segunda-feira, setembro 10, 2012

Sei que nada será como antes, amanhã*


Não sei como soube da existência de Inhotim, mas lembro de um dia, num bar com amigos, ouvir um deles contar que uma amiga recém-chegada de lá tinha definido o lugar como a Disney das artes. Também não sei se ela foi a curadora do termo, que apareceu depois em diversas reportagens e virou lugar-comum para descrever o instituto. 

Quando fui a Inhotim pela primeira vez, no carnaval de 2010, constatei a pertinência do adjetivo. Quando fui a Inhotim pela segunda vez, na Independência em 2012, constatei como a expressão havia extrapolado a conotação inicial e tinha virado outra coisa. E entendi como virar uma saudosista nesse intervalo de 2 anos. 

Previously, Inhotim era a Disney porque aquele lugar parecia não existir: uma terra de 400 hectares numa cidade do interior de Minas Gerais, sítio de um milionário da mineração, amigo de Burle Marx, que decidiu construir galerias para abrigar sua coleção de arte contemporânea, e que decidiu abrir seus portões à visitação. Era a Disney porque os pavilhões e galerias eram fruto de sonho, funcionavam à perfeição, eram limpos e cheios de funcionários simpáticos (em Minas isso não é de se espantar), e porque a experiência era sensorial, calma, em momentos até bucólica. Estar em Inhotim era renegociar sua relação com o tempo. Era tirar os tênis, caminhar sem quase cruzar com outras pessoas. Era, também, derramar lágrimas ao entrar em contato com instalações e obras que fogem à compreensão total, deixar de lado o condicionamento de ter que entender e dar conta de tudo, quase como desaprender racionalidade. Inhotim era um vazamento: um ter que administrar sua própria sensibilidade. Sentar na grama, olhar por outro ângulo, tentar ver ilimitado. Como dizem na Academia: ser atravessado por afetos. 

Passados 2 anos, Brumadinho me revelou a Disney sob outros aspectos. Alguma coisa se democratizou, mas não necessariamente a arte. 

O crowd na porta anunciava uma experiência muito diferente da que tive pela primeira vez. Inhotim 2012, usando emprestada uma expressão pejorativa, está infestado de haoles. Filas para a comida, para o banheiro, para a entrada, para os carrinhos que nos transportam aos pontos mais distantes, fila até para os bancos de madeira, para uma ou duas galerias, para fotos no caleidoscópio de Olafur Eliasson, que ganhou ares de entretenimento. A Disney dessa vez se operou nessa vertente: diversão. O que mais ouvi foram comentários irônicos e até debochados a respeito das obras expostas em Inhotim, coisas na linha do “mas isso até eu faria”. Outras falas demonstravam a completa incompreensão diante de trabalhos que parecem mesmo incompreensíveis. Vi guerra de almofadas dentro das Cosmococas de Hélio Oiticica, redutos de famílias inteiras que de certa maneira subverteram toda a lógica daqueles ambientes. Crianças nadando na piscina de abecedário, restaurantes lotados de grupos de amigos, poses e mais poses para fotografias dos belos cantinhos dos jardins, brincadeiras, lanches, instagrams e outras tantas posturas que indicavam que boa parte dos visitantes não estava tendo epifania alguma, tampouco se preocupava com conceitos, ideologias, intenções ou discursos artísticos. A Disney, para eles, é feita dessa alegria descompromissada, de um bonito dia de sol, de achar graça das coisas, e a outra Disney, de certa forma, diminui frente a esta, bem mais barulhenta e caótica, e que acaba se impondo aqui e ali.

Então fico nessa encruzilhada: de um jeito ou de outro, todos estão expostos à arte. Conversando com uma amiga à saída do instituto, caímos naquele papo cheio de crença nesses encontros: "Ainda que inconscientemente, Inhotim forma um público, a arte ganha adeptos e é melhor pra todo mundo." A gente que mergulha nesse universo tende a achar que é melhor pra todo mundo, porque às vezes o que parece não fazer sentido é indiferença, ou ficar longe de toda essa produção, não querer entender o processo, passar batido por cores e sons, ignorando toda e qualquer possibilidade de redenção. Mas a impressão que dá é que aquele também virou um lugar de lazer, de passeios, de paisagens. Não é pecado nenhum, é só outra coisa, e eu mesma me peguei nadando e rindo numa piscina que, cá pra nós, ninguém me convence de que seja algo mais que uma piscina. 

Não deixa de ser elitista ou preconceituoso achar que meu jeito de viver Inhotim é melhor do que essa nova Disney. Não deixa de ser romântico achar que todo mundo deveria sentir o que senti quando, neste sete de setembro, passei meia hora na galeria Miguel Rio Branco, ou quando voltei ao galpão Cardiff & Miller pela terceira vez, e tudo aquilo veio à garganta de novo. Se todo clichê fosse permitido, diria que é mágico, porque é se esquecer de si mesmo um pouco. 

Inhotim, para mim, é esse estado de suspensão. É cenário onírico, quase utopia. Um súbito gostar de patos.



obs. didática: fui muito feliz em Inhotim ambas as vezes. Mas para pessoas irritadiças como eu, recomendo evitar feriados. 


* Nada será como antes, Milton Nascimento.

 

quarta-feira, agosto 29, 2012


Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Procura da poesia, Carlos Drummond de Andrade. 


