segunda-feira, junho 19, 2017

Hecatombe

As pessoas falam de você como se não soubessem de nada. Seu nome aparece, aqui e ali, como se fosse o de um qualquer: durante um almoço num restaurante japonês perto do Palais Royal, no meio de uma conversa de whatsapp sobre uma leitura que vou fazer em outra cidade, num texto de trabalho que me enviam e que contém uma citação sua, num café na padaria da esquina de casa. As pessoas falam de você como se fosse muito natural, como se o seu nome fosse só um nome, entre tantos outros que são ditos e esquecidos imediatamente, ou que, ao menos, não aparecem em sonhos. Falam de você como se você não surgisse, quase toda noite, em sonhos que me provam que minha tentativa de te soterrar sob o acúmulo das coisas práticas só engana a mim mesma. As pessoas falam de você sem me prevenirem, e ainda não escolhi o melhor disfarce, não decidi qual máscara. Fico estranha, sempre, possivelmente. Então comecei a dizer, quando elas reparam – e sempre reparam –, que você não vai com a minha cara. Assim me sinto um pouco menos mentirosa em vez de ter que dizer que eu é que não vou com a sua. Tento imaginar se meu nome também bate à sua porta com frequência, e sou capaz de afirmar que não.

As pessoas falam de você como se não soubessem de nada, e de fato não sabem. Não imaginam que tenho uma série de rascunhos de bobagens que queria te contar. Que guardo essa correspondência unilateral e telepática um pouco mais na superfície que as memórias que fui enterrando aqui e ali – inutilmente, claro. Falam de você e me dão a falsa impressão de que é você que, de algum jeito, anda no meu encalço. Falam de você sem me prevenirem, sem nenhum alerta, sem informarem, antes, os procedimentos de emergência necessários para sair ilesa, e percebo esse desmonte gradual da minha aparência diante de alguém que só estava, de passagem, dizendo algo, na maioria das vezes corriqueiro, sobre você. Falam de você como se comprassem o jornal, o pão, o cigarro, e eu reajo como se um assombro, uma ameaça, uma bomba que explodiu. Então comecei a simular ataques de tosse ou espirro, e já cogitei mesmo desmaiar. Tento imaginar como você reagiria se, casualmente, alguém te falasse de mim, como se não soubessem de nada. Sou capaz de afirmar que seria como quem pede o açúcar ou um guardanapo num restaurante.

segunda-feira, abril 24, 2017

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Cafuné


T. recorre ao McDonalds quando está triste. Pra mim tem funcionado organizar a geladeira, e com isso entenda: picar tudo o que pode ser picado, congelar tudo o que pode ser congelado. Essa semana tinha alho-poró, salsinha, cebolinha, e logo havia não exatamente uma salada de frutas composta por maçã e pera cortadas em pequeníssimos pedaços. O alho-poró, a salsinha e a cebolinha foram armazenados em pequenos recipientes de vidro e postos no freezer, e ao fechar o compartimento percebo que é a ideia de preservação que me tranquiliza. Ao fechar o compartimento, também, penso nas outras coisas perecíveis, mas que não são comida. A sua mão entrando inesperadamente pelos meus cabelos, em frente ao mar, ficando ali alguns segundos. O meu sobrinho quando me ensina a brincar, sem nem saber que prendi os cabelos pra não correr mais riscos.








domingo, janeiro 22, 2017

Dupla exposição

“Não fui eu quem viu aquela exposição do Edward Hopper no Grand Palais.” Começa assim o conto, e antes há um que começa com uma frase de um conto de Elizabeth Bishop, e só por isso eu já deveria desistir das tentativas de escrever o que gostaria. Tudo ecoará um plágio. É a segunda vez que leio esse livro. Ou terceira. Talvez mais. Mas por ora, digamos que seja a segunda.

