domingo, novembro 29, 2015

Diário de Lisboa - parte 2


Está lá, finalmente, na página 295 da poesia completa da Alejandra Pizarnik, numa edição bonita que estava juntando poeira há tempos na mesinha, o verso que Alexandra Lucas Coelho citava na página 123 de um romance, ou ainda cita, citará toda vez: “Alguna vez, tal vez, encontraremos refugio en la realidade verdadeira. Entretanto ¿puedo decir hasta qué punto estoy en contra?” Foi como encontrar um tesouro. Há um ou dois dias Raduan Nassar completou 80 anos e, claro, folheei os 3 volumes dele, coisas como “suas mãos eram inesgotáveis” sublinhadas, justo no dia em que decidi terminar de escrever o meu próprio livro, que fala de mãos inesgotáveis. Parecem sinais, não sei bem de quê, L. usou essa frase uma ou duas vezes durante a curta vida que tivemos juntos, quando descobriu no meu corpo algumas medidas que tinham o exato tamanho de suas mãos (inesgotáveis, evidentemente), ou quando nos cruzamos em Botafogo sem combinar, já achando (ou tentando achar) que não nos veríamos mais.

Carol é da opinião de que o aniversário é dele mas o presente deveria ser nosso, um lançamento de um livro que já ninguém mais especula que exista, ou que já ninguém mais julgue necessário depois do que ele já escreveu. Tem uma beleza aí, Raduan em sua fazenda enquanto todos nós tentamos desesperadamente alguma reclusão que dê conta de nossos manuscritos. Eu poderia pegar um avião e me instalar numa praia por dias até que resolvesse isso, mas tenho tido inércia até pra comprar pão. De tempos em tempos, portanto (de horas em horas, mais precisamente), arrumo a bagunça do sofá, ponho pra fora os jornais acumulados e passo o olho pelo arquivo que leva o nome de Cravos_nov2015, com a desconfiança de que ainda tem um buraco ali, com a suspeita de que eu talvez já não saiba mais como preencher porque já misturei todas as histórias possíveis, com a certeza de que nunca o darei por encerrado. Na prática, às vezes, alguma teoria literária afinal faz sentido. Mas eu diria que é mais angústia do que qualquer outra coisa, esse medo que é ter de fazer essa coisa totalmente sozinha, mesmo que as estantes estejam já abauladas de tantos livros.

Pouco antes de encontrar os versos da Pizarnik, deparei com estes também dela: “Sí, lo malo de la vida es que no es lo que creemos pero tampoco lo contrario.”

Fiz o terceiro chá do dia e fiquei aqui pensando numa música que ouvi essa tarde num aniversário de criança e que diz: “Caranguejo não é peixe / caranguejo peixe é / caranguejo só é peixe na enchente da maré”. É bom que o autor explique a confusão, mas tá na cara que seguimos produzindo adultos confusos, ou que, ao menos, em algum ponto desses dias chuvosos, precisem de comprovação científica de alguns fatos. Ou poética. 



quarta-feira, novembro 18, 2015

Diário de Lisboa - parte 1


Se acabó la bossa nova
y empezamos a correr el dial.
Los pájaros hambrientos
que estuvieron viajando durante la noche
ahora picotean los techos de nuestros autos. 
Las calles están cortadas, no hay comida
y ya nadie cree
que podamos organizar el próximo Mundial. 

Fabián Casas


Minha mãe sempre conta de quando o Collor confiscou o dinheiro de todo mundo: ela e os amigos que moravam perto de nós passavam o dia todo na praia sem saber o que fazer, tomando sorvete Itália, que era raro de passar naquela época, ao contrário do Dragão Chinês e da Maria Thereza Weiss. Acho que ainda não tinha ciclovia na Barra, quando começaram a substituir os trailers por quiosques padronizados foi super esquisito. Talvez ainda tivesse o caminhão do Churros Del Uruguay estacionado na Praça do Ó, em frente ao Via 11. Eu fazia jazz na esquina de casa e ainda não sofria do quadril, e tudo o mais sobre aquela época já foi contado em crônicas hilárias do Antonio Prata: as pessoas fumavam em restaurantes, ninguém usava cinto de segurança e os pais alertavam suas crianças pra não chegarem muito perto das janelas, que não tinham redes de proteção. Quem queria ser louro acreditava no xampu de camomila, todo mundo usava aquele Sundown gordurento no rosto e a gente entulhava gente em carros no rodízio para a escola. Eu marcava cinema com a Marcelle e a gente se encontrava no meio do caminho, no Barrinha verde. Ou não, posso estar confundindo tudo.

O caso é que ontem Carol me falou que o Jagged Little Pill, da Alanis Morissette, fez 20 anos e eu não podia crer que tinha só 13 e cantava “You oughta know” com sentimento. Eu assistia muito MTV, amava os clipes do Foo Fighters e dos Paralamas do Sucesso e pensava em ser diretora de arte, ainda que não soubesse que essa profissão existia. Meu quarto era uma bagunça sem nenhuma referência artística decente e cheio de pôsteres do Kurt Cobain, o que já dava provas de uma vocação nula para a coisa. Eu gostava das colunas de um Marcelo Pires na Capricho e colecionava páginas dela, que se chamava “PS do PS do PS”. Numa delas ele citava uns poemas da Martha Medeiros, e parte da minha adolescência foi feita de leituras dos livros dela. Hoje torço o nariz, e imagino o que terá acontecido ao Marcelo Pires e àquela minha pasta de recortes. Em 2015 eu continuo amando aquela caixa de leite otimista do clipe do Blur e por alguma razão toda vez que escuto “Tender”, da mesma banda, imagino a caixinha fazendo um lip synch simpático. Há pouco tempo ouvi uma música do Gorillaz que dancei muito em festas, ou acho que dancei muito em festas. Há uns meses coloquei “Changes”, do Tupac, pra tocar numa festa. A reação foi menos entusiasmada do que eu esperava. Há uns dias coloquei Alice in Chains no iTunes, Laney Stanley eternamente soará para mim como um gato miando, eternamente amarei o verso final de “Would”. Eu sabia tocar (mal) “Come as you are” no violão, hoje tenho parte da letra escrita na parede de casa, junto a poemas contemporâneos que falam de dinossauros, boleros, danças. Ainda guardo, também, uma camiseta do Nirvana que ainda me cabe. Uso pra dormir. Às vezes.

