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sexta-feira, setembro 20, 2013

O dia que jantei com César Aira

pessoas são permeáveis ou impermeáveis, mãe? 

Muito antes de tudo isso acontecer eu tinha andado por Santiago atrás de todos os livros possíveis do Alan Pauls e do César Aira. Eu tinha até pensado em mudar o destino, desembarcar em Buenos Aires, entrar numa livraria e sair um ano depois, hablando sola e cantando uma música do Devendra, uma que talvez ainda nem existisse, mas que meses depois seria mais ou menos a trilha sonora perfeita daqueles dias.

Antes, também, num café com P., a gente tinha trocado figurinha sobre alimentação saudável: o que M. achava impossível, visto que eu era irônica demais para ser hippie; o que L. achava meio hilário, a ponto de revelar que houve um tempo até que eu passava ghee no olho (e Aira riu) – o que não nos impediu de encher a cara de cerveja e pão com manteiga, mesmo que eu estivesse com a pior dor de garganta do mundo e que a nossa mesa fosse praticamente numa esquina onde ventava pacas.

César escolheu o magret por causa do comissário Maigret, e eu ri lembrando da aula de francês em que desisti do Simenon por ter chegado à conclusão que Madame Maigret era uma submissa e que seu marido era um machista. Sim, eu já fui dada a extremismos, muito antes de tudo isso acontecer.

Tentamos arrancar dele o que fosse, desde as declarações mais banais até um spoiler de um livro futuro. Conseguimos uma ideia para uma novela que ele gostaria de escrever, mas foi P. quem me fez rir de novo, dessa vez para todos, quando disse que tinha comprado uma centrífuga e que incluíra o episódio do suco verde em sua peça de teatro – o que ao mesmo tempo me fez ficar vermelha de vergonha.

César ficou ali à deriva em meio ao nosso português, a uma ou outra declaração não-ortodoxa sobre a vida conjugal de Alan Pauls (chacun son coluna social) e outras gentes mais próximas, algumas delas em estado de pré-surto (ou cocaína, como sugeriu M.). No fim da noite o mistério permanecia no meio sorriso insistente de César, e quando ele pediu uma sobremesa de morangos fui sensata o suficiente para perder a piada óbvia e sem graça que eu poderia fazer – obrigada, a quem quer que seja o responsável.


O fato é que aquela combinação de morangos com o vento e o cigarro que César fumou depois – e que eu fumei junto em pensamentos – pareciam a mim muito fieis a duas novelas que ele já tinha escrito, que eu lera embasbacada, que eu não sabia mais quantos delírios continham, e eu fiquei quietinha vagando pela minha cabeça de leitora paranoica. Mas é incrível: assim como livros, tem vidas que não existem, e eu fico monga em eventos desse porte. Hay que aceptarlo




segunda-feira, março 07, 2011

Reminiscências

(ou: a evolução da liberdade)

Praia de Ipanema, fevereiro, 2006 –

Orgulhosa de uma trança postiça que me serve de fantasia e alheia a toda a areia que entra pelo tênis, arquiteto com o grupo de amigos qual será o próximo bloco daquele dia. É sábado de Carnaval e bem perto de nós, dois ou três gringos bebem cerveja e observam tudo ao redor. Eles são o Franz Ferdinand, nós somos 6 ou 7 bêbados que resolvem se refugiar no meu quarto quando a chuva começa, porque não queremos nos separar, porque somos o epicentro dessa epidemia contagiante que faz qualquer um aprender a sambar, porque embora ainda tenhamos muitos dias de folia pela frente não queremos desperdiçar nenhum segundo. Acabamos de perder a cabeça juntos, dividindo os últimos toddynhos da despensa e os cobertores quentinhos da minha casa. Antes das seis da manhã a Bebel vai tocar o interfone, parte do grupo vai seguir serelepe para o Boitatá. Você e eu, ressacas e vontades semelhantes, vamos dormir até mais tarde, reintegrando a trupe depois do almoço. 

