domingo, julho 06, 2008

My Lasanha de Palmito Nights

Quantas panelas existem em Paraty? – foi a pergunta que nos fizemos enquanto esperávamos a sobremesa que já demorava mais de 40 minutos para chegar à mesa. Não foi só a sobremesa. A média de espera de qualquer prato na maioria dos restaurantes é de 40 minutos, o que nos fez questionar a existência de fogões e panelas nas cozinhas de cada estabelecimento. A demora em conseguirmos a conta também foi um mistério. O refrigerante, a entrada e os peixes, por que tudo demora tanto? Será que os peixes são pescados no momento em que se faz um pedido aos atendentes?

Para comer em Paraty são necessários bons amigos, paciência, bom humor e eventualmente uma (ou mais) rodada de pôquer. Essa talvez seja a primeira das dicas de nosso guia especial de sobrevivência na Flip, que foi esboçado entre um bobó e outro. Que não se deve olhar pra frente ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico, isso todo mundo sabe. O que nós revelamos, porém, nem o Lonely Planet desconfia.

Os restaurantes, em sua maioria, não fazem reservas e não organizam lista de espera com o incompreensível argumento de que a mesma causaria confusão. A aventura já começa aí: conseguir uma mesa requer astúcia e vigilância. Ou um bom guardador, foi o que descobrimos no restaurante tailandês. Uma vez sentados, entre tosses e espirros (causados pelos fortes aromas que impossibilitavam qualquer frase longa sem obstáculos), observamos a poucas mesas de distância um homem que ocupava 6 lugares. Ele estava sozinho, falava ao celular e não consumia sequer um copo d’água. Pouco depois, cerca de 5 pessoas chegaram e o homem calma, e quem sabe famintamente?, se foi. O mesmo homem foi visto no dia seguinte guardando um lugar na fila de autógrafos para seus contratantes. Uma bela sacada.

Idéia genial, também, é perguntar se o prato que você escolheu está realmente disponível, literal e metaforicamente falando. Pode acontecer de você descobrir, depois de cinqüenta minutos de espera, que o seu pedido não chegou porque faltou arroz na casa. Ou água na cozinha e por isso as louças não puderam ser lavadas ainda. Não é piada. Depois de ter perguntado três vezes sobre o meu picadinho que não chegava nunca fui informada de que não havia picadinho na casa, o famoso tem...mas acabou!. É nesse momento, então, que se tem a maior revelação: Paraty fica mesmo é na Bahia.

No caso da água que acaba, carregue seus talheres, copos e pratos descartáveis, ou tenha sempre um balde água para contribuir. O mesmo balde pode servir para o banho, visto que 90% dos chuveiros das pousadas e hotéis da região são elétricos daqueles de água ralinha, o que faz com que nós possuidores de cabelos cacheados demoremos o triplo de tempo na função. Baterias para secadores de cabelos também são boas opções para não causar curto-circuitos indesejáveis. Mas pra não haver perigo mesmo, duas soluções práticas: escova progressiva antes da viagem (daquelas em que a pessoa é proibida de lavar os cabelos por três ou quatro dias) ou uma coleção de chapéus.

Tenha certeza de que pelo menos um dos chapéus possui abas que encobrirão parcialmente seu rosto, isso evita olhares reprovadores de vizinhos de cadeiras quando você acordar de um cochilo no meio de uma palestra arrastada, sem graça e complicada, elas existem, felizmente não tanto quanto as portas coloridas que enfeitam a cidade. Os chapéus também servirão para você tentar enterrar-se nele quando as declamações constrabgedoras de poesia começarem, essa dica é quente: fique longe do sarau da casa do príncipe. Fique longe também da praça decorada por artesãos e crianças locais, isso pode ser ainda mais assustador que as pessos amalucadas fazendo performances de versos. Se for inevitável passar pela praça e se o tema for "personagens da infantil" por favor, faça de tudo para não se deparar com o poeta Gentileza. Sim, ele está lá, deve ter algo a ver com o não-fazer lista de espera, vai entender...

