sexta-feira, abril 03, 2009
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Hoje vi um pedaço da novela das Índias, isso acontece pela terceira ou quarta vez, e todo capítulo é batata: os indianos estão em suas casas na sala, conversando e de repente outros membros da família vão descendo as escadas e todos começam a dançar. A Laura Cardoso fica sentada na sua poltrona dançando com os braços, as crianças dançam sorrindo, as mulheres dançam sorrindo, até o Caio Blat dança sorrindo!, a Juliana Paes começa seus passos e mexe aqueles olhos esbugalhados pra lá e pra cá (e dá muita aflição), e então o Raj (não sei o nome do ator) aparece com aquela roupa de colonizador inglês pós-Nicolas Gesquière para Balenciaga e se esforça muito pra sorrir e encarar tudo com normalidade e entra na dança, literalmente. Então ficam todos assim, dançando loucamente como se não houvesse amanhã, com uma música nas alturas que ninguém sabe muito bem de onde vem.
me pergunto se no próximo jantar em sua residência devemos todos, do nada (porque é sempre do nada, tipo: ei, me passa um brigadeiro? e aí todos começam a dançar) começar a sambar ensandecidamente até o sol raiar.
digo isso por que você já foi à Índia, pode elucidar essa questão?
de qualquer forma, o Xexéo já deve ter comentado sobre o caso em alguma de suas colunas. De qualquer forma, também, baixei sambas diversos, só pra garantir. E por último, de qualquer forma, vai ver nem é tão bizarro assim, vai ver isso é coisa de gente que não consegue entender pra que diabos serve um twitter.
segunda-feira, março 23, 2009
Your skin makes me cry *
Deixe que eu pense que você é do jeito exato que já conheço e que escorre bem para os menores cantos do molde que construí: deixe que eu saiba, como um cego, onde piso e onde pouso minhas mãos: deixe que eu ache que você é de um tamanho previsível, sem alardes: deixe que eu adivinhe o machucado do tombo que vou tomar: deixe que eu decida o que é cilada ou não: deixe que eu pense que armadilha é fazer seu jogo: deixe que eu resolva que é o contrário: deixe que eu possa te catalogar e te resolver em um minuto: e te imaginar com cheiros e deslizes que eu já sei: deixe que eu calcule a hora certa para ceder aos seus apelos: deixe que eu te saiba tão bem que não te precise, mas que eu te queira mesmo assim: deixe que eu te queira: deixe que eu te invente e te conduza pro final que eu escrevi: deixe que eu me dê como inventário pros seus olhos: deixe que eu me exiba como vitrine pros seus braços: deixe que eu te preencha um pouco: deixe de lado essa mania de ser tão como eu imagino que você seja: ande querido, já está na hora: venha logo: deixe que eu me surpreenda.
* So fucking special.
Radiohead em Creep.
terça-feira, março 17, 2009
Antes de dormir:
:: "Sua enorme inteligência compreensiva, aquele seu coração vazio de mim que precisa que eu seja admirável para poder me admirar. Minha grande altivez: prefiro ser achada na rua. Do que neste fictício palácio onde não me acharão porque - porque mando dizer que não estou, 'ela acabou de sair'." Clarice Lispector em Para Não Esquecer
sábado, março 14, 2009
Carta a M.
Eu começaria essa carta com um longo “aaahhh” muito suspirado que te faria entender metade das coisas – a preguiça de mais um sábado, a lentidão depois de quatro caipirinhas, a vontade de ficar na cama me espreguiçando e acordando repetidamente.
Sonhei que falávamos italiano, e com as mãos. Sei que o seu tempo anda inversamente proporcional ao meu, não se preocupe, são coisas breves e fundamentais que tenho que te dizer.
Despencou uma chuva por aqui, depois de muitos dias secos, a cidade ficou com aquele jeito escorregadio e abafado de março, foi impossível não cantarolar “É a chuva chovendo, é conversa ribeira / Das águas de março, é o fim da canseira”.
Ontem falei tanto que acho até que emagreci, ou que fiquei mais bonita. E hoje falei mais ainda, no fim do dia entendi o cachorro com sua língua pra fora, devorei garrafas d’água e pus música instrumental bem alta, mas então o próximo cd no som começou, Elizeth cantava tão lindo “Ah seu eu te pudesse fazer entender...” Às vezes acho que posso fazer qualquer um entender, e a conversa desatada de ontem foi porque encontrei alguém que, ufa!, me passou atestado de normalidade: ela sentia tudo igual. Achei que íamos nos desabotoar em choro. É claro que terminamos a noite num abraço cheio de risadas. Meio nervosas. Tipo aquelas. Você sabe.
A pele das minhas pernas descasca de tão seca, estou providenciando o conserto. Voltei a usar lentes, mas no dia seguinte é batata, fico de ressaca e não posso ver nem quadro de Van Gogh na frente. Acho que meu cabelo está morrendo. E meu braço parece catapora de tanto mosquito que anda me mordendo. A rima foi acidental. É, talvez eu não tenha ficado mais bonita coisa nenhuma. E não me arrisco a dizer que fiquei mais leve, porque posso confundir tudo e na verdade acho que eu fiquei é mais murcha. É que depois de tanta conversa e análise, ainda ficou aquela abstração que a gente guarda, entende? Nada fica apaziguado... Então as risadas nervosas. Entrei no carro e não sabia nem que música escutar. Coloquei Unfinished Sympathy. Não é hipnotizante a voz dela? Fico alucinada.
