Amontoados na varanda estreita, percebemos que há algo errado com as coberturas do prédio ao lado: as escadas que ligam o primeiro piso à varanda descampada não têm qualquer tipo de proteção, de forma que, em caso de chuva, o primeiro andar deve ficar alagado. Há também uma varanda bastante esquisita com piso vazado, ou será que ali devem ficar os motores de ar-condicionado?
Esquisito também é o terceiro andar de um outro edifício onde se vê, além de um adesivo com número de político no vidro, uma árvore de natal que, não sabemos, ainda ou já está montada? Alguém arrisca um palpite de que o dono do apartamento está morto desde dezembro ou que então alguém faleceu no dia de Noel e a árvore virou uma espécie de quarto do defunto em que ninguém consegue entrar. Os outros palpites provocam risada.
Uma prima nos presenteia com fotos que ela tirou num almoço ocorrido semanas antes. A mais importante é a que reúne todos os primos, uns esmagados, uns por cima dos outros, e que é uma tradição antiga dos tempos em que se conseguia enquadrar todo mundo junto numa 10 X 15. Não só ficamos grandes, mas ficamos muitos também. Uns tiveram filhos, outros casaram e de repente viramos um grupo de primos que precisa de uma panorâmica para nos capturar.
Não por acaso, nos espalhamos por sofás, poltronas, braços de cadeiras e chão e eventualmente nos enfurnamos no quarto de alguém e fazemos interrogatórios uns aos outros enquanto uma das primas loiras chama o pai, carinhosamente, de Obeso. Descobrimos que a tartaruga da irmã, a quem ela chama Stupid, come prancha de surfe e fios elétricos. Alguém sugere que ela está com verme, alguém sugere que ela seja alimentada adequadamente, alguém sugere que ela vá ao Lâmina fazer exame de sangue. Lembramos de quando um dos primos, que agora é ex-veterinário, cuidou de um passarinho que, desgovernado, entrara janela adentro. A ave não durou muito e até hoje especulamos o quanto a morte do bichinho influenciou sua decisão de mudar de carreira.
Um outro primo que ficou tão grande que escondia papéis de bombons no alto das portas (“sabe quando você vai comendo bombons pelo corredor e coloca os papéis na quinas do alto das portas?”) diz aos pais que a lei seca acabou, e eles acreditam. É o mesmo primo que dá um susto em todo mundo quando aparece fugindo de tiro no noticiário e também o escolhido para ficar na fila do ingresso do show da Madonna, afinal estagiário deve cumprir esse tipo de tarefa.
Cantamos “Parabéns pra você” e “Com quem será?” no almoço de noivado e fazemos maracutaia no amigo-oculto de fim de ano.
Achamos graça quando o primo atrasado consegue ser o último a chegar no almoço que acontece em sua própria casa. Fazemos piada com o primo que já é pai de três porque achamos que ele já pertence à categoria tio. Caímos na pele da tia que resolveu fazer aula de teatro e não economizamos gargalhadas quando ela nos convida para sua apresentação de fim de ano.
Mas engraçado mesmo é quando, num momento de (milagroso) silêncio, escutamos a prima mais velha dizer à mais nova que, por ano, morrem mais pessoas de ataque de hipopótamos que de leão. Nos entreolhamos assustados, imaginamos que exista um contexto para a frase mas pensando bem, em se tratando de nós, nem precisaria. Sabe quando você tem uma família grande e hilária que parece nonsense?...
obs. O Meu paletó virou estopa ressuscitou por tempo indeterminado.
domingo, agosto 24, 2008
quarta-feira, agosto 20, 2008
Signo: leão. Ascendente: não sei.
Certo como dois e dois, aos vinte e cinco anos eu seria uma pessoa bem resolvida, segura e determinada que saberia diferenciar esmalte renda de misturinha branca. Tantos enganos, mais ou menos importantes que esse, continuaram aqui quando acordei na minha primeira manhã completando os tais. Os vinte e cinco chegaram sem que eu tivesse resolvido qual era meu livro preferido, qual meu filme de cabeceira ou quem eu levaria para uma ilha deserta. Mantive, porém, uma esperança moura de acordar mais velha e mais sabida até o último minuto da véspera do meu aniversário, e essa era uma característica que eu não queria perder. Quando chegassem meus vinte e cinco eu queria continuar otimista. Às vésperas dos vinte e seis reconheço que otimismo nada tem a ver com ilusões bobas ou com os desejos que os outros nos desejam e então, perto da nova idade, em vez de querer emprego-amor-saúde (e coragem e sonhos e flores, como desejam os mais poéticos), resolvi querer algumas coisinhas mais simples, portanto mais possíveis.
Quero, por exemplo, aprender onde se usa mau com “u” e mal com “l”. Quero poder entrar numa loja de travesseiros e responder, sem pestanejar, que prefiro travesseiros baixos não deformáveis, que detesto a tecnologia da Nasa aplicada neles e que não confio em penas de ganso. Quero conseguir ler pelo menos um caderno de algum jornal sem morrer de sono, e sem ser o de moda. Quero achar legal gente que come alimentos vivos e que estuda Cabala. Quero parar de arranhar o carro na pilastra da garagem e acertar qual o ônibus volta pra casa sem precisar andar metade do bairro. Quero visitar todos os amigos que moram fora e conhecer o Peru. Quero ter alguma opinião sobre política. Aos vinte e seis eu espero que meu astigmatismo pare de crescer, que os preços dos shows parem de aumentar e quero, muito, parar de comprar revistas. Espero também que virar o lado do colchão seja o suficiente, que eu não desmaie no show da Madonna (ou na fila para o ingresso do show da Madonna), que eu ainda veja muitos filmes que poderiam ser os que eu queria ter criado, que a Amy Winehouse não morra e continue fazendo músicas maravilhosas. Aos vinte e seis, o que eu queria mesmo era poder voltar pros 25 para não estar, então, mais perto dos 30 que dos vinte, ou pelo menos queria ficar no meio do caminho, ganhar tempo pra solucionar algumas coisas, preparar algumas respostas de forma que algumas pessoas entendessem melhor quando, finalmente aos 26, eu dissesse simplesmente: não sei.
Certo como dois e dois, amanhã quando eu acordar terei vinte e seis anos e estarei ridiculamente igual a quando eu tinha vinte e cinco. Vou levantar muito depois que tocar o despertador, tomar o mesmo leite no café da manhã, passar protetor solar mesmo dentro de casa e ficar sentada ao alcance do telefone, aguardando os desejos de todos enquanto invento um jeito menos angustiante de não saber. E começar um novo livro, que com alguma sorte será o preferido.
Quero, por exemplo, aprender onde se usa mau com “u” e mal com “l”. Quero poder entrar numa loja de travesseiros e responder, sem pestanejar, que prefiro travesseiros baixos não deformáveis, que detesto a tecnologia da Nasa aplicada neles e que não confio em penas de ganso. Quero conseguir ler pelo menos um caderno de algum jornal sem morrer de sono, e sem ser o de moda. Quero achar legal gente que come alimentos vivos e que estuda Cabala. Quero parar de arranhar o carro na pilastra da garagem e acertar qual o ônibus volta pra casa sem precisar andar metade do bairro. Quero visitar todos os amigos que moram fora e conhecer o Peru. Quero ter alguma opinião sobre política. Aos vinte e seis eu espero que meu astigmatismo pare de crescer, que os preços dos shows parem de aumentar e quero, muito, parar de comprar revistas. Espero também que virar o lado do colchão seja o suficiente, que eu não desmaie no show da Madonna (ou na fila para o ingresso do show da Madonna), que eu ainda veja muitos filmes que poderiam ser os que eu queria ter criado, que a Amy Winehouse não morra e continue fazendo músicas maravilhosas. Aos vinte e seis, o que eu queria mesmo era poder voltar pros 25 para não estar, então, mais perto dos 30 que dos vinte, ou pelo menos queria ficar no meio do caminho, ganhar tempo pra solucionar algumas coisas, preparar algumas respostas de forma que algumas pessoas entendessem melhor quando, finalmente aos 26, eu dissesse simplesmente: não sei.
Certo como dois e dois, amanhã quando eu acordar terei vinte e seis anos e estarei ridiculamente igual a quando eu tinha vinte e cinco. Vou levantar muito depois que tocar o despertador, tomar o mesmo leite no café da manhã, passar protetor solar mesmo dentro de casa e ficar sentada ao alcance do telefone, aguardando os desejos de todos enquanto invento um jeito menos angustiante de não saber. E começar um novo livro, que com alguma sorte será o preferido.
quinta-feira, agosto 14, 2008
Fiquei pensando antes de responder...
... porque de fato pouco mudou desde a última vez em que nos vimos. A cor do cabelo está um pouco diferente sim, me distraí na hora de comprar a tinta e ainda bem que gostei. Mantenho o mesmo formato, não engordei muito e nem emagreci demais. Ah claro, tenho ido mais à praia, é circunstancial, mas o sol pouco me afeta, de forma que continuo usando o bom e velho pó de arroz. Pensei em comprar uma bicicleta, mas creio que esse tipo de pensamento não realizado é descartado do quesito novidades, né? Foi o que eu imaginei, mas só pra você saber, se eles valessem, eu poderia te escrever por horas.
Começou com a bicicleta porque de repente me veio uma necessidade incontornável de querer estar ao ar livre. Acho que é inevitável depois de se trabalhar por meses dentro de escritório. E também algumas amigas passeiam por aí em suas magrelas, levando suas coisas dentro das cestinhas. É quase romântico pensar em se locomover por aqui montado em bicicleta. Por fim, acabei achando arriscado, eu sou tão desligada que poderia ser atropelada facilmente e aí sim eu teria novidades emocionantes, talvez trágicas, para contar. Então eu optei por teatro, que era mais estável e seguro que a primeira idéia, não era bem ao ar livre, mas era uma chance de desabafar sem precisar falar nada. O que mais me atraiu nesse plano era a possibilidade de aprender a chorar. E de aprender a parar de chorar, principalmente. Mas e o que eu ia fazer na hora em que tivesse que dizer alguma coisa na frente de outros alunos? É esse o problema. Eu sempre acho que as pessoas da turma de teatro vão ser aquelas que usam calças molinhas, que são anti-emails e que, claro, andam por aí de bicicletas. E pior: não seguram o guidon quando em linha reta. Sim, desisti do teatro, até porque cada vez que pensava nisso me dava um ataque de timidez que ficava com vergonha até de ligar pra pedir informações.
Continuo na aula de inglês, agora faço aula tripla, a conversação flui melhor. Desde a primeira aula abolimos alguns temas como Olimpíadas, religião, futebol, política. Uma das pessoas pediu também para não falarmos muito sobre animais de estimação pois ela acabara de perder seu cão adorado. A segunda pessoa mostrou-se um pouco radical quando falamos de cinema outro dia, quase me agrediu só porque eu disse que gostava de musicais. Ele defende filmes de autor quase como quem defenderia Jesus. É realmente impressionante. Desde esse dia passamos a evitar também esse tópico. Temos conversado muito sobre música e destinos de viagens, esses parecem ser de interesse comum e até agora têm funcionado. Mas convém não abusar. Tenho tentado inserir dança na conversa pra ver se o público aumenta, mas quando eles me pedem indicações de espetáculos para ver eu fico receosa. Como é que poderia recomendar espetáculos de dança contemporânea para eles, por exemplo? Até pouco tempo eles achavam que Nureyev era uma cidade russa. É cedo demais para inicia-los.
Continuo também dormindo pra caramba, ainda mais agora que não tenho que escutar despertador. Eu sei que é temporário, como a praia, então faço o melhor dueto: tiro cochilos na areia, sob o guarda-sol, quando começa a esfriar um pouquinho. Ainda insisto, também, nos cds, compro cds a toda hora. As caixinhas, por sua vez, ainda insistem em se esborrachar no chão na primeira semana, acho que já faz parte do ritual. É isso o que tenho pra contar, acho que fico fazendo e desfazendo planos para ter assunto, mas no fundo não tenho tanto assim. Prefiro sempre responder que ta tudo bem, tudo mais ou menos igual e emendar, exclamando, você é que deve ter uma porção de histórias bacanas pra dividir! Fico com vergonha de falar sobre o musical infantil que me fez chorar. E adio a hora, enquanto não tomo coragem, de te dizer a novidade mais nova e óbvia, que já faz uns dias: você virou assunto na terapia.
:: Nina Simone
Começou com a bicicleta porque de repente me veio uma necessidade incontornável de querer estar ao ar livre. Acho que é inevitável depois de se trabalhar por meses dentro de escritório. E também algumas amigas passeiam por aí em suas magrelas, levando suas coisas dentro das cestinhas. É quase romântico pensar em se locomover por aqui montado em bicicleta. Por fim, acabei achando arriscado, eu sou tão desligada que poderia ser atropelada facilmente e aí sim eu teria novidades emocionantes, talvez trágicas, para contar. Então eu optei por teatro, que era mais estável e seguro que a primeira idéia, não era bem ao ar livre, mas era uma chance de desabafar sem precisar falar nada. O que mais me atraiu nesse plano era a possibilidade de aprender a chorar. E de aprender a parar de chorar, principalmente. Mas e o que eu ia fazer na hora em que tivesse que dizer alguma coisa na frente de outros alunos? É esse o problema. Eu sempre acho que as pessoas da turma de teatro vão ser aquelas que usam calças molinhas, que são anti-emails e que, claro, andam por aí de bicicletas. E pior: não seguram o guidon quando em linha reta. Sim, desisti do teatro, até porque cada vez que pensava nisso me dava um ataque de timidez que ficava com vergonha até de ligar pra pedir informações.
Continuo na aula de inglês, agora faço aula tripla, a conversação flui melhor. Desde a primeira aula abolimos alguns temas como Olimpíadas, religião, futebol, política. Uma das pessoas pediu também para não falarmos muito sobre animais de estimação pois ela acabara de perder seu cão adorado. A segunda pessoa mostrou-se um pouco radical quando falamos de cinema outro dia, quase me agrediu só porque eu disse que gostava de musicais. Ele defende filmes de autor quase como quem defenderia Jesus. É realmente impressionante. Desde esse dia passamos a evitar também esse tópico. Temos conversado muito sobre música e destinos de viagens, esses parecem ser de interesse comum e até agora têm funcionado. Mas convém não abusar. Tenho tentado inserir dança na conversa pra ver se o público aumenta, mas quando eles me pedem indicações de espetáculos para ver eu fico receosa. Como é que poderia recomendar espetáculos de dança contemporânea para eles, por exemplo? Até pouco tempo eles achavam que Nureyev era uma cidade russa. É cedo demais para inicia-los.
Continuo também dormindo pra caramba, ainda mais agora que não tenho que escutar despertador. Eu sei que é temporário, como a praia, então faço o melhor dueto: tiro cochilos na areia, sob o guarda-sol, quando começa a esfriar um pouquinho. Ainda insisto, também, nos cds, compro cds a toda hora. As caixinhas, por sua vez, ainda insistem em se esborrachar no chão na primeira semana, acho que já faz parte do ritual. É isso o que tenho pra contar, acho que fico fazendo e desfazendo planos para ter assunto, mas no fundo não tenho tanto assim. Prefiro sempre responder que ta tudo bem, tudo mais ou menos igual e emendar, exclamando, você é que deve ter uma porção de histórias bacanas pra dividir! Fico com vergonha de falar sobre o musical infantil que me fez chorar. E adio a hora, enquanto não tomo coragem, de te dizer a novidade mais nova e óbvia, que já faz uns dias: você virou assunto na terapia.
:: Nina Simone
quarta-feira, julho 30, 2008
Meus suicídios (em 3 atos)
I.
Eu me suicido toda vez que uso arco. É burro esse meu suicídio. É uma espécie de insistência vaidosa. Começa naqueles dias em que o cabelo está tão disponível para arcos que caio mais uma vez na armadilha dolorosa que eles fazem e então coloco um na cabeça e já está próximo o abismo. Em poucas horas eu estou completamente possuída por uma vontade de saltar pro fundo e o fim do abismo, as têmporas latejando, a cabeça toda começa a doer e a pulsar e de repente não há mais luz ou barulho à minha volta, somente sinto uma dor sincopada que cresce e PÁ! me estatelo no chão. É tarde demais pra tirar o arco da cabeça e também tarde demais para jurar nunca mais comprimi-la com um deles: o dia já está mal-humorizado, eu já não penso em nada senão quebrar o acessório.
