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quarta-feira, setembro 18, 2013

Yoga for dummies

Voltei ao mundo om, mas a verdade é que toda vez que deparo com um texto de alguém que nada meu coração se treme todo. Clica aqui, desça um pouco e lá estarão os versos do Ismar. 

Enquanto isso, um soft opening por esse outro caminho.



sexta-feira, outubro 26, 2012

Lanterna dos afogados - capítulo VII


Foi uma professora de dança que descobriu: escoliose. Havia uma escápula muito mais pontuda que a outra, um lado das costas mais alto. Uma perna era mais en dehors que a outra, um braço girava mais pra trás que o outro. Minha sequência de piqués era melhor pra um lado do que pro outro. Observando bem, meu olho direito é mais escuro que o esquerdo, e tenho mais cabelos brancos de um lado da cabeça, além de mais pintas e sardas numa das bochechas que na outra. O novo paradigma poderia até mesmo justificar escolhas afetivas, gosto musical, ideologia política. Posição pra dormir, certamente. Não demorou muito até a escoliose começar a dar problemas. 

Um belo dia, a fisioterapeuta decretou, e lá fui eu. E quando, meses atrás, decidi largar a natação, por tantos motivos mais que autoexplicativos, dei de cara, na seção de quadrinhos da Travessa, com um livro que era minha biografia. Um fisioterapeuta dá um ultimato a seu paciente, que passa a encarar o mundo das piscinas. Desavisado, ele começa a nadar sem óculos. Despreparado, atropela gente na água, morre de falta de ar e usa as bordas da piscina para sobreviver. 

É tudo tão lindo no livro, e tudo começava a se enferrujar em mim. Senti que eu estava encolhendo e percebi que, em todas as idas à praia (e foram muitas, porque tive férias e sol), me atirava no mar com muita urgência, e que até os banhos ficaram mais demorados. Morri de saudades da água sem nem saber que isso era possível. 

 Munida de um novo maiô, consciente de que minha pele e meus cabelos voltariam a ficar opacos, mas ao mesmo tempo esperançosa de que poderia pegar meu sobrinho no colo outra vez, voltei, e tudo parecia mais aprazível desta vez, a começar pelo horário da noite. Terrível engano. A natação noturna logo mostrou sua verdadeira face, e quando me dei conta a atividade tinha virado uma piscina cheia de gente conhecida. 

Começou por M., que um dia apareceu exclamando “Julieta!” e desde então R., o odioso professor de natação se achou no direito de socializar também, ainda mais depois que encontrei S. Eis que R., que por semanas me chamou de Juliana (e eu não podia argumentar, porque durante 2 meses eu pensei que ele se chamava Eduardo), perguntou se eu trabalhava com produção. Quando respondi que era editora (tem sido minha resposta preferida nos últimos tempos, e desconfio de que tenho respondido “editora” mesmo quando me dão bom dia), ele pareceu felicíssimo por poder dizer “então você deve conhecer Z., que é editora também, ela nada aqui!”. Z. é alguém da alta hierarquia de uma editora que fica a uma quadra da natação. Além dela, S., designer de jóias, M., diretor de fotografia, Fulano, do Bangalafumenga, e, pasmem, Paulão/Carlão (!) que trabalha com produção sei lá onde. De repente concluí que eu nadava nas águas mais fucking cool da cidade. 

Seria fácil se esse fosse o único defeito de R. (falar). 

Há uma ou duas semanas atrás, quando encontrei M. numa festinha, aproveitei pra desabafar e perguntei se ele não concordava que o R. era um bunda. Foi preciso argumentar: R. passou semanas me chamando pelo nome errado; começa a aula atrasado; é meio grosso; é preguiçoso e não tem criatividade; só me manda nadar crawl. Eu que achava que a natação já era uma definição de chatice, e que portanto não tinha como piorar, vi que tudo se supera: não dá pra ser feliz nadando uma coisa só a aula inteira. A escoliose, porém, pôs fim à discussão: quando ela aperta, o ombro cai pra frente e o elevador da escápula logo se contrai – “você precisa nadar costas”, disse a fisioterapeuta, e repeti a fórmula para R. A essa altura, M. já estava convencido: passei a nadar só costas e R. é um bunda.