 

quinta-feira, agosto 16, 2012

Conclusões # 01


 O trânsito é sempre pior às terças e quintas e é sempre quinta quando sucumbo à Coca-cola e a confissões inconfessáveis, como confessar que não tenho entendido nada, nada mesmo, e que hoje cheguei em casa e não sabia nem se tinha tomado banho de manhã.

quinta-feira, agosto 09, 2012

O novo porteiro da noite


Não passa de três semanas a data do email da professora de literatura em que ela dizia ter gostado muito do meu pequeno trabalho acadêmico, por sua vez enviado cerca de um mês antes da nota 10 que me chegou via gmail. Desconfiei um pouco dos critérios dela, porque no fundo sabia que haveria trabalhos bem mais relevantes que o meu, mas sorri assim mesmo: a nota 10 me tornava oficialmente uma cdf, e justificava as semanas, até mesmo meses, em que vivi uma vida regrada onde quase não havia espaço para refrigerantes, carne vermelha ou badalações. Tudo isso e um outro 10 na disciplina de artes visuais me levaram a uma rotina reclusa, e foi preciso entrar de férias para perceber a presença de um novo porteiro da noiteno prédio.

Eu chegava de taxi de um jantar que me deixou apaixonada por polvo, e um tanto embriagada por causa de duas ou mais jarras de sangria. Desconfio que dois goles de cerveja já teriam sido suficientes para aquele levitar do álcool, frente à abstinência autoimposta dos meses precedentes. Fato é que, antes que eu pudesse encontrar minhas chaves no fundo da bolsa, o novo porteiro da noite abriu a porta para mim. Não era um horário extravagante, confesso, mas já era hora dos bêbados voltarem aos lares, o que automaticamente significava que porteiros da noite estariam adormecidos. Fiquei surpresa, mas julguei que aquela era a primeira semana de trabalho do novo funcionário. Ao me informar sobre o assunto, descobri que o novo porteiro da noite assumira o cargo bem antes do que eu pensava, e já completava seu segundo mês ali. Blame it on literatura, pensei. Meu argumento era mais que justificável pro meu total desconhecimento do novo porteiro da noite.

As férias seguiram animadas, e cada vez que cheguei à portaria depois da meia-noite me surpreendi com o fato do novo porteiro da noite seguir sempre alerta. Foram inúmeras as vezes que saí do taxi ou da carona com as chaves na mão, eventualmente até mesmo com os sapatos na mão pra não acordar o homem, e lá estava ele: de olhos bem abertos, acionando portas, dando bom dia, chamando o elevador. Sem me dar conta, apliquei um teste à resistência do porteiro da noite, chegando em casa cada vez mais tarde. Tão tarde, às vezes, que o turno já havia sido trocado e eu dava de cara com o porteiro da manhã.

O fato do novo porteiro da noite não dormir alterava a ordem das coisas a tal ponto que fiquei ligeiramente obcecada. Toda vez que alguém me dava carona até em casa eu puxava assuntos com a pessoa, a fim de ficarmos estacionados em frente ao prédio, pra que eu pudesse observar o comportamento do porteiro, pra que eu pudesse flagrá-lo acordando. Eu não me conformava, e nesse exercício de arranjar cúmplices, acabei arranjando alguns beijos também, porque os meninos começaram a interpretar essa minha demora em sair do carro como uma tentativa de sedução, mesmo que eu explicasse toda essa história de novo porteiro da noite. Tava na cara que isso só fazia sentido pra mim.

Quando as férias terminaram, descobri duas coisas: todo mundo tinha tirado 10 nos trabalhos de ambas as disciplinas da pós-graduação, o que foi um balde de água-fria em 14 pessoas. A segunda coisa é que tinha havido uma mudança de síndico no prédio, e que ele pensava em eliminar o porteiro da noite, não só o novo, mas a função em si, a fim de corte de gastos. Convocou-se uma reunião extraordinária em que defendi com unhas e dentes a permanência do porteiro da noite, especificamente daquele, que àquela altura só me via chegar de taxi, porque ninguém mais agüentava minha conversa nonsense na porta do prédio, e porque meu ritmo de estudos recomeçava. Em breve, eu nunca mais veria o novo porteiro da noite até dezembro, porque estaria estudando feito louca pra manter meu c.r., mesmo que ele fosse um embuste.

Logo depois da assembléia que votou a favor da permanência do porteiro da noite, assegurado de seu emprego, o novo porteiro da noite sucumbiu: tirou um cochilo justo quando esqueci de levar minhas chaves.

quarta-feira, agosto 08, 2012


And the vampires. You used to know where you stood with them – smelly, evil, undead – but now they are virtuous vampires and disreputable vampires, and sexy vampires and glittery vampires, and none of the old rules about them are true any more. Once you could depend on garlic, and the rising sun, and on crucifixes. You could get rid of the vampires once and for all. But not any more.

Margaret Atwood em I dream of Zenia with the bright red teeth, conto que está no livro dos 10 anos da Flip.

quarta-feira, julho 25, 2012

Espuma


“Também perguntam muito: ‘o que você está fazendo?’ e que é uma maneira de aproximar e afastar as pessoas, porque é a maneira de colocar a pessoa julgando ela mesma. Eu não sei nada, mas sei que estou nascendo, todos os dias.”
Hélio Oiticica, julho de 1978 em entrevista para Lygia Pape (in Encontros / Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Azougue, 2009)

::

Eu estava no mar enquanto pensava onde é que eu tinha lido que os surfistas são o Sísifo de nosso tempo. Não encontrei a fonte. Eu estava no mar, não tinha como procurar. Eu estava no mar e pensei que isso fazia muito sentido. Pensei em “Como uma onda”, pensei na Bahia, pensei que finalmente posso dizer que sinto saudade da Bahia. Sinto saudade desse lugar também, embora ainda esteja aqui. Sinto saudade de tudo o que gosto imediatamente, e sinto tudo imediatamente: gostar e saudade. Em doses iguais.

A gente também é Sísifo, por um lado, acordando todo dia, repetindo os mesmos gestos. Pensei em “Cotidiano”, em fim das férias. Eu estava no mar e pensei que logo ia sair do mar, e que tudo então seria esperar voltar pro mar, esperar os dias de sol, e esperar os dias de sol em que eu estivesse novamente de férias, e os dias de sol e de férias em que eu estivesse aqui nesse lugar, ou na Bahia.