II.
Eu me suicido toda vez que como tangerina. É inevitável esse meu suicídio. É uma espécie de rotina necessária. Começa quando entro na cozinha e o ar está impregnado pelo cheiro laranja da tangerina e então, segurando-a com a mão direita, cravo o dedão esquerdo na casca e divido a fruta em duas partes. A partir daí a corda está pendurada: o cão ao lado começa a subir pelas minhas pernas, os gomos se enfileiram no prato para serem descascados, arranco os fiapos um a um até que cada um fique o mais limpo possível para só então degusta-los. Mas aí o cão já está latindo, implorando por seus pedaço, me olhando com cara de desespero e fazendo todo o barulho que consegue, eu como os gomos afoita sem quase sentir o suco, encho o cachorro com um ou dois que nunca são suficientes, e no fim eu também não me satisfaço, com tanta inveja alheia e de repente, pronto: o prato está vazio, a casca está de lado e o nó já está sufocando meu pescoço. É muito cedo pra tentar de novo e além disso o cão está sempre aqui a pedir mais.
III.
Eu me suicido toda vez que tento te ter. É reincidente o meu caso e eu me suicido com uma persistência espantosa. É deprimente, repetitivo e ultimamente tenho receado ser um pouco obsessivo também, e é como se o meu suicídio estivesse condicionado à sua mera aparição. Eu carrego as armas quando você me enlaça para o cumprimento e é quando seu rosto toca o meu que descarrego a primeira bala, a que suspende a respiração acertando um pulmão. Eu atiro nos meus pés quando você me tira pra dançar e dilacerados eles tentam seguir o ritmo da música e se esbarram nervosos contra os seus. Eu acerto minhas mãos quando você me abraça e me diz coisas lindas e não consigo nunca acariciar seus cabelos em retribuição aos elogios que você sussurra, então eu atiro no meu peito e começo a sentir tanto frio, tanto frio e vou chegando mais perto, já na ponta dos pés machucados pra alcançar os teus lábios e BANG! acerto a cabeça quando você se desvencilha do meu beijo e resolve ir embora sem porquê. Eu caio ensangüentada no chão quando te vejo partir depois de ter me conquistado de novo e não consigo atirar em você porque uso as últimas balas do revólver contra os meus olhos, pra não te ver com ela, pra não te ver com outra. Eu me suicido toda vez que você está por perto, te odeio no dia seguinte e te amaldiçôo até te encontrar de novo, me suicidar outra vez. Não dói, fazer o quê?
Eu me suicido toda vez que uso arco. É burro esse meu suicídio. É uma espécie de insistência vaidosa. Começa naqueles dias em que o cabelo está tão disponível para arcos que caio mais uma vez na armadilha dolorosa que eles fazem e então coloco um na cabeça e já está próximo o abismo. Em poucas horas eu estou completamente possuída por uma vontade de saltar pro fundo e o fim do abismo, as têmporas latejando, a cabeça toda começa a doer e a pulsar e de repente não há mais luz ou barulho à minha volta, somente sinto uma dor sincopada que cresce e PÁ! me estatelo no chão. É tarde demais pra tirar o arco da cabeça e também tarde demais para jurar nunca mais comprimi-la com um deles: o dia já está mal-humorizado, eu já não penso em nada senão quebrar o acessório.
II.
Eu me suicido toda vez que como tangerina. É inevitável esse meu suicídio. É uma espécie de rotina necessária. Começa quando entro na cozinha e o ar está impregnado pelo cheiro laranja da tangerina e então, segurando-a com a mão direita, cravo o dedão esquerdo na casca e divido a fruta em duas partes. A partir daí a corda está pendurada: o cão ao lado começa a subir pelas minhas pernas, os gomos se enfileiram no prato para serem descascados, arranco os fiapos um a um até que cada um fique o mais limpo possível para só então degusta-los. Mas aí o cão já está latindo, implorando por seus pedaço, me olhando com cara de desespero e fazendo todo o barulho que consegue, eu como os gomos afoita sem quase sentir o suco, encho o cachorro com um ou dois que nunca são suficientes, e no fim eu também não me satisfaço, com tanta inveja alheia e de repente, pronto: o prato está vazio, a casca está de lado e o nó já está sufocando meu pescoço. É muito cedo pra tentar de novo e além disso o cão está sempre aqui a pedir mais.
III.
Eu me suicido toda vez que tento te ter. É reincidente o meu caso e eu me suicido com uma persistência espantosa. É deprimente, repetitivo e ultimamente tenho receado ser um pouco obsessivo também, e é como se o meu suicídio estivesse condicionado à sua mera aparição. Eu carrego as armas quando você me enlaça para o cumprimento e é quando seu rosto toca o meu que descarrego a primeira bala, a que suspende a respiração acertando um pulmão. Eu atiro nos meus pés quando você me tira pra dançar e dilacerados eles tentam seguir o ritmo da música e se esbarram nervosos contra os seus. Eu acerto minhas mãos quando você me abraça e me diz coisas lindas e não consigo nunca acariciar seus cabelos em retribuição aos elogios que você sussurra, então eu atiro no meu peito e começo a sentir tanto frio, tanto frio e vou chegando mais perto, já na ponta dos pés machucados pra alcançar os teus lábios e BANG! acerto a cabeça quando você se desvencilha do meu beijo e resolve ir embora sem porquê. Eu caio ensangüentada no chão quando te vejo partir depois de ter me conquistado de novo e não consigo atirar em você porque uso as últimas balas do revólver contra os meus olhos, pra não te ver com ela, pra não te ver com outra. Eu me suicido toda vez que você está por perto, te odeio no dia seguinte e te amaldiçôo até te encontrar de novo, me suicidar outra vez. Não dói, fazer o quê?
domingo, julho 13, 2008
Como se fora brincadeira de roda
Almoçando com a minha irmã, ela notou que na mesa ao lado uma criança em seus 5 ou 6 anos assistia, enfeitiçada, a um filme num aparelho portátil de dvd. A criança, loira, arco de lacinho no cabelo, estava sentada à mesa com seus pais, que pareciam muito à vontade com o método que descobriram para fazer comportar-se sua filha. A menina era uma estátua resignada que sequer piscava, tão absorvida que estava em seu mundo particular com seus fones de ouvido.
Imediatamente, lembrei-me de um livro que acabara de ler e que, tal qual o filme da criança, me absorveu durante toda uma tarde. O Verão do Chibo, escrito a quatro mãos pela Vanessa Bárbara e pelo Emilio Fraia. Os dois nasceram no mesmo ano que eu. O Verão do Chibo é uma novela narrada por um garoto que é o caçula da turma com quem passa as férias de verão. Embrenhado num milharal, às voltas com colônias de formigas e espionagens secretas de agentes da Rainha da Bulgária, os garotos fazem de seu QG uma casa na árvore e de suas armas balas de goma. Em meio a fantasias e descobertas, as crianças do livro brincam de circo, se sujam na terra e desafiam o mundo tirando casquinhas de machucados antes da hora.
Lendo entrevistas dos jovens autores descobri que eles fazem menção a diversas brincadeiras e jogos que eu e minha irmã também gostávamos: elefantinho colorido, amarelinha, vaca-amarela, esconde-esconde e tantas mais, algumas mais especiais que as outras, algumas que de fato só recordo o nome e cujas regras foram totalmente armazenadas numa parte da cabeça à qual não tenho senha para entrar.
Parte dos motivos pelos quais adorei o livro são estes, estas memórias de infância que todos temos e que cada vez mais visitamos menos. Através do verão dos outros lembrei-me de tantos verões brincando nos gramados das casas na serra e até na praia perto de casa mesmo. Escalar árvores como se fossem montanhas altíssimas, construir castelos onde princesas à prova d’água poderiam morar, rodar até ficar tonta e cair na grama sem machucar, morrer de medo de ser encontrado no esconde-esconde, deixar de ser café com leite, ficar de altos, comer frutas do pé, tomar banho de chuva com direito a xampu. Correr era fácil. Sujar-se era permitido. E ser leve era natural.
É dessa leveza que sinto falta, dos espaços que nos pareciam enormes, das pessoas que nos pareciam gigantes, da luminosidade que nos parecia infinita. Talvez seja saudosismo, ou nostalgia. Desconfio de que a minha geração teve a sorte de ter uma infância pré-tecnologia, tivemos a sorte de conhecer lama, rua de terra, guerra de travesseiro, bonecos e carrinho de rolimã e de poder incluir outras crianças nas brincadeiras. Pudemos extrapolar todos os níveis de nossa imaginação, tínhamos que construir nossos refúgios e não comprá-los prontos em formato digital. É quando fico com pena da criança de lacinho no cabelo, que escreverá sobre o verão em que conseguiu baixar todos os filmes e jogos no seu computador sem a ajuda de ninguém. Com alguma sorte os filmes serão de aventura, mas que jamais serão suas de verdade.
Imediatamente, lembrei-me de um livro que acabara de ler e que, tal qual o filme da criança, me absorveu durante toda uma tarde. O Verão do Chibo, escrito a quatro mãos pela Vanessa Bárbara e pelo Emilio Fraia. Os dois nasceram no mesmo ano que eu. O Verão do Chibo é uma novela narrada por um garoto que é o caçula da turma com quem passa as férias de verão. Embrenhado num milharal, às voltas com colônias de formigas e espionagens secretas de agentes da Rainha da Bulgária, os garotos fazem de seu QG uma casa na árvore e de suas armas balas de goma. Em meio a fantasias e descobertas, as crianças do livro brincam de circo, se sujam na terra e desafiam o mundo tirando casquinhas de machucados antes da hora.
Lendo entrevistas dos jovens autores descobri que eles fazem menção a diversas brincadeiras e jogos que eu e minha irmã também gostávamos: elefantinho colorido, amarelinha, vaca-amarela, esconde-esconde e tantas mais, algumas mais especiais que as outras, algumas que de fato só recordo o nome e cujas regras foram totalmente armazenadas numa parte da cabeça à qual não tenho senha para entrar.
Parte dos motivos pelos quais adorei o livro são estes, estas memórias de infância que todos temos e que cada vez mais visitamos menos. Através do verão dos outros lembrei-me de tantos verões brincando nos gramados das casas na serra e até na praia perto de casa mesmo. Escalar árvores como se fossem montanhas altíssimas, construir castelos onde princesas à prova d’água poderiam morar, rodar até ficar tonta e cair na grama sem machucar, morrer de medo de ser encontrado no esconde-esconde, deixar de ser café com leite, ficar de altos, comer frutas do pé, tomar banho de chuva com direito a xampu. Correr era fácil. Sujar-se era permitido. E ser leve era natural.
É dessa leveza que sinto falta, dos espaços que nos pareciam enormes, das pessoas que nos pareciam gigantes, da luminosidade que nos parecia infinita. Talvez seja saudosismo, ou nostalgia. Desconfio de que a minha geração teve a sorte de ter uma infância pré-tecnologia, tivemos a sorte de conhecer lama, rua de terra, guerra de travesseiro, bonecos e carrinho de rolimã e de poder incluir outras crianças nas brincadeiras. Pudemos extrapolar todos os níveis de nossa imaginação, tínhamos que construir nossos refúgios e não comprá-los prontos em formato digital. É quando fico com pena da criança de lacinho no cabelo, que escreverá sobre o verão em que conseguiu baixar todos os filmes e jogos no seu computador sem a ajuda de ninguém. Com alguma sorte os filmes serão de aventura, mas que jamais serão suas de verdade.
domingo, julho 06, 2008
My Lasanha de Palmito Nights
Quantas panelas existem em Paraty? – foi a pergunta que nos fizemos enquanto esperávamos a sobremesa que já demorava mais de 40 minutos para chegar à mesa. Não foi só a sobremesa. A média de espera de qualquer prato na maioria dos restaurantes é de 40 minutos, o que nos fez questionar a existência de fogões e panelas nas cozinhas de cada estabelecimento. A demora em conseguirmos a conta também foi um mistério. O refrigerante, a entrada e os peixes, por que tudo demora tanto? Será que os peixes são pescados no momento em que se faz um pedido aos atendentes?
Para comer em Paraty são necessários bons amigos, paciência, bom humor e eventualmente uma (ou mais) rodada de pôquer. Essa talvez seja a primeira das dicas de nosso guia especial de sobrevivência na Flip, que foi esboçado entre um bobó e outro. Que não se deve olhar pra frente ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico, isso todo mundo sabe. O que nós revelamos, porém, nem o Lonely Planet desconfia.
Os restaurantes, em sua maioria, não fazem reservas e não organizam lista de espera com o incompreensível argumento de que a mesma causaria confusão. A aventura já começa aí: conseguir uma mesa requer astúcia e vigilância. Ou um bom guardador, foi o que descobrimos no restaurante tailandês. Uma vez sentados, entre tosses e espirros (causados pelos fortes aromas que impossibilitavam qualquer frase longa sem obstáculos), observamos a poucas mesas de distância um homem que ocupava 6 lugares. Ele estava sozinho, falava ao celular e não consumia sequer um copo d’água. Pouco depois, cerca de 5 pessoas chegaram e o homem calma, e quem sabe famintamente?, se foi. O mesmo homem foi visto no dia seguinte guardando um lugar na fila de autógrafos para seus contratantes. Uma bela sacada.
Idéia genial, também, é perguntar se o prato que você escolheu está realmente disponível, literal e metaforicamente falando. Pode acontecer de você descobrir, depois de cinqüenta minutos de espera, que o seu pedido não chegou porque faltou arroz na casa. Ou água na cozinha e por isso as louças não puderam ser lavadas ainda. Não é piada. Depois de ter perguntado três vezes sobre o meu picadinho que não chegava nunca fui informada de que não havia picadinho na casa, o famoso tem...mas acabou!. É nesse momento, então, que se tem a maior revelação: Paraty fica mesmo é na Bahia.
No caso da água que acaba, carregue seus talheres, copos e pratos descartáveis, ou tenha sempre um balde água para contribuir. O mesmo balde pode servir para o banho, visto que 90% dos chuveiros das pousadas e hotéis da região são elétricos daqueles de água ralinha, o que faz com que nós possuidores de cabelos cacheados demoremos o triplo de tempo na função. Baterias para secadores de cabelos também são boas opções para não causar curto-circuitos indesejáveis. Mas pra não haver perigo mesmo, duas soluções práticas: escova progressiva antes da viagem (daquelas em que a pessoa é proibida de lavar os cabelos por três ou quatro dias) ou uma coleção de chapéus.
Tenha certeza de que pelo menos um dos chapéus possui abas que encobrirão parcialmente seu rosto, isso evita olhares reprovadores de vizinhos de cadeiras quando você acordar de um cochilo no meio de uma palestra arrastada, sem graça e complicada, elas existem, felizmente não tanto quanto as portas coloridas que enfeitam a cidade. Os chapéus também servirão para você tentar enterrar-se nele quando as declamações constrabgedoras de poesia começarem, essa dica é quente: fique longe do sarau da casa do príncipe. Fique longe também da praça decorada por artesãos e crianças locais, isso pode ser ainda mais assustador que as pessos amalucadas fazendo performances de versos. Se for inevitável passar pela praça e se o tema for "personagens da infantil" por favor, faça de tudo para não se deparar com o poeta Gentileza. Sim, ele está lá, deve ter algo a ver com o não-fazer lista de espera, vai entender...
Tenha a certeza também de que todo e qualquer mau humor, fome, susto ou leitura dramática (no pior sentido) será recompensado por coisas muito simples: você terá tempo para papear com um bocado de gente bacana, as ruas tem nomes como "Rua do Fogo" ou "Rua do Comércio", o que a todo momento nos remete aos tempos de império, os passeios de charrete sobrevivem por lá, pintores de paisagens ingênuas montam seus cavaletes nos caminhos de pedras antigas, cachorros dormem no meio de filas para palestras sem se incomodar. O melhor, porém, é que em Paraty, algumas flores crescem sobre os telhados das antigas casas.
Para comer em Paraty são necessários bons amigos, paciência, bom humor e eventualmente uma (ou mais) rodada de pôquer. Essa talvez seja a primeira das dicas de nosso guia especial de sobrevivência na Flip, que foi esboçado entre um bobó e outro. Que não se deve olhar pra frente ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico, isso todo mundo sabe. O que nós revelamos, porém, nem o Lonely Planet desconfia.