Fui ver Bruno Cezario de novo, e me encantei de novo, e sonhei com os pés dele de novo e de novo e de novo e sim, é verdade, voltei a dançar. Sinto que meu corpo está me dando trégua e que está disposto a reajustes. É uma conquista, não sei até quando aguenta. Daqui a uns anos vou precisar de mais RPG.
Você acredita que três bailarinas dançaram ao som da voz de Gabriel Garcia Marquez lendo uma parte do primeiro capítulo de Cem Anos de Solidão? “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” Comecei a reler. No fim todo mundo aplaudiu de pé, gritando “Bravo!”, foi o número mais bonito da noite. Se eu fosse um pouco cafona diria que foi mágico. Mas sabe, foi mágico mesmo.
Não me acostumo a ler estreia ou a ter ideia sem acento.
Continuo assassinando borboletas no banho. Não é culpa minha. Elas invadem o box, e são tão pequenas que acabam se afogando com os respingos que sobram pros lados. É uma catástrofe, eu sei. Mas são elas que ocupam o espaço. Outro dia apareceu um vaga-lume por aqui. O cachorro achou estranhíssimo. Ele brilhava tanto que nem sei. Me deu vontade de pique-esconde. Ou piquenique. Ou qualquer outra dessas coisas que eu sempre fazia em Penedo. Concurso de mergulhos. Brincadeira de estátua. "Mamãe posso ir?" Penedo era cheio de vaga-lumes. À noite, antes de dormir, ouço grilos lá fora. Não tenho certeza de que moro mesmo no Rio.
Bruno, o outro, voltou cheio de saudades. Ele está de barba e óculos. Mas isso é só pra você ficar com ciúme.
Assei biscoitos na casa de Maíra. Ela agora tem uma cadeira de balanço na cozinha, o que é perfeito para formar a massa do biscoito e fazer bolinhas. Ouvíamos a MPB FM e acho que foi por isso que os biscoitos ficaram meio estranhos. Ou por causa do forno que teimava em assar mais uma parte do tabuleiro que outra. A Maíra adorou os biscoitos. Mas é só porque ela não sabe que eles podem ser bem melhores.
Ando tentando gostar de muitas coisas esses dias, mas sabe o que me deixa realmente contente? Essas trocas que a gente faz, como aquele domingo de conversas em que nós funcionamos e rimos. Como a praia de hoje com ameaça de chuva e jornal compartilhado. Como a noite de ontem em que fomos sutilmente expulsas de dois restaurantes, como quando as coisas só terminam porque não têm mais pra onde ir. Tudo isso que pode se converter em inspiração, antes mesmo que a gente entenda. Parece que faz sempre sol assim.
A parte da música que mais gosto é essa “É o projeto da casa, é o corpo na cama, é o carro enguiçado, é a lama, é a lama.” Eu nunca sei se coloco ponto final depois ou antes das aspas.
Continuo recebendo mensagens que começam com “Vanessa...” e não sei como dizer que é engano. Continuo sem resposta de um email que enviei pra outra pessoa. Mas acho que a falta de uma já é tudo o que preciso. Mesmo assim dói. Acho que eu inventei tantas coisas pra mim e pra ele que acabei esquecendo de inventar um final. A gente sempre quer que as pessoas sejam diferentes do que de fato são. Algumas. Você pode ficar igual. Eu pretendo mudar algumas coisas. As pernas, por exemplo. E não falo só de hidratação. De caminhos também.
Pre-ci-so trabalhar. Estou considerando qualquer área que não seja: medicina, engenharia, odontologia. E direito. O que mais tem me tentado ultimamente é fugir com o circo.
Meu pescoço começa a falhar. Já são quase 11, estou metida numa daquelas camisetas velhas e desbotadas e gigantes. Não recusei convites para chopes porque desliguei o telefone. A única coisa que eu faria hoje seria me apaixonar. Ou receber massagem.
Me conte alguma coisa.
Sua mãe está linda no jornal!
beijos enormes e muitos,
terça-feira, março 10, 2009
Grand jeté
Eu acho que as pessoas que aplaudem os bailarinos entram em seus carros e até se esquecem de ligar a música, e dirigem com calma. Acho que as pessoas-platéia chegam em suas casas, abrem uma garrafa de vinho e tiram os sapatos enquanto se acomodam na poltrona e choram. Muito, choram muito, porque sabem o esforço que têm que fazer para não se desfazerem depois, porque conseguem entender que durante os minutos em que os bailarinos estão no palco elas só precisam gostar deles e olhar para eles e usar de seu egoísmo para com o resto de tudo o que acontece. Elas aplaudem porque precisam da catarse, desejam o amor. Elas sabem que os aplausos são levezas.
Eu acho que quem fica no meio do caminho, quem assiste e depois arrisca seus passos, quem risca os pés pelo chão e depois aplaude, acho que essas pessoas conseguem ter o maravilhamento que a platéia tem, e ao mesmo tempo conseguem o esvaziamento que os bailarinos fazem. Eu acho que essas pessoas, ao fim do espetáculo, entram no carro e não sabem pra onde ir. Eu acho que essas pessoas, ao fim da aula, enxugam o suor e sabem que estão prontas pra se preencherem de novo, de tantas formas e sensações, e não sabem exatamente quais. Elas chegam em casa, abrem o jornal e choram. Muito, choram muito.
