quarta-feira, abril 29, 2015


Meu míni livro, Diário de Moscou, está à venda no site da Editora 7Letras, aqui.


quinta-feira, abril 16, 2015

25 de junho Michael Jackson
e apenas posso dizer morreu uma vez mais
como só ele pôde e ainda por cima
como quase todos, continuará
morrendo por datas seguintes.
30 de junho Pina Bausch e dela
eu sempre soube pouco a não ser que
também dançava mas sem levar em conta
a dança. Como Pina Bausch em suas viagens
integrava ao seu grupo dançarinos locais
um dia conheci uma moça tão bonita que
dançara com ela. Nossa despedida foi ao telefone
e a linha abaixo a última coisa que ela me disse
tenho que ir, o feijão está no fogo.
2 de julho Rodrigo de Souza Leão
sobre o qual para efeito de luto digo
o que disse também ao fim de um verso
o grande poeta espanhol Pere Gimferrer
digo-o, é claro, sem o mesmo brilho e inflexão
qué triste es todo esto.

Leonardo Gandolfi, Kansas 

quarta-feira, abril 15, 2015

Míni


O meu pequenino Diário de Moscou foi lançado na segunda-feira, 13 de abril, ao lado dos livrinhos do Pedro Rocha, Luca Argel, Victor Heringer, Leonardo Gandolfi e Thiago Pichi, pelo selo Megamíni, da Editora 7Letras. Obrigada demais à Isadora e ao Jorge, que me convidaram para integrar a coleção. 


Os meus mínis esgotaram, mas uma nova reimpressão já está a caminho da livraria da 7Letras - só tem lá (Rua Visconde de Pirajá, 580/3o andar). Ou fale comigo! 


segunda-feira, abril 06, 2015


Segunda-feira, 13 de abril, lanço um mini livro ao lado de todos esses rapazes. 

terça-feira, março 31, 2015

A última baguete do Garcia & Rodrigues

1.      Éramos 3 pra uma canga numa tarde meio nublada porque Fernando não havia pagado a conta de luz. Numa Ipanema pré-Smartphone, passamos o dia na praia comendo os iogurtes que estragariam porque Fernando estava atraído pela ideia de viver um tempo sem eletricidade. Marcelo e eu pensávamos na parte prática e o que mais nos preocupava eram possíveis topadas – dedões, joelhos, testa – nos móveis, o sangue seco que ficaria no lençol, porque a luz da vela não seria suficiente para uma assepsia adequada. Camisas amassadas, um relógio antigo de parede que com o passar dos dias transformaria os gestos de Fernando em movimentos pendulares, ceras de vela que esculpiriam candelabros meio sinistros. Não conseguimos chegar a um final: nossa narrativa ia ficando cada vez mais suja e amarrotada, Fernando tornava-se um ser esquisito e anacrônico e a única saída possível para aquilo tudo era alguém, finalmente, regularizar a situação junto à Light. Anos depois Marcelo me telefonaria com uma proposta: “vamos ter um roteiro juntos?” Mas já tínhamos, só não estávamos muito seguros de nosso amor por ele.

2.     A melhor baguete do bairro era aquela da padaria que ficava na esquina, diziam, isso antes das obras que deixaram o cenário com cara de filme de zumbi. Quando anunciaram que o lugar viraria uma churrascaria houve até protesto; talvez se soubessem que de fato aquilo viraria mais uma Americanas tivesse havido quebra-quebra e vândalos. As filas daquela última tarde de funcionamento davam a impressão de que o negócio poderia se sustentar por meses só com aquelas vendas e o clima, contam, era de desolação e declarações de amor ao fatiador de frios, ao garçom e a quem mais trabalhasse no estabelecimento. Lucas ficou para o gran finale e saiu de lá carregando a última baguete do Garcia & Rodrigues. Passei dias fazendo a cabeça dele para vende-la no Mercado Livre. Mas o pão estava congelado aguardando uma ocasião especial para ser comido. Por alguma razão – possivelmente a mesma do Fernando – Lucas ficou sem energia uns dias, e ainda que tentasse desesperadamente se reconectar com a luz o impensável aconteceu: a burocracia deixou a última baguete do Garcia & Rodrigues intragável e passamos uma tarde no Talho comendo empadinhas para esquecer.

