segunda-feira, maio 26, 2008

Biblioteca

- Mas é que livro tem que ter aquele apelo, sabe? Ele tem que parecer que está flutuando sobre os outros na prateleira da loja. Às vezes não adianta ser um Oscar Wilde, o livro tem que acenar pra você, entende?
- Flutuando na prateleira da loja??? O livro tem que te acenar?? Que papo é esse?
- É uma figura de linguagem, oras. Ele tem que ter alguma coisa que te chame, sei lá.
- Tipo uma capa bacana?
- Talvez. Mas não é só isso. Uma vez eu comprei um livro porque a capa dele era genial e o título tinha tudo a ver e foi péssimo. Não durou dois capítulos. Não era de capítulos na verdade, era de contos. Meio um Caio F wannabe, sabe?
- Humm sei, esses são os piores, esses cretinos pretensiosos.
- Esse certamente foi.
- E o que você fez? Você parou de ler no meio? Que parar livro no meio é pesado, né? Eu me sinto péssima. Acho que se o cara teve a coragem de escrever um livro ele devia ser lido até o fim.
- Mas era ruim, mal escrito, mal pensado, mal diagramado...
- Mal diagramado?!
- Ok, não era mal diagramado, mas era mal tudo o que você consegue pensar. Até o nome do autor se você parar pra pensar é péssimo.
- Ahahaha agora você está exagerando, a culpa nem é dele.
- Pode não ser, mas que pessoa com aquele nome tem coragem de vê-lo na capa de um livro? Livro é uma decisão séria, é que nem filho, é pra vida toda!
- Ahahaha você devia fazer teatro!
- E você devia fazer uma lista pra mim, com livros bacanas que você recomendaria. Livros assim que você levaria pra Penedo pra ler na rede, sabe?
- Humm sei. Clarice. Raduan. Camus. Adélia.
- É. Mas esses são os de sempre. Sinto falta de uma novidade, sabe? De um impacto.
- Entendo. De um novo amor, né? Literário, quero dizer. De arrebatamentos. Sabe o que resolvi fazer? Ler os livros das músicas.
- Como?
- É, os livros das músicas. Aquelas. Dentro da Noite Veloz, Na Cinza das Horas, Flores do Mal
- Olha! Que genial! E Paraísos Artificiais?
- Esse livro tá em que música?
- “Meu amor se você for embora, sabe lá o que será de mim...” À Francesa, da Marina!
- Humm. Desconfio.
- Do livro? Ou do Baudelaire?
- Da Marina. “Eu tô grávida de um beija-flor” e tal, ela não é confiável.
- E “o inverno no Leblon é quase glacial” é confiável??
- Mas essa não tem livro, não tem problema. O negócio é aquela que a Calcanhoto canta, os livros se encaixam tão bem na letra que a maioria das pessoas nem deve saber que são nomes de livros, devem achar super metafórico e abstrato e poético ainda ter o seu cheiro dentro da noite veloz.
- Ahahahah e na cinza das horas mais ainda!
- Ahahahaha mas olha, a gente precisa descobrir outros livros de músicas! O Chico deve ter livros em músicas. Zeca Baleiro também. O Caetano tem um disco inteiro chamado Livro. Tem que ter algum livro na música!
- Sabe quem deve ter? Legião Urbana!
- Éééé, sempre tinha um Godard no meio da história, Bauhaus, Mutantes, tal. Tem que ter livro.
- Tem aquele “quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu”, sabe? Naquela música Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar.
- Isso não é livro.
- Claro que é. Dá um google nessa frase.
- Péraí... não. Não é livro.
- Mas é claro que é! De auto-ajuda! Posso vê-lo ao lado de “Quem ama não adoece”!
- Flutuando na prateleira?!
- Humm não sei... Mas olha, tem outro: “o sol nasce pra todos só não sabe quem não quer” de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”. E também “e hoje em dia como é que se diz eu te amo?” De "Vamos Fazer um Filme"!
- Ai meu deus. Daqui a pouco você vai dizer que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” é um livro de auto-ajuda também.
-E não é? Gente esse negócio vicia, as músicas deles são um celeiro de livros de auto-ajuda! Olha só: “com você por perto eu gostava mais de mim” ahahaha e não é que nessa tem? “estava lhe ensinando a ler On The Road, coisas desiguais”!
- Éééé! (...) Kerouac, é? Não sei não...
- Por que, não é confiável também?
- Tanto quanto o Engenheiros do Hawaii. Eles tem um livro numa música, Pergunte ao Pó. O nome da música é outro.
- Mas e então, ficamos na mesma, né?
- É. Esse aí que você comprou por causa da capa. Como foi? A compra, quero dizer.
- Ah foi um dia qualquer. Ele se destacou, não sei bem. Digo, ele acenou pra mim na prateleira.
- Mas você já foi querendo um desses bons? Quero dizer, você já foi comprar um livro epifânico?
- Sim, eu queria um desses.
- Entendi. Talvez a gente deva procurar qualquer coisa, uma frase, sei lá. E não uma epifania toda, sabe? Já experimentou ler o primeiro parágrafo dos livros?
- Não. Pode ser uma idéia.
- Melhor do que achar que algum está flutuando. É que nem conhecer pessoas. Aquela coisa de primeira impressão e tal. Como foi que você encontrou o Caio?
- Ele me encontrou. Numa epígrafe de um livro que eu ganhei. Foi muita sorte.
- Verdade. Como faz então?
- Acho que não faz. Continuamos ouvindo músicas, sei lá. Da última vez fiz uma enquete e acabei lendo um livro que tinha mudado a vida de duas pessoas. A minha continuou igual.
- Sabe que livro mudou minha vida?
- Sei. Mudou a minha também. Será que depois de um tempo eles mudam mais alguma coisa? Ou mudam de novo?
- Acho que não. Mas não custa tentar, né?
- É, não custa. Ainda mais que eles continuam acenando, né?

- Ou será que estão tentando nos dizer tchau? Tem gente que diz que você deve passar os livros adiante, deixar nos sebos, talvez a gente devesse comprar livros dos sebos. O seu que você ganhou...
- Foi de um ex-amor, o sebo, o sebo é uma boa idéia. Se não der certo fica resolvido: compramos novos discos.

quinta-feira, maio 22, 2008

Diário de bordo

A transportadora entregou um dos 5 volumes trocado. Eram 4 rolos de tecido e uma caixa, a fábrica recebeu 5 rolos de tecido e zero caixa. Me telefonaram pra saber o que deveriam fazer com o tecido branco. Liguei para a transportadora pra dizer que um dos volumes tinha sido trocado. Depois de informar endereço, cnpj, inscrição estadual, cep, telefone, razão social, número da nota, endereço de destino, depois que a moça da transportadora entendeu que dos 4 volumes só um tinha sido entregue errado, depois que ela entendeu que o destinatário é que tinha recebido errado e não eu, depois disso a atendente perguntou pra onde tinha ido o volume errado. Eu respondi que não sabia porque eu não estava no caminhão no momento da entrega.

Houve uma greve de transportes no Espírito Santo e por conta disso nenhum dos funcionários da estamparia foi trabalhar e por conta disso também a produção das estampas atrasou alguns dias.

