domingo, janeiro 22, 2017

Dupla exposição

“Não fui eu quem viu aquela exposição do Edward Hopper no Grand Palais.” Começa assim o conto, e antes há um que começa com uma frase de um conto de Elizabeth Bishop, e só por isso eu já deveria desistir das tentativas de escrever o que gostaria. Tudo ecoará um plágio. É a segunda vez que leio esse livro. Ou terceira. Talvez mais. Mas por ora, digamos que seja a segunda.

É janeiro, a sensação térmica no Rio ultrapassa a tolerância e amanhã vou à praia com P. Quero ter algo para dizer além de “adorei seu livro”. Até porque já disse, acho. Na primeira vez em que li, na tela de um computador, acomodada numa cadeira desconfortável, num escritório de temperatura pouco variável, o que hoje, por mais que um tanto desbotada, é uma lembrança agradável daqueles dias. O cenário, agora, é o meu quarto, a luminária da mesa de cabeceira acesa, travesseiros, ar-condicionado. E a impressão a cada página é a de que já li isso antes. O que é verdade. Todavia agora o livro está impresso, a ordem dos contos já não é a mesma, a dedicatória de P. é generosa – “para Julia, que percorreu as páginas deste livro deixando suas marcas” – e amanhã vamos à praia.

Nunca imaginei. Não só a praia com P., mas tudo o que pareceu tão... mudado? esses dias, e que ao mesmo tempo imprimiu na pele essa sensação de repetição, como se no fundo os fatos fossem basicamente os mesmos, com as diferenças de endereço, temperatura e corte de cabelo nas aparências.

Por exemplo. Aquela festa. Estar diante de G. e de toda sua capacidade de me desestruturar por anos a fio, exceto pela constatação de que agora G. não me causa a menor das impressões. Parece apagado, ou fosco. Nem mesmo saberia descrever a camisa que ele usava naquela noite. Branca, por causa da passagem de ano? Azul, por ser sua cor preferida? Ou ele estava sem camisa? Quanto tempo precisa passar pras pessoas se tornarem invisíveis? Ou ele sempre foi assim? O mais perturbador, entretanto, é enxergar a invisibilidade e me perguntar se isso também é uma invenção minha, se esse tempo todo foi o que precisei para ficcionalizá-lo de outro jeito e construir esse personagem banal de réveillon, alguém que sou capaz de deixar falando sozinho com a desculpa de um drink ou uma dança. Ou com uma frase tão simples quanto: “Foi bom te ver.” O que é quase mentira.

Ou ainda: não sentir mais saudades de algumas pessoas, e entender isso ao ler pela segunda vez o livro de P., que sempre esteve diretamente associado àqueles meses de perdas gravíssimas. Estar diante de um dispositivo de memórias e de toda sua capacidade de me desestruturar, e perceber que agora essas reminiscências se depositaram em qualquer lugar seguro, ou ao menos distante o suficiente – naquela cadeira desconfortável, talvez. Faz pensar que não fui eu quem li o livro pela primeira vez, naquele escritório. Azul como as camisas de G., quando eu conseguia reparar nelas. E ao mesmo tempo: já li esse livro.

Então talvez os fatos sejam bastante distintos, e a repetição seja outra vez, finalmente, trocar de pele, e ter que lidar com as consequências dessa migração. Encaixotar certos acontecimentos, entender que talvez finalmente eu possa começar a escrevê-los, ainda que resulte em plágio. Porque a história é a mesma.


Amanhã vou à praia com P. O conto que fala de Hopper é meu preferido, vou dizer a ela. E aquele que começa na água, e que diz que “a violência é igual para todos, assim como as duchas, as cabines do vestiário onde nos trocamos, as poças mornas para lavar os pés antes de entrarmos na piscina, os armários em que guardamos as roupas”. 

O céu vai ficar rosa, como sempre fica nessa época, e vou fotografar o Dois Irmãos com raios de sol furando nuvens. A espuma do mar vai parecer um pouco mais brilhante nessa luz. Conversaremos sobre literatura, eu com receio de falar bobagens ou parecer idiota, P. com sua mansidão que se desfaz quando amarro um lenço na cabeça, ela que sofre de enxaqueca, o gesto que parece uma afronta. Nunca imaginei como seria bom me tornar amiga dela, como isso, de várias maneiras, validaria coisas tão grandiosas. 

