segunda-feira, outubro 01, 2012

Paraty para malogrados

Tenho uma pilha de trabalhos acadêmicos pra fazer, um amor pra conquistar e a Carol ainda me pede que eu atualize o blog. Então recorro a uma canastrice das piores, e deixo aqui as minhas anotações pós-Flip pela metade, além de uma dedicatória (for dummies) enquanto um novo texto não vem. (Gustavo, por favor, não me abandone.)



1. Da alimentação

Cada 3 quadradinhos de Passatempo recheado contem 140 calorias. Multiplique esse valor pelo equivalente a 2 pacotes e teremos o total de calorias ingeridas em substituição a 2 almoços que nunca chegaram. Comer em Paraty é um desafio peloqual eu havia passado em 2008, e de lá pra cá já era possível ter havido uma intervenção do SEBRAE, SESC ou SENAC (ou outro órgão afim) no sentido de estruturar a cidade para receber seus visitantes, especialmente durante o período em que ela fica mais cheia. Antes mesmo. A média de espera por um prato é de 1 hora e 15. As ameaças de cancelamento de pedidos chegam a 90% por refeição. Contei 3 panelas no restaurante tailandês onde um garçom tatuado cometeu de 5 a 7 grosserias em 3 horas (das quais, duas esperando: mesa, comida, Godot), e pedi uma banana de tira-gosto porque tive a certeza de que iria desmaiar de fome. Numa conversa com amigos livreiros, igualmente subnutridos como eu, pensamos que em tempos de Flip devia haver pequenas ilhas de alimentação rápida espalhadas pelo centro histórico, com barracas de temaki, uma versão express da Bruscheteria, sorvete Itália, crepes de palito etc. Para 2013, já planejo levar um personal cozinheiro, equipado de fogareiro, sopas e que tais. E o Itaú, em vez de distribuir aqueles bancos de papelão, pintando inutilmente a cidade de laranja, devia oferecer cachorro-quente Geneal. Fica a dica.

2. Das pedras

 O Itaú podia distribuir, também, fisioterapeutas. Eu comentava com a Rosana que Paraty era excludente, e que devia haver uma Para-Flip. Pouco depois, recebemos a notícia de que a chefe de nossa delegação quebrara o pé em acidente ocorrido dentro da tenda dos autores, quando Zambra dizia que Emilia tinha morrido e Julio não tinha morrido e o resto era literatura. Para além da escuridão e da falta de grades na tenda dos autores, as depressões e desnivelamentos das ruas são um suplício para qualquer flâneur, e se Flaubert fosse caiçara a história da literatura ocidental seria outra. Poucos sapatos resistem, muitas torções nos espreitam, não há coluna que se sustente, e na segunda-feira, passados alguns quilômetros de olhos mirando o chão, decreto: estou em frangalhos. Tivesse o Itaú distribuído bolas de pilates, massageadores de madeira que deslizam bolinhas pelas costas e relaxantes musculares, ou mesmo mucamos para carregar os mais escolióticos, nem precisaríamos de repouso no primeiro dia útil pós festa literária. 

3. Das dedicatórias

Ao começo da mesa de Laerte e Angeli, anunciaram que seriam distribuídas apenas 50 senhas para autógrafos após o debate. É um processo de seleção natural e cruel que exclui automaticamente os tantos sentados nas tendas dos autores e do telão. É cruel, também, quando o autor, em vez de fazer uma dedicatória, por mais boba e impessoal que seja, declara que só vai assinar seu livro. A caminho de um almoço, desolados sob o sol do meio-dia, carregando 2 livros com apenas duas assinaturas, pensamos em falsificar as mesmas. Inserir um “to Julieta”, seguido de um “love your glasses” ou algo do tipo, algo que desse testemunho do encontro pífio entre leitor e escritor. Era só ter a mesma caneta, copiar a letra, quem ia saber? Nós que gostamos de ficção temos um acordo tácito com a vida: estamos dispostos a ser manipulados e iludidos por toda espécie de manobras. Mas no caso da dedicatória, talvez a mentira perdesse mesmo o sentido. O sonho acabou, disse John. Acho que agora entendo...



A simpática dedicatória de Enrique Vila-Matas (juro).






Um comentário:

Gustavo disse...

se o gustavo sou eu: Jamais!
se nao for eu? Jamais tambem!