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domingo, março 31, 2013

Desvairadamente


quando tem o seu cheiro
dentro de um livro
Dentro da Noite Veloz.

Adriana Calcanhotto em Vambora

 

“Pela passagem de uma grande dor”, página 36: é o quarto conto de Morangos mofados, reeditado há 8 anos atrás. Meu exemplar já guarda certo cheiro de tempo.

Li Morangos dia 15 de novembro. Em dezembro uma amiga leu o meu livro: eu pedi que ela escrevesse seu nome e a data na folha de rosto, debaixo da minha própria marca. Acho lindo livro de biblioteca, daqueles que contém cartões datilografados por máquina de escrever, onde se listam os usuários e empréstimos. Daqueles que não existem mais. Eu achava que o meu Morangos podia tentar ser antigo. Em julho de 2007 foi a vez da Carol deixar sua assinatura.

10 páginas antes, e que é a segunda de “Os sobreviventes”, há 14 linhas sublinhadas a lápis: é o recorde de intervenções. Talvez eu ainda respondesse que este é o meu conto preferido da vida. O que pode ser falso. O que pode ser verdadeiro. O que eu posso nunca saber. Mas quando penso num momento fundador da minha trajetória de leitora, é para estas páginas que eu volto.

Eu estava apaixonada por um sujeito que era apaixonado por Caio. Isso interfere? Ambos se foram. O amor ficou. Os amores, todos.

A edição traz, nas páginas finais, uma carta de 22 de dezembro de 1979, endereçada a Zézim. Outro dia, à saída da aula, Beatriz e eu concordamos que é a mais bonita de Caio. Ela está, também, na coletânea de cartas, um volume que roubei da biblioteca de uma amiga em 2010, e cuja falta ela nunca sentiu. Heresia: a indiferença, não o furto.

Pouco antes da conclusão com Beatriz, Rodrigo dizia da sua experiência em ler o livro seguindo as orientações sonoras de Caio. “Pela passagem” pede Satie. “Os sobreviventes”, Angela Ro Ro. Jacques Loussier Trio executando as Gymnopédies é Satie o suficiente? Ou seria melhor o Nelson Freire? É a mesma coisa? E especificamente: qual música da Ro Ro?

Complicado fazer duas coisas ao mesmo tempo, e o meu livro me causa espirros. E uma saudade, do tipo que rasga: há 8 anos atrás, no café de uma livraria, conta paga, cadeiras arrastadas para trás: ele tirou do bolso uma flor, dessas roubadas de um canteiro na esquina. Murcha e despetalada, foi a primeira de uma série.

Na parte interna da contracapa de Morangos mofados anotei o telefone de alguém. Semana passada apaguei o número dele do meu celular.

Nem sei se a Carol gostou do Caio. Provavelmente não tanto quanto eu. 

2005 foi um ano bom.


 

quarta-feira, julho 25, 2012

Espuma


“Também perguntam muito: ‘o que você está fazendo?’ e que é uma maneira de aproximar e afastar as pessoas, porque é a maneira de colocar a pessoa julgando ela mesma. Eu não sei nada, mas sei que estou nascendo, todos os dias.”
Hélio Oiticica, julho de 1978 em entrevista para Lygia Pape (in Encontros / Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Azougue, 2009)

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Eu estava no mar enquanto pensava onde é que eu tinha lido que os surfistas são o Sísifo de nosso tempo. Não encontrei a fonte. Eu estava no mar, não tinha como procurar. Eu estava no mar e pensei que isso fazia muito sentido. Pensei em “Como uma onda”, pensei na Bahia, pensei que finalmente posso dizer que sinto saudade da Bahia. Sinto saudade desse lugar também, embora ainda esteja aqui. Sinto saudade de tudo o que gosto imediatamente, e sinto tudo imediatamente: gostar e saudade. Em doses iguais.

A gente também é Sísifo, por um lado, acordando todo dia, repetindo os mesmos gestos. Pensei em “Cotidiano”, em fim das férias. Eu estava no mar e pensei que logo ia sair do mar, e que tudo então seria esperar voltar pro mar, esperar os dias de sol, e esperar os dias de sol em que eu estivesse novamente de férias, e os dias de sol e de férias em que eu estivesse aqui nesse lugar, ou na Bahia.

Eu estava na varando vendo o sol cair, e vendo aquela praia onde ninguém pode ir, e ouvindo ondas, e de repente tudo ficou daquele jeito: a potência de um começo e um esmorecer das forças, porque tudo poderia ser assim: mergulho, orgasmo, ducha, ballet, literatura, fogo, embriaguez, um dia, amor, qualquer coisa que se sonhara.