E se tudo acabar, pra onde vão os aplausos?
:: "Dei um salão aos meus pensamentos! (...) Ri! Quem foi que disse que não vivo satisfeito? Eu danço!" Mario de Andrade
(a capa do Segundo Caderno do Globo de hoje, ou ontem - 2a feira 09/03 - me deprimiu).
sexta-feira, março 06, 2009
Das coisas
Alguém munido de uma poltrona e boas mãos oferece cafuné na praia de Ipanema a módicos preços; no fim da aula de gyrotonic (ou o que quer que seja) eu deito a cabeça num travesseiro durinho que faz massagem no pescoço quando acionado; no meio da aula de dança contemporânea o professor coça as costas com movimentos precisos para relaxar os músculos; no final da sessão de massagem a Ana faz gato e sapato das minhas orelhas e traça caminhos no meu rosto que eu nem sabia; além de me dar um beijo na testa e me deixar sozinha, barulho de água na sala escura, cobertor quentinho, abraço de cânfora.
Do calor
Passar protetor solar nas costas, pernas, braços, barriga e cara dá um calor desgraçado, sua pra caramba de modo que o mar é o único destino possível, mas a água está morna de tanto sol; a orla da Barra parece sacanagem, com degradé de turquesas e cheia de ameaças às pessoas que trabalham, e cheia de ternura com quem não tem muito o que fazer, oferecendo um mar que deixa qualquer um carente depois; até o banho não tem sido tão gelado quanto deveria; o cachorro sofre e pendura a língua entre os dentes num arfar constante que me mata de dó, mas não adianta que ele não gosta do ar; alguém ainda usa chinelos, ou todo mundo só usa Havaianas?; um mergulho que não arda os olhos está no topo da minha wishlist.
De nós
Os grampos embaralham um pouco o que sobrou dos cabelos; as coisas na varanda secam umas por cima das outras com cuidado pra não manchar; a única coisa que não se confunde são as revistas que li, porque são todas iguais.
Da pele
Fica no repeat a música, como fica a minha cabeça, pensando e repisando e refazendo cada uma das palavras, não só as da canção, as tuas também. Por fim, penso que faltou uma frase naquela carta. Por fim, penso que outras pessoas precisam conhecer a cantora, talvez funcione pra mais alguém como funciona pra mim.
Te amo, pode ser?
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A tua ausência me causou um caos
No breu de hoje sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal
Maria Gadu in www.myspace.com/mariagadu , dica da Maíra.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Oba, não vou!
Até que esse ano alguma maldição me pegou de jeito e eu fiquei de bode: pouco me importa se Zezé e sua cabeleira são bossa-nova ou transviados, menos ainda me perturba se Aurora é sincera e tenho a mais absoluta certeza de que cachaça não é água nem aqui na China. Passei minha lista de possíveis fantasias adiante, aproveitei os útimos dias de liquidação nos shoppings e pretendo frequentar cinemas muito bem refrigerados com meus vestidos novos. Caso algo me acometa na véspera, levanto bandeira branca, tiro minha roupa de bate-bola do armário e caio no samba, encarando Boitatá e Boi Tolo mas tem que ser grave, muito grave, uma conjunção de astros daquelas que faz até Pierrot, esse mala, esquecer Colombina, verdadeiramente uma chata de galochas.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Madrugada dos mortos
O que acontece que a partir de uma certa idade a gente desaprende como freqüentar uma “night”? Por que de repente a gente começa a se sentir meio “tio”? Por que, meu deus, da noite pro dia o jogo de pac-man passa a ser muito mais emocionante que qualquer set-list dos djs da pista 2 da Casa da Matriz?
É duro. Você chega na porta do lugar e olha para os adolescentes e têm a absoluta certeza de que não é mais um deles: o seu dress-code está ultrapassado, você tem um ataque de riso quando o segurança pede seu documento e fica com medo de ser barrado por excesso de idade. Certamente o público-alvo não é mais... eu.
Lá dentro piora: um dos seus amigos pergunta pro cara do bar “mas que horas as pessoas costumam chegar?!”, o desespero estampado no rosto. Ele é o mesmo que depois perguntará ao dj “mas vem cá, não vai tocar Madonna não?”. Teremos sorte se o Dj tiver nascido na década de 80, se for um filho dos 90 as coisas vão complicar.
Num momento de total emancipação, que só os 26 permitem, abrimos a pista sem medo, arriscamos passos de dança e vibramos a cada música que conhecemos: uma do R.E.M, uma do Joy Division, e, babe: cantamos de cor e salteado, e com muita animação uma música do Gossip. Nos sentimos tão atualizados que começamos a pular. Então nos damos conta que até nosso dance-code é démodé: os adolescentes adaptaram os passos de funk para todo e qualquer ritmo, fazendo sanduíches de si mesmos enquanto se esfregam e cantam com seus drinks na mão. É bizarro. Olhamos pra eles com ares de reprovação.