3.     “Teve torcida gritando quando a luz voltou”, diz aquela música da Legião Urbana, e teve mesmo. Lá em casa falta luz toda semana, parece que vivemos numa propriedade rural do começo do século XX. Ou parece que vivemos no Rio de Janeiro do século XXI, já não sei mais. “Você sabe que o fogão funciona mesmo quando acaba a luz, não é?”, dizia a última mensagem que consegui ler – porque o sinal de telefone também some nesses dias escuros – depois de dizer melancolicamente a uma amiga que eu estava jantando as duas gelatinas que estavam na geladeira. “Eu sei”, escrevi, “mas se com tudo funcionando já produzo refeições desastrosas, imagina assim”, mas o desabafo ficou pra sempre preso no whatsapp. Eu tinha acabado de chegar do balé e tinha lido uma matéria sobre o músculo psoas, que em certas culturas é considerado o “músculo da alma”. A minha, a julgar pelo psoas, não parecia que voltaria a funcionar antes que a conta de luz chegasse. Resolvi, portanto, fazer 3 ou 4 alongamentos pra ver se alguma coisa melhorava.

4.     Fiz uma lista mental de tudo o que se pode fazer em noites assim, e pensando no meu psoas avacalhado e em tudo o que isso acarreta, fui prática e excluí utopias como sexo, drogas ou gato mia: escrever uma carta para Isabel, tomar banho, iluminar o globo de espelhos com a lanterna até minha sala parecer uma discoteca em fim de festa, ouvir música até acabar a bateria do computador. A luz voltou depois que eu já estava havia uns 15 minutos abraçada à bola de pilates. Fiz um estrogonofe. Ficou uma bosta.




quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Carnaval


“I think I might be a terrible person.”
For a split second I believed him – I thought he was about to confess a crime, maybe a murder. Then I realized that we all think we might be terrible people. But we only reveal this before we ask someone to love us. It is a kind of undressing.
Miranda July, The first bad man

(...) o grupo era diverso como a humanidade, e a humanidade, como se sabe, é uma soma de debilidades.
Roberto Bolaño, Os detetives selvagens



quarta-feira, janeiro 21, 2015

As coisas são mais fáceis na televisão


Foi numa dessas tardes de trabalho em que, entre uma leitura e outra, alguém diz que a Coca-Cola mexicana é a melhor do mundo. Fiquei incrédula, duvidando que a industrialização seja capaz de tais nuances: Toddy tem sempre gosto de Toddy, requeijão dificilmente fica melhor ou pior e todas as coisas que não dependem de safra ou de mim, em geral, são sinônimo de alegria. Ainda assim, resolvi conferir e foi batata: igualzinha, deliciosa, Coca-Cola com gosto de Coca-Cola.

A minha vida culinária tem sido feita de pequenos desastres. Receitas que sigo ao pé da letra e dão errado, carnes que ficam com sabor de nada e eventuais acidentes em que quebro sem querer um pote de mostarda em grãos no chão da cozinha, que é integrada com a sala, e então é domingo no verão e eu tento varrer os grãozinhos que se chocam uns contra os outros indo parar no lavabo, sob a máquina de lavar e eventualmente no quarto, como num jogo de bilhar em que o único vencedor é esse mundo tão cruel que te faz suar uns 3 quilos em meia hora. Nem o chuveiro é aliado porque a água está quente, mesmo que você gire a torneira fria ensandecidamente. 

Achei que com a chegada da páprica e das folhas de louro à minha prateleira algumas coisas se resolveriam, ao menos foi isso que me venderam. Que nada. Minhas refeições seguem insípidas, inodoras e quase insuportáveis. Toda vez que alguma coisa dá errada no meu fogão, portanto, abro uma Coca-Cola, carioca e gelada pela minha Brastemp que às vezes arruína as gelatinas, que viram uma mistura daquele vermelho envenenado com gelo. Tenho economizado os biscoitos Maria mexicanos para esses momentos em que tudo parece perdido, esses sim bastante superiores aos brasileiros.

Toda vez também que a gelatina se inviabiliza eu tento instalar minha impressora. É uma busca meio ilógica por algum sucesso doméstico, visto que impressoras foram feitas para vencer o homem, por mais que você se esforce. Na tentativa de descobrir algum talento para me virar comigo mesma, pego em armas e tento prender na parede a prateleira para abrigar todos os potinhos de temperos que nunca garantirão a satisfação gastronômica. Tenho até mentido para os amigos que me passam receitas “essa é mole, não tem o que errar”. É claro que tem, até a tapioca se quebra quando a transfiro da frigideira para o prato. A minha vida culinária, em resumo, se parece com a minha vida amorosa: uso perfume Chanel antes de refogar qualquer coisa, ponho a culpa na panela, vou dormir com fome e concluo que aquela música do Kid Abelha, afinal, serve para tudo, inclusive para aquela crase que você deixou passar no livro que estava preparando.

