domingo, setembro 11, 2011

Riocentro




"For Julia, you are a lovely person, and you have made our visit to Rio so pleasurable and so memorable, I cannot thank you enough, Anne Rice, september 2011."


Uma Bienal do livro rende tantas histórias que daqui até a próxima eu poderia fazer um blog só desse assunto. Mas tem aquele problema de que a maioria das coisas só tem graça na hora. A maioria das coisas, de fato, só tem a graça que a gente dá. Entre perguntas como “oi, posso ler um poema pra você?” e “moça, você tem algum livro sobre paraquedistas?”(de uma menina de 8 anos), ainda deu tempo pra um chope com Adriana Lunardi, um jantar com Antônio Xerxenesky, um abraço em Thalita Rebouças e um tour por igrejas e pelo Corcovado com Anne Rice. Isso só pra citar os autores da casa. Eu que tinha medo de conhecer as pessoas dos livros, estou achando que estou no lugar certo. E se não estiver, parece que tenho um futuro promissor como figurante.  

quinta-feira, setembro 01, 2011

Burn down the disco, hang the dj*

A minha mais nova obsessão atende pelo enrugado nome de hidroginástica. Mais precisamente, a trilha sonora e a influência da mesma sobre os alunos que às 7 horas da manhã estão fritando na piscina enquanto eu tento não sufocar na raia ao lado, alternando crawl, costas e peito (e lutando contra as infiltrações dos óculos).

Minha cisma começou numa manhã em que “Colombina”, do Ed Motta, tocou à exaustão, num repeat aquático que nem um ser dotado de barba e tridente seria capaz de contornar. Fosse aluna eu já teria organizado uma reivindicação e exigido um DJ. Por esses motivos difíceis de determinar se feliz ou infelizmente, eu sou só uma aluna da natação que escuta apenas relances das músicas, e que nem para mais tanto pra descansar nas bordas da piscina pela mesma razão. Eu que já tenho implicâncias com pierrots, peguei um eca da música do Ed Motta que estendi minha raiva a essas moças cheias de pompons, e duvido que tudo passe até a próxima quarta-feira de cinzas.

Na semana seguinte, preparada para versos como “gata de rua faz ron ron / ao luar” (porque depois de “Colombina” só podia vir mais Ed Motta), dei de ouvidos com uma música clássica remixada. Já é triste o suficiente ter de dançar “I Will survive” remixado em casamentos. Inundar os ouvidos de água clorada e Mozart batidão é algo que só um tarja preta pode resolver no fim do dia. O curioso é que os alunos da hidroginástica pareciam não se abalar. A cabeça sempre pra fora d’água está diretamente relacionada ao fato de eles serem mais felizes que eu na piscina, mas achei que a música pudesse nivelar o nosso sofrimento. Que nada.

Lá estavam eles, na quinta-feira da outra semana, com as mesmas expressões condescendentes enquanto Michael Jackson arrebentava com “Don’t stop til you get enough”. Eu não entendi. Ou melhor: comecei a desconfiar que todos eram surdos, e pela média de idade, devem mesmo ser. Contei pra Rita, não sem espanto na voz, que os velhinhos da hidroginástica pouco se importavam com o Michael. O diagnóstico dela foi mais certeiro: insensíveis.

Achei que Pitty remixado (why, god, why?) com “Uh tererê” seria mais que pretexto pra uma revolução submersa. Eu teria, no mínimo, programado incontinência urinária com meus coleguinhas caso me visse afrontada por tal afronto. Mas lá estavam eles. Tão felizes ou indiferentes ou surdos ou insensíveis quanto antes. A essa altura eu comecei a nadar 1500 metros por aula, tão desesperada estava de não escutar mais nada que viesse daquele canto da piscina. Era um bate volta sem fim, eu comecei a engolir água pacas e pensei, quem sabe, em migrar pra natação dos bebês onde ninguém nunca morreria afogado e onde a música era condizente com a turminha. “A baleia / a baleia / é amiga da sereia / olha o que ela faz / olha o que ela faz / tchi bum chuá, tchi bum chuá”. Decidi que se os professores cantassem a música da “Loja do Mestre André” ou a “Galinha Pintadinha”, era o destino me chamando.

Depois de uma quinta-feira bipolar 80s, em que uma sequência que começou com “Louras Geladas”, do RPM, culminou com Legião Urbana em “Vento no Litoral”, achei que a piada estava indo longe demais. “Eu deixo a onda me acertar” não é recomendável pra nenhuma atividade dentro da piscina, especialmente quando ela envolve gente da terceira idade. Fiquei tão desnorteada que, sem querer, dei braçadas em toda a galera que dividia a raia comigo, saí da piscina sem conferir se estava tudo dentro do previsto na aula de bebês e prometi só voltar àquele caixote de ladrilhos em caso de surdez aguda. Aí, quem sabe, em vez de me unir aos bebês, vou pra turma feliz em que as cabeças nunca afundam na água. 



*Panic, The Smiths. 

domingo, agosto 28, 2011

You go to my head


Pedro Lago me propôs mais um desafio, e eu topei de novo: Algo sobre a crise de uma cineasta que ama um poeta e um trompetista ao mesmo tempo. (E eu li que era um, em vez de umA cineasta... e quanto ao poeta e ao trompetista ao mesmo tempo, bem, mais uma pequena subversão de minha parte.)
Voilà. 

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Um poema por dia. Como num programa de reabilitação. 240 páginas de sonetos, 3360 linhas de palavras escolhidas com esmero, candura, dicionário. Nunca um final. Poemas entreabertos, pontos que poderiam ser reticências.

Eu não pensava ser possível filmar literatura. As ruas já têm assunto demais. Nos becos, nos muros, nos prédios, os meus roteiros tantas vezes escritos com pedras portuguesas, britadeiras, spray ou areia da praia pro final feliz. Sempre gostei do final feliz. Eu era triste demais pra matar alguém, pra fazer alguém sofrer por amor, ainda que fosse ficção. Ainda que fosse prêmio pro ator principal, ainda que fossem as resenhas elogiando a pungência da câmera, ainda que fosse um plano-sequência arrebatador. Meu cinema era de risos. Meus filmes eram de prosas.

E então aquele cara gordo, sempre apressado, descendo do elevador no andar abaixo do meu. Aquele cara cujo nome agora estampava a capa da antologia que habitava sempre qualquer lugar que fosse à minha frente.  Um nome gordo também, quase parnasiano. Triste como o meu rosto. Com algumas rugas tomando os cantos dos olhos. Era difícil acreditar que aquele cara era o dono daquele nome e autor daqueles versos. E ainda.

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Sobre como o livro veio parar nas minhas mãos era bem simples. Inspecionando a prateleira de uma livraria, o nome. Gordo e parnasiano, o mesmo da etiqueta da caixa de correio na portaria do prédio. E pronto. No sofá de casa, na primeira página: música.