Começamos a consumir água enquanto as pessoas ainda estão chegando, afinal temos que obedecer a Lei Seca. Respeitamos direitinho a área de fumantes. Lavamos as latinahs e garrafas antes de colocarmos a boca ali. De vez em quando sentamos um pouco, sabe como é, pra descansar as pernas. Então nos agarramos à manivela do Pac-Man como se não houvesse amanhã, e fase atrás de fase devoramos bolinhas amarelas e monstros. No fim, exaustos, cedemos lugar a alguém de 18 anos que nunca nem soube o que era Nintendo.
Por milagre, nenhuma pessoa desconhecida vem nos abordar, isso seria tão patético quanto o fato de que saímos da boate à 1 e meia da madrugada. Vai ver a terceira idade se chama “melhor” idade por causa disso: você finalmente aprende a se divertir, mesmo que o final da noite seja a tela de um jogo de Atari onde se lê GAME OVER.
:: Teenage Kicks, Nouvelle Vague
domingo, fevereiro 01, 2009
When only you could be the one to win out over me*
Fico perdida porque escarafunchamos tanto os itens dos debates e nunca nos preocupamos em concluir, de forma que acumulamos muito mais perguntas que soluções. E também porque me adoro quando estou perto de você, de um jeito tão novo e delicioso que, confesso, às vezes desligo um pouco das suas palavras para aproveitar essa sensação tão boa de gostar de mim tão plenamente.
E fico encantada porque a sua capacidade de argumentação sempre me surpreende, e isso me dá a dimensão exata do quanto ainda posso esperar de você – sensatez, humor, maturidade, em doses e momentos onde geralmente eu só esperaria decepção. E principalmente, me encanta essa sensibilidade, essa doçura, esse jeito de olhar que você consegue, essas descobertas todas que você faz, e que eu faço também, em horas de assuntos e risos que compartilhamos.
E fico absolutamente feliz quando concluo que essa felicidade é possível, e sujeita apenas à nossa vontade de ficar perto, à nossa convivência, tão essencial e redonda que segregamos pessoas em nome dessa sintonia.
Eu fico perdida e encantada com todas as possibilidades que você me dá, com todas as chances que você me oferece de entender e apreciar detalhes que provavelmente passariam despercebidos, fico boba ao constatar o quanto você sabe sobre milhares de coisas que eu sequer desconfio, o quanto você transforma tudo em poesia (sem ter idéia de que o faz), o quanto alguns episódios e sutilezas ganham dimensões tão especiais quando narradas de forma tão envolvente por você, fico envaidecida e ao mesmo tempo abençoada em perceber o quanto você me deixa à vontade para cantar aos berros a mesma música repetidamente enquanto você dirige, inventando a letra, mudando um pouco a melodia, desdenhando da companhia de todo mundo que não vai saber cantar junto.
* Basia Bulat in "Snakes and Ladders"
segunda-feira, janeiro 26, 2009
O dia em que assei biscoitos
Tive de prender o cachorro no dia em que assei biscoitos, porque os técnicos da refrigeração eram alvos em potencial para os dentes do cão, que é pequenino e fofo, mas morde com crueldade canelas e panturrilhas. Uma vez preso no quarto, o cão começa sua sinfonia de latidos e choros que causam: irritação, piedade, loucura.
A tarde toda do dia em que assei biscoitos foi passada, então, encasacada, entrando no quarto às vezes para que o cão entendesse que eu não iria esquece-lo (e fizesse algum minuto de silencioso alívio), e tossindo na sala enquanto os homens se penduravam em escadas.
Dada a partida dos técnicos e a libertação do cachorro, pus-me na cozinha com a mão na massa, querendo, esperando, torcendo pra que alguém ligasse e eu sujasse o telefone com as mãos de farinha só para poder dizer “não posso falar, estou assando biscoitos”. Deve ser romantismo, mania de achar bonito as coisas que não sabemos fazer, de pensar que alguma magia pode surgir do simples fato de: beber café, comer sushi, assar biscoitos.
Pronta a massa, arrumei os tabuleiros, fiz bolinhas sem padronização de tamanhos, lutei contra o forno que não queria se manter aceso e saí correndo afoita quando escutei o trim-trim lá na sala, pronto, era ela, uma amiga “você está perto do shopping?”. Não, estou assando biscoitos, eu disse enquanto limpava a mão livre no avental, e ela não entendeu nada. São para consumo próprio, pensei, mas continuaria sendo um fato totalmente descontextualizado.
Esfarelei vários dos biscoitos no chão ao passa-los do tabuleiro para a lata, num destrambelhamento típico dos ansiosos de primeira viagem. A recompensa do cachorro, que passara o dia trancado e ameaçado de abandono, foi comer do chão os biscoitinhos já mornos. Pela dedicação com que se pôs a lamber o ladrilho, arrisco o palpite de que estou aprovada na minha nova aventura.
Aproveitando o resquício do clima temperado que ainda fazia na sala, onde o ar-refrigerado teve que ficar em teste, esquentei uma xícara de água, despejei um sachet de chá e fiquei: vendo um filme pela décima vez, orgulhosa por ter assado biscoitos, engordando com o cão esquentando os meus pés.
No dia em que assei biscoitos concluí: já posso ser avó.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Garoa
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Meus suicídios (vol. 2)
IV.