Os restaurantes, em sua maioria, não fazem reservas e não organizam lista de espera com o incompreensível argumento de que a mesma causaria confusão. A aventura já começa aí: conseguir uma mesa requer astúcia e vigilância. Ou um bom guardador, foi o que descobrimos no restaurante tailandês. Uma vez sentados, entre tosses e espirros (causados pelos fortes aromas que impossibilitavam qualquer frase longa sem obstáculos), observamos a poucas mesas de distância um homem que ocupava 6 lugares. Ele estava sozinho, falava ao celular e não consumia sequer um copo d’água. Pouco depois, cerca de 5 pessoas chegaram e o homem calma, e quem sabe famintamente?, se foi. O mesmo homem foi visto no dia seguinte guardando um lugar na fila de autógrafos para seus contratantes. Uma bela sacada.
Idéia genial, também, é perguntar se o prato que você escolheu está realmente disponível, literal e metaforicamente falando. Pode acontecer de você descobrir, depois de cinqüenta minutos de espera, que o seu pedido não chegou porque faltou arroz na casa. Ou água na cozinha e por isso as louças não puderam ser lavadas ainda. Não é piada. Depois de ter perguntado três vezes sobre o meu picadinho que não chegava nunca fui informada de que não havia picadinho na casa, o famoso tem...mas acabou!. É nesse momento, então, que se tem a maior revelação: Paraty fica mesmo é na Bahia.
No caso da água que acaba, carregue seus talheres, copos e pratos descartáveis, ou tenha sempre um balde água para contribuir. O mesmo balde pode servir para o banho, visto que 90% dos chuveiros das pousadas e hotéis da região são elétricos daqueles de água ralinha, o que faz com que nós possuidores de cabelos cacheados demoremos o triplo de tempo na função. Baterias para secadores de cabelos também são boas opções para não causar curto-circuitos indesejáveis. Mas pra não haver perigo mesmo, duas soluções práticas: escova progressiva antes da viagem (daquelas em que a pessoa é proibida de lavar os cabelos por três ou quatro dias) ou uma coleção de chapéus.
Tenha certeza de que pelo menos um dos chapéus possui abas que encobrirão parcialmente seu rosto, isso evita olhares reprovadores de vizinhos de cadeiras quando você acordar de um cochilo no meio de uma palestra arrastada, sem graça e complicada, elas existem, felizmente não tanto quanto as portas coloridas que enfeitam a cidade. Os chapéus também servirão para você tentar enterrar-se nele quando as declamações constrabgedoras de poesia começarem, essa dica é quente: fique longe do sarau da casa do príncipe. Fique longe também da praça decorada por artesãos e crianças locais, isso pode ser ainda mais assustador que as pessos amalucadas fazendo performances de versos. Se for inevitável passar pela praça e se o tema for "personagens da infantil" por favor, faça de tudo para não se deparar com o poeta Gentileza. Sim, ele está lá, deve ter algo a ver com o não-fazer lista de espera, vai entender...
Tenha a certeza também de que todo e qualquer mau humor, fome, susto ou leitura dramática (no pior sentido) será recompensado por coisas muito simples: você terá tempo para papear com um bocado de gente bacana, as ruas tem nomes como "Rua do Fogo" ou "Rua do Comércio", o que a todo momento nos remete aos tempos de império, os passeios de charrete sobrevivem por lá, pintores de paisagens ingênuas montam seus cavaletes nos caminhos de pedras antigas, cachorros dormem no meio de filas para palestras sem se incomodar. O melhor, porém, é que em Paraty, algumas flores crescem sobre os telhados das antigas casas.
sexta-feira, junho 27, 2008
Letras
-Às vezes eu fico pensando como seria se o mundo tivesse seguido sem a invenção do Youtube.
-E do Google? Já parou pra pensar como seria o mundo sem Google?
-Pois é. Fico aterrorizada, só de pensar. Youtube, Google, Wikipedia...
-Imagina só. Antes do Google tudo fica meio embaçado pra mim. E eu amo todos da série: Google maps, Scholar Google...
-Você acha que no Scholar Google é possível encontrar as últimas mudanças sofridas pela língua portuguesa?
-Hummm não sei... só tentando.
-Eu fico um pouco confusa com essa história. A gente, que saiu da escola há muito tempo, como faz? Eu vejo a minha mãe, até hoje ela escreve “bôbo”, “lôbo”... As próximas seremos nós, escrevendo idéia com acento e vêem e vôo. Muito complexo isso.
-Mas...
-E não tem como a gente saber, sabe? Porque se fosse antigamente todo domingo ia vir um fascículo no Globo com as novas regras gramaticais, você ia juntando tudo e no final ganhava um lindo fichário pra colocar os fascículos. Mas não, os fascículos caíram em desuso!
-É, fascículos definitivamente são da era pré-Google.
-Tá vendo, a gente já começa a pensar o tempo em antes e depois de Google. E vendedor de Barsa?! Imagina se um dia você conta pros seus filhos que quando você era criança tinha uma coleção de enciclopédias E fascículos?!
-Hahahahahahaha ele vai precisar de um vídeo no youtube pra ilustrar!
-Vai, ele vai procurar na Wikipedia e vai ver fotos de Barsas e Britânias enfileiradas! Mas voltando às regras, devia ter alguma coisa desse tipo vendendo em bancas porque até as próximas edições de livros sobre gramática serem atualizados deve demorar um pouco, né?
-Deve demorar um pouco sim. E até o Word se atualizar vai demorar mais ainda.
-Mas você confia nas correções do Word?
-Nem um pouco. Outro dia eu escrevi “variadíssimas” e o Word dizia que estava errado. Por isso variadíssimas continuou.
-Mas por que você não procurou no dicionário?
-Porque o meu dicionário escreve “bôbo” e “lôbo”, que nem sua mãe.
-Depois de tantas mudanças, sinceramente, eu não confio nem no Pasquale.
-Não, não. No Pasquale eu super confio!
-Ainda? Mesmo depois dessa última leva de ajustes? Não sei não...
-Sim, porque a língua é viva e o Pasquale também. Além disso ele deve ter fontes de estudos mais confiáveis que o Google.
-Tudo volta pro Google, reparou? Mas mudando de assunto, consegui uma pousada pra Flip!
-Que maravilha! Machado de Assis esse ano! Pré-google total!
-Pois é. Inclusive vou dar uma olhada no Scholar Google pra ver se leio uns resumos da obra dele. Acredita que nunca li um livro dele? Não posso dar vexame, né?
-Como assim? Todo mundo leu pelo menos Dom Casmurro! Dom Casmurro era tipo... o Google nos tempos de escola, ninguém estava imune a ele!
-Eu sei, eu li esse, mas foi o que você disse, na época da escola, naquela idade qualquer livro que a escola mandasse ler a gente já achava chato na primeira página.
-Hummm verdade. A gente gostava de livros fora do sistema escolar, né? Nesse caso, dê um Scholar Google. Mas tente não entrar em discussões muito sérias sobre o Machado. E finja desmaio caso peçam sua opinião.
-Ok. Mais algum conselho?
-Conselho não. Tenho que terminar essa tese. Até agora desenvolvi bem, mas não consigo concluir, não sei concluir coisas, saca? Você sabe?
-Olha eu até acho que sei, a minha psicóloga certamente diria que não.
-Hahahahaha, a minha diria o mesmo. Mas e nos textos? Preciso terminar esse trabalho, tenho que entregar amanhã.
-Eu não sei, toda vez que tenho que escrever alguma coisa os finais ficam sempre meio escrotos.
-Escrotos?! Eu odeio essa palavra. Essa é uma que podia ser eliminada da nossa língua, ia ser um grande favor. As pessoas se lembrariam daqueles tempos em que se dizia ‘escroto’ e se via o mundo ser dominado pelo Google.
-Ahahahaha que exagero!
-Exagero nada! Primeiro foi Coca-cola, McDonalds e tal. Depois de um tempo veio Nokia e Oi, eu tinha certeza que o mundo seria domindao pela Nokia ou pela Oi!
- E pelo presidente dos Estados Unidos? Nunca achou que algum deles ia dominar o mundo? Ou de repente Hitler e tal...
- Nada, tudo fichinha. Seremos regidos pelo Google, pode confiar.
- Será?
- Melhor do que pelos vendedores de Barsa...
-E do Google? Já parou pra pensar como seria o mundo sem Google?
-Pois é. Fico aterrorizada, só de pensar. Youtube, Google, Wikipedia...
-Imagina só. Antes do Google tudo fica meio embaçado pra mim. E eu amo todos da série: Google maps, Scholar Google...
-Você acha que no Scholar Google é possível encontrar as últimas mudanças sofridas pela língua portuguesa?
-Hummm não sei... só tentando.
-Eu fico um pouco confusa com essa história. A gente, que saiu da escola há muito tempo, como faz? Eu vejo a minha mãe, até hoje ela escreve “bôbo”, “lôbo”... As próximas seremos nós, escrevendo idéia com acento e vêem e vôo. Muito complexo isso.
-Mas...
-E não tem como a gente saber, sabe? Porque se fosse antigamente todo domingo ia vir um fascículo no Globo com as novas regras gramaticais, você ia juntando tudo e no final ganhava um lindo fichário pra colocar os fascículos. Mas não, os fascículos caíram em desuso!
-É, fascículos definitivamente são da era pré-Google.
-Tá vendo, a gente já começa a pensar o tempo em antes e depois de Google. E vendedor de Barsa?! Imagina se um dia você conta pros seus filhos que quando você era criança tinha uma coleção de enciclopédias E fascículos?!
-Hahahahahahaha ele vai precisar de um vídeo no youtube pra ilustrar!
-Vai, ele vai procurar na Wikipedia e vai ver fotos de Barsas e Britânias enfileiradas! Mas voltando às regras, devia ter alguma coisa desse tipo vendendo em bancas porque até as próximas edições de livros sobre gramática serem atualizados deve demorar um pouco, né?
-Deve demorar um pouco sim. E até o Word se atualizar vai demorar mais ainda.
-Mas você confia nas correções do Word?
-Nem um pouco. Outro dia eu escrevi “variadíssimas” e o Word dizia que estava errado. Por isso variadíssimas continuou.
-Mas por que você não procurou no dicionário?
-Porque o meu dicionário escreve “bôbo” e “lôbo”, que nem sua mãe.
-Depois de tantas mudanças, sinceramente, eu não confio nem no Pasquale.
-Não, não. No Pasquale eu super confio!
-Ainda? Mesmo depois dessa última leva de ajustes? Não sei não...
-Sim, porque a língua é viva e o Pasquale também. Além disso ele deve ter fontes de estudos mais confiáveis que o Google.
-Tudo volta pro Google, reparou? Mas mudando de assunto, consegui uma pousada pra Flip!
-Que maravilha! Machado de Assis esse ano! Pré-google total!
-Pois é. Inclusive vou dar uma olhada no Scholar Google pra ver se leio uns resumos da obra dele. Acredita que nunca li um livro dele? Não posso dar vexame, né?
-Como assim? Todo mundo leu pelo menos Dom Casmurro! Dom Casmurro era tipo... o Google nos tempos de escola, ninguém estava imune a ele!
-Eu sei, eu li esse, mas foi o que você disse, na época da escola, naquela idade qualquer livro que a escola mandasse ler a gente já achava chato na primeira página.
-Hummm verdade. A gente gostava de livros fora do sistema escolar, né? Nesse caso, dê um Scholar Google. Mas tente não entrar em discussões muito sérias sobre o Machado. E finja desmaio caso peçam sua opinião.
-Ok. Mais algum conselho?
-Conselho não. Tenho que terminar essa tese. Até agora desenvolvi bem, mas não consigo concluir, não sei concluir coisas, saca? Você sabe?
-Olha eu até acho que sei, a minha psicóloga certamente diria que não.
-Hahahahaha, a minha diria o mesmo. Mas e nos textos? Preciso terminar esse trabalho, tenho que entregar amanhã.
-Eu não sei, toda vez que tenho que escrever alguma coisa os finais ficam sempre meio escrotos.
-Escrotos?! Eu odeio essa palavra. Essa é uma que podia ser eliminada da nossa língua, ia ser um grande favor. As pessoas se lembrariam daqueles tempos em que se dizia ‘escroto’ e se via o mundo ser dominado pelo Google.
-Ahahahaha que exagero!
-Exagero nada! Primeiro foi Coca-cola, McDonalds e tal. Depois de um tempo veio Nokia e Oi, eu tinha certeza que o mundo seria domindao pela Nokia ou pela Oi!
- E pelo presidente dos Estados Unidos? Nunca achou que algum deles ia dominar o mundo? Ou de repente Hitler e tal...
- Nada, tudo fichinha. Seremos regidos pelo Google, pode confiar.
- Será?
- Melhor do que pelos vendedores de Barsa...
segunda-feira, junho 23, 2008
Antes
Parece brincadeira mas foi o que ela disse: sua cabeça está fora do seu centro de gravidade e por isso você está com dor e vai continuar sentindo. Ela não era minha médica nem nada, era alguém na sala de espera enquanto eu lia para o ortopedista o laudo da ressonância. Isso tudo antes d’eu voltar pra aula de ballet e me empolgar num salto (que o professor dizia que era geté e eu tinha certeza que era saut d’ange) e sair da aula chorando com uma coxa direita estirada ou hiper-estendida ou destendida, nunca entendi muito essas pequenas lesões. Isso antes das cinzas do Kurt Cobain serem roubadas da casa de Courtney Love (!) e antes também da minha irmã ter problemas no rim e eu leva-la à Santa Casa porque a médica substituta do médico tradicional estava dando uma prova lá, e lá não lembra em nada Grey’s Anatomy, mas parece muito alguma coisa que a gente se acostuma a ver em documentários e certamente que aquilo merecia um. Isso também antes de comprar o cd novo da Madonna e de achar que hip hop não é tão ruim assim e eu sei que só achei legal porque é a Madonna e comprei junto também um disco do The Smiths e isso tudo antes de tirar os chinelos e sair literalmente correndo atrás de um amigo que passava de skate pela orla num domingo em que eu não encontrei um outro amigo que marcou um encontro que não poderia ser desfeito ou adiado porque ele estava sem celular, e no meio da corrida o cara do skate se afastava e a minha irmã e minha prima que tinham ficado sentadas riam da minha cara e eu comecei a rir também e desisti. Isso foi depois que o barraqueiro de uma outra orla encontrou meu celular que eu tinha perdido e me devolveu com uma foto de suas partes íntimas e essa história é verídica e bizarra. Isso antes do mesmo telefone perdido, e então reencontrado, cair no chão e só funcionar no viva voz e eu não poder mais conversar com as pessoas, mas não tem importância. Isso tudo também foi antes dos comentários deste blogue virarem demonstrações explícitas de ciúmes de amigos que querem que eu escreva sobre eles, não é muita pressão? Isso foi antes de dirigir o carro da minha irmã, agora já curada dos problemas de rins, e questionar se o meu carro tem mesmo direção hidráulica e de repente a dor de ombro e pescoço tem a ver com o esforço pra fazer curvas, além da cabeça que está fora do centro bla bla bla e tudo isso foi antes de entrar na chapelaria e a senhora me atender e fazer meu cadastro e dizer que se lembrava de mim, que ela não tinha esquecido meus olhos grandes, que geralmente olhos grandes são feios mas os meus não eram. Ela disse isso antes de oferecer seus serviços de numeróloga e tudo isso é claro que aconteceu em Copacabana onde aparentemente eu sou um ímã. Todas essas coisas antes de uma amiga comprar uma máquina de Frozen Margaritas e antes também do postal da Bebel ter chegado aqui em casa com um carimbo que ainda soltava tinta mesmo depois de ter atravessado um oceano. Isso também antes de ir ao Saara e andar pelas ruazinhas antigas do Centro e encontrar um casal de amigos dentro de um vagão do metrô, depois que o priminho neném (pós-neném na verdade) passou horas se escondendo atrás da cortina e gargalhando cada vez que eu o encontrava de novo, depois também de querer comer pizza com irmã e vó no dia 12 e concluir que certamente o Zona Sul teria mesa vaga (e de concluir também que se não tivesse a gente teria que dar um toque nos casais porque comemorar dia dos namorados no Zona Sul é muito loser). Isso tudo antes de uma amiga de infância casar com sorriso que parecia rasgar seu rosto e eu chorar feito boba perto do altar, antes da festa cheia de flores tão coloridas que pareciam mentira, antes dela dançar a noite toda e começar essa vida a dois, antes de receber o convite pra festa de despedida de mais uma amiga que se vai... Tudo isso aconteceu antes d’eu ganhar um SEGUNDO Santo Antônio, é muita pressão, agora fico aqui, tentando colocar a cabeça de volta no eixo, a coxa de volta no lugar, tentando escrever sobre todos os amigos ciumentos e chantagistas e tentando, principalmente, fazer amizade com os dois Santos que esse inverno aqui no alto tá muito frio e eu quero alguém pra esquentar.