Eu estava na varando vendo o sol cair, e vendo aquela praia onde ninguém pode ir, e ouvindo ondas, e de repente tudo ficou daquele jeito: a potência de um começo e um esmorecer das forças, porque tudo poderia ser assim: mergulho, orgasmo, ducha, ballet, literatura, fogo, embriaguez, um dia, amor, qualquer coisa que se sonhara.

Eu estava no mar quando tirei os chinelos e os óculos e entrei na água fria. Eu estava no mar quando me deixei boiar e olhei pro céu. Eu estava no mar quando pedi o almoço e sentei à mesa. Eu estava no mar quando comi camarões rosados, e eu estava no mar quando bebi a segunda cerveja, e a terceira, e eu estava no mar antes das 4 da tarde já bêbada. Eu estava no mar quando queimei o pé na sauna. Eu estava no mar quando tomei banho e descobri a marca de biquíni e quando me joguei na cama ainda meio úmida. Eu estava no mar quando descobri que faltavam as páginas 471, 472, 473 e 474 do livro que eu tinha acabado de começar. Eu estava no mar quando bebi toda a água que tinha na geladeira e quando acordei e já era hora de comer de novo. Eu estava no mar quando fechei as janelas e sem precisar de pijama, dormi.

Eu estava no mar e teria perdido telefonemas, e-mails e afins, mas eu estava nesse lugar que não existe justamente porque nos dias anteriores eu era tão ninguém, e o único refúgio possível era esse, onde só eu conhecia, onde eu podia pensar o que quisesse, sem ter de explicar, pedir, insistir e continuar sem. E sem ter de rolar pedra. Eu estava no mar. E quando eu sair e alguém perguntar, embora não haja quem queira saber, vou procurar aquele livro. Eu estava no mar. Eu estava no mar, repito se for preciso. Eu estava no mar. 

segunda-feira, julho 09, 2012

Classificados

Faz uns dias botei no ar um blog novo e que aceita colaborações. O primeiro post é uma espécie de manifesto e traça os rumos da conversa que se pretende estabelecer por lá. Mas não se engane: nem tudo é verdade, nem tudo é mentira. 

Em breve coloco por aqui algumas notas sobre a Flip, e algumas dedicatórias novas da minha coleção.

terça-feira, julho 03, 2012

segunda-feira, junho 25, 2012

Digite sua senha


Fiquei muito gripada aquele mês, e no seguinte também, e no outro, e na quarta vez que tive que avisar no trabalho que ia faltar, liguei pra homeopata pedindo socorro, porque eu estava com medo de ser demitida por hipocondria, o que pra mim dava justa causa e tudo. A homeopata, entendendo que além de gripada eu estava no auge de uma alergia, me receitou Zyrtec, alopatia pura e tradicional. No dia seguinte, no trabalho, tive que sair mais cedo porque o Zyrtec, apesar de ter me feito voltar a respirar pelo nariz, me derrubou e quando acordei eu estava dormindo em cima de um original da coleção Blanche da Gallimard. E nem era culpa do romance. Zyrtec, concluí, era tão bom pra rinite quanto pra insônia.

Esse foi o início da minha desilusão com a homeopatia, porque se na hora do vamos ver a médica me mandava um tarja preta da descongestão, então é porque até ela se iludia.

Por essa e outras, não recorri a ela quando me bateu uma ansiedade daquelas de atrapalhar o sono. Maio virou e de repente as coisas começaram a não caber: as coisas nos dias, as roupas em mim. Quando junho chegou eu estava num tal estado de nervos e num tal declínio estético que comecei a correr na esteira do prédio da minha irmã, pensando que a medida extrema resolveria dois problemas. Então caiu nas minhas mãos um livro de autoajuda pra editar, agradeci aos céus e perdi meu i-token do banco.

Eu andava comprando livros loucamente, pensava até em voltar pra análise pra tratar de compulsão quando me dei conta de que o i-token tinha sumido há, pelo menos, três dias. Por um lado era bom: significava que eu não encomendava livros desde a sexta-feira, pois não teria conseguido concluir as transações internéticas de pagamento sem o tal dispositivo. Por outro, era um pesadelo, porque a agência na frente do trabalho estava com falta de i-tokens, a Rio+20 ocupava tudo e eu não conseguia nem chegar até a Rio Branco sem ser abordada por todas as militâncias possíveis, tentando angariar mais um pras suas causas.

Imbuída de coragem e absolutamente necessitada de um livro sem o qual não poderia concluir um dos 3 trabalhos acadêmicos sobre os quais me debruço há quatro semanas, lá fui eu.

Quando a mocinha do atendimento me deu um novo i-token, ela exclamou que eu ia gostar muito mais desse novo modelo, que nem tinha nem botão pra apertar. Já fiquei nervosa aí. Eu adoro botões. Grande parte da minha birra com tablets e smartphones vem justamente do fato de eles trazerem em si a extinção dos botões. Eu gosto de apertar. A tecla de espaço é uma das minhas preferidas. Quando a mocinha do atendimento do banco que me deu um novo i-token disse que as senhas apareceriam ininterruptamente no visor, mudando a cada sessenta segundos, senti meu coração apertado, todo meu corpo tomado.

Mas panicar mesmo eu paniquei depois que comprei mais um livro num site e deixei o i-token sobre a mesa, e quando percebi o desespero que aquele aparelhinho ligado para sempre me causava. Ter o novo i-token do banco é como usar um relógio de ponteiros que não te deixa esquecer o tempo nem por um segundo. É um horror.