Tenha a certeza também de que todo e qualquer mau humor, fome, susto ou leitura dramática (no pior sentido) será recompensado por coisas muito simples: você terá tempo para papear com um bocado de gente bacana, as ruas tem nomes como "Rua do Fogo" ou "Rua do Comércio", o que a todo momento nos remete aos tempos de império, os passeios de charrete sobrevivem por lá, pintores de paisagens ingênuas montam seus cavaletes nos caminhos de pedras antigas, cachorros dormem no meio de filas para palestras sem se incomodar. O melhor, porém, é que em Paraty, algumas flores crescem sobre os telhados das antigas casas.

sexta-feira, junho 27, 2008

Letras

-Às vezes eu fico pensando como seria se o mundo tivesse seguido sem a invenção do Youtube.
-E do Google? Já parou pra pensar como seria o mundo sem Google?
-Pois é. Fico aterrorizada, só de pensar. Youtube, Google, Wikipedia...
-Imagina só. Antes do Google tudo fica meio embaçado pra mim. E eu amo todos da série: Google maps, Scholar Google...
-Você acha que no Scholar Google é possível encontrar as últimas mudanças sofridas pela língua portuguesa?
-Hummm não sei... só tentando.
-Eu fico um pouco confusa com essa história. A gente, que saiu da escola há muito tempo, como faz? Eu vejo a minha mãe, até hoje ela escreve “bôbo”, “lôbo”... As próximas seremos nós, escrevendo idéia com acento e vêem e vôo. Muito complexo isso.
-Mas...
-E não tem como a gente saber, sabe? Porque se fosse antigamente todo domingo ia vir um fascículo no Globo com as novas regras gramaticais, você ia juntando tudo e no final ganhava um lindo fichário pra colocar os fascículos. Mas não, os fascículos caíram em desuso!
-É, fascículos definitivamente são da era pré-Google.
-Tá vendo, a gente já começa a pensar o tempo em antes e depois de Google. E vendedor de Barsa?! Imagina se um dia você conta pros seus filhos que quando você era criança tinha uma coleção de enciclopédias E fascículos?!
-Hahahahahahaha ele vai precisar de um vídeo no youtube pra ilustrar!
-Vai, ele vai procurar na Wikipedia e vai ver fotos de Barsas e Britânias enfileiradas! Mas voltando às regras, devia ter alguma coisa desse tipo vendendo em bancas porque até as próximas edições de livros sobre gramática serem atualizados deve demorar um pouco, né?
-Deve demorar um pouco sim. E até o Word se atualizar vai demorar mais ainda.
-Mas você confia nas correções do Word?
-Nem um pouco. Outro dia eu escrevi “variadíssimas” e o Word dizia que estava errado. Por isso variadíssimas continuou.
-Mas por que você não procurou no dicionário?
-Porque o meu dicionário escreve “bôbo” e “lôbo”, que nem sua mãe.
-Depois de tantas mudanças, sinceramente, eu não confio nem no Pasquale.
-Não, não. No Pasquale eu super confio!
-Ainda? Mesmo depois dessa última leva de ajustes? Não sei não...
-Sim, porque a língua é viva e o Pasquale também. Além disso ele deve ter fontes de estudos mais confiáveis que o Google.
-Tudo volta pro Google, reparou? Mas mudando de assunto, consegui uma pousada pra Flip!
-Que maravilha! Machado de Assis esse ano! Pré-google total!
-Pois é. Inclusive vou dar uma olhada no Scholar Google pra ver se leio uns resumos da obra dele. Acredita que nunca li um livro dele? Não posso dar vexame, né?
-Como assim? Todo mundo leu pelo menos Dom Casmurro! Dom Casmurro era tipo... o Google nos tempos de escola, ninguém estava imune a ele!
-Eu sei, eu li esse, mas foi o que você disse, na época da escola, naquela idade qualquer livro que a escola mandasse ler a gente já achava chato na primeira página.
-Hummm verdade. A gente gostava de livros fora do sistema escolar, né? Nesse caso, dê um Scholar Google. Mas tente não entrar em discussões muito sérias sobre o Machado. E finja desmaio caso peçam sua opinião.
-Ok. Mais algum conselho?
-Conselho não. Tenho que terminar essa tese. Até agora desenvolvi bem, mas não consigo concluir, não sei concluir coisas, saca? Você sabe?
-Olha eu até acho que sei, a minha psicóloga certamente diria que não.
-Hahahahaha, a minha diria o mesmo. Mas e nos textos? Preciso terminar esse trabalho, tenho que entregar amanhã.
-Eu não sei, toda vez que tenho que escrever alguma coisa os finais ficam sempre meio escrotos.
-Escrotos?! Eu odeio essa palavra. Essa é uma que podia ser eliminada da nossa língua, ia ser um grande favor. As pessoas se lembrariam daqueles tempos em que se dizia ‘escroto’ e se via o mundo ser dominado pelo Google.
-Ahahahaha que exagero!
-Exagero nada! Primeiro foi Coca-cola, McDonalds e tal. Depois de um tempo veio Nokia e Oi, eu tinha certeza que o mundo seria domindao pela Nokia ou pela Oi!
- E pelo presidente dos Estados Unidos? Nunca achou que algum deles ia dominar o mundo? Ou de repente Hitler e tal...
- Nada, tudo fichinha. Seremos regidos pelo Google, pode confiar.
- Será?
- Melhor do que pelos vendedores de Barsa...

