segunda-feira, abril 18, 2011

I could just remember how my father used to say that the reason for living was to get ready to stay dead a long time. 

William Faulkner in As I Lay Dying.

Faulkner e sua máquina de escrever. Outros autores fazendo o mesmo, aqui.

domingo, abril 17, 2011

Parênteses


Foi num almoço de fim do dia que uma amiga sorridente mais uma vez concluiu que sexo faz bem pra pele. Do lado de cá dos heterossexuais não praticantes, eu rebati que Hipoglós e produtos Avène também são ótimos, especialmente quando ministrados por uma boa dermatologista. Aí o Antonio Prata escreve esse texto sobre queda de cabelo e eu começo a desconfiar: somos almas gêmeas.

sexta-feira, abril 15, 2011

Ensaio sobre a umidade

(trilha sonora sugerida: Get me Away From Here I'm dying, Belle and Sebastian)


Já faz alguns anos desde que me instalei nessa casa que ainda acho que é nova. Sempre morei noutro lugar e não estabeleci uma relação de tempo confortável com nenhum dos endereços. Acho que já estou aqui há tempo suficiente pra ir embora, parece que saí do outro apartamento numa vida anterior, porém quando me acho por lá, não sei. Não chamo mais nenhum dos lugares de lar, faço planos de pintar as paredes e arranjar novas mesas e quadros, mas deixo pra depois porque algo me levou a crer que ambos os CEPs eram temporários.

Divagações à parte, eu pensava neste 102 de agora e em como, um dia que não sei precisar, abri as portas do armário de sapatos e vi uma fina camada esverdeada que cobria tudo. Não chegou a ser uma surpresa. O cheiro dos outros armários denunciava que a umidade por aqui era maior que no resto dos lugares, e isso eu percebia toda vez que me vestia para sair e sentia certo calor na rua. A sensação térmica do meu apartamento e o aroma duvidoso que começava a se impregnar nas roupas deviam ter sido alertas suficientes pra correr para a corretora mais próxima, ligar para o Procon ou, no mínimo, traçar um plano de combate ao mofo, que começava a dar provas de seu caráter implacável.  

Eu ainda não conhecia todos os paradoxos da umidade, e tudo o que sua presença neste apartamento implicaria: restaurações, zelo, nostalgia, desapego, faxina, anti-histamínico.

Numa linha do tempo imaginária, diria que a minha personalidade ficou marcada pelas sucessivas vezes em que abri as portas do armário dos sapatos e, esperança em punho, fui vencida pelos fungos que se apoderavam da minha coleção de sapatilhas. Usasse substantivos para descrever cada fase da minha luta contra o mofo, começaria por ingenuidade. No meio caberia um breve período de êxtase, seguido de meses intermináveis de desespero, e por fim, rendição.

A era da ingenuidade durou pouco, felizmente. O otimismo que veio junto com a pilha de Secar e Pingu adquiridos no supermercado durou o tempo que os potes com cloreto de cálcio demoraram pra absorver a umidade dos armários e quase transbordar: 24 horas. Entendi que teria de pegar em armas mais pesadas e comecei a desprezar os conselhos de gente pacifista que achava que fórmulas como água morna e vinagre poderiam trazer algum tipo de benefício aos meus calçados. Iniciei um período de intensas pesquisas e limpezas, e quando voltei a acreditar que seria possível vencer a praga que começava a se alastrar para as bolsas e jaquetas, me deparei com algo que fez toda a minha crença tombar por terra: os álbuns de fotos começavam a ser tragados pelos fungos.

Boquiaberta (atrás de uma máscara cirúrgica que amenizava a aspiração de ainda mais ácaros e afins), folheei álbum atrás de álbum e comecei a ver sorrisos derretidos, abraços grudentos e afetos estragados. Diversas imagens 10 X 15 se agarravam aos plásticos dos álbuns de retrato e fundiam-se neles para jamais saírem dali, tumbas definitivas para lembranças que eu não queria esquecer. Eu me sentia derrotada. A umidade começava a destruir não apenas as coisas de verdade, mas também um passado organizado, feliz e seco de gente que agora mofava nas minhas prateleiras.

A fase mais radical e prolífera da batalha começou com essa constatação, com a chegada do inverno e de uma máquina que impunha respeito no meu quarto, diagnosticado como o ponto mais úmido da casa. Um desumidificador vinha pra ridicularizar ainda mais qualquer tentativa anterior de salvar meus pertences do aspecto aveludado que o mofo conferia a tudo. Segui rigorosamente as instruções da máquina que anunciava um novo tempo e fui acordada por apitos da mesma, por volta das duas da madrugada: ela atingira sua capacidade máxima de absorção, e me presenteava com cerca de 5 litros de água armazenados em seu compartimento. Esvaziei a máquina e começamos de novo. Às 10 da manhã, mais apitos. Durante uma semana a rotina de despejar a água na varanda se repetiu à exaustão. O sorriso ao abrir as portas dos armários também. O desumidificador era mágico, eu era feliz e me deixei levar por esses dias em que deitei de lado os panos e materiais de limpeza. Naquele inverno comprei uma jaqueta de couro e planejei dominar o mundo: eu ia convencer os moradores da minha rua e de outros focos de mofo da cidade a comprarem a mesma máquina que eu, e juntos iríamos desumidificar nossas casas e produzir água. Comecei a armazenar litros e litros de água e já previa as manchetes dos jornais, anunciando mega obra para construção de dutos que levariam nossas águas para abastecer diversos locais necessitados. Eu seria líder do movimento “água para todos”, cogitava até virar mártir porque certamente a minha empreitada geraria tramoias, crimes e sangue.

Minha derrocada começou justamente aí. Tomada pela megalomania que meu plano exigia, comecei a desencanar dos fungos, das sapatilhas, das fotos e de tudo o mais que estava à minha volta. Ocupei-me de tal forma em reaproveitar a água produzida que esqueci dos cuidados que o meu ambiente pedia. A primavera terminava, eu escrevia cartas para as autoridades, me inscrevia em editais e estava cega à vingança silenciosa que a umidade tramava. O destino não é criativo e a treva se abateu sobre mim da mesma forma que outrora, ao abrir as portas do armário de sapatos. Mas já era tarde, eu subestimara a natureza e comecei a cavar minha sepultura quando, ao me deparar com a camada esverdeada que cobria as sapatilhas, espirrei compulsivamente. A sentença era clara: eu estava alérgica e descalça.

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Uns sugeririam budismo, e teria sido o momento propício de me agarrar à fé, já que tive de me desfazer de metade dos sapatos. A jaqueta de couro, argh, teve o mesmo destino. Eu simplesmente não tinha mais ânimo, coragem ou estômago pra limpar ou salvar minhas roupas. Os paradoxos se estabeleciam. Eu praticava o desapego.

Guardei as energias para as fotos, que limpava com ardor. Tirei todas as impressões de dentro dos álbuns, arejei, sequei, testei todas as técnicas e os conselhos que me foram dados: cânfora, carvão, giz, vinagre, por momentos me julgava ingênua de novo, pobrezinha, tive até pena de mim. Acreditei ter salvado os retratos, respirei aliviada depois de uma sessão de nebulização.