Búzios, fevereiro, 2007 –

Junto pequenos círculos de diferentes cores de tule com linha e agulha, são os detalhes finais da minha originalíssima fantasia de Colombina. Ela é uma cópia de um modelo da infância que minha irmã combinava com gel de purpurina no cabelo, nos anos 80, sabe-se lá onde. Ao embalo da rede eu alinhavo com calma as rodelas, dou alguns palpites no papo dos amigos cineastas sem poder imaginar que em cerca de uma semana estarei segura e ofegante na estação Carioca após um quase esmagamento em decorrência do Cordão da Bola Preta. Mais um sábado de Carnaval, dessa vez reúno forças para o amanhecer na Praça XV, de onde saio bem depois do meio-dia à procura de Coca-cola, ventilador e relaxante muscular.

Praça XV, fevereiro, 2008 –

É domingo de Carnaval e parte da minha saia de Colombina ficou presa num gelo baiano da Gávea no ano anterior quando ia de encontro a um bloco que não existe mais. Não sei como estou de pé, mas algo me diz que é preciso ter fé mesmo sob dilúvio. Estou de volta ao lugar onde a folia é mais feliz, onde executo pulos e coreografias que independem das minhas pernas.  Algo, porém, mudou. A cerveja não desce, a capa de chuva não impede que meus óculos se alaguem e meus pés afundam em poças até que começo toda a sentir frio. Entro num taxi com vontade de chorar: cadê meu Carnaval de arremesso de serpentinas, de beijos roubados, de alegrias desmedidas, de estandartes e Sanatórios Gerais?

Praia da Barra, fevereiro, 2009 –

Mergulho no mar, bóio e quase não noto quando o celular é levado por uma onda. É segunda-feira e eu não vi o Boitatá passar. Não corri risco de vida no meio da multidão suada. Não deixei rastro de confete ao entrar em casa porque a água das mangueiras de Santa Teresa lavou todas as provas de que estive no Céu na Terra daquele ano. Ninguém desconfiou quando afirmei que não fui às touradas em Madri e descobri como sobreviver a mais um mês de Fevereiro. 

Inhotim, fevereiro, 2010 –

Cansamos de especulações acerca da sexualidade de Zezé e nos refugiamos no meio de obras de arte. É quarta-feira de Cinzas na estrada, um padre e um índio me fizeram perder, um dia antes, a Orquestra Voadora e mais tarde juntos na praça Pio XI preferimos deixar o Último Gole pra trás. Nos recolhemos já foscos, cansados, sem disfarçar suspiros e uma saudade tímida do Empolga às 9h de quatro anos antes. Paramos o carro para esticar as pernas e conferir o mapa. Não sabemos da massa fresca que nos espera pro jantar, tampouco adivinhamos que um quadrado mágico número 5 pode ser mais divertido que entoar marchinhas da década de 30 cercados de gente que ostenta antenas, agora ridículas, na cabeça. Dentro de poucas horas estaremos libertos, convencidos de que podemos viver sem mais um Carnaval e sem toda aquela gente bronzeada e feliz arrastada pelos cordões. Brumadinho é o nosso grito do Ipiranga.

Rua Capitão Salomão, Botafogo, março, 2011 –

Já não me importa o caráter de Aurora, há tempos que o amor de Pierrot e Colombina parece mais sem sentido que qualquer um dos meus ex-namorados e não suplico mais pra que você não me esqueça ou não desapareça. Bandeira branca, amor. Não posso mais, e ainda assim lá vamos nós. Esvaziamos latas de cerveja sem muita convicção e todas as conversas convergem para aqueles anos dourados onde éramos felizes dentro de narizes de palhaço e metros de poliéster, e onde fazer xixi na rua era condição sine qua non dum Carnaval de rua sem banheiros. Entre uma melancolia e outra, a vendedora de cerveja informa que estou resistindo bravamente a mais uma festa de Momo sobre o cadáver de um rato cujas tripas estão para fora. Estamos em frente à casa da Matriz, qualquer menção a Ozzy Osbourne seria plenamente justificável, mas um rato morto com as tripas para fora me põe a correr antes mesmo do batuque começar. Em poucos minutos estou com um grupo de amigos desiludidos gastando fortunas num de nossos restaurantes preferidos. Crônica de uma morte anunciada, somos defuntos cabisbaixos querendo passar adiante todas as idéias de fantasias que prometemos nunca mais usar. Caímos de boca na vodca, uma Madonna e um Robert Smith se juntam a nós, e de repente lá estão novamente o padre e índio do ano anterior, ambos mais velhos, com menos alegorias e adereços. Eu vomito todo o risotto de limão siciliano, horas depois, no aconchego do meu banheiro. Minha bota que, mais cedo, supostamente esmagara as tripas de um rato, repousa na varanda até que a terça-feira de Carnaval me acorde.