Eu me suicido toda vez que corto o cabelo. É um cliché tão absurdo que nem tem graça contar. Primeiro começa uma vontade de mudança, enjôo (enjoo?) dos vestidos, das comidas, da sem gracice de dias arrastados sem nenhum sobressalto e então preciso apostar numa ousadia qualquer, e é sempre o cabelo, e é sempre libertador entrar pela porta do salão e é sempre tão corajoso confiar nas tesouras que remodelam as madeixas. Então conto 18 grampos que seguravam os cabelos no alto da cabeça, vejo os cachos caindo e engulo seco, faço cara de “tá ótimo” e viro de lado pra ver melhor, sem prestar atenção na tesoura que chega perto demais e me corta a nuca, o sangue pinga sobre os cabelos já mortos no chão e pronto, estou suicidada, e cada vez que penteio o que restou dos cabelos depois do banho escorre mais sangue da nuca, e isso dura meses até que tudo cresça novamente e eu precise mudar, da próxima vez, penso, pinto de azul.
V e VI.
Eu me suicido toda vez que escuto aquela música de manhã, ao entrar no carro, ligar o ar e ouvir a voz “Take it back, take it back...”. É um suicídio invejoso, começa com uma vontade de ter feito aquilo e parte para uma frustração tamanha de que nunca vou conseguir expressar tudo o que sinto com essa música (e outras). Então faço anotações no bloquinho do carro, penso em dizer que aquela música tem ares de fim de festa, ares daquele momento em que procuro na bolsa o último cigarro do maço e ele está completamente amassado e meio quebrado, mas não é nada disso, talvez tenha jeito de dia seguinte, de acordar e tropeçar já de cara, de topar com um móvel que sempre esteve ali no caminho, mas é muito maior e pior e então meto a cara no escapamento e fico asfixiada, com gosto de fumaça na boca, muito mais que mil cigarros desconjuntados e apago num desmaio, acordo tanto tempo depois, “I don’t wanna wonder whether you care so don't try to woo me, don’t try to fool me. I know all your tricks.”, a música continua lá me arrastando pra lugares cinzentos e fantásticos, então me rendo, canto do jeito que eu sei e pronto, me mato duplamente, dessa vez de desgosto.
VII.
Eu me suicido toda vez que quero me apaixonar de novo. É um suicídio patético porque eu nunca sei se quero me apaixonar porque a pessoa realmente merece ou se é porque já faz tanto tempo, e fico confusa pensando se é mais trágico gostar e não ser correspondida ou se é pior saber que alguém passou em branco, porque aí não uso de desculpas estúpidas para ficar boba e mole, não relembro obsessivamente o beijo que me causou calafrios e não tenho razão pra perdoar os latidos do cachorro. Então começo a comer chocolates numa velocidade assombrosa, esvazio consecutivas caixas e morro por excesso de açúcar no sangue, sozinha desse jeito não tenho por onde escoar tanta doçura.
terça-feira, janeiro 13, 2009
Considerações sobre miopia
É, é baixo, mas o suficiente pra não enxergar quase nada, o mundo todo fica como um quadro impressionista visto de perto. E quando vou à praia os óculos escorregam pelo nariz que sua. E tenho de mergulhar com eles na cara mesmo, senão não sei se as ondas estão perto ou longe, e onde encontrar as pessoas na volta pro guarda-sol.
E esse é só o menor dos problemas e dilemas estéticos.
Óculos não combinam com brinco grande, e nem dá pra usar arco. Óculos são ruim pra dirigir porque se saio com os de sol, entro no túnel e fica uma escuridão, e se troco os pares nesse momento fico confusa. E não consigo mais fazer sobrancelha, preciso estar com os óculos na cara pra enxergar os fios, o que impede o acesso a eles. E se tiro os óculos me grudo no espelho, minha respiração embaça e dá no mesmo. E também não pinto mais os cabelos, porque preciso abaixar a cabeça pra enxergar o máximo de raiz possível, portanto olho por cima da armação e não vejo mais.
E me sinto completamente vulnerável e insegura, como se a qualquer momento os óculos pudessem cair ou ser levados e então ai de mim, sento na calçada e esperneio até que alguém venha em meu socorro.
Com a proximidade do carnaval o pânico só aumenta. Vou ter que me fantasiar de nerd.
domingo, janeiro 04, 2009
Praça Pio XI
"- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.
- A coisa ou a pessoa?
- As duas. "
Caio Fernando Abreu.
obs. este blog não segue o Acordo Ortográfico (por tempo indeterminado).
sábado, dezembro 20, 2008
Keep me in mind
Ela acha lindo, e diz que isso daria um texto, e elogia minha capacidade narrativa e repete as mesmas frases da última sessão, quando ela também achou que outro monólogo qualquer dava pra virar post de blog, e desde que eu resolvi dizer a ela que gosto de escrever ela pergunta “você já escreveu sobre isso?” “você tem um texto sobre isso?” e por aí vai. Nessas horas eu fico na dúvida se ela é psicóloga ou editora, então descruzo as pernas, miro na caneca com a cara do Van Gogh e começo outra ladainha sobre as mesmas coisas, sempre sempre sempre os mesmos nomes, os mesmos gestos, os mesmos ódios, desde quando eu aprendi a repetir o refrão assim?