Talvez R. não seja o único culpado pelo bode de nadar à noite. Falta a música da hidroginástica ao lado (nesse horário não tem mais aula), falta democracia na faixa etária dos alunos. De repente me vi nadando sempre em meio a 3 homens de barba, sem nenhum sexagenário pra me consolar, ou sem a iminência do xixi e dos brinquedinhos da turminha infantil. Pra piorar, quando estou nas séries finais (embora a aula não pareça ter começo, meio e fim, vide que nado a mesma modalidade o tempo todo), um sujeito começa a estender sobre a água uma capa de proteção. É muita solidão. Quando chego em casa posso imaginar o silêncio. Água não foi feita pra ficar parada. Talvez seja isso que R. não tenha entendido, e por isso se agarra ao marasmo da mesmice. É triste. 

Eu tinha decidido voltar a dançar. Mas nós, portadores de escoliose, não temos livre arbítrio. Tentei caminhada e corrida, e foi um desastre lombar. Comprei o passe para as bicis, que simplesmente desaparecem das baias nos fins de semana. Quando a homeopata me pesou na quarta-feira e calculou 4 quilos a mais, o desespero de encontrar outra atividade me fez entrar no site da Bodytech, mas logo recobrei o juízo (ou parte dele). Agora que eu já me acostumei a encontrar gente de touca, decidi: aumentei a natação para 4 vezes por semana. 




quarta-feira, maio 16, 2012

Lanterna dos afogados - capítulo VI


Às vésperas de completar um ano de natação, percebi que, en fait, fazia quase dois meses que minha rotina aquática consistia em ir a uma aula e faltar a três: a lógica de uma respiração a cada três braçadas, adotada no estilo crawl, rompeu as fronteiras das raias e instaurou-se nas manhãs de segunda e quarta. Quando me dei conta disso, sentei, ponderei, calculei: meu maiô carcomido precisava ser descartado, o plano trimestral renovado, a fé no esporte restabelecida. Durante duas semanas (nas quais, obviamente, dormi mais do que nadei) só pensava no que fazer, no que poderia substituir tal atividade, no que poderia me fazer feliz, em como seria minha vida sem essas manhãs molhadas, e percebi que, qual um poema de Manuel Bandeira, a natação varria tudo: eu roia unhas, chacoalhava os pés, encharcava o cabelo de cremes, aproveitando os dias sem cloro enquanto tentava restaurar os cachos castigados pela química, e a minha vida ficava cada vez mais cheia de água.

Seguindo os mesmos impulsos que me fizeram mergulhar no mundo natatício pela primeira vez, e tendo como norte uma existência sem contraturas musculares, sem hérnia de disco, quiçá sem dores nos joanetes, o que saboreio desde que toda a saga começou, joguei o velho maiô no lixo e adquiri uma lycra Speedo, pois que me sinto perfeitamente apta a ostentar, não mais apenas um figurino, mas um estilo de vida. E cruzei três cheques. E então, como numa novela onde a mocinha só é feliz no último capítulo, eis que três novos personagens cruzaram meu caminho. Na verdade, cinco. São eles:

1)     O maiô Speedo. O maiô Speedo foi comprado em meio a uma conversa telefônica com alguém por quem talvez eu esteja perdidamente apaixonada, o que já confundiria toda e qualquer decisão. Além disso, o pós compra do maiô Speedo consistia numa enorme tigela de sopa de tomate e queijo gruyere em excelentes companhias que já me aguardavam no restaurante. Ou seja: não experimentei o maiô Speedo, e a ao chegar em casa cortei as etiquetas, lavei o maiô, pendurei pra secar. Quatro dias depois, às 6h15 da manhã, concluí que o maiô Speedo não cabia em mim. Eu já estava de pé, rosto lavado, café da manhã tomado. Lá fora ainda estava escuro, lá dentro eu me atochava num maiô que era um número a menos. E assim fui nadar, socada em elastano, o breu no mundo.
2)     O breu no mundo. É maio, ficou frio, é antes das sete da manhã. Qualquer pessoa com amor próprio pensaria “what the fuck”.
3)     “What the fuck”, diz a voz interna que se faz cada vez mais nítida toda vez que o novo professor de natação conversa, e ele conversa muito, e ninguém me avisou que haveria uma troca de instrutores, o que teria catapultado a minha (agora percebo) teimosia em permanecer nesse (agora entendo) suplício. O novo professor de natação usa chinelo crocs, sunga, camiseta e uma touca pendurada na cintura. Ele depila as pernas. Ele teoriza sobre o fato de que não é a natação que deixa as pessoas gripadas, é esse entrar e sair da água. Ele filosofa sobre uma pixação que por anos habitou um muro na Gávea – “pra que o medo se o futuro é a morte” – afinal, “a única certeza que a gente tem é que vai morrer”. Breu no mundo. Maiô apertado. 6h40 da manhã.
4)     Do outro lado da raia vem nadando a todo vapor, depois de uma “virada olímpica” na margem, uma mulher que logo julgo ser exibicionista, insegura, egocêntrica e carente. Ela nada golfinho como se treinasse pras Olimpíadas de Londres, eu me encolho em meu humilde crawl, mas é batata: a mão esquerda dela me estapeia. Choro dentro dos óculos de natação, dou meia volta ao chegar na borda oposta pra evitar o professor, penso em fazer xixi na água só de raiva da mulher nadando golfinho.
5)     No vestiário, depois da aula, o dia já está claro, já são 7h30, luto pra tirar o maiô, penso “what the fuck”, penso em cortar as alças do meu Speedo preto, penso em sustar os cheques, em comprar uma bicicleta ergométrica, em entrar na yoga, em fazer um curso de meditação, em comprar 10 latas de sopa Campbells, e, quando estou saindo, passo pela senhora que nada antes de mim e que agora seca seus cabelos, e que diz “você é muito rápida, já nadou, já saiu e eu aqui ainda secando os cabelos”. Não seria um problema, mas ela repete a mesma frase, duas vezes por semana. E ainda que já passe das 7, e ainda que eu nem respondesse, mas assumi meu papel e digo “mas eu não tomei banho”, ao que ela responde “ah, vou contar pra todo mundo!”, ao que saio correndo, maiô no saco, minha pele marcada pelo elástico do modelito PP (embora fosse M) que não me veste, meu desespero, minha sede, meu cansaço.

Uma das minhas músicas preferidas dos últimos meses, e que é a única que conheço do Grateful Dead, toca em looping na minha cabeça, e já a culpo pela minha permanência estendida na natação: and it’s just a box of rain. Me apeguei a essa máxima. É só uma caixa de chuva, que mal pode fazer? Mas no fundo eu sei que é muito mais que isso. Hoje, voltando pra casa, confesso: me deu saudade do Carlão.





quinta-feira, janeiro 12, 2012

Lanterna dos afogados - capítulo V


Well we all need someone we can dream on, and if you want it, baby, well you can dream on me. - Rolling Stones in Let it bleed.  



Minha incursão pelo mundo das piscinas teve fases bem distintas e definidas. Em comum, todas serviram de pretexto para abandonar a atividade. Estranhamente, segui adiante, com o mantra de se cheguei até aqui, só mais um pouco não vai doer. Quando ultrapassei a marca dos 1600 metros, confesso, achei que nem as inflamações escapulares (cada vez mais freqüentes) poderiam me parar. Virei uma máquina. Mais que todos os benefícios que a natação proporciona, mais que o impacto do livro do Haruki Murakami sobre corrida (eu sei, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mas no fim dá no mesmo), o que me incentivou a continuar desbravando raias foi o Zé.

Até a minha amizade com o Zé começar, eu enfrentei: a) o pânico de morrer afogada; b) o pânico de ter um treco; c) o Paulão, ou Carlão?; d) a saudade doída do ballet.

Por partes:

a)     O ritual matinal nos primeiros 3 meses da natação consistia em dar um beijo na minha mãe ainda adormecida, afagar o cão idem e dar uma última olhada na cozinha de casa. Mentalmente me despedir de tudo, saber que aqueles gestos de carinho seriam minhas derradeiras delicadezas para com o mundo, porque depois de uma série de crawl, certamente morreria afogada. E eu sabia que era quase impossível tal façanha, visto que era só ficar de pé na piscina pra evitar tal tragédia, e mesmo que não conseguisse, havia ainda cerca de 3 ou 4 professores a postos que não hesitariam em mergulhar pra me salvar, provendo os mecanismos necessários para me ressuscitar. Nada, porém, me convencia, e meu epitáfio era certo: tal qual Ofélia, afogou-se.

b)     Quando entendi que não iria me afogar, achei, então, que pararia de nadar porque teria um treco. O desespero da falta de ar me faria, numa manhã chuvosa, interromper bruscamente uma braçada de costas, caminhar até a margem oposta, subir pela escada, buscar meus pertences e entrar no elevador ainda pingando, sem olhar pra trás, alheia às súplicas da Lili, ou de quem quer que fosse, de voltar pra água. Nunca aconteceu: numa raia de 3, fazer isso atrapalharia o ritmo do nado dos outros 2 atletas, e pra essas coisas sou solidária, portanto não tive um treco por excesso de compaixão e falta de espaço.


