O escritor Ricardo Lísias fez uma linda leitura do Cravos, para o Peixe Elétrico. O link é este.
segunda-feira, abril 24, 2017
quinta-feira, fevereiro 16, 2017
Cafuné
T. recorre ao McDonalds quando está
triste. Pra mim tem funcionado organizar a geladeira, e com isso entenda: picar
tudo o que pode ser picado, congelar tudo o que pode ser congelado. Essa semana
tinha alho-poró, salsinha, cebolinha, e logo havia não exatamente uma salada de
frutas composta por maçã e pera cortadas em pequeníssimos pedaços. O alho-poró,
a salsinha e a cebolinha foram armazenados em pequenos recipientes de vidro e
postos no freezer, e ao fechar o compartimento percebo que é a ideia de
preservação que me tranquiliza. Ao fechar o compartimento, também, penso nas
outras coisas perecíveis, mas que não são comida. A sua mão entrando
inesperadamente pelos meus cabelos, em frente ao mar, ficando ali alguns
segundos. O meu sobrinho quando me ensina a brincar, sem nem saber que prendi
os cabelos pra não correr mais riscos.
domingo, janeiro 22, 2017
Dupla exposição
“Não fui eu quem viu aquela exposição do
Edward Hopper no Grand Palais.” Começa assim o conto, e antes há um que começa
com uma frase de um conto de Elizabeth Bishop, e só por isso eu já deveria
desistir das tentativas de escrever o que gostaria. Tudo ecoará um plágio. É a
segunda vez que leio esse livro. Ou terceira. Talvez mais. Mas por ora, digamos
que seja a segunda.
É janeiro, a sensação térmica no Rio
ultrapassa a tolerância e amanhã vou à praia com P. Quero ter algo para dizer
além de “adorei seu livro”. Até porque já disse, acho. Na primeira vez em que
li, na tela de um computador, acomodada numa cadeira desconfortável, num
escritório de temperatura pouco variável, o que hoje, por mais que um tanto
desbotada, é uma lembrança agradável daqueles dias. O cenário, agora, é o meu
quarto, a luminária da mesa de cabeceira acesa, travesseiros, ar-condicionado.
E a impressão a cada página é a de que já li isso antes. O que é verdade.
Todavia agora o livro está impresso, a ordem dos contos já não é a mesma, a
dedicatória de P. é generosa – “para Julia, que percorreu as páginas deste
livro deixando suas marcas” – e amanhã vamos à praia.
Nunca imaginei. Não só a praia com P.,
mas tudo o que pareceu tão... mudado? esses dias, e que ao mesmo tempo imprimiu
na pele essa sensação de repetição, como se no fundo os fatos fossem
basicamente os mesmos, com as diferenças de endereço, temperatura e corte de
cabelo nas aparências.
Por exemplo. Aquela festa. Estar diante
de G. e de toda sua capacidade de me desestruturar por anos a fio, exceto pela
constatação de que agora G. não me causa a menor das impressões. Parece
apagado, ou fosco. Nem mesmo saberia descrever a camisa que ele usava naquela
noite. Branca, por causa da passagem de ano? Azul, por ser sua cor preferida?
Ou ele estava sem camisa? Quanto tempo precisa passar pras pessoas se tornarem
invisíveis? Ou ele sempre foi assim? O mais perturbador, entretanto, é enxergar
a invisibilidade e me perguntar se isso também é uma invenção minha, se esse
tempo todo foi o que precisei para ficcionalizá-lo de outro jeito e construir
esse personagem banal de réveillon, alguém que sou capaz de deixar falando
sozinho com a desculpa de um drink ou uma dança. Ou com uma frase tão simples
quanto: “Foi bom te ver.” O que é quase mentira.
Ou ainda: não sentir mais saudades de
algumas pessoas, e entender isso ao ler pela segunda vez o livro de P., que
sempre esteve diretamente associado àqueles meses de perdas gravíssimas. Estar
diante de um dispositivo de memórias e de toda sua capacidade de me
desestruturar, e perceber que agora essas reminiscências se depositaram em
qualquer lugar seguro, ou ao menos distante o suficiente – naquela cadeira
desconfortável, talvez. Faz pensar que não fui eu quem li o livro pela primeira
vez, naquele escritório. Azul como as camisas de G., quando eu conseguia
reparar nelas. E ao mesmo tempo: já li esse livro.
Então talvez os fatos sejam bastante
distintos, e a repetição seja outra vez, finalmente, trocar de pele, e ter que
lidar com as consequências dessa migração. Encaixotar certos acontecimentos,
entender que talvez finalmente eu possa começar a escrevê-los, ainda que
resulte em plágio. Porque a história é a mesma.
Amanhã vou à praia com P. O conto que
fala de Hopper é meu preferido, vou dizer a ela. E aquele que começa na água, e
que diz que “a violência é igual para todos, assim como as duchas, as cabines
do vestiário onde nos trocamos, as poças mornas para lavar os pés antes de
entrarmos na piscina, os armários em que guardamos as roupas”.