segunda-feira, junho 23, 2008

Antes

Parece brincadeira mas foi o que ela disse: sua cabeça está fora do seu centro de gravidade e por isso você está com dor e vai continuar sentindo. Ela não era minha médica nem nada, era alguém na sala de espera enquanto eu lia para o ortopedista o laudo da ressonância. Isso tudo antes d’eu voltar pra aula de ballet e me empolgar num salto (que o professor dizia que era geté e eu tinha certeza que era saut d’ange) e sair da aula chorando com uma coxa direita estirada ou hiper-estendida ou destendida, nunca entendi muito essas pequenas lesões. Isso antes das cinzas do Kurt Cobain serem roubadas da casa de Courtney Love (!) e antes também da minha irmã ter problemas no rim e eu leva-la à Santa Casa porque a médica substituta do médico tradicional estava dando uma prova lá, e lá não lembra em nada Grey’s Anatomy, mas parece muito alguma coisa que a gente se acostuma a ver em documentários e certamente que aquilo merecia um. Isso também antes de comprar o cd novo da Madonna e de achar que hip hop não é tão ruim assim e eu sei que só achei legal porque é a Madonna e comprei junto também um disco do The Smiths e isso tudo antes de tirar os chinelos e sair literalmente correndo atrás de um amigo que passava de skate pela orla num domingo em que eu não encontrei um outro amigo que marcou um encontro que não poderia ser desfeito ou adiado porque ele estava sem celular, e no meio da corrida o cara do skate se afastava e a minha irmã e minha prima que tinham ficado sentadas riam da minha cara e eu comecei a rir também e desisti. Isso foi depois que o barraqueiro de uma outra orla encontrou meu celular que eu tinha perdido e me devolveu com uma foto de suas partes íntimas e essa história é verídica e bizarra. Isso antes do mesmo telefone perdido, e então reencontrado, cair no chão e só funcionar no viva voz e eu não poder mais conversar com as pessoas, mas não tem importância. Isso tudo também foi antes dos comentários deste blogue virarem demonstrações explícitas de ciúmes de amigos que querem que eu escreva sobre eles, não é muita pressão? Isso foi antes de dirigir o carro da minha irmã, agora já curada dos problemas de rins, e questionar se o meu carro tem mesmo direção hidráulica e de repente a dor de ombro e pescoço tem a ver com o esforço pra fazer curvas, além da cabeça que está fora do centro bla bla bla e tudo isso foi antes de entrar na chapelaria e a senhora me atender e fazer meu cadastro e dizer que se lembrava de mim, que ela não tinha esquecido meus olhos grandes, que geralmente olhos grandes são feios mas os meus não eram. Ela disse isso antes de oferecer seus serviços de numeróloga e tudo isso é claro que aconteceu em Copacabana onde aparentemente eu sou um ímã. Todas essas coisas antes de uma amiga comprar uma máquina de Frozen Margaritas e antes também do postal da Bebel ter chegado aqui em casa com um carimbo que ainda soltava tinta mesmo depois de ter atravessado um oceano. Isso também antes de ir ao Saara e andar pelas ruazinhas antigas do Centro e encontrar um casal de amigos dentro de um vagão do metrô, depois que o priminho neném (pós-neném na verdade) passou horas se escondendo atrás da cortina e gargalhando cada vez que eu o encontrava de novo, depois também de querer comer pizza com irmã e vó no dia 12 e concluir que certamente o Zona Sul teria mesa vaga (e de concluir também que se não tivesse a gente teria que dar um toque nos casais porque comemorar dia dos namorados no Zona Sul é muito loser). Isso tudo antes de uma amiga de infância casar com sorriso que parecia rasgar seu rosto e eu chorar feito boba perto do altar, antes da festa cheia de flores tão coloridas que pareciam mentira, antes dela dançar a noite toda e começar essa vida a dois, antes de receber o convite pra festa de despedida de mais uma amiga que se vai... Tudo isso aconteceu antes d’eu ganhar um SEGUNDO Santo Antônio, é muita pressão, agora fico aqui, tentando colocar a cabeça de volta no eixo, a coxa de volta no lugar, tentando escrever sobre todos os amigos ciumentos e chantagistas e tentando, principalmente, fazer amizade com os dois Santos que esse inverno aqui no alto tá muito frio e eu quero alguém pra esquentar.


