segunda-feira, abril 24, 2017

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Cafuné


T. recorre ao McDonalds quando está triste. Pra mim tem funcionado organizar a geladeira, e com isso entenda: picar tudo o que pode ser picado, congelar tudo o que pode ser congelado. Essa semana tinha alho-poró, salsinha, cebolinha, e logo havia não exatamente uma salada de frutas composta por maçã e pera cortadas em pequeníssimos pedaços. O alho-poró, a salsinha e a cebolinha foram armazenados em pequenos recipientes de vidro e postos no freezer, e ao fechar o compartimento percebo que é a ideia de preservação que me tranquiliza. Ao fechar o compartimento, também, penso nas outras coisas perecíveis, mas que não são comida. A sua mão entrando inesperadamente pelos meus cabelos, em frente ao mar, ficando ali alguns segundos. O meu sobrinho quando me ensina a brincar, sem nem saber que prendi os cabelos pra não correr mais riscos.








domingo, janeiro 22, 2017

Dupla exposição

“Não fui eu quem viu aquela exposição do Edward Hopper no Grand Palais.” Começa assim o conto, e antes há um que começa com uma frase de um conto de Elizabeth Bishop, e só por isso eu já deveria desistir das tentativas de escrever o que gostaria. Tudo ecoará um plágio. É a segunda vez que leio esse livro. Ou terceira. Talvez mais. Mas por ora, digamos que seja a segunda.

É janeiro, a sensação térmica no Rio ultrapassa a tolerância e amanhã vou à praia com P. Quero ter algo para dizer além de “adorei seu livro”. Até porque já disse, acho. Na primeira vez em que li, na tela de um computador, acomodada numa cadeira desconfortável, num escritório de temperatura pouco variável, o que hoje, por mais que um tanto desbotada, é uma lembrança agradável daqueles dias. O cenário, agora, é o meu quarto, a luminária da mesa de cabeceira acesa, travesseiros, ar-condicionado. E a impressão a cada página é a de que já li isso antes. O que é verdade. Todavia agora o livro está impresso, a ordem dos contos já não é a mesma, a dedicatória de P. é generosa – “para Julia, que percorreu as páginas deste livro deixando suas marcas” – e amanhã vamos à praia.

Nunca imaginei. Não só a praia com P., mas tudo o que pareceu tão... mudado? esses dias, e que ao mesmo tempo imprimiu na pele essa sensação de repetição, como se no fundo os fatos fossem basicamente os mesmos, com as diferenças de endereço, temperatura e corte de cabelo nas aparências.

Por exemplo. Aquela festa. Estar diante de G. e de toda sua capacidade de me desestruturar por anos a fio, exceto pela constatação de que agora G. não me causa a menor das impressões. Parece apagado, ou fosco. Nem mesmo saberia descrever a camisa que ele usava naquela noite. Branca, por causa da passagem de ano? Azul, por ser sua cor preferida? Ou ele estava sem camisa? Quanto tempo precisa passar pras pessoas se tornarem invisíveis? Ou ele sempre foi assim? O mais perturbador, entretanto, é enxergar a invisibilidade e me perguntar se isso também é uma invenção minha, se esse tempo todo foi o que precisei para ficcionalizá-lo de outro jeito e construir esse personagem banal de réveillon, alguém que sou capaz de deixar falando sozinho com a desculpa de um drink ou uma dança. Ou com uma frase tão simples quanto: “Foi bom te ver.” O que é quase mentira.

Ou ainda: não sentir mais saudades de algumas pessoas, e entender isso ao ler pela segunda vez o livro de P., que sempre esteve diretamente associado àqueles meses de perdas gravíssimas. Estar diante de um dispositivo de memórias e de toda sua capacidade de me desestruturar, e perceber que agora essas reminiscências se depositaram em qualquer lugar seguro, ou ao menos distante o suficiente – naquela cadeira desconfortável, talvez. Faz pensar que não fui eu quem li o livro pela primeira vez, naquele escritório. Azul como as camisas de G., quando eu conseguia reparar nelas. E ao mesmo tempo: já li esse livro.

Então talvez os fatos sejam bastante distintos, e a repetição seja outra vez, finalmente, trocar de pele, e ter que lidar com as consequências dessa migração. Encaixotar certos acontecimentos, entender que talvez finalmente eu possa começar a escrevê-los, ainda que resulte em plágio. Porque a história é a mesma.


Amanhã vou à praia com P. O conto que fala de Hopper é meu preferido, vou dizer a ela. E aquele que começa na água, e que diz que “a violência é igual para todos, assim como as duchas, as cabines do vestiário onde nos trocamos, as poças mornas para lavar os pés antes de entrarmos na piscina, os armários em que guardamos as roupas”. 

