segunda-feira, outubro 17, 2011

Agora não


And people they don’t understand
No, girlfriends they can’t understand
In spaceships, they won’t understand
And on top of this I ain’t ever gonna understand

The Strokes in Last Nite



Eu sou muito legal. Tão legal que não deveria me justificar no meu próprio blog, e se você vem aqui há muito tempo (ou há pouco tempo também) já deve ter percebido isso. Eu sou imperdível. Se eu fosse enumerar minhas top 5 qualidades, ia ser difícil pacas. Eu falo “pacas”, só isso já faz de mim uma pessoa peculiar, e pessoas peculiares costumam ser bastante engraçadas. Domingo o Marcelo disse que eu sou hilária. Até o Gustavo, que nunca me viu na vida, disse que eu sou diversão garantida. E sou mesmo. Tenho sempre uma história pra contar. E sou muito disponível pros meus amigos: encaro festa falida em play de prédios estranhos, topo ser apresentada pra gente que sua exageradamente, faço cópias de fotos impressas pra eles guardarem de lembrança, mando cds temáticos por correio pra todo mundo ficar de bom humor no trânsito na terra da garoa. Coleciono tirinhas do Snoopy pros momentos em que as pessoas precisam respirar, aviso por email sobre todas as promoções de livros que descubro, aviso por mensagem quando a praia tá esperando. Quer mais? Ajudo a comprar roupa, sempre encontro a ponta do durex, sou boa com molduras, conheço o endereço dos melhores brigadeiros, bebo cerveja ou drinks elaborados, sei um ou dois passos de dança descolados e tenho o sobrinho mais bochechudo e gostoso da cidade. E uma Polaroid. Além de imperdível eu sou também inesquecível. Ontem, no bar, um sujeito que era amigo do namorado de adolescência da minha irmã lembrou de mim. Um francês que conheci num trem a caminho de Paris, no meio de uma nevasca pré-natalina também lembrou de mim quando me encontrou, semanas atrás, na Cinelândia. A minha professora de natação me chama de Juju. Até a Anne Rice me acha lovely!

Então por que eu sou constantemente abandonada é uma resposta bastante complexa de se resolver, possivelmente um mistério sem solução. Além de ser muito legal por todos os motivos acima citados, eu estou sempre cheirosa, bem vestida e dou carona pra todo mundo no meu carro. Dirijo bem, sei fazer baliza e no porta-luvas moram trilhas sonoras confiáveis. Talvez um dos meus poucos defeitos seja não saber a regra dos porquês. Não faz o menor sentido, portanto, que toda primeira vez que eu saia com um sujeito legal ou bonitinho acabe virando também a última. Menos ainda que 45% dos meus amigos mais queridos tenha ido morar do outro lado do oceano. Quando nenhuma criatura tá a fim de dançar a madrugada toda na casa da Matriz ao som de um dj da minha inteira confiança, eu evoco um deus pra tentar decifrar o motivo. Mas o cúmulo da rejeição, dessas impensáveis, é o fato do MAM me ignorar sistematicamente. Quando uma instituição aparentemente falida decide por não te aceitar no círculo de amizades dele, é que alguma coisa está fora da ordem.

Clayton Fabio, o astrólogo, explica. Eu explico também: desde que voltei a trabalhar no centro da cidade, o MAM virou local de peregrinação. Eu almoço lá, decoro minha casa imaginária com os móveis da lojinha, vejo metades de exposições quando sobram 20 minutos da hora de almoço, passeio pelo jardim de pedras e faço planos de voltar no fim do dia pra assistir um filme na Cinemateca. Dia desses, então, porque me pareceu uma solução obvia demais, me inscrevi para ser “amiga do MAM”. Entreguei o panfleto preenchido para o sujeito da chapelaria, que sorridente garantiu que a pessoa responsável entraria em contato comigo pra que eu pudesse efetuar o pagamento da anuidade. Semanas se passaram até que tomei coragem de ir lá perguntar o que estava acontecendo. Preenchi novamente o formulário, entreguei ao mesmo chapeleiro sorridente, e nada. Nenhum contato. Nenhum telefonema. Nenhum email, e eu tenho vasculhado o SPAM diariamente. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro não quer minha amizade. Faz menos sentido que qualquer obra contemporânea concorrendo ao Prêmio Pipa.

Marcelo acha que eu sou a primeira cidadã a me candidatar a tal empreitada, e que Luiz Camilo Osório e cia estão reunidos em cúpula, pensando o que fazer e/ou elaborando uma carteirinha cujo design ainda não sabem se será assinado pelo Cildo Meirelles ou pelo Tunga.

Clayton Fabio, o astrólogo, é mais certeiro: a minha casa afetiva está bem vazia. Isso não explica, porém, os abandonos e a rejeição. Ele não disse que a casa estava sendo evacuada. Ele não disse que eu estava perdendo gente, ele só confirmou que o marasmo nas relações deve durar ainda um tempo. Ele chegou mesmo a empregar a expressão “um longo e tenebroso inverno.” Eu não sei como pode ficar mais tenebroso que o atual quadro, que já está abstrato o bastante.

Sem saber o que fazer, deixei escapar uma lágrima quando Clayton Fabio, o astrólogo, sentenciou minha solidão. Ele sacou que o assunto era espinhento e foi logo passando pro próximo, que tinha a ver com o fato de fazer exercícios. Clayton Fabio, o astrólogo, foi convicto ao afirmar que eu não podia abandonar a natação. Ele disse que preciso de muito alongamento muscular. Mas pra mim é óbvio demais: a abandonada sou eu, e portanto só resta me agarrar com unhas e dentes a tudo o que eu puder reter, especialmente se tal objeto produzir endorfinas. Clayton Fabio, o astrólogo, viu a natação como minha última boia de salvação.

Por alguma razão que, desconfio, pode ter a ver com a posição dos astros no céu, o Tiago me deu um dvd do Peanuts de presente semana passada, e a Eugênia deixou um monte de livros na minha mesa de trabalho, frisando que todos eram para “uso pessoal”, logo a Eugênia, que também ri comigo e me acha engraçada...

O que mais eu posso fazer pra te convencer? Eu sou muito legal. Juro. 

quinta-feira, outubro 13, 2011

Ali onde teu doce voo se detém*


Sem dislexias ou mudanças, dessa vez obedeci ao que sugeriu o Pedro Lago: um texto sobre sexo oral e a Nona Sinfonia (e se isso for contravenção, então confesso que escrevi ouvindo os Noturnos de Chopin por Nelson Freire, que acabaram tendo participação especial no texto). 
::

De onde eu estava, via o topo da sua cabeça. Fios brancos despontavam aqui e ali. Seus dedos cravados nas minhas coxas. De onde ele estava, se levantasse os olhos, poderia adivinhar meu sorriso escapando entre uma ou duas almofadas. Meus pés em suas costas. Pensava se minhas unhas estavam bem cortadas. Sempre pensava nessas coisas quando havia uma cabeça entre minhas pernas, até sentir uma penetração mais profunda, como se algo me espetasse, então esquecia das unhas e fechava os olhos quando o mundo começava a se apagar à minha volta.

Do sofá de onde agora o observo dormir, refaço os passos que nos trouxeram até aqui. 

Alguns dias antes, da mesa do almoço, podia ver que ele tomava a mesma sopa que eu. Não era destino nenhum, era apenas inverno no centro da cidade, e o fato de que a sopa era a melhor sugestão daquele cardápio. Via o caderno de esportes do jornal na cadeira vazia à sua frente, o celular ao lado do prato, certa calma em sua fome, e a barba. Uma barba preta, espessa, impenetrável, e milimetricamente desenhada sobre maxilares fortes, geométricos. 

