quinta-feira, julho 30, 2009
Never been so easy or so slow*
Ele desembrulha todas essas histórias que eu não sei e numa gargalhada me espatifo no chão como se fosse azulejo, e ficam todos os pedaços sobre o tapete quentinho dessa casa que eu criei. Ele prepara a lareira, a sopa e a gente nunca pára de falar quando têm mantas sobre os joelhos. Eu folheio a pilha de revistas, ele beija meu umbigo e esquecemos até de beber conhaque e todos os licores coloridos. Ele me abraça do tamanho certo, e eu derreto pra todos as quinas das mãos, das pernas e dos ouvidos dele. E da boca, e é tão fácil que ele esquece de dormir, e eu também.
Desde que ele não está mais aqui, dou bom dia pras paredes e durmo de meias, esquento café pra um e invento esse final tristíssimo: a casa morre afogada de tanta chuva, me tranco no banheiro a estrangular flores, fico sem mais nem porquê à tarde. Investigo no espelho do closet e constato que sumiu da minha bochecha direita a marca tão efêmera quanto essa história de paixão desenfreada: uma mordida de mosquito.
terça-feira, julho 28, 2009
O dia em que o Merce Cunningham morreu
Mas como tudo o que é ruim pode piorar, o dia em que o Merce Cunningham morreu foi quando o Marcelo riu da minha neurose de que o Pederneiras pode morrer (e eu não contei pra ele que telefonei pros hospitais de Belo Horizonte pra saber se, por acaso, o Pederneiras não estava internado em algum deles), e riu porque eu disse que neurose é o preço da ponte aérea, porque é claro que o Grupo Corpo estreia em São Paulo em duas semanas, afinal o Municipal está em obras.
Honestamente? O dia em que o Merce Cunningham morreu sucks.
segunda-feira, julho 27, 2009
A crise nos campos de morangos
Mas o pior de tudo, o que é verdadeiramente problemático, é que eu descobri que odeio, não é exagero, odeio, ODEIO (convence mais em capslock?) o nome desse blog. Exato, eu não sei onde eu estava com a cabeça quando resolvi batizar esse blosgpot de “Strawberry Fields”. Tem coisa mais cafona? Deve ter sido um surto adolescente. E eu nem amo tanto assim essa música. E agora, por uma dessas fatalidades fatídicas, estou presa a esse diabo desse título pra sempre porque não consigo pensar em outra solução, e mesmo que conseguisse, ia acabar confundindo a cabeça dos leitores e consultoria de marketing nenhuma aprovaria esse plano de mudar uma marca já consolidada.
E pra piorar, não sei nem mesmo mexer no layout deste blog. Se eu conseguir, prometo, dispenso as estratégias de qualquer empresa de branding, volto a ter cabelo preto (nunca sai de moda e a tinta está sempre lá), tomo um porre homérico que me fará passar mal por cinco dias seguidos, apago esse letreiro brega e fico, então, feliz e desbatizada.
:: Let me take you down, cause I'm going to strawberry fields. Nothing is real.
sábado, julho 25, 2009
"Estrago a pessoa amada em 3 dias"
Era dilúvio quando a frase do título me pegou e desde então eu já escrevi milhares de coisas sobre o assunto (na minha cabeça). Cheguei num nível de obsessão com a frase que fiz um top 5 imaginário de pessoas amadas que eu estragaria. No fim eu sempre concluí que não estragaria ninguém. Eu acho.
No fim (de novo) o melhor que consigo pensar é que é deveras mais eficaz estragar logo a pessoa amada, porque possível e provavelmente ela não te ama de volta. E até onde eu sei, mãe de santo alguma vai convencê-la do contrário. Então pense: a pessoa amada vem, nada dá certo, o relacionamento gera sofrimento pra uma das partes e está feita a cagada.
Melhor estragar antes. Em 3 dias e você descobre que a pessoa amada é uó e logo desfaz-se o sofrimento.
quinta-feira, julho 23, 2009
Carta a B.
Hoje o dia parecia que ia dar jeito, que alguma coisa ia ser boa, que alguma coisa ia ser minha. Por algumas razões nada obscuras e completamente óbvias, a quinta-feira terminou com o gosto amargo de um temaki completamente vomitável. Mas você sabe, o dia de passar mal foi sábado e é pra frente que se anda.