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Um trompete ardia toda vez que eu abria o livro. A música parecia vir justamente do apartamento do poeta gordo, em sopros que pareciam ser encaminhados diretamente à minha janela. O repertório era de grandes canções americanas, daquelas que todos os cantores pop já gravaram, daquelas que hoje em dia a gente escuta no elevador de grandes prédios comerciais, daquelas que nunca deixam de ser tão bonitas quando sopradas e sopradas e sopradas. Sem letra ou palavra, sem sussurros, sem bateria, baixo ou piano. Porra, cara, daquelas que Chet Baker tocava só pra gente pensar que podia furar o peito sem sangrar, sem morrer. Daquelas que eram melhores que gozo. Os poemas do poeta gordo eram melhores que gozo.

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Comecei a ficar obcecado com aquele livro e com todos os outros que consegui comprar do mesmo autor. Era um jorro. Os prazos se encurtando, os produtores telefonando, o roteiro que eu não escrevia. Aos poucos entendi que era a minha primeira grande crise criativa. Estava impotente, invadido por estrofes. Não queria mais escrever filmes, queria ler e ler e ler. E soprar minhas ideias no ouvido de alguém que pudesse fazer delas deslumbramentos do tamanho dos poemas do trompetista do andar de baixo.

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Espairecer, andar, ver os rostos nas ruas, inventar que aquela gente que passeia pelas feiras de antiguidade volta pra casa cheia de quinquilharia e felicidade. E então, ali, de novo. O nome gordo e parnasiano na capa de um disco de vinil. Eu nem sequer tinha vitrola. E lá fui, metrô adentro, aquela poeira na sacola. Era óbvio que se escutasse o disco ia ouvir poesia declamada. Era óbvio demais, mesmo. Um livro que toca música, um disco que toca o corpo. Eu estava me apaixonando pelo poeta gordo sem nem mesmo ter trocado com ele um bom dia burocrático no elevador. Eu precisava inventar um filme, não uma paixão gay pelo meu vizinho.

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Expliquei a algumas pessoas que precisava de férias, e tão logo me livre de telefonemas e cobranças, comecei, sozinho, o meu filme. Um poema por dia. Filmar as linhas. As letras tipográficas impressas, as minhas escassas anotações nas margens das páginas, minhas risíveis tentativas de transformar eu-lírico em personagem: nenhum nome poderia. 240 páginas de sonetos. E a minha câmera apontada pra cada conjunto. Parada, contemplativa, ligada o tempo suficiente que cada poema precisava pra ser lido. 3360 linhas, quase rimas. E aquela música subindo. E eu pensando como dar final feliz àquelas páginas quase estáticas, fotografias. Eu não estava mais fazendo cinema. Tinha dias, parecia, que eu fazia um filho.

Dormia e acordava com livro, disco e toda a confusão de melodias, acordes e arranjos que rasgavam páginas. Eu rasgava páginas. Diante do elevador, rasgava páginas e os meus dentes. No andar de baixo, diante da porta, rasgava mentalmente tudo o que me separava do poeta gordo, do tapete da minha sala ao concreto e às vigas do prédio. Se tudo desabasse, se eu conseguisse explicar.

O cara não me convidou pra entrar. 240 dias depois e o cara não me ofereceu nem um copo d’água. Justificou-se com pressa, pegou as caixas que entreguei com pressa, fechou a porta com pressa. Foi com pressa também que interfonou-me, depois de mais exatos 240 dias em que assistiu, um a um, seus poemas filmados. Olhei minhas malas no corredor, enfileiradas, quatro meses de tudo o que eu precisaria enquanto estivesse numa cidade do interior de São Paulo, filmando o meu primeiro longa-metragem cujo final era trágico. A história era quase banal, um caso típico de intoxicação. Um sujeito se apaixona por outro durante um verão de mil dezembros. A intervenção do poeta gordo, porém, parecia dar outro rumo a toda aquela bagagem.

Uma vez na portaria, diante daquele cara volumoso, seus cadernos e seu trompete armazenado numa caixa de couro, pensei se podia realmente amar aquele homem, se podia deixar de ser triste com aquele homem e suas 240 páginas de sonetos e seus standards e versões sopradas de Cole Porter. Eu podia, pensei. Eu podia.

terça-feira, agosto 23, 2011


Se todas as esquinas fossem habitadas por encontros, se todas as ressacas fossem como as do mar.

terça-feira, agosto 09, 2011

O dia em que Clarice chegou

Aquele pôster ficou enrolado dentro do tubo de papelão muito mais tempo do que devia, com outras duas impressões iguais de um mesmo show que eu teria ido duas vezes, e que teria servido a dois encontros, mas esse era o tipo de coisa que não acontecia por aqui. Ocorria faltar paredes, coração e, eventualmente, gente.

O dia em que Clarice chegou foi o mesmo em que o cachorro morreu pela primeira vez, e a partir desse dia toda a dúvida poderia recair sobre ela. Houve quem tentasse me convencer de que não convinha ter Clarice emoldurada na parede do quarto, que era carga demais, e não só literária. Houve quem tentasse me animar com o fato de que ela poderia me inspirar a investir na minha carreira de escritora. Houve quem achasse que eu era escritora.

Houve, também, quem sentasse ao meu lado na cama e ficasse pasmado admirando Clarice. Parecia haver certo repouso ali, uma calma de ver que há muito só praticava quem tinha intimidade com o mar. Era uma calma parecida com aquela que se têm na arrebentação, aquele momento em que ficamos à deriva com as pernas pendendo para os lados da prancha, pouco antes da manobra que nos coloca no centro de onde se deve estar para deslizar, tal qual uma canção meio cafona dos anos 90, o sol abraça o meu corpo, meu coração etc. A calma de quem brinca com as mãos na água salgada, vendo os dedos enrugados e a praia do melhor ângulo, de quem tem o nascer do sol como religião. A calma que se escuta de algumas vozes. Um altar.

Ter Clarice ali aliviou a perda diária do cachorro, que insistia em morrer ao menos uma vez num intervalo de 24 horas. Chegar em casa passou a ser um suplício cotidiano. No caminho eu tentava decidir o que fazer se o cachorro morresse de fato. Ele começava a perder os dentes, o que resultava conclusões bem mais simples. Eu fazia todo o barulho possível ao entrar: de chaves, dos pés, da bolsa, da prancha. Eu voltei a surfar no dia seguinte ao que Clarice chegou, porque eu precisava de um conforto improvável pra quando o cachorro realmente morresse, um desses confortos que te roubam os pensamentos por alguns minutos, algumas horas.

Eu o chacoalhava entre as almofadas, lágrimas a postos. Clarice parecia indiferente na parede, nem era possível atribuir-lhe a função de velar o sono do cãozinho. Ela escreveria toda uma obra caso se deparasse com mais um bicho morto, eu não saberia nem mesmo inventar uma oração. Eu comecei a inverter a lógica das coisas, e me empenhava em sentir a maior quantidade de felicidade possível toda vez que o cachorro não estava morto. Comecei a entender também que eu não precisava pegar todas as ondas que invariavelmente eu perdia por falta de fôlego, que a mim bastava aquele tempo silencioso de boiar sobre a prancha, olhando a areia, tentando assoviar.