Me dou conta de que ela também repete, indagações que se empilham iguais umas sobre as outras, eu rebato religiosamente com as mesmas respostas e agora já não sei mais se sou ou ela, o ovo ou a galinha, só sei que a última sessão foi igual à penúltima, que foi igual à antepenúltima e etc, parece que estamos decorando uma fala ou roteiro que não, eu não escrevi.
Preencho o horário explicando, pela terceira ou quarta vez, porque gosto tanto da Madonna (porque ela não se repete, digo em algum momento, com cara de Flora), quase começo a cantar e dançar, aí sim haveria uma grande emoção. Mas é muito arriscado, dou um sorriso, feliz natal pra você também, ano que vem a gente se vê, será?
Acabo voltando, essa falta de coragem e de ação que tanto discutimos, e escarafunchamos todos os medos, sempre ali enfileirados para serem diagnosticados e catalogados, então nos referimos a eles por nomes quase científicos, ela mexe na luminária pra ter certeza de que eu estou chorando (ou quase), eu limpo os óculos e digo "pois é", penso em "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças" e lá vamos nós, sabe? pois é, eu mesma não sei mais.
Já não garanto nada. Não garanto que eu volte, não garanto que haja sol em janeiro, não afirmo que vou seguir em frente e esquecer, não afirmo que dessa vez aprendi a dizer não e me desligar das pessoas, ela sabe que demorei muito mais tempo pra sair da fisioterapia do que eu deveria, talvez ela saiba que penso em larga-la, talvez ela tenha percebido quando respondi mais rispidamente, ou quando mudei de assunto pra não falar de suicídios ou de vontades de: andar de bicicleta, comer pudim, suar, consertar os olhos, conhecer o Peru.
Me repito tanto, e ela também, dá uma confusão de saber se é porque preciso continuar, ou se já passou do horário de botar a mochila nas costas e ir por aí, deixar de teorizar as coisas.
Vou dizer a ela que escrevi sobre isso, que deu um texto de adeus, que peguei a sapatilha já meio gasta e entrei na sala de aula, fiz um coque caprichado e resolvi os meus problemas na aula de ballet, sentindo que os músculos das pernas ainda funcionam, que a coluna aguenta e que os braços continuam leves, as mãos graciosas.
Feliz ano novo.
:: "It's only a trick if you make it a trick and you're wondering how to get yourself out of this one" Jamie Lidell in Green Light
quarta-feira, dezembro 10, 2008
Bipolar
Enfim. Existem coisas que me consomem de tal forma que não posso deixar passar, e a luz da esperança se acende quando penso que possíveis resoluções podem vir de eventuais comentários. Eu sou do tipo que acredita em letras de música, por que não em leitores virtuais?
Esse é mais um caso que me aflige, daqueles em que a ambigüidade dos fatos gera sentimentos inconciliáveis, de maneira que preciso de ajuda (psiquiátrica, talvez): como faz pra conciliar a morte do Gonçalo na novela com show da Madonna no dia seguinte?!
quinta-feira, dezembro 04, 2008
The "Vizinho Issue" - parte III
Aqui na rua é assim: o seu carro que estava estacionado na calçada oposta ao prédio some à tarde depois que o reboque passa e nenhum dos porteiros avisa, afinal por que tocar em assuntos desagradáveis como esse, não é mesmo?
Então a pessoa sai do prédio, chave do carro na mão e nada, uma vaga vazia, uma interrogação na cabeça e muita confusão, até que começa a se perguntar:
1) Será que estacionei na garagem?
2) Será que eu estava bêbada ontem quando cheguei?
3) Será que eu continuo bêbada?
4) Será que roubaram?
5) Será que o carro perdeu o freio e desceu ladeira abaixo?
Então, cinco minutos depois, quando você pergunta pro porteiro se ele viu o seu carro por aí, ele responde, baianamente:
Ele tava aí de manhã, eu acho que o reboque deve ter levado ele porque agora não tá mais...
Ele pensa que eu sou trouxa, mas de uma coisa tenho certeza: a culpa é do vizinho.
sexta-feira, novembro 28, 2008
Fale agora ou cale-se para sempre
Eu teria que dividir com ele as gavetas do banheiro, e fingir sempre achar normal que os meus cremes ficassem ao lado de uma loção de barba. Eu teria que adotar o hábito de deixar espaço no sofá pra ele, deixar algum tomate na salada pra ele e de repente eu teria que entender que os meus livros conviveriam pacificamente numa prateleira ao lado dos livros dele, assim como os meus discos se alternariam nas caixas de som com as músicas que ele guarda e então eu teria que achar normal que música clássica tocasse no mesmo dia em que um ícone do rock fizesse solos de guitarra. Não é pelo gosto, é uma questão de humor, eu teria que faze-lo entender que em domingos chuvosos só tolero o Bolero de Ravel na vitrola, que a poltrona do quarto é na verdade um cabideiro, que meu cabelo nunca funciona de manhã, que não suporto telefone que toca, que sou da corrente que crê piamente que só camas individuais para os seres salvam, que as pilhas de revistas que nunca vou ler de novo um dia servirão para pesquisa e que preciso, sim, de post-its espalhados pelos cantos e que nunca tenho sapatos suficientes no armário, assim como nunca há a quantidade exata de chocolates na dispensa.