c)      O Paulão. Até hoje eu não sei se ele se chama Paulão ou Carlão, mas tanto faz porque Paulões e Carlões são, conceitualmente, a mesma pessoa. Ando destreinada para reconhecer flertes, mas quando o sujeito puxa assunto no elevador e te dá umas sacadas, é batata. No começo achei que era impossível alguém curtir alguém que tinha,  antes: marca do travesseiro no rosto, cabelos desgovernados, calça de pijama por cima do maiô; durante: maiô, touca, óculos, pé-de-pato; depois: marca de touca na testa, toalha amarrada na cintura, cabelos amassados, bochechas rosas. Mas cada olhada do Paulão (ou Carlão) em minha direção falava sobre coisas que eu nem sei dizer. Em vez de ficar lisonjeada ou orgulhosa do meu poder de sedução atroz, achei que a existência do Carlão (ou Paulão) na raia ao lado era motivo o suficiente pra abandonar tudo aquilo, porque aquele pretendente era demais até pra quem tem uma casa afetiva como a minha. 

d)     Em dezembro, também, eu fui assistir a uma apresentação de dança contemporânea e lembrei de como era ridiculamente feliz no ambiente bem menos molhado de uma sala de aula de dança, e toda vez que eu nadava e que tudo era igual e nunca outra coisa, eu pensava puta que pariu, o que eu to fazendo aqui? Drama bem fácil de entender.

Comecei a perceber que o que me mantinha ali chafurdada nas águas cloradas daquela escola de natação era o Zé.

O Zé divide raia comigo nas aulas de quarta-feira. O que eu sei do Zé: ele tem uma neta Julia de seis meses e um outro neto mais velho. Ele costumava dirigir até Campinas, completando o percurso em cerca de 5 horas. Ele gosta de vinhos. Ele tem voz de Nelson Gonçalves e sempre que o avisto entrando na piscina, cantarolo Chão deEstrelas mentalmente. O Zé, não sei por que, me dá vontade de chorar. Ele tem uns 80 anos, nada tranquilamente e ainda se preocupa se não vou bater com as unhas na parede da piscina, e se oferece pra tocar de lado comigo na raia. Eu mostro pra ele que mantenho as unhas curtas, e sinto vontade de chorar de novo.

Desde que eu descobri a doçura do Zé que chego mais cedo às quartas-feiras e faço alongamento com ele, a Elda e o Jimmy na piscina, antes de começarmos de fato a nadar. A Elda e o Jimmy também são mais velhos, não tanto quanto o Zé, mas ainda assim. A identificação com essa turminha é imediata e já penso em convidá-los pra um cineminha. Algo me diz que teremos muito assunto.

Hoje, às 7h01, fiquei presa no elevador do prédio da natação. Me veio todo esse flashback na cabeça, vi minha vida natatícia passar diante dos meus olhos. Por sorte, o Paulão não estava comigo. Tudo, sempre, poderia pior. Ficar presa no elevador do prédio da natação, ainda que por 3 minutos, foi como morrer afogada duas vezes na mesma quinta-feira, porque de repente, ao dar as primeiras braçadas do dia, tudo começou a doer (ombro, escápulas e pescoço), eu engoli água pacas e eu voltei à estaca zero. Quando consegui me libertar e chegar até a escada de acesso à piscina, não vi o Zé, porque não era o dia dele. Nem a Elda e nem o Jimmy estavam lá. Verdade seja dita, no estado em que me encontrava, até o Carlão poderia ter servido de alento, porque minhas pernas tremiam e eu só pensava em sair correndo, mas desde dezembro que esse ser está desaparecido.

O episódio dessa manhã anunciou que essa história de natação já foi longe demais. O Zé, posto que era chama, foi eterno enquanto durou. Já sinto saudades. Na hora do almoço vou comprar sapatilhas. Ballet é um massacre, mas é bem mais seguro.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Burn down the disco, hang the dj*

A minha mais nova obsessão atende pelo enrugado nome de hidroginástica. Mais precisamente, a trilha sonora e a influência da mesma sobre os alunos que às 7 horas da manhã estão fritando na piscina enquanto eu tento não sufocar na raia ao lado, alternando crawl, costas e peito (e lutando contra as infiltrações dos óculos).

