Segunda-feira, Março 19, 2012
Quarta-feira, Março 14, 2012
RG
Nem sei mesmo como foi que começou essa história do Pedro Lago sugerir um tema e eu escrever um texto. Sei que já faz tempo ele deu uma ideia que acabei perdendo, e que tinha a ver com nomes. De qualquer maneira, eu mudaria as regras. Então aqui está.
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Antes de descer as escadas, assina seu nome pela terceira vez no livro de visitas do mezanino do museu de arte moderna. Está descobrindo a artista em cartaz a prestações, em meias horas que sobram de almoços que ainda mastiga ao atravessar a passarela do aterro do Flamengo. Na maioria das vezes pensa se não devia desviar os passos pra esquerda, pegar um avião, ir pro outro lado. Mas ainda falta uma sala de slides, à qual nunca chega porque fica estancada na primeira: heartbeat. Não haveria outro título possível.
Se alguém tivesse a mesma obsessão, iria percorrer as páginas do livro de visitas procurando nomes de amigos, conhecidos ou só alguma curiosidade aleatória: uma assinatura rebuscada, um desenho, uma estrela que faça a vez de pingo de “i”. Pistas que possam transformar os títulos daquelas pessoas em narrativas. Traços e manifestações que preencham as primeiras lacunas de perfis que nós mesmos montamos. Pequenos exercícios de ficção onde a análise dos nomes te permite fazer retratos falados de rostos imaginários.
Joselinda, por exemplo. É a décima primeira filha de uma trupe de 13 irmãos. O pai gostava muito da letra J e a ela coube a combinação que durante a vida toda seria entendida como uma colagem dos nomes do pai e da mãe, que na verdade se chamavam Eugênio e Nair. Joselinda tem caligrafia impecável, o que é sinônimo de cuidados excessivos com os cabelos. Klaus está estampado logo abaixo de Joselinda, e não foge à dobradinha olhos azuis e pele branca. Ele é alemão de Frankfurt, está na cidade há 3 dias e só sabe falar “caipirinha”. Quando sair do museu vai caminhar até a margem da água e descobrir ali uma roda de capoeira, que o fascinará tanto a ponto de acomodar um berimbau na bagagem de volta pra casa.
Na página seguinte aparece uma Isabel com “s” gordo, que certamente gosta muito de maquiagem. Essa Isabel, como as duas que conheço, tem um carisma que acerta em cheio, e de forma irrevogável, quem cruza seu caminho: é apaixonar-se por elas, posto que Isabeis são implacáveis.
Esbarro num Pedro que excede um pouco a delimitação das linhas azuis. Esse Pedro precede um sobrenome de calmaria, e a lógica referente ao nome Isabel se aplica de forma semelhante. Houvesse um estudo sério ou mesmo teses e pesquisas, concluir-se-ia que Pedro é nome canônico nas possibilidades de batismo. Tal qual Isabeis, Pedros não são figuras face às quais ficamos indiferentes. Seja pela inteligência, pela beleza ou mesmo por detalhes como armações de óculos ou um dente levemente sobreposto ao outro, Isabeis e Pedros atuam como ímãs, deixando nos que os cercam uma sensação inquietante de querer mais um pedaço. Desse Pedro, concluo: caminha regularmente do Arpoador até o Leblon pela beira do mar, passando por mim muitas vezes sem me ver, escreve versos e acredita que algumas lágrimas, ainda que sejam só colírios, são de alegria.
Segunda-feira, Março 12, 2012
Segunda-feira, Março 05, 2012
I still read a lot of history, and of course I’ve followed all the official history that’s happened in my own lifetime – the fall of Communism, Mrs Thatcher, 9/11 global warming – with the normal mixture of fear, anxiety and cautious optimism. But I’ve never felt the same about it – I’ve never quite trusted it – as I do events in Greece and Romeo r the British Empire, or the Russian Revolution. Perhaps I just feel safer with the history that’s been more or less agreed upon. Or perhaps it’s that same paradox again: the history that happens underneath our noses ought to be the clearest, and yet it’s the most deliquescente. We live in time, it bounds us and defines us, and time is supposed to measure history, isn’t it? But if we can’t understand time, can’t grasp its mysteries of pace and progress, what chance do we have with history – even our own small, personal, largely undocumented piece of it?
Julian Barnes in The sense of an ending (ganhador do Man Booker Prize 2011) em breve sai pela Rocco e é, para mim, um dos livros mais comoventes dos últimos tempos.
Sexta-feira, Março 02, 2012
Quinta-feira, Março 01, 2012
Carta a E.
Querido,
A primeira lembrança que tenho sua é uma que nem você sabe. Vestido de amarelo, uma faixa preta que tentava domar teus cabelos, botas remendadas com fita prateada, sentado num sofá de um museu em Niterói e a mesma expressão desafiadora que você ainda usava há cerca de um mês atrás, última vez que te vi: agitado, batucando, com álcool nos olhos e um resquício de um sussurro pra mim.