sexta-feira, junho 20, 2008
A história que eu não contei ao telefone
Depois de finalizar as artes, deixei as impressões no silk de sempre. Rose perguntou como estavam as coisas no trabalho, fazia um tempão que eu não aparecia por lá. Eu disse que tinha saído do trabalho e já esperava a pergunta fatídica: e está aonde agora? De férias, respondi. Ela perguntou se eu ia pra alguma outra marca, eu disse que por enquanto não e ela disse que eu devia ir pra uma determinada marca, que eles estão crescendo muito, que tiveram de mudar o escritório de lugar (São Cristóvão, provavelmente) porque estão contratando muita gente e que eu deveria ir pra lá porque afinal eu sou tão competente (palavra dela). Ela disse que me daria os contatos, eu agradeci e fingi achar ótima a idéia (às vezes é melhor achar ótimas as idéias que os outros têm pra gente do que explicar...).
No dia seguinte cruzei com ela, a Rose, que tomava café na padaria. Ela perguntou o que eu fazia tão cedo ali e eu disse que vinha da fisioterapia que era no prédio ao lado (e na mesma rua do silk). Ela perguntou se eu fazia o tratamento com “aqueles dois rapazes”, eu disse que não, ela perguntou o que eu tinha, eu disse coluna ruim e ela disse que fez um período de reabilitação com os tais dois rapazes que você sabe, né Julia, eu fico muito tempo fazendo as artes lá na loja no computador, eu desenho muito e tive L.E.R sabe? Doía do pulso ao cotovelo, menina, eu tive até cárie porque não conseguia escovar o dente de tanta dor no braço! Ela disse que me daria os contatos dos dois rapazes que eles eram muito bons, eu agradeci (algumas coisas é melhor não discutir pois a conversa pode se estender para além do desejado).
No terceiro dia fui buscar algumas das telas que estavam prontas e ela perguntou se eu tinha ido aos desfiles, eu disse que não, ela me chamou pra ver as fotos de uma marca para a qual ela tinha feito as estampas. Muito orgulhosa e sorridente ela me mostrou diversas imagens do tal desfile e também o release da marca.
No quarto dia, quando fui buscar o restante das telas, ela disse que eu estava bonita e eu disse que deviam ser os efeitos das férias e ela disse que precisava de férias também porque estava muito cansada e tinha que fazer uma cirurgia, que tinha feito uma ano passado e precisava fazer a segunda logo porque você sabe, né Julia? Mulher depois dos 40 tem que tirar o útero porque ele vira foco de infecções e doenças e câncer e além disso que já tenho dois filhos e não quero mais, o problema é que se eu sair daqui pra operar isso aqui pára, né Julia? O meu médico já falou que só me opera se eu ficar um mês em casa de repouso e como é que eu vou ficar um mês em casa de repouso? Só se eu alugar um apartamento aqui em cima no prédio, aí sim!
Lembrei de uma vez em que fui lá, há meses atrás, e a Rose estava com os cabelos penteados como nunca tinha visto. Eu fiz um elogio e ela disse que tinha ido lá naquele salão ali novo em Ipanema, o creme deles é ótimo, você devia ir lá porque olha, o meu cabelo é ruim, né Julia, o seu já é bom, se você usasse o creme deles ia ficar ainda melhor porque solta os cachos, sabe?
Minha mãe, irmã e tia gargalharam quando escutaram essas histórias, junto com as minhas próprias risadas. Minhas amigas fizeram uma cara de “que tipo de conversas são essas que você anda tendo?” e eu fiquei quieta o resto do tempo...
Ficamos horas no telefone hoje e acabei não contando nada disso pra ele. Me dei conta de como ele faz muito mais falta do que parece. Besteira não ter contado. Ele entenderia e eu riria tudo de novo!
No dia seguinte cruzei com ela, a Rose, que tomava café na padaria. Ela perguntou o que eu fazia tão cedo ali e eu disse que vinha da fisioterapia que era no prédio ao lado (e na mesma rua do silk). Ela perguntou se eu fazia o tratamento com “aqueles dois rapazes”, eu disse que não, ela perguntou o que eu tinha, eu disse coluna ruim e ela disse que fez um período de reabilitação com os tais dois rapazes que você sabe, né Julia, eu fico muito tempo fazendo as artes lá na loja no computador, eu desenho muito e tive L.E.R sabe? Doía do pulso ao cotovelo, menina, eu tive até cárie porque não conseguia escovar o dente de tanta dor no braço! Ela disse que me daria os contatos dos dois rapazes que eles eram muito bons, eu agradeci (algumas coisas é melhor não discutir pois a conversa pode se estender para além do desejado).
No terceiro dia fui buscar algumas das telas que estavam prontas e ela perguntou se eu tinha ido aos desfiles, eu disse que não, ela me chamou pra ver as fotos de uma marca para a qual ela tinha feito as estampas. Muito orgulhosa e sorridente ela me mostrou diversas imagens do tal desfile e também o release da marca.
No quarto dia, quando fui buscar o restante das telas, ela disse que eu estava bonita e eu disse que deviam ser os efeitos das férias e ela disse que precisava de férias também porque estava muito cansada e tinha que fazer uma cirurgia, que tinha feito uma ano passado e precisava fazer a segunda logo porque você sabe, né Julia? Mulher depois dos 40 tem que tirar o útero porque ele vira foco de infecções e doenças e câncer e além disso que já tenho dois filhos e não quero mais, o problema é que se eu sair daqui pra operar isso aqui pára, né Julia? O meu médico já falou que só me opera se eu ficar um mês em casa de repouso e como é que eu vou ficar um mês em casa de repouso? Só se eu alugar um apartamento aqui em cima no prédio, aí sim!
Lembrei de uma vez em que fui lá, há meses atrás, e a Rose estava com os cabelos penteados como nunca tinha visto. Eu fiz um elogio e ela disse que tinha ido lá naquele salão ali novo em Ipanema, o creme deles é ótimo, você devia ir lá porque olha, o meu cabelo é ruim, né Julia, o seu já é bom, se você usasse o creme deles ia ficar ainda melhor porque solta os cachos, sabe?
Minha mãe, irmã e tia gargalharam quando escutaram essas histórias, junto com as minhas próprias risadas. Minhas amigas fizeram uma cara de “que tipo de conversas são essas que você anda tendo?” e eu fiquei quieta o resto do tempo...
Ficamos horas no telefone hoje e acabei não contando nada disso pra ele. Me dei conta de como ele faz muito mais falta do que parece. Besteira não ter contado. Ele entenderia e eu riria tudo de novo!
sexta-feira, junho 13, 2008
Para o Bruno
Bruno sempre fica moreno no verão. No inverno também, que ele continua indo à praia com sua manta que roubou do avião fazendo as vezes de canga. O Bruno perto de mim fica ainda mais colorido com toda sua morenice fora de época e diz que eu pareço européia. Eu concordo e ele sorri. Seus olhos não ficam espremidos por causa de seus sorrisos, nunca entendi como ele consegue. Mas se eu fosse o Bruno também sorriria sem apertá-los. O verde dos olhos do Bruno não é encontrado numa cartela Pantone, nem a morenice dele, parece que ele escolheu a dedo cores que ninguém mais no mundo consegue. Bruno acharia graça se soubesse que acho que suas cores são especiais. Mas na verdade engraçado mesmo é ele que fala sobre uma música e a canta em seguida, não sem antes hesitar e dizer “não, não vou cantar, tá tá bem, vou cantar uma parte”. E canta.
Bruno faz um gesto com os braços quando canta, nem deve saber. É como se os afastasse um pouco dando espaço pro peito se encher. Seus olhos verdes olham pra cima quando canta e as sobrancelhas espessas ficam ligeiramente arqueadas. As mãos têm um trejeito também quando ele canta. E a voz fica um pouco mais grave, menos rouca, mais calma. Ou mais serena, sei lá. O resto do tempo quando ele não está cantando ele fala rápido e ansioso.
Bruno diz que eu falo pouco. Mas na verdade é ele quem fala muito. Ele fala muito tudo, ele fala muito “meu irmão”, “pô”, ele fala à beça, ele tem uma necessidade tamanha de falar e às vezes, quando ele se pega tagarelando diz: “eu falo muito, né?”. Eu sorrio e ele concorda. Ele fala com as mãos também e repete sempre alguns movimentos que são tão dele que qualquer outra pessoa que fizesse só me lembraria o Bruno, um movimento com as duas mãos que ele não deve ter reparado tanto quanto eu. Eu gosto de reconhecer o Bruno nesse gestual tão particular, como se além das cores ele tivesse também músculos e ligamentos especiais que dançassem nesse ritmo grave e meio rouco e ansioso da voz que ele tem. O Bruno não deve saber metade dessas coisas que eu sei que ele tem (talvez ele saiba de outra forma).
Bruno diz que ficamos amigos porque insistimos muito, ou cismamos, sei lá. O Bruno perto de mim fica ainda mais meu e eu perto dele fico sempre mais dele, como a gente era da gente quando se via todo dia. Esses detalhes todos do Bruno que eu sei me dão a nítida sensação de que existe um Bruno que só existe comigo e todas as coisas que ele sabe de mim deve fazer com que exista uma eu que só existe com ele. É por isso que até hoje o Bruno e eu sempre voltamos.
Bruno acharia graça se lesse tudo isso que estou escrevendo dele. Mas rir mesmo ele riria se eu dissesse que desde que Santo Antônio resolveu me boicotar que todo dia 12 de junho acordo e penso: hoje é aniversário do Bruno. Talvez até esmagasse um pouco os olhos.
Bruno faz um gesto com os braços quando canta, nem deve saber. É como se os afastasse um pouco dando espaço pro peito se encher. Seus olhos verdes olham pra cima quando canta e as sobrancelhas espessas ficam ligeiramente arqueadas. As mãos têm um trejeito também quando ele canta. E a voz fica um pouco mais grave, menos rouca, mais calma. Ou mais serena, sei lá. O resto do tempo quando ele não está cantando ele fala rápido e ansioso.
Bruno diz que eu falo pouco. Mas na verdade é ele quem fala muito. Ele fala muito tudo, ele fala muito “meu irmão”, “pô”, ele fala à beça, ele tem uma necessidade tamanha de falar e às vezes, quando ele se pega tagarelando diz: “eu falo muito, né?”. Eu sorrio e ele concorda. Ele fala com as mãos também e repete sempre alguns movimentos que são tão dele que qualquer outra pessoa que fizesse só me lembraria o Bruno, um movimento com as duas mãos que ele não deve ter reparado tanto quanto eu. Eu gosto de reconhecer o Bruno nesse gestual tão particular, como se além das cores ele tivesse também músculos e ligamentos especiais que dançassem nesse ritmo grave e meio rouco e ansioso da voz que ele tem. O Bruno não deve saber metade dessas coisas que eu sei que ele tem (talvez ele saiba de outra forma).
Bruno diz que ficamos amigos porque insistimos muito, ou cismamos, sei lá. O Bruno perto de mim fica ainda mais meu e eu perto dele fico sempre mais dele, como a gente era da gente quando se via todo dia. Esses detalhes todos do Bruno que eu sei me dão a nítida sensação de que existe um Bruno que só existe comigo e todas as coisas que ele sabe de mim deve fazer com que exista uma eu que só existe com ele. É por isso que até hoje o Bruno e eu sempre voltamos.
Bruno acharia graça se lesse tudo isso que estou escrevendo dele. Mas rir mesmo ele riria se eu dissesse que desde que Santo Antônio resolveu me boicotar que todo dia 12 de junho acordo e penso: hoje é aniversário do Bruno. Talvez até esmagasse um pouco os olhos.
domingo, junho 08, 2008
Strangeways, here we come *
Peguei tanta chuva que comprei uma toalha, pendurei as roupas num cabide e vesti pijama o resto do dia todo, resto do último dia de trabalho, isso antes de ter que me esconder no banheiro pra ler a carta que ela tinha deixado na minha agenda porque eu sabia que ia chorar e como é que essas coisas mexem tanto com a gente, né?, ela virou uma dessas pessoas doces que só de dizer bom dia já despeja um pouquinho de sol na gente e no outro dia já não ia ter mais ela lá, nem nos próximos, parece dramático contando assim, e deve ser mesmo, mais de um ano nessa rotina e de repente ficam os dias sem ela e sem tudo aquilo que eles tinham durante meses, os dias, quero dizer, e agora os dias são tão o oposto do que eram e ficar aqui é somente o que não era ficar lá e é bom mas toda essa liberdade apavora um pouco, todas essas portas que pode ser que se abram seriam ótimas opções se eu soubesse em que muros elas estão, que casas guardam e como fazer pra chegar perto delas.
É quando vem um nervosismo atrapalhado e uma ansiedade de decidir e resolver, não importa muito o quão definitivas sejam as resoluções,o que importa é te-las porque andar na claridade é sempre melhor que no escuro, mesmo que a luz venha de lanternas que se apagarão, por alguns momentos é preciso ter alguma certeza ou pelo menos achar que tenho uma certeza que me empurre, o excesso de dias sem despertador às vezes dá pânico, a liberdade de repente parece tão assustadora que só o que é preciso é ter pra onde ir, mesmo que depois eu tenha que me mudar e me despedir de novo. Me despedir de novo vai doer de novo. E se acontecer sempre? E se não acontecer mais?
...
No quarto dia achei melhor dar um tempo, abrir a cortina, dormir de novo, dar uma volta, visitar a irmã, ir à praia, mergulhar, ficar com medo das ondas de novo, sentar no banquinho da sorveteria, almoçar comida feita na hora, tirar o pó dos discos, telefonar para os amigos, sair sem carro e sem muita hora pra voltar, não pensar tanto afinal nas portas, preciso primeiro fechar bem as recentes ou pelo menos passar a chave delas adiante, entender o fim das coisas e aproveitar a felicidade de tê-lo providenciado por sobrevivência, por saber que preciso acabar mesmo com isso ou aquilo, mesmo que doa e mesmo que falte ainda o mapa pro próximo porto, um dia vou abri-las, as portas, depois das férias, depois...
* "They said there's too much caffeine in your blood stream and a lack of real spice in your life" - The Smiths
É quando vem um nervosismo atrapalhado e uma ansiedade de decidir e resolver, não importa muito o quão definitivas sejam as resoluções,o que importa é te-las porque andar na claridade é sempre melhor que no escuro, mesmo que a luz venha de lanternas que se apagarão, por alguns momentos é preciso ter alguma certeza ou pelo menos achar que tenho uma certeza que me empurre, o excesso de dias sem despertador às vezes dá pânico, a liberdade de repente parece tão assustadora que só o que é preciso é ter pra onde ir, mesmo que depois eu tenha que me mudar e me despedir de novo. Me despedir de novo vai doer de novo. E se acontecer sempre? E se não acontecer mais?
...
No quarto dia achei melhor dar um tempo, abrir a cortina, dormir de novo, dar uma volta, visitar a irmã, ir à praia, mergulhar, ficar com medo das ondas de novo, sentar no banquinho da sorveteria, almoçar comida feita na hora, tirar o pó dos discos, telefonar para os amigos, sair sem carro e sem muita hora pra voltar, não pensar tanto afinal nas portas, preciso primeiro fechar bem as recentes ou pelo menos passar a chave delas adiante, entender o fim das coisas e aproveitar a felicidade de tê-lo providenciado por sobrevivência, por saber que preciso acabar mesmo com isso ou aquilo, mesmo que doa e mesmo que falte ainda o mapa pro próximo porto, um dia vou abri-las, as portas, depois das férias, depois...
