua vez, é evidentemente mais consistente, você logo identifica um projeto paisagístico, e nos dividimos, cada um em uma direção, para procurar o cacto em questão. Havia chovido oceanos na véspera e toda aquela água parecia suficiente para danificar possíveis flores em possíveis cactos. Pra ser mais exata, aquela água parecia ameaçadora para existências em geral, inclusive as nossas, já meio esmaecidas pelos percalços bancários, tédio e falência iminente. Entre cactos que pareciam corais marinhos, outros que pareciam tentáculos peludos de algum animal sinistro e alguns que pareciam cactos mesmo, daqueles de desenho animado, M. encontrou um pesquisador da instituição por ali e indagou sobre o cacto digno de nota no jornal que procurávamos. O pesquisador apontou um diminuto cacto abundante em espinhos e nada além disso. Os três agachamos e ele disse que a floração dessas plantas é muito efêmera, eu perguntei se teria sido o caso de largar o jornal, o café e o que mais fosse para correr até lá, mas pode ter sido apenas uma pergunta mental, porque logo ele estava dizendo que sim para uma pergunta real de M., dizendo que aquela área, uma espécie de anexo do cactário central, era nova, que haviam preservado as fundações históricas que se encontravam ali, como os tanques que nos indicou ao lado, e sugeriu que déssemos uma olhada no restante do espaço garantindo que havia espécies interessantíssimas a serem observadas, quiçá instagramadas. Voltamos às estufas e aos caminhos delimitados, outra vez vimos os cactos que pareciam corais, tentáculos peludos e cactos como o consciente coletivo os identifica.

Você conhece o caminho da Mata Atlântica?, e subimos para que eu conhecesse mais um caminho cheio de jaqueiras, que foram descritas por M. como uma praga. Tipo os saguis? Mas ele não sabia a procedência dos saguis, e eu tampouco tinha a história tão em dia, de modo que seguimos até descermos perto do orquidário. Nesse trecho do passeio lamentei a falta de espreguiçadeiras no Jardim Botânico, isso sim, concordamos. Todas as vezes que penso em me deslocar até ali para ler, em vez de me afundar no sofá, desisto frente aos bancos pouco convidativos. Eu deveria me candidatar à presidência do local. Pensava nisso quando aves grandes de papo laranja-avermelhado apareceram no caminho. Veja esses bichos!, exclamei, e M. riu concordando que “bichos” era um bom termo para defini-los. Deveriam vir com uma placa de identificação presa às penas, não acha? Mais uma pauta para o meu palanque. Também instituiria que flores deveriam ser permanentemente afixadas a cactos, o que tornaria o cactário o lugar mais disputado do Jardim, o que por sua vez atrairia as atenções de alguém que tivesse ideias para melhorar o lago das vitórias-régias e assim povoar o espaço de forma mais igualitária. O setor de plantas insetívoras certamente se beneficiaria, pela mesma lógica.

Saímos do Jardim um tanto decepcionados, e mais tarde mandei a foto do cacto tal qual deveríamos tê-lo visto para M. e para C., e ambos concordaram com a singeleza daquele pequenino amontoado de espinhos que ostentava uma coroa de flores cor de rosa, fazendo parecer que havia sido vestido com um colar havaiano. Garanti dois votos para minha candidatura imaginária. C. logo me dispensou porque estava às voltas com um questionário para um grupo focal. M., por sua vez, pediu 3 números para jogar, pela terceira ou quarta vez na mesma semana, na Mega Sena, porque combinamos que faríamos apostas individuais e coletivas. Àquela altura o prêmio estava acumulado em 50 milhões. Mandei os números e um alerta: não se vicie. Meu vício é sonhar, ele respondeu. Desconfiei que talvez o meu também seja. 