Somado a isso tenho agora 4 buracos na parede, duas prateleiras que jamais ficarão suspensas como deveriam e uma encomenda da Domino’s, que sempre terá aquele gosto (ruim) de Domino’s. É esse o meu consolo: a constância e a segurança desse tipo de comida, a certeza de que algumas coisas nunca frustram as expectativas e não sacaneiam a autoestima de ninguém.

É claro, sempre haverá um técnico credenciado para resolver as pendengas tecnológicas, assim como sempre haverá Edilson, o faz-tudo que usa cardigan, que combina um horário e aparece e faz parecer que algumas coisas podem funcionar. Pessoas Coca-Cola. Felicidade garantida. 


quinta-feira, janeiro 01, 2015

Cielito lindo


Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos,
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal.

Fabián Casas 


É dezembro e todos estão em praias paradisíacas, inclusive eu: o mar é tão turquesa que parece falso e brilha em certos trechos. Evitamos todas as ruínas maias, deitamos em redes de hotéis onde queremos nos hospedar no próximo verão, comemos peixe ao pôr do sol e caminhamos em direção ao carro com as ondas que chegam fresquinhas em nossos pés. Um barquinho cheio de pelicanos está ancorado no meio de uma tarde e logo mais navegamos com um marinheiro chamado Jesus, o segundo em 2 dias. A internet é precária nessa parte do México e falar de férias e das coisas de deus é tão complicado quanto encontrar cartões postais por aqui. E além disso, o que dizer? “Queria que você estivesse aqui para boiar comigo.” “Saudades.” “Te amo.” “Feliz ano novo.” Não seria mentira, mas quando se está de férias tudo é só mais ou menos verdade.

Come-se gafanhotos em Oaxaca, e também um sal feito de um verme (minhoca? lesma?) com o qual se deve temperar rodelas de laranja para degustar depois de uma dose de Mezcal: 40% de álcool feito de agave, passaporte para confissões e a solução para o Carnaval no Rio. O Lindt é melhor que qualquer chocolate feito por aqui, e sentimos saudades de Nescau. Faltam 43 estudantes no México e nem toda a cor das casas coloniais meio decadentes desvia a atenção das paredes que reivindicam a vida deles, nem todo o alvoroço das piñatas de papel maché impede as manifestações discretas pelas ruazinhas antigas. Cartazes espalhados por todos os cantos anunciam a noite de rabanetes, fogos e foguetes celebram a festa da Virgem, para a qual chegamos atrasados, depois de passar por inúmeras barraquinhas comandadas por zapotecas que vendem todo tipo de artigo religioso cristão. Uma mistura de trajes e longas tranças típicas com cheiro de gordura e cruzes católicas, uma população indígena que come pelas ruas o dia todo. Não se pode nem mesmo chegar perto da entrada da basílica, mal se veem os estandartes que desfilaram pela cidade minutos antes, uma multidão ocupa todo o espaço. Na praça ao lado um grupo de adolescentes ensaia uma dança. 2 dias depois, no jardim etnobotânico, uma dupla ensaia um pas de deux contemporâneo em meio a cactos. “No Brasil as coisas estão na pele, na superfície. No México é tudo na carne.”, diz a mensagem que chega enquanto tentamos entender essa confusão. Pode ser. E ao mesmo tempo, de alguma forma, aqui tudo é mais evidente. “Fue el estado”, dizem as letras apressadas. Desde há muito.

Voamos para o Distrito Federal com as malas mais pesadas. Troco qualquer marca de luxo pelos bordados de Yalalag. Deixo Oaxaca com febre e com uma coleção de vestidos: “Este é o seu traje de boda”, diz a vendedora maravilhosa de uma loja idem que passaria por inverossímil num filme de Almodóvar. Pelo pequeno labirinto do estabelecimento de paredes roxas um sofá está posicionado na entrada, recostada nele uma figura platinada de unhas brancas tão grandes quanto artificiais está descalça e tudo à sua volta está coberto por farelo de pão. Em meio aos trajes há um pequeno altar de flores no chão, uma panela elétrica que guarda um peixe para mais tarde, manequins quebrados, aparelhos de esteira, máquinas de costura, capacetes de bicicletas, bicicletas, jornais velhos, sacos plásticos entulhados de coisas e fotografias, muitas fotografias enquadradas das 3 mulheres que tentam me convencer a levar também uma saia. Jovens, pelo mundo, a cores e em preto e branco. Um dia, talvez, queria ter um lugar fascinante assim, mas com menos sujeira.

Planejamos decorar nossas casas com cactos na volta.