3 outros amigos foram demitidos, já não sabemos mais se é melhor acreditar no Rumos do Itaú Cultural, na Mega Sena ou numa casa coletiva em Mauá. Os remédios pra dormir, há relatos, também estão falhando com todos, parece que só sexo mesmo. "Voltamos a viver como há 10 anos atrás" (sic), a conta de luz aumentou outra vez, eu ainda acho que quebrei o pé, apesar do raio-x que me desmente, e torço pra que pelo menos um edema apareça na ressonância, porque alguma coisa precisa fazer sentido nesse novembro em que tenho que checar se os amigos foram atingidos por ataques terroristas.

Em 1996 o ingresso do show da Alanis Morissette no Metropolitan custou R$ 25,00, a Carol estava lá também, mas ainda não sonhávamos em nos conhecer. Imagina? Uma leve bateção de cabelos virgens de Minoxydil e/ou tonalizante. Não me lembro quem estava comigo, mas tenho vivos na memória os gestos característicos da Alanis, achava o máximo ela cantar “I’m broke but I’m happy”, achava meio romântico, sei lá. Carol identificava Alanis ao feminismo, embora ainda não se falasse de empoderamento e ainda não se usasse frases de “Águas de março” no Facebook toda vez que chove em março. Não que uma coisa tenha a ver com a outra, mas você sabe.

Hoje meu sobrinho faz 5 anos. Corremos pelo shopping e caí no chão com ele. Um dia antes, marquei meu primeiro peeling na dermatologista. Idade é um troço relativo mesmo, veja só, em um momento a gente luta com o moleque em espaço público, no outro passa ácido na cara pra dormir em guerra contra as sardas. Hoje deu praia, um sujeito esquisito me pediu opinião para escolher um par de óculos do vendedor ambulante no posto 12, eu fingi que não entendi e aumentei o volume dos fones, tão óbvio, “I’m lost but I’m hopeful, baby”, como é que vou opinar nos óculos alheios, não estou esperançosa, certamente bem desnorteada, isso parece aquele conto do Caio Fernando Abreu em que eles cantam Angela Ro Ro até altas horas? Ele veio uma década à frente pra mim, melhor não misturar as estações, e na real nem sei porque te escrevo isso tudo, talvez pra concluir que tem mais coisa não perecível no mundo além do Caetano. 


quinta-feira, novembro 05, 2015

Conversas botânicas


Entramos no Jardim Botânico e caminhamos em direção ao cactário. Nosso objetivo era encontrar um da espécie Mammilaria que havia florescido contra as expectativas dos pesquisadores locais, que temiam que a planta não se adaptasse à umidade carioca. A foto no jornal era de uma fofura tamanha que convoquei M. para a expedição, acreditando numa possível epifania frente a uma beleza natural tão perto de casa. Já entre as árvores comentei que ficara um pouco decepcionada com o lago de vitórias-régias onde planejava me jogar depois de passar mais de três horas na Caixa Econômica Federal do bairro. Expliquei que aquilo parecia um amontoado de folhas chapadas sobre a água sem nenhum planejamento estético. Como assim?, ele perguntou. Eu achava que as vitórias-régias eram folhas grandes com aquela moldurinha em volta e uma flor no meio. Mas na prática era apenas um aglomerado de folhas sem graça flutuando, nenhuma organização, nenhum método. Um dia antes eu conversava com C. sobre metodologia de pesquisa, talvez isso tenha me influenciado. O caso é que desde que me associei ao Jardim Botânico tenho feito um esforço enorme para gostar do lugar como as pessoas acham que eu deveria. Ou poderia. Mas até a excursão aos cactos eu só tinha deparado com jacas e aves não identificadas, além de ter tirado duas ou três fotografias de transeuntes que queriam ser eternizados em frente ao chafariz ou no corredor das palmeiras reais, além de uma galeria de grávidas e/ou casais posando para retratos tão mal ensaiados quanto as vitórias-régias.

O cactário, por sua vez, é evidentemente mais consistente, você logo identifica um projeto paisagístico, e nos dividimos, cada um em uma direção, para procurar o cacto em questão. Havia chovido oceanos na véspera e toda aquela água parecia suficiente para danificar possíveis flores em possíveis cactos. Pra ser mais exata, aquela água parecia ameaçadora para existências em geral, inclusive as nossas, já meio esmaecidas pelos percalços bancários, tédio e falência iminente. Entre cactos que pareciam corais marinhos, outros que pareciam tentáculos peludos de algum animal sinistro e alguns que pareciam cactos mesmo, daqueles de desenho animado, M. encontrou um pesquisador da instituição por ali e indagou sobre o cacto digno de nota no jornal que procurávamos. O pesquisador apontou um diminuto cacto abundante em espinhos e nada além disso. Os três agachamos e ele disse que a floração dessas plantas é muito efêmera, eu perguntei se teria sido o caso de largar o jornal, o café e o que mais fosse para correr até lá, mas pode ter sido apenas uma pergunta mental, porque logo ele estava dizendo que sim para uma pergunta real de M., dizendo que aquela área, uma espécie de anexo do cactário central, era nova, que haviam preservado as fundações históricas que se encontravam ali, como os tanques que nos indicou ao lado, e sugeriu que déssemos uma olhada no restante do espaço garantindo que havia espécies interessantíssimas a serem observadas, quiçá instagramadas. Voltamos às estufas e aos caminhos delimitados, outra vez vimos os cactos que pareciam corais, tentáculos peludos e cactos como o consciente coletivo os identifica.

Você conhece o caminho da Mata Atlântica?, e subimos para que eu conhecesse mais um caminho cheio de jaqueiras, que foram descritas por M. como uma praga. Tipo os saguis? Mas ele não sabia a procedência dos saguis, e eu tampouco tinha a história tão em dia, de modo que seguimos até descermos perto do orquidário. Nesse trecho do passeio lamentei a falta de espreguiçadeiras no Jardim Botânico, isso sim, concordamos. Todas as vezes que penso em me deslocar até ali para ler, em vez de me afundar no sofá, desisto frente aos bancos pouco convidativos. Eu deveria me candidatar à presidência do local. Pensava nisso quando aves grandes de papo laranja-avermelhado apareceram no caminho. Veja esses bichos!, exclamei, e M. riu concordando que “bichos” era um bom termo para defini-los. Deveriam vir com uma placa de identificação presa às penas, não acha? Mais uma pauta para o meu palanque. Também instituiria que flores deveriam ser permanentemente afixadas a cactos, o que tornaria o cactário o lugar mais disputado do Jardim, o que por sua vez atrairia as atenções de alguém que tivesse ideias para melhorar o lago das vitórias-régias e assim povoar o espaço de forma mais igualitária. O setor de plantas insetívoras certamente se beneficiaria, pela mesma lógica.