Eu estava no mar quando tirei os chinelos e os óculos e entrei na água fria. Eu estava no mar quando me deixei boiar e olhei pro céu. Eu estava no mar quando pedi o almoço e sentei à mesa. Eu estava no mar quando comi camarões rosados, e eu estava no mar quando bebi a segunda cerveja, e a terceira, e eu estava no mar antes das 4 da tarde já bêbada. Eu estava no mar quando queimei o pé na sauna. Eu estava no mar quando tomei banho e descobri a marca de biquíni e quando me joguei na cama ainda meio úmida. Eu estava no mar quando descobri que faltavam as páginas 471, 472, 473 e 474 do livro que eu tinha acabado de começar. Eu estava no mar quando bebi toda a água que tinha na geladeira e quando acordei e já era hora de comer de novo. Eu estava no mar quando fechei as janelas e sem precisar de pijama, dormi.

Eu estava no mar e teria perdido telefonemas, e-mails e afins, mas eu estava nesse lugar que não existe justamente porque nos dias anteriores eu era tão ninguém, e o único refúgio possível era esse, onde só eu conhecia, onde eu podia pensar o que quisesse, sem ter de explicar, pedir, insistir e continuar sem. E sem ter de rolar pedra. Eu estava no mar. E quando eu sair e alguém perguntar, embora não haja quem queira saber, vou procurar aquele livro. Eu estava no mar. Eu estava no mar, repito se for preciso. Eu estava no mar. 

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Previsão do tempo

(para Clara)

Toda vez que chove desse jeito eu queria estar fora do carro, mas é sempre São Conrado e túnel e eu fico cercada de vidros sonhando com aquela enxurrada na cabeça. Toda vez que a gente volta àquela praia e dá um mergulho no mar depois de todo o suor a gente jura que a vida pode ser simples assim. Ainda acredito, também, nas promessas dos xampus, embora cada pote seja uma decepção. Minha mãe outro dia disse que sabão em pó era bom pra quando você quer espirrar e não consegue. Eu cheirei metade da cozinha e nada: sabão em pó, pimenta, shoyu, curry, gengibre, e lembrei de como era bom o cheiro do leite em pó. Lembrei também que a gente sempre espirra quando menos se espera, especialmente quando se tem um moreno bonitão a poucos centímetros de distância. Ou, claro, quando limpa armários. Espirrar nos outros deve ser piada, vingança ou muito amor.

Mais amor ainda é quando o guarda-sol não voa na praia, e redenção é não se afogar em meio às ondas e sujeiras do mar do Leblon. Escapar dessas ciladas, encontrar bicicletas para alugar e mais uma sorte de gestos e atos são coisas pelas quais vale à pena se iludir um pouco, nem que seja pra depois xingar alguém ou escrever barbaridades que jamais serão enviadas: está quente demais para medidas drásticas. Quente demais pra querer reviver encontros ou pra se deixar levar por uma conversa mole em meio a chopes. Toda vez que faz esse verão eu queria litros intermináveis de Afrin, hidratante de mãos e todas as demais possibilidades de ficar no ar-condicionado com conforto. A gente continua procurando a locadora de vídeos perdida. Eu sempre faço planos de ir bastante ao cinema, mais pela contravenção de vestir meia fora de temporada que pelos cartazes. Eu sempre acho que no verão os sapatos vão ficar livres dos fungos, e que dois banhos gelados por dia são suficientes. Eu dispenso sacolas plásticas o ano todo e reciclo todos os meus papéis pra poder gastar toda a água do mundo. A gente sempre faz piada de que só falta o eucalipto.

Toda vez que a gente vive um janeiro a gente investe nas sombras, no leque e num plano triunfante pra fugir dos blocos e do cecê da massa. Acreditamos que não chegaremos com vida a abril. Eu sempre penso que emagreço dois ou três quilos. Minha mãe insiste na melancia e orienta sempre ter cuidado com as latinhas que encontrarmos atrás do trio elétrico. Todo o Carnaval tem seu fim e a gente ludibria a ressaca exalando fator de proteção no baixo bebê. 

Eu sempre cogito: e se esfriasse de repente?!