DF é difícil e o Tylenol não resolve nada. Funciono em dias alternados, consigo fazer o roteiro Frida e Diego e desisto definitivamente dos postais. O Zócalo nos deixa a todos mareados, os tacos já não parecem tão atraentes e o Buscopan mexicano é placebo. Entre pavões, mariachis, caveiras e uma quantidade descomunal de gente sinto uma quantidade descomunal de dor. Não tem nada a ver com as nossas impressões do país, mas sim com os dinossauros. Dr. Javier, o médico mexicano, dá soquinhos nas solas dos meus pés e garante que não é apendicite. O ideal seria voltar para a praia ou para o topo daquela montanha de piscinas naturais, aproveitar os últimos dias de idílio azul e água. A gente faz casas mesmo em viagens, e o ideal seria voltar para elas.

O ideal seria que os começos de ano fossem de fato começos, e não continuações mal remendadas de pendências, problemas gástricos e sangramentos indomáveis. O ideal seria que as paixões infundadas fossem como as férias, meio clandestinas para o resto do mundo e com data para terminar. A gente é que nem o México, parece. As coisas do mundo nos perfuram, não ficam mansas na pele, não. Espero a aspirina no calor inclemente do Rio: é uma liberdade ter cortinas em casa e 5 quilos para engordar. 



terça-feira, novembro 18, 2014

Bilhetinho para M.P.

Toda vez que novembro chega eu acho que a progressão do cansaço está diretamente ligada com o passar dos meses, como se o calendário, afinal, fizesse algum sentido cumulativo sobre a minha disposição, quiçá da humanidade. Não deveria ser: o meu ano novo em 2013, por exemplo, foi ali entre setembro e outubro, ainda que tenhamos estourado fogos e quebrado taças no Reveillon.

Estou tão gasta que fiquei até cafona, simplesmente não tenho capacidade de abrir o armário e entender o que se pode combinar com o quê. Eu percebo nessas coisas: todo arroz gruda na panela, faço suco com os ingredientes que encontro, mesmo que fiquem pela metade, deixo o mesmo disco no repeat, desisto de brigar com e/ou de me render a ele e fico nesse limbo em que nada acontece. Nenhum beijo, nenhuma ruptura dramática, uma sucessão de ponderações, análises, dúvidas, livros que nunca serão publicados e quando me dou conta perdi as chaves da casa de M. Parece aquele filme em que todas as manhãs o sujeito acorda no mesmo dia, um em que alguém fatalmente ficará sem chaves, sem saco e sem saber. É claro, o chaveiro estava numa outra bolsa, mas por um momento pensei que havia alguma espécie de maldição.

Você sabe diferenciar cisma de paixão? Ou é a mesma coisa? Hoje vi num site de listas um par de brincos redondos com a cara da Sylvia Plath estampada e é claro que pensei em você e gargalhei. Hoje vi, também, um farol onde as pessoas podem se hospedar, e agora me pergunto por que nunca pensamos nisso antes. 

Talvez seja bom sair de férias em dezembro, ter a perspectiva ilusória de que janeiro será janeiro e que alguma coisa, como naquela primavera, vai mudar. Ainda que tudo acabe voltando.


Por favor, não se tranque pra fora de casa. Mas caso o faça, me chame pra esperar o chaveiro com você. Ele pode querer esquartejar duas pessoas. 


quarta-feira, novembro 12, 2014

Panorama - dias 2 e 3

Um a um, seguindo as instruções da mulher sentada na mesa de som à direita do palco, os atores do teatro Hora adentram a cena, se posicionam no centro e encaram a plateia por cerca de um minuto – um ou outro se vira e dispara em direção à coxia em questão de segundos. Outra vez, e ainda individualmente, os mesmos atores voltam ao palco para dizerem seus nomes, idades, profissões e deficiências. A maioria dos atores da companhia suíça têm síndrome de down e reencenam em Disabled theater a relação que estabeleceram com o anticoreógrafo francês Jérôme Bel, também chamado por críticos e especialistas de um “provocador” da dança.
As instruções seguintes, então, determinavam que os atores escolhessem uma música e executassem uma coreografia. Bel escolheria as melhores para compor a performance. Todos os atores permanecem no palco, sentados em cadeiras em semicírculo, enquanto os eleitos dançam.

A trilha vai de Charleston a Michael Jackson. “They don’t really care about us” é dançada ipsis literis por Julia Häusermann, que até o momento de seu solo tentava chamar a atenção do rapaz sentado a seu lado, o mesmo que tem um certo grau de autismo. Julia se joga languidamente no colo do garoto, depois de demonstrar uma energia pélvica de dar inveja, arrancando ainda mais aplausos. Os atores também se agitam nas cadeiras em movimentos ora sincronizados, ora espontâneos, marcando batidas ou frases das canções escolhidas com os pés ou erguendo braços e punhos, às vezes cantando trechos.

