segunda-feira, janeiro 16, 2012

curtas


Moro num apartamento que parece casa, com janela pintada de verde e jardim inclinado. Minhas espreguiçadeiras precisariam de cinto de segurança. Tenho gatos e violões, amigos que tocam músicas do Álbum Branco e de Gilberto Gil. E vizinhos adolescentes que ainda sonham ser rockstars. O repertório podia ser pior. Podia ser melhor também. O que quer que fosse, irrevogável é o fato de que o vizinho e sua banda de garagem tocam mal. Durante anos sonhei que o vizinho de baixo, um dia, bateria à minha porta reclamando, justamente, das minhas habilidades como guitarrista. Ele faria elogios ao meu gosto musical, se declararia fã dos mesmos solos que eu treinava com afinco, mas incentivaria fortemente que eu abandonasse tudo aquilo. Nunca mereci sequer uma cutucada do vizinho, dessas que fazem com a vassoura no teto. Agora, ao meu lado, competindo com a conversa que meus convidados tentam estabelecer, a banda de garagem ensaia o repertório de Ok Computer. É a pior versão de Karma Police que alguém poderia aguentar. Abrimos latas e mais latas de cerveja. Tentamos desesperadamente esquecer.

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Você parecia uma Frida Kahlo deslocada no tempo, com leque, turbante e brincos tão grandes. Saboneteiras, pescoço, tudo em você era de outra década. Eu me senti, instantaneamente, a última pessoa da Terra. Caía um temporal de interditar cidades e você cada vez mais podia ser alguém que chegou tarde demais pra semana de 22. Calada, aprofundava o mistério sobre si mesma, olhando fixamente para o espetáculo de raios que se dava a três passos da varanda onde estávamos. Te peguei pela mão, era incrível: sua maquiagem permanecia intacta sob a chuva.

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Hoje de manhã tinha brownie, coca-cola, um império a ser editado na minha mesa e uma vontade quase insana de te convidar pra comer rabanadas fora de época. 





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