Toda vez que tem esse bafo sobre as nossas cabeças, é batata: a previsão é de pancadas de chuva em todo o estado.Só basta acreditar.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Domingo no Parque

Brotam flores das cabeças nesse domingo, estamos no Parque sob uma árvore, tomando notas mentais, alheios às milhares de lagartas que nos olham por entre os galhos e folhas, possivelmente atropelando formigas. Tudo derrete lá fora, desde o sol até as solas emborrachadas dos nossos sapatos de verão, as saias rodadas das moças e as vozes encolhidas nas sombras. Dedos no botão de disparo, frames ensaiados antes de começar um balé. Ainda existe centopéia? Onde? Alguns vaga-lumes dançam à noite na minha sala, para espanto do cão e de todas as crianças que ainda vão chegar. As pessoas aguardam num círculo, um homem de meia-idade parece dormir recostado num tronco, uma toalha cretinamente xadrez cobre parte do chão, provavelmente atropelando formigas também. Não tem sorvete nem rosa nem roda-gigante nem faca. Em vez de amor, cobiçamos alguns doces e espumas cor de champanhe. Tudo parece tão surreal que se a era de aquário despencar sobre nossas cabeças talvez a gente entenda e aprecie toda a performance que se desenrola diante de nossos olhos. Agora além de flores brotam espessas gotas de suor de nossas têmporas, jorra água do chafariz e percebemos como o verão é cruel em nos fazer sair mais cedo. É mais fácil gostar das coisas no inverno. Saímos do Parque sem conseguir enxugar da testa toda a incompreensão, com a triste lembrança de que em vez de voar ou nos enfeitiçar com seus passos de dança, a bailarina, coitada, desabou no chão.

terça-feira, novembro 02, 2010

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Eu não gostava de ler biografias, na verdade sempre as abandonava às metades e montava torcida secreta e solitária pro biografado morrer logo, por que é que essa gente precisa amar tanto assim, eu perguntava, e com essas justificativas eu podia vislumbrar todo o falatório que eu poderia ter com o sujeito de óculos e casaco verde que se aproximou pra conversar, mas não, me desculpe, eu não socializo em livrarias, não com 3 livros no colo, costas curvadas pra frente, banco de madeira e o Jimmy Page sem ter ainda idéia de quem era Robert Plant.
Pouco depois ela disse que eu estava ranzinza e velha, e eu estava mesmo e além disso estava também sonolenta, alérgica, chata, sem assunto e com uma quantidade inaceitável de cabelos brancos, vibrando com a descoberta de uma prateleira intitulada “autores lusófonos” e indisposta a qualquer tipo de abordagem, fosse do sujeito de óculos e casaco verde ou do vendedor me oferecendo ajuda, o que ali, naquele lugar, nunca acontece, ufa. Eu poderia ter concordado quando ele disse que ficava sempre à espreita pra ocupar uma das poltronas caso elas se esvaziassem, mas o achei bobo por pensar que alguém seria generoso assim, dei um risinho condescendente, peguei os livros, fui ao caixa, deixei dois pelo caminho e voltei pra casa com uma certa dose de som e fúria.
Ela disse que eu poderia ter sido menos ríspida, eu disse que não fui ríspida, ela insistiu que sim, eu respondi que ela nem estava lá pra ver e que as pessoas que iniciam conversas com desconhecidos devem saber, ou ao menos aceitar, que tem gente assim feito eu: ríspida.
Bandeira branca pra ela, eu não estava em condições de discutir, eu não tinha argumentos pra nada, eu não tinha mais nada além de uma preguiça e de uma apatia que eu não sabia como vencer, pior, que eu não queria vencer. Ela disse que também andava assim, e combinamos jantar pra resmungar juntas e maldizer todas as pessoas felizes de batom e visão política, salto e óculos e casaco verde, será que todo mundo que trabalha demais fica chato assim como nós? Será que todo mundo que tem o coração quebrado recorre a “autores lusófonos”?
Eu tomei muito gin tônica aquela noite, até o meu drink parecia ultrapassado e demodê, eu sentia calor e minhas bochechas ficaram rosadas no primeiro gole, eu dormi atravessada na cama sem nem um lençol, esqueci de mandar uma mensagem pra ela avisando que tinha chegado bem e ela esqueceu também, cheia de ice-tea no sangue, e acordei vomitando tanto que resolvi dar um mergulho no mar.
Naquele dia o sol não durou muito, eu encontrei três pessoas na praia e inventei outras duas que não eram reais. Naquele dia eu fui ao cinema e depois conheci um novo Baixo, conversei bobagens com amigos que há muito não via, bebi moderadamente e respondi a tantas perguntas que fiquei besta de ver. Naquele dia as pessoas queriam saber se eu tinha gostado daquele balé (não), porque eu continuava de óculos ( ), como estava o Roberto (eu não sabia, mas eu estava com saudades do Roberto), quando a Cissa ia embora (e eu não queria pensar ainda que a Cissa ia embora), onde eu andava saindo (em casa), se eu gostava do Mia Couto (coração) e o que eu estava lendo (autores lusófonos).
Aquele dia me deu vontade de voltar a escrever, de encontrar as pessoas, de, quem sabe, voltar à livraria e responder com mais boa vontade as possíveis perguntas do sujeito de óculos e casaco verde e de repente saber o que ele gostava de folhear por lá. Naquele dia eu percebi que as coisas continuavam boas, era eu que tinha desaprendido de gostar. Naquele dia derrubei todas as paredes flácidas que eu tinha erguido, dancei e gargalhei como se ouvisse música, comi feijão com arroz como se fosse o máximo.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Retrato em branco e preto