Em seguida, os atores voltam ao centro do palco para dizerem o que acham da performance e do trabalho com Bel. Um deles reclama que queria dançar também, expondo sua mágoa com o diretor, que acaba cedendo aos apelos e dá mais tempo para a execução das coreografias que haviam sido deixadas de lado. Julia aproveita o momento para reclamar que queria mesmo dançar ao som de Justin Bieber, ao que é atendida. Ela canta “Baby” com emoção: é a grande estrela da noite. Saímos do (xexelento) Carlos Gomes encantados por ela.

Por fim, eles agradecem com a vênia habitual, o público delira e eu não sei o que fazer. Fico atenta aos comentários da plateia à saída do teatro, converso com um casal de amigos que também estava lá, leio mil críticas e mando os links para eles, porque teremos tempo suficiente do Centro à Cidade das Artes, no dia seguinte, para debater tudo o que for pertinente. A única coisa que concluo é que morro de preguiça, e então para mudar de assunto conto para eles que uma vez, há uns anos, denunciei um foco de mosquito que havia no lobby do teatro. Era o auge da dengue e havia uma espécie de disque-denúncia de focos de mosquitos, o que provavelmente ainda existe, e você podia acompanhar o desenrolar das ações municipais.

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A Cidade das Artes é quase tão desoladora, numa outra esfera, quanto o Carlos Gomes, e nunca sei se as obras estão prontas ou se ainda faltam coisas – grama, acabamentos e afins – mas também nunca sei se a Travessa de Botafogo está completamente concluída.


Drumming é uma coreografia de 1998 do Rosas, a companhia belga de Anne Theresa de Keersmaeker. Com música de Steve Reich e figurinos de Dries van Noten. Drumming é exaustiva, composta de uma sequência de movimentos e gestos espiralados, e te coloca num transe, parte por causa da música, parte por causa da dança. Uns acham datado, outros saem da grande sala reproduzindo braços e pernas aqui e ali e eu não sei o que fazer, mas por outra razão. Drumming, para mim, é até meio simples: gente dançando num patamar de excelência bonito de se ver. É mais ou menos o que eu quero, sempre. 


domingo, novembro 02, 2014

Panorama - dia 1


"You were born naked and the rest is drag."
Ru Paul 

Trajal Harrell está na porta do Teatro Café Pequeno cumprimentando cada um que chega para assistir seu número. Ele é um negro americano baixinho com olhos que ocupam quase todo o seu corpo e que imagina o que teria acontecido se alguém da tradição Vogue tivesse encontrado os bailarinos pós-modernos da Judson Church em 1962, em NY. Por acaso eu mais ou menos sei um pouco das duas coisas, e o que me leva até ali numa tarde quente de 2012 é justamente a expectativa de ver uma possibilidade desse encontro impossível. Poucas pessoas têm a mesma curiosidade que eu e quando fica evidente que ninguém mais vai aparecer ele nos convoca a sentarmo-nos em círculo no chão, explica sua ideia e nos distribui textos em uma espécie de apostila. Ele nos avisa que treme em função da intensidade dessa performance e da proximidade com o público. E numa quase escuridão nos entrega a versão XS de seu “20 looks or Paris is burning at the Judson Church”.

Dois anos depois entro num taxi com um casal de amigos e comento que sim, sei mais ou menos do que se trata o espetáculo para o qual nos encaminhamos num novembro não menos inclemente. Pouco depois o mesmo Trajal, com seus olhos engolidores, mas agora de cabeça raspada, está na entrada do acesso à plateia do Teatro Municipal, e logo no palco, microfone em punho, contando para todos nós que a versão L de “20 looks or Paris is burning at the Judson Church” não tem qualquer intenção de recriação histórica, mas que se trata de uma hipótese imaginativa que só pode acontecer hoje e agora, conosco. É bom se sentir especial, mesmo que.

Trajal treme. Seu espetáculo pode variar de tamanho e duração dependendo das condições e locais de apresentação. O que nos espera é uma versão que ainda mistura Antígona em cerca de duas horas que ele nos garante que passarão mais rápido do que possamos perceber. Um de seus bailarinos entoa, à capella, o hino da casa deles: “Hit me baby one more time”, da Britney Spears, arranca risadas. A minha solidão também está me matando.