Eu segurava o telefone com uma das mãos enquanto esperava a secretária do alergista encontrar o melhor horário para mim. Eu tentava alinhar os quadros nas paredes com a mão livre quando um grito de horror se libertou da garganta. As litografias apresentavam os sinais da peste. O mofo arrebentava lacres, vidros e varria tudo: os cds mofavam, os livros, os dicionários, as revistas.

Estabeleci uma rotina de faxinas minuciosas. Pedi demissão. Terças e quintas eu me dedicava aos armários de roupa e sapatos. Segundas e quartas eu limpava fotos, músicas, páginas e páginas de poesia. Inevitavelmente, enveredei pelas rimas pobres onde amor só combinava com dor. Aquele ritual de abrir baús e caixas e se deparar com o passado começou a me assombrar. Os términos de namoro, as amigas que se afastaram, de repente me via discutindo relações remotas com gente que me olhava com desconfiança, porque eu começava a reviver aqueles dias e paixões sepultadas pelo tempo. A umidade me tornou nostálgica de um jeito irreversível. Eu queria seguir adiante, me libertar dos fantasmas, mas eles voltavam duas vezes por semana: verdes, bolorentos, mas ali, imortalizados em sorrisos quase apagados e que por isso mesmo se tornaram inesquecíveis. Fixei na minha mente todos aqueles rostos, encomendei um carregamento de ginko biloba e revistinhas de palavras-cruzadas. Eu só podia contar com a minha memória. Meu coração, tomado pela pieguice e pela lógica que consumia tudo o que morava comigo, começava a mofar também.

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Foi um período de contradições e gastos extraordinários. As litografias foram recuperadas e os livros também, embora alguns versos tenham ficado para sempre incompreensíveis. Me desfiz das revistas e dos dicionários, com suas tendências e ortografias superadas. Aproveitei a promoção da Zara e repus alguns dos sapatos. Tentei baixar meu nível de exigência, mas até as Havaianas pareciam contaminar-se do mofo, de modo que continuei comprando sapatilhas.

A umidade alterou meus hábitos, minha saúde, meu mundo material. Ao mesmo tempo em que desenvolvi T.O.C., por motivos mais que óbvios, comecei a me sentir à vontade em ambientes não aprovados pela Vigilância Sanitária. Albergues, motéis, banheiros públicos, não que eu frequentasse qualquer um desses espaços, ganharam meu voto de confiança. Minha alergia galopante consumia caixas e caixas de Allegra D e lenços de papel, e minha congestão ininterrupta me fez parar de fumar, questão de sobrevivência. Minha vida social sofreu abalos profundos. Ocupada que estava em salvar minhas coisas, parei de sair, de telefonar, de ver o mundo. Eventualmente ia à praia, onde me esturricava pra ter certeza que toda e qualquer umidade agarrada à minha pele se evaporaria em questão de uma tarde. Funcionava, eu acho. Nesses dias eu retomava minha juventude, encontrava pessoas, combinava programas, confessava saudades. A reciprocidade, porém, foi diminuindo à medida que todos percebiam minhas obsessões.

Quando, um ano depois da restauração das litografias, percebi novamente os sinais dos fungos ultrapassando as molduras e vidros preparados com material anti-mofo, joguei a toalha. E joguei fora fotos, livros, discos e uma sorte de objetos. Eu já não controlava o tempo que envelhecia precocemente tudo, eu estava apática e pálida, cansada. Concluí que essa casa nunca seria minha porque todo o espaço ali estava tomado por essa força capaz de afundar tudo. Numa fúria mais intensa que os estragos provenientes do mofo, joguei o pouco que sobrava pela janela. Chorei por três dias e três noites, liguei o desumidificador, produzi piscinas de água, decretei vitória ao inimigo e enfim, encontrei um CEP seco, livre desta merda chamada umidade: comprei passagem só de ida para Brasília.






segunda-feira, abril 04, 2011

Escolhas

(ou: um post com 3 epígrafes)
Hanging on in quiet desperation is the English way / The sun is gone, the song is over, thought I’d something more to say.
Pink Floyd em Time.

(...) and we feel really shitty that we don’t have the guts to tell you in person.
Kurt Cobain, em carta de 1988 onde despede seu então baterista.

A morte começa de muitas maneiras (...).
Michel Laub em Diário da Queda.

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Sempre achei que havia, ao menos, duas maneiras de traduzir “it’s the end of the world as we know it and I feel fine”, e incontáveis formas de lidar com a música numa pista de dança, desde que haja fôlego, paixão, boas pernas, uma dose a mais de vodca ou só mesmo desinibição. Domingo de manhã, sóbria como poucas vezes estive na vida, agradeci a invenção de djs, virei pro lado e dormi até as cinco horas da tarde, porque esse era o meu jeito de morrer um pouco aquele dia.

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Dizer que você é fantástica em meio a gargalhadas, dizer que você é fantástica em meio a lençóis, dizer que você é fantástica no meio de um debate de ideias, no meio do choro, no meio da rua, no meio do bloco, no meio dessas confusões de veias, salivas e retinas. Dizer que você é fantástica por escrito a uma distância segura no meio de um temporal, em vez de elogio, constatação ou deslumbramento, é provável que seja só adeus, e precipitado quando nem deu tempo de ficar.

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Morrer segue lógica parecida. O tempo é sempre insuficiente, e morre-se vivo ou morto, por pior que seja essa frase. Jogar-se do sexto andar ou impedir que as pessoas tenham acesso a você. Estatelar-se num baque seco contra o chão ou ignorar o outro e lhe fechar todas as portas que aparecem pelo caminho. Arrebentar ossos no desespero de deixar tudo pra trás. Encerrar conversas, cortar toda a interlocução porque é mais fácil, rápido, quase indolor e condizente com a sua incapacidade. Desligar o telefone, ignorar pedidos de socorro, contar com a sorte de que todo mundo vai entender quando seu egoísmo engolir tudo em volta.

Esconder-se em quartos e casas onde fatalmente as gentes desistirão de insistir, por cansaço, solidão ou conformismo. Mostrar-se pela última vez ao mundo estirada em concreto numa poça de sangue que testemunha alguma esquecerá, não importa quantas vezes dance sem olhar ao redor, não importa quantos bilhetes suicidas tentem justificar, não importa quantas pessoas digam na sua frente que você é fantástica, te abracem e saiam de fininho prometendo voltar, sem bater a porta pra não te acordar.

terça-feira, março 22, 2011

A self-portrait

An eternal dreaming full with the sweetest excess of life 
Disquieted,
With uneasy pains within, in the soul.
Blazes, burns, grows for a fight,
heart smite.
Because of and insane astir with stirring desire.
Powerless is the agony of tought, meaningless, to reach toughts.
Were the language of the creator to speak and were there
Demons! 
Break the violence!
Your language,
Your signs,
Your Power. 

Egon Schiele, 1910.