Não saberei dizer nada mais edificante além de ter adorado seu livro, outra vez. Tentarei contar como foi diferente, mas talvez pareça bobo querer explicar tanto as leituras. O dia terminará com uma tapioca e um suco, e daremos boas risadas perguntando como César Aira resolveria as narrativas que não sabemos terminar.




sexta-feira, dezembro 30, 2016

clipping # 7


Alguns links para esse blog abandonado:

Em sua lista de boas leituras de 2016, Tatiana Salem Levy encontrou lugar pro meu Cravos. O texto com todas as dicas está na coluna quinzenal que a escritora mantém no suplemento de cultura do jornal Valor Econômico, e o link é este (com um cadastro rápido dá pra ler na íntegra).

Minha estreia na TV foi para o Canal Curta, no programa Revista Curta! que foi ao ar no Natal, 25 de dezembro. A edição é um capricho, agradecimentos especiais à Ana Paula Mansur, que conduziu a entrevista, e ao Toni Rodrigues, que fez uma espécie de assessoria de imprensa afetiva do livro, depois de tê-lo dançado lindamente com a Lu (ainda pretendo escrever sobre isso). Clique aqui, e ainda tem a cena que mais gosto de Pina, doc do Wim Wenders, aquela em que o casal dança no meio da cidade.

Deixei passar essa bela coluna do Fred Coelho para o Segundo Caderno do Globo. Em setembro ele discorreu sobre os pequenos salvamentos que a arte nos proporciona, e cita o Cravos como uma dessas bóias de salvação. Fui aluna do Fred e desde lá paro pra ouvir o que ele tem a dizer, por escrito ou em outros meios, e portanto deu uma alegria especial figurar nesse texto

E pra não parecer que só vivo de passado, comecei uma série nova de textos no espaço "Temporada", da Sala Grumo, a convite da Paloma Vidal, escritora de quem sou fã. Em janeiro deve sair a continuação (assim que eu terminar de escrever), por enquanto são quatro relatos que você lê aqui

E se tudo der certo, a partir de janeiro atualizo também o endereço do Ornitorrinco com alguma coisa nova, mas não prometo nada, afinal a praia tá ganhando de lavada de qualquer tentativa de ficar no ar condicionado trabalhando.

Feliz ano novo!




terça-feira, setembro 27, 2016

clipping # 6


Duas leituras generosas do Cravos:

No blog Letras In Verso e Re Verso, Pedro Fernandes faz uma leitura cuidadosa e bem reflexiva, e gosto, particularmente, da forma como ele vê a influência da “geração mimeógrafo” em cruzamento com as escritas de si em blogs e redes sociais (mas ele vai bem além disso). O link é este.

No Literasutra, a Adélia Jeveaux foca mais no aspecto da dança e de como escrever o que é o do corpo, e gostei muito da maneira que ela faz da resenha um espaço de confissão de sua própria saudade. Clique aqui para ler. 


sábado, setembro 10, 2016


Está enganado quem pensa que o aleijado não sabe nada das sanhas do corpo. Somos nós, os mancos, os malformados, os amputados, os obesos e minúsculos, os alérgicos, os hemofílicos, os hemiplégicos, para, tri e tetraplégicos, os anões, os albinos, os sempre-gripados, a legião inteira de indivíduos salvos da seleção natural pela compaixão humana, somos nós que entendemos a glória dos músculos e tendões, as minúcias da troca de calores. (Tantas vezes imaginei jogar bola, brigar de galo, tacar pedra em vidraça!) O corpo sadio que nos falta foi refeito tantas vezes em sonho que somos capazes de inventar um novo corpo, um corpo além, um corpo além de lindo, um corpo de Cristo, mas de pele tão firme que a coroa de espinhos não feriria e os pregos não conseguiriam perfurar. Imagina quão mais belo teria saído o Davi se Michelangelo não tivesse os braços. E a Vênus de Milo.