Eu não telefonei pra homeopata pra falar da ansiedade provocada pelo dispositivo do banco, com medo que ela me receitasse um floral, porque está muito claro pra mim que nesse momento preciso de um bom ansiolítico, de preferência um desses bem controlados. Concluí também que um cartão de crédito poderia resolver a questão do pagamento via internet, evitando com que eu tivesse de fazer docs e pagamentos online, ou seja, reduzindo significativamente o acesso ao i-token. Mas mesmo dentro da bolsa, não consigo esquecê-lo, e só de pensar que ele está ali gerando números que nunca serão usados ou lidos, já me dá uma exaustão enorme.  

Antes que a sexta gripe começasse ou que eu enlouquecesse e comprasse um livro de cada autor da FLIP (ok, comprei 3), corri uma maratona, tomei Zyrtec atrás de Zyrtec e, finalmente, fui demitida por invalidez.

quarta-feira, junho 20, 2012

Tudo que é imaginário tem, existe, é. 

Estamira, no documentário Estamira, de Marcos Prado.





(Essa é uma das muitas frases que, pra mim, poderiam ter saído da Remington de Clarice Lispector.)

domingo, junho 17, 2012

Propriedade

Uma hora mais tarde Julio recebe seu pagamento: três notas de dez mil pesos com as quais tinha pensado em se virar durante as duas semanas seguintes. Em vez de ir para seu apartamento ele faz sinal para um taxi e pede ao motorista que dirija trinta mil pesos. Repete, explica e até dá o dinheiro adiantado para o taxista: siga em qualquer direção, rode em círculos, em diagonais, tanto faz, eu desço do seu taxi quando bater nos trinta mil pesos.

Alejandro ZAMBRA. Bonsai. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Na minha mesa agora habitam, temporariamente, quatro livros que não são meus. Três deles são de alguém que tem manias semelhantes às minhas: nome e data na folha de rosto, marcadores de páginas coloridos, riscos a lápis marcando trechos. O outro tem carimbos de biblioteca, etiquetas laterais de biblioteca, numeração de biblioteca, cheiro de biblioteca e aquela quase virgindade das páginas. Ninguém ousou quebrar a lombada, e me angustia pensar se devo ou não fazê-lo.

Imagino a bronca. O livro da biblioteca tem de ser devolvido exatamente como encontrado dois dias antes. Três dias antes. Pretendo pagar uma multa de R$ 1,50 só pra não ter que ir à biblioteca no dia que não tenho aula na Universidade, segunda-feira, data de devolução do livro. Se for preciso, pago mais R$ 5,00 por ter quebrado a lombada.

Eu quebro lombadas. Imagine ler a biografia da Clarice Lispector edição de bolso sem quebrar a lombada. Seria uma prisão.

Não gosto de coisas que não são minhas. Sou controladora, é por isso que gosto de ler. Gosto de poder rabiscar as páginas. De deixar aquilo meu. De ensaiar garranchos, de ver os sublinhados que dizem que estive ali. Acho que daria pra escrever uma autobiografia colando frases sublinhadas de livros. Talvez à primeira vista não fizesse sentido. Mas pense só.

Ou uma autobiografia feita de assinaturas em livros de presença de exposições.

Joyce Pascowitch foi ao MAM dia sete de abril de dois mil e doze. 

Eu ainda compro lápis, mas fico pensando quem mais. Gosto de cheiro de lápis. Gosto de tudo onde se possa ver a passagem do tempo. É clichê, mas dá pra fazer uma lista: folhas de papel, folhas de plantas, canetas, paredes brancas, sapatos de salto, sapatos sem salto, livros, pele, cabelos.

Gosto de morder os pescoços dos homens que passam pelos meus afetos. São as marcas. Sou controladora, é por isso que gosto de ficar sozinha. E de ler. E de ter as minhas próprias coisas, e de poder, num chilique que nunca acontece, rasgar as páginas, se eu quiser. Ou quebrar lombadas, todas minhas, partidas ao meio, fazendo com que eventualmente a encadernação se danifique, as páginas se soltem, as palavras se percam.  

Quatro livros emprestados, angústia de não poder possuí-los. Depois de amanhã devolvo tudo. Até lá, desenho nas paredes.

quinta-feira, junho 07, 2012

Bartleby


-       Quanto tempo durava a conversa ao telefone?
-       Uns quarenta minutos.
-       E assim foi durante cinco anos?
-       Assim foi durante cinco anos.
-       Você nunca viu João pessoalmente?
-       Não, nunca vi.
-       O entregador chegou a ver ele?
-       Só uma sombra, ou a mão que surgia de detrás da porta para, rapidinho, estender o dinheiro. Às vezes, ele já deixava um envelope com o dinheiro no chão.
-       Mas isso é piração, Garrincha.
-       Isso é João Gilberto, meu senhor.


Marc Fisher, em diálogo com Garrincha, o cozinheiro que durante anos preparou o steak ao sal grosso que João Gilberto encomendava (Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto. Companhia das Letras, 2011).

sexta-feira, junho 01, 2012

Por uma "esquerda" menos ensebada

(Agradecimento especial à Eugenia, sempre cheirosa e penteada)


É possível que a terminologia usada neste texto esteja defasada, e que o grupo de pessoas aqui referido já tenha merecido um termo cunhado neste ano de 2012. Para todos os efeitos, creio que tal grupo será identificado facilmente pelo leitor, pois que tal figura está totalmente disseminada no cenário urbano carioca. Vale ainda acrescentar que não pretendo que este “estudo” seja tomado como julgamento, aprovação e/ou reprovação das gentes citadas, e que deve ser lido como uma observação bem parcial desta que vos digita.