Saímos do Jardim um tanto decepcionados, e mais tarde mandei a foto do cacto tal qual deveríamos tê-lo visto para M. e para C., e ambos concordaram com a singeleza daquele pequenino amontoado de espinhos que ostentava uma coroa de flores cor de rosa, fazendo parecer que havia sido vestido com um colar havaiano. Garanti dois votos para minha candidatura imaginária. C. logo me dispensou porque estava às voltas com um questionário para um grupo focal. M., por sua vez, pediu 3 números para jogar, pela terceira ou quarta vez na mesma semana, na Mega Sena, porque combinamos que faríamos apostas individuais e coletivas. Àquela altura o prêmio estava acumulado em 50 milhões. Mandei os números e um alerta: não se vicie. Meu vício é sonhar, ele respondeu. Desconfiei que talvez o meu também seja. 


terça-feira, outubro 27, 2015


INVERNO NO JARDIM BOTÂNICO

muita saudade

flor lilás, ladeira, frio e vazio
tudo o que não existia agora sou eu

Thiago Camelo, in Verão em Botafogo (7Letras, 2010)


segunda-feira, setembro 28, 2015

Formigueiro


"Procurei na internet algumas breves citações de Ortega y Gasset, que por algum tempo tinha pensado que eram duas pessoas distintas, como Deleuze e Guattari ou Calvin e Hobbes."
Ben Lerner, Estação Atocha (Rádio Londres, 2015)


Naquela noite sentamos para conversar e tomar chopes como há muito não fazíamos, num bar que já não tem mais os azulejos beges que ficaram eternizados nos retratos que B. fazia toda vez que vinha ao Brasil, cada um de nós desprevenido no momento em que uma mão gesticulava e saía borrada na foto, ou quando atirávamos as cabeças para trás para gargalhar melhor.

Naquela noite eu tinha uma pequena lista das coisas que finalmente havia feito, como se a cada despedida um gatilho se acionasse e eu colocasse em dia os planos que deveriam ter sido realizados a dois, mas que por falta de tempo, sorte ou qualquer outra razão acabaram adiados até a impossibilidade, e listei mentalmente alguns deles achando que seriam novidades boas para contar, mas eles não fariam ideia e eu não tinha muita certeza de poder explicar.

Naquela noite falamos muito sobre como trilhar caminhos, e lembrei-me de uma cena corriqueira na infância: na rua detrás da casa de campo havia sempre fileiras de formigas enormes a empinarem folhas e pequenos pedaços de flores, caules e afins, num andar trôpego típico de quem carrega muito peso. Agachada, eu observava aquele trabalho ordenado, pequeninos pontos verdes, cor de laranja ou rosados marchando lentamente pelo solo de terra. Aquele pequeno exército em zigue-zague parecia bem mais confiante que nós, dando cabeçadas em imprevistos e numa travessa de frituras, eventualmente caindo em buracos.

Naquela noite, enfim, tomei coragem e contei a eles que havia terminado um romance, e o fiz tentando segurar as lágrimas, e eles brindaram imediatamente porque entenderam tratar-se de um livro. Eu ri e rapidamente inventei um enredo meio melancólico, uma história de desencontros, cravos e uma cidade alemã, e morri de tristeza ao ver o banheiro reformado, limpíssimo, asséptico.

Mas doído mesmo foi chegar em casa, abrir a geladeira e comer jabuticabas saídas de uma caixa poluente e com códigos de barras, em vez de esticar os braços e arrancá-las das árvores daquela casa que em sonhos sempre parece que ainda é minha.  


quarta-feira, setembro 02, 2015

novidade


Falei aqui sobre algumas editoras independentes que tenho acompanhado e gostado muito, portanto fico feliz demais de lançar mais um pequeno livro – um pequeno impresso, na verdade – pela maravilhosa Pipoca Press.


A coleção Puxadinho surgiu para abrigar publicações de textos curtos e inauguro essa série ao lado da Elisa Menezes e seu Oceanário. Como ela mesma diz, é tanta amizade envolvida que o evento tá mais pra festa que lançamento e preparamos até playlist temática, Mar & Sexo. Não percam!

quarta-feira, agosto 12, 2015

Fico parada na borda mais do que o necessário, atravancando um pouco o tráfego, mas ninguém acha estranho porque ficar cansado faz parte, assim como interromper a série, recomeçar a contagem. Ou simplesmente não contar. Algum dia eu vou tentar isso: não contar. Nadar como se a piscina não terminasse nas bordas.


Paloma Vidal, Mar azul

segunda-feira, agosto 03, 2015

Quermesse

Foram bonitos todos os sorrisos de Stela que vi esses dias, tanta festa que já não sei mais que tamanhos em que lugares, mas todos largos. Foi bonito quando Maria chegou de chapéu e sacolas, e logo Ana veio da outra direção carregada, e foi bonito quando abrimos os primeiros papeis coloridos sobre a calçada. Foi bonito o moço descarregando o caminhão e logo dando forma a barraquinhas, que logo ganharam enfeites, flores, corações, milhos, cheiros e calor. Foi bonito quando apareceu a moça com vassoura e pá e foi varrendo e recolhendo folhas, sobretudo, foi bonito juntar gente que puxou fios, emprestou energia, deu palpite. Foi bonito Claudia amarrando chitas e prendendo fitas em parede de plantas, foi bonito cada carro que parou pra perguntar se ia ter festa. Foi bonito a Juliana com tanto sorriso, apesar de. Foi bonito o moço da padaria perguntando se ia ter comida típica. Foi bonito o Dado no alto da escada e uns tantos pescoços curvados para trás, olhos e expectativa de que o fio carregado de lâmpadas desse. Foi bonito o céu naquele dia, e foi bonito todo mundo de braços esticados nas pontas dos pés erguendo e protegendo as bandeirinhas, que iam de calçada a calçada, dos carros que passavam. Foi bonito a Edna gostando de todos os jovens da rua. 

Foi bonito quando Julia e Miguel chegaram bem caipiras com cachaça em punho, e logo atrás outro e outro e outro. Foi bonito quando acenderam a luz e a noite caiu. Foi bonito aquele grupo de cães confortavelmente esparramados na rua, e também o cumprimento caloroso do cãozinho que vinha no colo da Fátima. Foi bonito o tráfego de carrinho de bebês, as crianças vestidas de Homem Aranha, os cachinhos de Martim. Foi bonito quando Rosana e Bernardo e Fefê no colo saíram às pressas porque a sobrinha ia nascer. Foi bonito o trio tocando música, a pista de dança improvisada. Foi bonita a fila da cerveja, o pão quando acabou, o último queijo coalho compartilhado. Foi bonito o forró com o André e seu suspensório, foi bonito o menininho de 7 anos que tentava levar novos pescadores para a barraca das brincadeiras. Foi bonita cada alegria de quem apareceu, especialmente a da lua, e foi bonito quem elogiou até o ângulo, vocês pensaram em tudo mesmo, disse. E a dança das cadeiras e o empenho, a Mari pulando por cima de todos. Foi bonita a quadrilha que chegou quase na rua ao lado de tanta gente, aquele túnel que parecia não ter fim, a cavalgada que parecia carrinho de bate-bate, foi bonito o Marcelo gritando pra Ana o que ainda faltava dançar, foi bonito a Ana no microfone e só faltou ela cantar. Foi bonito o jeito que o Gregório deu pra casar uma galera: duplas, trios, beijos e risadas. Foi bonito 3 ou 4 pessoas assistindo de camarote da janela do prédio. 