Eu comecei a desconfiar de todo o meu futuro quando me vi dando voltas pelo Shopping da Gávea procurando uma loja que com certeza deveria estar no terceiro piso. Eu rodei tanto que não deu tempo de ir na manicure nem de comer folhado na Chez Anne. Pra piorar, a liquidação da Osklen estava péssimae tudo continuava custando mais que o compreensível. Mas havia uma luz no fim do túnel porque a música que tocava no Shopping era "Just Another Day", do Jon Secada, o que foi o primeiro aspecto positivo do meu dia e eu até cantarolei. Você sabe, "Just Another Day" é uma das top 5 músicas pra ouvir so-zi-nha no carro, cantando aos berros, fazendo todo mundo dos outros carros se divertir um pouco ao pararem no sinal.
Poucos minutos depois, já a léguas de distância e atrasada, percebi que todos os bilhetes de metrô haviam sumido, que eu só tinha cinco reais na carteira e que eu teria que me segurar naquelas barras dentro dos trens correndo sério risco de me contaminar com gripe suína. Dez minutos depois eu já estava tossindo e panicada, sem nem mesmo ter idéia se tosse consta dos sintomas. Pouco antes de chegar ao trabalho o meu caderno foi cruelmente tragado por um bueiro imundo da Rua dos Andradas. Eu ando tão cheia de idéias e planos que desenvolvi uma técnica de escrever andando pra anotar qualquer coisa que possa virar: um catálogo, fotos de moda, textos, twitters, outro emprego, tese de mestrado. Exato, ando com desejos acadêmicos. Mas lá se foi o caderno, porque me distraí com os pastéis e ele despencou tragicamente.
Então as quarenta e três idéias do dia foram descartadas, não apenas porque o caderno ficou irremediavelmente fora de alcance, mas também porque essas coisas acontecem, né? Enfim. Quando pela janela do atelier começou a entrar o som de uma música do Coldplay eu achei que tudo poderia ficar agradável novamente. Então eu me dei conta de que a calça que eu vestia estava completamente tomada por bolinhas e fiozinhos puxados no quadril direito. Era o meu fim decretado, visto que eu comprara a calça exatamente vinte e quatro horas antes.
A minha última salvação encontrava-se no mesmo bairro em que a primeira, e lá fui eu correndo pra aula de dança, me esticar e rodopiar e terminar a aula carimbando o chão com a mancha de suor das minhas costas. E aí, ma chérie, uma coisa muito dolorosa aconteceu: a minha hérnia voltou e eu senti o lado direito todo da lombar doer como se alguém estivesse espetando agulhas num boneco de vodu que tivesse a minha cara. Era o meu fim, de novo. Rezei. Comi um temaki. Cheguei em casa, matei o porteiro três vezes, vomitei o temaki e aí você aconteceu: se você estivesse aqui a gente iria tomar uma taça de vinho qualquer safra acompanhado de pizza do supermercado. A gente ia delirar com a última campanha do perfume da Jil Sander, porque se você estivesse aqui eu saberia como é a última campanha do perfume da Jil Sander. Se você estivesse aqui ia consertar toda essa chatice de dia cheio de vírus, algas e tecidos de quinta.
Mas você não está, portanto eu coloco outro dramin pra dentro, fico absolutamente desorientada e caio na cama, não sem antes colocar um montinho de travesseiros sob as pernas, hérnia de disco, sabe como é.
No sonho a gente gargalha na estação Saint Sulpice e volta pra casa de manhã cantando “but remember this every other kiss that you ever give...” a plenos pulmões e fazendo cara de drama. No sonho a gente ainda é vizinha, tem praia em Paris, a Carol nunca fura e a ponte aérea funciona tipo a da novela das oito, toda hora os amigos vão e voltam e nunca ninguém chega a querer se matar de saudade.
Se você estivesse aqui, ma chérie, você ia saber o jeito certo de consertar tudo. Porque você não está, fico crente e canto Jon Secada como um mantra: whyyyyy can’t you stay foreeeeveeeeeeeer Just give me a reason, giiiiiiiive me a reason cause Iiiiiiii Iiiiiiiiiiii don’t wanna say it, I don’t wanna find another way...
Como se traduz isso tudo pro francês? Como se mede saudade?
Me diz, minha querida: co-mo-faz?
Bisous,
(ps. A internet não funcionou quando eu queria ter postado esse post...)
domingo, julho 19, 2009
Estação Uruguaiana
Ainda está lá na Estação Cinelândia a lojinha de sapatos cheias de scarpins de saltos incrivelmente altos e finos. Ainda está lá na Estaçaõ Carioca toda aquela gente que parece que vai te esmagar no metrô, que medo. Eu ainda confundo Rua da Alfândega com a Senhor dos Passos. A farmácia da esquina ficou completamente destruída. Os pastéis enormes e lindos ainda não me convenceram.