sexta-feira, junho 20, 2008

A história que eu não contei ao telefone

Depois de finalizar as artes, deixei as impressões no silk de sempre. Rose perguntou como estavam as coisas no trabalho, fazia um tempão que eu não aparecia por lá. Eu disse que tinha saído do trabalho e já esperava a pergunta fatídica: e está aonde agora? De férias, respondi. Ela perguntou se eu ia pra alguma outra marca, eu disse que por enquanto não e ela disse que eu devia ir pra uma determinada marca, que eles estão crescendo muito, que tiveram de mudar o escritório de lugar (São Cristóvão, provavelmente) porque estão contratando muita gente e que eu deveria ir pra lá porque afinal eu sou tão competente (palavra dela). Ela disse que me daria os contatos, eu agradeci e fingi achar ótima a idéia (às vezes é melhor achar ótimas as idéias que os outros têm pra gente do que explicar...).

No dia seguinte cruzei com ela, a Rose, que tomava café na padaria. Ela perguntou o que eu fazia tão cedo ali e eu disse que vinha da fisioterapia que era no prédio ao lado (e na mesma rua do silk). Ela perguntou se eu fazia o tratamento com “aqueles dois rapazes”, eu disse que não, ela perguntou o que eu tinha, eu disse coluna ruim e ela disse que fez um período de reabilitação com os tais dois rapazes que você sabe, né Julia, eu fico muito tempo fazendo as artes lá na loja no computador, eu desenho muito e tive L.E.R sabe? Doía do pulso ao cotovelo, menina, eu tive até cárie porque não conseguia escovar o dente de tanta dor no braço! Ela disse que me daria os contatos dos dois rapazes que eles eram muito bons, eu agradeci (algumas coisas é melhor não discutir pois a conversa pode se estender para além do desejado).

No terceiro dia fui buscar algumas das telas que estavam prontas e ela perguntou se eu tinha ido aos desfiles, eu disse que não, ela me chamou pra ver as fotos de uma marca para a qual ela tinha feito as estampas. Muito orgulhosa e sorridente ela me mostrou diversas imagens do tal desfile e também o release da marca.

No quarto dia, quando fui buscar o restante das telas, ela disse que eu estava bonita e eu disse que deviam ser os efeitos das férias e ela disse que precisava de férias também porque estava muito cansada e tinha que fazer uma cirurgia, que tinha feito uma ano passado e precisava fazer a segunda logo porque você sabe, né Julia? Mulher depois dos 40 tem que tirar o útero porque ele vira foco de infecções e doenças e câncer e além disso que já tenho dois filhos e não quero mais, o problema é que se eu sair daqui pra operar isso aqui pára, né Julia? O meu médico já falou que só me opera se eu ficar um mês em casa de repouso e como é que eu vou ficar um mês em casa de repouso? Só se eu alugar um apartamento aqui em cima no prédio, aí sim!

Lembrei de uma vez em que fui lá, há meses atrás, e a Rose estava com os cabelos penteados como nunca tinha visto. Eu fiz um elogio e ela disse que tinha ido lá naquele salão ali novo em Ipanema, o creme deles é ótimo, você devia ir lá porque olha, o meu cabelo é ruim, né Julia, o seu já é bom, se você usasse o creme deles ia ficar ainda melhor porque solta os cachos, sabe?

Minha mãe, irmã e tia gargalharam quando escutaram essas histórias, junto com as minhas próprias risadas. Minhas amigas fizeram uma cara de “que tipo de conversas são essas que você anda tendo?” e eu fiquei quieta o resto do tempo...