Os consertos de uma das modelagens deram um total de R$ 18,00. Eu precisava de troco para R$ 50,00. Combinei com o fornecedor que o boy passaria pra buscar e ele voltou com R$ 18,00 de troco. Telefonei pro fornecedor pra explicar que na verdade o troco era de R$ 32,00 e eu precisava do complemento. O fornecedor me enviou mais R$32,00 e de novo eu tinha os R$ 50,00 iniciais. Eu achei tudo muito engraçado e quis fazer aquele gráfico de pizzas ou enviar um esquema de fulan-tinha-50-laranjas-comeu-18-quantas-restaram-? Alguém acredita nisso?

A fábrica mandou uma caixa cheia de etiquetas de tamanho P, M e G todas misturadas. Elas medem cerca de 2,5 centímetros e a capacidade da caixa é de 10 mil etiquetas. Eu precisava de umas 200 de cada tamanho. Algumas horas depois eu consegui.

Eu estava experimentando um sutiã na sala de reunião quando o boy passou pela porta. Eu estava vestindo uma camisola de renda semi-transparente quando o arquiteto chegou...

Uma cliente enviou um sutiã para conserto reclamando que a costura do fecho incomodava suas costas. Eu queria mandar pra ela um sutiã Scala sem costura. Algumas clientes enviaram peças sujas para conserto. Não quero entrar em detalhes.

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Na manhã de terça arrumei a mesa. Limpei as gavetas, joguei fora os papéis, organizei as informações importantes numa pasta dividida por assunto, me livrei dos inúmeros retalhos de tecidos de outras coleções, copiei os telefones de todos os post-its na agenda do computador e até mesmo as planilhas foram melhoradas. Os arquivos de imagens e referências eu copiei no pen-drive, os lápis e canetas foram para a gaveta e o porta-trecos voltou pra minha casa, uma lista de instruções e pendências foi crescendo e em algumas horas a minha mesa estava mais ou menos como no dia em que a recebi de outra pessoa.

Ir embora sempre envolve uma faxina física.

Então eu comecei a enviar os emails. A lista de destinos era extensa, mais de 50. Eu sei que não vou ver mais essas pessoas com quem tanto falo no telefone, pessoas que vendem tecidos, que fazem modelagens etc. E é justamente quando você se dá conta de que o convívio com as outras pessoas, as que sentam nas mesas ao lado vai terminar. Algumas piadas, algumas epifanias, algumas risadas, alguns suspiros, algumas partes de nós só funcionam ali. Algumas das meninas estão preocupadas em saber quem será a próxima. Ficam pensando em como vão viver o dia a dia estressado sem as minhas imitações e cenas. Eu também não sei o que vou fazer sem a gargalhada delas. Não é bom pensar nisso ainda.

Antes preciso resolver o problema das camisolas. E terminar de enviar os emails que os dolorosos mesmo eu deixei pro final. A sorte é que as respostas chegam logo, todos me desejando boa sorte e sucesso, me pedindo meus telefones de contato e dizendo o quanto sentirão minha falta.

Pode ser tudo mentira ou ensaiado, não importa: sair do trabalho faz bem pro ego.

quinta-feira, maio 08, 2008

Carta a D.

My dearest,

Fazia tempo que queria mesmo parar. Ficar um dia em casa, ouvir músicas que me lembrassem você, te escrever.

Às vezes acho que o meu corpo funciona como um termômetro da minha cabeça e então percebo que preciso desacelerar.

Parece que o frio já começou por aqui. Voltamos a dormir de meias em casa, a praia está com aquele clima constante de fim de tarde e os cafés voltam a encher. Já tomo meu chocolate quente sem culpa. E chás. Uma pena, tiraram a minha sopa preferida do cardápio daquele restaurante. Quis protestar mas o garçom foi taxativo, a minha sopa não dava o menor ibope.

Ainda está quente aí?

Os noticiários continuam falando de coisas absurdas. Os anúncios de supermercado continuam absurdos também. Isso me faz pensar em como as pessoas não devem ligar pro que vêem. Acabo sempre desligando a tv. Estou com uma pilha de livros que não diminui. Ando sem foco, sem concentração. Esta semana emprestei dois livros a uma amiga. Um deles já estava na prateleira há um tempo. O outro mal tinha chegado. Foi um daqueles...! Li em poucas horas. Nunca empresto livros recém-terminados. Eu crio uma espécie de relação com os livros, preciso tê-los por perto, preciso reler trechos, gosto de saber que eles estarão ali. Gosto desse tempo de digestão, de ler arrebatamentos e de saber que eles estarão ali guardados e prontos para serem abertos de novo. Conversei sobre isso na análise.

Preciso me desapegar um pouco. Não, acho que não é isso. Mas preciso aprender a sofrer menos. Ao ficar longe das pessoas, ao me despedir das etapas, ao emprestar livros especiais para os amigos dois dias depois.

Ontem conversando ouvi: “Descobri que existe um lugar onde o chocolate é melhor que na Suíça. Acho que é na Bélgica”. Um pouco antes ele já tinha dito que havia viajado pelo mundo sem sair do lugar. Era o motorista que me levava até. Ele trabalhou anos num hotel. E foi lindo e triste ouvir aquilo. Eu tive vontade de comprar uma caixa de chocolates belgas para ele. Entende o que eu digo? Essas coisas me tomam, eu não sei como evitar. É o mesmo com os livros. Com as músicas também. Com os meus amigos.

Perguntei pra um deles outro dia quais eram as novidades. Um dos amigos, eu digo. Ela respondeu que havia parado de roer unhas. Eu gargalhei! E entendi. Entendi que essa era a resposta que eu podia esperar. E quis dizer a ela que a minha novidade era que voltei a dançar. Mas não voltei. Sabe, essas coisas dizem muito mais sobre as pessoas. Lembra quando me apaixonei por um cara que tinha uma rede no quarto? É isso o que acontece comigo. Eu aprecio os detalhes. E acho que eles são tão mais significativos. Talvez seja por isso que sofro tanto.

Encontrei aquele cara de novo. Não o da rede, o outro, você sabe. Não houve nada. Mas morremos de saudade em um segundo. Enquanto ele respirava no meu pescoço e eu no dele. Talvez três segundos... Eu sei que é bobagem. Continuei sentindo saudade depois, não sei ele. Mas sei que durante aquela respiração nós dois tivemos certeza um do outro e vai ver é isso... Eu sempre uso reticências quando falo dele, eu sei. Ele também usava quando falava comigo. Dava pra ouvi-las.

O que você tem escutado?

Acho que desisti daquela viagem. Na verdade não sei bem do que desistir. Sei que acabo insistindo em coisas por tempo demais, em pessoas e então de repente reavalio tudo e me bate essa dúvida. E então eu sinto aquilo que te disse no começo, uma dor nas costas, uma dor!

Hoje de manhã não consegui acordar. Ontem cheguei em casa chorando e minha mãe me deu um remédio. Acontece que hoje não houve jeito de sair da cama porque o remédio era muito forte e eu estava sonhando com a casa de Penedo. E eu precisava me esconder, precisava ficar num canto onde ninguém me encontrasse. No sonho. Eu era criança no sonho, dava passinhos pequenos. Eu não queria ir embora da casa de Penedo porque lá era muito seguro e voltar para o Rio era diminuir ainda mais o tamanho dos passos. Eu me escondia sob um lençol dentro da sauna e tentava apagar minha sombra na porta.