Aquilo que vi em você quando abri a porta, apatia se espalhando como vento na praia, aquilo não era só o que você me disse que parecia. Aquilo que se misturava às tuas cores não era apenas, não podia ser! Aquilo que se descolava da tua pele e solidificava em nuvem cinza, aquela tempestade anunciada sobre a tua cabeça, aquilo não era o que você achava. Aquele você que me recebeu não era só o apelo minutos antes por telefone, terceiro andar, descalço em pedras frias e magricelo, aquele dia, não era só tristeza, solidão ou temperatura abaixo de zero. Aquilo que se apoderou do teu abraço, tão minguado, não era só Agosto, muito menos oito dias trabalhando sem parar. A tua cabeça tombada no caminho até o sofá da sala, seu quase sumiço por entre as almofadas, aquele resgate que se fez necessário, havia um colapso em você que era subcutâneo e que nem mesmo sopa quente, cachecol e beijo de boa noite: aquilo, meu bem, não era pedido de socorro ou saudade do meu colo: era segunda-feira.

domingo, julho 11, 2010

Vestígios

As gotas de suor que marcavam o chão de linóleo da sala de dança, aqueles fios de cabelo que grudavam na nuca em questão de minutos, pensar que o mundo estava de cabeça pra baixo, rodar pela diagonal e se apoiar na barra ao final de uma série de piques, bater palmas ofegantes, pegar a blusa que ficou empapada esquecida a um canto da sala, gostar de gatorade às 21h15 de segunda-feira no verão: uma saudade avassaladora de chegar em casa depois da aula de ballet, deitar no chão com as pernas pra cima, entrar no banho e cantar Alanis Morissette embaixo do chuveiro.

Saudade imensa de 14 graus em outubro, vestido novo com meia grossa, trenchcoat emprestado, inspirar e expirar de olhos fechados mais uma vez antes de abrir a porta antiga do prédio, os ecos do salto atravessando a Rue de Mezières até qualquer café na esquina, uma mesa apertada que encoraja nosso encontro, sentados na vitrine sem querer saber das ruas, o caminho de volta, beijos urgentes imprensados na parede, mistura de suspiros, subir os 6 andares de uma escada atapetada refazendo mentalmente todo o percurso que me fez cair naqueles braços: cair naqueles braços.

Ler pela primeira vez as linhas 12, 13 e 14 da página 31 de um determinado livro e ter uma retumbante certeza de que é possível guardar deslumbramentos em prateleiras. Saudade doída de escutar o Bolero de Ravel pela primeira vez e me sentir suspensa.

Trança no cabelo, frio de julho na beira do mar, fechar o zíper nas costas do macacão e sentir gelar toda a espinha quando as primeiras espumas de onda batem no pé. Remar com os braços aflitos, achar o equilíbrio e deslizar suavemente, guardar essa saudade de entender o fim da linha e se jogar pra trás, espatifar-me n’água, buscar a areia, deitar sobre a prancha e ter uma certeza retumbante de que presente bom é fitar as nuvens sem se importar com o tempo.

Perceber-se apaixonada e tentar conter aquele sorriso bobo que não respeita horários, caramba!, que saudade que dá de gostar mais de tudo, de demorar a dormir, de ter uma fome de banquetes, de ter um abraço esperando, de poder beijar sem parar.

Uma saudade que me atravessa, impiedosa, de saltar do carro para abrir o portão, pisar descalça na grama e avistar os cães correndo em minha direção. De ver as marcas das patas imundas sobre minha camiseta tão branca. De estender toalha de pique-nique, folhear o jornal, lembrar do repelente depois de dois ou três mosquitos, adormecer escutando as vozes dos amigos, contar flores nas copas das árvores. Saudade tão forte de correr e pular pra dentro da piscina, de se apoiar em bóias e fica à deriva, da sopa em frente à TV, dos ruídos de lenha queimando na lareira, do ranger da rede. Essa saudade que me alucina: do cobertor que provocava espirros, daquela casa, de nossos dentes manchados de vinho, de dormir só no dia seguinte, daquela parte da estrada onde as árvores, pareciam, nunca iam morrer.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Reveillon