Recebo mensagens de amigos que ainda não perceberam que estou liquidada, velha ou tanto faz. Por sorte tenho um vôo a pegar. Amanhã, eu sei: luvas e o direito a uma alegria fugaz: todos os quadros do Hopper só pra mim.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Oba, não vou!

Deve ser alguma coisa no meu mapa astral, um encontro acidental de planetas e luas que juntos mexeram os pauzinhos pra que sem mais nem menos eu detestasse carnaval. Pior: fico com vontade de chorar toda vez que escuto aquela marcha fúnebre “foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros, depois morreu”. Eu juro que não é culpa minha, eu defendia os blocos e os tumultos que eles causavam, confeccionava fantasias e passava sem traumas pelos porteiros para ir aos blocos de manhã cedo (e também não tinha trauma na volta) e era capaz até de ficar bêbada na Praça XV.

Até que esse ano alguma maldição me pegou de jeito e eu fiquei de bode: pouco me importa se Zezé e sua cabeleira são bossa-nova ou transviados, menos ainda me perturba se Aurora é sincera e tenho a mais absoluta certeza de que cachaça não é água nem aqui na China. Passei minha lista de possíveis fantasias adiante, aproveitei os útimos dias de liquidação nos shoppings e pretendo frequentar cinemas muito bem refrigerados com meus vestidos novos. Caso algo me acometa na véspera, levanto bandeira branca, tiro minha roupa de bate-bola do armário e caio no samba, encarando Boitatá e Boi Tolo mas tem que ser grave, muito grave, uma conjunção de astros daquelas que faz até Pierrot, esse mala, esquecer Colombina, verdadeiramente uma chata de galochas.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Madrugada dos mortos

Não é bom sinal quando a pessoa está dentro de uma boate e sente frio, a mão congela e ela tem espaço suficiente na pista pra fazer a coreografia do jazz de 1993.

O que acontece que a partir de uma certa idade a gente desaprende como freqüentar uma “night”? Por que de repente a gente começa a se sentir meio “tio”? Por que, meu deus, da noite pro dia o jogo de pac-man passa a ser muito mais emocionante que qualquer set-list dos djs da pista 2 da Casa da Matriz?

É duro. Você chega na porta do lugar e olha para os adolescentes e têm a absoluta certeza de que não é mais um deles: o seu dress-code está ultrapassado, você tem um ataque de riso quando o segurança pede seu documento e fica com medo de ser barrado por excesso de idade. Certamente o público-alvo não é mais... eu.

Lá dentro piora: um dos seus amigos pergunta pro cara do bar “mas que horas as pessoas costumam chegar?!”, o desespero estampado no rosto. Ele é o mesmo que depois perguntará ao dj “mas vem cá, não vai tocar Madonna não?”. Teremos sorte se o Dj tiver nascido na década de 80, se for um filho dos 90 as coisas vão complicar.

Num momento de total emancipação, que só os 26 permitem, abrimos a pista sem medo, arriscamos passos de dança e vibramos a cada música que conhecemos: uma do R.E.M, uma do Joy Division, e, babe: cantamos de cor e salteado, e com muita animação uma música do Gossip. Nos sentimos tão atualizados que começamos a pular. Então nos damos conta que até nosso dance-code é démodé: os adolescentes adaptaram os passos de funk para todo e qualquer ritmo, fazendo sanduíches de si mesmos enquanto se esfregam e cantam com seus drinks na mão. É bizarro. Olhamos pra eles com ares de reprovação.

Começamos a consumir água enquanto as pessoas ainda estão chegando, afinal temos que obedecer a Lei Seca. Respeitamos direitinho a área de fumantes. Lavamos as latinahs e garrafas antes de colocarmos a boca ali. De vez em quando sentamos um pouco, sabe como é, pra descansar as pernas. Então nos agarramos à manivela do Pac-Man como se não houvesse amanhã, e fase atrás de fase devoramos bolinhas amarelas e monstros. No fim, exaustos, cedemos lugar a alguém de 18 anos que nunca nem soube o que era Nintendo.