Eu estava apavorada no sonho. Eu estava apavorada ontem também. Entende por que eu não conseguia acordar? A minha cama era como respirar no pescoço dele, quente, seguro, feliz. E desabraçar isso tudo...

Não soube o final, se me encontraram na sauna ou se eu achei meu caminho de volta. O telefone tocou. Eu queria que fosse ele dizendo "eu também". Era do trabalho.

Sei que preciso dormir mais uma vez, está na hora de tomar o remédio de novo.

É esse o momento do dia em que penso muito em você e no seu caminho. Lembro do vôo que fizemos juntas e me pergunto quando vamos nos encontrar de novo. Não sei se estou pronta pra ir até onde você está. Acho que preciso me reconstruir primeiro. Torço pra que você não demore.
O livro eu te mando.

Espero que os cães estejam bem. O meu parece estar um pouco mais calmo. Faz alguns meses que não morde ninguém. O seu namorado eu sei que está bem. As fotos evidenciam! Dê um beijo nele. E não o desabrace, promete?

Um beijo com amor,

Sua prima.

quarta-feira, abril 23, 2008

Caminito

Encolhida na cadeira da classe econômica, a luz individual não funciona do lado direito da aeronave, menos mal, assim ninguém vê que por dentro da mochila eu tento trocar o cd do meu discman Toshiba verde. Eu estava de saco cheio da dengue, do caso Isabella, do fato das pessoas apedrejarem supostos assassinos e esquecerem dos cartões corporativos e etc, resolvi passar o feriado junto dos hermanos que são muito mais revolucionários do que nós e o meu discman verde era uma forma de protesto, a minha ego-revolta contra a mp3 e computadores e internet e a falta de calor humano e o-que-aconteceu-com-hábito-de-escrever-cartas?, sabe essas coisas?

Foi assim que fui parar em Buenos Aires, torcendo pro avião poder pousar, torcendo para que a tal fumaça que invadiu a cidade nos últimos dias não fosse tão ruim assim e torcendo pra sei lá, caminhar, ver os parques, sentar nas praças e basicamente não ter que pensar durante alguns dias, não precisar conversar seriamente com alguém, sair de casa sem relógio e sem telefone.
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Banhos de banheira, passeios pelas avenidas, pães quentinhos e deliciosos no café da manhã, confortos e mimos dos anfitriões, flores na varanda, todos os episódios de Seinfeld a meu dispor, todos os episódios de I Love Lucy idem, pilhas de Vanity Fair para folhear, Vinícius e Caio F na cabeceira improvisada, folhas do outono começando a cobrir as calçadas. Eu sei, eu devia querer dançar tango, tomar vinho, comer bifes de chorizo no Puerto Madero e comprar bolsas e botas de couro a preços ótimos. Mas nós que não temos i-pod fazemos isso na Argentina: assistimos a uma série de 1952 no sofá da casa da tia enquanto tomamos sopa. Nós somos incompreendidos. Um dia nos chamarão vanguardistas.

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Tarsila do Amaral está em cartaz no Malba. Surpreendentemente não compro nada na lojinha do museu, eu que as adoro, saio de mãos abanando. Não compro a Lomo que queria, fico perdida entre latas antigas e compro uma de talco de 1920 e um liseuse que a vendedora afirma ser Vitoriano. Não duvido. A loja, numa das esquinas da praça de San Telmo é uma viagem no tempo. Com um pouco de imaginação, a parte do subsolo reservada às roupas vira um imenso camarim das antigas óperas francesas e italianas. A qualquer momento as bailarinas estarão por ali vestindo-se a apertando as sapatilhas. Suspiro. Quero morar na loja de dois andares da praça de San Telmo. Quero comprar as meias que não estão à venda. Quero a camisola de 1890 que custa muitos dólares.

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Fotografo postes, pombos, estátuas no cemitério, árvores, placas, bonecas antigas, os potes com utensílios de cozinha, o banco perto da porta, o banco sob a árvore, meu pé.

Me esforço na série "auto-retrato com braço esticado". Lembro da Carol e das considerações que ela fez quando viajou sozinha. Concluo que, mais que gostar, preciso viajar sozinha.

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Quase que tudo vai por água abaixo quando na volta o aeroporto está lotado, as luzes individuais do lado direito da aeronave seguem defeituosas, o sujeito ao meu lado insiste em puxar conversa e faz tanto frio tanto frio dentro do avião, peço um cobertor mas não há mais mantas disponíveis, tomo uma taça de vinho em copo plástico, como é que as coisas ficam decadentes assim? eu quero matar todos da Siberian Airlines.

Abro a caixa de chocolates, o discman parece não funcionar, insisto mais um pouco, verifico a posição das pilhas, penso que um tênis Keds e um perfume CK One combinariam com o meu jeito anos 90 de ouvir música durante viagens e de repente a música começa “She says Hello! You fool, I love you! Come on join the joyride” ha ha , não era Roxette, era Adele. Não posso mudar o volume, essa função, assim como as luzes individuais, está com defeito. Me pergunto se as pessoas à minha volta estarão ouvindo a música que sai dos fones azuis. Acho que não. O meu vizinho que tentara puxar conversa parece dormir. Os gays à minha frente fazem perguntas sobre o meu brinco.

Final e infelizmente chego em casa, cachorro late, todos conversam, querem saber, bla bla bla. Desfaço as malas, deixo tudo meio bagunçado, retiro as pilhas do Discman para não melarem, arrumo a mochila para amanhã, ponho o despertador para mais uma vez tentar ir à natação cedinho. Quando a casa atinge relativo silêncio caio na cama cansada, as costas ruins de novo, dou um suspiro. Amanhã é segunda e eu pedi demissão. Preciso organizar meus manifestos.