Broadway

Fiz minhas malas de novo, peguei um trem pra longe e entre hambúrgueres e sopas de tomate resolvi ir além. Trem, pontes e marrecos pelo caminho, lagos que pareciam cercados de trigos, não tinha sequer como fotografar. Subi um caminho que poderia ser uma pintura do Hopper, vi tanto espaço e luz que dancei por entre riscos e cores. Tudo ali pode parar o tempo, e é pra esses lugares que sempre quero voltar: um castelo do século XVIII, uma praia onde se criam tartarugas, um jardim cheio de esculturas, a tela de um pintor. Virei a barra da minha calça jeans, cruzei as pernas, mas a pose funcionaria melhor se fosse você. Entendi que não se pode listar quadros que nos fazem nascer de novo, tampouco contar os blocos que nos separam de uma foto inesquecível. Qualquer cidade nova me faz andar. It might just be fantastic, don’t get me wrong*. Enchi a cara e ainda sinto os efeitos: ando alcoólatra esses dias, tomando apple martinis imaginários que me reviram o estômago como você faria, se pudesse. Guardei tickets, ingressos e ainda algumas poucas atrações para poder voltar, além de uma folha seca pra minha coleção. Apertei tanto os amigos que juntos explodimos e combinamos um dia, talvez, voltarmos a viver na mesma cidade. Combinamos também dias num barco, com sol. Não encontrei vazios ou buracos no skyline, não me escondi do vento, não economizei nos vestidos. Cruzei com tantas pessoas interessantes, teria feito tantos retratos quanto pudessem os negativos, mas depois do segundo dia perdi o foco. Fiz um novo álbum de viagem e voltei pra casa sem nenhum caderno a mais na bolsa. Eu soube ouvir e conversar sobre todas as coisas sem qualquer tropeço. Eu coube com perfeição entre você e as almofadas do teu sofá, e combinei de namorar o Daniel. Eu fiquei meia hora parada em frente a um Klimt e não vou saber explicar. Sempre chego inteira nos destinos e saio deixando pra trás alguma coisa. Dessa vez eu diria que foram as pernas, mas ainda não inventariei meus órgãos vitais pra ter certeza de que estão todos aqui. No trem de volta batia um sol no rosto e o ipod adivinhava tudo. De repente era possível ser estupidamente feliz. Será que se a gente tivesse mais das coisas, conseguiria saciar a saudade delas?



* Pretenders in Don't get me wrong.

quinta-feira, março 10, 2011

Noturnos


Para a minha coleção de palavras: cacofonia, desfraldar, pestanejar, negligenciar, mas não adianta, desaprendi a costurar. Penso cenas e pessoas em câmera lenta, penso o silêncio que não sei mais onde, penso os teus dentes ligeiramente trincados e, num estalar de dedos, você. Teu jeito de me ver sem se desculpar por me achar tão linda. Tudo de novo. Roesse as unhas e minhas mãos estariam em frangalhos.  Eu pergunto se isso que cobre a tua camisa é suor ou chuva e já sei a resposta. Minutos depois estaremos os dois despidos, tuas mãos pelos retalhos das minhas costas, escoliose e os teus calos, todo o nosso folclore reencenado. Penso destemor, cangote, superlativo, seqüestro. Penso em ter alguém com quem ser sensível. Li isso num livro. Demolir, vastidão, anarquia. Derrubar governos: não é isso que fazemos os dois quando juntos e vencidos? Caio num sono de inverno, acordo em outro país. Penso: tumulto.

segunda-feira, março 07, 2011

Reminiscências

(ou: a evolução da liberdade)

Praia de Ipanema, fevereiro, 2006 –

Orgulhosa de uma trança postiça que me serve de fantasia e alheia a toda a areia que entra pelo tênis, arquiteto com o grupo de amigos qual será o próximo bloco daquele dia. É sábado de Carnaval e bem perto de nós, dois ou três gringos bebem cerveja e observam tudo ao redor. Eles são o Franz Ferdinand, nós somos 6 ou 7 bêbados que resolvem se refugiar no meu quarto quando a chuva começa, porque não queremos nos separar, porque somos o epicentro dessa epidemia contagiante que faz qualquer um aprender a sambar, porque embora ainda tenhamos muitos dias de folia pela frente não queremos desperdiçar nenhum segundo. Acabamos de perder a cabeça juntos, dividindo os últimos toddynhos da despensa e os cobertores quentinhos da minha casa. Antes das seis da manhã a Bebel vai tocar o interfone, parte do grupo vai seguir serelepe para o Boitatá. Você e eu, ressacas e vontades semelhantes, vamos dormir até mais tarde, reintegrando a trupe depois do almoço. 

Búzios, fevereiro, 2007 –

Junto pequenos círculos de diferentes cores de tule com linha e agulha, são os detalhes finais da minha originalíssima fantasia de Colombina. Ela é uma cópia de um modelo da infância que minha irmã combinava com gel de purpurina no cabelo, nos anos 80, sabe-se lá onde. Ao embalo da rede eu alinhavo com calma as rodelas, dou alguns palpites no papo dos amigos cineastas sem poder imaginar que em cerca de uma semana estarei segura e ofegante na estação Carioca após um quase esmagamento em decorrência do Cordão da Bola Preta. Mais um sábado de Carnaval, dessa vez reúno forças para o amanhecer na Praça XV, de onde saio bem depois do meio-dia à procura de Coca-cola, ventilador e relaxante muscular.

Praça XV, fevereiro, 2008 –

É domingo de Carnaval e parte da minha saia de Colombina ficou presa num gelo baiano da Gávea no ano anterior quando ia de encontro a um bloco que não existe mais. Não sei como estou de pé, mas algo me diz que é preciso ter fé mesmo sob dilúvio. Estou de volta ao lugar onde a folia é mais feliz, onde executo pulos e coreografias que independem das minhas pernas.  Algo, porém, mudou. A cerveja não desce, a capa de chuva não impede que meus óculos se alaguem e meus pés afundam em poças até que começo toda a sentir frio. Entro num taxi com vontade de chorar: cadê meu Carnaval de arremesso de serpentinas, de beijos roubados, de alegrias desmedidas, de estandartes e Sanatórios Gerais?

Praia da Barra, fevereiro, 2009 –

Mergulho no mar, bóio e quase não noto quando o celular é levado por uma onda. É segunda-feira e eu não vi o Boitatá passar. Não corri risco de vida no meio da multidão suada. Não deixei rastro de confete ao entrar em casa porque a água das mangueiras de Santa Teresa lavou todas as provas de que estive no Céu na Terra daquele ano. Ninguém desconfiou quando afirmei que não fui às touradas em Madri e descobri como sobreviver a mais um mês de Fevereiro. 