Um mês depois do dia em que Clarice chegou eu decidi abrir a garrafa de Seacher’s Gin que veio junto com ela, porque eu estava exausta de todos os dias de sol e de checar de hora em hora os sinais vitais do cão. Adormeci diante de Clarice, depois de contemplação, três garrafinhas de água tônica e meio limão siciliano, e aquela placidez que eu sentia ao sentar na areia, depois de passar uma hora dentro do mar. Acordei no dia seguinte, o cachorro ao pé da cama me chamando pra brincar.

domingo, julho 31, 2011

Corrosão


(um post com 2 epígrafes)

Só não dói mais porque não é preciso.
Se fosse o caso, a dor era pior.

Paulo Henriques Britto in Trovar Claro.

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porque eu não sei o que é uma nêspera
ou como as coisas são sem mim. 

Marcello Sorrentino in Um pequeno sistema de incerteza.

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Quanto mais você não está aqui mais eu te invento neste lugar onde eu nunca estou: uma casa que não conheço, escadas que não sei onde vão dar, discursos que jamais saberei decifrar, músicas que ficarão quietas, coreografias que não vou saber dançar.

Quanto mais eu não consigo chegar até você, mais caminho se abre à frente, mais buracos pelo asfalto, sinais sempre fechados, ausência lancinante em cada esquina em que não estaciono pra te abrir a porta, te ver entrar.

Quanto mais você não volta, mais vai embora. Quanto mais teu CEP desconhecido, tuas mãos organizando estantes e coleções de discos que não compartilharemos. Quanto mais correspondência devolvida, mais cortinas nas tuas salas, e mais poesia nos meus braços.

Quanto mais não ver tua cara, mais desbotam as fotos, e invento outras imagens, quase todas desfocadas pra poder te desenhar no meio. Quanto mais a vida sem você, mais eu sozinha.

domingo, julho 17, 2011

O silêncio das línguas cansadas

Pedro Lago me propôs um desafio e eu topei: contar uma história que tratasse do encontro de um jovem leitor de Dostoiévsky com uma mulher mais velha no Jardim Botânico. Substituí o russo por um português e aí está o resultado.

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Sabe-se pouco a respeito dos encontros, mas que se davam toda terça-feira no banco de madeira perto do orquidário. Foi ali onde ela teve a ideia de enterrar os livros.

Antes que os primeiros quadrados de porcelana brotassem, porém, passaram-se meses em que ela era vista ali sozinha, a olhar fixamente praquele pedaço de chão onde seus sapatos ortopédicos tantas vezes se alongaram ao lado das sandálias de couro dele. Dizem que tinha um ar ao mesmo tempo desolado e econômico: eram escassos os suspiros, os movimentos e mesmo a contemplação foi substituída por uma espécie de nuvem que lhe encobria a visão. A qualquer momento tinha-se a impressão de que poderia chover perto dela. Parecia castigada por uma dor que ninguém adivinhava.

Quando as quinas dos quadrados começaram a perfurar o chão, o rebuliço foi geral. Achava-se que a obra do orquidário poderia ter soterrado antigas fundições. Ou que tesouros da família Imperial tinham sido esquecidos sob o solo, e agora subiam à superfície. Até que nem tanto esotérico assim. Técnicos, autoridades e entidades políticas e espirituais concordaram, unânimes no decreto: aquilo era obra de portugueses. Diante do espanto, decidiram arranca-los pelas raízes e conter, assim, os escândalos e curiosos que se amontoavam para ver os azulejos que floresciam no Jardim Botânico. Um plano de ação foi arquitetado para que se desfizesse tal absurdo, e os jardineiros mais experientes do parque foram requisitados para dar fim ao canteiro. A surpresa maior, porém, ainda estava por vir.

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Conta-se que ela era já uma senhora e que frequentava o local desde o ano anterior. Era discreta em vestes, gestos e palavras, mas emanava alegria. Não uma de carnaval, mas aquela alegria que se evidencia pelas mãos, sempre gentis aos toques, e pelos olhos, ainda ávidos pelos dias, especialmente pelas cores das orquídeas. Seu passeio era religioso. Contornava o roseiral, ia dar no lago de vitórias-régias e aspirava o ar com entusiasmo quando dava o primeiro passo pra dentro do orquidário. Seu prêmio: teria enfrentado tempestades marítimas, teria afundado naus inimigas, teria singrado oceanos povoados das mais monstruosas criaturas para chegar até ali. Morava do outro lado da rua, porém. Sua aposentadoria fora planejada para nutrir o grande amor que tinha por aquelas plantas, e depois de uma existência pontuada por perdas que a esquartejavam por dentro, fez daquele pedaço do Jardim Botânico o seu recanto. Esquecia-se de tudo em companhia das orquídeas.

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Um dia ela entrou no parque carregando uma pá, uma sacola que parecia pesada e óculos escuros que escondiam parte do rosto. Poucas pessoas viram quando ela abriu um buraco no chão. As poucas pessoas que viram quando ela abriu um buraco no chão estranharam, mas nenhuma delas se deu conta de que o canteiro de azulejos que brotava era justamente a pequena cova que aquela senhora havia aberto meses antes.

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Meses antes ela plantou os livros dele, e contou num bilhete a história que é a que se conta até hoje: ela Amália, nome de fado. Ele Gaspar, como um nobre navegante. As orquídeas, bengalas que a mantinham de pé. Os livros de Fernando Pessoa, alicerces dele. Numa terça-feira Amália não foi ver o roseiral, tampouco contornou o lago. Foi direto ao orquidário, e viu aquele sujeito ali, quase inexistente, pela primeira vez. Tão magro e tímido, calçava sandálias de couro, tinha a boca semiaberta e ondas nos olhos. Era jovem, alto, tinha uma ameaça de curva nas costas e parecia ter também todos os sonhos do mundo. Usava um bigode ultrapassado, além de óculos de leitura de molduras levíssimas. E carregava livros.

Sentaram-se no mesmo banco de madeira, ela para descansar, ele para ler. Quando percebeu a curiosidade que se esticava em sua direção, pigarreou, ficou rubro. E leu uma estrofe. Aflito, gaguejou. Ela riu, ele também. E tudo o que se desenrolou após esse primeiro encontro pareceu seguir essa lógica do também. Ela ficou mais feliz, ele também. Ela passou a falar mais, ele também. Ela ria, ele também. Ela qualquer coisa e ele também. Em pouco tempo ele tinha declamado boa parte da obra de Fernando Pessoa. Ao final de cada volume, ele a presenteava com o livro: orelhas, dobras, dedos, todas as marcas daquelas tardes, até mesmo folhas caídas de orquídeas que recolhiam juntos e que manchavam palavras.

Ela montou uma pequena biblioteca na sala de casa, e além das orquídeas, passou a fixar-se também nas lombadas e nas páginas do poeta português.

Um dia, porém, ele não apareceu na hora certa. Noutro dia, porém, ele não apareceu. Ela voltou a ser vista ali, sozinha, olhos fixos na terra do chão, agora sem as marcas dos pés longos e finos dele. Desabituara-se da solidão, e foi ganhando ares tristes, dizem, até, que parecia diminuir de tamanho. Decidiu, então, plantar os livros.