::

Faz pouco o carioca adotou prática já implantada há dezenas de anos em países avançados, e desde então uma série de discussões e debates toma as redes sociais em prol do uso da bicicleta, da construção de ciclovias, de respeito ao ciclista etc. Uma horda de ciclistas sem via, por sua vez, adotou o pensamento do motorista que estaciona na calçada por falta de vagas. Seguindo essa lógica, os ciclistas se aventuram no meio das pistas de rodagem, ultrapassando carros e motos como se não houvesse amanhã, numa atitude desafiadora ao sistema, e dispensam até mesmo o capacete. Em poucos meses uma verdadeira militância surgiu na cidade, e um ódio a veículos automotivos começa a ser cultivado entre os usuários deste transporte “alternativo”. As aspas são puramente pessoais. Transporte alternativo, para mim, é helicóptero.

O que me interessa nessa deliberação acerca do hábito da bicicleta, porém, é tanto mais um fator que, creio, não seria exagero afirmar como estético, e que assola o grupo sobre o qual pretendo refletir.

A minha geração os denominou “sujinhos”. Um sujinho, basicamente, era um sujeito de barba rala e bigode, mais charmoso que bonito, mais inteligente que bonito, mais divertido que bonito, mais intelectual que bonito, enfim, mais coração que cara, e tudo isso ficava evidente no modo de vestir, de falar, de gostar. Frequentemente um “sujinho” está ligado a alguma atividade artística, e circula por shows, teatros, cinemas, museus, galerias, eventos de poesia, mais recentemente passeia por sambas em pracinhas com coreto etc. Um “sujinho” tem engajamento político, discos de vinil e usa seu perfil na rede para divulgar notícias, reportagens e matérias sérias sobre temas relevantes. Ele não é umbiguista, jamais posta fotos do cachorro e preserva sua privacidade. Check-in é algo que envolve uma companhia aérea, um aeroporto e milhas. Um “sujinho”, ora, é mesmo um pouco sujinho, ou ao menos tem aquela aparência de “fim do dia”, momento em que deve estar se encaminhando pra casa, pra tomar um banho antes de jantar, trepar ou dormir.

Habitualmente, também, um “sujinho” é “contra o sistema”, e portanto, em 2012, nada mais natural que um “sujinho” se converta em ciclista. O que, por conseqüência, o torna oficialmente sujo.

O “sujinho” com sua bicicleta está potencialmente mais suado, oleoso e com cheiro vencido. Faça o exercício: vá à abertura de uma exposição, a um festival de teatro, a uma mostra de filmes e perceba como, à mera aproximação de um “sujinho” te dá um ligeiro tremelique de asco, e seus passos automaticamente andam pra trás, numa tentativa de se afastar desse cara para quem a limpeza ficou em segundo plano. Minhas últimas incursões em ambientes dominados por “sujinhos” foram infelizes, a ponto mesmo de adotar uma postura de recusa, e uma resolução de somente me aventurar de novo em tais domínios sob forte gripe e congestão, o que evitará o mau cheiro (no meu nariz, obviamente).

Quando o anjo torto incitou Drummond a “ser gauche na vida”, ele não fez alusões à falta de aprumo. Ele não estabeleceu parâmetros pelos quais ficava o sujeito isento do ritual de sabonete, xampu, condicionador, desodorante. Também não fez odes ao suor, a peles oleosas, a cabelos ensebados. A sujeira não devia ser intrínseca a essa tribo, mas acabou sendo incorporada por ela, bem antes das bicicletas, que vêm agora sublinhar o caráter inhaca da revolução que, com sorte, será televisionada, evitando portanto o meu contato pessoal e a troca de fluidos com esses militantes.

O que eu não saberia dizer é quando essa “tribo” contestou os valores de higiene que eu julgava até então em voga. É um mistério para mim.

Uma das poucas heranças que temos do nosso “bom selvagem” é o hábito de tomar banho todo dia. Seja você árcade, romântico ou neoconcreto, ao ser indagado sobre o que temos do que ainda é considerada a “origem” do homem brasileiro, citará o banho, ainda que isso não nos aproxime de nossas raízes nacionais. Nem mesmo debaixo do chuveiro os nossos pensamentos se conectam à figura do índio.

Natural seria, portanto, que o banho fosse adotado irrestritamente por todos os que ainda sejam imbuídos de alguma ideologia (e nostalgia), pois que a defesa do legado daqueles que foram massacrados pelo sistema seria a arma-chave para esse pensamento do “sujinho” que quer, justamente, derrubar o mesmo sistema.

::

Como disse acima, este não é um manifesto, é apenas uma sugestão em prol da socialização (no sentido de encontros, bate-papo, flertes etc. entre tribos que um dia já foram igualmente cheirosas). Mas se você está de acordo, por favor, assine embaixo.

quarta-feira, maio 16, 2012

Lanterna dos afogados - capítulo VI


Às vésperas de completar um ano de natação, percebi que, en fait, fazia quase dois meses que minha rotina aquática consistia em ir a uma aula e faltar a três: a lógica de uma respiração a cada três braçadas, adotada no estilo crawl, rompeu as fronteiras das raias e instaurou-se nas manhãs de segunda e quarta. Quando me dei conta disso, sentei, ponderei, calculei: meu maiô carcomido precisava ser descartado, o plano trimestral renovado, a fé no esporte restabelecida. Durante duas semanas (nas quais, obviamente, dormi mais do que nadei) só pensava no que fazer, no que poderia substituir tal atividade, no que poderia me fazer feliz, em como seria minha vida sem essas manhãs molhadas, e percebi que, qual um poema de Manuel Bandeira, a natação varria tudo: eu roia unhas, chacoalhava os pés, encharcava o cabelo de cremes, aproveitando os dias sem cloro enquanto tentava restaurar os cachos castigados pela química, e a minha vida ficava cada vez mais cheia de água.

