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quarta-feira, abril 15, 2015

Míni


O meu pequenino Diário de Moscou foi lançado na segunda-feira, 13 de abril, ao lado dos livrinhos do Pedro Rocha, Luca Argel, Victor Heringer, Leonardo Gandolfi e Thiago Pichi, pelo selo Megamíni, da Editora 7Letras. Obrigada demais à Isadora e ao Jorge, que me convidaram para integrar a coleção. 


Os meus mínis esgotaram, mas uma nova reimpressão já está a caminho da livraria da 7Letras - só tem lá (Rua Visconde de Pirajá, 580/3o andar). Ou fale comigo! 


domingo, outubro 27, 2013

Um discurso amoroso


e bilíngue para o casamento de C. e P., com todo o coração. 

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Queridos,

Uma confissão: para escrever este pequeno discurso li livros, fiz pesquisas, enquetes, conversei com veteranos bem sucedidos no assunto... e meus rascunhos continuavam um misto de clichê, cafona e, pior, acadêmico.

Pensando naquele poema do Fernando Pessoa (“Todas as cartas de amor são / ridículas / Não seriam cartas de amor se não fossem / ridículas”) concluí que os discursos de amor também só poderiam ser ridículos. Exceto o do Barthes, é claro. O que não ajudou em nada.

Então um dia ouvi no rádio uma música que a certa altura diz: “E até quem me vê / lendo o jornal / na fila do pão / sabe que eu te encontrei”* e pensei naquela primeira vez que a C. me falou do P., e naquele momento eu entendi que a fila do pão, do banco, do aeroporto nunca mais seriam problemas pra ela.

Portanto o que eu desejo para vocês agora é que aproveitem muito aquele aparelho de som incrível que P. comprou e que não deixem faltar música em casa: para encontrarem a afinação todos os dias, para aprenderem um o ritmo do outro, para que o encontro de vocês seja sempre uma dança com os passos que vocês inventarem juntos, esses que driblarão eventuais descompassos e notas fora do tom. E que vocês possam dançar a toda hora e em qualquer lugar, até na padaria – ridículo é falar de amor, vivê-lo é uma sorte!

Com carinho,


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Avant d’entamer ce petit discours, une confession : j’ai lu des livres, fait des recherches, des enquêtes, j’ai parlé à de grands orateurs et mes brouillons restaient clichés, kitschs et, pire encore, académiques.

J’ai pensé au poème de Fernando Pessoa (“Toutes les lettres d’amour sont / ridicules / Elles ne seraient pas des lettres d’amour si elles n’étaient pas / ridicules”) et j’en ai conclu que les discours d’amour ne pourraient qu’être pareillement ridicules. Sauf celui de Barthes, évidemment. Ce qui ne m’a pas aidée.

Jusqu'au jour où j’ai entendu une chanson à la radio : “Et même ceux qui me voient / lire le journal / faire la queue à la boulangerie / savent que je t’ai rencontrée” et j’ai alors repensé à la première fois où C. m’a parlé de P., et  comment, à ce moment-là, j’ai compris que faire la queue dans les boulangeries, les banques, les aéroports ne serait plus un problème pour elle.  

Ce que je vous souhaite, c’est que vous profitiez pleinement de l’incroyable chaîne que P. a achetée et que la musique ne manque jamais chez vous : pour que vous trouviez le ton juste chaque jour, que vous appreniez le rythme l’un de l’autre, pour que les moments passés ensemble soient toujours une danse avec des pas inventés par vos soins, ces pas qui esquiveront d’éventuels décalages et fausses notes. Et que vous puissiez danser à n’importe quel moment et n’importe quel endroit, même dans la boulangerie – parler d’amour est ridicule, le vivre est une grande chance !

Avec tendresse,

Jules


* Último romance, Los Hermanos


segunda-feira, agosto 05, 2013

1923

A minha avó, naquela manhã, mais parecia uma estrela de cinema ou uma imagem sagrada, dessas que todos querem tocar e adorar. A cabeça branca da minha avó – cor de neve brilhante, anos de xampu especial – se via de longe rodeada por outros cabelos, muitos adornados de brilhos e flores de domingo. A minha avó, naquela manhã, recebeu cumprimentos, apertos de mão, abraços e exclamações que saíam pelas mãos e pelos sorrisos de todos que foram parabeniza-la pelos seus 90 anos.

A minha avó, naquela manhã, desceu do carro em frente à estação ferroviária de Nilópolis, subiu as escadas da igreja apoiando-se no corrimão – que ela julga indispensável – e sentou-se no terceiro ou quarto banco do lado esquerdo. Recebeu as saudações do Frei José – que há uns 40 anos atrás casou uma das minhas tias, e que há uns 30 anos atrás me batizou, e que já fez outras bênçãos para a família – e acompanhou uma missa repleta de crianças, cantos, palmas e gestos, aqui e ali, que interpretavam algumas das canções. Minha avó subiu ao altar ao término do culto e leu, encabulada, palavras sobre as graças de se fazer aniversário. Minha avó rezou, levou uma salva de palmas e à saída comeu um pastel de queijo típico de feira, iguaria disputadíssima pelos fieis dali.