Poucos dias depois, do fundo de uma livraria ali perto, podia ver seu tamanho, sua camisa jeans, sua nuca. Ele inclinava-se para a frente, folheava alguns volumes. Fiquei imóvel durante os segundos que ele usou para se virar em minha direção. Os olhos negros como os pelos do rosto, em perfeitas linhas aparadas que desciam até onde começa o pescoço. Ficamos ligeiramente mais lentos, como o segundo Noturno de Chopin, trilha sonora daquela tarde modorrenta. Ele franziu um pouco as sobrancelhas, senti minhas bochechas vermelhas e desviei-me do caminho. Espirrou enquanto eu saía pela porta. 

Na quinta-feira ele tomava um café no bar da esquina. Coçava o rosto enquanto lia uma notícia sobre o aumento do dólar. As unhas se perdiam na barba impecável e eu quase ouvia o ruído. Eu trazia um guarda-chuva que deixei cair enquanto repetia seu gesto, e entrei no carro antes que ele pudesse me ver. 

E sexta. De novo. Já não sabia como aquilo tinha virado uma pequena perseguição. Da mesa central do sebo onde agora estava, vi quando ele entrou, sacudindo um pouco o meu guarda-chuva do dia anterior. Sua camiseta tinha respingos, suas olheiras eram mais evidentes e sua barba imaculada continuava ali, preta, cerrada. Senti que meus batimentos aceleravam ao ritmo da Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven, como se o local tivesse sido invadido por uma horda de violinos. Quando o primeiro solista tomou conta da música e ele me estendeu o guarda-chuva, meu impulso levou minhas mãos diretamente ao seu rosto. Saímos dali quase românticos, pouco antes do coro e do meu coração explodirem, pouco depois que fechei os olhos e o mundo começou a desaparecer ao redor. 

As minhas unhas estavam bem cortadas, concluí. Arranhões marcavam o interior das minhas coxas. Riscos e traços com resquícios de sangue seco. A potência da língua abafada pela barba cortante. Os pelos afiados do rosto dele. A indecisão de saber o que ele tinha bebido de mim, e se as minhas lágrimas eram de prazer ou de dor. 

Sem fazer nenhum barulho, fui até o banheiro e descobri na primeira gaveta uma navalha. Reluzia. Ao pé da cama, calculei: três respirações dele cabiam dentro de apenas uma minha. Eu murmurava aquele mesmo trecho da Nona Sinfonia enquanto seus pelos iam caindo sobre o travesseiro branco. Minha destreza me espantou. Seu rosto ficava liso e branco. No escuro parecia um vampiro. Em questão de minutos, estava feito: passei os dedos lentamente sobre aquele pedaço de carne exposta, a pela macia, escancarada, a antiga barba espalhada sobre a fronha onde ele dormia. 

Peguei minha bolsa, bati a porta no exato momento em que o último compasso da Nona Sinfonia morria em meus lábios. No elevador, passei as mãos entre as pernas, fechei os olhos e senti: não demoraria a cicatrizar.




* tradução (wikipedia) de um dos versos do poema de Schiller, parte da Ode à Alegria, da Nona Sinfonia de Beethoven. 

domingo, outubro 09, 2011

FAQ


But it’s about reading something while you’re working and your heart is just longing for your project, and the joy of reading this book by somebody else is actually what makes you turn up at the desk the next day in the broader sense, you see. If I can just generate the same feeling in the reader that this writer generated in me then I’ll have succeeded. And that is probably the biggest influence.

Ian McEwan em entrevista a Zadie Smith para a Believer, falando de influências que não se veem em sua prosa.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Tesouros

(ou: do que se encontra dentro de livros comprados em sebos)

(clique nas imagens para ampliar)

1. Pedaço de embalagem da Kopenhagen;
2. Canhoto de bilhete de ônibus para uma  viagem que foi feita na poltrona 8 do dia 13/10/1970, quando empresa tinha acento circunflexo;
3. Etiqueta de lavagem de uma peça cuja composição era 60% algodão, 30% poliamida e 10% elastano;
4. Páginas 45 e 46, por sorte, vieram dentro do próprio livro a que pertencem (ou pertenciam).

Os dois primeiros itens foram encontrados dentro do livro "Virginia Woolf, a commentary", de Bernard Blackstone, de 1949 pela Hogwarth Press, London. Este é o volume verde que aparece na foto, e que foi originalmente comprado na Freitas Bastos, Livraria Editora, então situada no Largo da Carioca. 



O item 3 estava perdido entre as páginas de "Les Fleurs du Mal", de Baudelaire, em edição presentée par Jean-Paul Sartre, pela Livre de Poche Classique e que pertenceu à Zezinha, que o comprou em julho de 1964, sublinhou 2 frases do prefácio e logo abandonou o poema (creio). 



O item 4 foi (felizmente) achado dentro de um exemplar de "Selected Poems, T. S. Eliot", pela Harbrace Paperbound Library.

Alguns dos itens foram trocados por livros que nunca consegui terminar, por culpa única dos autores dos mesmos. A trilha sonora que acompanhou as escolhas variaram de Cake a Chopin (acho). Um sujeito que vestia camisa jeans olhava a mesma mesa que eu, onde encontrei 2 das obras, mas ele não se animou a espirrar em casa. Os livros chegaram à minha biblioteca no final do mês de setembro.

domingo, outubro 02, 2011

O dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi


Sempre tive medo de conhecer autores e dividir com eles frases, mesmo que cumprimentos educados, bom dia ou boa noite. Achava que ter contato com um deles fosse demais pra um leitor. Que não se podiam misturar as ficções, que talvez fosse até proibido. Tinha medo que os livros como eu os conhecia morressem no momento em que descobrisse as vozes, tamanhos e gestos das pessoas que os escreveram.

Consta que meu primeiro contato com Adriana Lunardi se deu em 2008, em Paraty, portanto 3 anos antes do dia em que tomei champanhe com ela. É o que atesta a data abaixo da sua assinatura, um A em forma de estrela a tinta fraca de uma caneta preta que naquela tarde marcou o meu exemplar de Vésperas. No dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi, ela me perguntou se foi simpática comigo aquele dia, e eu não soube dizer. Pensei em forjar alguma lembrança, mas a verdade é que eu jamais poderia mentir para Adriana Lunardi.

Acontece, então, que por uma dessas coisas que desabam na gente, passei a frequentar a casa de Adriana Lunardi uma vez por semana. E diante dela, um mágica ainda maior se operou.

Até o dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi, não entendia como ela podia ser a mesma pessoa de 3 anos antes, e tampouco achava possível que aquela moça magra de mãos pequenas e pousadas sobre um livro de Virginia Woolf fosse a mesma escritora que me assombrava com palavras e frases que só poderiam vir de alguém que não ela. Aquela moça de vestido, e cujas prateleiras amarelas carregavam uma biblioteca onde era possível habitar, aquela moça de voz mansa, de cadência de outono. Eu achava que Adriana Lunardi era duas, que não dava pra existir aquela Adriana que esquentava pães-de-queijo e servia champanhe rosé em taças de vidro dentro da mesma Adriana que inventava aquelas palavras e frases. Que organizar guardanapos era mundano demais pra quem fazia toda aquela literatura. E mesmo comprar flores.

O dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi foi milagroso porque juntei as duas coisas, porque vi como Adriana Lunardi me olhava com olhinhos brilhando, e como esse brilho abraçava as coisas à sua volta. Eu, que achava não ser possível que Adriana Lunardi desse conta dessa vida tão rotineira de que todos nós nos ocupamos, fiquei maravilhada de entender que ela sim, cuidava do seu mundo e inventava outros tantos. 

O dia em que tomei champanhe com Adriana Lunardi ficou marcado no calendário, com caneta especial e estrela no canto da página.


domingo, setembro 25, 2011

convite


“Falar de sentimentos é o mesmo que explicar o sabor do pão pela receita. Nunca dá certo.”

Adriana Lunardi in A vendedora de fósforos, página 105, ed. Rocco. 


domingo, setembro 11, 2011

Riocentro




"For Julia, you are a lovely person, and you have made our visit to Rio so pleasurable and so memorable, I cannot thank you enough, Anne Rice, september 2011."


