sábado, agosto 19, 2006

om.

Fui à ioga e descobri que, mais difícil que as posturas, é não rir enquanto o professor de nome estranho canta mantras. No primeiro dia foi Sushiila. Sushiila não é nome de mantra, é nome da pessoa que deu aula. Mas podia ser também nome de mantra, ou nome de postura, ou qualquer outra coisa, porque com certeza um dos objetivos da ioga (ou do ioga?) é trazer à tona um mundo novo de palavras em sânscrito, ou qualquer outra língua porque no fim das contas você não sabe mesmo o que está dizendo.

Minha primeira aula foi ioga 1. Existe ioga básico, ioga com bolas, iyengar, vinyasa, ashtanga e power ioga. Tentei descobrir a diferença da ioga iyengar para vinyasa. Fui perguntar à recepcionista e eu juro que eu quis entender, mas talvez ela não seja a pessoa mais indicada para relacionar as semelhanças e diferenças de cada modalidade.

Cada um possui um tapetinho, os mais afortunados possuem um exclusivo, os novatos, ou os que usufruem do free pass (que dá direito a uma semana de aulas de graça, e é por isso que estou agora contando essa história) devem pegar emprestado um tapetinho lá da academia mesmo e se conformar com o fato de o mesmo não ser aromatizado.

Mas se o lance é ficar zen e praticar o desapego então tudo bem. E tome de compartilhar suor. As salas não são exatamente refrigeradas, e quando você faz aula no solarium não escuta o que o professor diz, mas tudo bem, você não entenderia mesmo.

Sushiila e Mahavir começas as aulas de forma parecida: todos sentados na posição de lótus com as mãos unidas no chacra do coração, o olhar na ponta do nariz, coluna esticada, cabeça querendo encostar no céu, inspira, expira e Brahma noneeeeeee, ooooooooooooommmmmmmmmm, rava huiaaaaaaaaaaa ou qualquer coisa que soe assim. Minha irmã já tinha me advertido que dava certa vontade de rir.

A aula corre bem, um pouco chato às vezes, postura do cachorro, postura do guerreiro 1, postura do guerreiro 2 e suas traduções em chinês, ops! em sânscrito (será?). O fim da aula um relaxamento delicioso, ótima oportunidade para um brevíssimo cochilo e quando você acha que finalmente vai se livrar do tapetinho eis que os profs-gurus te mandam sentar de novo em lótus, mãozinhas, coluna bla bla bla. E mais om, e mais palavras estranhas e um coro de gente repetindo.

O que eles estão dizendo? Minha irmã me advertiu que dava muita vontade de rir, e dá mesmo, nessa hora você tem que puxar a concentração do fundo dos chacras.

A idéia é todo mundo buscar o Nirvana, a paz interior e nadar num oceano infinito de felicidade (shanti ou shiva?). O principio é cantar aos deuses, mergulhar na sua respiração. De repente ficar zen virou moda e existe uma fila de seres com seus tapetinhos dizendo coisas absolutamente intraduzíveis e fazendo isso com a fé de um crente.

Sei não, algo me diz que vai demorar pra essa gente entrar em alfa. Em todo caso, namastê.

:: "Everybody seem to think I'm lazy / I don't mind, I think they're crazy" , The Beatles.

terça-feira, agosto 15, 2006

segunda-feira, agosto 07, 2006

A verdadeira história do roubo

(o texto a seguir é grande e baseado em fatos reais ocorridos em Junho de 2001 e contém cenas de emoção e violência)

Narbonne é a minha London London. Enquanto Caetano vagou procurando por discos voadores em Picadilly Circus, eu esperei pelos meus sentada à porta da delegacia de uma cidadezinha que eu jamais pensei em pôr os pés. Jamais ouvira falar do lugar, pra ser exata.

Como fui parar em Narbonne? De trem.