De repente você não consegue mais lembrar porque foi parar no meio daquele fim de semana em Búzios, qual era o nome da praia onde você descobriu que precisava assistir a todos os filmes do Kubrick e nem em que quarto dormiu, se com um ou com outro, ou se sozinha enrolada num lençol fininho e sem dar qualquer espirro. De repente você tem uma saudade torturante do apartamento onde as coisas permaneciam secas, de dividir o banheiro, de subir a escada de mansinho pra se largar frente à TV. De repente você fecha os olhos e consegue catalogar todos os sorrisos que ele sorriu ao longo de dez anos, desde a escuridão de uma boate onde você parecia uma punk até o bloco de carnaval mais recente, passando por todos os seus sonhos e por todas as cenas que nunca aconteceram. De repente o que você mais deseja é que as coisas possam ser um pouquinho parecidas com o que já foram um dia: quando não havia abridor de vinho num apartamento onde a TV era a pior do mundo, quando eu era a única pessoa que não tinha idéia do que era um plano-sequência, quando eu disfarçava paixão, quando eu era mais parecida com o que eu achava que seria em algum futuro.

De repente o Paul McCartney parece ser o único sujeito confiável do mundo e só o que faz sentido são caixas empilhadas de tylenol sinus sendo consumidas diariamente ao volume ensurdecedor de silly love songs.

Você se assusta ao encontrar vaga-lumes e entra em Cosmococas aguardando acontecimentos ou revelações, controla ansiedade tirando fotos em câmeras antigas de filmes, chora dias a fio olhando pros quadros que pintou na infância, compara a venda da casa de campo com a morte da goiabeira, desmarca o dentista com medo de que morra sufocada por causa da sinusite e pensa que tudo, tudo mesmo, pessoas, memória, lugares e ideias estão acabando rápido demais, e até dor de cotovelo tem aparecido menos, ou incomodado menos, ou talvez seja só uma questão de aprender a ignorar mais: os dias de sol, os chamados dele, o fato de que já compuseram músicas novas desde 1976, a superexposição, o amor.

Você se sente meio idiota porque nunca consegue preencher o pedido de visto pros EUA, sonha que está em NY comprando todos os livros do Avedon sem se importar com o peso: da mala, da moeda, da obsessão, e isso é o que existe em comum entre viagens e sonhos.

De repente você confessa ciúmes e descrenças com a mesma facilidade, planeja se mudar pra fora do país, dá palpites em roteiros alheios, lê biografias em francês e fica tão completamente só nadando crawl na piscina, e quando se dá conta já é quarta-feira de cinzas e o ano, parece, começou. De repente você entende que precisa começar também.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Aprender a ser só

O banheiro, outrora abrigo constante de borboletas, hospeda agora gordos mosquitos que não saem de lá nem às custas de SBP, e em algum lugar do quarto, provavelmente atrás de todas as coisas empilhadas, eles fazem casa também: minhas pernas indicam que ando pela selva. E não pode ser coincidência que o autor do livro que agora leio seja a) escritor de um personagem que é igualmente devorado por mosquitos, b) filho da Sophia de Mello Breyner Andresen, c) português, d) narrador de solidões.

Sei que parece impossível sentir solidão com tantas picadas de mosquito, e que é incongruente isso em janeiro, inexplicável, até. Mas sim, me acomete às vezes sentir uma que parece pior que todas as outras, que dá junto com uma saudade desconjuntada de pertencer a algumas vidas que me deixaram de lado, que vem junto com o balanço de mar em praia lotada, que me angustia tanto quanto boiar sem óculos e, portanto, sem saber ao certo a distância das ondas que a qualquer momento podem me engolir.

E são tantas as solidões que me aparecem, não só as minhas, mas as de pessoas que eu pensei que pudesse consolar, as de gente que eu achava que sabia ouvir, as de amigos que eu jurava que se soubessem acolhidos por aqui, e as de finais tão fortemente anunciados que só podiam ser mentira, e que não eram, e ai que dor.

Solidão de filme de ficção, de capa de revista semanal, das manchetes, das missas, de mais de quinhentas páginas na mesinha de cabeceira, de acordes e ritmos lentos que se demoram mais que o sol, e uma certeza de ser tão só que escorrem lágrimas genuínas de pequenos roxos que se acumulam nos joelhos.

Logo passa. É verão e já se fala em carnaval, já se pensa em fantasia e nas irresponsabilidades consentidas, nos disfarces e máscaras necessários, nas serpentinas e alegrias já tão treinadas que aplacam chororô, pelo menos até a quarta-feira de cinzas. Até lá, aumentar a lista de resoluções de ano-novo: 1) evitar as pancadas no box do chuveiro, 2) entender o final das coisas, 3) tomar complexo B ou mudar a marca do spray repelente, 4) jamais entrar no mar desacompanhada.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Das coisas

(outro volume)

Das dores

Cospe um homem de estatura mediana que veste camisa azul à minha frente, deixando sobre a plataforma da estação Cinelândia uma micro poça de saliva e repetindo o gesto que acontecera três horas antes na calçada da Rua dos Andradas, quando um senhor já encolhido pelo tempo deixou seu cuspe sobre as pedras portuguesas.