Victor Heringer em O amor dos homens avulsos (Cia das Letras, 2016)


sexta-feira, setembro 09, 2016

clipping # 5


A edição de setembro da Vogue Brasil indica, entre outros, o Cravos.  



quarta-feira, agosto 31, 2016

clipping # 4


Fabiane Pereira me entrevistou para sua coluna que trata de literatura, feminismo e política no site Heloisa Tolipan. À parte o terceiro tópico, conversamos sobre os outros itens e, principalmente, sobre o Cravos, aqui.


segunda-feira, agosto 22, 2016

clipping #3


Conversei com o Bolívar Torres sobre o Cravos para o “Segundo Caderno” d’O Globo. Ele fez uma ótima síntese do livro e de tudo o que trocamos, leia aqui




segunda-feira, agosto 01, 2016

clipping #2


O escritor Carlos Henrique Schroeder fez uma entrevista comigo para o blog do Record. Falo um pouco sobre os bastidores de Cravos, meu romance que começa a chegar às livrarias essa semana. Leia aqui


domingo, julho 24, 2016

clipping


O Bolívar Torres, jornalista e escritor, criou a seção “Abstrações” na revista Pessoa, uma série de entrevistas surreais e divertidíssimas com as perguntas que realmente importam. Respondi a nove delas essa semana, veja aqui



sexta-feira, julho 08, 2016

Sonho #2


Acordei com a impressão de ter passado a noite abraçada a M., e escrevi para ele imediatamente, antes mesmo de me levantar para ir ao banheiro. “Sonhou comigo?” “Como você sabe?” No sonho dele a gente jogava golfe, ou melhor, eu fazia tacadas sensacionais enquanto uma amiga se encarregava de pegar as bolas. No meu a gente se encontrava num apartamento enorme na praia de Copacabana, e se abraçava tanto que era quase como esses remédios que a gente toma pra esquecer. Ele respondeu com emojis de coração. Eu disse que depois de um tempo a namorada dele ficava meio brava, e ele disse que na vida real isso era improcedente. E combinamos, então, ficar um dia inteiro abraçados, pra ver se passa. 


segunda-feira, junho 20, 2016

Havia dias em que eu escrevia tanto a seu respeito que ele já não era muito real, de modo que, se de repente eu ficava face a face com ele numa rua, ele parecia mudado. Eu tinha conseguido drená-lo de sua substância, eu pensava, e preenchido meu caderno com aquilo, o que significava que em certo sentido eu o matara. Mas então, quando voltava para casa, a substância parecia estar nele mais um vez, onde quer que ele estivesse, porque o que agora estava vazio e sem vida era o que eu escrevera.


Lydia Davis, O fim da história (José Olympio, 2016, tradução de Julián Fuks)


quarta-feira, maio 18, 2016

Sonho #1

Recebo um convite com um mapa e um desenho de uma biblioteca, sigo os passos indicados e vou dar no mesmo cenário ilustrado pelo papel, percebo aos poucos pelos elementos: um relógio antigo, as almofadas aveludadas do sofá e uma estranha ausência de livros, exceto pelo seu, novo, um volume de contos, e é por isso que você está ali, numa biblioteca que aos poucos se revela o segundo andar de uma livraria no Centro da Cidade, eu sou a primeira a chegar, uma saudade que não posso medir, e dou de cara com você, bigode e cabelos louros que nunca vi, me abraça e me beija com uma saudade igual à minha, como se não tivesse havido hiato algum, ou ao contrário, como se tivéssemos ficado tempo demais tão longe, e imediatamente após me deixar sem fôlego cola um post-it sobre a minha boca, me pede pra te esperar ali embaixo e vai receber os amigos que já começam a chegar, leio um “te amo” escrito em caligrafia estranha, noto que você está mais alto, vejo de longe uma festa começar, você no meio, lançando pedidos de espera com os olhos, eu desço as escadas sem entender, você morava em outro país, e de repente acordo e percebo que, apesar dos esforços, ainda dói um bocado, me dou uns tapinhas nas costas e digo pra mim mesma “calma, vai passar, já passou”. 


sábado, maio 14, 2016

Desvios


Exercício, parte 1:
Trace um caminho pela sala e repita esse caminho em 8, 4, 2 e 1 tempo. Repita toda a sequência acrescentando movimentos com os braços. Repita uma terceira vez incluindo o tronco na movimentação. Na quarta vez feche os olhos, esqueça os tempos e faça o caminho o mais lentamente possível, continuando a movimentar braços e tronco.

Parte 2:
Quando a próxima música começar, ainda de olhos fechados, esqueça o caminho, explore outras direções e continue se movendo o mais lentamente que conseguir.