sábado, abril 12, 2008

E fugir com você pra Shangri-lá

- Eu tive um professor que dizia isso. Ele citava muito Arquimedes.
- E o que Arquimedes tem a ver com isso agora?
- Tudo. Ele encontrou a solução pro problema dele enquanto tomava um banho. Ele estava tão envolvido no problema que a solução só veio quando ele conseguiu se desligar, sabe? Desanuviar. - Faz sentido.
- Ele precisou se esquecer um pouco, entende?
- E o que você pretende fazer então? Tomar banhos?!
- Não sei... não... Eu tomo muitos banhos. Mas não tem fuincionado.
- É que você já entra no banho achando que vai ser a solução, você não está ajudando. E ficar aí desse jeito piora.
- Eu estou ajudando sim!
- Ah é? Hum é verdade, hoje você se ajudou muito comendo porcarias e bebendo cervejas. E ontem também se ajudou à beça embaixo daquele cobertor grosso. E anteontem
- Eu voltei pra terapia, não voltei?
- É...
- Só que eu não posso achar que em uma sessão toda a minha desordem mental vai se reorganizar também...
- É...
- Pare de dizer "é", você devia me dar conselhos!
- Arquimedes devia te dar conselhos. Eu torço pra que você se encontre logo. Gostava dos seus olhos brilhando.
- Você se encontrou?
- Sim.
- Fez o que?
- Fui pra Índia. Virei zen-budista.
- Mas você teve que se estressar antes, né? Teve que sofrer pra resolver que não era nada disso...
- Sim, tive que ficar sufocado um pouco.
- Então eu estou no camiho certo, eu acho. E além disso eu não acho que a pessoa tenha que ir pro outro lado do mundo pra se encontrar. Não se trata disso. Não é uma questão territorial..
- Já entendi, você acha que ela precisa ir pro divã.
- Ou pro banho. Ha ha.
- Esse é o seu plano então? Freud? Iung?
- Eu não tenho um.
- Então aceite o meu.
- Você me dá a passagem?
- Eu sou zen-budista. Não posso te dar nem o bilhete do circular. Só vim pra esse café porque você me deu carona. He he he.
- Você vai me dar o quê então, porra?
- Um sabonete?
- Hahahahahahahahahahahhahahah
- Não se trata disso afinal? De um apoio? De um ombro amigo? De um pouco de carinho?
- É... mas e se você me desse carona, então?
- Até onde??
- Até esse lugar onde eu preciso ir pra me esquecer e então me encontrar de novo.
- Mas como você quer se esquecer se eu vou estar lá? Digo... eu vou estar sempre te lembrando de você mesma...
- É que... eu não quero te esquecer junto, entende?







:: Dedicado à Carol Salomão, pelas conversas reais.


" C - O que você acha das quartas-feiras?
J - Acho que elas podem ser um copo meio cheio ou meio vazio."

segunda-feira, abril 07, 2008

Toda essa gente se engana

Uma das músicas que mais gosto do Cazuza é Completamente Blue. Especialmente os versos “Sou feliz em Ipanema, encho a cara no Leblon, tento ver na tua cara linda o lado bom”. Faz tempo que não encho a cara no Leblon e nem em qualquer outro bairro, a tua cara linda sumiu num piscar de olhos e me esforço para não lembrar. E eu nunca sou feliz em Ipanema rodando quarteirões à procura de vagas ou na sala da analista.

Eu gosto mesmo é de Copacabana.

Gosto de tudo em Copacabana. Gosto daquele cantinho perto do bairro Peixoto, do restaurante cheio de velhinhas e velhinhos, alguns mostrando cumplicidade até nas roupas e andando lado a lado com seus moletons combinando. Gosto das quitandas e mercadinhos que sobrevivem aos Zona Sul, gosto da loja de materiais de limpeza com suas vassouras e galões de água sanitária. Eu adoro as portinhas que escondem vilas no meio da Barata Ribeiro, gosto do fato de que a loja de moda da patricinha é ao lado da loja de calçados ortopédicos, principalmente, eu gosto do fato de Copacabana ser cafona e não kitsch (como a maioria dos mudernos diria). Copacabana, ainda bem!, não virou hype.

Eu gosto de saber que a Modern Sound convive ao lado de uma papelaria de bairro, gosto da lojinha que conserta relógios, adoro as lojas de móveis de madeira, o atendimento de vendedores que não fazem idéia do que é marketing, adoro a loja da esquina com seus maiôs e estampas absolutamente improváveis, adoro ainda mais a loja do alfaiate que fica ali ao lado, em que outro bairro você pode comprar um legging de lycra (lycra mesmo, antes da invasão de viscolycra) no mesmo quarteirão onde funciona uma alfaiataria?

Eu curto todos os contrastes de Copacabana, os albergues que deram certo, os bares suspeitos na orla, os hotéis sofisticados, as senhoras que pintam a sobrancelha, os brechós cheios de traça, os antiquários refinados, as estações de metrô, os sebos do shopping velho da Siqueira Campos, as lojas de design do shopping velho da Siqueira Campos, as mercearias azulejadas, o engarrafamento nas avenidas, as ondas e marolas da praia.

E o melhor de tudo é que num desses dias blues em que a música do Cazuza parece ter sido feita sob medida você se depara com um ser vestido de Magali anunciando as promoções da loja de colchões sob um sol inclemente e então você finalmente entende.

O melhor de Copacabana é isso: você consegue se sentir feliz mesmo sendo nonsense.

terça-feira, abril 01, 2008

... de tudo outra vez.

Um livro escorregou da prateleira e espatifou a caneca do Van Gogh no chão uma semana antes de algum músculo que liga ombro direito e pescoço pifar, tudo isso na mesma semana em que um amigo telefonou pedindo uma dica de óculos e touca de natação e eu achei isso engraçado demais e contei pra todo mundo, não faz mal, contei pra todo mundo também as alucinações que o Marcelo teve com o Osama e essa foi uma das últimas notícias que eu tive dele, do Marcelo, não do Osama, ou do Osama também, nem sei mais, e comecei a ler blogs e recomecei um livro que estava parado e percebi que em algum momento alguém entendeu que eu achava que a Paris Hilton se veste bem quando na verdade eu me referia à Suri e então me dei conta de que esse era um papo que eu só poderia bater comendo linguicinhas no Braseiro acompanhada da Bebel, que não faz natação, não tem alucinações com o Osama e também acha a Suri uma das celebridades? mais bem vestidas do mundo, ha ha ha, a gente engataria toda sorte de assuntos bobos, não os assuntos bobos do fim de semana em Penedo, aaah Penedo, a gente na piscina tentando convencer uma das amigas a não fazer permanente, a outra a não cortar mullets, de onde as minhas amigas tiram essas idéias?, e à noite eu consegui viciar uma delas em Grey's Anatomy, não foi preciso muito, muito eu precisei foi de relaxante muscular e como é que se fica em pé durante o dia, a língua começa a enrolar, a cabeça pesa, esse remédio é quase um calmante, e toda aquela conversa de O Segredo, comecei a implantar os pensamentos de manhã, quem sabe?, arranjei uma vaga bem rápido, será que o Universo já me escutou? sério, preciso melhorar, amanhã começa um curso novo, depois de amanhã começa uma nova análise, semana que vem começa o que mesmo?, uma vontade de beber litros de água e leite, uma vontade de dormir e dormir e dormir, uma vontade de dormir na rede de Penedo, ficar perto das árvores, pisar na grama, afagar a cadela, perguntar "Clara você me alcança? Será que pode me balançar?" só por preguiça de apoiar os pés no chão, uma vontade de experimentar dormir no barco, e também uma vontade quase insana de te ver, de te achar, de te procurar por aí, principalmente uma vontade mais que insana de te escrever, ou de te falar talvez, de te fazer entender, de te fazer voltar, mas que cabimento tem isso depois de tantos anos?, e então o itunes faz uma reviravolta e Freddie Mercury é substituído por Roberto Carlos e é como um tapa, eu não conseguiria escrever nada decente ou esclarecedor pra você porque foi o Rei quem compôs a música, é sempre assim e a gente pensa que queria ter escrito aquele livro ou composto aquela melodia e tantas melodias você carrega e eu também, quanto tempo, quanta vontade de te pedir pra voltar, quanta vontade de te pedir pra gente dar certo, de te fazer entender que você foi o maior dos meus casos mesmo tendo durado 5 noites, te convencer que você é a saudade que eu gosto de ter... e se eu gravasse uma fita com essa música e mandasse pra ele?, mas se ele achar Roberto Carlos uma cafonice..., como é que faz?, será que é cisma? deve ser, tem que ser, porque se não for eu faço o quê?

segunda-feira, março 03, 2008

De uma bala perdida que me encontre por aí...