Cospe uma moça de short jeans, blusa amarela e gorduras localizadas salientes ao atravessar o sinal em Botafogo. Cospe o rapaz de sunga do calçadão num doce (e babado) balanço a caminho do mar, cospe um sujeito que carrega uma mochila pesada perto do posto de gasolina na Barra e é sempre: encher os pulmões e a boca e despencar pelo passeio público a baba incontida que deve carregar consigo alguma espécie de libertação. Deve haver algo de exorcismo numa cusparada, deve haver algo de transgressor, deve ser o exato oposto de engolir sapo, deve ser descarrego de tormentos e, portanto, cogito amanhã bem cedo dar uma bela e vigorosa cusparada em algum ponto da Nossa Senhora de Copacabana, de preferência bem no meio da cara de alguém que mereça.

Do suor

O prenúncio do carnaval é a praia do feriado em que não há vagas, água ou queijo coalho possíveis. Escafedem-se os espaços na areia, as ondas invadem pernas, cangas e bolsas esquecidas e o mar é redenção. Brilham os torsos nus dos jogadores de altinha, anarquizam a beira do mar as crianças, solidarizam-se as gentes apertadas e organiza-se a lista de espera do guarda-sol enquanto alguns sonham com cachoeiras, outros com piscina, outros com estação de esqui. O gesto de devolver os óculos ao topo do nariz é repetido cerca de 40 vezes por minuto, o menor cabelo desconforta, o galão do mate ofusca os olhos e já não se pode ir pra casa antes das quatro da tarde, quando começa a baixar o sol, a dispersão do aglomerado, quando se pode, então, esticar-se, cochilar, morrer de rir.

Dos vôos
Repousam no batente da janela os óculos enquanto deslizo pelo chão meus pés, e desenho em madeira giros e saltos e é como cachaça ou heroína, porque é transporte pra qualquer lugar. Fica jogada num canto da sala a blusa úmida, fica esparramada e delirante a pessoa ao fim da aula, fica a ressaca no carro no caminho de volta pra casa. Fico existencialista e dona de tudo o que é meu: joelho, ligamentos, pescoço, mãos, tornozelos, impulsão, tesão, calma, pausa, ataque,articulações e o melhor: pulso.

Dos laços

Emperram-se muito facilmente os zíperes de vestidos sem uso, amarelam-se as sedas guardadas e a linha sempre arrebenta na última agulhada, impossibilitando o nó que segura a costura, desatando mágoa e lamentos engasgados. Solicito consertos para os sapatos, que precisam de novas solas depois de tanta chuva. Escapam-me as vontades de tentar indiferença, de achar normal, de dizer: tchau, e entrego-me a perder as estribeiras.

Volta, que se você voltar eu prometo que dessa vez eu fico.



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Washing against the lonely tenement has set my mind to wonder
Into the windows of my lovers, they never know unless I write
' This is no declaration I just thought I'd let you know goodbye '
Said the hero in the story ' it is mightier than swords
I could kill you, sure, but I could only make you cry with these words'.

Belle and Sebastian in Get me away from here, I'm dying.

quinta-feira, julho 30, 2009

Never been so easy or so slow*

* "You could make me cry if you don't know. Can't remember what I was thinking of you might be spoiling me too much, love, you're gonna make me lonesome when you go." Bob Dylan


Ele desembrulha todas essas histórias que eu não sei e numa gargalhada me espatifo no chão como se fosse azulejo, e ficam todos os pedaços sobre o tapete quentinho dessa casa que eu criei. Ele prepara a lareira, a sopa e a gente nunca pára de falar quando têm mantas sobre os joelhos. Eu folheio a pilha de revistas, ele beija meu umbigo e esquecemos até de beber conhaque e todos os licores coloridos. Ele me abraça do tamanho certo, e eu derreto pra todos as quinas das mãos, das pernas e dos ouvidos dele. E da boca, e é tão fácil que ele esquece de dormir, e eu também.

Desde que ele não está mais aqui, dou bom dia pras paredes e durmo de meias, esquento café pra um e invento esse final tristíssimo: a casa morre afogada de tanta chuva, me tranco no banheiro a estrangular flores, fico sem mais nem porquê à tarde. Investigo no espelho do closet e constato que sumiu da minha bochecha direita a marca tão efêmera quanto essa história de paixão desenfreada: uma mordida de mosquito.

segunda-feira, julho 13, 2009

Laranjeiras

Essa história que ficou encalacrada entre o Largo do Machado e o túnel Rebouças, ela volta em detalhes e cheiros quando perambulo pelos brechós da Rua Alice e experimento alguns vestidos verdes, que receberiam elogios quase imperceptíveis se tantas coisas... Mas não compro nada.