A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição recebeu a minha avó com tanto carinho que quase que ela teve que sair fugida, pois cada um que ia cumprimentá-la queria também falar com as filhas e a neta a tiracolo. A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, naquela manhã em que a minha avó parecia uma estrela, me deu a exata noção da ideia de comunidade, e uma inveja tão grande do subúrbio que, no caminho de volta, olhei praquelas casinhas imaginando a minha avó por ali, comendo bolos e gostosuras de uma vizinhança que jamais a deixaria voltar pro Leblon – e nem suas filhas e neta a tiracolo.

A gente vai passando pelas pessoas no dia a dia, e aquela gente dali vai parando pelas pessoas, numa tônica tão distante da nossa, e tão mais lógica. A minha avó, de fato, é uma estrela, e o subúrbio desperta mesmo uma ternura, porque é justamente o que emana. E suas filhas e neta a tiracolo, que sorte, provaram desse espelho, lugar que é contra a assepsia dos afetos.

Na volta pra casa eu fui pensando em alguns poucos sambas que sei cantarolar, e em como muitos deles nasceram desse sentimento de pertencimento, de uma relação com o seu lugar. Velhas rixas que compuseram hinos declaratórios a diversos berços, ou apenas odes a seus morros e feitiços. Tem alguma coisa nisso que eu queria pra mim. Eu não sei a minha avó mas eu, quando cheguei em casa, nem tomei banho e passei aquele dia sem lavar as mãos, querendo guardar um pouco mais, com um cd do Noel Rosa no som. Desconfio de que ela tenha feito o mesmo. 



domingo, maio 05, 2013

5 coisas que aconteceram no ano em que voei de balão


(Para Clara M.) 


1) No primeiro dia do ano de 2006 eu acordei sobre um braço que não era meu. Catei no chão o vestido, verdadeiro obstáculo da noite anterior, e fui até o banheiro tateando um corredor que eu não conhecia. Lavei o rosto e usei uma escova de dentes de alguém que eu também não conhecia e joguei as lentes descartáveis no cesto do lixo. Voltei pro quarto, outra vez me livrei do vestido, escorreguei para debaixo do edredom. Quando fechei os olhos, vermelhos e sensíveis por causa das lentes ressecadas, quando senti o alívio por fechar os olhos, e quando, respirando devagar e mexendo levemente os pés, como sempre faço pra embalar no sono, quando aquela certeza de dormir loucamente, sem hora, feriado mundial: dois braços que não eram meus, o rosto barbado, encontro de línguas, primeiro passo pro infinito. 

2) Li Ciranda de pedra e sublinhei, entre outros, este trecho: “Ouça, Virginia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.” Li, também, todo o Caio, sem nem poder desconfiar de tudo o que essas leituras me causariam, e girfei, na página 168 da antologia que cobre a década de 1980: “Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer.”

3) Num caderno de capa dura (rosa) e folhas sem pauta (brancas) colei um silk de estrela prateada de uma camiseta que ficou velha, sendo que duas de suas pontas cobriam um pedacinho de um autógrafo do Marcelo Camelo que eu conseguira no ano anterior, numa garagem de Ipanema. Na contracapa do mesmo caderno escrevi, de caneta brilhante, um poema de Rimbaud. Das 150 páginas, 3 foram usadas para transcrever passagens dos diários do Kurt Cobain; 5 foram ocupadas com fotos de pessoas que estavam in voga naqueles tempos; 9 foram usadas para colar uma correspondência por email com um sujeito que me daria um pé na bunda em Paris no outono; metade delas poderia ter molhado de tanto que chorei por causa das separações que enfrentei e quase todas continham pelo menos uma ocorrência do nome dele (que ainda não tinha entrado na história e quando chegou, ai meu deus).

4) Clonaram meu Orkut.

5) Num outro dia em janeiro sentei-me numa cadeira Tenreiro procurando permanecer imóvel. À minha frente um artista plástico que eu admirava muito me desenhava. Eu nem sei se precisava ser tão econômica nos gestos, mas me parecia uma possibilidade coerente. Ele me traçava a carvão e eu sentia um batuque brando no peito, e esse estado presente era o que me dava a nítida sensação de que, na verdade, eu estava dançando, porque eu tinha esse ritmo, e portanto era impossível ficar imóvel. Poucos minutos depois, ao olhar para o desenho pronto, aquele desconforto de ficar olhando para si, e certo deslumbramento de, ao mesmo tempo, se reconhecer e ser estrangeiro, a desconfiança de que alguém tivesse me investigado, bem mais que F. naquele réveillon,  bem mais que os livros que me atravessaram, bem mais que roubo de senha: eu a carvão era uma possibilidade, mas tão real, como quando o mundo vai se apequenando e você vai vendo as casas de cima, os telhados e os buracos das chaminés, como quando o balão levanta voo e você vê tudo igual, mas de outro jeito, se embrenhando em azul, desviando de nuvens. 



segunda-feira, outubro 01, 2012

Paraty para malogrados

Tenho uma pilha de trabalhos acadêmicos pra fazer, um amor pra conquistar e a Carol ainda me pede que eu atualize o blog. Então recorro a uma canastrice das piores, e deixo aqui as minhas anotações pós-Flip pela metade, além de uma dedicatória (for dummies) enquanto um novo texto não vem. (Gustavo, por favor, não me abandone.)