Parte 3:
Percebeu que você estava num estado de recolhimento, executando gestos que quase entravam em si, e quando pôde abandonar o caminho a sua postura mudou e tanta coisa começou a acontecer no seu corpo? 


quarta-feira, fevereiro 24, 2016

The blues

(Para Elisa)

"Once I travelled to the Tate in London to see the blue paintings of Yves Klein, who invented and patented his own shade of ultramarine, International Klein Blue (IKB), then painted canvases and objects with it throughout a period of his life dubbed ‘l’époque bleue’. Standing in front of these blue paintings, or propositions, at the Tate, feeling their blue radiate out so hotly that it seemed to be touching, perhaps even hurting my eyeballs, I wrote but one phrase in my notebook: too much. I had come all this way, and I could barely look. Perhaps I had inadvertently brushed up against the Buddhist axiom , that enlightenment is the ultimate disappointment. ‘From the mountain you see the mountain’, wrote Emerson."
Maggie Nelson, Bluets (Wave Books, 2009)

Os primeiros grifos da minha edição de Estação Atocha, do Ben Lerner, estão nas páginas 10 e 11, no trecho em que o narrador fala sobre os guardas de museus e o fato de os mesmos passarem boa parte de suas vidas diante de quadros eternos, ao passo em que o público só se dirige a eles para perguntar pelos banheiros e pelo horário de encerramento dos museus. 10:04, o meu segundo Ben Lerner, chegou no fundo de uma caixa da Amazon, debaixo de dois livros da Maggie Nelson. Dele, até agora, só sei que tem alguma relação com o De volta para o futuro – o exato horário em que um raio atingiu a torre do relógio, permitindo a Marty McFly voltar a 1985 no primeiro filme da triologia – e que traz na quarta-capa da edição americana um elogio de Maggie Nelson.

Outra caixa da Amazon, recebida no mesmo dia da primeira, continha, por sua vez, 6 livros da Cosac, porque resolvi estocar e presentear amigos com alguns livros que amo e que logo não poderemos mais comprar. Nove livros numa terça-feira em que que abri espaço nas estantes, encontrando, por isso, Uma idéia toda azul, com acento mesmo, livro da Marina Colasanti com a etiqueta da Malasartes na folha de rosto, um dos poucos que guardei da infância. Não tenho nenhuma recordação da história, mas numa folheada encontrei fadas e Kublai Kahn, o que me fez pensar que talvez seja um Calvino disfarçado.

Resolvi começar por Bluets, um ensaio da Maggie Nelson que trata de tudo o que é azul, principalmente a saudade. Abri o livro enquanto aguardava uma sessão de cinema, grifei uma frase na página 5 e por coincidência encontrei uma amiga que também estava ali sozinha para o mesmo horário.

A garota dinamarquesa é um filme azul acinzentado, sobretudo quando Eddie Redmayne e Alicia Vikander estão em Copenhague. As paredes do apartamento dos protagonistas são azuis, muitos dos figurinos de ambos são azuis – você e eu cometeríamos crimes por algumas das peças usadas por Gerda – e a complexidade da questão central é da mesma cor, em uma de suas muitas tonalidades. As cenas parecem pinturas, daquelas que nos fazem desafiar os guardiães da ordem dos museus, o impulso é tocá-las para ver o que há por trás das tintas.

Sonhei com nosso antigo trabalho, o que tem acontecido religiosamente de duas a três vezes por semana, e nessas ocasiões acordo e vou pedalando para a yoga, quase sempre com roupas verdes, simbólico, talvez. E ao chegar no trabalho novo esbarrei com uma reportagem sobre as civilizações antigas que não reconheciam a cor azul. Não li, ficou guardada para depois, Maggie Nelson foi mais urgente. Hesitei, mas acabei colando na parede do novo escritório o velho postal de uma pintura azul do Yves Klein que habitava aquela nossa baia também azul, mesmo que fosse too much.

Terminei o livro enquanto assava batatas. Quis plagiá-lo. E pensei que escrever é sempre uma tentativa fracassada de plagiar o que vai nas nossas cabeças e peles, ainda que, quando os outros o fazem, não pareça nada disso. Parece apenas que pode dar certo, de algum jeito.

Pensei numa conversa que tivemos há pouco tempo, quando o Tico falou que gostava de McDonald’s e do De volta para o futuro quando está triste. Acho que é nessa lembrança que esse texto talvez faça algum sentido.

