quinta-feira, março 01, 2012

Carta a E.

 Querido,

A primeira lembrança que tenho sua é uma que nem você sabe. Vestido de amarelo, uma faixa preta que tentava domar teus cabelos, botas remendadas com fita prateada, sentado num sofá de um museu em Niterói e a mesma expressão desafiadora que você ainda usava há cerca de um mês atrás, última vez que te vi: agitado, batucando, com álcool nos olhos e um resquício de um sussurro pra mim.

Me acostumei a te saber assim: colorido, inquieto, com asas nos pés e uma rouquidão de tanto falar. Por anos achei que você fosse uma dessas pessoas que não podem ser detidas, e no fundo sempre tive certeza de que você sequer dormia. Pra contabilizar tudo o que eu sabia que você já tinha sido, eu precisaria de umas cinco vidas com uma média de 6 horas de sono por noite. Mas você conseguia tudo aqui, perambulando pela cidade, roubando flores de canteiros para presentear os seus amores e gesticulando a ponto de ficar enorme.

Sempre gostei de alguma coisa em você que eu nem sabia explicar. Os cabelos, óbvio. Mas não dá pra justificar uma paixão assim. Ou pode? Numa eternidade inventada pra nós, eu ficaria dias a fio fazendo cafuné na sua cabeça, enquanto você, pioneiro das curvas do meu pescoço, ia chafurdar o nariz e a boca nos recônditos das minhas saboneteiras. E só. Sempre gostei, também, do meu nome na sua voz. E de toda a curiosidade que eu sentia quando você tirava da manga tantas ideias, assuntos, filmes, músicas e histórias, além de uma doçura que algumas pessoas não acreditam que você seja capaz de ter. Sempre gostei dessa calma que, numa distração, você despejava perto de mim.

Nunca soube exatamente onde te colocar no meu mundo. Não saberia te classificar. Nunca consegui fazer sentido de você, e também nunca encontrei uma lógica que sanasse os olhares confusos dos amigos que me viam sumir com você por aí, de tempos em tempos.

Desde que você ameaçou morrer, um turbilhão de outras tantas interrogações me assalta. Eu acredito que você vai acordar. Mas se não, pra onde vão todas as coisas que eu não disse, como fica o seu pequeno, e todos os outros órfãos que vão chorar, quem vai me achar tão linda, quem vai encontrar sentido, quem vai abrir caminhos e cantarolar, quem vai revolver o chão, quem vai saber todas as coisas que você sabe? Vai ter carnaval ainda?

Desde que você ameaçou morrer, também, que uma torcida ferrenha montou guarda, mostrando o tamanho que você tem. As dimensões são extensas. Você é tão alto que chega ao topo das árvores, das nuvens, e deve ser capaz de atravessar o mar com apenas duas braçadas. Talvez isso decifre o (meu) enigma: você é tão grande que não cabe.

Espero que essa correspondência chegue a você cedo ou tarde, quando tiver os olhos bem abertos, os sorrisos e abraços dos seus amigos e escudeiros por perto. Se eu não estiver no meio deles, não é por falta de afeto, é só por não saber como.

Te beijo,

2 comentários:

Jeanne Duval disse...

Fiquei emocionada, e com vontade de conhece-lo!

bruna disse...

A poesia faz essas coisas com a gente.