O céu vai ficar
rosa, como sempre fica nessa época, e vou fotografar o Dois Irmãos com raios de
sol furando nuvens. A espuma do mar vai parecer um pouco mais brilhante nessa
luz. Conversaremos sobre literatura, eu com receio de falar bobagens ou parecer
idiota, P. com sua mansidão que se desfaz quando amarro um lenço na cabeça, ela
que sofre de enxaqueca, o gesto que parece uma afronta. Nunca imaginei como seria bom me tornar amiga dela, como isso, de várias maneiras, validaria coisas tão grandiosas.
Não saberei dizer nada mais edificante além de ter adorado seu livro, outra vez. Tentarei contar como foi diferente, mas talvez pareça bobo querer explicar tanto as leituras. O dia terminará com uma tapioca e um suco, e daremos boas risadas perguntando como César Aira resolveria as narrativas que não sabemos terminar.
Não saberei dizer nada mais edificante além de ter adorado seu livro, outra vez. Tentarei contar como foi diferente, mas talvez pareça bobo querer explicar tanto as leituras. O dia terminará com uma tapioca e um suco, e daremos boas risadas perguntando como César Aira resolveria as narrativas que não sabemos terminar.
sexta-feira, dezembro 30, 2016
clipping # 7
Alguns links para esse blog abandonado:
Em sua lista de boas leituras de 2016,
Tatiana Salem Levy encontrou lugar pro meu Cravos. O texto com todas as dicas
está na coluna quinzenal que a escritora mantém no suplemento de cultura do
jornal Valor Econômico, e o link é este (com um cadastro rápido dá pra ler na íntegra).
Minha estreia na TV foi para o Canal
Curta, no programa Revista Curta! que foi ao ar no Natal, 25 de dezembro. A edição
é um capricho, agradecimentos especiais à Ana Paula Mansur, que conduziu a
entrevista, e ao Toni Rodrigues, que fez uma espécie de assessoria de imprensa
afetiva do livro, depois de tê-lo dançado lindamente com a Lu (ainda pretendo
escrever sobre isso). Clique aqui, e ainda tem a cena que mais gosto de Pina, doc do Wim Wenders, aquela em que o casal dança no meio da cidade.
Deixei passar essa bela coluna do Fred
Coelho para o Segundo Caderno do Globo. Em setembro ele discorreu sobre os
pequenos salvamentos que a arte nos proporciona, e cita o Cravos como uma
dessas bóias de salvação. Fui aluna do Fred e desde lá paro pra ouvir o que ele
tem a dizer, por escrito ou em outros meios, e portanto deu uma alegria
especial figurar nesse texto.
E pra não parecer que só vivo de passado, comecei uma série nova de textos no espaço "Temporada", da Sala Grumo, a convite da Paloma Vidal, escritora de quem sou fã. Em janeiro deve sair a continuação (assim que eu terminar de escrever), por enquanto são quatro relatos que você lê aqui.
E se tudo der certo, a partir de janeiro atualizo também o endereço do Ornitorrinco com alguma coisa nova, mas não prometo nada, afinal a praia tá ganhando de lavada de qualquer tentativa de ficar no ar condicionado trabalhando.
Feliz ano novo!
terça-feira, setembro 27, 2016
clipping # 6
Duas leituras generosas do Cravos:
No blog Letras In Verso e Re Verso, Pedro Fernandes faz
uma leitura cuidadosa e bem reflexiva, e gosto, particularmente, da forma como
ele vê a influência da “geração mimeógrafo” em cruzamento com as escritas de si
em blogs e redes sociais (mas ele vai bem além disso). O link é este.
No Literasutra, a Adélia Jeveaux foca mais no aspecto da
dança e de como escrever o que é o do corpo, e gostei muito da maneira que ela
faz da resenha um espaço de confissão de sua própria saudade. Clique aqui para
ler.
sábado, setembro 10, 2016
Está enganado quem pensa que o aleijado não sabe nada das
sanhas do corpo. Somos nós, os mancos, os malformados, os amputados, os obesos
e minúsculos, os alérgicos, os hemofílicos, os hemiplégicos, para, tri e
tetraplégicos, os anões, os albinos, os sempre-gripados, a legião inteira de
indivíduos salvos da seleção natural pela compaixão humana, somos nós que
entendemos a glória dos músculos e tendões, as minúcias da troca de calores.
(Tantas vezes imaginei jogar bola, brigar de galo, tacar pedra em vidraça!) O
corpo sadio que nos falta foi refeito tantas vezes em sonho que somos capazes
de inventar um novo corpo, um corpo além, um corpo além de lindo, um corpo de
Cristo, mas de pele tão firme que a coroa de espinhos não feriria e os pregos
não conseguiriam perfurar. Imagina quão mais belo teria saído o Davi se
Michelangelo não tivesse os braços. E a Vênus de Milo.
Victor Heringer em O amor dos homens avulsos (Cia das
Letras, 2016)
sexta-feira, setembro 09, 2016
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