Uma Bienal do livro rende tantas histórias que daqui até a próxima eu poderia fazer um blog só desse assunto. Mas tem aquele problema de que a maioria das coisas só tem graça na hora. A maioria das coisas, de fato, só tem a graça que a gente dá. Entre perguntas como “oi, posso ler um poema pra você?” e “moça, você tem algum livro sobre paraquedistas?”(de uma menina de 8 anos), ainda deu tempo pra um chope com Adriana Lunardi, um jantar com Antônio Xerxenesky, um abraço em Thalita Rebouças e um tour por igrejas e pelo Corcovado com Anne Rice. Isso só pra citar os autores da casa. Eu que tinha medo de conhecer as pessoas dos livros, estou achando que estou no lugar certo. E se não estiver, parece que tenho um futuro promissor como figurante.  

quinta-feira, setembro 01, 2011

Burn down the disco, hang the dj*

A minha mais nova obsessão atende pelo enrugado nome de hidroginástica. Mais precisamente, a trilha sonora e a influência da mesma sobre os alunos que às 7 horas da manhã estão fritando na piscina enquanto eu tento não sufocar na raia ao lado, alternando crawl, costas e peito (e lutando contra as infiltrações dos óculos).

Minha cisma começou numa manhã em que “Colombina”, do Ed Motta, tocou à exaustão, num repeat aquático que nem um ser dotado de barba e tridente seria capaz de contornar. Fosse aluna eu já teria organizado uma reivindicação e exigido um DJ. Por esses motivos difíceis de determinar se feliz ou infelizmente, eu sou só uma aluna da natação que escuta apenas relances das músicas, e que nem para mais tanto pra descansar nas bordas da piscina pela mesma razão. Eu que já tenho implicâncias com pierrots, peguei um eca da música do Ed Motta que estendi minha raiva a essas moças cheias de pompons, e duvido que tudo passe até a próxima quarta-feira de cinzas.

Na semana seguinte, preparada para versos como “gata de rua faz ron ron / ao luar” (porque depois de “Colombina” só podia vir mais Ed Motta), dei de ouvidos com uma música clássica remixada. Já é triste o suficiente ter de dançar “I Will survive” remixado em casamentos. Inundar os ouvidos de água clorada e Mozart batidão é algo que só um tarja preta pode resolver no fim do dia. O curioso é que os alunos da hidroginástica pareciam não se abalar. A cabeça sempre pra fora d’água está diretamente relacionada ao fato de eles serem mais felizes que eu na piscina, mas achei que a música pudesse nivelar o nosso sofrimento. Que nada.

Lá estavam eles, na quinta-feira da outra semana, com as mesmas expressões condescendentes enquanto Michael Jackson arrebentava com “Don’t stop til you get enough”. Eu não entendi. Ou melhor: comecei a desconfiar que todos eram surdos, e pela média de idade, devem mesmo ser. Contei pra Rita, não sem espanto na voz, que os velhinhos da hidroginástica pouco se importavam com o Michael. O diagnóstico dela foi mais certeiro: insensíveis.

Achei que Pitty remixado (why, god, why?) com “Uh tererê” seria mais que pretexto pra uma revolução submersa. Eu teria, no mínimo, programado incontinência urinária com meus coleguinhas caso me visse afrontada por tal afronto. Mas lá estavam eles. Tão felizes ou indiferentes ou surdos ou insensíveis quanto antes. A essa altura eu comecei a nadar 1500 metros por aula, tão desesperada estava de não escutar mais nada que viesse daquele canto da piscina. Era um bate volta sem fim, eu comecei a engolir água pacas e pensei, quem sabe, em migrar pra natação dos bebês onde ninguém nunca morreria afogado e onde a música era condizente com a turminha. “A baleia / a baleia / é amiga da sereia / olha o que ela faz / olha o que ela faz / tchi bum chuá, tchi bum chuá”. Decidi que se os professores cantassem a música da “Loja do Mestre André” ou a “Galinha Pintadinha”, era o destino me chamando.

Depois de uma quinta-feira bipolar 80s, em que uma sequência que começou com “Louras Geladas”, do RPM, culminou com Legião Urbana em “Vento no Litoral”, achei que a piada estava indo longe demais. “Eu deixo a onda me acertar” não é recomendável pra nenhuma atividade dentro da piscina, especialmente quando ela envolve gente da terceira idade. Fiquei tão desnorteada que, sem querer, dei braçadas em toda a galera que dividia a raia comigo, saí da piscina sem conferir se estava tudo dentro do previsto na aula de bebês e prometi só voltar àquele caixote de ladrilhos em caso de surdez aguda. Aí, quem sabe, em vez de me unir aos bebês, vou pra turma feliz em que as cabeças nunca afundam na água. 



*Panic, The Smiths. 

domingo, agosto 28, 2011

You go to my head


Pedro Lago me propôs mais um desafio, e eu topei de novo: Algo sobre a crise de uma cineasta que ama um poeta e um trompetista ao mesmo tempo. (E eu li que era um, em vez de umA cineasta... e quanto ao poeta e ao trompetista ao mesmo tempo, bem, mais uma pequena subversão de minha parte.)
Voilà. 

:: 

Um poema por dia. Como num programa de reabilitação. 240 páginas de sonetos, 3360 linhas de palavras escolhidas com esmero, candura, dicionário. Nunca um final. Poemas entreabertos, pontos que poderiam ser reticências.

Eu não pensava ser possível filmar literatura. As ruas já têm assunto demais. Nos becos, nos muros, nos prédios, os meus roteiros tantas vezes escritos com pedras portuguesas, britadeiras, spray ou areia da praia pro final feliz. Sempre gostei do final feliz. Eu era triste demais pra matar alguém, pra fazer alguém sofrer por amor, ainda que fosse ficção. Ainda que fosse prêmio pro ator principal, ainda que fossem as resenhas elogiando a pungência da câmera, ainda que fosse um plano-sequência arrebatador. Meu cinema era de risos. Meus filmes eram de prosas.

E então aquele cara gordo, sempre apressado, descendo do elevador no andar abaixo do meu. Aquele cara cujo nome agora estampava a capa da antologia que habitava sempre qualquer lugar que fosse à minha frente.  Um nome gordo também, quase parnasiano. Triste como o meu rosto. Com algumas rugas tomando os cantos dos olhos. Era difícil acreditar que aquele cara era o dono daquele nome e autor daqueles versos. E ainda.

::

Sobre como o livro veio parar nas minhas mãos era bem simples. Inspecionando a prateleira de uma livraria, o nome. Gordo e parnasiano, o mesmo da etiqueta da caixa de correio na portaria do prédio. E pronto. No sofá de casa, na primeira página: música.

::

Um trompete ardia toda vez que eu abria o livro. A música parecia vir justamente do apartamento do poeta gordo, em sopros que pareciam ser encaminhados diretamente à minha janela. O repertório era de grandes canções americanas, daquelas que todos os cantores pop já gravaram, daquelas que hoje em dia a gente escuta no elevador de grandes prédios comerciais, daquelas que nunca deixam de ser tão bonitas quando sopradas e sopradas e sopradas. Sem letra ou palavra, sem sussurros, sem bateria, baixo ou piano. Porra, cara, daquelas que Chet Baker tocava só pra gente pensar que podia furar o peito sem sangrar, sem morrer. Daquelas que eram melhores que gozo. Os poemas do poeta gordo eram melhores que gozo.

::

Comecei a ficar obcecado com aquele livro e com todos os outros que consegui comprar do mesmo autor. Era um jorro. Os prazos se encurtando, os produtores telefonando, o roteiro que eu não escrevia. Aos poucos entendi que era a minha primeira grande crise criativa. Estava impotente, invadido por estrofes. Não queria mais escrever filmes, queria ler e ler e ler. E soprar minhas ideias no ouvido de alguém que pudesse fazer delas deslumbramentos do tamanho dos poemas do trompetista do andar de baixo.