Narbonne fica a 849 km de Paris, 280 km de Barcelona, 398 km de Lyon, 393 km de Marseille. É uma cidade de 48.020 habitantes. Abriga igrejas dos séculos XIII e XIV e catedrais góticas. E tem a delegacia de polícia mais maneira que eu já conheci e o policial mais solidário e algumas dessas histórias que acontecem só uma vez na vida e, cá entre nós, temos que saber aproveitar os momentos com a intensidade que eles sugerem.

Fui parar em Narbonne mais por causa de um roubo que turismo. Estava fazendo o percurso Paris-Barcelona de trem. Não era um TGV, não estava alojada nas couchettes destinadas a mochileiros em viagens noturnas. Cheguei atrasada na estação em Paris, perdi o primeiro trem e embarquei no segundo, este já cheio, sem mais couchettes disponíveis. Eu e minhas mochilas, dentro de uma delas um pôster do Monet, um álbum de muitas fotos (200, mais ou menos) e uma quantidade absurda de toiletries adquiridos em dois meses de Reino Unido.

Eram cerca de 5 da manhã quando abri meus olhos míopes e dei por falta da mochila que estava entre meus braços algumas horas antes. E de repente senti que meus pés não estavam mais sobre a malinha que carregava o álbum e o pôster. A mochila maior de roupas continuava ao meu lado, mas o resto desaparecera como num passe de mágica. Fechei os olhos e achei que tudo se desenrolaria como num filme ou desenho animado, pensei “me belisca”. Nada. Não acordei de novo, a fada-madrinha não veio me resgatar, o mestre dos Magos não veio me aconselhar e o Harry Potter não fez feitiços para me ajudar.

Corri o trem de cima abaixo falando um português misturado com inglês e um sivuple entremeado com choros e soluços e desespero e uma coisa que espero nunca mais sentir de novo, um desamparo, uma angústia e um pensamento martelando a cabeça. Isso não pode estar acontecendo. Sim, isso aconteceu.

Desci na primeira estação, depois de me certificar que minhas mochilas não estavam em quaisquer dos vagões. Desci na primeira estação sem lentes, sem óculos, sem dinheiro, sem fotos, sem pôster de Monet e, principalmente: sem minha mãe.

E já que é pra viver intensamente, que sejamos roubados idem, num país que você não conhece a língua, de um jeito que você fique sem seus olhos e sem qualquer dinheiro, afinal a vida é feita de fortes emoções. E no fim das contas, roubo na Europa tem seu charme.

O agente da estação tenta me acalmar, tenta conversar e a linguagem universal toma conta de nós, conseguimos nos entender, posso jurar que falávamos esperanto. Ele me leva à delegacia, esse lugar mágico onde a recepcionista é loura. O agente da estação me leva à sala principal e diz que posso dar um telefonema (olha a tensão, tem uma cela do lado). Comunico meus pais, conto a história, ou choro a história, nem sei mais.
Existe um policial que fala inglês. Inglês da França. Seu nome é Marc. Marc me manda preencher um relatório com tudo o que me foi levado. Foi levado o meu sonho Marc, isso pode constar na lista? Foram levados meses de planejamento e economias e a Espanha, Portugal, Holanda, Suíça, isso tudo foi levado. Marc me oferece água, a loira me olha com pena, eu acho, não consigo identificar muito sua expressão facial. Marc diz que tudo vai se resolver. De meia em meia hora vou ao orelhão na esquina e ligo pra casa.

Aqui na América Latina papai faz contatos, resolvemos que tenho que arranjar um jeito de voltar a Paris. Marc mexe seus pauzinhos e tudo começa a conspirar a meu favor. Vamos a uma assistência social de Narbonne. Aperto o escapulário que levo no pescoço. A moça se sensibiliza, me dá 500 francos. Uma passagem de trem para Paris custa uns 480 francos. Ainda posso comprar um croissant e um eau minerale. Já tenho onde passar a noite: no trem de volta para a cidade Luz.