Minha cisma começou numa manhã em que “Colombina”, do Ed Motta, tocou à exaustão, num repeat aquático que nem um ser dotado de barba e tridente seria capaz de contornar. Fosse aluna eu já teria organizado uma reivindicação e exigido um DJ. Por esses motivos difíceis de determinar se feliz ou infelizmente, eu sou só uma aluna da natação que escuta apenas relances das músicas, e que nem para mais tanto pra descansar nas bordas da piscina pela mesma razão. Eu que já tenho implicâncias com pierrots, peguei um eca da música do Ed Motta que estendi minha raiva a essas moças cheias de pompons, e duvido que tudo passe até a próxima quarta-feira de cinzas.

Na semana seguinte, preparada para versos como “gata de rua faz ron ron / ao luar” (porque depois de “Colombina” só podia vir mais Ed Motta), dei de ouvidos com uma música clássica remixada. Já é triste o suficiente ter de dançar “I Will survive” remixado em casamentos. Inundar os ouvidos de água clorada e Mozart batidão é algo que só um tarja preta pode resolver no fim do dia. O curioso é que os alunos da hidroginástica pareciam não se abalar. A cabeça sempre pra fora d’água está diretamente relacionada ao fato de eles serem mais felizes que eu na piscina, mas achei que a música pudesse nivelar o nosso sofrimento. Que nada.

Lá estavam eles, na quinta-feira da outra semana, com as mesmas expressões condescendentes enquanto Michael Jackson arrebentava com “Don’t stop til you get enough”. Eu não entendi. Ou melhor: comecei a desconfiar que todos eram surdos, e pela média de idade, devem mesmo ser. Contei pra Rita, não sem espanto na voz, que os velhinhos da hidroginástica pouco se importavam com o Michael. O diagnóstico dela foi mais certeiro: insensíveis.

Achei que Pitty remixado (why, god, why?) com “Uh tererê” seria mais que pretexto pra uma revolução submersa. Eu teria, no mínimo, programado incontinência urinária com meus coleguinhas caso me visse afrontada por tal afronto. Mas lá estavam eles. Tão felizes ou indiferentes ou surdos ou insensíveis quanto antes. A essa altura eu comecei a nadar 1500 metros por aula, tão desesperada estava de não escutar mais nada que viesse daquele canto da piscina. Era um bate volta sem fim, eu comecei a engolir água pacas e pensei, quem sabe, em migrar pra natação dos bebês onde ninguém nunca morreria afogado e onde a música era condizente com a turminha. “A baleia / a baleia / é amiga da sereia / olha o que ela faz / olha o que ela faz / tchi bum chuá, tchi bum chuá”. Decidi que se os professores cantassem a música da “Loja do Mestre André” ou a “Galinha Pintadinha”, era o destino me chamando.

Depois de uma quinta-feira bipolar 80s, em que uma sequência que começou com “Louras Geladas”, do RPM, culminou com Legião Urbana em “Vento no Litoral”, achei que a piada estava indo longe demais. “Eu deixo a onda me acertar” não é recomendável pra nenhuma atividade dentro da piscina, especialmente quando ela envolve gente da terceira idade. Fiquei tão desnorteada que, sem querer, dei braçadas em toda a galera que dividia a raia comigo, saí da piscina sem conferir se estava tudo dentro do previsto na aula de bebês e prometi só voltar àquele caixote de ladrilhos em caso de surdez aguda. Aí, quem sabe, em vez de me unir aos bebês, vou pra turma feliz em que as cabeças nunca afundam na água. 



*Panic, The Smiths. 

quarta-feira, junho 08, 2011

Lanterna dos afogados, o retorno

(para ler ao som de The Swimming Song – Vetiver)

Eu sou uma pessoa má: eu julgo a indumentária alheia, creio que existem bebês feios, amaldiçoo um ou outro escritor, menosprezo todas as séries do Multishow.

Por outro lado, eu não sou uma pessoa competitiva, de modo que, ao final da aula de natação, quando a professora me informou que eu havia nadado 900 metros, eu não fiquei feliz, impressionada ou desafiada a aumentar a minha marca para 1 kilômetro. Eu continuei esbaforida, achando que aquele esporte servia mais como exercício expiatório de toda e qualquer culpa que eu poderia ter e fiz planos radicais de diminuir meu rendimento para módicos 400 metros.