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Foi um cair de queixo atrás do outro. Ao lançarem as armas que revelaram o que havia sob os azulejos, a estupefação foi ainda maior. Antologias, coletâneas, sonetos, odes, rimas formavam um verdadeiro cemitério de livros, e deles brotavam azulejos. Quadrados brancos que iam furando a terra. Bocas se alargavam até quase esgarçarem os rostos incrédulos. Nenhum dos jornalistas e fotógrafos presentes ousou disparar um flash. A gente aparvalhada que estava ali, aos poucos, deu as costas ao canteiro e saiu andando, muda, aos tropeços. Aturdidos, os jardineiros aguardavam as ordens dos superiores. Incapazes de dar voz aos pensamentos, os superiores enxugaram das testas o suor, deram as costas e saíram escoltados pela polícia.

No dia seguinte não se falou mais no assunto. Não se escreveu uma linha nos jornais sobre os azulejos. Não se escutaram sussurros nem cochichos a respeito de tal episódio. Não se buscou explicação, não se consultaram os astros, não se encomendaram estudos. Quando descobriram o bilhete de Amália preso a um vaso dentro do orquidário, acrescentaram nas placas e nos mapas da instituição os caminhos e setas que levavam ao tal canteiro.

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A placa que contava a história da amizade entre Gaspar e Amália foi instalada numa manhã radiante. Fazia muito que Amália não era vista por ali, de fato, desde o dia em que ela chegou carregada com os livros e a pá ela não tinha mais voltado.

Naquele dia, conta-se, surgiram sobre os quadrados de porcelana os primeiros traços de tinta azul. Era primavera, a estação das flores.


quarta-feira, julho 13, 2011

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“Sempre gostei de ter medo”, disse valter hugo mãe bem no começo de uma noite que todo mundo merecia ter de vez em quando.

Há anos tenho uma queda literária por tudo o que vem de Portugal, e a paixão se estende a Angola e Moçambique. Gosto de tudo dessa língua parecida com a nossa, mas tão diferente no trato. Gosto, sobretudo, do uso do imperfeito. Gostava falar como eles, ter a mesma cadência e a nítida impressão de que prosa e poesia podem se confundir.

Gostava também que todo mundo tivesse, de vez em quando, uma noite tão gentil como a que acabei de ter, e que ainda vou saborear. Meus melhores momentos de valter hugo mãe são os que seguem.

Ele contava como foi quando o filho de Clarice Lispector lhe pediu que autografasse um livro: “Alguém nascer de Clarice Lispector é quase um desrespeito à raça humana que não pode nascer de Clarice. Ia ser maravilhoso se pudéssemos ter várias mães.”

Sobre livros e o fazer artístico, ele aponta a insatisfação como força motriz e norte, e sem ela um escritor deixa de escrever, um pintor deixa de pintar: “Nenhum livro até agora foi capaz de me calar. Nenhum livro foi suficiente.”

“Maridos há poucos, mulheres há muitas.”

Sobre personagens, gosta de livros sobre “pessoas que efetivamente poderiam ser encontradas.” Diz também que ao escrever momentos decisivos ou de grande impacto sobre o personagem, se vê compelido a telefonar para amigos para dizer o quanto os ama, e que chega a sentir inveja dos personagens.

“Nós adultos temos todas as idades dentro de nós.”

Defende a ideia de que deveríamos lidar apenas com pessoas agradáveis, e que deveria haver um esquema de substituição dos que não nos satisfazem.

“Achava os prosadores seres cheios de demasia”, enquanto que a poesia sempre lhe pareceu essencial. Falando sobre sua pontuação e sobre a escolha de escrever somente com letras minúsculas, destacou a vontade de dar velocidade ao livro. “A poesia não perde tempo”, afirmou. Enquanto a prosa se vale de aspas, travessões e reticências, a poesia se livrou de tudo o que parece supérfluo. Não pensamos com todos esses sinais ortográficos, e sua escrita quer se aproximar do fluxo do pensamento e da oralidade. Execrou o uso de reticências, que para ele são uma tentativa de conferir profundidade a uma frase ou pensamento. Se a frase ou pensamento não forem profundos, as reticências não ajudarão. E se as reticências são formas de interrupção, então que um ponto só seja o final.

“Os meus livros vem do que eu quero saber.”

“Dizia as coisas para ter coisas, dizia palácios para ter palácios.”

“Pirilampo é a minha palavra favorita.”

A minha é libélula. 


segunda-feira, julho 11, 2011


Ninguém sabia o que fazer em caso de felicidade. Havia seguro de vida, seguro para veículos e para morte ocorrida dentro de veículos. Mas quem nos protegeria em caso de felicidade?

David Foenkinos in Em caso de felicidade.

quarta-feira, julho 06, 2011

O dia em que jantei com Claire Denis



(para Ana)

Todo mundo precisava de um casaquinho no dia em que jantei com Claire Denis. Passávamos pela temporada atípica de inverno no Rio, aqueles poucos dias em que todos nós desejamos o verão de volta, aqueles poucos dias em que relativizamos o conceito de meio-dia em janeiro, aqueles breves instantes em que todo mundo tem um resquício de naftalina na pele e uma jaqueta de couro no figurino.

Uma semana antes do dia em que jantei com Claire Denis eu não fazia ideia de quem era Claire Denis, ou melhor, não fazia ideia de como era o cinema de Claire Denis. Também não conhecia alguém que viria a me emprestar um dvd de Claire Denis, tampouco imaginava que uma música da Corona viesse a fazer parte da minha lista de Prozac Songs. Uma semana antes do dia em que jantei com Claire Denis, eu não podia imaginar que uma música da Corona coubesse num filme francês inspirado em Melville, e que essa cena se tornaria pra mim o perfeito sinônimo de dancing with myself. 

Eram tempos bons aqueles que precediam o dia em que jantei com Claire Denis. Eu experimentava novidades que me enchiam de alegria, sorria pelos motivos mais prosaicos, fazia test-drives em concessionárias e lidava bem até com piadas de vendedores da Volkswagen. Eu acordava cedo pra tomar um café da manhã consistente e cantava as curvas da estrada de Santos enquanto era a única babaca a obedecer os limites de velocidade do aterro do Flamengo, e até o trânsito era motivo de felicidade: eu chegava atrasada na natação, deixava de nadar 200 metros e me dedicava à discografia completa do Rei. Eu havia me tornado uma daquelas pessoas felizes e completamente irritantes que tanto detesto, mas nem isso me abalava: a vida era boa no dia em que jantei com Claire Denis, o prato thai preparado por um cineasta era ótimo, e uma ou duas conversas que se iniciavam naquela noite eram ainda mais promissoras.