* "They said there's too much caffeine in your blood stream and a lack of real spice in your life" - The Smiths
segunda-feira, maio 26, 2008
Biblioteca
- Mas é que livro tem que ter aquele apelo, sabe? Ele tem que parecer que está flutuando sobre os outros na prateleira da loja. Às vezes não adianta ser um Oscar Wilde, o livro tem que acenar pra você, entende?
- Flutuando na prateleira da loja??? O livro tem que te acenar?? Que papo é esse?
- É uma figura de linguagem, oras. Ele tem que ter alguma coisa que te chame, sei lá.
- Tipo uma capa bacana?
- Talvez. Mas não é só isso. Uma vez eu comprei um livro porque a capa dele era genial e o título tinha tudo a ver e foi péssimo. Não durou dois capítulos. Não era de capítulos na verdade, era de contos. Meio um Caio F wannabe, sabe?
- Humm sei, esses são os piores, esses cretinos pretensiosos.
- Esse certamente foi.
- E o que você fez? Você parou de ler no meio? Que parar livro no meio é pesado, né? Eu me sinto péssima. Acho que se o cara teve a coragem de escrever um livro ele devia ser lido até o fim.
- Mas era ruim, mal escrito, mal pensado, mal diagramado...
- Mal diagramado?!
- Ok, não era mal diagramado, mas era mal tudo o que você consegue pensar. Até o nome do autor se você parar pra pensar é péssimo.
- Ahahaha agora você está exagerando, a culpa nem é dele.
- Pode não ser, mas que pessoa com aquele nome tem coragem de vê-lo na capa de um livro? Livro é uma decisão séria, é que nem filho, é pra vida toda!
- Ahahaha você devia fazer teatro!
- E você devia fazer uma lista pra mim, com livros bacanas que você recomendaria. Livros assim que você levaria pra Penedo pra ler na rede, sabe?
- Humm sei. Clarice. Raduan. Camus. Adélia.
- É. Mas esses são os de sempre. Sinto falta de uma novidade, sabe? De um impacto.
- Entendo. De um novo amor, né? Literário, quero dizer. De arrebatamentos. Sabe o que resolvi fazer? Ler os livros das músicas.
- Como?
- É, os livros das músicas. Aquelas. Dentro da Noite Veloz, Na Cinza das Horas, Flores do Mal
- Olha! Que genial! E Paraísos Artificiais?
- Esse livro tá em que música?
- “Meu amor se você for embora, sabe lá o que será de mim...” À Francesa, da Marina!
- Humm. Desconfio.
- Do livro? Ou do Baudelaire?
- Da Marina. “Eu tô grávida de um beija-flor” e tal, ela não é confiável.
- E “o inverno no Leblon é quase glacial” é confiável??
- Mas essa não tem livro, não tem problema. O negócio é aquela que a Calcanhoto canta, os livros se encaixam tão bem na letra que a maioria das pessoas nem deve saber que são nomes de livros, devem achar super metafórico e abstrato e poético ainda ter o seu cheiro dentro da noite veloz.
- Ahahahah e na cinza das horas mais ainda!
- Ahahahaha mas olha, a gente precisa descobrir outros livros de músicas! O Chico deve ter livros em músicas. Zeca Baleiro também. O Caetano tem um disco inteiro chamado Livro. Tem que ter algum livro na música!
- Sabe quem deve ter? Legião Urbana!
- Éééé, sempre tinha um Godard no meio da história, Bauhaus, Mutantes, tal. Tem que ter livro.
- Tem aquele “quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu”, sabe? Naquela música Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar.
- Isso não é livro.
- Claro que é. Dá um google nessa frase.
- Péraí... não. Não é livro.
- Mas é claro que é! De auto-ajuda! Posso vê-lo ao lado de “Quem ama não adoece”!
- Flutuando na prateleira?!
- Humm não sei... Mas olha, tem outro: “o sol nasce pra todos só não sabe quem não quer” de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”. E também “e hoje em dia como é que se diz eu te amo?” De "Vamos Fazer um Filme"!
- Ai meu deus. Daqui a pouco você vai dizer que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” é um livro de auto-ajuda também.
-E não é? Gente esse negócio vicia, as músicas deles são um celeiro de livros de auto-ajuda! Olha só: “com você por perto eu gostava mais de mim” ahahaha e não é que nessa tem? “estava lhe ensinando a ler On The Road, coisas desiguais”!
- Éééé! (...) Kerouac, é? Não sei não...
- Por que, não é confiável também?
- Tanto quanto o Engenheiros do Hawaii. Eles tem um livro numa música, Pergunte ao Pó. O nome da música é outro.
- Mas e então, ficamos na mesma, né?
- É. Esse aí que você comprou por causa da capa. Como foi? A compra, quero dizer.
- Ah foi um dia qualquer. Ele se destacou, não sei bem. Digo, ele acenou pra mim na prateleira.
- Mas você já foi querendo um desses bons? Quero dizer, você já foi comprar um livro epifânico?
- Sim, eu queria um desses.
- Entendi. Talvez a gente deva procurar qualquer coisa, uma frase, sei lá. E não uma epifania toda, sabe? Já experimentou ler o primeiro parágrafo dos livros?
- Não. Pode ser uma idéia.
- Melhor do que achar que algum está flutuando. É que nem conhecer pessoas. Aquela coisa de primeira impressão e tal. Como foi que você encontrou o Caio?
- Ele me encontrou. Numa epígrafe de um livro que eu ganhei. Foi muita sorte.
- Verdade. Como faz então?
- Acho que não faz. Continuamos ouvindo músicas, sei lá. Da última vez fiz uma enquete e acabei lendo um livro que tinha mudado a vida de duas pessoas. A minha continuou igual.
- Sabe que livro mudou minha vida?
- Sei. Mudou a minha também. Será que depois de um tempo eles mudam mais alguma coisa? Ou mudam de novo?
- Acho que não. Mas não custa tentar, né?
- É, não custa. Ainda mais que eles continuam acenando, né?
- Ou será que estão tentando nos dizer tchau? Tem gente que diz que você deve passar os livros adiante, deixar nos sebos, talvez a gente devesse comprar livros dos sebos. O seu que você ganhou...
- Foi de um ex-amor, o sebo, o sebo é uma boa idéia. Se não der certo fica resolvido: compramos novos discos.
- Flutuando na prateleira da loja??? O livro tem que te acenar?? Que papo é esse?
- É uma figura de linguagem, oras. Ele tem que ter alguma coisa que te chame, sei lá.
- Tipo uma capa bacana?
- Talvez. Mas não é só isso. Uma vez eu comprei um livro porque a capa dele era genial e o título tinha tudo a ver e foi péssimo. Não durou dois capítulos. Não era de capítulos na verdade, era de contos. Meio um Caio F wannabe, sabe?
- Humm sei, esses são os piores, esses cretinos pretensiosos.
- Esse certamente foi.
- E o que você fez? Você parou de ler no meio? Que parar livro no meio é pesado, né? Eu me sinto péssima. Acho que se o cara teve a coragem de escrever um livro ele devia ser lido até o fim.
- Mas era ruim, mal escrito, mal pensado, mal diagramado...
- Mal diagramado?!
- Ok, não era mal diagramado, mas era mal tudo o que você consegue pensar. Até o nome do autor se você parar pra pensar é péssimo.
- Ahahaha agora você está exagerando, a culpa nem é dele.
- Pode não ser, mas que pessoa com aquele nome tem coragem de vê-lo na capa de um livro? Livro é uma decisão séria, é que nem filho, é pra vida toda!
- Ahahaha você devia fazer teatro!
- E você devia fazer uma lista pra mim, com livros bacanas que você recomendaria. Livros assim que você levaria pra Penedo pra ler na rede, sabe?
- Humm sei. Clarice. Raduan. Camus. Adélia.
- É. Mas esses são os de sempre. Sinto falta de uma novidade, sabe? De um impacto.
- Entendo. De um novo amor, né? Literário, quero dizer. De arrebatamentos. Sabe o que resolvi fazer? Ler os livros das músicas.
- Como?
- É, os livros das músicas. Aquelas. Dentro da Noite Veloz, Na Cinza das Horas, Flores do Mal
- Olha! Que genial! E Paraísos Artificiais?
- Esse livro tá em que música?
- “Meu amor se você for embora, sabe lá o que será de mim...” À Francesa, da Marina!
- Humm. Desconfio.
- Do livro? Ou do Baudelaire?
- Da Marina. “Eu tô grávida de um beija-flor” e tal, ela não é confiável.
- E “o inverno no Leblon é quase glacial” é confiável??
- Mas essa não tem livro, não tem problema. O negócio é aquela que a Calcanhoto canta, os livros se encaixam tão bem na letra que a maioria das pessoas nem deve saber que são nomes de livros, devem achar super metafórico e abstrato e poético ainda ter o seu cheiro dentro da noite veloz.
- Ahahahah e na cinza das horas mais ainda!
- Ahahahaha mas olha, a gente precisa descobrir outros livros de músicas! O Chico deve ter livros em músicas. Zeca Baleiro também. O Caetano tem um disco inteiro chamado Livro. Tem que ter algum livro na música!
- Sabe quem deve ter? Legião Urbana!
- Éééé, sempre tinha um Godard no meio da história, Bauhaus, Mutantes, tal. Tem que ter livro.
- Tem aquele “quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu”, sabe? Naquela música Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar.
- Isso não é livro.
- Claro que é. Dá um google nessa frase.
- Péraí... não. Não é livro.
- Mas é claro que é! De auto-ajuda! Posso vê-lo ao lado de “Quem ama não adoece”!
- Flutuando na prateleira?!
- Humm não sei... Mas olha, tem outro: “o sol nasce pra todos só não sabe quem não quer” de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”. E também “e hoje em dia como é que se diz eu te amo?” De "Vamos Fazer um Filme"!
- Ai meu deus. Daqui a pouco você vai dizer que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” é um livro de auto-ajuda também.
-E não é? Gente esse negócio vicia, as músicas deles são um celeiro de livros de auto-ajuda! Olha só: “com você por perto eu gostava mais de mim” ahahaha e não é que nessa tem? “estava lhe ensinando a ler On The Road, coisas desiguais”!
- Éééé! (...) Kerouac, é? Não sei não...
- Por que, não é confiável também?
- Tanto quanto o Engenheiros do Hawaii. Eles tem um livro numa música, Pergunte ao Pó. O nome da música é outro.
- Mas e então, ficamos na mesma, né?
- É. Esse aí que você comprou por causa da capa. Como foi? A compra, quero dizer.
- Ah foi um dia qualquer. Ele se destacou, não sei bem. Digo, ele acenou pra mim na prateleira.
- Mas você já foi querendo um desses bons? Quero dizer, você já foi comprar um livro epifânico?
- Sim, eu queria um desses.
- Entendi. Talvez a gente deva procurar qualquer coisa, uma frase, sei lá. E não uma epifania toda, sabe? Já experimentou ler o primeiro parágrafo dos livros?
- Não. Pode ser uma idéia.
- Melhor do que achar que algum está flutuando. É que nem conhecer pessoas. Aquela coisa de primeira impressão e tal. Como foi que você encontrou o Caio?
- Ele me encontrou. Numa epígrafe de um livro que eu ganhei. Foi muita sorte.
- Verdade. Como faz então?
- Acho que não faz. Continuamos ouvindo músicas, sei lá. Da última vez fiz uma enquete e acabei lendo um livro que tinha mudado a vida de duas pessoas. A minha continuou igual.
- Sabe que livro mudou minha vida?
- Sei. Mudou a minha também. Será que depois de um tempo eles mudam mais alguma coisa? Ou mudam de novo?
- Acho que não. Mas não custa tentar, né?
- É, não custa. Ainda mais que eles continuam acenando, né?
- Ou será que estão tentando nos dizer tchau? Tem gente que diz que você deve passar os livros adiante, deixar nos sebos, talvez a gente devesse comprar livros dos sebos. O seu que você ganhou...
- Foi de um ex-amor, o sebo, o sebo é uma boa idéia. Se não der certo fica resolvido: compramos novos discos.
quinta-feira, maio 22, 2008
Diário de bordo
A transportadora entregou um dos 5 volumes trocado. Eram 4 rolos de tecido e uma caixa, a fábrica recebeu 5 rolos de tecido e zero caixa. Me telefonaram pra saber o que deveriam fazer com o tecido branco. Liguei para a transportadora pra dizer que um dos volumes tinha sido trocado. Depois de informar endereço, cnpj, inscrição estadual, cep, telefone, razão social, número da nota, endereço de destino, depois que a moça da transportadora entendeu que dos 4 volumes só um tinha sido entregue errado, depois que ela entendeu que o destinatário é que tinha recebido errado e não eu, depois disso a atendente perguntou pra onde tinha ido o volume errado. Eu respondi que não sabia porque eu não estava no caminhão no momento da entrega.
Houve uma greve de transportes no Espírito Santo e por conta disso nenhum dos funcionários da estamparia foi trabalhar e por conta disso também a produção das estampas atrasou alguns dias.
Os consertos de uma das modelagens deram um total de R$ 18,00. Eu precisava de troco para R$ 50,00. Combinei com o fornecedor que o boy passaria pra buscar e ele voltou com R$ 18,00 de troco. Telefonei pro fornecedor pra explicar que na verdade o troco era de R$ 32,00 e eu precisava do complemento. O fornecedor me enviou mais R$32,00 e de novo eu tinha os R$ 50,00 iniciais. Eu achei tudo muito engraçado e quis fazer aquele gráfico de pizzas ou enviar um esquema de fulan-tinha-50-laranjas-comeu-18-quantas-restaram-? Alguém acredita nisso?
A fábrica mandou uma caixa cheia de etiquetas de tamanho P, M e G todas misturadas. Elas medem cerca de 2,5 centímetros e a capacidade da caixa é de 10 mil etiquetas. Eu precisava de umas 200 de cada tamanho. Algumas horas depois eu consegui.
Eu estava experimentando um sutiã na sala de reunião quando o boy passou pela porta. Eu estava vestindo uma camisola de renda semi-transparente quando o arquiteto chegou...
Uma cliente enviou um sutiã para conserto reclamando que a costura do fecho incomodava suas costas. Eu queria mandar pra ela um sutiã Scala sem costura. Algumas clientes enviaram peças sujas para conserto. Não quero entrar em detalhes.
----
Na manhã de terça arrumei a mesa. Limpei as gavetas, joguei fora os papéis, organizei as informações importantes numa pasta dividida por assunto, me livrei dos inúmeros retalhos de tecidos de outras coleções, copiei os telefones de todos os post-its na agenda do computador e até mesmo as planilhas foram melhoradas. Os arquivos de imagens e referências eu copiei no pen-drive, os lápis e canetas foram para a gaveta e o porta-trecos voltou pra minha casa, uma lista de instruções e pendências foi crescendo e em algumas horas a minha mesa estava mais ou menos como no dia em que a recebi de outra pessoa.
Ir embora sempre envolve uma faxina física.
Então eu comecei a enviar os emails. A lista de destinos era extensa, mais de 50. Eu sei que não vou ver mais essas pessoas com quem tanto falo no telefone, pessoas que vendem tecidos, que fazem modelagens etc. E é justamente quando você se dá conta de que o convívio com as outras pessoas, as que sentam nas mesas ao lado vai terminar. Algumas piadas, algumas epifanias, algumas risadas, alguns suspiros, algumas partes de nós só funcionam ali. Algumas das meninas estão preocupadas em saber quem será a próxima. Ficam pensando em como vão viver o dia a dia estressado sem as minhas imitações e cenas. Eu também não sei o que vou fazer sem a gargalhada delas. Não é bom pensar nisso ainda.
Antes preciso resolver o problema das camisolas. E terminar de enviar os emails que os dolorosos mesmo eu deixei pro final. A sorte é que as respostas chegam logo, todos me desejando boa sorte e sucesso, me pedindo meus telefones de contato e dizendo o quanto sentirão minha falta.
Pode ser tudo mentira ou ensaiado, não importa: sair do trabalho faz bem pro ego.
Houve uma greve de transportes no Espírito Santo e por conta disso nenhum dos funcionários da estamparia foi trabalhar e por conta disso também a produção das estampas atrasou alguns dias.