::

Espairecer, andar, ver os rostos nas ruas, inventar que aquela gente que passeia pelas feiras de antiguidade volta pra casa cheia de quinquilharia e felicidade. E então, ali, de novo. O nome gordo e parnasiano na capa de um disco de vinil. Eu nem sequer tinha vitrola. E lá fui, metrô adentro, aquela poeira na sacola. Era óbvio que se escutasse o disco ia ouvir poesia declamada. Era óbvio demais, mesmo. Um livro que toca música, um disco que toca o corpo. Eu estava me apaixonando pelo poeta gordo sem nem mesmo ter trocado com ele um bom dia burocrático no elevador. Eu precisava inventar um filme, não uma paixão gay pelo meu vizinho.

:: 

Expliquei a algumas pessoas que precisava de férias, e tão logo me livre de telefonemas e cobranças, comecei, sozinho, o meu filme. Um poema por dia. Filmar as linhas. As letras tipográficas impressas, as minhas escassas anotações nas margens das páginas, minhas risíveis tentativas de transformar eu-lírico em personagem: nenhum nome poderia. 240 páginas de sonetos. E a minha câmera apontada pra cada conjunto. Parada, contemplativa, ligada o tempo suficiente que cada poema precisava pra ser lido. 3360 linhas, quase rimas. E aquela música subindo. E eu pensando como dar final feliz àquelas páginas quase estáticas, fotografias. Eu não estava mais fazendo cinema. Tinha dias, parecia, que eu fazia um filho.

Dormia e acordava com livro, disco e toda a confusão de melodias, acordes e arranjos que rasgavam páginas. Eu rasgava páginas. Diante do elevador, rasgava páginas e os meus dentes. No andar de baixo, diante da porta, rasgava mentalmente tudo o que me separava do poeta gordo, do tapete da minha sala ao concreto e às vigas do prédio. Se tudo desabasse, se eu conseguisse explicar.

O cara não me convidou pra entrar. 240 dias depois e o cara não me ofereceu nem um copo d’água. Justificou-se com pressa, pegou as caixas que entreguei com pressa, fechou a porta com pressa. Foi com pressa também que interfonou-me, depois de mais exatos 240 dias em que assistiu, um a um, seus poemas filmados. Olhei minhas malas no corredor, enfileiradas, quatro meses de tudo o que eu precisaria enquanto estivesse numa cidade do interior de São Paulo, filmando o meu primeiro longa-metragem cujo final era trágico. A história era quase banal, um caso típico de intoxicação. Um sujeito se apaixona por outro durante um verão de mil dezembros. A intervenção do poeta gordo, porém, parecia dar outro rumo a toda aquela bagagem.

Uma vez na portaria, diante daquele cara volumoso, seus cadernos e seu trompete armazenado numa caixa de couro, pensei se podia realmente amar aquele homem, se podia deixar de ser triste com aquele homem e suas 240 páginas de sonetos e seus standards e versões sopradas de Cole Porter. Eu podia, pensei. Eu podia.

terça-feira, agosto 23, 2011


Se todas as esquinas fossem habitadas por encontros, se todas as ressacas fossem como as do mar.

terça-feira, agosto 09, 2011

O dia em que Clarice chegou

Aquele pôster ficou enrolado dentro do tubo de papelão muito mais tempo do que devia, com outras duas impressões iguais de um mesmo show que eu teria ido duas vezes, e que teria servido a dois encontros, mas esse era o tipo de coisa que não acontecia por aqui. Ocorria faltar paredes, coração e, eventualmente, gente.

O dia em que Clarice chegou foi o mesmo em que o cachorro morreu pela primeira vez, e a partir desse dia toda a dúvida poderia recair sobre ela. Houve quem tentasse me convencer de que não convinha ter Clarice emoldurada na parede do quarto, que era carga demais, e não só literária. Houve quem tentasse me animar com o fato de que ela poderia me inspirar a investir na minha carreira de escritora. Houve quem achasse que eu era escritora.

Houve, também, quem sentasse ao meu lado na cama e ficasse pasmado admirando Clarice. Parecia haver certo repouso ali, uma calma de ver que há muito só praticava quem tinha intimidade com o mar. Era uma calma parecida com aquela que se têm na arrebentação, aquele momento em que ficamos à deriva com as pernas pendendo para os lados da prancha, pouco antes da manobra que nos coloca no centro de onde se deve estar para deslizar, tal qual uma canção meio cafona dos anos 90, o sol abraça o meu corpo, meu coração etc. A calma de quem brinca com as mãos na água salgada, vendo os dedos enrugados e a praia do melhor ângulo, de quem tem o nascer do sol como religião. A calma que se escuta de algumas vozes. Um altar.

Ter Clarice ali aliviou a perda diária do cachorro, que insistia em morrer ao menos uma vez num intervalo de 24 horas. Chegar em casa passou a ser um suplício cotidiano. No caminho eu tentava decidir o que fazer se o cachorro morresse de fato. Ele começava a perder os dentes, o que resultava conclusões bem mais simples. Eu fazia todo o barulho possível ao entrar: de chaves, dos pés, da bolsa, da prancha. Eu voltei a surfar no dia seguinte ao que Clarice chegou, porque eu precisava de um conforto improvável pra quando o cachorro realmente morresse, um desses confortos que te roubam os pensamentos por alguns minutos, algumas horas.

Eu o chacoalhava entre as almofadas, lágrimas a postos. Clarice parecia indiferente na parede, nem era possível atribuir-lhe a função de velar o sono do cãozinho. Ela escreveria toda uma obra caso se deparasse com mais um bicho morto, eu não saberia nem mesmo inventar uma oração. Eu comecei a inverter a lógica das coisas, e me empenhava em sentir a maior quantidade de felicidade possível toda vez que o cachorro não estava morto. Comecei a entender também que eu não precisava pegar todas as ondas que invariavelmente eu perdia por falta de fôlego, que a mim bastava aquele tempo silencioso de boiar sobre a prancha, olhando a areia, tentando assoviar.

Um mês depois do dia em que Clarice chegou eu decidi abrir a garrafa de Seacher’s Gin que veio junto com ela, porque eu estava exausta de todos os dias de sol e de checar de hora em hora os sinais vitais do cão. Adormeci diante de Clarice, depois de contemplação, três garrafinhas de água tônica e meio limão siciliano, e aquela placidez que eu sentia ao sentar na areia, depois de passar uma hora dentro do mar. Acordei no dia seguinte, o cachorro ao pé da cama me chamando pra brincar.

domingo, julho 31, 2011

Corrosão


(um post com 2 epígrafes)

Só não dói mais porque não é preciso.
Se fosse o caso, a dor era pior.

Paulo Henriques Britto in Trovar Claro.

:: 
porque eu não sei o que é uma nêspera
ou como as coisas são sem mim. 

Marcello Sorrentino in Um pequeno sistema de incerteza.

::


Quanto mais você não está aqui mais eu te invento neste lugar onde eu nunca estou: uma casa que não conheço, escadas que não sei onde vão dar, discursos que jamais saberei decifrar, músicas que ficarão quietas, coreografias que não vou saber dançar.

Quanto mais eu não consigo chegar até você, mais caminho se abre à frente, mais buracos pelo asfalto, sinais sempre fechados, ausência lancinante em cada esquina em que não estaciono pra te abrir a porta, te ver entrar.

Quanto mais você não volta, mais vai embora. Quanto mais teu CEP desconhecido, tuas mãos organizando estantes e coleções de discos que não compartilharemos. Quanto mais correspondência devolvida, mais cortinas nas tuas salas, e mais poesia nos meus braços.