Foi tão tão bonito quando a moradora mais antiga da rua, de bengala em punho, apareceu para falar, e tinha gente que nem sabia que ela já tinha aparecido mais cedo pra ver os preparativos. Foi de chorar, na verdade. 

Foi bonito aquele palco que fizemos e que recebeu família, amigo, amor e bicho. Foi bonita toda despedida. Foi bonito o alívio de tudo ter sido assim, e foi bonito quando a moça voltou com a vassoura e a pá, ainda que um pouquinho triste. As barraquinhas já vazias, a Maria já com frio, todo mundo já com fome, o Dado no alto da escada outra vez. O Alexandre pegando o carrinho pra carregar a tralha pra casa da Ana. A dona Vilma sugerindo fazer de novo amanhã.


Foram bonitos todos os sorrisos de Stela que vi esses dias, largos como todos os que se abriram naquele arraiá, e depois nós 4 deitados na sala sem saber como acabar, o cheiro da folha de mirra no portão, foi bonito todo mundo querer mais. Foi bonito quando o moço da padaria perguntou, também, se ia ter forró e poesia e eu disse que sim e que não, mas afinal teve, não é? Foi bonito ter poesia. Foi bonita a festa. 




terça-feira, julho 28, 2015

Anatomia

“Um amigo meu me recomendou um massagista que é médium”, disse M., o que não soou tão estranho assim porque tem aquele personagem que é atendente na padaria e poeta e todo mundo pode ser um monte de coisas ao mesmo tempo, parece. Isso porque comecei a contar da nova fisioterapeuta: ela ficou comigo duas horas, DUAS horas, me virou do avesso, apertou tudo o que era passível de ser apertado e rabiscou meus pés e minhas costas (e não apagou depois), em todos esses anos nunca vi isso, e discorreu longamente sobre travesseiros, alturas, texturas, rolinhos alternativos, tecnologia da Nasa, plumas, deitar de lado só se abraçar um lance, de bruços nem pensar, de barriga pra cima é mais recomendável. Antes de dormir pensei: fudeu, vai ser pior do que se tivesse alguém ao lado, fosse sobrinho ou amante ou qualquer outra pessoa que eu ficaria monitorando de cinco em cinco minutos.

Uma vez acordei com o edredom meio queimado porque adormeci em cima de uma bolsa elétrica dessas que em 1 minuto ficam quentes, em 3 você apaga, em 7 tem ameaça de fogo à própria cama. Uma vez acordei e mal consegui me mexer porque uma contratura tomava tudo – escápula, romboide, escaleno, trapézio, cervical, maxilar, ombro, braço, cotovelo –, lado direito morto, e isso passou a se repetir desde já nem sei mais, pelo menos uns 8 anos, uma dor crônica que não aparece em radiografias e que é descartada com um “mexa-se de vez em quando, levante da cadeira, dê uma volta”, como se tudo fosse uma questão de sair andando pelo escritório, buscar uma água, tomar um café. Uma vez acordei e pensei que devia haver um serviço para domingos, alguém que se encarregasse da água, do milk-shake, do pão, do disco do Caetano, do chocolate, do chá, da Nutella, mas já tem, se chama mãe, mas não dá pra explicar a origem de todas as dores pra mãe porque umas são ortopédicas, outras não. E não dá pra evitar as despedidas, o vazio que fica na parede porque você resolve dar dois quadros de presente antes do voo, o buraco que fica no pé que foi aniquilado por um salto agulha na noite anterior, e todo o David Bowie que há no mundo, e “Freedom 90” fazendo de copos microfones e da pista de dança casa e dos amigos coração, e de repente os copos-de-leite que foram levados amarrados uma semana antes na bici porque o rapaz não tinha troco, nem tão de repente assim porque já fazia mais de meia hora imóvel no sofá, não resta dúvida, estão marrons.

A anomalia na bacia – coxofemoral, ilíaco, psoas, adutor, acetábulo – deve ser resultado de hérnia de disco e agora não posso nem mais cruzar as pernas, nem conversar de lado, nem dobrar a perna esquerda e sentar sobre ela, e vamos ver, não tenho um diagnóstico, preciso entender como seus tecidos reagem e seguir uma ou duas hipóteses mas certamente a gente tem que reverter esse padrão cervical invertido, recuperar a lordose superior perdida, estica essa perna, vocês que são muito alongados, e vira os olhos como se fosse fazer “pfff” depois, seu teste de frouxidão ligamentar deu negativo, mas todo esse en dehors na bacia, pombas, pensei, não serve pra nada mesmo, nem pro balé, porque chegava na altura do joelho e a rotação sumia como mágica, enquanto ela mete o dedo contra o meu pescoço e eu vejo es-tre-las e tudo o mais que Carolina não viu, uma rosa, um samba, tudo lindo. Não faça nada, e eu me contorcia na maca, conforme for te libero pra natação em duas semanas, mas com ressalvas, não alongue nada sob hipótese alguma, jamais puxe a cabeça pro lado, tem um clube ali ao lado da sua casa, o tempo já vai melhorar. Onde será que essa mulher mora? Há séculos não tem inverno, há séculos estamos em julho.

D u a s  h o r a s , o tempo passa com espaço duplo às vezes, e no domingo eu achava que a coisa mais triste do mundo era tirar maquiagem porque ainda não tinha chegado esse dia em que apenas não há possibilidade de habitar meu corpo desconjuntado. Sente-se bem sobre os ísquios, sinta o chão, as partes moles, as articulações, entregue os olhos no rosto, não é lindo isso?, ai que saudade das aulas de dança, de Cecilia, de todo mundo que já foi embora de novo.

“Quero assinar esse feed da fisioterapia”, M. disse, e à noite calculei que tinha sopa de abóbora para uma encarnação, além de ter contado 12 copos de requeijão consumidos ao longo de 12 meses. Não é nada, mas talvez seja alguma coisa. 




quinta-feira, julho 16, 2015

Xô, chuá!

