"Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?"
Alejandra Pizarnik via Alexandra Lucas Coelho, no livro e a noite roda (Tinta da China, 2012).
Na minha mesa agora
habita um cardápio do Lamas. Uma pasta de cardápio do Lamas. A pasta de cardápio do Lamas, há poucos meses,
abrigou um mapa de Paraty, tickets para mesas de debate, cartões de
restaurantes. Agora vazia. Agora um intervalo.
Não quero falar como se
você tivesse morrido. Mas é que quando nos arrancam coisas é assim mesmo que
ficamos: sem coisas, porque tomadas.
Nunca me puxaram o
tapete, mas a sensação que tenho é essa, a de estar com o nariz colado ao chão,
a cara tão próxima da madeira que mesmo uma aspiração tímida vai fazer entrar em
mim poeiras repousadas durante anos. Não quero me entupir disso, não disso. Não
quero mais encontrar buracos: nas roupas assaltadas, nas baias desocupadas, na
minha barriga instável, nas brigas silenciosas, nos suicídios repentinos, no
primeiro ano sem ele que se completa, e nunca tão real o para sempre como agora.
Um para sempre sinônimo de nunca mais.
Falam de agostos. Caio se
escondia deles. Não sabem dos janeiros.