Por milagre, nenhuma pessoa desconhecida vem nos abordar, isso seria tão patético quanto o fato de que saímos da boate à 1 e meia da madrugada. Vai ver a terceira idade se chama “melhor” idade por causa disso: você finalmente aprende a se divertir, mesmo que o final da noite seja a tela de um jogo de Atari onde se lê GAME OVER.



:: Teenage Kicks, Nouvelle Vague

sexta-feira, setembro 05, 2008

If you're feeling sinister*

(ou "I don't see what anyone can see in anyone else but you")

Faz algumas semanas já que acho que estou comendo chocolates mofados, não é uma tentativa de plágio, é só que eles estão com gosto amanteigado demais e a aparência mudou, antes pareciam conchas lustrosas e de repente, parece, ficaram foscas, ninguém sabe me dizer, eu continuo comendo e até agora não morri e nem fiquei verde, por isso sigo devorando a caixa: foi a notícia que dei a eles. Mas o que eu ia mesmo contar era a nossa história. No primeiro parágrafo eu ia dizer como nos conhecemos e, com alguma pretensão, dizer que nosso primeiro beijo foi, na verdade, o encontro das nossas salivas alternadas no gargalo de uma cerveja e que todo o nosso rumo estava destinado a esse eterno desencontro. Mas reli, achei piegas e cafona e, pior!, achei que alguém já começou escrevendo uma história assim. E também a gente se desencontra tanto mesmo porque eu te inventei de um jeito que não tem jeito: a gente nunca vai ficar junto no final porque eu cismei que ia ser assim, não sei o que você pensa e é provável que eu nunca pergunte porque eu já tenho tanta certeza do meu pensamento que o seu poderia estragar tudo e aí, como seria? Eu teria que baixar a guarda e dar uma chance, me dar uma chance e isso não, não mesmo, fica você aí inventado e eu aqui fugindo e te fazendo voltar de vez em quando pra continuar te culpando... do que era mesmo?

Foi o que me perguntaram e eu não soube dizer, eu soube sim, mas só disse pra eles, que me faziam confortável o suficiente, entre um chope e outro, fui relembrando como quem não quer nada e quando vi tinha contado tudo o que aconteceu comigo enquanto nada acontecia com a gente e quando dei por mim estavam lá, todas as linhas, tudo o que te disse, tudo o que você me falou, e então tudo na mesa, a gente se engalfinhando entre copos e guardanapos e as pessoas ali como expectadores tentando des-inventar todo o meu roteiro e querendo construir alguma coisa mais original, menos autoritária onde você pudesse (e quisesse) mudar as regras. Eles não procuravam um final feliz, não necessariamente, eles queriam é que eu deixasse pra lá toda essa mania de fazer de você imutável e insensível, só que no fundo eu fazia, ou pensava que fazia, e quando eu quase me convencia de que você era mesmo, como?, possivelmente diferente do quadro que pintei, por que não?, pedia outro bolinho de aipim, mudava de assunto, lembra de quando vimos aquele filme?, eu perguntava a eles, nos deixando de lado em reticências, que era a minha forma de ponto final quando dizia o seu nome e assim ficávamos (sempre) pra depois porque qualquer coisa era melhor que ter de te enfrentar e qualquer outro enfrentamento era mais seguro que confirmar que eu caibo direitinho no seu abraço. Eles me acatavam ainda com aquele resto de conversa entre os dentes, uma frase na metade em que diriam pra eu não ter medo, mas eu tinha, e com eles não tinha problema de assumir toda essa resistência. No caminho de volta colocava uma música que dizia que I'm in love with how you feel, os dois, como eles podiam ser tão absolutos e seguros? Eu poderia por horas esquadrinhar tudo o que eu não ouso pensar de você. E como nós três ficávamos confortáveis em nossos devaneios conjuntos, como somos aconchegantes, ia dando uma alegria no final, curava distensão e dor de cotovelo, nem precisávamos de relaxante muscular para dormir depois.



* Belle and Sebastian

:: Para a Carol e o Marcelo.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ladeira abaixo

Começar o Carnaval indo a bloco matutino em Santa Teresa é fazer a matemática inversa: você paga os pecados antes.