Respiro aliviada ao ver que lupas ainda são vendidas junto a bolsas plásticas de água quente (R$5,00 cada), porque isso parece fazer mais sentido que muita coisa, a maioria delas, na verdade (imagina comprar uma lupa sem uma bolsa de água quente ou vice-versa?). Descubro que os corantes Guarany não produzem mais a tinta bege, e portanto a vida no atelier frente ao fogão de tingimento complicou-se: azul, vermelho, amarelo e marrom nunca dão um bege tão bom quanto o finado. O cáqui que inventaram para substituir também não dá certo. O almoço no restaurante a quilo continua dando 15 reais. O café agora é na Pavelka, muito melhor que a Colombo. Homens de cabelo ralo e barrigas proeminentes continuam andando com pentes de dentes finos nos bolsos de camisas de algodão. A Dona Laura, essa também não mudou, e porque ela continua sendo uma pedra no caminho, e porque ela continua me dando bom dia com uma cara de vômito e um "opa" ("opa"?!), e porque ela ostenta um bigode medonho, tornou-se o meu novo porteiro da noite.
Eu continuo preferindo seda pura, e torcendo por um frio pra usar veludo, mas não tem jeito, no SAARA faz calor até nos dias de temperatura mais baixa, já dá pra sentir da escada rolante do metrô. Na volta pra casa, eu continuo errando a saída e quando vejo estou em frente ao Odeon, pensando em letreiros e filmes.
Em meio a todo o déjà-vu (não me venha sugerir psicanálise), a grande conquista do dia, quiçá do ano, foi o meu novo amor, um desses que aparecem novinho em folha quando menos se espera. Pelo interfone ele me avisou que o reboque estava chegando no meio da tarde de domingo. Desci as escadas num galope com a blusa de ontem, a saia que tinha ficado sobre a cadeira, os cabelos descontrolados, pantufa e meia-calça e salvei meu carro de mais um reboque. E então assim, ofegante e certamente reprovada por qualquer consultora de moda no quesito modelito, me apaixonei perdidamente pelo porteiro da tarde, meu novo herói.
segunda-feira, julho 13, 2009
Laranjeiras
Na esquina da mesma rua já não como mais pastéis porque já não vivo mais aqueles dias de Cesaria Évora de manhã, de tomates secos em frente a um filme em língua estranha. Essa história de demorar a dormir pensando em desculpas pouco convincentes pra te fazer entender que a gente não dava certo, mas a gente dava certo, lembra?
Essa história cheia de razões que eu mesma escrevia, ela volta em cores quando passeio por ruas que eram suas, e que continuam no mapa apesar de mim. Essa história, cujo final eu escolhi, quando volta me pega numa saudade tão boa e pouco dramática de nem sei o quê. Essa nossa história de saudade, deve ser isso, fui eu que inventei do começo ao fim.
sexta-feira, julho 10, 2009
O twitter é aqui - vol. 2
Todo dia de manhã engulo água da pia e depois uma porção pequena de flúor oral-B azul e tenho certeza que um dia isso vai trazer algum mal. É que dá muita hipocondria no inverno
13h25
E o batom laranja que nunca sai? Infecção, na certa.
13h30
Tipo o filtro solar. Excesso de fator de proteção na pele, e mesmo assim as sardas se expandem. Não faz nenhum sentido.
13h55
( "E algum trocado pra dar garantia." )
14h22
Sexta-feira eu ganho dois centímetros no alongamento, mas hoje me estiquei tanto que tenho certeza que estou com 1m77. Segunda tudo volta ao normal pra 1m72.
15h18
Algumas coisas, porém, passam a fazer sentido tão de repente: o cd da Cibelle, o nome dos passos de ballet, havaianas (as legítimas), sashimi de salmon.
15h22
E outras ficam à espera de alguma coisa que resolva: esse dia seguinte, tentando estancar saudades.
15h24
( "Pra poesia que a gente não vive, transformar o tédio em melodia." )
15h27
E essa ausência de quadros na parede...
15h29
E esse ipod amarelo, em que momento da vida se escuta ipod?
15h31
E onde diabos foi parar o cd do Grande Circo Místico, caracolis?!
16h50
É alguma vértebra que não tá legal e que inflama desde o pescoço até o cotovelo deixando o braço direito tão pesado e o ombro completamente inútil. Penso: sofrer de amor não parece tão trágico.
16h54
( "E algum veneno anti-monotonia." )
17h00
Faz sentido também quando Tony gargalha mexendo a mandíbula, e só ele deve fazer isso.
17h04
E esses suspiros que duram o tempo exato dessas saudades, que duram bem mais que abraços esquecidos, que percorrem o exato trajeto da dor que começa na garganta e toma de assalto o cotovelo. No fim é tudo a mesma coisa: dói, e é físico.