Mas a vida tem suas surpresas, e no dia em que jantei com Claire Denis eu fui abordada por alguém que não entendeu que eu não estava a fim de elucubrações complexas sobre a vida, a literatura ou a procedência de sotaques. No dia em que jantei com Claire Denis, e em todos os outros dias da minha vida em que nada ou ninguém acontecem, eu não queria conversar sobre bloqueio de escritor, ou sobre seu processo criativo de escritor, ou sobre qualquer outra pauta que envolvesse teorias ou critérios demais sobre o ato de escrever. No dia em que jantei com Claire Denis, eu tentei explicar ao meu interlocutor que eu não tinha qualquer propriedade sobre o assunto, que escrever, pra mim, não era uma Questão que precisasse de maiúscula, que eu nem mesmo iria à Flip e que menos ainda eu sabia porque o valter hugo mãe insiste em só usar minúsculas. No dia em que jantei com a Claire Denis eu estava muito mais interessada em perceber como o efeito físico das emoções arrebatadoras, sejam elas boas ou ruins, causadas por cenas sublimes ou grotescas, são irremediavelmente as mesmas (pernas fracas, revertérios no estômago, levitação). Eu olhava desesperadamente pros lados procurando o Pedro ou o João Manuel, que com sorte entenderiam meu código e iriam me resgatar com a desculpa esfarrapada de consumirmos algo no bar. Até mesmo a Cuba Livre sem gosto que estavam servindo àquela hora me parecia mais atraente do que aquele papo intelectualoide que eu tentava a todo custo evitar.

No dia em que jantei com a Claire Denis lamentei o fato de ter me tornado uma pessoa simpática e comunicativa que não sabe como se desvencilhar de gente mala. Ir ao banheiro teria sido a solução. Eu pensava em como seria boa a explosão de um bueiro naquele momento. Ou um ataque antropofágico.

No dia em que jantei com a Claire Denis deixei duas pessoas falando sozinhas, fiz passos de dança excêntricos quando o dj colocou The Rythm of the Night na pista e não consegui retomar as conversas promissoras que se haviam iniciado antes que eu fosse interrompida pelo tal sujeito. No dia em que jantei com Claire Denis eu não troquei uma palavra com Claire Denis. Voltei pra casa embriagada num taxi com a certeza de que na estrada de Santos eu não vou mais passar.

quarta-feira, junho 22, 2011

"That's not writing, that's typing." 


Truman Capote, sobre Jack Kerouac.

Outros insultos literários aqui.

segunda-feira, junho 20, 2011

If I can make it there


-       Mas o livro dizia o que, afinal?
-       Dizia o que todos os livros de auto-ajuda dizem, mas esse me fisgou, entende?
-       Não, não entendo. Sinceramente, não entendo porque nunca li algo do gênero e não acredito que auto-ajuda "fisgue" alguém.
-       É, eu sei, eu também sou muito preconceituosa.
-       Não é questão de preconceito, é incompatibilidade. Quem lê Faulkner não pode ler auto-ajuda. Quem lê Camus não pode acreditar nessas coisas.
-       Sei, sei. Mas quem vê cara não vê coração. E Quem ama não adoece.
-       O que?!
-       É o título de um dos livros mais vendidos de auto-ajuda.
-       E é com esse argumento que você vai tentar me convencer? Títulos?
-       Os títulos são o primeiro motivo, uma vez rendida a ele o resto vem, pode apostar.
-       Duvido.
-       Um exemplo: Quando termina é porque acabou. Vai contra tudo o que o Lenny Kravitz nos cantou durante anos e anos. E faz muito mais sentido.
-       Qualquer coisa faz mais sentido que o Lenny Kravitz.
-       Mas eu juro, você vê o resultado. É tipo um grupo de apoio, mas sem a chatice de ter que conviver com as pessoas, entende?
-       Não, continuo sem entender patavinas.
-       Ok, eu vou te explicar. Vou te dar um exemplo prático: eu.
-       Você não é confiável.
-       Claro que sou. Eu fui a cobaia da minha própria experiência. E além do mais, você anda consultando horóscopos, se apegando a planetas e tal. Fé é indiscutível, você devia saber.
-       Ok, vou te dar uma chance. 
-       Caiu nas minhas mãos esse livro que diagnosticava os perfis amorosos e apontava os medos e inseguranças e tal. De repente eu me vi ali descrita em frases meio cafonas, sabe?
-       Depois de anos de análise você foi se apoiar em frases cafonas?
-       Mas é que ali não tem o peso do consultório, nem  o preço da consulta, e nem, enfim. Tanto é que dá certo que eu providenciei dois encontros na mesma semana.
-       Tomou iniciativa e tudo?
-       Exatamente. É isso o que um livro de auto-ajuda deve fazer pela gente, certo? Pró-ativismo!
-       E como foram os encontros?
-       Eu faltei a eles.
-       Você convidou dois sujeitos pra sair e não apareceu em nenhum encontro?!
-       Um sujeito, dois furos. E eu avisei que não iria. Eu realmente estava vivendo dias atribulados. Priorizei outras coisas e...
-       E você quer me convencer de que um livro de auto-ajuda está realmente te ajudando tendo em vista o fato de que nenhum encontro se concretizou. E pelo que eu me lembro, seu problema não era dessa natureza, ele começava sempre depois do segundo ou terceiro encontro.
-       Verdade. Aí é que está a questão. Eu só li dois capítulos do livro. O resto ainda não foi traduzido. Daí que a solução só veio metade, sabe? Eu convidei, mas o segundo passo, o de aparecer, não rola ainda. Fico em pânico!
-       Mas por que essa vontade súbita de ter alguém? Você sempre me pareceu uma solteira convicta.
-       Eu era. Mas outro dia enveredei uma conversa sobre relacionamentos com alguém e tentei convence-lo de que eu era mesmo muito complicada e tal. E que por isso não engatava nada sério com ninguém. Aquele velho “o problema não é você, sou eu”. Mas aplicado a mim mesma.
-       E...?
-       E aí que ele argumentou.
-       Desenvolva.
-       Ele disse que achava muito fácil gostar de mim e tal. Que não podia acreditar que eu era tão difícil assim. Ele foi enfático o suficiente pra eu me convencer de que sou muito mais simples do que sempre pensei. 
-       “Se eu sou algo incompreensível...”
-       “Mistério sempre há de pintar por aí.” A culpa é dele.
-       Se ele soubesse...
-       E ainda mais, não é muita coincidência eu ter que ler dois capítulos de um livro de auto-ajuda que fala sobre dificuldades de relacionamentos quando eu to justamente disposta a trabalhar isso?
-       Tanto anos de análise... Tantas conversas sobre atualizar o outro e você esqueceu de atualizar você mesma.
-       Não fosse o discurso do sujeito eu estaria aqui muito quieta, levando minha encalhada vida adiante, sem nem pensar nisso.
-       Bem, tecnicamente você continua encalhada. E cá entre nós, eu te falo isso há anos. Foi preciso cruzar um oceano pra se convencer?
-       Eu sei, eu devia ter te dado ouvidos. Mas já entrei na aula de alemão, pra ler o restante do livro. Daqui a uns 5 ou 6 anos eu devo conseguir entender tudo. É uma boa perspectiva, não acha?
-       Acho que existem métodos mais eficazes. Tipo aparecer nos próximos encontros que você marcar. Ver que não é tão assustador assim quanto parece sair com a mesma pessoa por duas semanas.
-       Ah mas e a preguiça? Você acha mesmo que as pessoas são tão interessantes assim? Acho que me motivei pelo fato de de repente ter me descoberto muito mais legal do que eu pensava, e menos complicada também, entende? Aí achei que mais gente além das 4 ou 5 pra quem dou atenção irrestrita merecia desfrutar de mim mesma. Mas no meio do caminho mudei de ideia. E fui pra casa gravar um “Auto-ajuda songs” pro Marcelo.
-       Poucas pessoas são de fato mais interessantes que o Marcelo.
-       Raríssimas. E ainda tem a pilha de livros aqui pra ler...
-     Quem mexeu no meu queijo feelings?
-    Que nada. Balzac, Houellebecq, essa francesada.
-       E agora?
-       E agora nada.
-       Não dá pra re-convidar?
-       Até daria. Mas depois de ter amarelado, preciso ler alguma outra coisa pra me dar confiança de novo, entende? Hoje na hora do almoço entrei numa livraria duvidosa do Centro da cidade e fui direto pra gôndola de autoajuda. Confesso que me deu uma certa vergonha.
-       Rá. Eu sabia. Você não frequentaria a auto-ajuda da Travessa, aposto. Muito menos a da Argumento.
-       A da Argumento nem pensar, seria um downgrade na minha imagem. Todo mundo me conhece ali. Não seria mais aceita nem no café. Já pensou?
-       Alors, de volta à estaca zero.
-       Pois é...
-       Mas e esse disco do Marcelo, tem o que?
-       Tudo o que poderia ser classificado como autoajuda se a música tivesse esse gênero. Ain’t no mountain high enough, Tente outra vez.
-       You gotta be?
-       Bad, bold, wiser, hard, tough, stronger, cool, calm, stay together. Imagina tentar ser tudo o que diz essa música? Teria que existir um livro pra cada resolução. A pessoa desiste na terceira palavra e volta pro Lenny Kravitz na hora. Tem Queen também. The show must go on. New York, New York. Tem música mais autoajuda que New York, New York?!
-       Não, não tem. Você devia ganhar a vida fazendo coletâneas bizarras pro Marcelo. Devia haver um modo de isso se expandir em escala industrial.
-     Eu sempre achei. O mundo merecia minhas coletâneas. 
-     Taí, mais um motivo pra você não faltar aos cafés que marcar futuramente. Mas e o disco, fecha com que?
-       All you need is love...