A escadaria é quase penitência, a fantasia não resiste à segunda ladeira e quando você finalmente consegue alcançar o bloco, está tão exausto que quer ir embora. Entre descer ladeiras e escadarias tudo de novo e seguir um pouco os foliões, a segunda alternativa vence, e embalado por marchinhas que você sequer distingue de tão morto, se embrenha em meio a pessoas muito, muito suadas. Mas se chegamos até aqui e é fevereiro, sigamos em frente.

Você escuta o seu amigo dizer que daria seu reino por uma água, que parece ser artigo de luxo, arriscam-se na cerveja, quente, e todo o resto é quente, sol a pino, homens sem
camisa, você tira a peruca e é pena que não pode tirar também os cabelos.

Em meio a tantas pessoas, não há pra onde fugir. Pierrots lambendo colombinas, confetes e purpurinas grudados, roupas idem, os dedos enrugados de suor, por que mesmo que a gente gosta disso?, grupos fantasiados que te dão esperança de que alguma coisa ainda pode ser engraçada, mas não tem jeito, o bloco se vai, você fica pra trás se revezando no banho de mangueira que um solidário e politicamente incorreto morador do bairro oferece à horda de foliões que parecem vindos de uma caravana do deserto. Alala-ô nunca fez tanto sentido e provavelmente foi escrita por alguém que teve a visão do futuro (ou do inferno?): bloco de rua em Santa Teresa às 10 da manhã de um sábado de fevereiro no Rio. Quem foi que nos sacaneou assim?


Lá pelas tantas, sentados no meio fio de uma ruazinha que parece ter aparecido para salva-los da morte por esmagamento, a mensagem de uma amiga que diz ter perdido-se do bloco. àquela altura, perdida também, eu não pretendia mais encontrá-lo...


Na volta, marchinhas na ponta da língua, mas não tem jeito: Aurora parece ser o grande hit de Momo. Na dúvida, ôô-ôô.

Almoço, banho e parte da dignidade está recuperada, mas ainda é cedo pra arriscar-se de novo, além do mais domingo às nove você precisa estar na Praça XV.

Amanhece chovendo, mas não há nada que impeça o Boitatá de sair, e sob a máxima do faça chuva ou faça sol, você entra no táxi e dá a ordem, se a canoa não virar eu chego lá. é um lugar onde chove torrencialmente, os amigos dos amigos vestidos de arca de Noé gritam “dilúvio!” , a venda de capas de chuva é maior que a de cerveja e você começa a rezar pra não ser acometido por leptospirose ou semelhantes. As pessoas brincando na praça alheias aos pingos que não dão trégua, e não há arlequim que me convença. Eu sou brasileira mas tenho um pezinho na Europa e desisto às vezes.

Meu carnaval encerrou-se prematuramente no domingo na sala quentinha com piano de uma amiga xará, me preparando para a dengue ou a pneumonia. Cervejas, prosecco, fotos dos amigos, conversas e um ipod cheio de Zero 7, Gotan Project e afins, nada que me lembrasse a horda de malucos atrás de máscaras pulando por aí em blocos, animados, felizes.

Dentro de um casaco de lã, meias e com xícara de chá em punho, a segunda de carnaval parecia pra mim a quarta-feira de cinzas, a chuva continuou caindo, seja o que deus quiser. Ano que vem tem mais e sempre bate uma loucura qualquer nessa época.

Porque só mesmo um pouco insano pra gostar dessa coisa não-higiênica que é o Carnaval.




:: ouvindo The Rolling Stones da casa do vizinho, sentindo saudades das pessoas do Carnaval de 2006!

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Eu fui às touradas em Madrid

(ou o rei mandou cair dentro da folia)