Freud e todos os outros pensadores devem ter explicações embasadas que justifiquem o fato de eu ter voltado à natação. Os meus motivos são os que seguem.

Nadar é resolver seus pecados em tempo de no dia seguinte poder comete-los todos outra vez. Qualquer xingamento a terceiros se dissolve nas primeiras braçadas e pernadas de crawl. E também, convenhamos, depois de 5 quilos adquiridos em embriagantes e calóricas viagens, e de uma esperança que acendeu as luzes da minha agonizante vida afetiva, ter uma barriga e duas pernas socializáveis virou item de urgência na minha agenda.

Além do mais, a minha nova professora de natação tem cara enfezada e bota fé no meu teatro desesperado, logo, ela não vai me empurrar pro nado golfinho ao menos até o final de agosto, que é quando termina o meu plano trimestral que estupidamente adotei. É claro que tal decisão foi tomada depois de uma aula. Pico de endorfina, sentimento de superação. Sair viva e andando da aula de natação é motivo mais que suficiente pra escrever todo um livro de auto-ajuda: você não morreu sufocada, aguntou firme o figurino patético e o olhar de pena da professora.

Mas vitória mesmo é sobreviver ao professor pró-ativo de hidroginástica. Todas as vezes em que eu alcançava o outro lado da piscina, ali onde dava pra escutar a música do Ed Motta que parecia tocar em looping (“mia, arranha o sol, uuuuuu...), ele tinha na ponta da língua uma frase de incentivo: “no começo é difícil mesmo, depois fica mais fácil.” O que ele nunca entenderia, e eu nem ousaria explicar, é que o “depois” dele tinha uma conotação bem diferente da minha: ele pensava em um mês ou dois, eu pensava em reencarnação. Ele continuava seu discurso otimista, eu pensava em espanca-lo.

Na segunda semana de natação, eu implorei pra minha chefe me prender numa reunião interminável, mas eu era muito nova naquele escritório pra participar de qualquer evento desta importância, e lá fui eu, plano infalível, fingir afogamento antes de completar 200 metros e, sob a alegação incontornável do trauma, nunca mais me arriscar numa piscina.  

quinta-feira, junho 07, 2007

Lanterna dos afogados

Às vezes é preciso um bocado de impulsividade pra fazer as coisas acontecerem, aquelas atitudes impensadas que depois te fazem olhar pra trás e se perguntar como você foi capaz. Foi assim numa tarde lotada de Copacabana que eu entrei na loja na esquina da Siqueira Campos e sem mais delongas comprei um óculos de natação e um maiô. Tinha de ser assim, horário de almoço, cartão de crédito e saí da loja pensando em me jogar na primeira piscina que eu visse, porque o começo da atividade teria de ser dessa mesma forma. No caminho pro trabalho passei por um clube e então senti calafrios. Lembrei da minha última aula de natação e quase corri à loja pra devolver os apetrechos com medo de que a minha futura carreira aquática fosse uma sucessão de piscinas com água fervendo e de um constante escapar da morte (por calor, obviamente). E eis que a segunda aula de natação aconteceu em piscina indoor e quente como da primeira vez (faz tempo que saí da análise...). Havia, contudo, dois fatores essenciais que tonificaram a minha força de vontade para com o esporte: muita, muita dor nas costas e uma professora diferente que tinha o nome da minha mãe. Fui com a cara dela. Um ponto pra mim. Após a avaliação (uma chegada de cada um dos três estilos que eu sei nadar) ela disse que eu tinha muita potência de pernada. Dois pontos pra mim. Dez minutos depois de começada a aula eu tive um déjà vu dos brabos: muito ofegante e com muito calor eu achei que ia morrer sufocada e não havia liberação de bolhas que me convencesse do contrário. Fiz minha melhor cara de sofrimento e a Cláudia então me mandou intercalar as chegadas com mergulhinhos que ativamente recuperariam minha respiração em ritmo normal. Bullshit, eu pensei. E fui mergulhando enquanto pensava que natação seria muito mais bacana se houvesse alguma projeção no fundo da piscina, um filme mudo talvez de alguém em terra firme. Não compartilhei a idéia com a Cláudia porque acho que ela não ia entender e além disso ela estava muito entusiasmada em me ensinar a nadar. Como se eu realmente quisesse aprender isso, mas também não discuti com ela. Ao fim da aula ela disse que gostaria que eu voltasse, o que era compreensível porque além de mim só havia mais dois alunos na turma e a outra menina tinha um maiô muito mais horripilante que o meu. Milagrosamente eu voltei e na segunda aula aprendi como se nada peito de verdade e também aprendi a como andar depois de muitas chegadas de peito e lá pela metade da aula quando eu já começava a rezar internamente (natação devolve a fé perdida, eu juro) a Cláudia me deu um pé de pato. E então pela segunda vez em menos de dois meses eu me apaixonei de novo. Excel e pé de pato, eu poderia passar semanas nadando de pé e pato e fazendo contas no Excel. Eu poderia fazer planilhas no Excel que organizassem minha rotina de exercícios com pé de pato. Eu poderia, enfim, gostar de natação só por causa do pé de pato, mas o mundo é cruel e o pé de pato me deu câimbras horríveis no pé direito. A Cláudia alongou meus dedinhos e me separou do pé de pato e lá fui eu nadar crawl com os meus humildes pés que para meu pequeno consolo, segundo a Cláudia, são muito bem articulados. Voltei a odiar natação, a respiração ofegante e pensei que a única coisa que poderia me livrar desse purgatório é uma bursite no ombro. Mas não chego a deseja-la, porque esse tipo de coisa acontece...