Quanto mais não ver tua cara, mais desbotam as fotos, e invento outras imagens, quase todas desfocadas pra poder te desenhar no meio. Quanto mais a vida sem você, mais eu sozinha.

domingo, julho 17, 2011

O silêncio das línguas cansadas

Pedro Lago me propôs um desafio e eu topei: contar uma história que tratasse do encontro de um jovem leitor de Dostoiévsky com uma mulher mais velha no Jardim Botânico. Substituí o russo por um português e aí está o resultado.

::

 
Sabe-se pouco a respeito dos encontros, mas que se davam toda terça-feira no banco de madeira perto do orquidário. Foi ali onde ela teve a ideia de enterrar os livros.

Antes que os primeiros quadrados de porcelana brotassem, porém, passaram-se meses em que ela era vista ali sozinha, a olhar fixamente praquele pedaço de chão onde seus sapatos ortopédicos tantas vezes se alongaram ao lado das sandálias de couro dele. Dizem que tinha um ar ao mesmo tempo desolado e econômico: eram escassos os suspiros, os movimentos e mesmo a contemplação foi substituída por uma espécie de nuvem que lhe encobria a visão. A qualquer momento tinha-se a impressão de que poderia chover perto dela. Parecia castigada por uma dor que ninguém adivinhava.

Quando as quinas dos quadrados começaram a perfurar o chão, o rebuliço foi geral. Achava-se que a obra do orquidário poderia ter soterrado antigas fundições. Ou que tesouros da família Imperial tinham sido esquecidos sob o solo, e agora subiam à superfície. Até que nem tanto esotérico assim. Técnicos, autoridades e entidades políticas e espirituais concordaram, unânimes no decreto: aquilo era obra de portugueses. Diante do espanto, decidiram arranca-los pelas raízes e conter, assim, os escândalos e curiosos que se amontoavam para ver os azulejos que floresciam no Jardim Botânico. Um plano de ação foi arquitetado para que se desfizesse tal absurdo, e os jardineiros mais experientes do parque foram requisitados para dar fim ao canteiro. A surpresa maior, porém, ainda estava por vir.

::

Conta-se que ela era já uma senhora e que frequentava o local desde o ano anterior. Era discreta em vestes, gestos e palavras, mas emanava alegria. Não uma de carnaval, mas aquela alegria que se evidencia pelas mãos, sempre gentis aos toques, e pelos olhos, ainda ávidos pelos dias, especialmente pelas cores das orquídeas. Seu passeio era religioso. Contornava o roseiral, ia dar no lago de vitórias-régias e aspirava o ar com entusiasmo quando dava o primeiro passo pra dentro do orquidário. Seu prêmio: teria enfrentado tempestades marítimas, teria afundado naus inimigas, teria singrado oceanos povoados das mais monstruosas criaturas para chegar até ali. Morava do outro lado da rua, porém. Sua aposentadoria fora planejada para nutrir o grande amor que tinha por aquelas plantas, e depois de uma existência pontuada por perdas que a esquartejavam por dentro, fez daquele pedaço do Jardim Botânico o seu recanto. Esquecia-se de tudo em companhia das orquídeas.

::

Um dia ela entrou no parque carregando uma pá, uma sacola que parecia pesada e óculos escuros que escondiam parte do rosto. Poucas pessoas viram quando ela abriu um buraco no chão. As poucas pessoas que viram quando ela abriu um buraco no chão estranharam, mas nenhuma delas se deu conta de que o canteiro de azulejos que brotava era justamente a pequena cova que aquela senhora havia aberto meses antes.

::

Meses antes ela plantou os livros dele, e contou num bilhete a história que é a que se conta até hoje: ela Amália, nome de fado. Ele Gaspar, como um nobre navegante. As orquídeas, bengalas que a mantinham de pé. Os livros de Fernando Pessoa, alicerces dele. Numa terça-feira Amália não foi ver o roseiral, tampouco contornou o lago. Foi direto ao orquidário, e viu aquele sujeito ali, quase inexistente, pela primeira vez. Tão magro e tímido, calçava sandálias de couro, tinha a boca semiaberta e ondas nos olhos. Era jovem, alto, tinha uma ameaça de curva nas costas e parecia ter também todos os sonhos do mundo. Usava um bigode ultrapassado, além de óculos de leitura de molduras levíssimas. E carregava livros.

Sentaram-se no mesmo banco de madeira, ela para descansar, ele para ler. Quando percebeu a curiosidade que se esticava em sua direção, pigarreou, ficou rubro. E leu uma estrofe. Aflito, gaguejou. Ela riu, ele também. E tudo o que se desenrolou após esse primeiro encontro pareceu seguir essa lógica do também. Ela ficou mais feliz, ele também. Ela passou a falar mais, ele também. Ela ria, ele também. Ela qualquer coisa e ele também. Em pouco tempo ele tinha declamado boa parte da obra de Fernando Pessoa. Ao final de cada volume, ele a presenteava com o livro: orelhas, dobras, dedos, todas as marcas daquelas tardes, até mesmo folhas caídas de orquídeas que recolhiam juntos e que manchavam palavras.

Ela montou uma pequena biblioteca na sala de casa, e além das orquídeas, passou a fixar-se também nas lombadas e nas páginas do poeta português.

Um dia, porém, ele não apareceu na hora certa. Noutro dia, porém, ele não apareceu. Ela voltou a ser vista ali, sozinha, olhos fixos na terra do chão, agora sem as marcas dos pés longos e finos dele. Desabituara-se da solidão, e foi ganhando ares tristes, dizem, até, que parecia diminuir de tamanho. Decidiu, então, plantar os livros.

::

Foi um cair de queixo atrás do outro. Ao lançarem as armas que revelaram o que havia sob os azulejos, a estupefação foi ainda maior. Antologias, coletâneas, sonetos, odes, rimas formavam um verdadeiro cemitério de livros, e deles brotavam azulejos. Quadrados brancos que iam furando a terra. Bocas se alargavam até quase esgarçarem os rostos incrédulos. Nenhum dos jornalistas e fotógrafos presentes ousou disparar um flash. A gente aparvalhada que estava ali, aos poucos, deu as costas ao canteiro e saiu andando, muda, aos tropeços. Aturdidos, os jardineiros aguardavam as ordens dos superiores. Incapazes de dar voz aos pensamentos, os superiores enxugaram das testas o suor, deram as costas e saíram escoltados pela polícia.

No dia seguinte não se falou mais no assunto. Não se escreveu uma linha nos jornais sobre os azulejos. Não se escutaram sussurros nem cochichos a respeito de tal episódio. Não se buscou explicação, não se consultaram os astros, não se encomendaram estudos. Quando descobriram o bilhete de Amália preso a um vaso dentro do orquidário, acrescentaram nas placas e nos mapas da instituição os caminhos e setas que levavam ao tal canteiro.

::

A placa que contava a história da amizade entre Gaspar e Amália foi instalada numa manhã radiante. Fazia muito que Amália não era vista por ali, de fato, desde o dia em que ela chegou carregada com os livros e a pá ela não tinha mais voltado.

Naquele dia, conta-se, surgiram sobre os quadrados de porcelana os primeiros traços de tinta azul. Era primavera, a estação das flores.


quarta-feira, julho 13, 2011

Twitter


“Sempre gostei de ter medo”, disse valter hugo mãe bem no começo de uma noite que todo mundo merecia ter de vez em quando.

Há anos tenho uma queda literária por tudo o que vem de Portugal, e a paixão se estende a Angola e Moçambique. Gosto de tudo dessa língua parecida com a nossa, mas tão diferente no trato. Gosto, sobretudo, do uso do imperfeito. Gostava falar como eles, ter a mesma cadência e a nítida impressão de que prosa e poesia podem se confundir.

Gostava também que todo mundo tivesse, de vez em quando, uma noite tão gentil como a que acabei de ter, e que ainda vou saborear. Meus melhores momentos de valter hugo mãe são os que seguem.