O céu vai ficar rosa, como sempre fica nessa época, e vou fotografar o Dois Irmãos com raios de sol furando nuvens. A espuma do mar vai parecer um pouco mais brilhante nessa luz. Conversaremos sobre literatura, eu com receio de falar bobagens ou parecer idiota, P. com sua mansidão que se desfaz quando amarro um lenço na cabeça, ela que sofre de enxaqueca, o gesto que parece uma afronta. Nunca imaginei como seria bom me tornar amiga dela, como isso, de várias maneiras, validaria coisas tão grandiosas. 

Não saberei dizer nada mais edificante além de ter adorado seu livro, outra vez. Tentarei contar como foi diferente, mas talvez pareça bobo querer explicar tanto as leituras. O dia terminará com uma tapioca e um suco, e daremos boas risadas perguntando como César Aira resolveria as narrativas que não sabemos terminar.




sexta-feira, dezembro 30, 2016

clipping # 7


Alguns links para esse blog abandonado:

Em sua lista de boas leituras de 2016, Tatiana Salem Levy encontrou lugar pro meu Cravos. O texto com todas as dicas está na coluna quinzenal que a escritora mantém no suplemento de cultura do jornal Valor Econômico, e o link é este (com um cadastro rápido dá pra ler na íntegra).

Minha estreia na TV foi para o Canal Curta, no programa Revista Curta! que foi ao ar no Natal, 25 de dezembro. A edição é um capricho, agradecimentos especiais à Ana Paula Mansur, que conduziu a entrevista, e ao Toni Rodrigues, que fez uma espécie de assessoria de imprensa afetiva do livro, depois de tê-lo dançado lindamente com a Lu (ainda pretendo escrever sobre isso). Clique aqui, e ainda tem a cena que mais gosto de Pina, doc do Wim Wenders, aquela em que o casal dança no meio da cidade.

Deixei passar essa bela coluna do Fred Coelho para o Segundo Caderno do Globo. Em setembro ele discorreu sobre os pequenos salvamentos que a arte nos proporciona, e cita o Cravos como uma dessas bóias de salvação. Fui aluna do Fred e desde lá paro pra ouvir o que ele tem a dizer, por escrito ou em outros meios, e portanto deu uma alegria especial figurar nesse texto

E pra não parecer que só vivo de passado, comecei uma série nova de textos no espaço "Temporada", da Sala Grumo, a convite da Paloma Vidal, escritora de quem sou fã. Em janeiro deve sair a continuação (assim que eu terminar de escrever), por enquanto são quatro relatos que você lê aqui

E se tudo der certo, a partir de janeiro atualizo também o endereço do Ornitorrinco com alguma coisa nova, mas não prometo nada, afinal a praia tá ganhando de lavada de qualquer tentativa de ficar no ar condicionado trabalhando.

Feliz ano novo!




terça-feira, setembro 27, 2016

clipping # 6


Duas leituras generosas do Cravos:

No blog Letras In Verso e Re Verso, Pedro Fernandes faz uma leitura cuidadosa e bem reflexiva, e gosto, particularmente, da forma como ele vê a influência da “geração mimeógrafo” em cruzamento com as escritas de si em blogs e redes sociais (mas ele vai bem além disso). O link é este.

No Literasutra, a Adélia Jeveaux foca mais no aspecto da dança e de como escrever o que é o do corpo, e gostei muito da maneira que ela faz da resenha um espaço de confissão de sua própria saudade. Clique aqui para ler. 


sábado, setembro 10, 2016


Está enganado quem pensa que o aleijado não sabe nada das sanhas do corpo. Somos nós, os mancos, os malformados, os amputados, os obesos e minúsculos, os alérgicos, os hemofílicos, os hemiplégicos, para, tri e tetraplégicos, os anões, os albinos, os sempre-gripados, a legião inteira de indivíduos salvos da seleção natural pela compaixão humana, somos nós que entendemos a glória dos músculos e tendões, as minúcias da troca de calores. (Tantas vezes imaginei jogar bola, brigar de galo, tacar pedra em vidraça!) O corpo sadio que nos falta foi refeito tantas vezes em sonho que somos capazes de inventar um novo corpo, um corpo além, um corpo além de lindo, um corpo de Cristo, mas de pele tão firme que a coroa de espinhos não feriria e os pregos não conseguiriam perfurar. Imagina quão mais belo teria saído o Davi se Michelangelo não tivesse os braços. E a Vênus de Milo.

Victor Heringer em O amor dos homens avulsos (Cia das Letras, 2016)


sexta-feira, setembro 09, 2016

clipping # 5


A edição de setembro da Vogue Brasil indica, entre outros, o Cravos.