A playlist mais óbvia começaria com “Almost blue” ou "Space Oddity" ("Planet Earth is blue and there's nothing I can do"), mas acabei me lembrando de “Um bilhetinho todo azul”, música do Cazuza, que termina com os versos “Ver o amor feito um abraço curto /Pra não sufocar”. 



domingo, novembro 29, 2015

Diário de Lisboa - parte 2


Está lá, finalmente, na página 295 da poesia completa da Alejandra Pizarnik, numa edição bonita que estava juntando poeira há tempos na mesinha, o verso que Alexandra Lucas Coelho citava na página 123 de um romance, ou ainda cita, citará toda vez: “Alguna vez, tal vez, encontraremos refugio en la realidade verdadeira. Entretanto ¿puedo decir hasta qué punto estoy en contra?” Foi como encontrar um tesouro. Há um ou dois dias Raduan Nassar completou 80 anos e, claro, folheei os 3 volumes dele, coisas como “suas mãos eram inesgotáveis” sublinhadas, justo no dia em que decidi terminar de escrever o meu próprio livro, que fala de mãos inesgotáveis. Parecem sinais, não sei bem de quê, L. usou essa frase uma ou duas vezes durante a curta vida que tivemos juntos, quando descobriu no meu corpo algumas medidas que tinham o exato tamanho de suas mãos (inesgotáveis, evidentemente), ou quando nos cruzamos em Botafogo sem combinar, já achando (ou tentando achar) que não nos veríamos mais.

Carol é da opinião de que o aniversário é dele mas o presente deveria ser nosso, um lançamento de um livro que já ninguém mais especula que exista, ou que já ninguém mais julgue necessário depois do que ele já escreveu. Tem uma beleza aí, Raduan em sua fazenda enquanto todos nós tentamos desesperadamente alguma reclusão que dê conta de nossos manuscritos. Eu poderia pegar um avião e me instalar numa praia por dias até que resolvesse isso, mas tenho tido inércia até pra comprar pão. De tempos em tempos, portanto (de horas em horas, mais precisamente), arrumo a bagunça do sofá, ponho pra fora os jornais acumulados e passo o olho pelo arquivo que leva o nome de Cravos_nov2015, com a desconfiança de que ainda tem um buraco ali, com a suspeita de que eu talvez já não saiba mais como preencher porque já misturei todas as histórias possíveis, com a certeza de que nunca o darei por encerrado. Na prática, às vezes, alguma teoria literária afinal faz sentido. Mas eu diria que é mais angústia do que qualquer outra coisa, esse medo que é ter de fazer essa coisa totalmente sozinha, mesmo que as estantes estejam já abauladas de tantos livros.

Pouco antes de encontrar os versos da Pizarnik, deparei com estes também dela: “Sí, lo malo de la vida es que no es lo que creemos pero tampoco lo contrario.”

Fiz o terceiro chá do dia e fiquei aqui pensando numa música que ouvi essa tarde num aniversário de criança e que diz: “Caranguejo não é peixe / caranguejo peixe é / caranguejo só é peixe na enchente da maré”. É bom que o autor explique a confusão, mas tá na cara que seguimos produzindo adultos confusos, ou que, ao menos, em algum ponto desses dias chuvosos, precisem de comprovação científica de alguns fatos. Ou poética. 



quarta-feira, novembro 18, 2015

Diário de Lisboa - parte 1


Se acabó la bossa nova
y empezamos a correr el dial.
Los pájaros hambrientos
que estuvieron viajando durante la noche
ahora picotean los techos de nuestros autos. 
Las calles están cortadas, no hay comida
y ya nadie cree
que podamos organizar el próximo Mundial. 

Fabián Casas


Minha mãe sempre conta de quando o Collor confiscou o dinheiro de todo mundo: ela e os amigos que moravam perto de nós passavam o dia todo na praia sem saber o que fazer, tomando sorvete Itália, que era raro de passar naquela época, ao contrário do Dragão Chinês e da Maria Thereza Weiss. Acho que ainda não tinha ciclovia na Barra, quando começaram a substituir os trailers por quiosques padronizados foi super esquisito. Talvez ainda tivesse o caminhão do Churros Del Uruguay estacionado na Praça do Ó, em frente ao Via 11. Eu fazia jazz na esquina de casa e ainda não sofria do quadril, e tudo o mais sobre aquela época já foi contado em crônicas hilárias do Antonio Prata: as pessoas fumavam em restaurantes, ninguém usava cinto de segurança e os pais alertavam suas crianças pra não chegarem muito perto das janelas, que não tinham redes de proteção. Quem queria ser louro acreditava no xampu de camomila, todo mundo usava aquele Sundown gordurento no rosto e a gente entulhava gente em carros no rodízio para a escola. Eu marcava cinema com a Marcelle e a gente se encontrava no meio do caminho, no Barrinha verde. Ou não, posso estar confundindo tudo.