No fim da aula de dança Paulinha vem e dá aquela coçadinha na minha cabeça, aquela que a fisioterapeuta também fazia quando eu chegava totalmente empenada ao consultório e que funcionava como espécie de prêmio, aquela com as pontas dos dedos pelo couro cabeludo todo, aquela que me deixa num misto de encantamento e invalidez temporária e que, portanto, parece paixão fulminante.

Abro a porta de casa assim, flutuando, mesmo que tenha encarado a São Clemente, e vejo na mesa da sala uma bagunça de farelos e substâncias fétidas que por sorte não foram feitas sobre homeopatia nem literatura. Imaginei uma série de questões mundanas quando resolvi morar sozinha: os serviços que sempre param de funcionar; um possível vício em televisão; fome; alagamentos e/ou vazamentos involuntários; solidão. Definitivamente não adivinharia que sofreria de macacos invasores e ladrões de banana, aveia e cream-cracker.

As visitas começaram pouco antes do meu primeiro verão no Horto: as criaturas entravam e saíam por um basculante que ficava quase totalmente bloqueado por 3 vasinhos de violetas, ou ao menos foi disso que suspeitei, visto que a janela de cima estava constantemente fechada. Rosário, a diarista do 202, um dia me alertou: “Julia os macacos entraram na sua casa e saíram com duas bananas debaixo do braço. Macaco-prego, Julia, grandão assim!” Pelos meus cálculos, era impossível que um macaco-prego entrasse por aquela abertura sem derrubar nem uma folha, nem uma pétala das violetas, o que me fez desconfiar de que minha casa, na verdade, era invadida por gatos. Quando, numa manhã sonolenta, descobri uma marca de mãozinha na parede, na altura correspondente à alça do vidro da janela, desconfiei de que fossem mesmo macacos, treinados pela Socila ou pelo equivalente animal da instituição, afinal a janela permanecia fechada, o que só podia significar que eles entravam e batiam a porta ao sair.

Pasma com a educação e inteligência dos meus macacos, telefonei para um amigo fotógrafo que prometeu me ajudar a montar um esquema de filmagem para flagrar os meliantes. Nos meus devaneios eu teria registros maravilhosos dos macacos em casa, faria edições com uma trilha sonora maneirinha e também fortunas com o novo viral do YouTube. Bel botou fé e disse que faria camisetinhas à la “Sexy Boy”, e desde então a minha vida foi tomada pela música do Air a cada banana surrupiada ou qualquer outro sinal da presença de macacos em minha residência.

Quando dezembro, o calor e as cortinas da janela chegaram, os macacos sumiram e a minha popularidade ficou bastante ameaçada: pessoas me encontravam na rua e perguntavam por eles, os amigos no trabalho apuravam diariamente, mensagens chegavam por redes sociais cobrando as invasões animais no meu apartamento e de repente eu parecia tão desinteressante perante a sociedade, que nem mesmo se preocupava em disfarçar o “então tá” ao notar que eu não tinha nenhum relato novo. Num exercício de livre associação imaginário, as pessoas diriam "Julia" ao ouvirem a palavra "macaco".  Passei a me sentir limitada a essa única possibilidade existencial, e também passei a fechar o basculante. Não foi fácil perder amigos e bananas...

Os macacos voltaram no outono, depois de meses em que me convenci de que a cortina da sala os intimidava. Entrei em casa, peguei o telefone sem fio e no meio da conversa fiquei meio gaga: "Alguém entrou aqui." Um pacote de cream-cracker estava estraçalhado em cima da mesa, pedaços pelo chão. Mas por onde? Como? A porta de correr que isola a área de serviço estava marcada por mãos de macacos. Eu havia usado a máquina de lavar roupa um dia antes, provavelmente esquecera a porta aberta, os macacos entraram pela janela do gás da área e encontraram o caminho livre. Bingo!

Foi nessa altura das invasões que Bruna achou que essa relação estava desigual e que eu deveria ter algum tipo de benefício em troca da alimentação orgânica que involuntariamente oferecia a eles. Minha irmã concordou e sugeriu que eu pedisse uma bolsa-Ibama. De Paris, outra Bel achava melhor eu assumir de uma vez o abastecimento de uma família inteira de macacos-prego. Em Paraty, Lucas ria enquanto eu tentava me desviar das abelhas do Coupé: “Julia e o mundo animal”, ele disse, e no dia seguinte dei de cara com um macaco na minha sala, numa manhã em que não havia dúvida de que eu havia fechado a porta de correr na noite anterior.

O macaco atravessou a cozinha correndo e pulou para a janela do gás da área de serviço, e lá estavam outra vez as pegadas na porta que eu tinha limpado cerca de 8 horas antes. Dei um grito de susto e me sentei no sofá com o coração aos pulos: paixão fulminante e bichos, são diversos os fatores que desencadeiam ataque cardíaco, e quanto eu já escrevia para a minha chefe explicando que chegaria atrasada porque dentro de alguns minutos teria um enfarto, vi o macaco botar a cabeça pra dentro de casa pra verificar se eu ainda estava ali. Ficamos assim durante uns segundos, ele sumia e reaparecia pela janela, como quem quer voltar, eu inspirava e expirava tentando restabelecer o pulso. Aos poucos me aproximei da janela e o macaco, vencido, escapou para o vão do prédio, onde uns 3 ou 4 macacos-prego gigantescos o esperavam. Pareciam gorilas, e calculei que se por um lado a minha popularidade já se estabilizara outra vez, por outro o risco de doenças coronarianas aumentava. Foi quando decidi comprar um trinco para a porta que os bichos abriam sem maiores dificuldades.

Às 7:48 de uma manhã de quarta-feira Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, tocou meu interfone. Ele estava com o irmão que não usa cardigan, mas que é igualmente simpático e fã de Nespresso, e tomamos um café enquanto eu explicava pra eles o drama selvagem. Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, mas sem cardigan naquela ocasião, e o irmão, começaram a me contar histórias de macacos. Na mais trágica de todas um macaco era encontrado morto numa banheira de um apartamento do Jardim Botânico. Causa mortis: excesso de consumo de xampu. Se não fosse um bom ajudante de faz-tudo, o irmão de Edilson, o faz-tudo etc., daria um bom ficcionista. Às 8:15 Edilson me perguntou se podia fazer barulho com a furadeira: “Vai lá e arrasa, Edilson”, eu disse, pensando que esta é, por enquanto, a única vingança ao meu alcance contra a família barulhenta do apartamento da frente. Larguei Edilson e o irmão e dei a triste notícia para Bel, Bruna, outra Bel e todos os outros amigos que também já estavam apegados aos meus macacos. Tal como John Lennon, anunciei: o sonho acabou.