Inhotim, fevereiro, 2010 –

Cansamos de especulações acerca da sexualidade de Zezé e nos refugiamos no meio de obras de arte. É quarta-feira de Cinzas na estrada, um padre e um índio me fizeram perder, um dia antes, a Orquestra Voadora e mais tarde juntos na praça Pio XI preferimos deixar o Último Gole pra trás. Nos recolhemos já foscos, cansados, sem disfarçar suspiros e uma saudade tímida do Empolga às 9h de quatro anos antes. Paramos o carro para esticar as pernas e conferir o mapa. Não sabemos da massa fresca que nos espera pro jantar, tampouco adivinhamos que um quadrado mágico número 5 pode ser mais divertido que entoar marchinhas da década de 30 cercados de gente que ostenta antenas, agora ridículas, na cabeça. Dentro de poucas horas estaremos libertos, convencidos de que podemos viver sem mais um Carnaval e sem toda aquela gente bronzeada e feliz arrastada pelos cordões. Brumadinho é o nosso grito do Ipiranga.

Rua Capitão Salomão, Botafogo, março, 2011 –

Já não me importa o caráter de Aurora, há tempos que o amor de Pierrot e Colombina parece mais sem sentido que qualquer um dos meus ex-namorados e não suplico mais pra que você não me esqueça ou não desapareça. Bandeira branca, amor. Não posso mais, e ainda assim lá vamos nós. Esvaziamos latas de cerveja sem muita convicção e todas as conversas convergem para aqueles anos dourados onde éramos felizes dentro de narizes de palhaço e metros de poliéster, e onde fazer xixi na rua era condição sine qua non dum Carnaval de rua sem banheiros. Entre uma melancolia e outra, a vendedora de cerveja informa que estou resistindo bravamente a mais uma festa de Momo sobre o cadáver de um rato cujas tripas estão para fora. Estamos em frente à casa da Matriz, qualquer menção a Ozzy Osbourne seria plenamente justificável, mas um rato morto com as tripas para fora me põe a correr antes mesmo do batuque começar. Em poucos minutos estou com um grupo de amigos desiludidos gastando fortunas num de nossos restaurantes preferidos. Crônica de uma morte anunciada, somos defuntos cabisbaixos querendo passar adiante todas as idéias de fantasias que prometemos nunca mais usar. Caímos de boca na vodca, uma Madonna e um Robert Smith se juntam a nós, e de repente lá estão novamente o padre e índio do ano anterior, ambos mais velhos, com menos alegorias e adereços. Eu vomito todo o risotto de limão siciliano, horas depois, no aconchego do meu banheiro. Minha bota que, mais cedo, supostamente esmagara as tripas de um rato, repousa na varanda até que a terça-feira de Carnaval me acorde.

Recebo mensagens de amigos que ainda não perceberam que estou liquidada, velha ou tanto faz. Por sorte tenho um vôo a pegar. Amanhã, eu sei: luvas e o direito a uma alegria fugaz: todos os quadros do Hopper só pra mim.

sexta-feira, março 04, 2011

Estação Vivo Gávea

Acomodados nas poltronas da fila E, distância ideal entre nossa emoção e a tela, ele vai propor um combo de guloseimas, pedirei licença com ar de quem não queria incomodar, voltarei com doces além da conta, que me acudirão quando achar que não poderei mais evitar a explosão de tanta lágrima. Ele vai ficar com os dedos melados de tanto sal, nossas barrigas proeminentes de tanta Coca-cola, nossos peitos comprimidos por tantas indicações ao Oscar. Disfarçaremos a vermelhidão dos olhos atrás das hastes que nos corrigem as miopias, compraremos chicletes pra tirar o gosto, ele me beijará na fila do pagamento do estacionamento. Ele confessará que chorou naquela outra parte também, que sentiu insuficiência de pernas quando levantou junto dos créditos. Eu vou sorrir devagar, dizer que entendo. Ele me perguntará se sinto esse frio na barriga, às vezes. Ou contorções do estômago. Confessarei que as minhas borboletas não habitam meu abdomem, que elas voam pelos meus pulmões.

sábado, fevereiro 12, 2011

Carta a C.S.

Bom dia, comunidade!

De fato, é noite enquanto te escrevo. Mas já vai tanto implícito na saudação que vale a arbitrariedade. Hoje fiz coisas que você adoraria fazer e portanto não pude mais adiar esses escritos. Ficar pelada pela casa, por exemplo. Fazia tanto calor que não havia alternativa. Ouvir Marina no repeat umas quinze vezes. Gosto tanto de “Acontecimentos” que se o som empacasse nela pra sempre eu não me incomodaria, embora tenha certeza de que três dias depois ia querer ficar surda. 

E engordei a lista de livros que você e Luis acham insana. Também estou começando a achar. Talvez se eu resolvesse esses impasses afetivos e profissionais passaria mais tempo dedicada a outras atividades. Mas agora não dá. Comecei a ler os clássicos e alguns parecem irresistíveis. O foco agora é preencher essas lacunas e com sorte terminar, ainda em 2011, um romance do Eça que, ora pois, é a coisa mais chata do planeta. Como disse alguém outro dia, estou lendo a passos de cágado centenário, e sempre prestes a abandonar e queimar o exemplar em praça pública.

Guardei um Caio F. pra quando chegasse esse momento de desilusão em que começo a achar que nunca mais vou conseguir passar da página 229. Verdade seja dita, não é o Caio F. em pessoa, mas memórias de uma grande amiga dele. Paula Dip. Não é um ótimo nome? Pra minha surpresa, Paula Dip está no Facebook. Ando com essa mania de procurar pessoas na rede, de wikipediar tudo. É uma síndrome esquisita. Quando dei por mim estava vendo as fotos da Paula Dip, um álbum inteirinho só de retratos do Caio. Ele realmente existiu. É uma loucura pensar que escritores existem. Eu já estava na sexta ou sétima linha de uma mensagem pra Paula Dip quando resolvi apagar tudo, achei que seria bem cafona enviar. Chorei potes quando ele morreu no livro. Chorei potes quando concluí que já tinha lido tudo dele que foi publicado, há uns anos atrás. Choro potes toda vez que ele se vai.  

Chorar com essa alergia, aliás, tem se mostrado tarefa árdua. São lágrimas e secreções que inundam tudo o que vêem pela frente. Sei que ando meio obcecada com essa questão alérgica, não deve ter graça nenhuma ler sobre o assunto. É que fui atingida em cheio, e tão subitamente que ainda não sei como lidar. Do dia pra noite passei a avaliar remédios de nariz. Afrin, que era tão promissor no começo, provou-se um embuste. E lenços de papel? Eu poderia escrever um tratado sobre eles. Dava meu reino por um carregamento de Softy’s até poucos meses atrás. Hoje em dia eu mataria por um patrocínio da Kleenex.