sábado, abril 21, 2007

Nadando contra a corrente

Um dia eu concluí que algumas das coisas que lemos são mais confiáveis que pessoas, e por causa de uma edição da Piauí eu fui fazer uma aula de natação (mesmo que, meses antes o médico tivesse recomendado o mesmo). Eu desconfiei que minha conclusão fora precipitada no momento em que o relógio marcava 8:05, a aula tinha começado às 7:50 e eu já achava que ia morrer. De calor. E olha que de calor eu tenho vivência... Eram 8:05 da manhã quando eu senti que suava dentro da piscina e essa incongruência foi apenas um dos fatores que me levaram a concluir, dessa vez com conhecimento de causa, que natação na Piauí é poesia que a gente não vive.

Pra começar que o traje de natação é qualquer coisa de deprimente e todo ser metido numa toca e num óculos perde parte de sua credibilidade. Pra sorte ou desespero, não sei ainda, o professor (no meu caso professora) não entra na piscina em momento algum. Além de não ter que passar pelo ridículo do figurino, o cara também não ferve. Sim, porque piscina aquecida é eufemismo, aquela água estava mais para fervida.

Fazia aproximadamente 17 anos que eu não nadava nem cachorrinho e o primeiro comando que a professora deu foi: ida e volta de crawl, ida e volta de peito, ida e volta de costas, ida e volta de golfinho. Eu disse que golfinho pra mim era aquele bicho que a gente vê em passeio de barco em Noronha, passeio no Sea World ou foto na Wikipedia e parti pra desbravar o tedioso mundo dos azulejos enfileirados. Seis braçadas e estava cumprida a rota de ida, mais seis na rota da volta e então o nado peito e depois o nado costas. Descobri que nadar é que nem andar de bicicleta, não só no sentido de que não se esquece mas também no sentido de que não vale a pena pagar por isso. O resto da aula foi mais ou menos igual ao começo: nada pra cá, nada pra lá. É claro que eu não esperava aprender como cozinhar um pato no vapor, mas achei que depois de quase 20 anos sem praticar, alguém me daria pelo menos um alento.

Ainda, eu pensava que nadar era atividade calma e apaziguadora. Ledo engano. Sai da piscina mal me equilibrando nas minhas pernas, que tremiam e ameaçavam me deixar na mão a qualquer passo. Fui pra casa, confesso, com uma sensação de relaxamento, caí na cama e dormi que nem um bebê. Esse era o único argumento que poderia me fazer mudar de idéia mas então lembrei-me de rede, vinho, relaxante muscular e vi que algumas boas horas de sono podem ser mais facilmente conseguidas através de meios pouco nobres, mas ainda assim menos aterrorizantes.

E foi assim, num modelito horripilantemente démodé que eu fervi, quer dizer, nadei durante quase 40 minutos numa piscina enquanto repassava mentalmente diversos trechos das matérias da Piauí, lembrava dos relatos entusiasmados e apaixonados que lera e comecei a me indagar se seria um problema do esporte em si ou da minha falta de romantismo. Achei melhor não concluir porque da última vez que fiz isso fui parar numa aula de natação.