17h41
( "Ne me quitte pas / Je ne veux plus pleurer / Je ne veux plus parler / Je me chacherai là / À te regarder / Danser et sourire / Et à t'écouter / Chanter et puis rire" )
17h45
Ne me quitte pas.
18h00
É que às vezes parece que o mundo não faz nenhum sentido quando você não participa do Twitter, sabe?
quinta-feira, julho 09, 2009
The "porteiro da noite" issue
Foi então que o jogo virou: já sob a tão sonhada água quente, pensei que o porteiro da noite sempre, sempre mesmo, está a dormir quando eu chego ao prédio. Ele só acorda quando eu já estou em frente ao elevador, esperando e bocejando, e então o porteiro da noite diz frases sem sentido, me chama de outros nomes e volta a dormir no sofá, imagino até que babe. E então em vez de certa vergonha me deu certa raiva desse cara que nunca, nunca mesmo, cumpre o seu papel primordial de me abrir a porta de madrugada, ou de me orientar quando entro com o carro na garagem para que eu não arranhe ainda mais a lateral direita no caminho estreito entre as pilastras. Foi então também que eu me dei conta de que o porteiro da noite sempre, eu disse sempre MESMO, deixava o vizinho, aquele imbecil, estacionar de forma errada ocupando duas vagas, uma das quais deveria ser a minha. De repente me deu o estalo, eu virei persona non grata na garagem do edifício por causa do porteiro da noite, que obviamente é cúmplice não só apenas do porteiro do dia (quiçá do reboque), como também do vizinho.
Foi então, também, que saí do banho, coloquei um vestido e um sapato de salto, daqueles bem barulhentos e irritantes que vão fazendo tec tec pelo caminho e resolvi que essa noite eu só chegaria ao prédio depois das 3 e meia, quando o porteiro da noite estivesse no melhor do sonho. E de taxi. As instruções para o taxista eram de que embicasse o carro na garagem fazendo estardalhaço e que desse uma buzinada que faria com que o porteiro da noite levantasse de um salto. Então eu adentraria a portaria pisando firme em meus saltos tec tec e falando alto como uma bêbada que chega em casa sem idéia do volume. Com sorte eu estaria realmente bêbada, e com mais sorte ainda eu passaria mal na portaria. Ou no elevador. Se fosse um dia em que os astros conspirassem a meu favor, até o vizinho acordaria diante de tamanha confusão.
terça-feira, junho 30, 2009
O dia em que a Pina Bausch morreu
O dia anterior ao da morte da Pina Bausch foi quando eu resolvi de fato que eu não faria a operação de miopia, mesmo se o especialista em retina dissesse que as degenerações do olho esquerdo não eram nada, o que de fato ele disse.
Nos minutos anteriores ao oftalmologista afirmar que minas retinas estavam aptas à cirurgia eu vislumbrei toda a cena que fatalmente aconteceria se eu adentrasse a sala de procedimentos com aquela touca protetora comprimindo os cabelos. Eu me agarraria na minha mãe, no meu pai e em quem mais estivesse pela frente gritando e chorando e tapando meus olhos com as mãos, como fez a garota loirinha de seis anos que estava na sala de espera comigo, e que não deixava pingarem nela o colírio dilatador de pupilas nem por um decreto.
Eu quis dizer a ela que o olho dela ia arder só um pouco, pior era o meu que exalaria cheiros de queimado. Eu quis dizer a ela que era melhor dilatar logo as pupilas, que pelo menos ela tinha pai e mãe para a levarem para a casa sã e salva num carro onde não precisaria se arriscar a dirigir após a consulta. Eu quis dizer a ela que pelo menos ela não tinha idéia de quem era Michael Jackson, muito menos Pina Bausch.
No dia em que a Pina Bausch morreu eu poderia ter feito uma boa ação para aquela criança, que provavelmente ficou traumatizada com a ida ao oftalmologista e que, assim como eu, provavelmente, nunca mais colocará os pés naquela clínica. Em vez disso eu entrei no carro e vim dirigindo pra casa com os olhos dilatados encolhidos com o excesso de claridade, quase me acidentando de cegueira, vertendo lágrimas dentro de um carro sem trilha sonora, pensando que talvez o meu pai tenha razão quando diz que não precisamos superar todos os nossos medos nessa vida. No dia em que a Pina Bausch morreu eu cheguei em casa viva e sem enxergar de perto, de longe ou de médio. Me tranquei sob as cobertas e dormi dez horas.