Gravei pro Marcelo outro dia um cd com esse nome: Kleenex Songs. Estou ficando muito boa nessa coisa de inventar nomes pras trilhas sonoras dele. Se eu te dissesse que fulano tem muita opinião sobre móveis, você poderia vislumbrar algum aspecto da personalidade dessa pessoa? É que Marcelo tem. Opinião sobre móveis. Outro dia disse isso pra ele, que achou graça. Mas é verdade, o que se há de fazer. É bárbaro. Adoraria ter esses achismos. Embora você tenha certeza de que temos opinião sobre tudo, ainda não acho que seja assim. Não é só a aula de ballet do francês (ou o que quer que seja) que fica nesse limbo de coisas indefinidas. Nem só aqueles textos. Eu te daria vários exemplos. Acho que acabo tendo convicções em relações a coisas muito banais. Tipo queijo coalho, sorvetes e afins. Ou presunto. Marcelo, aliás, é uma das raras pessoas que entende a ciência de abominar presunto e de se sentir ofendido quando as pessoas perguntam “mas e presunto de Parma?”. Oras, é a mesma coisa! Marcelo e eu somos cheios de tambéns. Às vezes tenho certeza de que a gente se conhece de outras encarnações. De alguma vida na Grécia Antiga, batendo papo em togas antes de praticar lançamento de disco. Do descobrimento do Brasil, talvez. Provavelmente da Revolução Francesa, antes de nossas cabeças aristocráticas rolarem.

(Uma lâmpada acaba de despencar do teto e eu tenho certeza que é Caio Fernando Abreu fazendo contato.)

Uma coisa é certa: eu sou potencialmente mais agradável quando desempregada. Deve haver um jeito de conciliar trabalho com o resto das outras coisas.

Outra conclusão, que veio junto com a sexta-feira: as pessoas realmente adivinham. Quando estão prestes a serem enterradas vivas elas se fazem ressuscitar por mar, por terra ou via Embratel. Tento teorizar e pensar se isso é saudade em sincronia, ou algum tipo de ligação esotérica que meu ceticismo não consegue explicar. Parece muito sacana. Parece que elas percebem a tentativa de assassinato. É um tiro nas costas. Se você tiver algum palpite, Carol, por favor, não hesite. Fiquei um pouco perturbada com isso. Com medo de não conseguir me livrar nunca dessas pessoas, entende?

Se você não me responder vou explodir. Não é uma ameaça, é uma constatação.  

Eu espero acontecimentos, cachorro-quente e tudo o que você tiver pra mim.

Muitos beijos,

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Clínica São Vicente


Fiquei doente ontem pra justificar toda a miséria que se abateu sobre mim na terça-feira. Faxina é uma merda. Etiquetei os cadernos e aquela nossa mania de estar juntos veio à tona, e também todos os espirros possíveis, e tanto mais. O suprimento de Kleenex não foi suficiente. Deve haver alguma poesia em gastar todo o lenço de papel da casa enquanto escrevo pra você. Antes fosse só alergia.   

Joguei uma caixa de ingressos de cinema no lixo. E uma tonelada de músicas. Amoleci quando encontrei um resto de areia e perdi a coragem de me desfazer de tudo. Algumas coisas insistem em ficar. Maresia, retratos, bilhetinhos cheios de garranchos embriagados e aquele sopro de ar que você trazia pra me ver sorrir. Perdi a hora gargalhando com todas as mensagens, perdi a conta com todos os suspiros, perdi alguma coisa de tão grande quando fiquei sozinha que nem sei direito o que te pedir de volta.

Dormi sentada, de duas em duas horas: um puff de Rinosoro 3% em cada narina. Amanheci na emergência e fiquei por lá, derrubada perto dos médicos que insistiam em repouso e muito líquido.

Recebi uma visita, tive alta no fim do dia. Pensei em te ligar pra reclamar do preço abusivo dos sucos.

domingo, fevereiro 06, 2011

Entreouvido num batizado

Padre – Você é casada?

Julieta – Não, padre.

Padre – Mas vai se casar?

Julieta – Quem sabe, né Padre?

Padre – Vai sim, minha filha. Encontre seu caminho!

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Previsão do tempo

(para Clara)

Toda vez que chove desse jeito eu queria estar fora do carro, mas é sempre São Conrado e túnel e eu fico cercada de vidros sonhando com aquela enxurrada na cabeça. Toda vez que a gente volta àquela praia e dá um mergulho no mar depois de todo o suor a gente jura que a vida pode ser simples assim. Ainda acredito, também, nas promessas dos xampus, embora cada pote seja uma decepção. Minha mãe outro dia disse que sabão em pó era bom pra quando você quer espirrar e não consegue. Eu cheirei metade da cozinha e nada: sabão em pó, pimenta, shoyu, curry, gengibre, e lembrei de como era bom o cheiro do leite em pó. Lembrei também que a gente sempre espirra quando menos se espera, especialmente quando se tem um moreno bonitão a poucos centímetros de distância. Ou, claro, quando limpa armários. Espirrar nos outros deve ser piada, vingança ou muito amor.

Mais amor ainda é quando o guarda-sol não voa na praia, e redenção é não se afogar em meio às ondas e sujeiras do mar do Leblon. Escapar dessas ciladas, encontrar bicicletas para alugar e mais uma sorte de gestos e atos são coisas pelas quais vale à pena se iludir um pouco, nem que seja pra depois xingar alguém ou escrever barbaridades que jamais serão enviadas: está quente demais para medidas drásticas. Quente demais pra querer reviver encontros ou pra se deixar levar por uma conversa mole em meio a chopes. Toda vez que faz esse verão eu queria litros intermináveis de Afrin, hidratante de mãos e todas as demais possibilidades de ficar no ar-condicionado com conforto. A gente continua procurando a locadora de vídeos perdida. Eu sempre faço planos de ir bastante ao cinema, mais pela contravenção de vestir meia fora de temporada que pelos cartazes. Eu sempre acho que no verão os sapatos vão ficar livres dos fungos, e que dois banhos gelados por dia são suficientes. Eu dispenso sacolas plásticas o ano todo e reciclo todos os meus papéis pra poder gastar toda a água do mundo. A gente sempre faz piada de que só falta o eucalipto.

Toda vez que a gente vive um janeiro a gente investe nas sombras, no leque e num plano triunfante pra fugir dos blocos e do cecê da massa. Acreditamos que não chegaremos com vida a abril. Eu sempre penso que emagreço dois ou três quilos. Minha mãe insiste na melancia e orienta sempre ter cuidado com as latinhas que encontrarmos atrás do trio elétrico. Todo o Carnaval tem seu fim e a gente ludibria a ressaca exalando fator de proteção no baixo bebê. 

Eu sempre cogito: e se esfriasse de repente?!

Toda vez que tem esse bafo sobre as nossas cabeças, é batata: a previsão é de pancadas de chuva em todo o estado.Só basta acreditar.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

entrevista

Is there any artist you regret failing to snap up before they became famous?
Vermeer, Velazquez, Van Gogh. And that's just the Vs.

(...)

Do you feel responsible for the British art scene as we know it?
No.

Is ego a part of that?
I don't seem to have given you the answer you wanted above. Sorry.

Charles Saatchi in "My name is Charles Saatchi and I'm an artoholic", ed. Phaidon.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Waffles com mel - cena 2

O café está cheio, pelos ruídos da porta já se pode afirmar. Esperamos menos que cinco minutos, vemos sair tantas pessoas sozinhas que consomem com rapidez seus goles, deixam sobre as mesas as moedas, disfarçam a melancolia em pressa. Ela não. É uma dessas que, como nós dois, dedica o fim da tarde de domingo àquele lugar. Em meio a revistas, jornais e gestos vagarosos, tudo nela parece um espreguiçar do tempo: cabelos grisalhos, mania de rabiscar, um jeito de sentar meio de lado, precisão de movimentos que muitas vezes ficam suspensos, uma mania de levar a colher a boca erguendo com exagero o cotovelo, quase um ballet.