Os consertos de uma das modelagens deram um total de R$ 18,00. Eu precisava de troco para R$ 50,00. Combinei com o fornecedor que o boy passaria pra buscar e ele voltou com R$ 18,00 de troco. Telefonei pro fornecedor pra explicar que na verdade o troco era de R$ 32,00 e eu precisava do complemento. O fornecedor me enviou mais R$32,00 e de novo eu tinha os R$ 50,00 iniciais. Eu achei tudo muito engraçado e quis fazer aquele gráfico de pizzas ou enviar um esquema de fulan-tinha-50-laranjas-comeu-18-quantas-restaram-? Alguém acredita nisso?
A fábrica mandou uma caixa cheia de etiquetas de tamanho P, M e G todas misturadas. Elas medem cerca de 2,5 centímetros e a capacidade da caixa é de 10 mil etiquetas. Eu precisava de umas 200 de cada tamanho. Algumas horas depois eu consegui.
Eu estava experimentando um sutiã na sala de reunião quando o boy passou pela porta. Eu estava vestindo uma camisola de renda semi-transparente quando o arquiteto chegou...
Uma cliente enviou um sutiã para conserto reclamando que a costura do fecho incomodava suas costas. Eu queria mandar pra ela um sutiã Scala sem costura. Algumas clientes enviaram peças sujas para conserto. Não quero entrar em detalhes.
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Na manhã de terça arrumei a mesa. Limpei as gavetas, joguei fora os papéis, organizei as informações importantes numa pasta dividida por assunto, me livrei dos inúmeros retalhos de tecidos de outras coleções, copiei os telefones de todos os post-its na agenda do computador e até mesmo as planilhas foram melhoradas. Os arquivos de imagens e referências eu copiei no pen-drive, os lápis e canetas foram para a gaveta e o porta-trecos voltou pra minha casa, uma lista de instruções e pendências foi crescendo e em algumas horas a minha mesa estava mais ou menos como no dia em que a recebi de outra pessoa.
Ir embora sempre envolve uma faxina física.
Então eu comecei a enviar os emails. A lista de destinos era extensa, mais de 50. Eu sei que não vou ver mais essas pessoas com quem tanto falo no telefone, pessoas que vendem tecidos, que fazem modelagens etc. E é justamente quando você se dá conta de que o convívio com as outras pessoas, as que sentam nas mesas ao lado vai terminar. Algumas piadas, algumas epifanias, algumas risadas, alguns suspiros, algumas partes de nós só funcionam ali. Algumas das meninas estão preocupadas em saber quem será a próxima. Ficam pensando em como vão viver o dia a dia estressado sem as minhas imitações e cenas. Eu também não sei o que vou fazer sem a gargalhada delas. Não é bom pensar nisso ainda.
Antes preciso resolver o problema das camisolas. E terminar de enviar os emails que os dolorosos mesmo eu deixei pro final. A sorte é que as respostas chegam logo, todos me desejando boa sorte e sucesso, me pedindo meus telefones de contato e dizendo o quanto sentirão minha falta.
Pode ser tudo mentira ou ensaiado, não importa: sair do trabalho faz bem pro ego.
quinta-feira, maio 08, 2008
Carta a D.
My dearest,
Fazia tempo que queria mesmo parar. Ficar um dia em casa, ouvir músicas que me lembrassem você, te escrever.
Às vezes acho que o meu corpo funciona como um termômetro da minha cabeça e então percebo que preciso desacelerar.
Parece que o frio já começou por aqui. Voltamos a dormir de meias em casa, a praia está com aquele clima constante de fim de tarde e os cafés voltam a encher. Já tomo meu chocolate quente sem culpa. E chás. Uma pena, tiraram a minha sopa preferida do cardápio daquele restaurante. Quis protestar mas o garçom foi taxativo, a minha sopa não dava o menor ibope.
Ainda está quente aí?
Os noticiários continuam falando de coisas absurdas. Os anúncios de supermercado continuam absurdos também. Isso me faz pensar em como as pessoas não devem ligar pro que vêem. Acabo sempre desligando a tv. Estou com uma pilha de livros que não diminui. Ando sem foco, sem concentração. Esta semana emprestei dois livros a uma amiga. Um deles já estava na prateleira há um tempo. O outro mal tinha chegado. Foi um daqueles...! Li em poucas horas. Nunca empresto livros recém-terminados. Eu crio uma espécie de relação com os livros, preciso tê-los por perto, preciso reler trechos, gosto de saber que eles estarão ali. Gosto desse tempo de digestão, de ler arrebatamentos e de saber que eles estarão ali guardados e prontos para serem abertos de novo. Conversei sobre isso na análise.
Preciso me desapegar um pouco. Não, acho que não é isso. Mas preciso aprender a sofrer menos. Ao ficar longe das pessoas, ao me despedir das etapas, ao emprestar livros especiais para os amigos dois dias depois.
Ontem conversando ouvi: “Descobri que existe um lugar onde o chocolate é melhor que na Suíça. Acho que é na Bélgica”. Um pouco antes ele já tinha dito que havia viajado pelo mundo sem sair do lugar. Era o motorista que me levava até. Ele trabalhou anos num hotel. E foi lindo e triste ouvir aquilo. Eu tive vontade de comprar uma caixa de chocolates belgas para ele. Entende o que eu digo? Essas coisas me tomam, eu não sei como evitar. É o mesmo com os livros. Com as músicas também. Com os meus amigos.
Perguntei pra um deles outro dia quais eram as novidades. Um dos amigos, eu digo. Ela respondeu que havia parado de roer unhas. Eu gargalhei! E entendi. Entendi que essa era a resposta que eu podia esperar. E quis dizer a ela que a minha novidade era que voltei a dançar. Mas não voltei. Sabe, essas coisas dizem muito mais sobre as pessoas. Lembra quando me apaixonei por um cara que tinha uma rede no quarto? É isso o que acontece comigo. Eu aprecio os detalhes. E acho que eles são tão mais significativos. Talvez seja por isso que sofro tanto.
Encontrei aquele cara de novo. Não o da rede, o outro, você sabe. Não houve nada. Mas morremos de saudade em um segundo. Enquanto ele respirava no meu pescoço e eu no dele. Talvez três segundos... Eu sei que é bobagem. Continuei sentindo saudade depois, não sei ele. Mas sei que durante aquela respiração nós dois tivemos certeza um do outro e vai ver é isso... Eu sempre uso reticências quando falo dele, eu sei. Ele também usava quando falava comigo. Dava pra ouvi-las.
O que você tem escutado?
Acho que desisti daquela viagem. Na verdade não sei bem do que desistir. Sei que acabo insistindo em coisas por tempo demais, em pessoas e então de repente reavalio tudo e me bate essa dúvida. E então eu sinto aquilo que te disse no começo, uma dor nas costas, uma dor!
Hoje de manhã não consegui acordar. Ontem cheguei em casa chorando e minha mãe me deu um remédio. Acontece que hoje não houve jeito de sair da cama porque o remédio era muito forte e eu estava sonhando com a casa de Penedo. E eu precisava me esconder, precisava ficar num canto onde ninguém me encontrasse. No sonho. Eu era criança no sonho, dava passinhos pequenos. Eu não queria ir embora da casa de Penedo porque lá era muito seguro e voltar para o Rio era diminuir ainda mais o tamanho dos passos. Eu me escondia sob um lençol dentro da sauna e tentava apagar minha sombra na porta.
Eu estava apavorada no sonho. Eu estava apavorada ontem também. Entende por que eu não conseguia acordar? A minha cama era como respirar no pescoço dele, quente, seguro, feliz. E desabraçar isso tudo...
Não soube o final, se me encontraram na sauna ou se eu achei meu caminho de volta. O telefone tocou. Eu queria que fosse ele dizendo "eu também". Era do trabalho.
Sei que preciso dormir mais uma vez, está na hora de tomar o remédio de novo.
É esse o momento do dia em que penso muito em você e no seu caminho. Lembro do vôo que fizemos juntas e me pergunto quando vamos nos encontrar de novo. Não sei se estou pronta pra ir até onde você está. Acho que preciso me reconstruir primeiro. Torço pra que você não demore.
O livro eu te mando.
Espero que os cães estejam bem. O meu parece estar um pouco mais calmo. Faz alguns meses que não morde ninguém. O seu namorado eu sei que está bem. As fotos evidenciam! Dê um beijo nele. E não o desabrace, promete?
Um beijo com amor,
Sua prima.
Fazia tempo que queria mesmo parar. Ficar um dia em casa, ouvir músicas que me lembrassem você, te escrever.
Às vezes acho que o meu corpo funciona como um termômetro da minha cabeça e então percebo que preciso desacelerar.
Parece que o frio já começou por aqui. Voltamos a dormir de meias em casa, a praia está com aquele clima constante de fim de tarde e os cafés voltam a encher. Já tomo meu chocolate quente sem culpa. E chás. Uma pena, tiraram a minha sopa preferida do cardápio daquele restaurante. Quis protestar mas o garçom foi taxativo, a minha sopa não dava o menor ibope.
Ainda está quente aí?
Os noticiários continuam falando de coisas absurdas. Os anúncios de supermercado continuam absurdos também. Isso me faz pensar em como as pessoas não devem ligar pro que vêem. Acabo sempre desligando a tv. Estou com uma pilha de livros que não diminui. Ando sem foco, sem concentração. Esta semana emprestei dois livros a uma amiga. Um deles já estava na prateleira há um tempo. O outro mal tinha chegado. Foi um daqueles...! Li em poucas horas. Nunca empresto livros recém-terminados. Eu crio uma espécie de relação com os livros, preciso tê-los por perto, preciso reler trechos, gosto de saber que eles estarão ali. Gosto desse tempo de digestão, de ler arrebatamentos e de saber que eles estarão ali guardados e prontos para serem abertos de novo. Conversei sobre isso na análise.
Preciso me desapegar um pouco. Não, acho que não é isso. Mas preciso aprender a sofrer menos. Ao ficar longe das pessoas, ao me despedir das etapas, ao emprestar livros especiais para os amigos dois dias depois.
Ontem conversando ouvi: “Descobri que existe um lugar onde o chocolate é melhor que na Suíça. Acho que é na Bélgica”. Um pouco antes ele já tinha dito que havia viajado pelo mundo sem sair do lugar. Era o motorista que me levava até. Ele trabalhou anos num hotel. E foi lindo e triste ouvir aquilo. Eu tive vontade de comprar uma caixa de chocolates belgas para ele. Entende o que eu digo? Essas coisas me tomam, eu não sei como evitar. É o mesmo com os livros. Com as músicas também. Com os meus amigos.
Perguntei pra um deles outro dia quais eram as novidades. Um dos amigos, eu digo. Ela respondeu que havia parado de roer unhas. Eu gargalhei! E entendi. Entendi que essa era a resposta que eu podia esperar. E quis dizer a ela que a minha novidade era que voltei a dançar. Mas não voltei. Sabe, essas coisas dizem muito mais sobre as pessoas. Lembra quando me apaixonei por um cara que tinha uma rede no quarto? É isso o que acontece comigo. Eu aprecio os detalhes. E acho que eles são tão mais significativos. Talvez seja por isso que sofro tanto.
Encontrei aquele cara de novo. Não o da rede, o outro, você sabe. Não houve nada. Mas morremos de saudade em um segundo. Enquanto ele respirava no meu pescoço e eu no dele. Talvez três segundos... Eu sei que é bobagem. Continuei sentindo saudade depois, não sei ele. Mas sei que durante aquela respiração nós dois tivemos certeza um do outro e vai ver é isso... Eu sempre uso reticências quando falo dele, eu sei. Ele também usava quando falava comigo. Dava pra ouvi-las.
O que você tem escutado?
Acho que desisti daquela viagem. Na verdade não sei bem do que desistir. Sei que acabo insistindo em coisas por tempo demais, em pessoas e então de repente reavalio tudo e me bate essa dúvida. E então eu sinto aquilo que te disse no começo, uma dor nas costas, uma dor!
Hoje de manhã não consegui acordar. Ontem cheguei em casa chorando e minha mãe me deu um remédio. Acontece que hoje não houve jeito de sair da cama porque o remédio era muito forte e eu estava sonhando com a casa de Penedo. E eu precisava me esconder, precisava ficar num canto onde ninguém me encontrasse. No sonho. Eu era criança no sonho, dava passinhos pequenos. Eu não queria ir embora da casa de Penedo porque lá era muito seguro e voltar para o Rio era diminuir ainda mais o tamanho dos passos. Eu me escondia sob um lençol dentro da sauna e tentava apagar minha sombra na porta.
Eu estava apavorada no sonho. Eu estava apavorada ontem também. Entende por que eu não conseguia acordar? A minha cama era como respirar no pescoço dele, quente, seguro, feliz. E desabraçar isso tudo...
Não soube o final, se me encontraram na sauna ou se eu achei meu caminho de volta. O telefone tocou. Eu queria que fosse ele dizendo "eu também". Era do trabalho.
Sei que preciso dormir mais uma vez, está na hora de tomar o remédio de novo.
É esse o momento do dia em que penso muito em você e no seu caminho. Lembro do vôo que fizemos juntas e me pergunto quando vamos nos encontrar de novo. Não sei se estou pronta pra ir até onde você está. Acho que preciso me reconstruir primeiro. Torço pra que você não demore.
O livro eu te mando.
Espero que os cães estejam bem. O meu parece estar um pouco mais calmo. Faz alguns meses que não morde ninguém. O seu namorado eu sei que está bem. As fotos evidenciam! Dê um beijo nele. E não o desabrace, promete?
Um beijo com amor,
Sua prima.
quarta-feira, abril 23, 2008
Caminito
Encolhida na cadeira da classe econômica, a luz individual não funciona do lado direito da aeronave, menos mal, assim ninguém vê que por dentro da mochila eu tento trocar o cd do meu discman Toshiba verde. Eu estava de saco cheio da dengue, do caso Isabella, do fato das pessoas apedrejarem supostos assassinos e esquecerem dos cartões corporativos e etc, resolvi passar o feriado junto dos hermanos que são muito mais revolucionários do que nós e o meu discman verde era uma forma de protesto, a minha ego-revolta contra a mp3 e computadores e internet e a falta de calor humano e o-que-aconteceu-com-hábito-de-escrever-cartas?, sabe essas coisas?
Foi assim que fui parar em Buenos Aires, torcendo pro avião poder pousar, torcendo para que a tal fumaça que invadiu a cidade nos últimos dias não fosse tão ruim assim e torcendo pra sei lá, caminhar, ver os parques, sentar nas praças e basicamente não ter que pensar durante alguns dias, não precisar conversar seriamente com alguém, sair de casa sem relógio e sem telefone.
::
Banhos de banheira, passeios pelas avenidas, pães quentinhos e deliciosos no café da manhã, confortos e mimos dos anfitriões, flores na varanda, todos os episódios de Seinfeld a meu dispor, todos os episódios de I Love Lucy idem, pilhas de Vanity Fair para folhear, Vinícius e Caio F na cabeceira improvisada, folhas do outono começando a cobrir as calçadas. Eu sei, eu devia querer dançar tango, tomar vinho, comer bifes de chorizo no Puerto Madero e comprar bolsas e botas de couro a preços ótimos. Mas nós que não temos i-pod fazemos isso na Argentina: assistimos a uma série de 1952 no sofá da casa da tia enquanto tomamos sopa. Nós somos incompreendidos. Um dia nos chamarão vanguardistas.
::
Tarsila do Amaral está em cartaz no Malba. Surpreendentemente não compro nada na lojinha do museu, eu que as adoro, saio de mãos abanando. Não compro a Lomo que queria, fico perdida entre latas antigas e compro uma de talco de 1920 e um liseuse que a vendedora afirma ser Vitoriano. Não duvido. A loja, numa das esquinas da praça de San Telmo é uma viagem no tempo. Com um pouco de imaginação, a parte do subsolo reservada às roupas vira um imenso camarim das antigas óperas francesas e italianas. A qualquer momento as bailarinas estarão por ali vestindo-se a apertando as sapatilhas. Suspiro. Quero morar na loja de dois andares da praça de San Telmo. Quero comprar as meias que não estão à venda. Quero a camisola de 1890 que custa muitos dólares.
::
Fotografo postes, pombos, estátuas no cemitério, árvores, placas, bonecas antigas, os potes com utensílios de cozinha, o banco perto da porta, o banco sob a árvore, meu pé.