É que essas manias são muito minhas pra de repente serem dele também, e as minhas coisas já estão todas certinhas nos seus lugares, e eu sou muito eu pra de repente virar uma mistura nossa. Deve ser essa insistência que eu tenho de tentar prever e de encontrar defeitos antes. Ou deve ser egoísmo mesmo, deve ser porque eu sou realmente egocêntrica, não importa. O que importa é que eu não arrumaria meus discos em ordem alfabética como ele quer que eu faça, e que eu não disfarçaria o mau-humor quando ele insistisse em achar que eu gosto de acordar. E que eu não conseguiria ter por ele o mesmo amor que tenho pelos meus dias sozinhos e calmos, não conseguiria ter por ele o mesmo amor que tenho pelo meu edredom de solteiro, ou pela mesa do escritório cheia de crayons de cera, ou pelo meu pijama de moletom furado e manchado. Ou por você. O problema é que com ele eu não consigo me acostumar a ficar boba, pelada, gripada, mole. O problema é que com ele eu não consigo me acostumar a ficar sem você. E com você eu invento tudo o que ele só quer inventar comigo, filho, tesão, máquina de lavar, mesa para dois. Com você eu sei que daria certo, que não precisaria de manual nenhum, que eu saberia soletrar o sobrenome e que poderia misturar literatura, acordes, cheiros, verbos, pernas. O problema todo é que com você, eu sei: não haveria separação total de bens.
:: este texto está na Revista EmBranco, do meu amigo Thiago.
quarta-feira, novembro 19, 2008
902
Na Fonte da Saudade, joga-se uma partida de pega-varetas antes que se comece um dia de trabalho (sem fins lucrativos). Não são tão bons quanto os da infância porque são feitos de plástico, os de madeira ficaram para trás. Não se sabe quantos pontos vale cada cor, portanto vence quem pega mais varetas, e baixa-se o rigor nas estratégias, afinal o que importa é divertir-se, e não competir.
Ali bebe-se água natural da fonte que cai direto na garagem do edifício, e muitas vezes as garrafas ficam com gosto de cachoeira. E quando o trabalho não anda, come-se chocolate, joga-se paciência, fazem-se pesquisas sem objetivo em sites, revistas e livros, ou fotografam-se bonecos de toy art.
Na cozinha encontra-se um pandeiro, um livro de poesias de Bukowsky ao lado dos livros de receitas, e panelas de cor vermelha, além de xícaras com jeito retrô para tomar café. Come-se comida de qualidade, consome-se vodca e tingi-se tecido também, desde que o ato espalhe água verde (ou rosa) pelo chão, fazendo bagunça e alegria de todos.
Na Fonte da Saudade dá medo quando chove ou há trovoadas, os ventos são uivantes e vê-se as ondas que a Lagoa começa a formar durante tempestade. Tenta-se distrair com uma caixa cheia de lápis de cera, e faz-se desenhos artísticos enquanto o email não envia as fotos. Na Fonte da Saudade o email nunca envia as fotos.
Em cima da mesa faz-se um monte de versos nonsense com ímãs de palavras, ouve-se música na maioria das vezes estranha e canta-se em coro canções de amor com letras de rimas. Ri-se de piadas sem graça ( e gargalha-se três semanas de piadas realmente boas), especula-se que tipo de coisas entupidas uma roto-rooter poderia desentupir (as que entopem, oras!) e planeja-se uma vida em Paris.
No banheiro verde traça-se um roteiro que inclua uma cena para a qual a melhor locação fosse o banheiro verde, seca-se o cabelo com cuidado e vestem-se os vestidos mais fantásticos acompanhados de arcos e laços na cabeça.
No escritório, on parle le français inventado, alguém ama pessoas inventadas e tudo o mais é imaginado também, as vozes idiotas que falam por lá, as peças de teatro que serão escritas em dez dias e as caras de choro quando o telefone não pára de tocar.
Na Fonte da Saudade há grades de proteção nas janelas. Circulam muitas crianças por ali.
segunda-feira, novembro 10, 2008
O fim das vozes no meu rádio
- Às vezes eu fico enjoada de todas as músicas que eu tenho e então faço isso, fico escutando tudo o que aparece. E de repente alguma coisa faz UAU!
- E quando nada faz?
- Mas faz, acaba fazendo. Algumas músicas batem de primeira, é claro. Mas sem querer eu acabo dando uma segunda chance. Tiro um cochilo, escuto de novo num outro dia, num outro clima. Acho que tem a ver com o humor, dias chuvosos, por exemplo. Algumas músicas parecem ter sido feitas pra esses dias, devem ter sido criadas sob dilúvio.
- De fato. Eu tenho preferido as solares, as que dão vontade de aprender a tocar bateria.
- Eu ando com vontade de tocar baixo. Isso quando eu não tenho vontade de ouvir umas coisas do além. Acontece isso também, uma música que fica martelando na minha cabeça de manhã, geralmente nostálgica, quase sempre duvidosa. E é como se só a execução contínua da tal música pudesse salvar o dia. E é mais que uma vontade, é um precisar muito definitivo.
- É quase drástico, credo!
- É, é drástico...
- Exemplo?
- Ah, não, isso eu não digo.
- Por que não? Qual é o dilema?
- O dilema é que você vai me julgar.