Às vezes no silêncio da noite eu fico imaginando todas as conversas que terei daqui pra frente: o último livro que li, a praia de domingo, a festa junina da rua, a chatice que é a segunda temporada de True Detective. É uma liberdade que me assusta, até, ter que criar pautas e provar que meu carisma vai além dos macacos, não deixar a peteca cair. Às vezes no silêncio da noite, também, eu fico imaginando macacos adestrados, desses que já deixam a cebola e o alho picados ou que, no auge do devaneio, vêm dar aquela coçadinha na minha cabeça quando não consigo dormir. 


terça-feira, julho 07, 2015

Paraty

As abelhas voam por entre os copos e demais utensílios sobre a mesa e aperto o botão para chamar o garçom. P. repete imediatamente a operação, e quando ele chega para nos atender explica que basta uma chamada. Seguro nas mãos o livro com a dedicatória que ela acabou de escrever a caneta preta e que me define como “viajante e sorridente”. Gosto de mim assim. Eu peço uma água, P. um café com leite. Há mais 3 pessoas conosco. Passamos uma parte daquela tarde em cadeiras amarelas de plástico numa praia decididamente bastante imprópria. Um sujeito muito branco e muito estrangeiro passa sem camisa, sem sapatos, sem saber que aquilo ali não é uma boa ideia de mergulho. Ainda por cima bem diante de nossos casacos e de uma tosse.

Três dias depois me reconheço na página 23 como “minha amiga”. Gosto de mim assim também, e agora sei como é quando as conversas reais viram diálogos em livros.


É por isso que insisto. 


sábado, junho 06, 2015

Led Zeppelin


Nado 500 m crawl e quando chego à borda e me seguro por dois minutos tomando fôlego é como quando te beijo às 4 da manhã. Logo alguém ordena a série de costas. Já não sei se estou dormindo, se tá amanhecendo ou se aqueles brilhos são estrelas.




quarta-feira, junho 03, 2015

Como fazer amizades

Enrolada no cachecol vinho da mãe, a menina (3 anos?) puxa assunto com a nossa mesa, depois de algumas informações perguntamos o nome dela:

- Meu nome é Julieta.

- Ah! E o meu é Julia. Acho que nossos nomes são primos, né? (muito animada)


- Mas a minha prima se chama Marina!


quarta-feira, maio 27, 2015

Diálogos com o sobrinho - vol. 3

Nós repetimos nossos pais, e de repente me peguei falando para meu sobrinho, que naquele dia não queria nada e emendava um "ah não" atrás do outro: “Você sabe o que é ‘anão’? Anão é um sujeito baixinho, que tem pernas e braços curtos. Anão é alguém pequenininho.” 

(Isso ainda é permitido em 2015? Ou ficou politicamente incorreto?)

Horas depois, passeando pela rua, fiz um comentário a respeito de um cachorro que cruzou nosso caminho:

- Ele deve ter 97 anos, Dinda.
- Por que você acha isso?
- Ou 90 anos. Porque ele é grande.
- Os cachorros não vivem tantos anos assim, Bê. E também, alguns cachorros ficam bem velhinhos e continuam pequenos. É diferente. Depende de cada tipo. Alguns crescem bastante, outros continuam pequeninos. Você se lembra do João Caetano, o cachorro da vovó?
- Lembro.
- Ele já era bem velhinho e ainda era pequenininho.  
- Então ele era um anão, né?


quarta-feira, maio 13, 2015

I never can say goodbye


Músicas para ouvir no fim da festa:

1)      There is a light that never goes out, The Smiths

2)    I never can say goodbye, Jackson 5

3)     Turn your lights down low, Bob Marley

4)    I can’t take my eyes off you, na versão Frankie Valli & the Four Seasons

5)     Because the night, Patti Smith


segunda-feira, maio 11, 2015

Dança contemporânea

“Alterne os planos, Julia, dificulte sua vida”, disse a professora, na aula de dança. Fez sentido.


quinta-feira, maio 07, 2015

Maio

Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.



E isso

diz muito sobre a minha caixa torácica.

Matilde Campilho, do Jóquei 

C. me entope de sotaques portugueses enquanto luto para respirar neste outono ingrato. Há uma mortandade de mini mosquitos no batente da minha janela, um vizinho do bairro disse que na casa dele também. Tombamentos por toda a parte. Deve ser essa configuração sociopolítica, ela diz. Deve ser. Ou deve ser que a gente queria passar os dias a ler poesia em vez de todo esse calhamaço teórico que ocupa nossas mesas e que eventualmente acaba ficando mesmo soterrado por essas obsessões que só divido com ela e ela comigo.

Tenho vontade, também, de copiar os meus versos preferidos em todos os lugares por onde passo: no espelho do banheiro, na porta da geladeira, na cortina da sala, na mesa de trabalho, no volante do carro, no carrinho do supermercado, nas paredes de M., nos e-mails que envio para os amigos e em toda forma possível de mensagem eletrônica numa tentativa, talvez, de obcecar mais gente.


“Acho que é nesse ponto que a gente mais se encontra, né?”, ela pergunta. Nessas manias e fissuras que a gente têm. Todo dia ela escuta aquele poema, espécie de reza pra quem acredita mais em literatura que em divindades. Todo dia ela queria poder fazer como eles fazem. Todo dia, agora, eu também. 


quarta-feira, abril 29, 2015

quinta-feira, abril 16, 2015

25 de junho Michael Jackson
e apenas posso dizer morreu uma vez mais
como só ele pôde e ainda por cima
como quase todos, continuará
morrendo por datas seguintes.
30 de junho Pina Bausch e dela
eu sempre soube pouco a não ser que
também dançava mas sem levar em conta
a dança. Como Pina Bausch em suas viagens
integrava ao seu grupo dançarinos locais
um dia conheci uma moça tão bonita que
dançara com ela. Nossa despedida foi ao telefone
e a linha abaixo a última coisa que ela me disse
tenho que ir, o feijão está no fogo.
2 de julho Rodrigo de Souza Leão
sobre o qual para efeito de luto digo
o que disse também ao fim de um verso
o grande poeta espanhol Pere Gimferrer
digo-o, é claro, sem o mesmo brilho e inflexão
qué triste es todo esto.

Leonardo Gandolfi, Kansas 

quarta-feira, abril 15, 2015

Míni


O meu pequenino Diário de Moscou foi lançado na segunda-feira, 13 de abril, ao lado dos livrinhos do Pedro Rocha, Luca Argel, Victor Heringer, Leonardo Gandolfi e Thiago Pichi, pelo selo Megamíni, da Editora 7Letras. Obrigada demais à Isadora e ao Jorge, que me convidaram para integrar a coleção. 