É janeiro, a sensação térmica no Rio ultrapassa a tolerância e amanhã vou à praia com P. Quero ter algo para dizer além de “adorei seu livro”. Até porque já disse, acho. Na primeira vez em que li, na tela de um computador, acomodada numa cadeira desconfortável, num escritório de temperatura pouco variável, o que hoje, por mais que um tanto desbotada, é uma lembrança agradável daqueles dias. O cenário, agora, é o meu quarto, a luminária da mesa de cabeceira acesa, travesseiros, ar-condicionado. E a impressão a cada página é a de que já li isso antes. O que é verdade. Todavia agora o livro está impresso, a ordem dos contos já não é a mesma, a dedicatória de P. é generosa – “para Julia, que percorreu as páginas deste livro deixando suas marcas” – e amanhã vamos à praia.

Nunca imaginei. Não só a praia com P., mas tudo o que pareceu tão... mudado? esses dias, e que ao mesmo tempo imprimiu na pele essa sensação de repetição, como se no fundo os fatos fossem basicamente os mesmos, com as diferenças de endereço, temperatura e corte de cabelo nas aparências.

Por exemplo. Aquela festa. Estar diante de G. e de toda sua capacidade de me desestruturar por anos a fio, exceto pela constatação de que agora G. não me causa a menor das impressões. Parece apagado, ou fosco. Nem mesmo saberia descrever a camisa que ele usava naquela noite. Branca, por causa da passagem de ano? Azul, por ser sua cor preferida? Ou ele estava sem camisa? Quanto tempo precisa passar pras pessoas se tornarem invisíveis? Ou ele sempre foi assim? O mais perturbador, entretanto, é enxergar a invisibilidade e me perguntar se isso também é uma invenção minha, se esse tempo todo foi o que precisei para ficcionalizá-lo de outro jeito e construir esse personagem banal de réveillon, alguém que sou capaz de deixar falando sozinho com a desculpa de um drink ou uma dança. Ou com uma frase tão simples quanto: “Foi bom te ver.” O que é quase mentira.

Ou ainda: não sentir mais saudades de algumas pessoas, e entender isso ao ler pela segunda vez o livro de P., que sempre esteve diretamente associado àqueles meses de perdas gravíssimas. Estar diante de um dispositivo de memórias e de toda sua capacidade de me desestruturar, e perceber que agora essas reminiscências se depositaram em qualquer lugar seguro, ou ao menos distante o suficiente – naquela cadeira desconfortável, talvez. Faz pensar que não fui eu quem li o livro pela primeira vez, naquele escritório. Azul como as camisas de G., quando eu conseguia reparar nelas. E ao mesmo tempo: já li esse livro.

Então talvez os fatos sejam bastante distintos, e a repetição seja outra vez, finalmente, trocar de pele, e ter que lidar com as consequências dessa migração. Encaixotar certos acontecimentos, entender que talvez finalmente eu possa começar a escrevê-los, ainda que resulte em plágio. Porque a história é a mesma.


Amanhã vou à praia com P. O conto que fala de Hopper é meu preferido, vou dizer a ela. E aquele que começa na água, e que diz que “a violência é igual para todos, assim como as duchas, as cabines do vestiário onde nos trocamos, as poças mornas para lavar os pés antes de entrarmos na piscina, os armários em que guardamos as roupas”. 

O céu vai ficar rosa, como sempre fica nessa época, e vou fotografar o Dois Irmãos com raios de sol furando nuvens. A espuma do mar vai parecer um pouco mais brilhante nessa luz. Conversaremos sobre literatura, eu com receio de falar bobagens ou parecer idiota, P. com sua mansidão que se desfaz quando amarro um lenço na cabeça, ela que sofre de enxaqueca, o gesto que parece uma afronta. Nunca imaginei como seria bom me tornar amiga dela, como isso, de várias maneiras, validaria coisas tão grandiosas. 

Não saberei dizer nada mais edificante além de ter adorado seu livro, outra vez. Tentarei contar como foi diferente, mas talvez pareça bobo querer explicar tanto as leituras. O dia terminará com uma tapioca e um suco, e daremos boas risadas perguntando como César Aira resolveria as narrativas que não sabemos terminar.