O dia em que a Pina Bausch morreu foi o mesmo em que uma aluna nova chegou à minha turma de dança, e após 40 minutos ela perguntou se eu conseguia fazer a aula toda de óculos sem problemas. Sim, eu respondi. Sem qualquer problema.
quarta-feira, junho 24, 2009
Tomar o mundo feito coca-cola
Te ganhar e te perder
Falta eu acordar
Ser gente grande pra poder chorar"
Lulu Santos in O Último Romântico
É que às vezes acontece isso de chorar com uma mesa entre nós, de ficar sombria e engasgada e encrencada numa linha curva de pensamentos tortos, acontece às vezes de enxugar os olhos com guardanapo timbrado, de inundar hastes de óculos gastos e marrons, de esfregar os olhos e ter soluços pequeninos e contritos que tentam cessar essa torrente que se põe a desfiar histórias e lembranças tão de trás, tão de longe.
É difícil dizer se um abraço teria sido consolo, ou se mousse de chocolate, ou se meia, ou se noites clandestinas que viravam refúgios com espelhos nos tetos, tudo isso pra deixar pra lá esses redemoinhos de coisas e perguntas, pra deixar pra trás melancolias cheias de dúvidas que não terminaram e que então desse lado da mesa vêm à tona tão naturalmente como espirros em dias úmidos.
É que quando fica inverno essas coisas jorram: esses humores quase sempre tão disfarçáveis, esses prantos que geralmente sabem que o melhor horário é no meio de uma madrugada sozinha, essa carência de pele e do outro que normalmente se conforma com os suspiros de uma saudade que nunca vira nós dois, essa insegurança que habitualmente se esconde entre piadas e um jeito de ir vencendo os dias graças a risos que não têm por que.
E tosse. E essa letargia, esse estado hipocondríaco que vem com travesseiro, falta de convites para comer fondue e pancadas de chuva à tarde.
É que às vezes acontece isso quando fica inverno: esse frio, esse pulmão congestionado, lenços de papel que vão secando uma porção de lágrimas desordenadas, um medo que só mesmo roupa de flanela, "me dá um beijo então / aperta a minha mão". É que às vezes, com sorte, passa um filme de infância na "Sessão da Tarde".
quarta-feira, junho 03, 2009
Cravo bem temperado
A minha avó faz doces politicamente incorretos que arrepiariam os cabelos de qualquer americano babaca se entendesse que eles vêm embrulhadinhos um a um e se chamam preto-de-alma-branca. A minha avó certamente iria para a corte. Muito embatucada.
Foi a minha avó que disse que eu deveria passar leite de mamão verde nas perebas da sola do pé. A minha avó é assim: ela tem netas que às vezes pisam onde não deveriam. Então, por causa de minha avó, aqui em casa de manhã todo dia tem gritaria quando o leite de mamão verde encosta na primeira ferida. Eu não fico embatucada nem intisicada porque com a dor que dá só tem um sentimento possível de se sentir: solidão. Eu dou pulinhos até o quarto, coloco o pé pra cima e faço origamis.
Verdade seja dita: eu tento fazer origamis. Origamis combinam muito bem com esse sentimento de solidão profunda que a dor te traz: ninguém, ninguém mesmo, nem sua avó nem sua mãe nem sua irmã podem te ajudar.
Avós podem fazer quantos doces indecorosos forem possíveis, que não vai melhorar a dor. Mães podem dizer quantas vezes forem necessárias pra filhas olharem por onde andam que eventualmente elas vão enfiar o pé na jaca. Irmãs podem dividir o sofá todas as noites para verem juntas a novela que não tem jeito, o pé vai continuar queimando. E nem mesmo as três juntas seriam capazes de decifrar os confusos desenhos do livro de origamis, o que me leva à conclusão de que todos os japoneses devem ser também iguais: não-embatucados, não-intisicados, felizes, tranqüilos e zens com acupuntura, yoga, medicina oriental e avós que lhes ensinam desde cedo a fazer dobraduras, porque só assim mesmo pra conseguir fazer girafas e sapinhos saltitantes.
Quando o embatucamento começa a dar lugar à solidão é que o pé já parou de doer e eu já gastei uns cinco papéis especiais e não consegui fazer um cisne. A minha avó diz ‘não se preocupa, na maciota você consegue’. Então a minha avó faz mais uma demonstração de sua experiência e me aconselha a montar meus origamis com o bisneto dela, um rapazinho de três anos, engraçado e serelepe também conhecido como meu primo. Só que meu primo, eu juro, está mais interessado em escutar óperas. Me dou por vencida: no fim de semana faço uma visita de taxi, caminho manca até o quartinho dele e resignada pergunto: quer ouvir um pouco de Bach?
sexta-feira, maio 29, 2009
Argumento
Que virar pelo avesso
Era uma experiência mortal.