De volta à delegacia Marc me convida para almoçar com seu parceiro. EU agradeço timidamente e digo que não posso Marc, obrigada, levaram minhas mochilas com meu dinheiro, é por isso que estou aqui, lembra? Ele diz que o almoço é por conta dele. Mc Donalds. Aquele M amarelo nunca me fez tão feliz. Na parte da tarde ganho uma companhia temporária de duas americanas que estão registrando a perda de seus passaportes (inveja). Então falo com mamãe e ela me sugere dar uma volta pela cidade já que tenho que esperar o trem noturno. Não posso mamãe, não tenho meus óculos. Mas ganho um sabonete que o Marc vai comprar do outro lado da rua e ganho também a permissão do chefe da polícia pra tomar banho ali mesmo. Nunca um banho foi tão bom. Prendo o cabelo numa trança, ponho uma roupa limpa e recupero parte da minha dignidade. Me sinto exausta, me sinto feia, me sinto completamente arrasada. Quero sentar e chorar mas não tenho mais forças. Quero enxergar o mundo de novo, e não esse borro impressionista. Cara, quero ir pra casa.

A tarde começa a cair e o Marc, mais uma vez, me leva com ele. A minha despedida da delegacia tem ares de musical antigo. Se fosse filmado tudo aconteceria em câmera lenta, com um coro de vozes ao fundo e as policiais mulheres acenando com seus lencinhos brancos enquanto algumas lágrimas escapassem. No caminho até a casa do Marc buscamos um amigo. Vamos ao super mercado comprar pizza e refrigerante e quando sentamos na sala de estar do Marc acompanhados de um amigo e um casal e quando percebo que todos se esforçam ao máximo para conversar comigo e quando paro pra pensar que ao chegar am Paris vou ser aguardada por um motorista do consulado que estará segurando uma placa com meu nome... Ufa! E ainda mais: Marc e seus amigos me convidam para tomar um chope. Alguém aí já tomou chope em Narbonne? Rá.

Chegamos à estação e ainda dou a sorte incrível de presenciar a prisão de um traficante de drogas, praticamente o Fernandinho Beira-Mar europeu. Marc e eu nos dirigimos para o balcão de tickets para pedir algumas informações. O telefone toca na estação e é pra mim. Alguém aí já recebeu telefonema na estação de trem de uma ciadade ao sul da França chamada Narbonne? Enquanto falo ao telefone com a minha prima, Marc recebe um rádio e abre um sorriso. Um misto de satisfação e alegria e eu posso jurar que Marc deu até pulinhos: uma mochila minha foi achada numa cidade próxima, o que me dá forças suficientes pra começar a chorar de novo. Marc e seus amigos entram comigo no trem, como que intimidando os possíveis ladrões de mochilas e só vão embora depois de alguns apitos. Me colocam deitada numa couchette, me cobrem, me desejam boa sorte, sorriem e dão adeus. Sabemos que não vamos mais nos encontrar, sabemos que o nosso carinho e que os elos que criamos não vão atravessar fronteiras. Sei que não vou me lembrar dos rostos, mesmo que estivesse de óculos e ao mesmo tempo sei que não vou esquecer das vozes e de toda a sorte que ser roubada perto de Narbonne pode trazer.

No dia seguinte o motorista do consulado me espera como combinado. Os cônsuls brasileiros já lutam pelo resgate da minha mochila, já me reservaram hotel e me oferecem balinhas de menta.

A dona Carlota, mãe da chefe da minha tia, me aguarda em seu apartamento charmoso na Ille de Saint Louis, me dá uma coca-cola e um dinheiro. O Visa se prepara para me mandar um novo cartão de crédito e tenho ainda mais uns dias em Paris até recuperar meus pertences. Tomo um banho de banheira no Hotel e passo os dias achando que Paris é uma merda, quero ir pra casa, quero minha mãe. Compro tudo que vejo pela frente, como idem, e no meio dos itens do shopping compro uma mala que fala, sem querer.

Volto a Narbonne. De lentes. De trem. A mochila está lá, a agenda, o passaporte, a câmera. E o Marc. E o parceiro dele. E uma gratidão eterna. E tanta coisa. E uma capacidade de transformar a tristeza em piada e de conseguir, além de olhos arregaladíssimos, arrancar risadas das pessoas que escutam essa história.

While my eyes go looking for flying saucers in the sky.