Seguindo os mesmos impulsos que me fizeram mergulhar no mundo natatício pela primeira vez, e tendo como norte uma existência sem contraturas musculares, sem hérnia de disco, quiçá sem dores nos joanetes, o que saboreio desde que toda a saga começou, joguei o velho maiô no lixo e adquiri uma lycra Speedo, pois que me sinto perfeitamente apta a ostentar, não mais apenas um figurino, mas um estilo de vida. E cruzei três cheques. E então, como numa novela onde a mocinha só é feliz no último capítulo, eis que três novos personagens cruzaram meu caminho. Na verdade, cinco. São eles:

1)     O maiô Speedo. O maiô Speedo foi comprado em meio a uma conversa telefônica com alguém por quem talvez eu esteja perdidamente apaixonada, o que já confundiria toda e qualquer decisão. Além disso, o pós compra do maiô Speedo consistia numa enorme tigela de sopa de tomate e queijo gruyere em excelentes companhias que já me aguardavam no restaurante. Ou seja: não experimentei o maiô Speedo, e a ao chegar em casa cortei as etiquetas, lavei o maiô, pendurei pra secar. Quatro dias depois, às 6h15 da manhã, concluí que o maiô Speedo não cabia em mim. Eu já estava de pé, rosto lavado, café da manhã tomado. Lá fora ainda estava escuro, lá dentro eu me atochava num maiô que era um número a menos. E assim fui nadar, socada em elastano, o breu no mundo.
2)     O breu no mundo. É maio, ficou frio, é antes das sete da manhã. Qualquer pessoa com amor próprio pensaria “what the fuck”.
3)     “What the fuck”, diz a voz interna que se faz cada vez mais nítida toda vez que o novo professor de natação conversa, e ele conversa muito, e ninguém me avisou que haveria uma troca de instrutores, o que teria catapultado a minha (agora percebo) teimosia em permanecer nesse (agora entendo) suplício. O novo professor de natação usa chinelo crocs, sunga, camiseta e uma touca pendurada na cintura. Ele depila as pernas. Ele teoriza sobre o fato de que não é a natação que deixa as pessoas gripadas, é esse entrar e sair da água. Ele filosofa sobre uma pixação que por anos habitou um muro na Gávea – “pra que o medo se o futuro é a morte” – afinal, “a única certeza que a gente tem é que vai morrer”. Breu no mundo. Maiô apertado. 6h40 da manhã.
4)     Do outro lado da raia vem nadando a todo vapor, depois de uma “virada olímpica” na margem, uma mulher que logo julgo ser exibicionista, insegura, egocêntrica e carente. Ela nada golfinho como se treinasse pras Olimpíadas de Londres, eu me encolho em meu humilde crawl, mas é batata: a mão esquerda dela me estapeia. Choro dentro dos óculos de natação, dou meia volta ao chegar na borda oposta pra evitar o professor, penso em fazer xixi na água só de raiva da mulher nadando golfinho.
5)     No vestiário, depois da aula, o dia já está claro, já são 7h30, luto pra tirar o maiô, penso “what the fuck”, penso em cortar as alças do meu Speedo preto, penso em sustar os cheques, em comprar uma bicicleta ergométrica, em entrar na yoga, em fazer um curso de meditação, em comprar 10 latas de sopa Campbells, e, quando estou saindo, passo pela senhora que nada antes de mim e que agora seca seus cabelos, e que diz “você é muito rápida, já nadou, já saiu e eu aqui ainda secando os cabelos”. Não seria um problema, mas ela repete a mesma frase, duas vezes por semana. E ainda que já passe das 7, e ainda que eu nem respondesse, mas assumi meu papel e digo “mas eu não tomei banho”, ao que ela responde “ah, vou contar pra todo mundo!”, ao que saio correndo, maiô no saco, minha pele marcada pelo elástico do modelito PP (embora fosse M) que não me veste, meu desespero, minha sede, meu cansaço.

Uma das minhas músicas preferidas dos últimos meses, e que é a única que conheço do Grateful Dead, toca em looping na minha cabeça, e já a culpo pela minha permanência estendida na natação: and it’s just a box of rain. Me apeguei a essa máxima. É só uma caixa de chuva, que mal pode fazer? Mas no fundo eu sei que é muito mais que isso. Hoje, voltando pra casa, confesso: me deu saudade do Carlão.





quarta-feira, maio 09, 2012

Superlua


Aquela noite nos agrupamos em volta de um telescópio pelo qual não conseguimos ver a lua, o que não foi de todo um problema porque ela estava exatamente sobre nossas cabeças. Inclinamos pescoços, olhos e torcemos mãos,  pés, tiramos e colocamos o mesmo anel cem vezes do e no mesmo dedo, desajeitamos e reajeitamos a franja compulsivamente, mesmo embora eu nem tivesse uma, e demonstramos nossa inquietude de todas as formas possíveis enquanto relembramos tudo o que já fumamos nessa vida: canetas, chocolates em forma de cigarro, cigarro mentolado, cigarro light, cigarro extralight, cigarro, maconha, maconha em papel de fax, incenso (que em idade mais tenra também era usado como simples produtor de fumaça para dar mais veracidade à lareira feita de Lego). Além de ser difícil, por vezes utópico e/ou desesperador, parar de fumar, concluiu um de nós, é chato pacas, especialmente para os tímidos, os que não têm franja, os que não usam anel, os que vão a shows sozinhos. Qualquer pesquisa indicaria que homens carecas terão mais dificuldade em largar o vício que mulheres vaidosas.

Aí lembramos de como era o mundo quando as pessoas fumavam nos ônibus, nos restaurantes, nos shoppings. Como era o mundo antes da segregação que condenou o fumante a ficar quase sempre de pé na calçada, um olho nas cinzas e na guimba pra nada cair no chão, outro na bolsa pra nada ser levado. Quando nós éramos fumantes na calçada, ainda antes de nos conhecermos, antes de nos consolarmos em uníssono exclamando o quanto estamos mais cheirosos, com a pele mais viçosa. Deleite também é o fato de deitar a cabeça no travesseiro e as mãos terem odor de mãos, em vez de exalarem essência de Marlboro na cama. Chato é nunca mais poder assistir a um filme da Nouvelle Vague, onde todo mundo fuma e todas as mulheres têm franjas invejáveis.