Os meus mínis esgotaram, mas uma nova reimpressão já está a caminho da livraria da 7Letras - só tem lá (Rua Visconde de Pirajá, 580/3o andar). Ou fale comigo! 


segunda-feira, abril 06, 2015

terça-feira, março 31, 2015

A última baguete do Garcia & Rodrigues

1.      Éramos 3 pra uma canga numa tarde meio nublada porque Fernando não havia pagado a conta de luz. Numa Ipanema pré-Smartphone, passamos o dia na praia comendo os iogurtes que estragariam porque Fernando estava atraído pela ideia de viver um tempo sem eletricidade. Marcelo e eu pensávamos na parte prática e o que mais nos preocupava eram possíveis topadas – dedões, joelhos, testa – nos móveis, o sangue seco que ficaria no lençol, porque a luz da vela não seria suficiente para uma assepsia adequada. Camisas amassadas, um relógio antigo de parede que com o passar dos dias transformaria os gestos de Fernando em movimentos pendulares, ceras de vela que esculpiriam candelabros meio sinistros. Não conseguimos chegar a um final: nossa narrativa ia ficando cada vez mais suja e amarrotada, Fernando tornava-se um ser esquisito e anacrônico e a única saída possível para aquilo tudo era alguém, finalmente, regularizar a situação junto à Light. Anos depois Marcelo me telefonaria com uma proposta: “vamos ter um roteiro juntos?” Mas já tínhamos, só não estávamos muito seguros de nosso amor por ele.

2.     A melhor baguete do bairro era aquela da padaria que ficava na esquina, diziam, isso antes das obras que deixaram o cenário com cara de filme de zumbi. Quando anunciaram que o lugar viraria uma churrascaria houve até protesto; talvez se soubessem que de fato aquilo viraria mais uma Americanas tivesse havido quebra-quebra e vândalos. As filas daquela última tarde de funcionamento davam a impressão de que o negócio poderia se sustentar por meses só com aquelas vendas e o clima, contam, era de desolação e declarações de amor ao fatiador de frios, ao garçom e a quem mais trabalhasse no estabelecimento. Lucas ficou para o gran finale e saiu de lá carregando a última baguete do Garcia & Rodrigues. Passei dias fazendo a cabeça dele para vende-la no Mercado Livre. Mas o pão estava congelado aguardando uma ocasião especial para ser comido. Por alguma razão – possivelmente a mesma do Fernando – Lucas ficou sem energia uns dias, e ainda que tentasse desesperadamente se reconectar com a luz o impensável aconteceu: a burocracia deixou a última baguete do Garcia & Rodrigues intragável e passamos uma tarde no Talho comendo empadinhas para esquecer.

3.     “Teve torcida gritando quando a luz voltou”, diz aquela música da Legião Urbana, e teve mesmo. Lá em casa falta luz toda semana, parece que vivemos numa propriedade rural do começo do século XX. Ou parece que vivemos no Rio de Janeiro do século XXI, já não sei mais. “Você sabe que o fogão funciona mesmo quando acaba a luz, não é?”, dizia a última mensagem que consegui ler – porque o sinal de telefone também some nesses dias escuros – depois de dizer melancolicamente a uma amiga que eu estava jantando as duas gelatinas que estavam na geladeira. “Eu sei”, escrevi, “mas se com tudo funcionando já produzo refeições desastrosas, imagina assim”, mas o desabafo ficou pra sempre preso no whatsapp. Eu tinha acabado de chegar do balé e tinha lido uma matéria sobre o músculo psoas, que em certas culturas é considerado o “músculo da alma”. A minha, a julgar pelo psoas, não parecia que voltaria a funcionar antes que a conta de luz chegasse. Resolvi, portanto, fazer 3 ou 4 alongamentos pra ver se alguma coisa melhorava.

4.     Fiz uma lista mental de tudo o que se pode fazer em noites assim, e pensando no meu psoas avacalhado e em tudo o que isso acarreta, fui prática e excluí utopias como sexo, drogas ou gato mia: escrever uma carta para Isabel, tomar banho, iluminar o globo de espelhos com a lanterna até minha sala parecer uma discoteca em fim de festa, ouvir música até acabar a bateria do computador. A luz voltou depois que eu já estava havia uns 15 minutos abraçada à bola de pilates. Fiz um estrogonofe. Ficou uma bosta.




quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Carnaval


“I think I might be a terrible person.”
For a split second I believed him – I thought he was about to confess a crime, maybe a murder. Then I realized that we all think we might be terrible people. But we only reveal this before we ask someone to love us. It is a kind of undressing.
Miranda July, The first bad man

(...) o grupo era diverso como a humanidade, e a humanidade, como se sabe, é uma soma de debilidades.
Roberto Bolaño, Os detetives selvagens



quarta-feira, janeiro 21, 2015

As coisas são mais fáceis na televisão


Foi numa dessas tardes de trabalho em que, entre uma leitura e outra, alguém diz que a Coca-Cola mexicana é a melhor do mundo. Fiquei incrédula, duvidando que a industrialização seja capaz de tais nuances: Toddy tem sempre gosto de Toddy, requeijão dificilmente fica melhor ou pior e todas as coisas que não dependem de safra ou de mim, em geral, são sinônimo de alegria. Ainda assim, resolvi conferir e foi batata: igualzinha, deliciosa, Coca-Cola com gosto de Coca-Cola.

A minha vida culinária tem sido feita de pequenos desastres. Receitas que sigo ao pé da letra e dão errado, carnes que ficam com sabor de nada e eventuais acidentes em que quebro sem querer um pote de mostarda em grãos no chão da cozinha, que é integrada com a sala, e então é domingo no verão e eu tento varrer os grãozinhos que se chocam uns contra os outros indo parar no lavabo, sob a máquina de lavar e eventualmente no quarto, como num jogo de bilhar em que o único vencedor é esse mundo tão cruel que te faz suar uns 3 quilos em meia hora. Nem o chuveiro é aliado porque a água está quente, mesmo que você gire a torneira fria ensandecidamente. 

Achei que com a chegada da páprica e das folhas de louro à minha prateleira algumas coisas se resolveriam, ao menos foi isso que me venderam. Que nada. Minhas refeições seguem insípidas, inodoras e quase insuportáveis. Toda vez que alguma coisa dá errada no meu fogão, portanto, abro uma Coca-Cola, carioca e gelada pela minha Brastemp que às vezes arruína as gelatinas, que viram uma mistura daquele vermelho envenenado com gelo. Tenho economizado os biscoitos Maria mexicanos para esses momentos em que tudo parece perdido, esses sim bastante superiores aos brasileiros.