terça-feira, outubro 27, 2015


INVERNO NO JARDIM BOTÂNICO

muita saudade

flor lilás, ladeira, frio e vazio
tudo o que não existia agora sou eu

Thiago Camelo, in Verão em Botafogo (7Letras, 2010)


segunda-feira, setembro 28, 2015

Formigueiro


"Procurei na internet algumas breves citações de Ortega y Gasset, que por algum tempo tinha pensado que eram duas pessoas distintas, como Deleuze e Guattari ou Calvin e Hobbes."
Ben Lerner, Estação Atocha (Rádio Londres, 2015)


Naquela noite sentamos para conversar e tomar chopes como há muito não fazíamos, num bar que já não tem mais os azulejos beges que ficaram eternizados nos retratos que B. fazia toda vez que vinha ao Brasil, cada um de nós desprevenido no momento em que uma mão gesticulava e saía borrada na foto, ou quando atirávamos as cabeças para trás para gargalhar melhor.

Naquela noite eu tinha uma pequena lista das coisas que finalmente havia feito, como se a cada despedida um gatilho se acionasse e eu colocasse em dia os planos que deveriam ter sido realizados a dois, mas que por falta de tempo, sorte ou qualquer outra razão acabaram adiados até a impossibilidade, e listei mentalmente alguns deles achando que seriam novidades boas para contar, mas eles não fariam ideia e eu não tinha muita certeza de poder explicar.

Naquela noite falamos muito sobre como trilhar caminhos, e lembrei-me de uma cena corriqueira na infância: na rua detrás da casa de campo havia sempre fileiras de formigas enormes a empinarem folhas e pequenos pedaços de flores, caules e afins, num andar trôpego típico de quem carrega muito peso. Agachada, eu observava aquele trabalho ordenado, pequeninos pontos verdes, cor de laranja ou rosados marchando lentamente pelo solo de terra. Aquele pequeno exército em zigue-zague parecia bem mais confiante que nós, dando cabeçadas em imprevistos e numa travessa de frituras, eventualmente caindo em buracos.

Naquela noite, enfim, tomei coragem e contei a eles que havia terminado um romance, e o fiz tentando segurar as lágrimas, e eles brindaram imediatamente porque entenderam tratar-se de um livro. Eu ri e rapidamente inventei um enredo meio melancólico, uma história de desencontros, cravos e uma cidade alemã, e morri de tristeza ao ver o banheiro reformado, limpíssimo, asséptico.

Mas doído mesmo foi chegar em casa, abrir a geladeira e comer jabuticabas saídas de uma caixa poluente e com códigos de barras, em vez de esticar os braços e arrancá-las das árvores daquela casa que em sonhos sempre parece que ainda é minha.  


quarta-feira, setembro 02, 2015

novidade


Falei aqui sobre algumas editoras independentes que tenho acompanhado e gostado muito, portanto fico feliz demais de lançar mais um pequeno livro – um pequeno impresso, na verdade – pela maravilhosa Pipoca Press.


A coleção Puxadinho surgiu para abrigar publicações de textos curtos e inauguro essa série ao lado da Elisa Menezes e seu Oceanário. Como ela mesma diz, é tanta amizade envolvida que o evento tá mais pra festa que lançamento e preparamos até playlist temática, Mar & Sexo. Não percam!

quarta-feira, agosto 12, 2015

Fico parada na borda mais do que o necessário, atravancando um pouco o tráfego, mas ninguém acha estranho porque ficar cansado faz parte, assim como interromper a série, recomeçar a contagem. Ou simplesmente não contar. Algum dia eu vou tentar isso: não contar. Nadar como se a piscina não terminasse nas bordas.