Na esquina da mesma rua já não como mais pastéis porque já não vivo mais aqueles dias de Cesaria Évora de manhã, de tomates secos em frente a um filme em língua estranha. Essa história de demorar a dormir pensando em desculpas pouco convincentes pra te fazer entender que a gente não dava certo, mas a gente dava certo, lembra?

Essa história cheia de razões que eu mesma escrevia, ela volta em cores quando passeio por ruas que eram suas, e que continuam no mapa apesar de mim. Essa história, cujo final eu escolhi, quando volta me pega numa saudade tão boa e pouco dramática de nem sei o quê. Essa nossa história de saudade, deve ser isso, fui eu que inventei do começo ao fim.

quarta-feira, junho 24, 2009

Tomar o mundo feito coca-cola

"Só falta te querer
Te ganhar e te perder
Falta eu acordar
Ser gente grande pra poder chorar"
Lulu Santos in O Último Romântico

É que às vezes acontece isso de chorar com uma mesa entre nós, de ficar sombria e engasgada e encrencada numa linha curva de pensamentos tortos, acontece às vezes de enxugar os olhos com guardanapo timbrado, de inundar hastes de óculos gastos e marrons, de esfregar os olhos e ter soluços pequeninos e contritos que tentam cessar essa torrente que se põe a desfiar histórias e lembranças tão de trás, tão de longe.

É difícil dizer se um abraço teria sido consolo, ou se mousse de chocolate, ou se meia, ou se noites clandestinas que viravam refúgios com espelhos nos tetos, tudo isso pra deixar pra lá esses redemoinhos de coisas e perguntas, pra deixar pra trás melancolias cheias de dúvidas que não terminaram e que então desse lado da mesa vêm à tona tão naturalmente como espirros em dias úmidos.

É que quando fica inverno essas coisas jorram: esses humores quase sempre tão disfarçáveis, esses prantos que geralmente sabem que o melhor horário é no meio de uma madrugada sozinha, essa carência de pele e do outro que normalmente se conforma com os suspiros de uma saudade que nunca vira nós dois, essa insegurança que habitualmente se esconde entre piadas e um jeito de ir vencendo os dias graças a risos que não têm por que.

E tosse. E essa letargia, esse estado hipocondríaco que vem com travesseiro, falta de convites para comer fondue e pancadas de chuva à tarde.

É que às vezes acontece isso quando fica inverno: esse frio, esse pulmão congestionado, lenços de papel que vão secando uma porção de lágrimas desordenadas, um medo que só mesmo roupa de flanela, "me dá um beijo então / aperta a minha mão". É que às vezes, com sorte, passa um filme de infância na "Sessão da Tarde".

sexta-feira, março 06, 2009

Das coisas

Do amor

Alguém munido de uma poltrona e boas mãos oferece cafuné na praia de Ipanema a módicos preços; no fim da aula de gyrotonic (ou o que quer que seja) eu deito a cabeça num travesseiro durinho que faz massagem no pescoço quando acionado; no meio da aula de dança contemporânea o professor coça as costas com movimentos precisos para relaxar os músculos; no final da sessão de massagem a Ana faz gato e sapato das minhas orelhas e traça caminhos no meu rosto que eu nem sabia; além de me dar um beijo na testa e me deixar sozinha, barulho de água na sala escura, cobertor quentinho, abraço de cânfora.

Do calor

Passar protetor solar nas costas, pernas, braços, barriga e cara dá um calor desgraçado, sua pra caramba de modo que o mar é o único destino possível, mas a água está morna de tanto sol; a orla da Barra parece sacanagem, com degradé de turquesas e cheia de ameaças às pessoas que trabalham, e cheia de ternura com quem não tem muito o que fazer, oferecendo um mar que deixa qualquer um carente depois; até o banho não tem sido tão gelado quanto deveria; o cachorro sofre e pendura a língua entre os dentes num arfar constante que me mata de dó, mas não adianta que ele não gosta do ar; alguém ainda usa chinelos, ou todo mundo só usa Havaianas?; um mergulho que não arda os olhos está no topo da minha wishlist.

De nós

Os grampos embaralham um pouco o que sobrou dos cabelos; as coisas na varanda secam umas por cima das outras com cuidado pra não manchar; a única coisa que não se confunde são as revistas que li, porque são todas iguais.

Da pele

Fica no repeat a música, como fica a minha cabeça, pensando e repisando e refazendo cada uma das palavras, não só as da canção, as tuas também. Por fim, penso que faltou uma frase naquela carta. Por fim, penso que outras pessoas precisam conhecer a cantora, talvez funcione pra mais alguém como funciona pra mim.