A "invasão" de bandas nas esquinas do Leblon e Ipanema ocorrida no fim do mês de fevereiro e idealizada pelos rapazes do Vulgo Qinho e os Cara tinha um objetivo mais que evidente.

Ocupando o que eles genialmente batizaram de “Quadrilátero das Vaidades”, os Cara fizeram música durante meses no Leblon. Sempre no mesmo lugar, à mesma hora do mesmo dia da semana. Houve reclamações. Houve também muita curiosidade. Houve uma quantidade grande de transeuntes que parou pra escutar, gente que parou pra dançar, gente que parou pra perguntar o que era, pessoas passeando com seus cães, crianças atraídas pela banda, bicicletas que diminuíram a velocidade, apressados que diminuíram o passo, flashes de fotos de tantos amigos, da imprensa, de recordações que tantos quiseram guardar.

Cansados de subirem os vidros dos carros, de ligarem o ar-condicionado em lugar de abrir as janelas, de se armarem de muros e cercas e de se fecharem em prédios vigiados, cansados das câmeras invasoras que os pedem pra sorrir a torto e à direito, cansados de evitar conversas no elevador, os Cara iniciaram um movimento pelas ruas, pelos esbarrões, pelo convívio de pessoas, pelas relações que se estabelecem quando os seres humanos se encontram, se tocam, se sabem reais. Pela possibilidade de conversas e de entendimento entre pessoas que se isolaram de medo.

O “Dia da Rua” viu a volta dos músicos ao seu palco principal, aquela esquina do Baixo Leblon. Nas outras todas que iam da Praça Cazuza à Jangadeiros em Ipanema, outros músicos e artistas tambémncantaram, chamaram as pessoas, abraçaram quem passava. Pequenos aglomerados se fizeram no percurso, muita gente sorrindo pro céu, gente que mora nas ruas, gente que mora nos prédios, gente que cedeu o ponto de luz às bandas, gente que avisou aos amigos e gente que não tinha a mais vaga idéia de que um dia um monte de caras munidos de seus instrumentos iria fazer de um pequeno show um ato tão simbólico.

Poucos dias depois nos deparamos com a nota na coluna de Joaquim Ferreira dos Santos em O Globo:

Silêncio!!!!!!! As bandas que ocuparam com baterias e guitarras as esquinas da Ataulfo de Paiva e da Visconde de Pirajá, quinta-feira, e infernizaram a noite dos moradores de Leblon e Ipanema, não voltarão às ruas. “Elas não tinham licença”, diz Mario Filippo Jr., o subprefeito da Zona Sul. “Se insistirem, os instrumentos serão apreendidos”.

“Infernizaram a vida dos moradores”???? “não voltarão às ruas”???? “Eles não tinham licença”????

É claro que eles não tinham licença. Eles não são patrocinados pela Oi.

Eu não sei se é preguiça ou estupidez do jornalista. Ele foi a algum show? Ouviu alguma música? Ele parou em alguma esquina do Leblon ou de Ipanema e sentiu-se infernizado pelo som que saía das mãos e bocas dos músicos?

Será que se ele fosse a um dos muitos (e concorridos) shows promovidos pela Toca do Vinícius NA RUA se sentiria infernizado? Ou daria uma trégua porque é bossa-nova e não um monte de garotos "com baterias e guitarras"? E o dono dessa loja? Quais serão os objetivos dele com essas apresentações? Alguém ainda acha que vai vender discos no Brasil?

O show da Claudia Leitte na praia de Copacabana infernizou a minha vida. O show da Ivete Sangalo na praia de Copacabana em comemoração ao aniversário do sabão Omo infernizou a minha vida também. A árvore de Natal da Lagoa infernizou a minha vida e inferniza todo ano com seus engarrafamentos quilométricos, a sujeira em que as praias amanheceram após o show do Lenny Kravitz infernizou a vida de muita gente que naquele fim de semana queria mergulhar sossegado no mar, o assaltante com arma na minha cabeça infernizou a minha vida, as pessoas dizendo “graças a deus não aconteceu nada”, isso infernizou muito a minha vida.

Aconteceram muitas coisas e eu não acredito em deus.

O que torna os mega-eventos comprados mais legítimos que as intervenções urbanas independentes?

Os patrocinadores e super corporações têm sempre autorização para armar o circo que querem, a árvore de Natal causou o transtorno que quis no dia de sua inauguração, eu paguei o seguro do carro pra poder tê-lo de volta, pago sempre o guardador que nunca tem o talão, pago até o cara na praia que depois vai roubar o meu telefone.

Ler essa nota num dos jornais de maior circulação do país infernizou a minha vida de moradora inteligente da cidade. Se os jornais não apuram o que quer que seja e se vendem cobrir shows e eventos licenciados, se o jornalista desta Coluna e tantos outros acham bacana publicar fotos de celebridades no curral VIP do show dos Stones, o mesmo que emporcalha a cidade depois, se o subprefeito se acha no direito de decidir o que é válido ou não ser apreendido, então vai ver que a estupidez é minha.

Qual é a diferença? O que faz com que pessoas possam relembrar os 50 anos da bossa-nova nas areias de Ipanema sem se importarem se estão infernizando a vida de alguém ou não? Quem é que decide?

Talvez seja exagero nosso o de acreditar que atos musicais politizados ou intervenções artísticas venham a influenciar de todo no andamento das relações sociais da cidade. Talvez seja utópico. Mas não é absurdo pensar que a provocação das nossas inquietudes talvez seja um bom caminho pra gente mudar e consequentemente promover melhorias ao redor.
As bandas tocando nas ruas pra quem quisesse ouvir certamente me provocaram muito mais que a citada nota do jornal.

Não é defesa de “amiga da banda”. É achar indecente a comodidade das pessoas em categorizar o que é bom pra elas.

Tratado.

É tarde, amanhã eu trabalho, insetos esquisitos habitam a parede ao lado, eu leio um pouco enquanto procuro resenhas de dança na internet e fico presa numa conversa nonsense, sua especialidade. Rio com uma ou outra frase que pipocam na tela, guardo os sapatos espalhados pelo chão, bebo água, visto a única camisola decente que me restou e tenho a mais absoluta certeza de que, apesar da sua insistência, fofo você não é.

Eu poderia atribuir tantas outras características. Senso de humor, inteligência, um charme indestrutível, certa insegurança. Fofura certamente não faria parte da sua cartela de adjetivos. Fofura não combina com o seu jeito rude e com a sua quase doçura que às vezes sem querer escapa. Fofo você seria se se deixasse ser doce sempre, mas num deslize minúsculo você já recupera sua pose, limpa a garganta, pisca um olho e vem com uma frase de efeito, um beliscão na perna.