A essa altura de desolação, a lua já caindo pro outro lado do muro, todas as outras pessoas que não a gente dançando kuduro na pista, porque era 2012 e o mundo funcionava nessa tentativa de eliminar o gestual do fumante – lânguido e charmoso, porque até disso dava saudade, daquele leve apertar de olhos ao tragar, do ângulo do braço, do queixo empinado ao soltar a fumaça – para perpetrar o sacolejo duvidoso de certas danças, arquitetamos a fuga. 
Porque tínhamos nos tornado seres ultracheirosos, saudáveis e cheios de anéis (“eu vou tomar aquele velho navio”), não nos restou outra opção senão irmos para nossas respectivas casas, vangloriarmo-nos, nos escuros dos quartos, da resistência contabilizada em calendário e caixas de Rivotril. 

Na manhã seguinte, mais um dia, a felicidade de não precisar de meio pote de Listerine para aplacar o gosto de nicotina misturado ao bafo matinal, um tutorial no youtube para aprender o Madison, quem sabe na próxima festa temos mais sucesso.

quarta-feira, abril 18, 2012

MAM


     And he stole from the rich and the poor
     and the not-very-rich
     and the very poor
     and he stole all hearts away

     Morrissey in First of the gang to die.
 

     - Você acha que quando a gente sonha com os mortos, são eles mesmos falando com a gente?
     - Acho que sim. Por que?
     - Você já sonhou alguma vez?
     - Nunca. Tenho medo. Toda noite antes de dormir eu rezo e peço pra nenhum deles aparecer.
     - Você tem tantos mortos assim?
     - Bisavô, bisavó...
     - E quando você encontra a mesma pessoa sistematicamente?
     - Em vida? O quê que tem?
     - Você acha que Alan Kardec também tem alguma coisa a ver com isso?
     - Não, acho que a gente mora no Rio e não teve verba pro elenco.
     - Mas e se tiver outra razão?
     - Você quer que tenha?
     - Quero.
     - Por que?
     - Porque as coisas não podem ser tão simples e geográficas assim. Você passa dias pensando num fulano, de repente encontra o fulano três vezes na mesma semana. É muita coincidência, não acha?
     - Alan Kardec não acredita em coincidências.
     - Eu sei. É isso que eu to dizendo.
     - Entendo. Tipo aquele cara ali de bermuda verde. Eu vejo esse cara tanto por aí que eu fico achando...
     - Que tem uma razão ainda desconhecida pra vocês se cruzarem tanto, é claro!!
     - Eu ia dizer que fico achando que ele tem um gêmeo ou dois. Ele é onipresente.
     - O nome dele é Pablo.
     - Como você sabe?
     - Eu o encontro sempre também.
     - Mas você conhece ele?
     - Não. Mas sei que ele se chama Pablo, é ator, mora na Gávea.
     - E como você sabe isso tudo? Você investigou o cara?
     - Não investiguei nada, só acabei sabendo. Esse cara é o começo da minha desconfiança de que tem um mistério aí que a gente não tá descobrindo. Outro dia eu estava no cinema em São Conrado, olhei pro lado e lá estava: Pablo. Ninguém vai ao cinema em São Conrado!
      - Você acha o que? Que tem um misticismo que poderia ser interpretado como “ele é o homem da sua vida”? Ou que é tudo mais triste e ele está te seguindo porque é psicótico?
      - Às vezes parece que eu é que sou a psicótica e o estou seguindo. Mas não sei. Talvez ele seja o homem da minha vida. Ou talvez ele tenha gêmeos mesmo. O que me angustia é pensar que eu nunca vou saber. 
      - Mas você pode simplesmente ir se apresentar pra ele, ora.
      - Poderia.
      - Então por que não aproveita?
      - Porque e se for tudo o contrário do que eu imagino?
      - Mas...
      - Pode perder a graça, entende?
      - Pode ter muito mais graça! Ele pode ter 4 irmãos gêmeos e ser justamente o que a gente nunca encontra porque foi fazer mestrado na Sorbonne, e ele pode achar graça da abordagem e te convidar pra tomar um drink. Ou ele pode mesmo ser o Pablo-ator-que-mora-na-Gávea e te dar um folheto pra assistir a peça dele, que pode ser engraçada pacas e salvar seu domingo, ou pode ser bem caída porque ele é péssimo ator ou porque o figurino é vergonhoso. Ou ele pode ser o Pablo-ator-que-mora-na-Gávea e ser um estúpido achando que você é mais uma fã histérica que o persegue em exposições.
      - Ele não tem fãs. Muito menos histéricas.
      - Como você sabe?
      - Ele tá sempre sozinho. Acho que é por isso que a gente o vê tanto. Ele é um andarilho que fica por aí fazendo vitrine de si mesmo.
      - Mas que mania de botar solidão nos outros!
      - Não é mania.
      - É sim. Toda história sua tem alguém sozinho ou que perde o trem ou que sonha com mortos.
      - Do jeito que você fala parece que toda história minha é composta de gente deprimida e viciada em prozac. 
      - E não é?
      - Claro que não.
      - Claro que sim! Em todos os seus casos, nunca ouvi de nenhum que a pessoa tenha perdido o trem por causa de um descontrole de gargalhada.
     -  Eu nem nunca te contei nenhuma história de gente perdendo trem. De onde você tirou isso?
      - Do Pablo, ora! Foi só eu sugerir uma multidão de irmãos pro Pablo que você rapidamente desinventou minha versão e deixou o cara abandonado, sentado numa sala escura de projeção de slide de fotos de gente comum em que todo mundo se ama, menos o próprio Pablo.
      - É você que está dizendo isso! Você tá distorcendo toda a ideia que eu faço do Pablo.
      - E qual é a ideia que você faz do Pablo, então?
      - Nem sei. E quer saber? Nem me interessa tanto assim o que o Pablo faz, onde está em cartaz a suposta peça dele ou qual foi a resenha que ele possa ter recebido da Barbara Heliodora.
      - Ah foi, péssima, coitadinho, lembra aquela segunda-feira no Baixo? Aposto que ele estava bebendo pra esquecer...
      - Debochada.
      - Alto lá, foi você que começou com toda essa especulação a respeito do Pablo.
      - Eu estava especulando sobre esses encontros repetidos que acontecem. Essas pessoas ficam no meu imaginário mais tempo do que eu gostaria e acabo me perguntando se elas não estão aí pra dar algum recado. Ou se é porque em algum momento eu vou começar a atuar com elas.
      - Por isso te sugeri ir lá e tornar alguma coisa concreta, contracenar e, quem sabe, descobrir se ele tem uma revelação, se daqui a seis meses ele vai te pedir em casamento ou assassinar seu irmão por espancamento. Ou se ele é só alguém que tem mais ou menos a nossa idade, os nossos interesses, o nosso nível de escolaridade e o nosso tédio e frequenta os 4 lugares que ainda sobraram pra se frequentar por essas bandas.
      - Você acha mesmo que o Pablo é tão básico assim?
      - Nós somos tão básicas assim. Se ele for, qual é o problema?
      - O problema é que aí ele não teria muito o que agregar, caso ele fosse uma pessoa destinada a agregar alguma coisa na minha vida.
      - Falando assim você deixa o Pablo sem saída. Ele virou uma equação insolucionável e me parece que a única tábua de salvação pro Pablo voltar a ser alguém interessante é matá-lo.
      - Você tá tratando o Pablo como se ele fosse personagem de uma peça ou de um texto.     
      - E mesmo assim, mesmo morto, ele poderia voltar e te assombrar num sonho onde ele explicaria que ele não passa de um ator que mora na Gávea e que sequer teve uma resenha publicada no jornal, que a performance dele nunca mereceu atenção e que ele se sente, ou se sentia, honrado com todas as possibilidades que você criava pra vida dele.
      -  Você criava.
      - Nós criávamos.
      - Por que a gente tá falando no passado?
      - Porque o Pablo morreu.
      - Quando?!
      - Agora há pouco. Acidente de carro. As pessoas já estão comentando nas redes sociais, encontrando fotos do Pablo adolescente, do Pablo com a primeira mulher, do Pablo na muralha da China...
      - Como era bonito...
      - Mas estava magro demais. Quando o vimos naquela exposição achamos que ele estava doente, lembra?
      - Lembro...
      - Ele tinha emagrecido pra encarar um papel no cinema...
      - E te prometeu convites pra pré-estreia...
      - E eu perdi a pré-estreia e nunca mais falei com o Pablo depois porque você ficou com ciúmes.
      - Eu não fiquei com ciúmes. Você inventou isso pra se afastar dele porque no fim concluiu que ele era meio chato.
      - Quer saber? Acho que você amava o Pablo. Ele tinha um jeito de falar com você que parecia que seus olhos iam explodir de tanta luz. E você ria do Pablo, e ria com ele, mesmo ele sendo básico ou mágico ou sei lá como era a cada vez que você forjava uma novidade sobre ele. O Pablo teria gostado de saber, mesmo que fosse paixão platônica. Talvez até ele te amasse também.