Desde a primeira vez que a vimos eu achei que a conhecia de algum lugar, você disse que ela se parecia com aquela atriz e eu concordei. Inauguramos uma época em que a senhora grisalha era centro das nossas atenções.

Fazíamos nossos pedidos habituais e começávamos a inventar mundos inteiros pra ela. Difícil adivinhar onde pousava sua atenção, parecia mirar um ponto sem jamais fixá-lo. Parecia cansada de todas as bobagens compreendidas em diálogos. Parecia cheia de profundezas indecifráveis. Escrevíamos pequenos roteiros e dramas onde sempre havia um filho complicado, um amor perdido ou esquizofrenia. Eu sempre torcia pra que ela fosse a vilã da história, você acabava dando um jeito de absolve-la no final.

Ela permanecia ali por horas, imperturbável.

Aquela senhora virou personagem de diversas histórias sem final feliz que inventávamos entre uma entrada e um bolo desde que nos tornamos fiéis aos waffles dali. Lançávamos olhares curiosos por sobre a mesa daquela senhora, encontrávamos às vezes desenhos e esboços que eram tragicamente amassados pela garçonete sem que pudéssemos desvendá-los antes, caminhávamos em direção ao banheiro na tentativa de decifrar o que ela lia, por quais notícias se interessava. Alheia, ela nunca dava pistas. Ensaiamos alguns métodos de aproximação, perguntamos as horas, tentamos atrair sua atenção de diversas formas e nada, nunca conseguimos captar o olhar dela por mais de dois segundos.

Frustramo-nos, e por acasos da vida, mudamos o dia do café para quinta-feira. A senhora grisalha, porém, continuou a ser o centro de nossas especulações, especialmente naquela semana em que, contrariando as agendas, tornamos a encontrá-la, na última segunda-feira daquele ano. Ela nos assombrava. Só a notamos depois de muitas conversas e de listarmos nossas resoluções para o ano-novo, uma das quais era esquecê-la por completo. Ela estava sentada perto de uma família ruidosa. Rancorosos, engatamos um papo qualquer que nos fizesse abstrair a criatura grisalha, e nos agitamos nas cadeiras quando ela passou distraída por nós dois, depois de devorar um pote de creme chantilly.

A mesa ficava a caminho do banheiro, e com a desculpa da alergia, surrupiei um papel cheio de desenhos, antes que alguém viesse e o jogasse no lixo. Em meio a manchas de café, gotas d’água e o meu espanto, a senhora grisalha desenhara em tinta azul a tua gargalhada.  

Foi a última vez que a vimos por ali.

sábado, dezembro 25, 2010

Neve, Paris, Rue de Rennes e outras obs.




(voume 1 aqui)

À frente dos ônibus e sob olhares incrédulos, abandonamos o barco. Não hasteamos bandeira, mas a ocasião era épica o suficiente. Tomás, Lilia, Jerome e eu agora só podíamos contar uns com os outros. Não tínhamos mais qualquer apoio ou informação dos funcionários da Air France, o que, a bem da verdade, não fazia qualquer diferença nesse momento.

Uma vez traçado o plano, nos apresentamos formalmente. Eu não descobri tanto da minha pequena infantaria quanto do surfista húngaro que mora na Tijuca. De fato, pouco ficou de cada um: Jerome é um francês de Fontainebleau que casou-se com uma brasileira. Chegou ao Rio em 1997, abriu um escritório de design, divorciou-se, casou-se de novo e agora já contabiliza 10 funcionários em seu negócio. Gosta de aipim, mora em Botafogo e usa o metrô para o trabalho. Tem cabelo liso e castanho, mas não o reconheceria nem mesmo se ele estivesse exposto numa vitrine do Louvre. Tomás tem 24 anos, sua mãe é psicóloga e aparentemente me conhece pois teceu comentários a meu respeito ainda no aeroporto do Rio, sua mãe certamente foi casada com um francês, com quem teve Tomás e que nos avisou sobre a possibilidade das estradas estarem caóticas. Tomás passou um perrengue de ônibus na Colômbia, este é o adendo mais pessoal que posso informar a respeito do líder. Lilia ainda é um mistério: seu marido passa uma temporada em Paris a trabalho, mais precisamente em La Défense. Lilia não fala francês. Aprendeu Espanhol durante uma temporada em que o marido passou em Buenos Aires, a trabalho. Depois de Paris, Lilia vai encarar a Austrália. Além de andante, Lilia é baixinha e vestia preto da cabeça aos pés, e não arrisco mais palpites.

Não, essas coisas todas não foram ditas na apresentação. Foram descobertas ao longo do caminho que nos levou à gare de Nantes, onde também descobrimos coisas sobre um norueguês que mora no Rio há 13 anos e que ainda não tinha entrado na quadrilha. Ele foi nosso quinto elemento no trajeto de ônibus. Nos contou sobre seu barco, sobre sua mulher brasileira, sobre a Petrobras e o Pré-Sal. Eu não teria tanta criatividade pra imaginar um diálogo sobre o Pré-Sal em Nantes com um norueguês. O surfista húngaro que mora na Tijuca já havia contribuído de forma significativa pro inusitado da história.

Nos despedimos do norueguês ao avistarmos a Gare. Em menos de cinco minutos possuíamos bilhetes de um TGV que nos levaria à Gare de Montparnasse, em Paris. A essa altura eu já sabia que o Charles de Gaulle e Heathrow continuavam fechados, e acreditava que tudo se resolveria uma vez que: eu chegasse a Montparnasse, pegasse um taxi, adentrasse o 83 da Rue de Rennes, tomasse um banho, gargalhasse por uma noite e no dia seguinte entrasse no Eurostar com destino a London London, a Camden, a Kensington e à Guinness. Bollocks. O Eurostar não funcionava há dois dias.

Eu fiquei pensando se as pessoas que moram na Sibéria enfrentam esse tipo de coisa. Será que elas estocam provisões e não saem de casa até que passe o inverno? E em Moscow? E em Seattle? E em todo o resto do mundo onde a neve cai em dezembro? Será que essas pessoas tem uma Nantes para chamarem de suas? “Desolée” fazia sentido e me descrevia com exatidão.

Nos separamos no trem, somente Jerome e eu ficamos no mesmo carro, o que explica o fato de eu saber mais coisas a respeito da vida dele. Mas a conversa não foi pra frente: Jerome disse que eu parecia a filha do Chico Buarque e eu achei melhor fingir que estava dormindo. Nos meus sonhos, Tomás, Lilia, Jerome e eu nos abraçávamos emocionados ao chegar à Gare Montparnasse, trocávamos e-mails e promessas de um bom croissant matinal na Rive Gauche e nunca mais nos víamos, na melhor das hipóteses nos adicionávamos no Facebook. Bollocks de novo.