Ana Cristina César, Fagulha, dentro de Inéditos e Dispersos.
Toda livraria deveria começar pela sessão de História. Mas assim como todas as outras, essa aqui também tem uma seqüência de prateleiras e corredores que não segue lógica alguma. Dobrando à direita após a Culinária, por exemplo, você chega à Literatura Nacional. Mais à frente ficam os livros de cinema. É a segunda parada, porque geralmente cortamos caminho pela sessão de Design, que é também bastante folheada quando a gente vem tomar café. Tá certo, toda livraria deveria começar pelo café. Comprar um livro sentindo todo o corpo quentinho, com aquele resquício de creme chantilly no fundo do céu da boca. E waffles: comprar um livro depois de ter comido waffles com mel num domingo chuvoso, qualquer orelha ou contra-capa fica com ares de prêmio Nobel, e os filmes dos livros ficam ainda mais clássicos, e alguns mais injustiçados pelo Oscar.
O intervalo no Cinema é seguido por uma espécie de férias, que acontece sempre que chegamos na Poesia: uma prateleira tímida que deveria durar corredores inteiros, que deveriam abrigar sofás e poltronas revestidos por camurças cor de vinho, que deveriam afagar leitores aquecidos por xícaras de chocolates-quentes. O único sofá, porém, fica ali perto da porta da entrada, dando boas vindas aos ventos frios que sopram toda vez que alguém chega aqui.
Perto da gente, sobre nossos joelhos, aterrissam versos e estrofes que nunca vamos comprar. A prateleira de poesia é tão envolvente que resolvemos nunca comprar nenhum daqueles volumes, só pra voltar sempre. A gente opta por se esparramar pelo chão em frente, e resolve colher aos poucos os poemas grudados nas páginas, a cada domingo chuvoso ou sonolento que acorda no fim de tarde com doses de cafeína e açúcar em pacotinho. Escolhemos obras distintas, passeamos pelas folhas até que um de nós comece a falar: sabe, e se eu te contasse que nunca li um livro do Ferreira Gullar? A gente resolve que não é desaforo: tudo bem, eu também não. A gente ri um pouco, olha pros lados, não queremos que ninguém pense que é deboche, não aqui, não a gente, vamos levantar? Só mais esse, peraí, é o que comecei semana passada, é curtinho.
Os livros do Shakespeare estão sempre perto da coleção do Nelson Rodrigues que toda vez eu digo que vou comprar, desde que os meus sumiram na mudança ou foram comidos pelas traças. São pesados e lindos. Os livros, não as histórias. E se eu te disser que não saco nada de Shakespeare? Oras, você não precisa me dizer tudo o que pensa. Mas que tudo bem, cada livro do Shakespeare dessa edição deve valer 3 ou 4 selos no cartão fidelidade.
No caminho até o caixa rodamos o display dos livros de bolso. Ele gira meia volta, pára meio emperrado, a gente descobre que ainda dá tempo, passa por todos os países do mundo e no fim acaba voltando: semana que vem comemos bolo de laranja de sobremesa, tomamos suco pra não entalar e terminamos aquele volume pequeno do Manuel Bandeira se os dois prometerem não revelar pecados na Literatura Estrangeira. Tem dessas coisas, a gente sempre deixa a Poesia com rimas acidentais. E se a gente completar os selos do cartão com Flaubert, de quem também não sabemos muita coisa? Mas e o Shakespeare? Mas e todos os outros? Suspiramos.
A sessão infantil fica do outro lado do caixa. Chama a atenção o colorido, a leveza, os risinhos chacoalhantes que se escutam por ali. Escolhemos aqueles cheios de brincadeiras e sensações táteis onde a língua do cachorro é de veludo, o pêlo do gatinho é de pelúcia e as ondas do mar são de algodão que nem barba de Papai Noel. O banquinho em formato de flor é pequeno demais para nossos 50 anos somados, sorte que somos dois. ‘O rapto das cebolinhas’ era livro ou peça de teatro? E o menino do dedo verde, o que ele fazia mesmo? Eu amava ‘Lúcia já vou indo’, mas quase chorava toda vez. E ‘Marcelo, Marmelo, Martelo’, que tinha o meu nome na capa, que história era essa? E ‘Mamãe Monstrinho’? Será que daqui a muito tempo a gente vai esquecer ‘A Peste’? E se um dia eu não lembrar mais como era ‘Morangos Mofados’? Será que o mundo acaba? E se a gente começar a reler todas essas prateleiras? Abandonamos a poesia, aqui o chão é macio e nunca dói. Mas os infantis ficam fora do caminho, depois do caixa, longe da porta, lado oposto do sofá, nem se vê o Cinema daqui e o cheiro do café não chega. Mas a Poesia fica ao lado da Política. Mas a Literatura Nacional fica bem ali.