Bailarinos vestidos discretamente de preto e branco dançam músicas pop alternadamente, iluminados por um foco de luz sobre um quadrado branco e já desconfio de que passarei o domingo todo ouvindo repetidamente uma canção da Tori Amos que é quase uma intimação para se jogar. Além de Trajal, são mais 4 em cena, e todos são um acontecimento, especialmente aquele que, calçando saltos vertiginosos e exibindo um peito de pé inverossímil, encarnará o apresentador do desfile de príncipes, sem se dar por satisfeito. O desfile das “mães” vem logo em seguida, e é um pouco mais alentador assistir a tudo isso se você tiver visto Paris is burning, o documentário de Jennie Levingston que retrata os bailes do Harlem dos anos 80, movimento de um submundo gay e transgênero em que a dança Vogue surgiu, em alusão à revista de mesmo nome. O clipe da Madonna ajuda a entender um pedacinho, mas tudo vai muito além, inclusive a performance de Trajal.

À parte qualquer didatismo ou escola de dança envolvidos nesse encontro imaginário, o show de Trajal é louco, divertido, interminável e lá pelas tantas faz pensar que uma versão tamanho M poderia ser melhor. Confesso que a poucos minutos do final abandonei o barco, otimista com a perspectiva de fazer xixi sem fila e divertida com a mensagem de uma amiga que me perguntava “você também está neste suplício travecoso?” – e que, depois que furei o jantar, me desejaria mais 5 horas de “travestis convulsionantes”. Realmente, que canseira. Realmente, que liberdade, e eu que achava que ter cortinas em casa te dava aval para qualquer coisa.

Entre narrações, músicas cantadas pelo próprio coreógrafo, jograis insanos (“Se fossem alunos da CAL num teatro obscuro a gente ia achar uma merda, Julia!”, disse alguém no caminho de volta, e eu ri), fios que se estenderam das mãos de Trajal até os fundos da plateia do teatro por sobre nossas cabeças graças ao bailarino francês pulando de cadeira em cadeira, mitologia, questões de gênero, sexualidade e recortes culturais de coisas que amaria ter visto ao vivo o que sobressai é um mundo tão de Trajal que muitas coisas soam como piada interna. Mas todo mundo se contorce quando ele afirma que deveríamos reivindicar uma Uniqlo à Dilma.

Deveríamos ter tirado fotos do grupo de drag queens que causou furor no Teatro, possivelmente deveríamos ter nos entregado mais quando Trajal conclamou uma festa em todos os setores do teatro e parte do público, resistente, levantou, dançou, gritou, aplaudiu enquanto outra parte se sentiu obrigada a, na expectativa de que aquilo fosse o encerramento tão aguardado.Outros já tinham ido embora há tempos.

Deve ser anarquia. E depois de revirar os olhos seguidamente, eis que fiquei parte do dia seguinte atormentada. Deve ser aquilo que o Salinger diz nas últimas frases do Apanhador: “Don’t ever tell anybody anything. If you do, you start missing everybody.”

 

quinta-feira, outubro 23, 2014

Whatsapp


-       Definitivamente a vida de uma pessoa pode ser dividida entre antes e depois de você.
-       Antes era quando ninguém te perseguia, né?
-       Antes era quando ninguém me amava com o teu padrão de excelência. Não tem comparação, todos viram amadores perto de você.
-       Minha analista tá te dando dinheiro?
-       Taí um bom freela.
-       Se ela aumentar o preço da consulta eu já sei a razão.
-       Eu posso ser o HD externo da sua autoestima!
-       Então posso transcrever isso e colar na porta da geladeira?


segunda-feira, outubro 20, 2014

NY - vol. 5

É engraçado, ontem me dei conta: paixões começaram fulminantes e terminaram idem nesse tempo em que você esteve fora, e parece que tanta coisa aconteceu na sua vida e em outras que quando você me perguntar das novidades eu só poderei te contar que queimei um risoto, quebrei tapiocas e fiz sopas sem gosto, porque acho que foi isso mesmo o que aconteceu comigo. A minha vida culinária é como a minha vida amorosa: eu digo que está tudo bem, mas no fundo não tenho tanta certeza, e é fácil botar a culpa na panela, às vezes. Tenho dormido com fome, mas ainda não emagreci. Às vezes, também, quero falar com você o tempo todo. De certa forma já o faço, mas é melhor quando é de verdade.