Fofura não poderia coexistir com a mordida daquele dia. Ou com a sua mão ávida por debaixo da minha saia. Fofura não teria o seu cheiro. Fofura não teria me levado pr’uma cama no andar de baixo, não teria sua barba malfeita e nem esse sorriso largo e safado que tantas vezes eu vi (ainda bem!). Fofura seria o telefonema do dia seguinte, o carinho no meio da noite, certa hipocrisia até.

Fofura não faz parte das lembranças que eu tenho de você.

E se um dia você quiser me provar o contrário, espero que eu tenha razão porque fofura nenhuma seria melhor que o Carnaval que você me deu.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Xadrez

Eu tropeço, você me ampara. Eu agradeço enquanto me esforço em parecer normal e não deixar frestas mas é sempre tarde e antes de me dar conta já estou enredada nas suas gracinhas. Você me faz um elogio qualquer, eu rio sarcástica. Você se apressa em apontar minha ironia, eu acentuo cada detalhe dela. A mesa está montada. Você logo assume seu lugar de vítima e começa o discurso de coitadinho e, mais rápido que eu, não deixa tempo pra inverter. Em menos de minutos os papéis estão definidos, tabuleiro pronto. Você me alfineta e eu devolvo, você me irrita e eu caio. Eu sempre seu algoz que te destrata, você sempre meu menino ressentido e nessa ciranda de clichês vamos dançando sem dar trégua. Eu dou um passo pra fora e você, rude, me arrasta de volta e na segunda tentativa de fuga eu já me demoro de propósito só para atestar que você não se antecipa, calculando a próxima rodada. Eu me desfaço em carinhos para pôr fim ao jogo e você ri na sua poltrona com desdém. Eu te digo desaforos, você me grita, eu sempre insensível e repelente, você se vendendo de bonzinho e quando num deslize ou num cansaço a gente esquece a fala, à tona vem um diálogo de silêncios, o meu rosto que sempre vira, a sua mão que nunca alcança. Seguimos jogando por horas, alternando charme e acusações, envolvidos numa teia de performances e ensaios, de frases feitas e coisas tão antigas e a partida termina sempre sem cheque-mate, sempre sem desmentir a farsa.

Eu tropeço, e nunca sei se é você que põe o pé na minha frente ou se sou eu.

:: "Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este 'velho obscurantista', nos frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida."
Raduan Nassar no conto "O Ventre Seco" in Menina a Caminho

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Se ela soubesse

Sentada na mesa esperando o almoço sozinha, conversando com o garfo, mor-ren-do de saudades de um amigo que promete que vai te ligar, mor-ren-do mais ainda de vontade de perguntar pra ele se aquele outro afinal..., torcendo pra que ele responda que não, ou que sim, tanto faz, já passou, mas passou mesmo?, e cai a faca no chão fazendo um estardalhaço, não importa, o que importa mesmo é que tem menos de um mês de ballet e você se convence de que esqueceu a sapatilha em casa sem querer e por isso não pode ir à aula, como chove em janeiro, eu achava que era março, fevereiro chegando e a desculpa da sapatilha, qual vai ser a próxima?, todo mundo falando de carnaval, os blocos nas ruas e você comendo trufas na torre do Rio Sul, entendendo mais um pouco sobre cores que eu não sei o nome, um monte de pinturas que se parecem com você e nenhum tesão pra começar a ler Saramago, nenhum tesão, ponto., aquela cadeira antiga no brechó, o botão do vestido para pregar, a dedicatória nos livros e a foto na página vinte e sete, você posando de musa e ele sumindo no mundo, a única pessoa que poderia te resgatar, todo esse cuidado com a pele e todo mundo viajando e se amando e ele nunca atende o telefone quando você precisa de colo, a mala ainda no chão esperando para ser desfeita, a explicação que nunca vem, a dor de cabeça que nunca passa, ela fingindo que não liga, tentando ligar, tentando dormir, tentando culpá-lo ainda, os dois, os três, os sapatos enfileirados na varanda, o cão não gosta mais de subir na sua cama, aquele livro que ficou pela metade, um fim de semana do outro lado da ponte aérea, o tombo da outra, a risada da outra, a saudade que ela se deu conta que tinha, a felicidade de poder saciar, a tristeza de não poder conversar com o seu criador, se tivesse sido mais ousada como ele disse, se tivessem dado aquela festa, se aquele outro tivesse ficado, o perfume novo que ele não reconheceria, e como é que se consegue uma locadora de filmes decente?, todos os versos que um outro escreveu, a lente que no fim do dia resseca, o mesmo trajeto todas as manhãs, falta de apetite, mas tenho que comer, o casal da mesa ao lado conversando, ainda bem!, aquele filme no cinema Leblon e ele de sobretudo, o sapato machucando o joanete, outra desculpa, o telefone da outra escola de dança, uma certa misantropia blasé, tudo fachada, acabam acreditando, ele mesmo achava que eu era punk-metaleira, os sonhos dos dentes que se repetem, está na hora de voltar pra análise, você não pode passar a vida fugindo, e toda essa abstração, o barulho começa a fazer sentido de novo, os garçons, o suco de abacaxi que vai ficando concentrado no fundo do copo, um aceno, e aquele escritório gelado, todas as estampas penduradas e você tentando combinar azul com roxo, entre por essa porta agora e diga que me adora você tem meia hora, como rimam algumas coisas, como doem outras, o taxi de volta, caminho de sempre, aquela música deprimente no rádio, deixar de lado essas bobagens, os dias passaram, ele se mudou, guardar o recibo pra pedir reembolso, guardar sua cara pra sorrir de vez em quando, guardar um pouco de veneno pra te matar de vez, semana que vem, sem falta.

:: Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
(...)
Ah, que não seja o meu
O mundo onde o amor morreu

Vinícius e Baden em Tempo de Amor

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ladeira abaixo

Começar o Carnaval indo a bloco matutino em Santa Teresa é fazer a matemática inversa: você paga os pecados antes.

A escadaria é quase penitência, a fantasia não resiste à segunda ladeira e quando você finalmente consegue alcançar o bloco, está tão exausto que quer ir embora. Entre descer ladeiras e escadarias tudo de novo e seguir um pouco os foliões, a segunda alternativa vence, e embalado por marchinhas que você sequer distingue de tão morto, se embrenha em meio a pessoas muito, muito suadas. Mas se chegamos até aqui e é fevereiro, sigamos em frente.

Você escuta o seu amigo dizer que daria seu reino por uma água, que parece ser artigo de luxo, arriscam-se na cerveja, quente, e todo o resto é quente, sol a pino, homens sem
camisa, você tira a peruca e é pena que não pode tirar também os cabelos.

Em meio a tantas pessoas, não há pra onde fugir. Pierrots lambendo colombinas, confetes e purpurinas grudados, roupas idem, os dedos enrugados de suor, por que mesmo que a gente gosta disso?, grupos fantasiados que te dão esperança de que alguma coisa ainda pode ser engraçada, mas não tem jeito, o bloco se vai, você fica pra trás se revezando no banho de mangueira que um solidário e politicamente incorreto morador do bairro oferece à horda de foliões que parecem vindos de uma caravana do deserto. Alala-ô nunca fez tanto sentido e provavelmente foi escrita por alguém que teve a visão do futuro (ou do inferno?): bloco de rua em Santa Teresa às 10 da manhã de um sábado de fevereiro no Rio. Quem foi que nos sacaneou assim?