Toda livraria deveria começar pela sessão de História, e se a gente trocar de café? Sabe, tem um ali do outro lado da rua, na calçada, sem livraria acoplada, sem sustos ou tropeços, moço, onde fica a auto-ajuda?
domingo, maio 24, 2009
O dia em que eu (não) matei o blog
Antes do Carlos, porém, eu já sofria pressões de todos os lados. Começou quando fiz o Gabriel chorar. Fazer o Gabriel chorar é muita responsabilidade, porque eu nunca vi o Gabriel na vida e de repente ele chegou aqui e se emocionou ao saber que eu transformava sussurros ao pé do ouvido, proclamados por um sujeito loiro, em suicídios. Imagina se o Gabriel descobre que há sei lá quantos anos atrás eu escrevia sobre bolinhas-de-queijo? Seria um leitor a menos, na certa.
Houve então a questão do ciúme dos amigos. Depois do texto que escrevi pro Bruno, os amigos clamaram por declarações semelhantes, coisa que nunca se repetiu. Todos se julgavam merecedores de textos e estudos sobre suas adoráveis pessoas, e eu até concordava, mas nada que eu escrevesse sobre eles parecia ser bom o suficiente, eles ainda se ressentiam do Bruno ter abocanhado os melhores parágrafos. A coisa piorou quando eu comecei a romancear conversas que eu tinha com a Carol. A Bebel entrou numa crise tão grave que há três semanas atrás eu era a principal suspeita no caso da morte (por asfixia) do peixe dela, que morava num aquário daqueles de história em quadrinho, muito vintage e assassino sem renovação de ar. Tenho certeza que a acusação foi um reflexo dessas mágoas ainda guardadas.
Até que veio o Omar, roubou um texto pro site da banda dele e indicou o blog para pessoas importantes que ao lerem os parágrafos seguintes vão achar que estão consumindo posts de uma adolescente emo.
O fato é que os sussurros ao pé do ouvido cessaram de tal forma que meu estado civil mudou de solteira pra encalhada e eu nunca mais consegui falar sobre amores ou paixões, e comecei a espalhar a notícia de que atearia fogo ao blogspot. Eu estava decidida, e ninguém me convenceria do contrário, nem o Gabriel me faria mudar de idéia, nem a perspectiva de ser lida por pessoas importantes, nem se eu ganhasse fãs no Orkut, nem por toda bolinha-de-queijo do Jobi eu continuaria escrevendo.
Até que o Carlos veio com essa. O caso do vizinho foi um ponto alto do seu blog, ele disse. Aí eu paniquei. Eu não quero matar um blog cujo ponto alto foi o vizinho. Eu não posso matar um blog cujo ponto alto foi uma história que aconteceu há sei lá quantos meses atrás. Onde foram parar todas as coisas interessantes que eu tinha pra dizer? Cade meu senso de humor que fazia rir gente desavisada que vinha parar nesse http? O que aconteceu que eu não faço mais o Gabriel chorar?
De uns tempos pra cá eu virei essa pessoa estranha que quer obedecer as leis e rebatizar um blog agonizante de Campos de Morangos. Eu me transformei em alguém que deleta seus próprios textos antes deles virarem arquivo de word, e que escuta música clássica nas tardes de segunda-feira com o tio. Eu de repente acordei e era essa pessoa que vira musa na praia numa foto em que só aparece a minha mão e se acha narcisista de te-la, a foto, na parede do quarto. De lá pra cá eu virei uma pessoa comprometida com o cartão fidelidade da livraria que divido com o melhor amigo. Virei uma pessoa que dorme com travesseiro da NASA e que discute o sexo dos anjos no Keb. Eu virei uma pessoa que come no Keb.
Eu virei uma pessoa que precisa ser convencida a não matar seu próprio blog, que precisa ser convencida de que a falta de tinta de cabelo pode ser poética e trágica, de que a falta de amores e paixões pode ser sarcástica, de que suicídios podem acontecer por causa de um livro ou do Bolero de Béjart, mas seria bom se pelo menos um fosse por causa de arrepios provocados por um beijo no pescoço. Eu virei essa pessoa que precisa ser convencida a superar o ponto alto de seu blogspot, que precisa ser convencida a inventar mais tantos conflitos imaginários quanto forem possíveis. Eu virei essa pessoa que precisa ver de novo assunto nas coisas, e que precisa acreditar no potencial de todas as piadas que são contadas e recontadas nas mesas do Baixo Gávea. Eu virei essa pessoa que cansou da análise e agora precisa ser convencida de que costumava ser boa nessas coisas de contar histórias. Eu preciso inventar novos vizinhos, assim em negrito. Eu preciso de alguém que me defenda, e de dois ou três aplausos inteirinhos pra mim, e então prometo: não mato blog nenhum.
segunda-feira, maio 18, 2009
O twitter é aqui
16h30
Com soluço. Tomar água de cabeça pra baixo funciona?