O caso é que ontem Carol me falou que o Jagged Little Pill, da Alanis Morissette, fez 20 anos e eu não podia crer que tinha só 13 e cantava “You oughta know” com sentimento. Eu assistia muito MTV, amava os clipes do Foo Fighters e dos Paralamas do Sucesso e pensava em ser diretora de arte, ainda que não soubesse que essa profissão existia. Meu quarto era uma bagunça sem nenhuma referência artística decente e cheio de pôsteres do Kurt Cobain, o que já dava provas de uma vocação nula para a coisa. Eu gostava das colunas de um Marcelo Pires na Capricho e colecionava páginas dela, que se chamava “PS do PS do PS”. Numa delas ele citava uns poemas da Martha Medeiros, e parte da minha adolescência foi feita de leituras dos livros dela. Hoje torço o nariz, e imagino o que terá acontecido ao Marcelo Pires e àquela minha pasta de recortes. Em 2015 eu continuo amando aquela caixa de leite otimista do clipe do Blur e por alguma razão toda vez que escuto “Tender”, da mesma banda, imagino a caixinha fazendo um lip synch simpático. Há pouco tempo ouvi uma música do Gorillaz que dancei muito em festas, ou acho que dancei muito em festas. Há uns meses coloquei “Changes”, do Tupac, pra tocar numa festa. A reação foi menos entusiasmada do que eu esperava. Há uns dias coloquei Alice in Chains no iTunes, Laney Stanley eternamente soará para mim como um gato miando, eternamente amarei o verso final de “Would”. Eu sabia tocar (mal) “Come as you are” no violão, hoje tenho parte da letra escrita na parede de casa, junto a poemas contemporâneos que falam de dinossauros, boleros, danças. Ainda guardo, também, uma camiseta do Nirvana que ainda me cabe. Uso pra dormir. Às vezes.

3 outros amigos foram demitidos, já não sabemos mais se é melhor acreditar no Rumos do Itaú Cultural, na Mega Sena ou numa casa coletiva em Mauá. Os remédios pra dormir, há relatos, também estão falhando com todos, parece que só sexo mesmo. "Voltamos a viver como há 10 anos atrás" (sic), a conta de luz aumentou outra vez, eu ainda acho que quebrei o pé, apesar do raio-x que me desmente, e torço pra que pelo menos um edema apareça na ressonância, porque alguma coisa precisa fazer sentido nesse novembro em que tenho que checar se os amigos foram atingidos por ataques terroristas.

Em 1996 o ingresso do show da Alanis Morissette no Metropolitan custou R$ 25,00, a Carol estava lá também, mas ainda não sonhávamos em nos conhecer. Imagina? Uma leve bateção de cabelos virgens de Minoxydil e/ou tonalizante. Não me lembro quem estava comigo, mas tenho vivos na memória os gestos característicos da Alanis, achava o máximo ela cantar “I’m broke but I’m happy”, achava meio romântico, sei lá. Carol identificava Alanis ao feminismo, embora ainda não se falasse de empoderamento e ainda não se usasse frases de “Águas de março” no Facebook toda vez que chove em março. Não que uma coisa tenha a ver com a outra, mas você sabe.

Hoje meu sobrinho faz 5 anos. Corremos pelo shopping e caí no chão com ele. Um dia antes, marquei meu primeiro peeling na dermatologista. Idade é um troço relativo mesmo, veja só, em um momento a gente luta com o moleque em espaço público, no outro passa ácido na cara pra dormir em guerra contra as sardas. Hoje deu praia, um sujeito esquisito me pediu opinião para escolher um par de óculos do vendedor ambulante no posto 12, eu fingi que não entendi e aumentei o volume dos fones, tão óbvio, “I’m lost but I’m hopeful, baby”, como é que vou opinar nos óculos alheios, não estou esperançosa, certamente bem desnorteada, isso parece aquele conto do Caio Fernando Abreu em que eles cantam Angela Ro Ro até altas horas? Ele veio uma década à frente pra mim, melhor não misturar as estações, e na real nem sei porque te escrevo isso tudo, talvez pra concluir que tem mais coisa não perecível no mundo além do Caetano.