Um trem nunca foi tão revolucionário quanto naquele momento: em duas horas e meia estávamos em Paris. Em Montparnasse. Em duas horas e quarenta e cinco minutos eu estava no 83 da Rue de Rennes. Em três horas e meia eu estava na H&M da Rue de Rennes. 5 dias depois, eu continuo na Rue de Rennes. Chegar a Londres mostrou-se inviável, primeiro por causa do aeroporto, segundo por causa do Eurostar, terceiro por incompatibilidade de agendas. Foto segurando a Tour Eiffel em Trocadéro também se provou complicado.

Eu ando por aqui entrando em cafés a cada quarteirão, não porque procuro discos voadores, a Lilia ou o surfista húngaro que mora na Tijuca. Cada pausa nos cafés é pra que as mãos voltem a funcionar. Neva em Paris. Os telhados e carros estão cobertos por camadas brancas de gelo. Os jardins do Palais Royal continuam em obra, já faz mais de um ano e meio. O metrô continua cheio, fétido e assustador, porém apaixonante. Paris deve ser um deslumbre até cinza, infelizmente não disponho de habilidade pra tirar os dedos de dentro da luva e bater fotos ao mesmo tempo que seguro guarda-chuva e acerto o foco, tampouco disponho de coragem pra flanar pelas ruas, desde que cheguei aqui ainda não vi o Sena. Substituí a Guinness por vinho, Kensington pela Rive Gauche, só Camden ainda não parece resolvido. Cissa parece um pouco inconformada. Eu também.

No fim das contas, na manhã de Natal, o sol apareceu. Apresso o fim desse capítulo para correr até a margem, tirar boina, cachecol, luvas e acionar o timer da câmera. É a quinta vez que estou aqui e não tenho sequer uma foto com a Notre Dame ao fundo. Tem uma música também do Morrissey que não me sai da cabeça: I’m throwing my arms around Paris. C’est La vie!

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Neve, Nantes, o surfista hungaro e outras obs


À minha frente a pequena tela da TV individual oferecida pela Air France exibia o itinerário do vôo, a temperatura externa, a previsão de chegada ao destino, o restante a ser percorrido: 45 minutos. Todos nós, ligeiramente amassados, nos inquietamos um pouco em nossas insuficientes cadeiras da classe econômica. Meu vizinho, que passara o vôo todo dormindo sem nem sequer levantar para fazer xixi, pareceu despertar com a ansiedade de pousar em Paris e seguir até a China, seu país natal. Os brasileiros sentados na fila detrás estavam maravilhados com a possibilidade de ficarem horas no Trocadéro até que a foto saísse perfeita: mãe amparando a Tour Eiffel de um lado, filha do outro.

Eu sonhava com o todo o curry que Londres me reservava. Com Kebabs. Com Camdem Town e todas as camisetas que eu compraria. Com o momento mágico em que eu sairia à superfície e veria as luzes de Picadilly Circus. Com Kensington: eu sonhava com Kensington e com um pint de Guinness.

Eis que então o comandante anuncia que a neve nos impedia de seguir adiante, e que faríamos um pouso em Nantes para aguardar as novidades do Charles de Gaulle. Meu vizinho só entendeu quando o comunicado foi traduzido pro inglês, sorriu amarelo pra mim e aproveitou pra cochilar mais um pouco. Uma vez que o avião estava em terra firme e que comissários e comissárias não sabiam nada além de que a temperatura externa era de 12 graus, resolvi eu também dormir. E dormimos todos, por horas e horas até que o comandante anunciou que o Charles de Gaulle estava pronto para nos receber e que seguiríamos viagem. Comecei a ficar tensa aí: Nantes e a neve me fariam perder a conexão pra Londres. Eu podia vislumbrar minha mala rodando sozinha na esteira de Heathrow. A Cissa telefonando pro aeroporto pra saber se o vôo estava dentro do horário previsto. 

Oh God.

Eu nunca cheguei a Londres. Durante as quase 48 horas que demoraram pra que eu chegasse a Paris, três versos do Morrissey ficaram ecoando na minha cabeça: “and still we say / come back, come back to Camden / and I’ll be good”. Eu dizia calma, estou indo. Mas não estava.

Saímos do avião, buscamos as malas na esteira em Nantes, entramos num ônibus que nos levou a um hotel próximo ao aeroporto. Sim, viramos primeira pessoa do plural quando o comandante, logo após termos apertado os cintos para a decolagem, anunciou que estava “desolé” e que não poderíamos ir a Paris. Os franceses adoram dizer que estão desolés. Acho que é parte da cultura deles, algo como “vamos tomar um chope um dia desses?”

E foi no ônibus que o surfista húngaro entrou na história. Ele perguntou se eu falava inglês e começou uma conversa de amenidades que logo ficou bastante chata, mas àquela altura eu já tinha fugido de uma brasileira chatérrima, do meu vizinho chinês e não podia me dar ao luxo de desperdiçar companhia. O surfista húngaro era louro e parecia saído do Surf Adventures, ou do catálogo da Redley, ou sei, lá, da Califórnia, menos da Hungria. No trajeto do aeroporto até o hotel, uma parte da vida do surfista híngaro se revelou: casara-se com uma brasileira que trabalha no Leblon, na Oi, sabe? Dividia seu tempo entre surfe e kitesurfe, na Barra, perto do Pepe, eventualmente no posto 4, porém lá as pessoas não eram tão bacanas. Morara 4 anos em Dublin, para onde retornava agora pra um curto período de férias e natal, e antes disso vivera em Estocolmo. Habitava, agora, a Tijuca, porém anunciou que se mudaria para o Recreio com a mulher. Eu mal tive tempo de desejar boa sorte à mulher no trânsito e o surfista húngaro que mora na Tijuca começou a contar que vai começar a trabalhar na H Stern e que portanto terá menos tempo para surfar e kitesurfar. Não me atrevi a pensar que ele era chato, não nesse momento.

Dia seguinte, café da manhã às 4h, partida pro aeroporto em comboio às 4h30. Na fila do check in o surfista húngaro que mora na Tijuca veio perguntar se eu havia dormido bem, eu disse que sim, me arrependi de te-lo julgado mal e encarei uma hora e meia na fila. Passei pelo raio-x e vi um tumulto no portão de embarque. Ao pedir informação pro mocinho da Air France, o mesmo orientou que eu buscasse minha mala. Eu disse que acabara de deixar a mala no check in, ele disse que eu pegasse a mala e eu achei que não estava mais entendendo a língua local quando ele informou que o vôo havia sido cancelado, e eu perguntei de novo?? E ele disse “desolé” e era mais do que nítido que ele não estava desolé, en fait, ele não poderia se importar menos com o fato de que Camden, Kensington e Guinness ficavam vez mais distantes.