- Você me julgaria se soubesse dos lapsos que eu tenho na vida, e alguns são bastante graves.
- Como?
- Como só ter começado a escutar David Bowie esse ano. Pior: descobrir que eu sempre adorei uma música sem saber que era dele.
- Como você só começou a escutar David Bowie esse ano?!
- Olha aí, julgamento.
- Está certo. Você merece saber: hoje acordei com muita necessidade de ouvir uma música do Kid Abelha.
- Kid Abelha! Na época dos Abóboras Selvagens ou depois? Ou quando eles tentaram se chamar só “Kid”?
- Da fase Kid Abelha mesmo, de quando cantávamos Fazer Amor de Madrugada nas festinhas. De quando jogávamos as mãos para o céu e tal. Quando a gente vivia em show do Kid Abelha no Metropolitan, lembra? Quando o Metropolitan ainda era Metropolitan.
- Claro! Quando o Prince ainda era Prince, o Jota Quest ainda era J. Quest... Por que a gente gostou tanto assim do Kid Abelha, hein?
- Vai saber. Acho que porque a gente achava tudo possível naquele tempo. Se a Paula Toller fazia sucesso com aquela voz...
- Mas por que você queria tanto ouvir Kid Abelha? Qual música? Não vá me dizer que era Grand Hotel...
- Não! Pior...
- Pior do que ter passado a vida toda gostando de O Astronauta de Mármore e deixado um cd do Nenhum de Nós na prateleira só por causa dessa música e só depois de a-nos descobrir que é uma versão do Bowie?! Você tem idéia do que eu passei pra justificar a presença daquele cd ali no meio dos outros?! E ninguém nunca me disse que era uma versão!
- Eu tive um sonho, vou te contar.
- Que sonho?!
- Não, eu tive um sonho, vou te contar, eu me atirava do oitavo andar, a música do Kid Abelha!
- Aaahhh!
- Pois é... Pelo menos eu sabia que música era, pior é quando eu acordo precisando de uma música e não sei qual. Parece que falta inventarem alguma coisa nova.
- Isso acontece sempre nos dias nublados.
- Dias nublados são bons para ouvir Hootie and The Blowfish.
- Você tem escutado alguma coisa desse século?!
-Você tem escutado Ziggy Stardust pela primeira vez na vida. Acho que você não está em condições de questionar meu momento musicalmente adolescente.
- Ok, ok, eu me rendo. E confesso que de vez em quando o Lulu Santos ainda canta por aqui.
- É melhor não resistir e se entregar... A gente tinha o que? 17, 18 anos?
- Por aí. A gente gravava fitas com as melhores músicas.
- A gente escrevia partes das letras na capa dos cadernos. O que será que as pessoas escutam hoje em dia? Às vezes eu coloco na estação de rádio pra ter uma idéia do que as pessoas ouvem. Mas me parece que até hoje todo mundo escuta O Último Romântico ou Como Uma Onda. Mas eu só escuto rádio de mãe, então não sei...
- E Carly Simon. Toda vez que toca Carly Simon no rádio eu sou tomada por um espírito revolucionário, como é que as pessoas se conformam em ligar o rádio e ouvirem essa mulher cantando? Eu fico possessa, xingo o locutor, xingo as pessoas que ainda toleram esse tipo de coisa.
- Vai ver os caras das rádios seguem essa mesma política de acordar impregnados de uma música. Mas o que a Carly Simon te fez?!
- Não é ela, é essa coisa, sabe? Uma seqüência de músicas toscas de 20 anos atrás com tanto artista por aí, então a gente tem que fazer investigações pra descobrir bandas legais e pessoas atuais. Teve uma época que eu me dei conta de que só ouvia gente morta, um horror! Minha coleção de cds só não estagnou porque volta e meia saía uma coletânea póstuma de alguém.
-Cruzes! Se a gente tivesse continuado a escutar o Kid Abelha e o Lulu Santos não teria problema, eles vivem com discos novos.
- Eles morreram também, só não querem admitir ainda.
- Pode ser... Outro dia saí pra dançar com uns amigos e não conhecia nenhuma música. Nem umazinha. Me senti uma tiazona, sabe? Por fora.
- Sei. Acho que é assim mesmo, acho que é assim que se começa a envelhecer, talvez eu esteja sendo dramática, mas acho que é por causa dessas coisas que a gente acaba voltando aos clássicos.
- Ou ao contrário? Por causa dessas coisas que eu fico dias nas lojas ouvindo discos.
- É, só que pra mim isso só piora, é o mesmo que acontece quando entro numa sorveteria, são tantas opções que acabo sempre indo para os clássicos. Acabo me dando conta de que tem tanta coisa nova no mundo e ao mesmo tempo caio na real desses lapsos, penso no Bowie, no Velvet e resolvo preencher as lacunas.
- Faz algum sentido. O problema é que eles já estão prontos pra gente gostar, né? É menos arriscado e aí acontece aquilo, uma discoteca de shows que a gente nunca vai ver.
- Eu sei. Mas imagina se numa dessa tarde de aventuras eu fico escutando as músicas da Katy Perry enquanto eu poderia ouvir todo o Supertramp?
- Ou Hootie and The Blowfish, se tiver nuvem no céu...
:: She's uncertain if she likes him
But she knows she really loves him
David Bowie in Drive-in Saturday