sábado, junho 18, 2011

Bukowski


Hoje é 2003 enquanto atravesso o túnel Zuzu Angel pra buscar Maíra no meu carro com goteiras. Ela vai reclamar do cheiro de mofo, vai querer fumar pela janela e vai ligar pra mais alguém que também vai estranhar o aroma ambiente. Ela vai pedir desculpas pelo atraso e completar a maquiagem enquanto diz que o problema todo é que o furão escapou da gaiola e ela teve que caça-lo pela casa, o que significou o tempo equivalente a 5 ou 6 músicas de Burn To Shine naquela rua pacata do Leblon. Ela aguenta o cheiro do furão mas não suporta o meu pequeno aquário itinerante. Ela tem mesas de MDF no quarto, um livro da Sylvia Plath na cabeceira e 3 namorados. Eu moro na Barra, estou platonicamente apaixonada por um paulista e escuto Ben Harper obsessivamente. Quando o segundo elemento entrar no carro (e ele pode ser Nat ou João) eu vou explicar de novo que sim, aquele veículo alaga e não tem jeito.

Nós vamos terminar a noite com os pés pra cima de uma cadeira de madeira do Tio Sam, com cabelos indomados até que vejam condicionador novamente. Maíra vai cambalear pra casa, eu vou trôpega até outro bairro e no dia seguinte, antes do café-da-manhã, vou tomar banho pra amenizar o cheiro do segundo andar daquela casa em Botafogo onde dançamos até quase derrubar o chão, e onde ainda não existe lei que proíbe cigarro em ambientes fechados.

Em 2009 eu paro meu carro prata na rua sem saída pra onde Maíra se mudou. Quando abrir a porta ela vai perguntar porque não estacionei na garagem. Tem coluna em excesso ali, é melhor evitar. Ela vai dizer que não dirige e portanto não pode opinar. Ela substituiu o furão por um peixe que nada em círculos entre bolas de gude na estante da sala. Ela tem 3 computadores no escritório, uma cadeira de balanço na cozinha e 8 namorados, sendo 2 deles internacionais. Eu continuo sendo proprietária de um automóvel cuja vedação contra chuvas não é competente, invento desculpas quando ele me telefona e me chama pra sair e, em vez de nos esbaldarmos em algum outro segundo andar como aquele de Botafogo, eu traduzo pro francês as cartas de amor que ela dita e que serão enviadas para um dos amados transatlânticos.

Essa semana Maíra e eu não conseguimos jantar, tomar café ou falar ao telefone. Ela mora perto da Cobal com um gato (finalmente um animalzinho cordial), ainda usa os anéis que compramos juntas no Saara e tem 1 namorado engraçado. Eu ajudo o cão velhinho a subir na minha cama, dou um rim pra não sair de casa aos sábados e, confesso, minha senha do banco é a data de aniversário dele.

No início do século XX, quando conheci Maíra, ela fazia o teatro lotar todas as noites. Tinha cabelos cor de fogo, um cachecol bordado inseparável e já gostava de vodca. Nós nos tornamos amigas numa tarde em que os ponteiros dos relógios empacaram por excesso de gelo que caía do céu. O inverno russo era uma merda, só ela me fazia sair de casa mesmo na pior nevasca. Pouco depois eu fugi para Paris para levar uma vida mais preguiçosa repleta de chocolates-quentes. Maíra rodou o mundo com as turnês de Diaghilev e os balés que escandalizaram a Europa dos anos 20. 

Hoje é 2011 e eu escrevo sobre ela usando entre os dedos apetrechos de silicone que prometem evitar o crescimento desses ossos cretinos nas laterais cansadas dos meus pézinhos. Por sorte, nessa vida, escolhemos outras profissões. Não haveria cetim que resistisse aos nossos joanetes reencarnados.

quarta-feira, junho 08, 2011

Lanterna dos afogados, o retorno

(para ler ao som de The Swimming Song – Vetiver)

Eu sou uma pessoa má: eu julgo a indumentária alheia, creio que existem bebês feios, amaldiçoo um ou outro escritor, menosprezo todas as séries do Multishow.

Por outro lado, eu não sou uma pessoa competitiva, de modo que, ao final da aula de natação, quando a professora me informou que eu havia nadado 900 metros, eu não fiquei feliz, impressionada ou desafiada a aumentar a minha marca para 1 kilômetro. Eu continuei esbaforida, achando que aquele esporte servia mais como exercício expiatório de toda e qualquer culpa que eu poderia ter e fiz planos radicais de diminuir meu rendimento para módicos 400 metros.