Pegamos as malas de novo, eu, o vizinho chinês, a brasileira chatérrima, o surfista húngaro que mora na Tijuca e dessa vez fomos informados que a Air France nos levaria de ônibus para o aeroporto de Paris. A previsão era de seis horas de viagem. Todos nos aglomerávamos em frente aos ônibus que esperavam do lado de fora, pessoas acenavam tickets para os motoristas, malas eram forçadas para dentro dos bagageiros e nessa hora tudo parecia um filme onde as pessoas precisavam fugir da guerra e só restavam aqueles ônibus. Até o surfista húngaro que mora na Tijuca virou um bárbaro (ou um viking?) e deu as costas a mim e a todos, garantindo o lugar da sua mala sem se importar com os exilados à sua volta.

Uma vez instalados no ônibus, prontos para a partida, eis que um novo e salvador personagem entra na história. Tomás anuncia que está “desolé” e que não partirá no ônibus conosco, que seu pai informara de Paris que as estradas estavam cheias de neve e que a viagem demoraria no mínimo 9 horas, e que Tomás, que realmente devia estar desolé e não fez uso da palavra à toa, pegasse um trem imediatamente. Um burburinho se forma ao redor de Tomás e eu vou atrás averiguar. Em 10 minutos ficamos reduzidos a um grupo de quatro: e assim, liderados por Tomás, Lilia, Jerome e eu desertamos.  

(a seguir cenas do proximo capitulo: Neve, Nantes, Rue de Rennes e outras obs)

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Diálogos com um sobrinho - vol. 2

Eu achei que teria várias conversas com você, neném, que te contaria desde os primeiros minutos muito sobre a sua mãe, sobre seus avós, sobre como era a praia quando tinha tatuís, sobre as músicas trágicas da infância, sobre ter uma fraldinha preferida que dura até quase os 10 anos. Eu achei que engataria com você um falatório desenfreado em que te mostraria os nomes das cores, as formas dos círculos e que te chacoalharia uma sorte de bichinhos em meio a uma explicação sobre as qualidades de cada um. Eu achei que te leria histórias do meu tempo de criança, mesmo que você ainda não entendesse nada. Achei que teceria com você diálogos e monólogos pra lá de divertidos, cheios de risinhos e interpretações, e que com o passar dos anos você ia pedir sempre pra eu imitar fulano ou beltrano. Achei que eu ia caprichar nas vozes e trejeitos, melhorar o vocabulário e pesquisar novas palavras pra te segurar todas as atenções. Eu não contava, neném, que diante de tanta bochecha e milagre eu ia ficar assim completamente débil, entregue e babona. Um dia eu quero que você saiba como é esse amor grande e impensável. Quando você souber como sentir, não vai querer outra vida.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

O outro vizinho

Era britânico o ruído que vinha do apartamento de cima: entre a segunda e a terceira garfada, mais precisamente, porque era igualmente pontual o meu almoço e calculada a minha fome naqueles dias de tédio. Entrei numa rotina insípida que causava bocejos a quem eu contasse, até que o barulho do 201 me tirou da inércia. Não pense em romances, novelas, ação ou novidades. Imagine que o vizinho de cima trouxe de volta aos meus dias uma cisma comparável à que eu tinha com o porteiro da noite, que deixou de ser alvo das minhas especulações no momento em que enterrei minha vida social. De lá pra cá, quase nada foi alvo de tanto fascínio e incompreensão quanto o vizinho do 201.

Começou como uma curiosidade: me apeguei às marteladas sincopadas do 201. Dia após dia, refeição após refeição, lá vinha o barulho de um martelo esmurrando pregos. Sutil, impossível de ignorar, porém. Batidas leves, empurrões suaves, diários, e mesmo nos fins de semana. De segunda a sábado, pra ser mais precisa, era possível saber que já passava do meio-dia quando o vizinho começava a agir. Empilharam-se semanas até que decidi perguntar pra minha mãe: é, é verdade, já percebi sim, ela afirmou. Mas sua intriga era até blasé perto da minha, que foi acentuada no dia em que a furadeira entrou em ação. Parecia um ritual: eu me sentava à mesa, decidia entre o suco ou o refrigerante e o motor dava início a orifícios que eu só podia imaginar.

Eu vislumbrava verdadeiras galerias de arte no 201, ou uma bela oficina de marcenaria com pequenas colinas de serragem encostadas às paredes. Sonhava, ainda, que ali poderiam se construir barcos, carrinhos de rolimã, charretes ou qualquer outro meio de transporte improvável. Arcas, quem sabe. Então a cada vez que o suposto homem ligava a máquina pra organizar supostas exposições eu perguntava à minha mãe o que ela achava que poderia ser, e no quinto dia ela sugeriu que poderia ser que eu precisasse arranjar um emprego.

Então eu arranjei, mas era em casa, e os barulhos e ofícios do vizinho do 201 não me largaram. Eu disfarçava a minha obsessão perto da minha mãe, eu não queria causar preocupações pois ela ainda sugeriu que eu arranjasse outras coisas além de emprego: namorado, assunto, amigos e principalmente psicanálise. Cheguei a pegar as escadas algumas vezes, mas ficava empacada entre o primeiro e o segundo andar, me achava mais ridícula que uma carta de amor, voltava, punha fones de ouvido. Mudei o horário do almoço só pra poder ouvir com mais precisão e calma os furos e marteladas, só para tentar adivinhar os detalhes.

Alguma coisa na minha fisionomia denunciou que eu andava com o sono desordenado. Eu sonhava com martelos que batiam na minha testa, com pregos que escancaravam meu cérebro, acordava com enxaqueca só de lembrar. Um dia minha mãe me convidou pra almoçar fora. Eu inventei acúmulo de trabalho. Ela insistiu outras vezes, e finalmente percebeu. Providenciou uma caixa de ansiolítico e inspecionou minha boca como fazem nos sanatórios dos filmes. Tomada a medicação, dormi por dias a fio. Eu estava descompensada.

Acordei de um pesadelo: minha casa era invadida por uma horda de senhores de macacão, bigode e furadeiras, eles lutavam pra esburacar todas as paredes e ligavam suas máquinas na máxima potência e por fim o prédio ruía. Senti minha testa molhada, parecia um delírio. Vi o bilhete de minha mãe dizendo que tinha ido ao mercado. Vi o cão estirado no chão, barriga pra cima, vem chegando o verão. Eu não agüentaria um janeiro inteiro de martelos misteriosos, eu não poderia ficar em paz enquanto não descobrisse o que fazia o vizinho do 201. Abri a porta de casa e o elevador aberto me esperava. Um andar. Apenas alguns segundos. Uma respiração. Um toque na campainha. Um tempo que não sei calcular. Nenhuma resposta. Toquei de novo e de novo e de novo. O relógio marcava 13h04. Nenhum som vinha do apartamento, nenhum prego, nenhum martelo, nenhuma furadeira, absolutamente nada, nenhum ruído, e posso jurar que o blim-blom do convite imposto fazia eco. 13h17. Às 14h eu voltei pra casa, minha mãe me recebeu espantada e preocupada com meu sumiço e eu contei. Contei que tinha ido ao vizinho, que precisava saber, que ia mesmo pedir pra entrar em sua casa e quando estava prestes a chorar de desespero ela pegou minhas mãos e disse: você precisa ser forte. Foi assim que soube que o vizinho do 201 não morava mais lá.