16h42
Ainda com soluço. Alguém me dá um susto?
17h00
Meus álbuns de foto estão grudando, será que talco resolve?
18h50
Depois de percorrer 5 farmácias, concluo: minha tinta de cabelo está em falta. Isso sim é grave.
18h59
Ouvindo Secos e Molhados, organizando as fotos de dentro da caixa, que também estão grudando. Haja talco!
19h01
O verme passeia na lua cheia...
19h10
Doces Bárbaros, preparando a invasão.
19h11
Tem cantora melhor que a Bethânia???
19h12
Tudo ainda é tal e qual.
19h24
Cachorro tentando comer meu creme hidratante de mãos.
19h32
Indo jantar.
20h40
Seriously. Cabelos brancos ocupando 1/3 da cabeça.
20h45
Soluço de novo. Como faz?
21h00
Indo pro shopping comprar chapéus.
21h50
Seriously. Quem se importa?
sábado, maio 16, 2009
Novembro
domingo, maio 10, 2009
Air France
* Que c'est triste Venise, na voz de Aznavour.
sexta-feira, abril 03, 2009
::
Hoje vi um pedaço da novela das Índias, isso acontece pela terceira ou quarta vez, e todo capítulo é batata: os indianos estão em suas casas na sala, conversando e de repente outros membros da família vão descendo as escadas e todos começam a dançar. A Laura Cardoso fica sentada na sua poltrona dançando com os braços, as crianças dançam sorrindo, as mulheres dançam sorrindo, até o Caio Blat dança sorrindo!, a Juliana Paes começa seus passos e mexe aqueles olhos esbugalhados pra lá e pra cá (e dá muita aflição), e então o Raj (não sei o nome do ator) aparece com aquela roupa de colonizador inglês pós-Nicolas Gesquière para Balenciaga e se esforça muito pra sorrir e encarar tudo com normalidade e entra na dança, literalmente. Então ficam todos assim, dançando loucamente como se não houvesse amanhã, com uma música nas alturas que ninguém sabe muito bem de onde vem.
me pergunto se no próximo jantar em sua residência devemos todos, do nada (porque é sempre do nada, tipo: ei, me passa um brigadeiro? e aí todos começam a dançar) começar a sambar ensandecidamente até o sol raiar.
digo isso por que você já foi à Índia, pode elucidar essa questão?
de qualquer forma, o Xexéo já deve ter comentado sobre o caso em alguma de suas colunas. De qualquer forma, também, baixei sambas diversos, só pra garantir. E por último, de qualquer forma, vai ver nem é tão bizarro assim, vai ver isso é coisa de gente que não consegue entender pra que diabos serve um twitter.
segunda-feira, março 23, 2009
Your skin makes me cry *
Deixe que eu pense que você é do jeito exato que já conheço e que escorre bem para os menores cantos do molde que construí: deixe que eu saiba, como um cego, onde piso e onde pouso minhas mãos: deixe que eu ache que você é de um tamanho previsível, sem alardes: deixe que eu adivinhe o machucado do tombo que vou tomar: deixe que eu decida o que é cilada ou não: deixe que eu pense que armadilha é fazer seu jogo: deixe que eu resolva que é o contrário: deixe que eu possa te catalogar e te resolver em um minuto: e te imaginar com cheiros e deslizes que eu já sei: deixe que eu calcule a hora certa para ceder aos seus apelos: deixe que eu te saiba tão bem que não te precise, mas que eu te queira mesmo assim: deixe que eu te queira: deixe que eu te invente e te conduza pro final que eu escrevi: deixe que eu me dê como inventário pros seus olhos: deixe que eu me exiba como vitrine pros seus braços: deixe que eu te preencha um pouco: deixe de lado essa mania de ser tão como eu imagino que você seja: ande querido, já está na hora: venha logo: deixe que eu me surpreenda.
* So fucking special.
Radiohead em Creep.
terça-feira, março 17, 2009
Antes de dormir:
:: "Sua enorme inteligência compreensiva, aquele seu coração vazio de mim que precisa que eu seja admirável para poder me admirar. Minha grande altivez: prefiro ser achada na rua. Do que neste fictício palácio onde não me acharão porque - porque mando dizer que não estou, 'ela acabou de sair'." Clarice Lispector em Para Não Esquecer