Ficamos horas no telefone hoje e acabei não contando nada disso pra ele. Me dei conta de como ele faz muito mais falta do que parece. Besteira não ter contado. Ele entenderia e eu riria tudo de novo!

sexta-feira, junho 13, 2008

Para o Bruno

Bruno sempre fica moreno no verão. No inverno também, que ele continua indo à praia com sua manta que roubou do avião fazendo as vezes de canga. O Bruno perto de mim fica ainda mais colorido com toda sua morenice fora de época e diz que eu pareço européia. Eu concordo e ele sorri. Seus olhos não ficam espremidos por causa de seus sorrisos, nunca entendi como ele consegue. Mas se eu fosse o Bruno também sorriria sem apertá-los. O verde dos olhos do Bruno não é encontrado numa cartela Pantone, nem a morenice dele, parece que ele escolheu a dedo cores que ninguém mais no mundo consegue. Bruno acharia graça se soubesse que acho que suas cores são especiais. Mas na verdade engraçado mesmo é ele que fala sobre uma música e a canta em seguida, não sem antes hesitar e dizer “não, não vou cantar, tá tá bem, vou cantar uma parte”. E canta.

Bruno faz um gesto com os braços quando canta, nem deve saber. É como se os afastasse um pouco dando espaço pro peito se encher. Seus olhos verdes olham pra cima quando canta e as sobrancelhas espessas ficam ligeiramente arqueadas. As mãos têm um trejeito também quando ele canta. E a voz fica um pouco mais grave, menos rouca, mais calma. Ou mais serena, sei lá. O resto do tempo quando ele não está cantando ele fala rápido e ansioso.

Bruno diz que eu falo pouco. Mas na verdade é ele quem fala muito. Ele fala muito tudo, ele fala muito “meu irmão”, “pô”, ele fala à beça, ele tem uma necessidade tamanha de falar e às vezes, quando ele se pega tagarelando diz: “eu falo muito, né?”. Eu sorrio e ele concorda. Ele fala com as mãos também e repete sempre alguns movimentos que são tão dele que qualquer outra pessoa que fizesse só me lembraria o Bruno, um movimento com as duas mãos que ele não deve ter reparado tanto quanto eu. Eu gosto de reconhecer o Bruno nesse gestual tão particular, como se além das cores ele tivesse também músculos e ligamentos especiais que dançassem nesse ritmo grave e meio rouco e ansioso da voz que ele tem. O Bruno não deve saber metade dessas coisas que eu sei que ele tem (talvez ele saiba de outra forma).

Bruno diz que ficamos amigos porque insistimos muito, ou cismamos, sei lá. O Bruno perto de mim fica ainda mais meu e eu perto dele fico sempre mais dele, como a gente era da gente quando se via todo dia. Esses detalhes todos do Bruno que eu sei me dão a nítida sensação de que existe um Bruno que só existe comigo e todas as coisas que ele sabe de mim deve fazer com que exista uma eu que só existe com ele. É por isso que até hoje o Bruno e eu sempre voltamos.

Bruno acharia graça se lesse tudo isso que estou escrevendo dele. Mas rir mesmo ele riria se eu dissesse que desde que Santo Antônio resolveu me boicotar que todo dia 12 de junho acordo e penso: hoje é aniversário do Bruno. Talvez até esmagasse um pouco os olhos.

domingo, junho 08, 2008

Strangeways, here we come *

Peguei tanta chuva que comprei uma toalha, pendurei as roupas num cabide e vesti pijama o resto do dia todo, resto do último dia de trabalho, isso antes de ter que me esconder no banheiro pra ler a carta que ela tinha deixado na minha agenda porque eu sabia que ia chorar e como é que essas coisas mexem tanto com a gente, né?, ela virou uma dessas pessoas doces que só de dizer bom dia já despeja um pouquinho de sol na gente e no outro dia já não ia ter mais ela lá, nem nos próximos, parece dramático contando assim, e deve ser mesmo, mais de um ano nessa rotina e de repente ficam os dias sem ela e sem tudo aquilo que eles tinham durante meses, os dias, quero dizer, e agora os dias são tão o oposto do que eram e ficar aqui é somente o que não era ficar lá e é bom mas toda essa liberdade apavora um pouco, todas essas portas que pode ser que se abram seriam ótimas opções se eu soubesse em que muros elas estão, que casas guardam e como fazer pra chegar perto delas.

É quando vem um nervosismo atrapalhado e uma ansiedade de decidir e resolver, não importa muito o quão definitivas sejam as resoluções,o que importa é te-las porque andar na claridade é sempre melhor que no escuro, mesmo que a luz venha de lanternas que se apagarão, por alguns momentos é preciso ter alguma certeza ou pelo menos achar que tenho uma certeza que me empurre, o excesso de dias sem despertador às vezes dá pânico, a liberdade de repente parece tão assustadora que só o que é preciso é ter pra onde ir, mesmo que depois eu tenha que me mudar e me despedir de novo. Me despedir de novo vai doer de novo. E se acontecer sempre? E se não acontecer mais?
...