Freud e todos os outros pensadores devem ter explicações embasadas que justifiquem o fato de eu ter voltado à natação. Os meus motivos são os que seguem.

Nadar é resolver seus pecados em tempo de no dia seguinte poder comete-los todos outra vez. Qualquer xingamento a terceiros se dissolve nas primeiras braçadas e pernadas de crawl. E também, convenhamos, depois de 5 quilos adquiridos em embriagantes e calóricas viagens, e de uma esperança que acendeu as luzes da minha agonizante vida afetiva, ter uma barriga e duas pernas socializáveis virou item de urgência na minha agenda.

Além do mais, a minha nova professora de natação tem cara enfezada e bota fé no meu teatro desesperado, logo, ela não vai me empurrar pro nado golfinho ao menos até o final de agosto, que é quando termina o meu plano trimestral que estupidamente adotei. É claro que tal decisão foi tomada depois de uma aula. Pico de endorfina, sentimento de superação. Sair viva e andando da aula de natação é motivo mais que suficiente pra escrever todo um livro de auto-ajuda: você não morreu sufocada, aguntou firme o figurino patético e o olhar de pena da professora.

Mas vitória mesmo é sobreviver ao professor pró-ativo de hidroginástica. Todas as vezes em que eu alcançava o outro lado da piscina, ali onde dava pra escutar a música do Ed Motta que parecia tocar em looping (“mia, arranha o sol, uuuuuu...), ele tinha na ponta da língua uma frase de incentivo: “no começo é difícil mesmo, depois fica mais fácil.” O que ele nunca entenderia, e eu nem ousaria explicar, é que o “depois” dele tinha uma conotação bem diferente da minha: ele pensava em um mês ou dois, eu pensava em reencarnação. Ele continuava seu discurso otimista, eu pensava em espanca-lo.

Na segunda semana de natação, eu implorei pra minha chefe me prender numa reunião interminável, mas eu era muito nova naquele escritório pra participar de qualquer evento desta importância, e lá fui eu, plano infalível, fingir afogamento antes de completar 200 metros e, sob a alegação incontornável do trauma, nunca mais me arriscar numa piscina.  

sábado, junho 04, 2011

Carta a C.M.

My dear,

Eu e minhas ideias: hoje fui a praia. Hoje é um daqueles dias em que eu poderia ter uma lareira. E eu fui a praia. Daqui do alto nunca dá pra ver o que acontece no litoral, portanto descer à rua é sempre surpreendente, de modo que fui cheia de casacos à clínica de vacinação enquanto todos caminhavam de roupas leves sob o melhor sol que temos por aqui, o de outono. Horas depois eu me defendia do vento, e da areia que subia com ele, com uma revista que ficou pela metade, e com um pedaço de praia dentro. Nem mesmo havia os bravos homens que alugam cadeiras e guarda-sóis (guardas-sóis? Guardas-sol? Meias-calças? Here we go again...) durante todo o verão. Um vendedor de mate parecia com medo das nuvens que surgiam por detrás do Dois-irmãos. Eu me distraí com um poema e quase não percebi.

Eu poderia me especializar nessa coisa de programas insólitos. Passeios de bicicletas que deixam hematomas por duas semanas. Viagens atrasadas porque eu jurava que o voo era num horário quando era no outro. Dormir uma noite em Nantes porque o avião não pode chegar. Perder sua casa uma vez porque planejei voar na pior tempestade de neve europeia dos últimos cem anos. Perder sua casa uma segunda vez porque a minha conta poupança ainda não dá conta de todos os câmbios, e a minha agenda ainda não dá conta de todos os tempos. Operar o olho e ficar com tudo ao contrário. Ir pra aula de natação pra salvar as costas e quase matar os braços.

Eu me distraio à beça com todas essas coisas: os dias, dinheiros, meios de transporte verdes, plural da língua portuguesa.

Hoje eu queria ir de novo à última festa em que fomos juntas...

Ainda nem te contei do trabalho novo e de tudo o que já ri com ele. Eu sei que a gente muda de ideia sempre, que para e pensa de novo, que volta atrás, que retira o que disse, que, horror!, eventualmente cospe no prato em que comeu, que pede desculpas, que inventa uma lista de hipóteses etc. Mas se eu fizesse um resumo dos últimos três dias, diria que tem amor e fascínio envolvido. Penso que não há possibilidade de ser ruim. Dessa vez eu não quero estar errada a respeito disso.

Hoje é um daqueles dias em que eu poderia ter um namorado. Ando tão feliz que agora me parece que isso seria possível. Acho que tocou essa música no casamento: I’ve had the time of my life. Nosso ano começou com fogos, banquete, uma viagem de trem e o melhor croissant de Yville-sur-Seine. Desde então, parece que todos os dias tem tido ao menos um desses elementos. Me parece que é irreversível, que nem saudade.

Putz grila, essa migração, esse fuso-horário.

Tenho um jantar me esperando, e um encontro com novos amigos e vinhos. Ou dois filmes, um chá alemão (sorte que menta é menta, e verde, em qualquer lugar do mundo) e o meu edredom. 

Wish me luck. 

um beijo,

quinta-feira, maio 26, 2011

We few, we happy few, we band of brothers*

Como te explicar?

Entrei naquele lugar esperando que ali houvesse somente mais uma livraria charmosa, como quase todas daquela cidade são. Mas desde a fachada percebi que não sairia isenta dali.

Livros abarrotados em prateleiras e mesinhas meio tortas, meio velhas, meio como num cenário de filme onde tudo é de um jeito que até faltam palavras. Não cabem adjetivos.

Eu entrei ali e fui passando os dedos sobre diversas capas e títulos, enquanto olhava aquele teto antigo, prestes a despencar. Postais, papeizinhos, uma bagunça de coisas penduradas por entre toda a literatura. Não sei quantas pessoas estavam ali, hipnotizadas como eu. 

Subi as escadas guiada por um piano que parecia vir do andar de cima. Percorri os cômodos até encontrar: um sujeito qualquer, que visitava a livraria, assim como eu, assim como a mocinha que aproveitava uma poltrona ao lado, assim como o casal que olhava a vista da janela. Ele tocava uma melodia que poderia ser Mozart, Chopin ou até mesmo uma bobagem qualquer. Ali dentro tudo tinha uma aura diferente, quase religiosa.

Devo ter ficado cerca de 40 minutos em meio a almofadas vermelhas e livros infantis. Naquele canto havia um painel improvisado com bilhetinhos, fotos 3x4, desenhos, cartas, declarações, cartões-postais, ingressos de metrô usados, de gente de todo o mundo. “Thank you. I needed that.”, dizia um tal de Elliot.

Só levantei dali quando o sujeito ao piano foi embora. Durante todo o tempo que permaneci na livraria tirei fotos e chorei um choro fino. A vida era tão boa naquele dia, e não só. Horas antes eu tentara entrar na Notre Dame para agradecer tantas coisas, mas a fila me assustou. Talvez aquele pequeno cantinho dos leitores tenha servido como altar, e saí dali com a sensação de que os deuses haviam me escutado.