Me esforço na série "auto-retrato com braço esticado". Lembro da Carol e das considerações que ela fez quando viajou sozinha. Concluo que, mais que gostar, preciso viajar sozinha.
::
Quase que tudo vai por água abaixo quando na volta o aeroporto está lotado, as luzes individuais do lado direito da aeronave seguem defeituosas, o sujeito ao meu lado insiste em puxar conversa e faz tanto frio tanto frio dentro do avião, peço um cobertor mas não há mais mantas disponíveis, tomo uma taça de vinho em copo plástico, como é que as coisas ficam decadentes assim? eu quero matar todos da Siberian Airlines.
Abro a caixa de chocolates, o discman parece não funcionar, insisto mais um pouco, verifico a posição das pilhas, penso que um tênis Keds e um perfume CK One combinariam com o meu jeito anos 90 de ouvir música durante viagens e de repente a música começa “She says Hello! You fool, I love you! Come on join the joyride” ha ha , não era Roxette, era Adele. Não posso mudar o volume, essa função, assim como as luzes individuais, está com defeito. Me pergunto se as pessoas à minha volta estarão ouvindo a música que sai dos fones azuis. Acho que não. O meu vizinho que tentara puxar conversa parece dormir. Os gays à minha frente fazem perguntas sobre o meu brinco.
Final e infelizmente chego em casa, cachorro late, todos conversam, querem saber, bla bla bla. Desfaço as malas, deixo tudo meio bagunçado, retiro as pilhas do Discman para não melarem, arrumo a mochila para amanhã, ponho o despertador para mais uma vez tentar ir à natação cedinho. Quando a casa atinge relativo silêncio caio na cama cansada, as costas ruins de novo, dou um suspiro. Amanhã é segunda e eu pedi demissão. Preciso organizar meus manifestos.

Foi assim que fui parar em Buenos Aires, torcendo pro avião poder pousar, torcendo para que a tal fumaça que invadiu a cidade nos últimos dias não fosse tão ruim assim e torcendo pra sei lá, caminhar, ver os parques, sentar nas praças e basicamente não ter que pensar durante alguns dias, não precisar conversar seriamente com alguém, sair de casa sem relógio e sem telefone.
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Banhos de banheira, passeios pelas avenidas, pães quentinhos e deliciosos no café da manhã, confortos e mimos dos anfitriões, flores na varanda, todos os episódios de Seinfeld a meu dispor, todos os episódios de I Love Lucy idem, pilhas de Vanity Fair para folhear, Vinícius e Caio F na cabeceira improvisada, folhas do outono começando a cobrir as calçadas. Eu sei, eu devia querer dançar tango, tomar vinho, comer bifes de chorizo no Puerto Madero e comprar bolsas e botas de couro a preços ótimos. Mas nós que não temos i-pod fazemos isso na Argentina: assistimos a uma série de 1952 no sofá da casa da tia enquanto tomamos sopa. Nós somos incompreendidos. Um dia nos chamarão vanguardistas.
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Tarsila do Amaral está em cartaz no Malba. Surpreendentemente não compro nada na lojinha do museu, eu que as adoro, saio de mãos abanando. Não compro a Lomo que queria, fico perdida entre latas antigas e compro uma de talco de 1920 e um liseuse que a vendedora afirma ser Vitoriano. Não duvido. A loja, numa das esquinas da praça de San Telmo é uma viagem no tempo. Com um pouco de imaginação, a parte do subsolo reservada às roupas vira um imenso camarim das antigas óperas francesas e italianas. A qualquer momento as bailarinas estarão por ali vestindo-se a apertando as sapatilhas. Suspiro. Quero morar na loja de dois andares da praça de San Telmo. Quero comprar as meias que não estão à venda. Quero a camisola de 1890 que custa muitos dólares.
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Fotografo postes, pombos, estátuas no cemitério, árvores, placas, bonecas antigas, os potes com utensílios de cozinha, o banco perto da porta, o banco sob a árvore, meu pé.
Me esforço na série "auto-retrato com braço esticado". Lembro da Carol e das considerações que ela fez quando viajou sozinha. Concluo que, mais que gostar, preciso viajar sozinha.
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Quase que tudo vai por água abaixo quando na volta o aeroporto está lotado, as luzes individuais do lado direito da aeronave seguem defeituosas, o sujeito ao meu lado insiste em puxar conversa e faz tanto frio tanto frio dentro do avião, peço um cobertor mas não há mais mantas disponíveis, tomo uma taça de vinho em copo plástico, como é que as coisas ficam decadentes assim? eu quero matar todos da Siberian Airlines.
Abro a caixa de chocolates, o discman parece não funcionar, insisto mais um pouco, verifico a posição das pilhas, penso que um tênis Keds e um perfume CK One combinariam com o meu jeito anos 90 de ouvir música durante viagens e de repente a música começa “She says Hello! You fool, I love you! Come on join the joyride” ha ha , não era Roxette, era Adele. Não posso mudar o volume, essa função, assim como as luzes individuais, está com defeito. Me pergunto se as pessoas à minha volta estarão ouvindo a música que sai dos fones azuis. Acho que não. O meu vizinho que tentara puxar conversa parece dormir. Os gays à minha frente fazem perguntas sobre o meu brinco.
Final e infelizmente chego em casa, cachorro late, todos conversam, querem saber, bla bla bla. Desfaço as malas, deixo tudo meio bagunçado, retiro as pilhas do Discman para não melarem, arrumo a mochila para amanhã, ponho o despertador para mais uma vez tentar ir à natação cedinho. Quando a casa atinge relativo silêncio caio na cama cansada, as costas ruins de novo, dou um suspiro. Amanhã é segunda e eu pedi demissão. Preciso organizar meus manifestos.

sábado, abril 12, 2008
E fugir com você pra Shangri-lá
- Eu tive um professor que dizia isso. Ele citava muito Arquimedes.
- E o que Arquimedes tem a ver com isso agora?
- Tudo. Ele encontrou a solução pro problema dele enquanto tomava um banho. Ele estava tão envolvido no problema que a solução só veio quando ele conseguiu se desligar, sabe? Desanuviar. - Faz sentido.
- Ele precisou se esquecer um pouco, entende?
- E o que você pretende fazer então? Tomar banhos?!
- Não sei... não... Eu tomo muitos banhos. Mas não tem fuincionado.
- É que você já entra no banho achando que vai ser a solução, você não está ajudando. E ficar aí desse jeito piora.
- Eu estou ajudando sim!
- Ah é? Hum é verdade, hoje você se ajudou muito comendo porcarias e bebendo cervejas. E ontem também se ajudou à beça embaixo daquele cobertor grosso. E anteontem
- Eu voltei pra terapia, não voltei?
- É...
- Só que eu não posso achar que em uma sessão toda a minha desordem mental vai se reorganizar também...
- É...
- Pare de dizer "é", você devia me dar conselhos!
- Arquimedes devia te dar conselhos. Eu torço pra que você se encontre logo. Gostava dos seus olhos brilhando.
- Você se encontrou?
- Sim.
- Fez o que?
- Fui pra Índia. Virei zen-budista.
- Mas você teve que se estressar antes, né? Teve que sofrer pra resolver que não era nada disso...
- Sim, tive que ficar sufocado um pouco.
- Então eu estou no camiho certo, eu acho. E além disso eu não acho que a pessoa tenha que ir pro outro lado do mundo pra se encontrar. Não se trata disso. Não é uma questão territorial..
- Já entendi, você acha que ela precisa ir pro divã.
- Ou pro banho. Ha ha.
- Esse é o seu plano então? Freud? Iung?
- Eu não tenho um.
- Então aceite o meu.
- Você me dá a passagem?
- Eu sou zen-budista. Não posso te dar nem o bilhete do circular. Só vim pra esse café porque você me deu carona. He he he.
- Você vai me dar o quê então, porra?
- Um sabonete?
- Hahahahahahahahahahahhahahah
- Não se trata disso afinal? De um apoio? De um ombro amigo? De um pouco de carinho?
- É... mas e se você me desse carona, então?
- Até onde??
- Até esse lugar onde eu preciso ir pra me esquecer e então me encontrar de novo.
- Mas como você quer se esquecer se eu vou estar lá? Digo... eu vou estar sempre te lembrando de você mesma...
- É que... eu não quero te esquecer junto, entende?
:: Dedicado à Carol Salomão, pelas conversas reais.
" C - O que você acha das quartas-feiras?
J - Acho que elas podem ser um copo meio cheio ou meio vazio."
- E o que Arquimedes tem a ver com isso agora?
- Tudo. Ele encontrou a solução pro problema dele enquanto tomava um banho. Ele estava tão envolvido no problema que a solução só veio quando ele conseguiu se desligar, sabe? Desanuviar. - Faz sentido.
- Ele precisou se esquecer um pouco, entende?
- E o que você pretende fazer então? Tomar banhos?!
- Não sei... não... Eu tomo muitos banhos. Mas não tem fuincionado.
- É que você já entra no banho achando que vai ser a solução, você não está ajudando. E ficar aí desse jeito piora.
- Eu estou ajudando sim!
- Ah é? Hum é verdade, hoje você se ajudou muito comendo porcarias e bebendo cervejas. E ontem também se ajudou à beça embaixo daquele cobertor grosso. E anteontem
- Eu voltei pra terapia, não voltei?
- É...
- Só que eu não posso achar que em uma sessão toda a minha desordem mental vai se reorganizar também...
- É...
- Pare de dizer "é", você devia me dar conselhos!
- Arquimedes devia te dar conselhos. Eu torço pra que você se encontre logo. Gostava dos seus olhos brilhando.
- Você se encontrou?
- Sim.
- Fez o que?
- Fui pra Índia. Virei zen-budista.
- Mas você teve que se estressar antes, né? Teve que sofrer pra resolver que não era nada disso...
- Sim, tive que ficar sufocado um pouco.
- Então eu estou no camiho certo, eu acho. E além disso eu não acho que a pessoa tenha que ir pro outro lado do mundo pra se encontrar. Não se trata disso. Não é uma questão territorial..
- Já entendi, você acha que ela precisa ir pro divã.
- Ou pro banho. Ha ha.
- Esse é o seu plano então? Freud? Iung?
- Eu não tenho um.
- Então aceite o meu.
- Você me dá a passagem?
- Eu sou zen-budista. Não posso te dar nem o bilhete do circular. Só vim pra esse café porque você me deu carona. He he he.
- Você vai me dar o quê então, porra?
- Um sabonete?
- Hahahahahahahahahahahhahahah
- Não se trata disso afinal? De um apoio? De um ombro amigo? De um pouco de carinho?
- É... mas e se você me desse carona, então?
- Até onde??
- Até esse lugar onde eu preciso ir pra me esquecer e então me encontrar de novo.
- Mas como você quer se esquecer se eu vou estar lá? Digo... eu vou estar sempre te lembrando de você mesma...
- É que... eu não quero te esquecer junto, entende?
:: Dedicado à Carol Salomão, pelas conversas reais.
" C - O que você acha das quartas-feiras?
J - Acho que elas podem ser um copo meio cheio ou meio vazio."
segunda-feira, abril 07, 2008
Toda essa gente se engana
Uma das músicas que mais gosto do Cazuza é Completamente Blue. Especialmente os versos “Sou feliz em Ipanema, encho a cara no Leblon, tento ver na tua cara linda o lado bom”. Faz tempo que não encho a cara no Leblon e nem em qualquer outro bairro, a tua cara linda sumiu num piscar de olhos e me esforço para não lembrar. E eu nunca sou feliz em Ipanema rodando quarteirões à procura de vagas ou na sala da analista.
Eu gosto mesmo é de Copacabana.
Gosto de tudo em Copacabana. Gosto daquele cantinho perto do bairro Peixoto, do restaurante cheio de velhinhas e velhinhos, alguns mostrando cumplicidade até nas roupas e andando lado a lado com seus moletons combinando. Gosto das quitandas e mercadinhos que sobrevivem aos Zona Sul, gosto da loja de materiais de limpeza com suas vassouras e galões de água sanitária. Eu adoro as portinhas que escondem vilas no meio da Barata Ribeiro, gosto do fato de que a loja de moda da patricinha é ao lado da loja de calçados ortopédicos, principalmente, eu gosto do fato de Copacabana ser cafona e não kitsch (como a maioria dos mudernos diria). Copacabana, ainda bem!, não virou hype.
Eu gosto de saber que a Modern Sound convive ao lado de uma papelaria de bairro, gosto da lojinha que conserta relógios, adoro as lojas de móveis de madeira, o atendimento de vendedores que não fazem idéia do que é marketing, adoro a loja da esquina com seus maiôs e estampas absolutamente improváveis, adoro ainda mais a loja do alfaiate que fica ali ao lado, em que outro bairro você pode comprar um legging de lycra (lycra mesmo, antes da invasão de viscolycra) no mesmo quarteirão onde funciona uma alfaiataria?
Eu curto todos os contrastes de Copacabana, os albergues que deram certo, os bares suspeitos na orla, os hotéis sofisticados, as senhoras que pintam a sobrancelha, os brechós cheios de traça, os antiquários refinados, as estações de metrô, os sebos do shopping velho da Siqueira Campos, as lojas de design do shopping velho da Siqueira Campos, as mercearias azulejadas, o engarrafamento nas avenidas, as ondas e marolas da praia.
E o melhor de tudo é que num desses dias blues em que a música do Cazuza parece ter sido feita sob medida você se depara com um ser vestido de Magali anunciando as promoções da loja de colchões sob um sol inclemente e então você finalmente entende.
O melhor de Copacabana é isso: você consegue se sentir feliz mesmo sendo nonsense.
Eu gosto mesmo é de Copacabana.
Gosto de tudo em Copacabana. Gosto daquele cantinho perto do bairro Peixoto, do restaurante cheio de velhinhas e velhinhos, alguns mostrando cumplicidade até nas roupas e andando lado a lado com seus moletons combinando. Gosto das quitandas e mercadinhos que sobrevivem aos Zona Sul, gosto da loja de materiais de limpeza com suas vassouras e galões de água sanitária. Eu adoro as portinhas que escondem vilas no meio da Barata Ribeiro, gosto do fato de que a loja de moda da patricinha é ao lado da loja de calçados ortopédicos, principalmente, eu gosto do fato de Copacabana ser cafona e não kitsch (como a maioria dos mudernos diria). Copacabana, ainda bem!, não virou hype.
Eu gosto de saber que a Modern Sound convive ao lado de uma papelaria de bairro, gosto da lojinha que conserta relógios, adoro as lojas de móveis de madeira, o atendimento de vendedores que não fazem idéia do que é marketing, adoro a loja da esquina com seus maiôs e estampas absolutamente improváveis, adoro ainda mais a loja do alfaiate que fica ali ao lado, em que outro bairro você pode comprar um legging de lycra (lycra mesmo, antes da invasão de viscolycra) no mesmo quarteirão onde funciona uma alfaiataria?
Eu curto todos os contrastes de Copacabana, os albergues que deram certo, os bares suspeitos na orla, os hotéis sofisticados, as senhoras que pintam a sobrancelha, os brechós cheios de traça, os antiquários refinados, as estações de metrô, os sebos do shopping velho da Siqueira Campos, as lojas de design do shopping velho da Siqueira Campos, as mercearias azulejadas, o engarrafamento nas avenidas, as ondas e marolas da praia.
E o melhor de tudo é que num desses dias blues em que a música do Cazuza parece ter sido feita sob medida você se depara com um ser vestido de Magali anunciando as promoções da loja de colchões sob um sol inclemente e então você finalmente entende.
O melhor de Copacabana é isso: você consegue se sentir feliz mesmo sendo nonsense.
terça-feira, abril 01, 2008
... de tudo outra vez.