Lá pelas tantas, sentados no meio fio de uma ruazinha que parece ter aparecido para salva-los da morte por esmagamento, a mensagem de uma amiga que diz ter perdido-se do bloco. àquela altura, perdida também, eu não pretendia mais encontrá-lo...


Na volta, marchinhas na ponta da língua, mas não tem jeito: Aurora parece ser o grande hit de Momo. Na dúvida, ôô-ôô.

Almoço, banho e parte da dignidade está recuperada, mas ainda é cedo pra arriscar-se de novo, além do mais domingo às nove você precisa estar na Praça XV.

Amanhece chovendo, mas não há nada que impeça o Boitatá de sair, e sob a máxima do faça chuva ou faça sol, você entra no táxi e dá a ordem, se a canoa não virar eu chego lá. é um lugar onde chove torrencialmente, os amigos dos amigos vestidos de arca de Noé gritam “dilúvio!” , a venda de capas de chuva é maior que a de cerveja e você começa a rezar pra não ser acometido por leptospirose ou semelhantes. As pessoas brincando na praça alheias aos pingos que não dão trégua, e não há arlequim que me convença. Eu sou brasileira mas tenho um pezinho na Europa e desisto às vezes.

Meu carnaval encerrou-se prematuramente no domingo na sala quentinha com piano de uma amiga xará, me preparando para a dengue ou a pneumonia. Cervejas, prosecco, fotos dos amigos, conversas e um ipod cheio de Zero 7, Gotan Project e afins, nada que me lembrasse a horda de malucos atrás de máscaras pulando por aí em blocos, animados, felizes.

Dentro de um casaco de lã, meias e com xícara de chá em punho, a segunda de carnaval parecia pra mim a quarta-feira de cinzas, a chuva continuou caindo, seja o que deus quiser. Ano que vem tem mais e sempre bate uma loucura qualquer nessa época.

Porque só mesmo um pouco insano pra gostar dessa coisa não-higiênica que é o Carnaval.




:: ouvindo The Rolling Stones da casa do vizinho, sentindo saudades das pessoas do Carnaval de 2006!

quarta-feira, janeiro 30, 2008

*

Nos idos dos anos 90 a M.Officer lançou uma campanha cujo slogan era “beije o mundo”. Nas páginas da Capricho e nas camisetas vendidas nas lojas o que se via era uma imagem de figuras se beijando, pinceladas, coloridas e absolutamente apaixonantes.

Próximo aos anos zero eu descobri que uma das melhores amigas que tenho era filha do cara que pintava os beijos, os carros, as bicicletas e tantas outras. Esculturas, palavras, cada ida à casa dela, os livros, as exposições e era muita sorte estar próxima do homem que pintava beijos que eu tanto gostava.

Em 2006 eu virei uma figura semelhante às moças dos beijos, e era tão mais sorte ainda ter virado imagem do artista que eu tanto admirava, ter as fotos que ele fez e o meu rosto desenhado em papéis.


Em 2007 eu fui parar num de seus livros.


Em 2008, o Simpatia é Quase Amor desfilou camisetas semelhantes às da M.Officer em seu carnaval, mais uma vez o beijo pincelado estampado.

Em 2008 também, soube que ele não mais pintaria suas tão queridas séries de beijos.


Antes disso tudo, em 1978 após o incêndio no MAM do Rio a palavra “LUTE” ficou impressa numa das paredes do museu. “LUTE” fazia parte da “Cartilha do Superlativo” e era uma escultura do mesmo artista. A obra foi restaurada e integrada ao acervo do museu.


E mais do que isso seria tão difícil de contar.







domingo, janeiro 27, 2008

Arabia

Eu tinha acabado de ler um livro que eu achava que estava adorando, até a história toda dar uma amalucada e eu não entender mais nada, mas foi tão não entendido que eu nem podia pedir ajuda ou pesquisar qualquer coisa no google sobre o livro.

Então saímos para jantar, eu não sabia em que bairro estava porque eu não conseguia entender direito os limites daquela cidade onde as coisas não terminavam pra que outras começassem, ahaha, como era metafórico.

E então quando a conversa ia amena começou um papo sobre o sujeito de 30 ou 31 anos, talvez 34, que trabalhava no Societé General e fez um rombo e o economista da mesa explicou a todos algumas manobras do FMI e das bolsas e dos futuros e eu que já não estava esperta, sem entender literatura e delimitações geográficas, fiquei ainda mais burra naquele jantar.

Sem entender patavinas, entregue ao tabule, prestei atenção o máximo que pude, queria recuperar minha inteligência, moldada anos em colégio de padre.

Um bom samaritano sentado à mesa explicou como começou esse mundo de especulações usando exemplos simples de como os agricultores garantiam o preço de venda de seus produtos, evitando assim quebrarem caso houvesse um ataque de gafanhotos às plantações.

Eu que já estava burra e entediada concluí que essa gente do mercado financeiro se especializa em especular coisas e achei uma absoluta falta do que fazer que essa gente enriqueça loucamente enquanto metade do mundo está se matando.

Então eu concluí que além de burra e entediada eu estava também engraçada porque a minha conclusão gerou risos na mesa. Não sei se foram de solidariedade ou pena. Só sei que não fui eu quem dividiu a conta do restaurante, e certamente não serei a próxima milionária do grupo.

Terminei o jantar com o consolo de ainda conseguir fazer rir quem precisa.


:: "Descemos do ônibus pisando em poças de lama, subimos devagar as escadas (...) e lembrei que precisava achar um lugar para morar dentro de nove dias, agora oito (...) e que eu estava cansado de ser pago para guardar minha loucura no bolso oito horas por dia (...) e quis morrer, e lembrei que não conseguiria, e quis te dizer de como era bom que a gente tivesse se encontrado, assim, sem pedir, sem esperar, e soube que não saberia..."

Caio F. , O Dia de Ontem in O Ovo Apunhalado

quarta-feira, janeiro 23, 2008

A aula de ballet tem uma hora e quinze minutos. A de francês, duas horas. O almoço quase nunca dura uma hora, no máximo 20 minutos e as conversas diárias ao telefone com a Lena são sempre o mais abreviadas possível. Os banhos variam de dez a quinze minutos, sempre com certo peso por gastar tanta água. Os trajetos no Rio, nunca se sabe, depende da chuva, do sol, do humor.

É possível cronometrar o último filme que vi e marcar no calendário quanto tempo falta para as férias.

Mas pra me conformar com a partida inexplicavelmente precoce das pessoas, quanto tempo leva?

sábado, janeiro 05, 2008

01-08

Chega o momento na vida em que a pessoa começa a crer no que prega “O Segredo” e dá até mesmo trégua para o sujeito do Feng-shui. Tudo bem que é Janeiro e o clima nessa época é de renovação, o que dá margem para novas crenças e esperanças, deixando qualquer um propenso à evangelização. Janeiro é o mês em que todos estamos frágeis, fazendo um balanço do ano que passou e apostando fichas nos meses que seguem, como se a mudança de ano tivesse um poder invencível de transformar tudo.