Paloma Vidal, Mar azul

segunda-feira, agosto 03, 2015

Quermesse

Foram bonitos todos os sorrisos de Stela que vi esses dias, tanta festa que já não sei mais que tamanhos em que lugares, mas todos largos. Foi bonito quando Maria chegou de chapéu e sacolas, e logo Ana veio da outra direção carregada, e foi bonito quando abrimos os primeiros papeis coloridos sobre a calçada. Foi bonito o moço descarregando o caminhão e logo dando forma a barraquinhas, que logo ganharam enfeites, flores, corações, milhos, cheiros e calor. Foi bonito quando apareceu a moça com vassoura e pá e foi varrendo e recolhendo folhas, sobretudo, foi bonito juntar gente que puxou fios, emprestou energia, deu palpite. Foi bonito Claudia amarrando chitas e prendendo fitas em parede de plantas, foi bonito cada carro que parou pra perguntar se ia ter festa. Foi bonito a Juliana com tanto sorriso, apesar de. Foi bonito o moço da padaria perguntando se ia ter comida típica. Foi bonito o Dado no alto da escada e uns tantos pescoços curvados para trás, olhos e expectativa de que o fio carregado de lâmpadas desse. Foi bonito o céu naquele dia, e foi bonito todo mundo de braços esticados nas pontas dos pés erguendo e protegendo as bandeirinhas, que iam de calçada a calçada, dos carros que passavam. Foi bonito a Edna gostando de todos os jovens da rua. 

Foi bonito quando Julia e Miguel chegaram bem caipiras com cachaça em punho, e logo atrás outro e outro e outro. Foi bonito quando acenderam a luz e a noite caiu. Foi bonito aquele grupo de cães confortavelmente esparramados na rua, e também o cumprimento caloroso do cãozinho que vinha no colo da Fátima. Foi bonito o tráfego de carrinho de bebês, as crianças vestidas de Homem Aranha, os cachinhos de Martim. Foi bonito quando Rosana e Bernardo e Fefê no colo saíram às pressas porque a sobrinha ia nascer. Foi bonito o trio tocando música, a pista de dança improvisada. Foi bonita a fila da cerveja, o pão quando acabou, o último queijo coalho compartilhado. Foi bonito o forró com o André e seu suspensório, foi bonito o menininho de 7 anos que tentava levar novos pescadores para a barraca das brincadeiras. Foi bonita cada alegria de quem apareceu, especialmente a da lua, e foi bonito quem elogiou até o ângulo, vocês pensaram em tudo mesmo, disse. E a dança das cadeiras e o empenho, a Mari pulando por cima de todos. Foi bonita a quadrilha que chegou quase na rua ao lado de tanta gente, aquele túnel que parecia não ter fim, a cavalgada que parecia carrinho de bate-bate, foi bonito o Marcelo gritando pra Ana o que ainda faltava dançar, foi bonito a Ana no microfone e só faltou ela cantar. Foi bonito o jeito que o Gregório deu pra casar uma galera: duplas, trios, beijos e risadas. Foi bonito 3 ou 4 pessoas assistindo de camarote da janela do prédio. 

Foi tão tão bonito quando a moradora mais antiga da rua, de bengala em punho, apareceu para falar, e tinha gente que nem sabia que ela já tinha aparecido mais cedo pra ver os preparativos. Foi de chorar, na verdade. 

Foi bonito aquele palco que fizemos e que recebeu família, amigo, amor e bicho. Foi bonita toda despedida. Foi bonito o alívio de tudo ter sido assim, e foi bonito quando a moça voltou com a vassoura e a pá, ainda que um pouquinho triste. As barraquinhas já vazias, a Maria já com frio, todo mundo já com fome, o Dado no alto da escada outra vez. O Alexandre pegando o carrinho pra carregar a tralha pra casa da Ana. A dona Vilma sugerindo fazer de novo amanhã.


Foram bonitos todos os sorrisos de Stela que vi esses dias, largos como todos os que se abriram naquele arraiá, e depois nós 4 deitados na sala sem saber como acabar, o cheiro da folha de mirra no portão, foi bonito todo mundo querer mais. Foi bonito quando o moço da padaria perguntou, também, se ia ter forró e poesia e eu disse que sim e que não, mas afinal teve, não é? Foi bonito ter poesia. Foi bonita a festa.