Eu havia sentado por dois minutos num banco típico de praça que quase não existe mais. Era um daqueles banquinhos de cimento que rodeiam uma mesa onde há um tabuleiro quadriculado desenhado na pedra. A cerca de 50 metros estava o palco e mais um pouco adiante o Bip Bip e tudo naquela rua sem saída parecia ter um toque saudosista. Foi quando uma garotinha vestindo saia jeans e top rosa se aproximou e me perguntou se eu queria um. Eu perguntei se ela vendia, ela disse que não, que se eu quisesse me dava. Ela estendeu sua mão e me deu um saquinho recheado de confete e serpentina. Foi assim que eu conheci Vitória, uma pequena foliã de 7 anos que distribuía alegremente os artefatos de papel a quem quisesse. Em pouco tempo ela se perdeu em meio às pernas dos que dançavam e rapidamente voltou para me entregar mais saquinhos, e também às minhas amigas fanáticas por confete e que competiam pra ver quem acertaria algum galho da árvore com as serpentinas. Havia um concorrente que devia ter a mesma idade de Vitória e percebemos que ele era um novato na arte de jogar serpentina: mirava seus rolinhos de papel, que batiam em duas ou três cabeças próximas e caíam quase inteiros a menos de cinco passos. Foi quando resolvemos incentivar o garoto e lá pelas tantas o menino subiu em cima da mesa, de onde seus arremessos poderiam alcançar distâncias maiores. O Rancho da Flor do Sereno foi assim: marchinhas e crianças convivendo em harmonia, o bloco mais familiar e também o que concentrou a maior quantidade de confete e serpentina.

O Bola Preta, ao contrário, foi uma experiência quase traumática. Se o Rancho concentrou a maior quantidade de papel em forma de artefato carnavalesco e foliões mirins e fofos, o Bola concentrou a maior quantidade de pessoas que eu já vi. Pessoas suadas, devo ressaltar. Pessoas suadas e esmagativas e para ir embora do cordão foi preciso coragem e audácia. Escapar da multidão foi como renascer em meio a um sol escaldante no melhor estilo atravessando o deserto de Saara o sol estava quente e queimou a nossa cara. Uma vez no metrô de volta você conclui que burgueses são os outros e você tem mesmo um pézinho na aristocracia. Bem, alguns concluem isso.

O mais posto-novista dos blocos, por sua vez, foi o responsável pela destruição de parte da minha fantasia (ok, na verdade foi um pitoco desses de rua). A Rocha é apenas isso: um grande Baixo Gávea que segue mais adiante. Ele está ali todo dia na praça esperando por você. Com menos samba talvez, mas certamente bem menos pretensioso.

Já o Boitatá veio acompanhado de café-da-manhã com pão quentinho na casa de amigos e uma revelação: é preciso ter um mínimo de disciplina pra pular carnaval. E também: blocos que não saem muito do lugar são mais divertidos que os que traçam percursos. Pense só: é domingo, são 9 da manhã, o sol começa a fritar as cabeças, não há qualquer lugar decente para fazer xixi, você pula e dança e canta enquanto sente o suor escorrer impiedoso por todas as partes da sua pele (e olha o protetor solar indo embora), você bebe cerveja e também não há lugar próprio para passar mal. A sua sorte é que o Cordão do Boitatá está sobre um palco em vez de sobre um carro de som, o que significa que além disso tudo você não terá que acompanhar o trio elétrico. É nesse momento que você tem a epifania e resolve que bloco bom mesmo é aquele que não anda. Melhor ainda seria se o discurso engajado no começo do baile na praça não tivesse existido. Não me leve a mal, hoje é carnaval e a gente quer marchinhas e não conversa mole para boi dormir.

Outros blocos à parte, eu nem sei bem como acabei gostando de carnaval, só sei que quando bateu a quarta-feira de cinzas e 2007 finalmente deu ares de começo me deu uma tristeza grande, senti o coração apertado e uma lágrima de pierrot querendo escapar.

Findo o Carnaval, não sei o que será pior: esperar pelo próximo ou tirar os confetes do cabelo...

terça-feira, janeiro 16, 2007

Essa maravilha de cenário

Sente-se na Pizzaria Guanabara às quatro da manhã de uma terça-feira pós Circo Voador vestida de Branca de Neve. De preferência, esteja acompanhada de um amigo tão ou mais engraçado que você. Chame todos que exclamarem “Branca de Neve!” para sentar-se à mesa também. Confirme quando o seu amigo disser que você é socióloga e que parte da sua pesquisa comportamental consiste em vestir-se de princesas da Disney para estudar as diversas reações de pessoas. Diga que mora na Floresta da Tijuca com os Sete Anões, que ficaram em casa porque têm de acordar cedo no dia seguinte para trabalhar (“Just whistle while you work”, lembram-se?). Diga também que substituiu a saia amarela pela bermuda jeans porque assim é mais prático e que a capa esquentava muito. Saia de lá com a barriga doendo de rir, tome um banho quente antes de dormir e aguarde ansiosamente mais um baile da Orquestra Imperial.