Poderia te contar, também, de como os antúrios ficaram esquisitos, mas é melhor você ver com seus próprios olhos, e eu juro que não tenho nada a ver com isso, assim como não tenho nada a ver com o fato da porta da frente ter voltado a se abrir quando estou por aí – mas há controvérsias. Portanto mais um motivo pra voltar logo, preciso de ajuda para evitar os desvios.    


sexta-feira, outubro 10, 2014

NY - vol. 4


Tenho percorrido supermercados, feiras e barraquinhas de plantas atrás de vasinhos de temperos e ervas e hoje, ao perguntar a um sujeito que tinha pimentas em abundância se por acaso ele teria hortelã a resposta foi “não, mas tenho begônia” e eu fiquei pensando se era uma piada que eu tinha perdido, ou só uma tentativa de compensar pelas coisas que a gente não encontra.

Sinto os braços doloridos da ginástica, e outro dia, ao ficar meio flutuando de cabeça para baixo e perceber como as outras 3 pessoas ficaram me observando enquanto não conseguiam chegar na postura, fiquei pensando sobre essas partes de nós que a gente não enxerga. Dançar é um pouco assim. É claro, nem sempre, você sabe as linhas do balé e tem sempre um espelho pra denunciar seu arabesque torto. Mas com as outras danças, as que eu gosto, você dá forma ao corpo sem ver, e é só quem está do lado que pode avaliar se a sua falta de jeito pode virar outra coisa. O tempo todo você dança com a hipótese de uma “deformidade”, ou no mínimo de uma imagem inapreensível, e é esse o motivo: descolar da cabeça essa busca por um movimento bonito, simétrico ou belo, porque o que vale é o gesto.

Acho que é por isso, também, que pra mim é tão difícil me desligar de algumas pessoas. No meu desktop ficou um arquivo inconcluído chamado “é menos você no mundo”. Foi uma conversa com C. Falávamos de alguém que morreu, mas com os vivos também é assim, porque o outro tem uma parte de nós que só ele tem, que só existe com ele. E a gente vai perdendo pedaços. Sei que isso não deveria servir como justificativa para certas reincidências. Mas serve. Tenho medo de perder pedaços que eu ainda nem sei direito que cara têm. Acho que é por isso, também, que talvez a oferta de begônias faça mais sentido do que pareça.

domingo, setembro 28, 2014

NY - vol. 3


Tenho feito tentativas estúpidas de frequentar festas sem você. Mesmo que as músicas às vezes sejam as minhas, as danças nunca são as nossas. Sábado terminei o livro, faltei compromissos, distribuí desculpas para lá e para cá, e parte da noite delirei com 3 músicas no repeat e um componente ilícito. Domingo não tem erro: leio poesia na rede, penso em ficar para dormir, mas tem toda a problemática do meu café-da-manhã homeopaticamente correto e já penso em te comprar uma centrífuga de presente.


sexta-feira, setembro 26, 2014

NY - vol. 2

"Retrospectivamente, é inacreditável: quando Michel me anuncia que passará dois meses fora de Paris no verão e me pergunta se quero ficar em seu apartamento durante esse tempo - e apresenta a proposta como sendo uma ajuda minha, as plantas da varanda precisam ser regadas todos os dias -, aceito sem pestanejar. No entanto, novidade desse tipo não faz meu gênero. Tenho a impressão de que o apartamento já vive em mim. Ele é dos mais espaçosos, dos mais luxuosos, não há melhor. Morar ali é morar na própria juventude."


Comecei a ler o Mathieu Lindon e queria que leitura fosse algo que se pudesse fazer a dois ou a muitos, como uma sessão de cinema. O Michel a que ele se refere é o Foucault, que em algum ponto da história pouco se importa por todas as plantas terem morrido. Não se preocupe, eu jamais faria isso. 

quinta-feira, setembro 25, 2014

NY - vol. 1

Verdade seja dita, é tanta ida e vinda que eu já nem sei mais onde você está, quando volta, se a diarista vai aparecer, se devo repor as laranjas que bebi, se tudo bem deixar os papeis espalhados pela sua mesa mais alguns dias. Sua orquídea me parece bem morta e todo sábado considero os copos-de-leite numa esquina próxima, mas há muitas variantes como todas as acima, afinal não sei qual é o prazo de validade deles, menos ainda quando te devolvo suas chaves.