E então, dizem, é preciso fazer uma lista por escrito dos desejos para o novo ano e imediatamente esquecê-la e não perder o sono pensando no que escreveu.

Aí é dia 4, faz muito, muito calor mesmo, a pessoa se dá conta de que não viverá tempo suficiente para pular o próximo carnaval e cumpre uma parte do que ensina “O Segredo”: esquece toda a lista de desejos, almoça junkie e fuma um cigarro.


:: Sharon Jones & The Dap Kings

sexta-feira, dezembro 28, 2007

(pequeno desvario de fim de ano)

"Ao fazê-lo, ele dava voz a sua discordância em relação à teoria do engajamento de seu amigo."
(Camus e Sartre - O polêmico fim de uma amizade no pós-guerra, Ronald Aronson, pág 161)

Continuando a brincadeira da Ana .

Se fosse a segunda frase do Prólogo seria: "Meu caro Camus: nossa amizade não era fácil, mas sentirei falta dela."

Se fosse outro livro a frase poderia ser bem mais interessante. Mas num escritório de lingerie no dia 28 de dezembro às 17:04 o único disponível era esse que estava na minha bolsa.

Eu me apaixonei por Camus no começo do ano. Foi com ele que traí Caio Fernando Abreu pela primeira vez. Mas não espalha.

domingo, dezembro 23, 2007

The end

Eu comecei a escrever textos para o fim de ano e depois de algumas semanas tentando resolvi desistir.

Eu ia contar de forma engraçada todas as maluquices do ano e de como uma lógica ao contrário e sacana se abateu sobre quase tudo.

Eu ia citar vários episódios, ia transformar tudo em histórias engraçadas. Mas depois de tantas confusões e correrias e de um dia inteiro dormindo eu lembrei de um sujeito que um dia disse “adoro seu blog de frases curtas em primeira pessoa”.

Então eu pensei que não tinha nenhuma novidade pra contar e mesmo que tivesse... os dias deste ano que se encerra foram tão caóticos que é preciso primeiro digeri-los para poder escrevê-los.

A única coisa que posso contar é que em meio ao caos que se instalou nas semanas de dezembro eu ainda arranjei um motivo pra achar que algumas experiências devem ser repassadas ao mundo.

Era tarde de alguma noite estressada e quando finalmente tirei os sapatos para dormir o celular apitou uma mensagem. O texto era uma frase curta em primeira pessoa: eu te amo. Demorou alguns dias para que eu resolvesse porque na verdade a mensagem era nitidamente engano. Pensei, pensei, reli o último post onde eu redescobria que o amor é realmente cego e finalmente respondi: eu te amo também.

Desliguei o abajur, virei pro lado e dormi, feliz por ter um novo amor!



:: o7's top 5 - Hairspray, Camus, Cordão do Boitatá, amigos lançando discos, a cura da coluna.

domingo, novembro 25, 2007

O dia em que o Béjart morreu

O dia em que o Béjart morreu foi o mesmo em que eu descobri que o ascensorista do prédio onde eu trabalho me ama. Nenhuma das duas informações foi fácil de descobrir e ambas poderiam ter passado despercebidas, não fossem algumas evidências que ocorreram antes mesmo que eu pudesse pensar em Béjart e ascensoristas de elevador de prédios onde eu trabalho.

O dia em que eu tomei conhecimento da existência do Béjart foi o mesmo dia em que eu tomei conhecimento da Lia Rodrigues e sua companhia de dança. Isso rendeu um post inteiro. E também rendeu, logo após a performance, uma conversa ao telefone com o Marcelo, que falou do Béjart. O Béjart não significava nada para mim até o exato momento em que o Marcelo, um pouco exaltado, perguntou como quem coloca muitas exclamações após a interrogação: VOCÊ NÃO CONHECE O BÉJART?!!!!!!! , e ele deve ter falado desse mesmo jeito, em caixa alta e negrito. Precisou eu ver Lia Rodrigues, comentar com o Marcelo, o Marcelo ficar decepcionado porque eu não conhecia Béjart, ver os videos do youtube enviados por ele, dar uma lida na Wikipedia e em sites de dança e ter a pergunta esfregada na minha cara repetidamente. A frase em caixa alta e negrito com exclamações VOCÊ NÃO CONHECE O BÉJART?!!!! ecoou na minha cabeça durante dias, e nem mesmo a minha tentativa de igualar meus conhecimentos de dança com o Marcelo me livraram da frustração de não ter sequer idéia de quem diabos era o Béjart.

Até que um dia, lendo um livro sobre a história da dança, lá estava ele: Béjart. O dia em que eu li o nome de Béjart se repetir em citações num livro que conta a história da dança eu entendi que cedo ou tarde Béjart e eu nos depararíamos num conhecimento mútuo sem fim e isso não poderia ser à tôa.

O dia em que eu tomei conhecimento do ascensorista, por sua vez, era o primeiro dia de trabalho dele, que passava a substituir o ascensorista antigo que havia morrido e a quem eu mal dava bom dia. Diferentemente da Velma Kelly que acha que foi a culpada pela morte do James Brown, eu não tive qualquer participação no falecimento do ascensorista antigo e sua morte me fez apenas acordar para a cordialidade que eu devia ter com o novo ascensorista. O que eu não podia supôr era que o novo ascensorista teria cabelo platinado e um cd gravado com as canções que ele costumava tocar nos bares e que ele emprestaria tal disco para mim. Eu não pude perguntar ao Marcelo: VOCÊ NÃO CONHECE O ASCENSORISTA?!!!! porque a resposta era bem óbvia, e a não ser que ele seja o próximo Roberto Carlos, eu jamais poderei esfregar na cara do Marcelo a sua própria ignorância.

Até que um dia, subindo ou descendo no elevador, o ascensorista platinado começou a puxar papo, eu ainda estava fragilizada pelo não-conhecimento do Béjart e acabei sendo simpática demais, de forma que a cordialidade virou-se contra mim no melhor estilo feitiço-feiticeiro e eu jamais consegui me livrar das conversas matinais que duravama 11 andares.

O dia em que o Béjart morreu foi o mesmo em que o ascensorista disse que me achava parecida com a Ana Paula Arósio. Eu levei na brincadeira porque ele também já disse que as pessoas o confundem com o Fábio Assunção e porque eu sei que com quem eu me pareço mesmo é com a Silvia Buarque. Mas quando eu percebi que ele estava falando sério o elevador parou no meu andar, eu escapei de uma conversa surreal que começava e então a epifania aconteceu. Eu entendi que tanto Béjart quanto o ascensorista, separados por léguas intermináveis de mais ou menos tudo o que eu poderia pensar (continente, profissão e principalmente tinta de cabelo) , tinham entrado na minha vida para que eu tivesse uma dupla epifania.

EU precisava saber quem era Béjart para dar a triste notícia ao Marcelo, que desolado até me perdoou pela minha quase gafe. E eu precisava saber que o ascensorista me achava parecida com a Ana Paula Arósio para lembrar de algo que há muito eu esquecera: o amor é mesmo cego.