Um livro escorregou da prateleira e espatifou a caneca do Van Gogh no chão uma semana antes de algum músculo que liga ombro direito e pescoço pifar, tudo isso na mesma semana em que um amigo telefonou pedindo uma dica de óculos e touca de natação e eu achei isso engraçado demais e contei pra todo mundo, não faz mal, contei pra todo mundo também as alucinações que o Marcelo teve com o Osama e essa foi uma das últimas notícias que eu tive dele, do Marcelo, não do Osama, ou do Osama também, nem sei mais, e comecei a ler blogs e recomecei um livro que estava parado e percebi que em algum momento alguém entendeu que eu achava que a Paris Hilton se veste bem quando na verdade eu me referia à Suri e então me dei conta de que esse era um papo que eu só poderia bater comendo linguicinhas no Braseiro acompanhada da Bebel, que não faz natação, não tem alucinações com o Osama e também acha a Suri uma das celebridades? mais bem vestidas do mundo, ha ha ha, a gente engataria toda sorte de assuntos bobos, não os assuntos bobos do fim de semana em Penedo, aaah Penedo, a gente na piscina tentando convencer uma das amigas a não fazer permanente, a outra a não cortar mullets, de onde as minhas amigas tiram essas idéias?, e à noite eu consegui viciar uma delas em Grey's Anatomy, não foi preciso muito, muito eu precisei foi de relaxante muscular e como é que se fica em pé durante o dia, a língua começa a enrolar, a cabeça pesa, esse remédio é quase um calmante, e toda aquela conversa de O Segredo, comecei a implantar os pensamentos de manhã, quem sabe?, arranjei uma vaga bem rápido, será que o Universo já me escutou? sério, preciso melhorar, amanhã começa um curso novo, depois de amanhã começa uma nova análise, semana que vem começa o que mesmo?, uma vontade de beber litros de água e leite, uma vontade de dormir e dormir e dormir, uma vontade de dormir na rede de Penedo, ficar perto das árvores, pisar na grama, afagar a cadela, perguntar "Clara você me alcança? Será que pode me balançar?" só por preguiça de apoiar os pés no chão, uma vontade de experimentar dormir no barco, e também uma vontade quase insana de te ver, de te achar, de te procurar por aí, principalmente uma vontade mais que insana de te escrever, ou de te falar talvez, de te fazer entender, de te fazer voltar, mas que cabimento tem isso depois de tantos anos?, e então o itunes faz uma reviravolta e Freddie Mercury é substituído por Roberto Carlos e é como um tapa, eu não conseguiria escrever nada decente ou esclarecedor pra você porque foi o Rei quem compôs a música, é sempre assim e a gente pensa que queria ter escrito aquele livro ou composto aquela melodia e tantas melodias você carrega e eu também, quanto tempo, quanta vontade de te pedir pra voltar, quanta vontade de te pedir pra gente dar certo, de te fazer entender que você foi o maior dos meus casos mesmo tendo durado 5 noites, te convencer que você é a saudade que eu gosto de ter... e se eu gravasse uma fita com essa música e mandasse pra ele?, mas se ele achar Roberto Carlos uma cafonice..., como é que faz?, será que é cisma? deve ser, tem que ser, porque se não for eu faço o quê?
segunda-feira, março 03, 2008
De uma bala perdida que me encontre por aí...
A "invasão" de bandas nas esquinas do Leblon e Ipanema ocorrida no fim do mês de fevereiro e idealizada pelos rapazes do Vulgo Qinho e os Cara tinha um objetivo mais que evidente.
Ocupando o que eles genialmente batizaram de “Quadrilátero das Vaidades”, os Cara fizeram música durante meses no Leblon. Sempre no mesmo lugar, à mesma hora do mesmo dia da semana. Houve reclamações. Houve também muita curiosidade. Houve uma quantidade grande de transeuntes que parou pra escutar, gente que parou pra dançar, gente que parou pra perguntar o que era, pessoas passeando com seus cães, crianças atraídas pela banda, bicicletas que diminuíram a velocidade, apressados que diminuíram o passo, flashes de fotos de tantos amigos, da imprensa, de recordações que tantos quiseram guardar.
Cansados de subirem os vidros dos carros, de ligarem o ar-condicionado em lugar de abrir as janelas, de se armarem de muros e cercas e de se fecharem em prédios vigiados, cansados das câmeras invasoras que os pedem pra sorrir a torto e à direito, cansados de evitar conversas no elevador, os Cara iniciaram um movimento pelas ruas, pelos esbarrões, pelo convívio de pessoas, pelas relações que se estabelecem quando os seres humanos se encontram, se tocam, se sabem reais. Pela possibilidade de conversas e de entendimento entre pessoas que se isolaram de medo.
O “Dia da Rua” viu a volta dos músicos ao seu palco principal, aquela esquina do Baixo Leblon. Nas outras todas que iam da Praça Cazuza à Jangadeiros em Ipanema, outros músicos e artistas tambémncantaram, chamaram as pessoas, abraçaram quem passava. Pequenos aglomerados se fizeram no percurso, muita gente sorrindo pro céu, gente que mora nas ruas, gente que mora nos prédios, gente que cedeu o ponto de luz às bandas, gente que avisou aos amigos e gente que não tinha a mais vaga idéia de que um dia um monte de caras munidos de seus instrumentos iria fazer de um pequeno show um ato tão simbólico.
Poucos dias depois nos deparamos com a nota na coluna de Joaquim Ferreira dos Santos em O Globo:
Silêncio!!!!!!! As bandas que ocuparam com baterias e guitarras as esquinas da Ataulfo de Paiva e da Visconde de Pirajá, quinta-feira, e infernizaram a noite dos moradores de Leblon e Ipanema, não voltarão às ruas. “Elas não tinham licença”, diz Mario Filippo Jr., o subprefeito da Zona Sul. “Se insistirem, os instrumentos serão apreendidos”.
“Infernizaram a vida dos moradores”???? “não voltarão às ruas”???? “Eles não tinham licença”????
É claro que eles não tinham licença. Eles não são patrocinados pela Oi.
Eu não sei se é preguiça ou estupidez do jornalista. Ele foi a algum show? Ouviu alguma música? Ele parou em alguma esquina do Leblon ou de Ipanema e sentiu-se infernizado pelo som que saía das mãos e bocas dos músicos?
Será que se ele fosse a um dos muitos (e concorridos) shows promovidos pela Toca do Vinícius NA RUA se sentiria infernizado? Ou daria uma trégua porque é bossa-nova e não um monte de garotos "com baterias e guitarras"? E o dono dessa loja? Quais serão os objetivos dele com essas apresentações? Alguém ainda acha que vai vender discos no Brasil?
O show da Claudia Leitte na praia de Copacabana infernizou a minha vida. O show da Ivete Sangalo na praia de Copacabana em comemoração ao aniversário do sabão Omo infernizou a minha vida também. A árvore de Natal da Lagoa infernizou a minha vida e inferniza todo ano com seus engarrafamentos quilométricos, a sujeira em que as praias amanheceram após o show do Lenny Kravitz infernizou a vida de muita gente que naquele fim de semana queria mergulhar sossegado no mar, o assaltante com arma na minha cabeça infernizou a minha vida, as pessoas dizendo “graças a deus não aconteceu nada”, isso infernizou muito a minha vida.
Aconteceram muitas coisas e eu não acredito em deus.
O que torna os mega-eventos comprados mais legítimos que as intervenções urbanas independentes?
Os patrocinadores e super corporações têm sempre autorização para armar o circo que querem, a árvore de Natal causou o transtorno que quis no dia de sua inauguração, eu paguei o seguro do carro pra poder tê-lo de volta, pago sempre o guardador que nunca tem o talão, pago até o cara na praia que depois vai roubar o meu telefone.
Ler essa nota num dos jornais de maior circulação do país infernizou a minha vida de moradora inteligente da cidade. Se os jornais não apuram o que quer que seja e se vendem cobrir shows e eventos licenciados, se o jornalista desta Coluna e tantos outros acham bacana publicar fotos de celebridades no curral VIP do show dos Stones, o mesmo que emporcalha a cidade depois, se o subprefeito se acha no direito de decidir o que é válido ou não ser apreendido, então vai ver que a estupidez é minha.
Qual é a diferença? O que faz com que pessoas possam relembrar os 50 anos da bossa-nova nas areias de Ipanema sem se importarem se estão infernizando a vida de alguém ou não? Quem é que decide?
Talvez seja exagero nosso o de acreditar que atos musicais politizados ou intervenções artísticas venham a influenciar de todo no andamento das relações sociais da cidade. Talvez seja utópico. Mas não é absurdo pensar que a provocação das nossas inquietudes talvez seja um bom caminho pra gente mudar e consequentemente promover melhorias ao redor.
As bandas tocando nas ruas pra quem quisesse ouvir certamente me provocaram muito mais que a citada nota do jornal.
Não é defesa de “amiga da banda”. É achar indecente a comodidade das pessoas em categorizar o que é bom pra elas.
Ocupando o que eles genialmente batizaram de “Quadrilátero das Vaidades”, os Cara fizeram música durante meses no Leblon. Sempre no mesmo lugar, à mesma hora do mesmo dia da semana. Houve reclamações. Houve também muita curiosidade. Houve uma quantidade grande de transeuntes que parou pra escutar, gente que parou pra dançar, gente que parou pra perguntar o que era, pessoas passeando com seus cães, crianças atraídas pela banda, bicicletas que diminuíram a velocidade, apressados que diminuíram o passo, flashes de fotos de tantos amigos, da imprensa, de recordações que tantos quiseram guardar.
Cansados de subirem os vidros dos carros, de ligarem o ar-condicionado em lugar de abrir as janelas, de se armarem de muros e cercas e de se fecharem em prédios vigiados, cansados das câmeras invasoras que os pedem pra sorrir a torto e à direito, cansados de evitar conversas no elevador, os Cara iniciaram um movimento pelas ruas, pelos esbarrões, pelo convívio de pessoas, pelas relações que se estabelecem quando os seres humanos se encontram, se tocam, se sabem reais. Pela possibilidade de conversas e de entendimento entre pessoas que se isolaram de medo.
O “Dia da Rua” viu a volta dos músicos ao seu palco principal, aquela esquina do Baixo Leblon. Nas outras todas que iam da Praça Cazuza à Jangadeiros em Ipanema, outros músicos e artistas tambémncantaram, chamaram as pessoas, abraçaram quem passava. Pequenos aglomerados se fizeram no percurso, muita gente sorrindo pro céu, gente que mora nas ruas, gente que mora nos prédios, gente que cedeu o ponto de luz às bandas, gente que avisou aos amigos e gente que não tinha a mais vaga idéia de que um dia um monte de caras munidos de seus instrumentos iria fazer de um pequeno show um ato tão simbólico.
Poucos dias depois nos deparamos com a nota na coluna de Joaquim Ferreira dos Santos em O Globo:
Silêncio!!!!!!! As bandas que ocuparam com baterias e guitarras as esquinas da Ataulfo de Paiva e da Visconde de Pirajá, quinta-feira, e infernizaram a noite dos moradores de Leblon e Ipanema, não voltarão às ruas. “Elas não tinham licença”, diz Mario Filippo Jr., o subprefeito da Zona Sul. “Se insistirem, os instrumentos serão apreendidos”.
“Infernizaram a vida dos moradores”???? “não voltarão às ruas”???? “Eles não tinham licença”????
É claro que eles não tinham licença. Eles não são patrocinados pela Oi.
Eu não sei se é preguiça ou estupidez do jornalista. Ele foi a algum show? Ouviu alguma música? Ele parou em alguma esquina do Leblon ou de Ipanema e sentiu-se infernizado pelo som que saía das mãos e bocas dos músicos?
Será que se ele fosse a um dos muitos (e concorridos) shows promovidos pela Toca do Vinícius NA RUA se sentiria infernizado? Ou daria uma trégua porque é bossa-nova e não um monte de garotos "com baterias e guitarras"? E o dono dessa loja? Quais serão os objetivos dele com essas apresentações? Alguém ainda acha que vai vender discos no Brasil?
O show da Claudia Leitte na praia de Copacabana infernizou a minha vida. O show da Ivete Sangalo na praia de Copacabana em comemoração ao aniversário do sabão Omo infernizou a minha vida também. A árvore de Natal da Lagoa infernizou a minha vida e inferniza todo ano com seus engarrafamentos quilométricos, a sujeira em que as praias amanheceram após o show do Lenny Kravitz infernizou a vida de muita gente que naquele fim de semana queria mergulhar sossegado no mar, o assaltante com arma na minha cabeça infernizou a minha vida, as pessoas dizendo “graças a deus não aconteceu nada”, isso infernizou muito a minha vida.
Aconteceram muitas coisas e eu não acredito em deus.
O que torna os mega-eventos comprados mais legítimos que as intervenções urbanas independentes?
Os patrocinadores e super corporações têm sempre autorização para armar o circo que querem, a árvore de Natal causou o transtorno que quis no dia de sua inauguração, eu paguei o seguro do carro pra poder tê-lo de volta, pago sempre o guardador que nunca tem o talão, pago até o cara na praia que depois vai roubar o meu telefone.
Ler essa nota num dos jornais de maior circulação do país infernizou a minha vida de moradora inteligente da cidade. Se os jornais não apuram o que quer que seja e se vendem cobrir shows e eventos licenciados, se o jornalista desta Coluna e tantos outros acham bacana publicar fotos de celebridades no curral VIP do show dos Stones, o mesmo que emporcalha a cidade depois, se o subprefeito se acha no direito de decidir o que é válido ou não ser apreendido, então vai ver que a estupidez é minha.
Qual é a diferença? O que faz com que pessoas possam relembrar os 50 anos da bossa-nova nas areias de Ipanema sem se importarem se estão infernizando a vida de alguém ou não? Quem é que decide?
Talvez seja exagero nosso o de acreditar que atos musicais politizados ou intervenções artísticas venham a influenciar de todo no andamento das relações sociais da cidade. Talvez seja utópico. Mas não é absurdo pensar que a provocação das nossas inquietudes talvez seja um bom caminho pra gente mudar e consequentemente promover melhorias ao redor.
As bandas tocando nas ruas pra quem quisesse ouvir certamente me provocaram muito mais que a citada nota do jornal.
Não é defesa de “amiga da banda”. É achar indecente a comodidade das pessoas em categorizar o que é bom pra elas.
Tratado.
É tarde, amanhã eu trabalho, insetos esquisitos habitam a parede ao lado, eu leio um pouco enquanto procuro resenhas de dança na internet e fico presa numa conversa nonsense, sua especialidade. Rio com uma ou outra frase que pipocam na tela, guardo os sapatos espalhados pelo chão, bebo água, visto a única camisola decente que me restou e tenho a mais absoluta certeza de que, apesar da sua insistência, fofo você não é.
Eu poderia atribuir tantas outras características. Senso de humor, inteligência, um charme indestrutível, certa insegurança. Fofura certamente não faria parte da sua cartela de adjetivos. Fofura não combina com o seu jeito rude e com a sua quase doçura que às vezes sem querer escapa. Fofo você seria se se deixasse ser doce sempre, mas num deslize minúsculo você já recupera sua pose, limpa a garganta, pisca um olho e vem com uma frase de efeito, um beliscão na perna.
Fofura não poderia coexistir com a mordida daquele dia. Ou com a sua mão ávida por debaixo da minha saia. Fofura não teria o seu cheiro. Fofura não teria me levado pr’uma cama no andar de baixo, não teria sua barba malfeita e nem esse sorriso largo e safado que tantas vezes eu vi (ainda bem!). Fofura seria o telefonema do dia seguinte, o carinho no meio da noite, certa hipocrisia até.
Fofura não faz parte das lembranças que eu tenho de você.
E se um dia você quiser me provar o contrário, espero que eu tenha razão porque fofura nenhuma seria melhor que o Carnaval que você me deu.
Eu poderia atribuir tantas outras características. Senso de humor, inteligência, um charme indestrutível, certa insegurança. Fofura certamente não faria parte da sua cartela de adjetivos. Fofura não combina com o seu jeito rude e com a sua quase doçura que às vezes sem querer escapa. Fofo você seria se se deixasse ser doce sempre, mas num deslize minúsculo você já recupera sua pose, limpa a garganta, pisca um olho e vem com uma frase de efeito, um beliscão na perna.
Fofura não poderia coexistir com a mordida daquele dia. Ou com a sua mão ávida por debaixo da minha saia. Fofura não teria o seu cheiro. Fofura não teria me levado pr’uma cama no andar de baixo, não teria sua barba malfeita e nem esse sorriso largo e safado que tantas vezes eu vi (ainda bem!). Fofura seria o telefonema do dia seguinte, o carinho no meio da noite, certa hipocrisia até.
Fofura não faz parte das lembranças que eu tenho de você.
E se um dia você quiser me provar o contrário, espero que eu tenha razão porque fofura nenhuma seria melhor que o Carnaval que você me deu.
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