Toda vez também que a gelatina se inviabiliza eu tento instalar minha impressora. É uma busca meio ilógica por algum sucesso doméstico, visto que impressoras foram feitas para vencer o homem, por mais que você se esforce. Na tentativa de descobrir algum talento para me virar comigo mesma, pego em armas e tento prender na parede a prateleira para abrigar todos os potinhos de temperos que nunca garantirão a satisfação gastronômica. Tenho até mentido para os amigos que me passam receitas “essa é mole, não tem o que errar”. É claro que tem, até a tapioca se quebra quando a transfiro da frigideira para o prato. A minha vida culinária, em resumo, se parece com a minha vida amorosa: uso perfume Chanel antes de refogar qualquer coisa, ponho a culpa na panela, vou dormir com fome e concluo que aquela música do Kid Abelha, afinal, serve para tudo, inclusive para aquela crase que você deixou passar no livro que estava preparando.

Somado a isso tenho agora 4 buracos na parede, duas prateleiras que jamais ficarão suspensas como deveriam e uma encomenda da Domino’s, que sempre terá aquele gosto (ruim) de Domino’s. É esse o meu consolo: a constância e a segurança desse tipo de comida, a certeza de que algumas coisas nunca frustram as expectativas e não sacaneiam a autoestima de ninguém.

É claro, sempre haverá um técnico credenciado para resolver as pendengas tecnológicas, assim como sempre haverá Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, que combina um horário e aparece e faz parecer que algumas coisas podem funcionar. Pessoas Coca-Cola. Felicidade garantida. 


quinta-feira, janeiro 01, 2015

Cielito lindo


Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos,
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal.

Fabián Casas 


É dezembro e todos estão em praias paradisíacas, inclusive eu: o mar é tão turquesa que parece falso e brilha em certos trechos. Evitamos todas as ruínas maias, deitamos em redes de hotéis onde queremos nos hospedar no próximo verão, comemos peixe ao pôr do sol e caminhamos em direção ao carro com as ondas que chegam fresquinhas em nossos pés. Um barquinho cheio de pelicanos está ancorado no meio de uma tarde e logo mais navegamos com um marinheiro chamado Jesus, o segundo em 2 dias. A internet é precária nessa parte do México e falar de férias e das coisas de deus é tão complicado quanto encontrar cartões postais por aqui. E além disso, o que dizer? “Queria que você estivesse aqui para boiar comigo.” “Saudades.” “Te amo.” “Feliz ano novo.” Não seria mentira, mas quando se está de férias tudo é só mais ou menos verdade.

Come-se gafanhotos em Oaxaca, e também um sal feito de um verme (minhoca? lesma?) com o qual se deve temperar rodelas de laranja para degustar depois de uma dose de Mezcal: 40% de álcool feito de agave, passaporte para confissões e a solução para o Carnaval no Rio. O Lindt é melhor que qualquer chocolate feito por aqui, e sentimos saudades de Nescau. Faltam 43 estudantes no México e nem toda a cor das casas coloniais meio decadentes desvia a atenção das paredes que reivindicam a vida deles, nem todo o alvoroço das piñatas de papel maché impede as manifestações discretas pelas ruazinhas antigas. Cartazes espalhados por todos os cantos anunciam a noite de rabanetes, fogos e foguetes celebram a festa da Virgem, para a qual chegamos atrasados, depois de passar por inúmeras barraquinhas comandadas por zapotecas que vendem todo tipo de artigo religioso cristão. Uma mistura de trajes e longas tranças típicas com cheiro de gordura e cruzes católicas, uma população indígena que come pelas ruas o dia todo. Não se pode nem mesmo chegar perto da entrada da basílica, mal se veem os estandartes que desfilaram pela cidade minutos antes, uma multidão ocupa todo o espaço. Na praça ao lado um grupo de adolescentes ensaia uma dança. 2 dias depois, no jardim etnobotânico, uma dupla ensaia um pas de deux contemporâneo em meio a cactos. “No Brasil as coisas estão na pele, na superfície. No México é tudo na carne.”, diz a mensagem que chega enquanto tentamos entender essa confusão. Pode ser. E ao mesmo tempo, de alguma forma, aqui tudo é mais evidente. “Fue el estado”, dizem as letras apressadas. Desde há muito.

Voamos para o Distrito Federal com as malas mais pesadas. Troco qualquer marca de luxo pelos bordados de Yalalag. Deixo Oaxaca com febre e com uma coleção de vestidos: “Este é o seu traje de boda”, diz a vendedora maravilhosa de uma loja idem que passaria por inverossímil num filme de Almodóvar. Pelo pequeno labirinto do estabelecimento de paredes roxas um sofá está posicionado na entrada, recostada nele uma figura platinada de unhas brancas tão grandes quanto artificiais está descalça e tudo à sua volta está coberto por farelo de pão. Em meio aos trajes há um pequeno altar de flores no chão, uma panela elétrica que guarda um peixe para mais tarde, manequins quebrados, aparelhos de esteira, máquinas de costura, capacetes de bicicletas, bicicletas, jornais velhos, sacos plásticos entulhados de coisas e fotografias, muitas fotografias enquadradas das 3 mulheres que tentam me convencer a levar também uma saia. Jovens, pelo mundo, a cores e em preto e branco. Um dia, talvez, queria ter um lugar fascinante assim, mas com menos sujeira.

Planejamos decorar nossas casas com cactos na volta.

DF é difícil e o Tylenol não resolve nada. Funciono em dias alternados, consigo fazer o roteiro Frida e Diego e desisto definitivamente dos postais. O Zócalo nos deixa a todos mareados, os tacos já não parecem tão atraentes e o Buscopan mexicano é placebo. Entre pavões, mariachis, caveiras e uma quantidade descomunal de gente sinto uma quantidade descomunal de dor. Não tem nada a ver com as nossas impressões do país, mas sim com os dinossauros. Dr. Javier, o médico mexicano, dá soquinhos nas solas dos meus pés e garante que não é apendicite. O ideal seria voltar para a praia ou para o topo daquela montanha de piscinas naturais, aproveitar os últimos dias de idílio azul e água. A gente faz casas mesmo em viagens, e o ideal seria voltar para elas.

O ideal seria que os começos de ano fossem de fato começos, e não continuações mal remendadas de pendências, problemas gástricos e sangramentos indomáveis. O ideal seria que as paixões infundadas fossem como as férias, meio clandestinas para o resto do mundo e com data para terminar. A gente é que nem o México, parece. As coisas do mundo nos perfuram, não ficam mansas na pele, não. Espero a aspirina no calor inclemente do Rio: é uma liberdade ter cortinas em casa e 5 quilos para engordar.