No quarto dia achei melhor dar um tempo, abrir a cortina, dormir de novo, dar uma volta, visitar a irmã, ir à praia, mergulhar, ficar com medo das ondas de novo, sentar no banquinho da sorveteria, almoçar comida feita na hora, tirar o pó dos discos, telefonar para os amigos, sair sem carro e sem muita hora pra voltar, não pensar tanto afinal nas portas, preciso primeiro fechar bem as recentes ou pelo menos passar a chave delas adiante, entender o fim das coisas e aproveitar a felicidade de tê-lo providenciado por sobrevivência, por saber que preciso acabar mesmo com isso ou aquilo, mesmo que doa e mesmo que falte ainda o mapa pro próximo porto, um dia vou abri-las, as portas, depois das férias, depois...



* "They said there's too much caffeine in your blood stream and a lack of real spice in your life" - The Smiths

segunda-feira, maio 26, 2008

Biblioteca

- Mas é que livro tem que ter aquele apelo, sabe? Ele tem que parecer que está flutuando sobre os outros na prateleira da loja. Às vezes não adianta ser um Oscar Wilde, o livro tem que acenar pra você, entende?
- Flutuando na prateleira da loja??? O livro tem que te acenar?? Que papo é esse?
- É uma figura de linguagem, oras. Ele tem que ter alguma coisa que te chame, sei lá.
- Tipo uma capa bacana?
- Talvez. Mas não é só isso. Uma vez eu comprei um livro porque a capa dele era genial e o título tinha tudo a ver e foi péssimo. Não durou dois capítulos. Não era de capítulos na verdade, era de contos. Meio um Caio F wannabe, sabe?
- Humm sei, esses são os piores, esses cretinos pretensiosos.
- Esse certamente foi.
- E o que você fez? Você parou de ler no meio? Que parar livro no meio é pesado, né? Eu me sinto péssima. Acho que se o cara teve a coragem de escrever um livro ele devia ser lido até o fim.
- Mas era ruim, mal escrito, mal pensado, mal diagramado...
- Mal diagramado?!
- Ok, não era mal diagramado, mas era mal tudo o que você consegue pensar. Até o nome do autor se você parar pra pensar é péssimo.
- Ahahaha agora você está exagerando, a culpa nem é dele.
- Pode não ser, mas que pessoa com aquele nome tem coragem de vê-lo na capa de um livro? Livro é uma decisão séria, é que nem filho, é pra vida toda!
- Ahahaha você devia fazer teatro!
- E você devia fazer uma lista pra mim, com livros bacanas que você recomendaria. Livros assim que você levaria pra Penedo pra ler na rede, sabe?
- Humm sei. Clarice. Raduan. Camus. Adélia.
- É. Mas esses são os de sempre. Sinto falta de uma novidade, sabe? De um impacto.
- Entendo. De um novo amor, né? Literário, quero dizer. De arrebatamentos. Sabe o que resolvi fazer? Ler os livros das músicas.
- Como?
- É, os livros das músicas. Aquelas. Dentro da Noite Veloz, Na Cinza das Horas, Flores do Mal
- Olha! Que genial! E Paraísos Artificiais?
- Esse livro tá em que música?
- “Meu amor se você for embora, sabe lá o que será de mim...” À Francesa, da Marina!
- Humm. Desconfio.
- Do livro? Ou do Baudelaire?
- Da Marina. “Eu tô grávida de um beija-flor” e tal, ela não é confiável.
- E “o inverno no Leblon é quase glacial” é confiável??
- Mas essa não tem livro, não tem problema. O negócio é aquela que a Calcanhoto canta, os livros se encaixam tão bem na letra que a maioria das pessoas nem deve saber que são nomes de livros, devem achar super metafórico e abstrato e poético ainda ter o seu cheiro dentro da noite veloz.
- Ahahahah e na cinza das horas mais ainda!
- Ahahahaha mas olha, a gente precisa descobrir outros livros de músicas! O Chico deve ter livros em músicas. Zeca Baleiro também. O Caetano tem um disco inteiro chamado Livro. Tem que ter algum livro na música!
- Sabe quem deve ter? Legião Urbana!
- Éééé, sempre tinha um Godard no meio da história, Bauhaus, Mutantes, tal. Tem que ter livro.
- Tem aquele “quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu”, sabe? Naquela música Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar.
- Isso não é livro.
- Claro que é. Dá um google nessa frase.
- Péraí... não. Não é livro.
- Mas é claro que é! De auto-ajuda! Posso vê-lo ao lado de “Quem ama não adoece”!
- Flutuando na prateleira?!
- Humm não sei... Mas olha, tem outro: “o sol nasce pra todos só não sabe quem não quer” de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”. E também “e hoje em dia como é que se diz eu te amo?” De "Vamos Fazer um Filme"!
- Ai meu deus. Daqui a pouco você vai dizer que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” é um livro de auto-ajuda também.
-E não é? Gente esse negócio vicia, as músicas deles são um celeiro de livros de auto-ajuda! Olha só: “com você por perto eu gostava mais de mim” ahahaha e não é que nessa tem? “estava lhe ensinando a ler On The Road, coisas desiguais”!
- Éééé! (...) Kerouac, é? Não sei não...
- Por que, não é confiável também?
- Tanto quanto o Engenheiros do Hawaii. Eles tem um livro numa música, Pergunte ao Pó. O nome da música é outro.
- Mas e então, ficamos na mesma, né?
- É. Esse aí que você comprou por causa da capa. Como foi? A compra, quero dizer.
- Ah foi um dia qualquer. Ele se destacou, não sei bem. Digo, ele acenou pra mim na prateleira.
- Mas você já foi querendo um desses bons? Quero dizer, você já foi comprar um livro epifânico?
- Sim, eu queria um desses.
- Entendi. Talvez a gente deva procurar qualquer coisa, uma frase, sei lá. E não uma epifania toda, sabe? Já experimentou ler o primeiro parágrafo dos livros?
- Não. Pode ser uma idéia.
- Melhor do que achar que algum está flutuando. É que nem conhecer pessoas. Aquela coisa de primeira impressão e tal. Como foi que você encontrou o Caio?
- Ele me encontrou. Numa epígrafe de um livro que eu ganhei. Foi muita sorte.
- Verdade. Como faz então?
- Acho que não faz. Continuamos ouvindo músicas, sei lá. Da última vez fiz uma enquete e acabei lendo um livro que tinha mudado a vida de duas pessoas. A minha continuou igual.
- Sabe que livro mudou minha vida?
- Sei. Mudou a minha também. Será que depois de um tempo eles mudam mais alguma coisa? Ou mudam de novo?
- Acho que não. Mas não custa tentar, né?
- É, não custa. Ainda mais que eles continuam acenando, né?