Me acostumei a te saber assim: colorido, inquieto, com asas nos pés e uma rouquidão de tanto falar. Por anos achei que você fosse uma dessas pessoas que não podem ser detidas, e no fundo sempre tive certeza de que você sequer dormia. Pra contabilizar tudo o que eu sabia que você já tinha sido, eu precisaria de umas cinco vidas com uma média de 6 horas de sono por noite. Mas você conseguia tudo aqui, perambulando pela cidade, roubando flores de canteiros para presentear os seus amores e gesticulando a ponto de ficar enorme.
Sempre gostei de alguma coisa em você que eu nem sabia explicar. Os cabelos, óbvio. Mas não dá pra justificar uma paixão assim. Ou pode? Numa eternidade inventada pra nós, eu ficaria dias a fio fazendo cafuné na sua cabeça, enquanto você, pioneiro das curvas do meu pescoço, ia chafurdar o nariz e a boca nos recônditos das minhas saboneteiras. E só. Sempre gostei, também, do meu nome na sua voz. E de toda a curiosidade que eu sentia quando você tirava da manga tantas ideias, assuntos, filmes, músicas e histórias, além de uma doçura que pouca gente acredita que você fosse capaz de ter. Sempre gostei dessa calma que, numa distração, você despejava perto de mim.
Nunca soube exatamente onde te colocar no meu mundo. Não saberia te classificar. Nunca consegui fazer sentido de você, e também nunca encontrei uma lógica que sanasse os olhares confusos dos amigos que me viam sumir com você por aí, de tempos em tempos.
Desde que você ameaçou morrer, um turbilhão de outras tantas interrogações me assalta. Eu acredito que você vai acordar. Mas se não, pra onde vão todas as coisas que eu não disse, como fica o seu pequeno, e todos os outros órfãos que vão chorar, quem vai me achar tão linda, quem vai encontrar sentido, quem vai abrir caminhos e cantarolar, quem vai revolver o chão, quem vai saber todas as coisas que você sabe? Vai ter carnaval ainda?
Desde que você ameaçou morrer, também, que uma torcida ferrenha montou guarda, mostrando o tamanho que você tem. As dimensões são extensas. Você é tão alto que chega ao topo das árvores, das nuvens, e deve ser capaz de atravessar o mar com apenas duas braçadas. Talvez isso decifre o (meu) enigma: você é tão grande que não cabe.
Espero que essa correspondência chegue a você cedo ou tarde, quando tiver os olhos bem abertos, os sorrisos e abraços dos seus amigos e escudeiros por perto. Se eu não estiver no meio deles, não é por falta de afeto, é só por não saber como.
Te beijo,
Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012
Cotton journal
Há um tratado velado que se impõe a todo visitante que chega a Algodões e que se deduz depois do terceiro atoleiro à direita da estrada. O que aprende o visitante, depois das primeiras vistas que se tem da praia e da maré baixa, é que qualquer divulgação do nome do local deve ser evitada, a fim de que não despontem por lá turistas e/ou pessoas indesejadas com suas máquinas de cartão Cielo, sapatos fechados e conversas de asfalto. Sobretudo, evitar a todo custo que substituam os atoleiros, que são os verdadeiros guardiões de tal paraíso, por estrada pavimentada, sinalizada, iluminada e, por consequência, propulsora de uma invasão de gente que poderia, do dia pra noite, transformar qualquer idílio perdido em Itacaré.
Em Algodões, deve-se abandonar relógios, apertos e desconfortos de qualquer espécie, que o lugar não foi feito para vaidades, preocupações, horários, pressa, noticiários, jornais, cenhos franzidos, contas e nem qualquer tipo de contato com um mundo que não seja formado por quilômetros de areias onde ainda se veem tatuís, lagartos, siris e pegadas de tamanhos e escalas variados. Eventualmente, olhar para o chão, a fim de evitar encontrões de dedões com cocos. Não tomar tal precaução, contudo, à noite, onde só se deve ter olhos para o céu, pouco importando os apelos de chamegos, beijos, carícias ou massagem de quem estiver ao seu lado.
Logo você perceberá que o céu de Algodões é a recompensa natural e mais lógica que se poderia esperar de um lugar onde há mais: coqueiros que gente, silêncio que barulho, luz que nuvens, canto de pássaro que carregador de ipod.
