domingo, junho 17, 2012

Propriedade

Uma hora mais tarde Julio recebe seu pagamento: três notas de dez mil pesos com as quais tinha pensado em se virar durante as duas semanas seguintes. Em vez de ir para seu apartamento ele faz sinal para um taxi e pede ao motorista que dirija trinta mil pesos. Repete, explica e até dá o dinheiro adiantado para o taxista: siga em qualquer direção, rode em círculos, em diagonais, tanto faz, eu desço do seu taxi quando bater nos trinta mil pesos.

Alejandro ZAMBRA. Bonsai. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Na minha mesa agora habitam, temporariamente, quatro livros que não são meus. Três deles são de alguém que tem manias semelhantes às minhas: nome e data na folha de rosto, marcadores de páginas coloridos, riscos a lápis marcando trechos. O outro tem carimbos de biblioteca, etiquetas laterais de biblioteca, numeração de biblioteca, cheiro de biblioteca e aquela quase virgindade das páginas. Ninguém ousou quebrar a lombada, e me angustia pensar se devo ou não fazê-lo.

Imagino a bronca. O livro da biblioteca tem de ser devolvido exatamente como encontrado dois dias antes. Três dias antes. Pretendo pagar uma multa de R$ 1,50 só pra não ter que ir à biblioteca no dia que não tenho aula na Universidade, segunda-feira, data de devolução do livro. Se for preciso, pago mais R$ 5,00 por ter quebrado a lombada.

Eu quebro lombadas. Imagine ler a biografia da Clarice Lispector edição de bolso sem quebrar a lombada. Seria uma prisão.

Não gosto de coisas que não são minhas. Sou controladora, é por isso que gosto de ler. Gosto de poder rabiscar as páginas. De deixar aquilo meu. De ensaiar garranchos, de ver os sublinhados que dizem que estive ali. Acho que daria pra escrever uma autobiografia colando frases sublinhadas de livros. Talvez à primeira vista não fizesse sentido. Mas pense só.

Ou uma autobiografia feita de assinaturas em livros de presença de exposições.

Joyce Pascowitch foi ao MAM dia sete de abril de dois mil e doze. 

Eu ainda compro lápis, mas fico pensando quem mais. Gosto de cheiro de lápis. Gosto de tudo onde se possa ver a passagem do tempo. É clichê, mas dá pra fazer uma lista: folhas de papel, folhas de plantas, canetas, paredes brancas, sapatos de salto, sapatos sem salto, livros, pele, cabelos.

Gosto de morder os pescoços dos homens que passam pelos meus afetos. São as marcas. Sou controladora, é por isso que gosto de ficar sozinha. E de ler. E de ter as minhas próprias coisas, e de poder, num chilique que nunca acontece, rasgar as páginas, se eu quiser. Ou quebrar lombadas, todas minhas, partidas ao meio, fazendo com que eventualmente a encadernação se danifique, as páginas se soltem, as palavras se percam.  

Quatro livros emprestados, angústia de não poder possuí-los. Depois de amanhã devolvo tudo. Até lá, desenho nas paredes.

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