1. Da alimentação

Cada 3 quadradinhos de Passatempo recheado contem 140 calorias. Multiplique esse valor pelo equivalente a 2 pacotes e teremos o total de calorias ingeridas em substituição a 2 almoços que nunca chegaram. Comer em Paraty é um desafio peloqual eu havia passado em 2008, e de lá pra cá já era possível ter havido uma intervenção do SEBRAE, SESC ou SENAC (ou outro órgão afim) no sentido de estruturar a cidade para receber seus visitantes, especialmente durante o período em que ela fica mais cheia. Antes mesmo. A média de espera por um prato é de 1 hora e 15. As ameaças de cancelamento de pedidos chegam a 90% por refeição. Contei 3 panelas no restaurante tailandês onde um garçom tatuado cometeu de 5 a 7 grosserias em 3 horas (das quais, duas esperando: mesa, comida, Godot), e pedi uma banana de tira-gosto porque tive a certeza de que iria desmaiar de fome. Numa conversa com amigos livreiros, igualmente subnutridos como eu, pensamos que em tempos de Flip devia haver pequenas ilhas de alimentação rápida espalhadas pelo centro histórico, com barracas de temaki, uma versão express da Bruscheteria, sorvete Itália, crepes de palito etc. Para 2013, já planejo levar um personal cozinheiro, equipado de fogareiro, sopas e que tais. E o Itaú, em vez de distribuir aqueles bancos de papelão, pintando inutilmente a cidade de laranja, devia oferecer cachorro-quente Geneal. Fica a dica.

2. Das pedras

 O Itaú podia distribuir, também, fisioterapeutas. Eu comentava com a Rosana que Paraty era excludente, e que devia haver uma Para-Flip. Pouco depois, recebemos a notícia de que a chefe de nossa delegação quebrara o pé em acidente ocorrido dentro da tenda dos autores, quando Zambra dizia que Emilia tinha morrido e Julio não tinha morrido e o resto era literatura. Para além da escuridão e da falta de grades na tenda dos autores, as depressões e desnivelamentos das ruas são um suplício para qualquer flâneur, e se Flaubert fosse caiçara a história da literatura ocidental seria outra. Poucos sapatos resistem, muitas torções nos espreitam, não há coluna que se sustente, e na segunda-feira, passados alguns quilômetros de olhos mirando o chão, decreto: estou em frangalhos. Tivesse o Itaú distribuído bolas de pilates, massageadores de madeira que deslizam bolinhas pelas costas e relaxantes musculares, ou mesmo mucamos para carregar os mais escolióticos, nem precisaríamos de repouso no primeiro dia útil pós festa literária. 

3. Das dedicatórias

Ao começo da mesa de Laerte e Angeli, anunciaram que seriam distribuídas apenas 50 senhas para autógrafos após o debate. É um processo de seleção natural e cruel que exclui automaticamente os tantos sentados nas tendas dos autores e do telão. É cruel, também, quando o autor, em vez de fazer uma dedicatória, por mais boba e impessoal que seja, declara que só vai assinar seu livro. A caminho de um almoço, desolados sob o sol do meio-dia, carregando 2 livros com apenas duas assinaturas, pensamos em falsificar as mesmas. Inserir um “to Julieta”, seguido de um “love your glasses” ou algo do tipo, algo que desse testemunho do encontro pífio entre leitor e escritor. Era só ter a mesma caneta, copiar a letra, quem ia saber? Nós que gostamos de ficção temos um acordo tácito com a vida: estamos dispostos a ser manipulados e iludidos por toda espécie de manobras. Mas no caso da dedicatória, talvez a mentira perdesse mesmo o sentido. O sonho acabou, disse John. Acho que agora entendo...



A simpática dedicatória de Enrique Vila-Matas (juro).






segunda-feira, março 19, 2012

domingo, setembro 11, 2011

Riocentro




"For Julia, you are a lovely person, and you have made our visit to Rio so pleasurable and so memorable, I cannot thank you enough, Anne Rice, september 2011."


Uma Bienal do livro rende tantas histórias que daqui até a próxima eu poderia fazer um blog só desse assunto. Mas tem aquele problema de que a maioria das coisas só tem graça na hora. A maioria das coisas, de fato, só tem a graça que a gente dá. Entre perguntas como “oi, posso ler um poema pra você?” e “moça, você tem algum livro sobre paraquedistas?”(de uma menina de 8 anos), ainda deu tempo pra um chope com Adriana Lunardi, um jantar com Antônio Xerxenesky, um abraço em Thalita Rebouças e um tour por igrejas e pelo Corcovado com Anne Rice. Isso só pra citar os autores da casa. Eu que tinha medo de conhecer as pessoas dos livros, estou achando que estou no lugar certo. E se não estiver, parece que tenho um futuro promissor como figurante.