Ele contava como foi quando o filho de Clarice Lispector lhe pediu que autografasse um livro: “Alguém nascer de Clarice Lispector é quase um desrespeito à raça humana que não pode nascer de Clarice. Ia ser maravilhoso se pudéssemos ter várias mães.”

Sobre livros e o fazer artístico, ele aponta a insatisfação como força motriz e norte, e sem ela um escritor deixa de escrever, um pintor deixa de pintar: “Nenhum livro até agora foi capaz de me calar. Nenhum livro foi suficiente.”

“Maridos há poucos, mulheres há muitas.”

Sobre personagens, gosta de livros sobre “pessoas que efetivamente poderiam ser encontradas.” Diz também que ao escrever momentos decisivos ou de grande impacto sobre o personagem, se vê compelido a telefonar para amigos para dizer o quanto os ama, e que chega a sentir inveja dos personagens.

“Nós adultos temos todas as idades dentro de nós.”

Defende a ideia de que deveríamos lidar apenas com pessoas agradáveis, e que deveria haver um esquema de substituição dos que não nos satisfazem.

“Achava os prosadores seres cheios de demasia”, enquanto que a poesia sempre lhe pareceu essencial. Falando sobre sua pontuação e sobre a escolha de escrever somente com letras minúsculas, destacou a vontade de dar velocidade ao livro. “A poesia não perde tempo”, afirmou. Enquanto a prosa se vale de aspas, travessões e reticências, a poesia se livrou de tudo o que parece supérfluo. Não pensamos com todos esses sinais ortográficos, e sua escrita quer se aproximar do fluxo do pensamento e da oralidade. Execrou o uso de reticências, que para ele são uma tentativa de conferir profundidade a uma frase ou pensamento. Se a frase ou pensamento não forem profundos, as reticências não ajudarão. E se as reticências são formas de interrupção, então que um ponto só seja o final.

“Os meus livros vem do que eu quero saber.”

“Dizia as coisas para ter coisas, dizia palácios para ter palácios.”

“Pirilampo é a minha palavra favorita.”

A minha é libélula. 


segunda-feira, julho 11, 2011


Ninguém sabia o que fazer em caso de felicidade. Havia seguro de vida, seguro para veículos e para morte ocorrida dentro de veículos. Mas quem nos protegeria em caso de felicidade?

David Foenkinos in Em caso de felicidade.

quarta-feira, julho 06, 2011

O dia em que jantei com Claire Denis



(para Ana)

Todo mundo precisava de um casaquinho no dia em que jantei com Claire Denis. Passávamos pela temporada atípica de inverno no Rio, aqueles poucos dias em que todos nós desejamos o verão de volta, aqueles poucos dias em que relativizamos o conceito de meio-dia em janeiro, aqueles breves instantes em que todo mundo tem um resquício de naftalina na pele e uma jaqueta de couro no figurino.

Uma semana antes do dia em que jantei com Claire Denis eu não fazia ideia de quem era Claire Denis, ou melhor, não fazia ideia de como era o cinema de Claire Denis. Também não conhecia alguém que viria a me emprestar um dvd de Claire Denis, tampouco imaginava que uma música da Corona viesse a fazer parte da minha lista de Prozac Songs. Uma semana antes do dia em que jantei com Claire Denis, eu não podia imaginar que uma música da Corona coubesse num filme francês inspirado em Melville, e que essa cena se tornaria pra mim o perfeito sinônimo de dancing with myself. 

Eram tempos bons aqueles que precediam o dia em que jantei com Claire Denis. Eu experimentava novidades que me enchiam de alegria, sorria pelos motivos mais prosaicos, fazia test-drives em concessionárias e lidava bem até com piadas de vendedores da Volkswagen. Eu acordava cedo pra tomar um café da manhã consistente e cantava as curvas da estrada de Santos enquanto era a única babaca a obedecer os limites de velocidade do aterro do Flamengo, e até o trânsito era motivo de felicidade: eu chegava atrasada na natação, deixava de nadar 200 metros e me dedicava à discografia completa do Rei. Eu havia me tornado uma daquelas pessoas felizes e completamente irritantes que tanto detesto, mas nem isso me abalava: a vida era boa no dia em que jantei com Claire Denis, o prato thai preparado por um cineasta era ótimo, e uma ou duas conversas que se iniciavam naquela noite eram ainda mais promissoras.

Mas a vida tem suas surpresas, e no dia em que jantei com Claire Denis eu fui abordada por alguém que não entendeu que eu não estava a fim de elucubrações complexas sobre a vida, a literatura ou a procedência de sotaques. No dia em que jantei com Claire Denis, e em todos os outros dias da minha vida em que nada ou ninguém acontecem, eu não queria conversar sobre bloqueio de escritor, ou sobre seu processo criativo de escritor, ou sobre qualquer outra pauta que envolvesse teorias ou critérios demais sobre o ato de escrever. No dia em que jantei com Claire Denis, eu tentei explicar ao meu interlocutor que eu não tinha qualquer propriedade sobre o assunto, que escrever, pra mim, não era uma Questão que precisasse de maiúscula, que eu nem mesmo iria à Flip e que menos ainda eu sabia porque o valter hugo mãe insiste em só usar minúsculas. No dia em que jantei com a Claire Denis eu estava muito mais interessada em perceber como o efeito físico das emoções arrebatadoras, sejam elas boas ou ruins, causadas por cenas sublimes ou grotescas, são irremediavelmente as mesmas (pernas fracas, revertérios no estômago, levitação). Eu olhava desesperadamente pros lados procurando o Pedro ou o João Manuel, que com sorte entenderiam meu código e iriam me resgatar com a desculpa esfarrapada de consumirmos algo no bar. Até mesmo a Cuba Livre sem gosto que estavam servindo àquela hora me parecia mais atraente do que aquele papo intelectualoide que eu tentava a todo custo evitar.

No dia em que jantei com a Claire Denis lamentei o fato de ter me tornado uma pessoa simpática e comunicativa que não sabe como se desvencilhar de gente mala. Ir ao banheiro teria sido a solução. Eu pensava em como seria boa a explosão de um bueiro naquele momento. Ou um ataque antropofágico.

No dia em que jantei com a Claire Denis deixei duas pessoas falando sozinhas, fiz passos de dança excêntricos quando o dj colocou The Rythm of the Night na pista e não consegui retomar as conversas promissoras que se haviam iniciado antes que eu fosse interrompida pelo tal sujeito. No dia em que jantei com Claire Denis eu não troquei uma palavra com Claire Denis. Voltei pra casa embriagada num taxi com a certeza de que na estrada de Santos eu não vou mais passar.

quarta-feira, junho 22, 2011

"That's not writing, that's typing." 


Truman Capote, sobre Jack Kerouac.

Outros insultos literários aqui.