- Ou será que estão tentando nos dizer tchau? Tem gente que diz que você deve passar os livros adiante, deixar nos sebos, talvez a gente devesse comprar livros dos sebos. O seu que você ganhou...
- Foi de um ex-amor, o sebo, o sebo é uma boa idéia. Se não der certo fica resolvido: compramos novos discos.

quinta-feira, maio 22, 2008

Diário de bordo

A transportadora entregou um dos 5 volumes trocado. Eram 4 rolos de tecido e uma caixa, a fábrica recebeu 5 rolos de tecido e zero caixa. Me telefonaram pra saber o que deveriam fazer com o tecido branco. Liguei para a transportadora pra dizer que um dos volumes tinha sido trocado. Depois de informar endereço, cnpj, inscrição estadual, cep, telefone, razão social, número da nota, endereço de destino, depois que a moça da transportadora entendeu que dos 4 volumes só um tinha sido entregue errado, depois que ela entendeu que o destinatário é que tinha recebido errado e não eu, depois disso a atendente perguntou pra onde tinha ido o volume errado. Eu respondi que não sabia porque eu não estava no caminhão no momento da entrega.

Houve uma greve de transportes no Espírito Santo e por conta disso nenhum dos funcionários da estamparia foi trabalhar e por conta disso também a produção das estampas atrasou alguns dias.

Os consertos de uma das modelagens deram um total de R$ 18,00. Eu precisava de troco para R$ 50,00. Combinei com o fornecedor que o boy passaria pra buscar e ele voltou com R$ 18,00 de troco. Telefonei pro fornecedor pra explicar que na verdade o troco era de R$ 32,00 e eu precisava do complemento. O fornecedor me enviou mais R$32,00 e de novo eu tinha os R$ 50,00 iniciais. Eu achei tudo muito engraçado e quis fazer aquele gráfico de pizzas ou enviar um esquema de fulan-tinha-50-laranjas-comeu-18-quantas-restaram-? Alguém acredita nisso?