A dieta ideal que se adota em Algodões envolve muito camarão, muqueca de todos os tipos, uma farinha fininha que cai bem com qualquer peixe, legumes para temperar, pimenta para os fortes, carne do sol, aipim e um drink gelado cheio de raspas e mel de cacau. Na falta do tal mel, a mistura de qualquer outra fruta com cachaça, gelo e açúcar, compensa. Ou cerveja. Estão banidos refrigerantes, mate e/ou genéricos engarrafados/enlatados tais como ice-tea, H2O ou bebidas cheias de aditivos e que podem ser facilmente encontradas em quaisquer esquinas das cidades grandes. Os mais ousados podem se aventurar na degustação de guaiamuns, dando pequenas marretadas na casca do bicho para extrair dele a carne. Os pacifistas preferem as opções citadas anteriormente neste mesmo parágrafo. Água de coco deve ser ingerida a qualquer momento.
A propósito do mar de Algodões, deve-se fazer uso dele irrestritamente. Aconselha-se boiar nas piscininhas naturais à tarde. Os mais inquietos (se bem que não há quem não se entregue à pasmaceira local, convicto de que deveria ter sucumbido ao ritmo da rede muito antes) podem dispor de acessórios para desbravar a água transparente de outras formas. Estão ao alcance da mão: caiaques, pranchas, jangadas, canoas, bóias, máscaras de mergulho, pés de pato e, na falta de um desses, um colchão de ar do tipo usado em acampamentos, pode abrigar uma família toda e fazer deslizar em marolas e espumas em direção à areia, próximo item a ser abordado.
A areia de Algodões está preparada para receber tênis de corrida ou caminhada, bolas de fisioterapia, posturas de yoga, motos, bicicletas, altinha, futebol, vôlei, castelos, buracos que terminam no Japão, partidas de gamão e/ou buraco ou apenas uma canga (toalha, esteira ou nenhuma das opções) estendida onde o visitante poderá se deitar, sentar, dormir etc.
Não espere encontrar em Algodões: farmácias, mercadinhos, padaria, telefone fixo, sinal de telefone móvel (salvo uma operadora), caixa eletrônico, banco, lava-jato, posto de gasolina, comércio, multidão, muvuca. Algumas surpresas podem leva-lo a dar de encontro a um bloco de carnaval (formado por aproximadamente 10 pessoas, das quais um boneco de Olinda, 5 instrumentistas e 4 foliões), que corresponde a aproximadamente 10% da densidade demográfica do local. Chegada a terça-feira gorda, os componentes do cortejo terão ido embora, baixando ainda mais a possibilidade de crowd em um dos 3 bares locais. Deve-se aproveitar a temporada em Algodões para esquecer: de pierrots e colombinas, de todo elemento que remeta à vida urbana, de calçados que não sejam chinelos, do twitter, da lista de mais vendidos do NY Times, do mundo.
Sobre a bagagem, é preciso carregar para Algodões: biquíni, maiô, sunga e similares; chapéu; proteção UVA; colírio para olhos sensíveis ao sal; b-pantol para lábios com tendência a rachar depois de dois dias no mar; apetrechos adjacentes já antes mencionados (i.e. canga, raquetes de frescobol, peteca); cremes restauradores para cabelos com tendência a morrer depois de três dias de praia; câmera fotográfica para os desmemoriados de visões inesquecíveis.
Diz-se dos visitantes que uma vez ali aportam que alguns perdem seus voos de volta, que outros compram lotes de terra e não constroem nada (querem apenas que outros não construam também, evitando assim a possibilidade da propagação de Itacarés pelo mundo), que um ou outro se casa com um local e que qualquer um aprende a ser solitário. Os que retornam para suas cidades de origem passam semanas prostrados, melancólicos e com os celulares foras da área de cobertura, até comprarem novamente as passagens que os podem levar de volta para esse pedaço de paraíso. Desta feita, são tragados aos poucos pela rotina e pelo contato social com gente que não compreende a esfera do local de nome impublicável que seus afortunados amigos deixaram pra trás, lugar encalacrado entre uma extensão extensa de coqueiros e quilômetros de estrada de terra esburacada capaz de dar hérnia de disco e de fazer desistir de chegar o turista/viajante que procura resorts, ar-condicionado e lula à dorê.
Diz-se, também, que depois de conhecer tal pecado, que o visitante pode adquirir um sotaque temporário, um bronzeado que pode acarretar inveja e o hábito de dormir 10 hora por noite. Tudo isso é passageiro, assim como as férias, o carnaval e todo feriado que possa ser revertido numa temporada em Algodões. Por fim, conclui-se que só deve ser conhecedor do nome e das maravilhas de tal destino aquele que for merecedor do maior presente que se pode dar: uma imersão num tempo que não se mede como o conhecemos, um desligamento do excesso de coisas, a imensidão do conceito que é não fazer nada.
Do contrário, é excesso de bagagem, ruído, frescuras e um sem número de praias, pousadas e resorts esperando você, com conexão pra todas as coisas das quais deveríamos nos livrar.
No próximo intervalo, estarei em Algodões. O resto do mundo, tanto faz.
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