segunda-feira, junho 20, 2011

If I can make it there


-       Mas o livro dizia o que, afinal?
-       Dizia o que todos os livros de auto-ajuda dizem, mas esse me fisgou, entende?
-       Não, não entendo. Sinceramente, não entendo porque nunca li algo do gênero e não acredito que auto-ajuda "fisgue" alguém.
-       É, eu sei, eu também sou muito preconceituosa.
-       Não é questão de preconceito, é incompatibilidade. Quem lê Faulkner não pode ler auto-ajuda. Quem lê Camus não pode acreditar nessas coisas.
-       Sei, sei. Mas quem vê cara não vê coração. E Quem ama não adoece.
-       O que?!
-       É o título de um dos livros mais vendidos de auto-ajuda.
-       E é com esse argumento que você vai tentar me convencer? Títulos?
-       Os títulos são o primeiro motivo, uma vez rendida a ele o resto vem, pode apostar.
-       Duvido.
-       Um exemplo: Quando termina é porque acabou. Vai contra tudo o que o Lenny Kravitz nos cantou durante anos e anos. E faz muito mais sentido.
-       Qualquer coisa faz mais sentido que o Lenny Kravitz.
-       Mas eu juro, você vê o resultado. É tipo um grupo de apoio, mas sem a chatice de ter que conviver com as pessoas, entende?
-       Não, continuo sem entender patavinas.
-       Ok, eu vou te explicar. Vou te dar um exemplo prático: eu.
-       Você não é confiável.
-       Claro que sou. Eu fui a cobaia da minha própria experiência. E além do mais, você anda consultando horóscopos, se apegando a planetas e tal. Fé é indiscutível, você devia saber.
-       Ok, vou te dar uma chance. 
-       Caiu nas minhas mãos esse livro que diagnosticava os perfis amorosos e apontava os medos e inseguranças e tal. De repente eu me vi ali descrita em frases meio cafonas, sabe?
-       Depois de anos de análise você foi se apoiar em frases cafonas?
-       Mas é que ali não tem o peso do consultório, nem  o preço da consulta, e nem, enfim. Tanto é que dá certo que eu providenciei dois encontros na mesma semana.
-       Tomou iniciativa e tudo?
-       Exatamente. É isso o que um livro de auto-ajuda deve fazer pela gente, certo? Pró-ativismo!
-       E como foram os encontros?
-       Eu faltei a eles.
-       Você convidou dois sujeitos pra sair e não apareceu em nenhum encontro?!
-       Um sujeito, dois furos. E eu avisei que não iria. Eu realmente estava vivendo dias atribulados. Priorizei outras coisas e...
-       E você quer me convencer de que um livro de auto-ajuda está realmente te ajudando tendo em vista o fato de que nenhum encontro se concretizou. E pelo que eu me lembro, seu problema não era dessa natureza, ele começava sempre depois do segundo ou terceiro encontro.
-       Verdade. Aí é que está a questão. Eu só li dois capítulos do livro. O resto ainda não foi traduzido. Daí que a solução só veio metade, sabe? Eu convidei, mas o segundo passo, o de aparecer, não rola ainda. Fico em pânico!
-       Mas por que essa vontade súbita de ter alguém? Você sempre me pareceu uma solteira convicta.
-       Eu era. Mas outro dia enveredei uma conversa sobre relacionamentos com alguém e tentei convence-lo de que eu era mesmo muito complicada e tal. E que por isso não engatava nada sério com ninguém. Aquele velho “o problema não é você, sou eu”. Mas aplicado a mim mesma.
-       E...?
-       E aí que ele argumentou.
-       Desenvolva.
-       Ele disse que achava muito fácil gostar de mim e tal. Que não podia acreditar que eu era tão difícil assim. Ele foi enfático o suficiente pra eu me convencer de que sou muito mais simples do que sempre pensei. 
-       “Se eu sou algo incompreensível...”
-       “Mistério sempre há de pintar por aí.” A culpa é dele.
-       Se ele soubesse...
-       E ainda mais, não é muita coincidência eu ter que ler dois capítulos de um livro de auto-ajuda que fala sobre dificuldades de relacionamentos quando eu to justamente disposta a trabalhar isso?
-       Tanto anos de análise... Tantas conversas sobre atualizar o outro e você esqueceu de atualizar você mesma.
-       Não fosse o discurso do sujeito eu estaria aqui muito quieta, levando minha encalhada vida adiante, sem nem pensar nisso.
-       Bem, tecnicamente você continua encalhada. E cá entre nós, eu te falo isso há anos. Foi preciso cruzar um oceano pra se convencer?
-       Eu sei, eu devia ter te dado ouvidos. Mas já entrei na aula de alemão, pra ler o restante do livro. Daqui a uns 5 ou 6 anos eu devo conseguir entender tudo. É uma boa perspectiva, não acha?
-       Acho que existem métodos mais eficazes. Tipo aparecer nos próximos encontros que você marcar. Ver que não é tão assustador assim quanto parece sair com a mesma pessoa por duas semanas.
-       Ah mas e a preguiça? Você acha mesmo que as pessoas são tão interessantes assim? Acho que me motivei pelo fato de de repente ter me descoberto muito mais legal do que eu pensava, e menos complicada também, entende? Aí achei que mais gente além das 4 ou 5 pra quem dou atenção irrestrita merecia desfrutar de mim mesma. Mas no meio do caminho mudei de ideia. E fui pra casa gravar um “Auto-ajuda songs” pro Marcelo.
-       Poucas pessoas são de fato mais interessantes que o Marcelo.
-       Raríssimas. E ainda tem a pilha de livros aqui pra ler...
-     Quem mexeu no meu queijo feelings?
-    Que nada. Balzac, Houellebecq, essa francesada.
-       E agora?
-       E agora nada.
-       Não dá pra re-convidar?
-       Até daria. Mas depois de ter amarelado, preciso ler alguma outra coisa pra me dar confiança de novo, entende? Hoje na hora do almoço entrei numa livraria duvidosa do Centro da cidade e fui direto pra gôndola de autoajuda. Confesso que me deu uma certa vergonha.
-       Rá. Eu sabia. Você não frequentaria a auto-ajuda da Travessa, aposto. Muito menos a da Argumento.
-       A da Argumento nem pensar, seria um downgrade na minha imagem. Todo mundo me conhece ali. Não seria mais aceita nem no café. Já pensou?
-       Alors, de volta à estaca zero.
-       Pois é...
-       Mas e esse disco do Marcelo, tem o que?
-       Tudo o que poderia ser classificado como autoajuda se a música tivesse esse gênero. Ain’t no mountain high enough, Tente outra vez.
-       You gotta be?
-       Bad, bold, wiser, hard, tough, stronger, cool, calm, stay together. Imagina tentar ser tudo o que diz essa música? Teria que existir um livro pra cada resolução. A pessoa desiste na terceira palavra e volta pro Lenny Kravitz na hora. Tem Queen também. The show must go on. New York, New York. Tem música mais autoajuda que New York, New York?!
-       Não, não tem. Você devia ganhar a vida fazendo coletâneas bizarras pro Marcelo. Devia haver um modo de isso se expandir em escala industrial.
-     Eu sempre achei. O mundo merecia minhas coletâneas. 
-     Taí, mais um motivo pra você não faltar aos cafés que marcar futuramente. Mas e o disco, fecha com que?
-       All you need is love...

sábado, junho 18, 2011

Bukowski


Hoje é 2003 enquanto atravesso o túnel Zuzu Angel pra buscar Maíra no meu carro com goteiras. Ela vai reclamar do cheiro de mofo, vai querer fumar pela janela e vai ligar pra mais alguém que também vai estranhar o aroma ambiente. Ela vai pedir desculpas pelo atraso e completar a maquiagem enquanto diz que o problema todo é que o furão escapou da gaiola e ela teve que caça-lo pela casa, o que significou o tempo equivalente a 5 ou 6 músicas de Burn To Shine naquela rua pacata do Leblon. Ela aguenta o cheiro do furão mas não suporta o meu pequeno aquário itinerante. Ela tem mesas de MDF no quarto, um livro da Sylvia Plath na cabeceira e 3 namorados. Eu moro na Barra, estou platonicamente apaixonada por um paulista e escuto Ben Harper obsessivamente. Quando o segundo elemento entrar no carro (e ele pode ser Nat ou João) eu vou explicar de novo que sim, aquele veículo alaga e não tem jeito.

Nós vamos terminar a noite com os pés pra cima de uma cadeira de madeira do Tio Sam, com cabelos indomados até que vejam condicionador novamente. Maíra vai cambalear pra casa, eu vou trôpega até outro bairro e no dia seguinte, antes do café-da-manhã, vou tomar banho pra amenizar o cheiro do segundo andar daquela casa em Botafogo onde dançamos até quase derrubar o chão, e onde ainda não existe lei que proíbe cigarro em ambientes fechados.