Sonhei que íamos a Búzios ou outra cidade litorânea para a inauguração de uma filial da Shakespeare and Co. Na praia ela era uma mistura de Saraiva com a seção infantil da Travessa de Botafogo. Sim, um pesadelo. Acordei e comprei 12 livros na Amazon.com, alguns dos quais já estavam no meu carrinho há meses. Ok, confesso, é o que tenho feito na sua rede: compras imaginárias em carrinhos virtuais, nunca vou até o fim do processo, até porque o wi-fi não chega muito bem ali. Os papeis na mesa são apenas cenário, não pense que estou escrevendo. Mas quem sabe. Ainda temos tempo. Temos, né?


segunda-feira, setembro 15, 2014

Vitória - vol. 1


O cachorro já não anda e saí prejudicada da última aula de ginástica: estas seriam razões suficientes para ficar gripada, perder todas as festas, as mostras, os acontecimentos e me recuperar somente a tempo de assistir a uma peça de teatro que vocês também odiaram. Outras desculpas possíveis têm a ver com aquela série que finalmente comecei a assistir, mas algo me diz que o verdadeiro motivo para a minha voz constipada é esse deserto simultâneo em Gávea e na Pompeu Loureiro. Sinto falta de cuidar das plantas e dos bichos alheios e de ficar imaginando o que eu copiaria de outras casas caso tivesse a minha.

Tomo o meu cappuccino preferido sozinha, aquele industrializado o suficiente que me esquenta sempre com o mesmo sabor. É só comigo ou é reconfortante poder confiar em alguma constância na vida?


Quando acordar na segunda-feira vou me render a um Neosoro, outra coisa que sempre dá certo. Vou almoçar kafta, talvez. Desejar uma recaída para ver o quarto episódio com o poodle roncando na minha barriga. 


quarta-feira, setembro 03, 2014

Ou o jeito que você erra

“Um dia eu vou ficar bem
Só pra te querer mais”
Marcelo Camelo em Pode ser, da Banda do Mar

Todo aquele disco, afinal, despertou em mim uma vontade maluca de fazer cafuné em alguém, justamente na semana em que eles disseram que era ótimo que eu não escrevesse sobre amor e afins, e a essa altura da conversa eu já estava distraída demais pensando se aqueles cabelos à minha frente eram propícios a todo o carinho que eu poderia oferecer. A possibilidade de me apaixonar naquela semana ficou totalmente condicionada ao que a minha imaginação construía ao redor dos cabelos das pessoas com quem eu me deparei. A textura certa e a quantidade ideal de ondas, além do controle dos índices de oleosidade, poderiam me levar a um enamoramento daqueles que põem medo.

Põe medo quando ele se levanta para ver alguma coisa na parede e aproveita para deslizar dois ou três dedos pelo meu braço apoiado no espaldar da cadeira: para, faz um comentário e esquece a mão ali no meu ombro esquerdo, como se fosse muito natural arranjar qualquer desculpa ou ameaça de mosquito no meio da sobremesa só pra encostar em mim neste lado onde tenho mais sardas. Calculo mentalmente o tempo que ainda falta para ser plausível dizer a ele que já está tarde, assusto-me ao perceber.


Assusta a quantidade de uvas em nossos copos cheios de cachaça, nossa incapacidade com furadeiras, pregos e parafusos e a variedade de padrões de tomadas e lâmpadas que há neste mundo. A única decisão que podemos tomar, afinal, é a disposição dos quadros, quase todas as serigrafias e desenhos a carvão invadidos por fungos, apesar de todas as blindagens e químicas prometidas numa etiqueta no verso das molduras. Desenhamos nas paredes os retângulos, levamos as obras para o carro e antes que eu fale qualquer coisa – e pra você eu nunca falaria – você diz que já está tarde, que eu preciso dormir, que amanhã, nem dá tempo de treinar na sua cabeça as linhas e rabiscos que eu iniciaria depois de fingir que havia alguma coisa presa nos cachos dele, peraí, vem cá. E nem comeríamos as entradas, emaranhados em nossas ferrugens e saudades, isso sim põe medo, isso sim. 

Eu não suporto OS DEPRIMIDOS. Parece um emprego, é a única coisa que merece algum esforço da parte deles. Olá, minha depressão vai muito bem hoje. Olá, hoje estou com outro sintoma misterioso e vou estar com um diferente amanhã. Os DEPRIMIDOS são cheios de ódio e bile, e quando não estão tendo ataques de pânico estão escrevendo poemas. O que eles querem que seus poemas FAÇAM? A depressão é o que há de mais VITAL neles. Seus poemas são ameaças. SEMPRE ameaças. Não existe sensação mais aguda ou mais ativa do que o sofrimento deles. Eles não têm nada exceto sua depressão. É só mais um serviço de utilidade pública. Como eletricidade e água e gás e democracia. Eles não poderiam sobreviver sem isso. MEUS DEUS, EU ESTOU MORTO DE SEDE. ONDE ESTÁ CLAUDE? 

Deborah Levy em Nadando de volta para casa