Te amo, pode ser?


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A tua ausência me causou um caos
No breu de hoje sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal


Maria Gadu in www.myspace.com/mariagadu , dica da Maíra.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Garoa

Ao barulhinho da vitamina C efervescendo no copo o olho parece que gruda sem querer abrir, não acredito que já é tão cedo de novo. Se fosse outro dia eu ia inventar uma dor de barriga ou enxaqueca pra pular as obrigações, mas hoje não, os últimos ontems foram tão bons que é melhor não arriscar perder mais um. Não sei se tem a ver com Obama ou Alexandre Herchcovitch, parece que a lâmpada acendeu com força incandescente em algum lugar dentro da minha cabeça. Quando a água fica totalmente laranja já estou com o pé no chuveiro. Quando me enrolo na toalha já fico com pena de que tudo tenha que acabar logo. Hoje vai ser um ontem de gargalhadas quando for tão cedo de novo. Tenho até medo de pensar como tudo poderia ser per-fei-to se eu tivesse um casaco de lã bem quentinho, ou você me esperando na saída.

domingo, agosto 24, 2008

Almoço de domingo

Amontoados na varanda estreita, percebemos que há algo errado com as coberturas do prédio ao lado: as escadas que ligam o primeiro piso à varanda descampada não têm qualquer tipo de proteção, de forma que, em caso de chuva, o primeiro andar deve ficar alagado. Há também uma varanda bastante esquisita com piso vazado, ou será que ali devem ficar os motores de ar-condicionado?

Esquisito também é o terceiro andar de um outro edifício onde se vê, além de um adesivo com número de político no vidro, uma árvore de natal que, não sabemos, ainda ou está montada? Alguém arrisca um palpite de que o dono do apartamento está morto desde dezembro ou que então alguém faleceu no dia de Noel e a árvore virou uma espécie de quarto do defunto em que ninguém consegue entrar. Os outros palpites provocam risada.

Uma prima nos presenteia com fotos que ela tirou num almoço ocorrido semanas antes. A mais importante é a que reúne todos os primos, uns esmagados, uns por cima dos outros, e que é uma tradição antiga dos tempos em que se conseguia enquadrar todo mundo junto numa 10 X 15. Não só ficamos grandes, mas ficamos muitos também. Uns tiveram filhos, outros casaram e de repente viramos um grupo de primos que precisa de uma panorâmica para nos capturar.

Não por acaso, nos espalhamos por sofás, poltronas, braços de cadeiras e chão e eventualmente nos enfurnamos no quarto de alguém e fazemos interrogatórios uns aos outros enquanto uma das primas loiras chama o pai, carinhosamente, de Obeso. Descobrimos que a tartaruga da irmã, a quem ela chama Stupid, come prancha de surfe e fios elétricos. Alguém sugere que ela está com verme, alguém sugere que ela seja alimentada adequadamente, alguém sugere que ela vá ao Lâmina fazer exame de sangue. Lembramos de quando um dos primos, que agora é ex-veterinário, cuidou de um passarinho que, desgovernado, entrara janela adentro. A ave não durou muito e até hoje especulamos o quanto a morte do bichinho influenciou sua decisão de mudar de carreira.

Um outro primo que ficou tão grande que escondia papéis de bombons no alto das portas (“sabe quando você vai comendo bombons pelo corredor e coloca os papéis na quinas do alto das portas?”) diz aos pais que a lei seca acabou, e eles acreditam. É o mesmo primo que dá um susto em todo mundo quando aparece fugindo de tiro no noticiário e também o escolhido para ficar na fila do ingresso do show da Madonna, afinal estagiário deve cumprir esse tipo de tarefa.

Cantamos “Parabéns pra você” e “Com quem será?” no almoço de noivado e fazemos maracutaia no amigo-oculto de fim de ano.

Achamos graça quando o primo atrasado consegue ser o último a chegar no almoço que acontece em sua própria casa. Fazemos piada com o primo que já é pai de três porque achamos que ele já pertence à categoria tio. Caímos na pele da tia que resolveu fazer aula de teatro e não economizamos gargalhadas quando ela nos convida para sua apresentação de fim de ano.

Mas engraçado mesmo é quando, num momento de (milagroso) silêncio, escutamos a prima mais velha dizer à mais nova que, por ano, morrem mais pessoas de ataque de hipopótamos que de leão. Nos entreolhamos assustados, imaginamos que exista um contexto para a frase mas pensando bem, em se tratando de nós, nem precisaria. Sabe quando você tem uma família grande e hilária que parece nonsense?...





obs. O Meu paletó virou estopa ressuscitou por tempo indeterminado.