O que eu senti, não posso te contar, porque é daquelas coisas que a gente guarda em segredo pra ninguém roubar ou tentar estragar. As pessoas que passaram por mim e me viram ali, com olhos vermelhos e nariz fungando, me sorriram solidárias, compreensivas. É, me desculpa, eu bem que tentei, mas esse capítulo eu não sei como contar.  


* William Shakespeare , Henry V.

terça-feira, maio 24, 2011

Parênteses III

Enquanto nada acontece por aqui, to dando expediente no Meu Paletó - tentando decifrar o mundo dos hipsters, falando de maiôs de 400 euros e me achando loucamente só porque tenho um vestido da Madame Grès (sonhar não custa nada). Além disso tem um bilhetinho pras sneaker-lovers mais bacanas que conheço lá no blog delas: Vamos de Tenis. Clique aqui se você é um dos 3 leitores que entram neste blog segundo o Google Analytics e dê sua audiência a outras praças (e por favor, me ajude a decifrar porque a letra daqui tá tão pequenina, já fiz de tudo e nada).

Parênteses II

A vida está cheia de almas gêmeas, e eu descobri mais uma depois de ler esse texto do André Forastieri (via Eugene, o dj que salva vidas).

sábado, maio 07, 2011

Ticket to ride


Jamie Lidell não cantou minha música preferida no show de sexta-feira, o que pode estar diretamente ligado  ao fato de eu ter perdido o voo para Berlin hoje. Coisas aparentemente desconexas podem ser intimamente relacionadas quando eu sou a pessoa por trás da teoria. 

Tento me acalmar enquanto decido se chá é bom, ou só água quente. Parto para a cerveja minutos depois e meus lábios incham e fico rosa e coçando e alien. Aposto que é reação alérgica a um dos novos cremes da dermatologista. Edito a nécessaire e acrescento Polaramine na bolsinha de remédios. Há que se ter disciplina e ócio pra cumprir o roteiro da Dra. Luisa, que subiu para o topo da lista de pessoas que eu espancaria hoje. 

Choro e auto-xingamento, é o que se pode ter em dias como esse, além de uma saudade eterna de acentos ortográficos que nem eu mesma vivi.

Mas triste mesmo eu fiquei quando soube que o porteiro da noite, protagonista dos momentos áureos deste blog, quem diria, pediu demissão... 




quarta-feira, maio 04, 2011

Considerações sobre um i-pod

(ou: sobre como a Amazon pode ser um braço da CIA)

Eu desconfio da tecnologia e das modernidades do meu tempo, e demoro mais que todo mundo pra me adaptar. Acho um horror os celulares em cima das mesas de chope, tenho ojeriza ao BBM que nos rouba as pessoas do mundo real e ando até com dificuldade de acreditar em fotos. Acho incompreensível a horda de gente que percorre o MoMA disparando câmeras de celular dos Matisses sem nem olhar pra tela da pintura, e também não vejo sentido em fotografar incessantemente shows – a música está ali, tem coisa melhor do que dançar ao vivo? 

Eu sou do tipo que ainda coleciona cds e estou ciente de que corro o risco de ficar ultrapassada. Minha câmera de retratos é analógica e recentemente comprei uma polaroid genérica (Fuji). Não me lembro quem, há pouco tempo, perguntou se eu era de outro século, eu disse que sim.

A contradição fica por conta dos dois i-pods que chamo de meus. Não é culpa minha, ambos foram presentes de mãe e pai, e esse poderia ser o único episódio típico de pais separados em guerra pelo amor de uma filha. A história, porém, é bem diferente, e bem menos emocionante. Diante do fato de ter dois i-pods, eu tive que sucumbir e encarar o mundo de torrents, downloads e afins.

A angústia que o conceito do i-pod me causava era a mesma que a minha câmera digital despertava: pra que tanto? Eu mal terminava de ouvir uma faixa e já passava adiante ao saber que aquele aparelho carregava o equivalente a mais 5,4 dias de músicas. Mal enquadrava uma paisagem e já me sentia compelida a registrar qualquer outra imagem. 500 fotos eram facilmente feitas em um fim-de-semana na Bahia. Era mais tempo olhando a tela da máquina que comendo acarajé.

Depois de muitos meses de luta e adaptação, levantei bandeira branca pro i-pod. Meu método talvez não faça sentido, mas tem funcionado. O i-pod amarelo recebe apenas os downloads novos de determinada semana. Eu não baixo nada inédito até ter escutado tudo aquilo. As músicas e discos aprovados seguem, então, para o i-pod verde, o amarelo ganha novos sons e assim sucessivamente. No fim dá no mesmo, eu continuo angustiada porque a lista de músicas que gosto de ouvir só aumenta. Mas me engano um pouco, e graças a esse esquema já parei de tomar ansiolítico. Como nem tudo é perfeito, acabo comprando pela Amazon alguns discos, pra ter certeza que parte de tudo continuará existindo caso eu seja assaltada.

De posse de um cabo que conecta o i-pod ao som do carro, a relação melhorou ainda mais. Pela orla, de vidro abaixado, eu começo a amar Os Mutantes e danço de me acabar com a lista de Prozac Songs.

Até que um dia, percebo: meu i-pod é sensitivo.

A explicação é bem simples: eu voltava do Centro, pela praia de Ipanema, e o i-pod estava no modo aleatório. Eu pensava na saga que havia travado com o ingresso.com na madrugada anterior por conta do show de Paul McCartney e de repente escuto os primeiros acordes de Band on The Run. Por motivos óbvios, pensei na Ritinha, e a próxima música foi uma que descobrimos juntas um dia qualquer em que comíamos cachorro-quente. Espantada, continuei: era pensar nos amigos e em todos que tinham participado efetivamente da minha vida naqueles últimos dias que suas músicas tocavam. Era batata!

Fiquei obcecada pela teoria que começava a desenvolver mentalmente. Bati de carro e, catatônica, desliguei o i-pod. Jurei que nunca contaria a alguém que meu i-pod adivinha humores, pensamentos e gente. Era inverossímil demais, e certamente deveria haver qualquer justificativa para tudo aquilo, e ela não devia ser astrológica, emocional ou desvairada.

Vida que segue. Até que, numa quarta-feira de manhã, numa semana cheia de emoções fortes, abro um e-mail da Amazon, que gentilmente me sugere comprar 8 cds, 5 dos quais eu havia baixado na semana anterior. Meu queixo caiu. Eu sei, deve haver uma explicação racional envolvendo bits, cookies, número de ip ou coisas que o valham, mas no meu mundo avesso a tecnologias, eu ainda lido com espiões secretos e investigações sigilosas que envolvem negativos e envelopes com fotos, lupas, trench-coats e chapéus Fedora. Eu não hesitaria o palpite de que o e-bay é o próximo site a me investigar, e não levantaria a sobrancelha ao descobrir que o Juveny, que consertou minha Pentax, é o agente secreto de tal missão. Nesse mundo, há que se desconfiar de todos.

Como disse a minha prima, que também crê que estou sendo perseguida: eles estão nos espionando. Espero que gostem de nós.