Em 2009 eu paro meu carro prata na rua sem saída pra onde Maíra se mudou. Quando abrir a porta ela vai perguntar porque não estacionei na garagem. Tem coluna em excesso ali, é melhor evitar. Ela vai dizer que não dirige e portanto não pode opinar. Ela substituiu o furão por um peixe que nada em círculos entre bolas de gude na estante da sala. Ela tem 3 computadores no escritório, uma cadeira de balanço na cozinha e 8 namorados, sendo 2 deles internacionais. Eu continuo sendo proprietária de um automóvel cuja vedação contra chuvas não é competente, invento desculpas quando ele me telefona e me chama pra sair e, em vez de nos esbaldarmos em algum outro segundo andar como aquele de Botafogo, eu traduzo pro francês as cartas de amor que ela dita e que serão enviadas para um dos amados transatlânticos.

Essa semana Maíra e eu não conseguimos jantar, tomar café ou falar ao telefone. Ela mora perto da Cobal com um gato (finalmente um animalzinho cordial), ainda usa os anéis que compramos juntas no Saara e tem 1 namorado engraçado. Eu ajudo o cão velhinho a subir na minha cama, dou um rim pra não sair de casa aos sábados e, confesso, minha senha do banco é a data de aniversário dele.

No início do século XX, quando conheci Maíra, ela fazia o teatro lotar todas as noites. Tinha cabelos cor de fogo, um cachecol bordado inseparável e já gostava de vodca. Nós nos tornamos amigas numa tarde em que os ponteiros dos relógios empacaram por excesso de gelo que caía do céu. O inverno russo era uma merda, só ela me fazia sair de casa mesmo na pior nevasca. Pouco depois eu fugi para Paris para levar uma vida mais preguiçosa repleta de chocolates-quentes. Maíra rodou o mundo com as turnês de Diaghilev e os balés que escandalizaram a Europa dos anos 20. 

Hoje é 2011 e eu escrevo sobre ela usando entre os dedos apetrechos de silicone que prometem evitar o crescimento desses ossos cretinos nas laterais cansadas dos meus pézinhos. Por sorte, nessa vida, escolhemos outras profissões. Não haveria cetim que resistisse aos nossos joanetes reencarnados.

quarta-feira, junho 08, 2011

Lanterna dos afogados, o retorno

(para ler ao som de The Swimming Song – Vetiver)

Eu sou uma pessoa má: eu julgo a indumentária alheia, creio que existem bebês feios, amaldiçoo um ou outro escritor, menosprezo todas as séries do Multishow.

Por outro lado, eu não sou uma pessoa competitiva, de modo que, ao final da aula de natação, quando a professora me informou que eu havia nadado 900 metros, eu não fiquei feliz, impressionada ou desafiada a aumentar a minha marca para 1 kilômetro. Eu continuei esbaforida, achando que aquele esporte servia mais como exercício expiatório de toda e qualquer culpa que eu poderia ter e fiz planos radicais de diminuir meu rendimento para módicos 400 metros.

Freud e todos os outros pensadores devem ter explicações embasadas que justifiquem o fato de eu ter voltado à natação. Os meus motivos são os que seguem.

Nadar é resolver seus pecados em tempo de no dia seguinte poder comete-los todos outra vez. Qualquer xingamento a terceiros se dissolve nas primeiras braçadas e pernadas de crawl. E também, convenhamos, depois de 5 quilos adquiridos em embriagantes e calóricas viagens, e de uma esperança que acendeu as luzes da minha agonizante vida afetiva, ter uma barriga e duas pernas socializáveis virou item de urgência na minha agenda.

Além do mais, a minha nova professora de natação tem cara enfezada e bota fé no meu teatro desesperado, logo, ela não vai me empurrar pro nado golfinho ao menos até o final de agosto, que é quando termina o meu plano trimestral que estupidamente adotei. É claro que tal decisão foi tomada depois de uma aula. Pico de endorfina, sentimento de superação. Sair viva e andando da aula de natação é motivo mais que suficiente pra escrever todo um livro de auto-ajuda: você não morreu sufocada, aguntou firme o figurino patético e o olhar de pena da professora.

Mas vitória mesmo é sobreviver ao professor pró-ativo de hidroginástica. Todas as vezes em que eu alcançava o outro lado da piscina, ali onde dava pra escutar a música do Ed Motta que parecia tocar em looping (“mia, arranha o sol, uuuuuu...), ele tinha na ponta da língua uma frase de incentivo: “no começo é difícil mesmo, depois fica mais fácil.” O que ele nunca entenderia, e eu nem ousaria explicar, é que o “depois” dele tinha uma conotação bem diferente da minha: ele pensava em um mês ou dois, eu pensava em reencarnação. Ele continuava seu discurso otimista, eu pensava em espanca-lo.

Na segunda semana de natação, eu implorei pra minha chefe me prender numa reunião interminável, mas eu era muito nova naquele escritório pra participar de qualquer evento desta importância, e lá fui eu, plano infalível, fingir afogamento antes de completar 200 metros e, sob a alegação incontornável do trauma, nunca mais me arriscar numa piscina.  

sábado, junho 04, 2011

Carta a C.M.

My dear,

Eu e minhas ideias: hoje fui a praia. Hoje é um daqueles dias em que eu poderia ter uma lareira. E eu fui a praia. Daqui do alto nunca dá pra ver o que acontece no litoral, portanto descer à rua é sempre surpreendente, de modo que fui cheia de casacos à clínica de vacinação enquanto todos caminhavam de roupas leves sob o melhor sol que temos por aqui, o de outono. Horas depois eu me defendia do vento, e da areia que subia com ele, com uma revista que ficou pela metade, e com um pedaço de praia dentro. Nem mesmo havia os bravos homens que alugam cadeiras e guarda-sóis (guardas-sóis? Guardas-sol? Meias-calças? Here we go again...) durante todo o verão. Um vendedor de mate parecia com medo das nuvens que surgiam por detrás do Dois-irmãos. Eu me distraí com um poema e quase não percebi.

Eu poderia me especializar nessa coisa de programas insólitos. Passeios de bicicletas que deixam hematomas por duas semanas. Viagens atrasadas porque eu jurava que o voo era num horário quando era no outro. Dormir uma noite em Nantes porque o avião não pode chegar. Perder sua casa uma vez porque planejei voar na pior tempestade de neve europeia dos últimos cem anos. Perder sua casa uma segunda vez porque a minha conta poupança ainda não dá conta de todos os câmbios, e a minha agenda ainda não dá conta de todos os tempos. Operar o olho e ficar com tudo ao contrário. Ir pra aula de natação pra salvar as costas e quase matar os braços.

Eu me distraio à beça com todas essas coisas: os dias, dinheiros, meios de transporte verdes, plural da língua portuguesa.

Hoje eu queria ir de novo à última festa em que fomos juntas...

Ainda nem te contei do trabalho novo e de tudo o que já ri com ele. Eu sei que a gente muda de ideia sempre, que para e pensa de novo, que volta atrás, que retira o que disse, que, horror!, eventualmente cospe no prato em que comeu, que pede desculpas, que inventa uma lista de hipóteses etc. Mas se eu fizesse um resumo dos últimos três dias, diria que tem amor e fascínio envolvido. Penso que não há possibilidade de ser ruim. Dessa vez eu não quero estar errada a respeito disso.

Hoje é um daqueles dias em que eu poderia ter um namorado. Ando tão feliz que agora me parece que isso seria possível. Acho que tocou essa música no casamento: I’ve had the time of my life. Nosso ano começou com fogos, banquete, uma viagem de trem e o melhor croissant de Yville-sur-Seine. Desde então, parece que todos os dias tem tido ao menos um desses elementos. Me parece que é irreversível, que nem saudade.

Putz grila, essa migração, esse fuso-horário.

Tenho um jantar me esperando, e um encontro com novos amigos e vinhos. Ou dois filmes, um chá alemão (sorte que menta é menta, e verde, em qualquer lugar do mundo) e o meu edredom. 

Wish me luck. 

um beijo,