Sentadas num banco no meio do mezanino do museu de arte moderna, uma delas derruba uma lágrima. Se abraçam. Descem as escadas apressadas, fazem sinal para um taxi, dão ordem de seguir até o São João Batista.

terça-feira, abril 17, 2012


vai
e
esqueça a linha que te segue
                                    te cega
                                    te trança

não há costura que te possa


Ericson Pires , Canto II in Pele tecido, 7 Letras 2010. 

quarta-feira, abril 04, 2012

( )


Não faz muito tempo fiquei fã do Paulo Henriques Britto, que lançou seu novo livro na Travessa essa segunda. Eu estava lá na fila de assinaturas, dispensei o chope com os amigos pra vir pra casa e começar logo a ler.

Hoje quando postei os poemas (abaixo), não tinha ideia de que a mulher de Paulo Henriques Britto tinha acabado de morrer em decorrência de um AVC, que se deu no final da noite do lançamento.

Eu não conheço o Paulo e nem sua mulher, mas nesses tempos estranhos em que todo mundo morre de repente, fiquei profundamente comovida com mais essa.

A gente não assina esses acordos, o que torna essa negociação da morte muito injusta e chocante pra nós que ficamos.

Esse sítio tende a ficar mórbido. Desculpem-me, não sou ficcionista e por aqui o negócio tá feio.

Quatro bagatelas

I.
Todas as soluções são boas,
menos a que você escolher. 
Escolha, sim. (Mesmo que doa,
dá uma espécie de prazer.)

II.

Nenhuma explicação 
entre o pé e a mão. 
Transcendência nenhuma
entre o sabugo e a unha. 

Ao corpo, masmorra sem porta,
pouco importa que você morra. 

III.

Viver momento a momento
com a insensatez dos insetos
que arremetem impávidos
contra o real da vidraça
obedecendo sem trégua
à lógica imperturbável
que trazem em suas entranhas.

IV.

Vida sempre rascunho, folha sem pauta,
pasto de lacunas e rasuras,
risco sobre risco, pré-
-texto de nada.



Paulo Henriques Britto in Formas do nada, Companhia das Letras, 2012.