A fábrica mandou uma caixa cheia de etiquetas de tamanho P, M e G todas misturadas. Elas medem cerca de 2,5 centímetros e a capacidade da caixa é de 10 mil etiquetas. Eu precisava de umas 200 de cada tamanho. Algumas horas depois eu consegui.

Eu estava experimentando um sutiã na sala de reunião quando o boy passou pela porta. Eu estava vestindo uma camisola de renda semi-transparente quando o arquiteto chegou...

Uma cliente enviou um sutiã para conserto reclamando que a costura do fecho incomodava suas costas. Eu queria mandar pra ela um sutiã Scala sem costura. Algumas clientes enviaram peças sujas para conserto. Não quero entrar em detalhes.

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Na manhã de terça arrumei a mesa. Limpei as gavetas, joguei fora os papéis, organizei as informações importantes numa pasta dividida por assunto, me livrei dos inúmeros retalhos de tecidos de outras coleções, copiei os telefones de todos os post-its na agenda do computador e até mesmo as planilhas foram melhoradas. Os arquivos de imagens e referências eu copiei no pen-drive, os lápis e canetas foram para a gaveta e o porta-trecos voltou pra minha casa, uma lista de instruções e pendências foi crescendo e em algumas horas a minha mesa estava mais ou menos como no dia em que a recebi de outra pessoa.

Ir embora sempre envolve uma faxina física.

Então eu comecei a enviar os emails. A lista de destinos era extensa, mais de 50. Eu sei que não vou ver mais essas pessoas com quem tanto falo no telefone, pessoas que vendem tecidos, que fazem modelagens etc. E é justamente quando você se dá conta de que o convívio com as outras pessoas, as que sentam nas mesas ao lado vai terminar. Algumas piadas, algumas epifanias, algumas risadas, alguns suspiros, algumas partes de nós só funcionam ali. Algumas das meninas estão preocupadas em saber quem será a próxima. Ficam pensando em como vão viver o dia a dia estressado sem as minhas imitações e cenas. Eu também não sei o que vou fazer sem a gargalhada delas. Não é bom pensar nisso ainda.

Antes preciso resolver o problema das camisolas. E terminar de enviar os emails que os dolorosos mesmo eu deixei pro final. A sorte é que as respostas chegam logo, todos me desejando boa sorte e sucesso, me pedindo meus telefones de contato e dizendo o quanto sentirão minha falta.

Pode ser tudo mentira ou ensaiado, não importa: sair do trabalho faz bem pro ego.

quinta-feira, maio 08, 2008

Carta a D.

My dearest,

Fazia tempo que queria mesmo parar. Ficar um dia em casa, ouvir músicas que me lembrassem você, te escrever.

Às vezes acho que o meu corpo funciona como um termômetro da minha cabeça e então percebo que preciso desacelerar.

Parece que o frio já começou por aqui. Voltamos a dormir de meias em casa, a praia está com aquele clima constante de fim de tarde e os cafés voltam a encher. Já tomo meu chocolate quente sem culpa. E chás. Uma pena, tiraram a minha sopa preferida do cardápio daquele restaurante. Quis protestar mas o garçom foi taxativo, a minha sopa não dava o menor ibope.

Ainda está quente aí?

Os noticiários continuam falando de coisas absurdas. Os anúncios de supermercado continuam absurdos também. Isso me faz pensar em como as pessoas não devem ligar pro que vêem. Acabo sempre desligando a tv. Estou com uma pilha de livros que não diminui. Ando sem foco, sem concentração. Esta semana emprestei dois livros a uma amiga. Um deles já estava na prateleira há um tempo. O outro mal tinha chegado. Foi um daqueles...! Li em poucas horas. Nunca empresto livros recém-terminados. Eu crio uma espécie de relação com os livros, preciso tê-los por perto, preciso reler trechos, gosto de saber que eles estarão ali. Gosto desse tempo de digestão, de ler arrebatamentos e de saber que eles estarão ali guardados e prontos para serem abertos de novo. Conversei sobre isso na análise.

Preciso me desapegar um pouco. Não, acho que não é isso. Mas preciso aprender a sofrer menos. Ao ficar longe das pessoas, ao me despedir das etapas, ao emprestar livros especiais para os amigos dois dias depois.

Ontem conversando ouvi: “Descobri que existe um lugar onde o chocolate é melhor que na Suíça. Acho que é na Bélgica”. Um pouco antes ele já tinha dito que havia viajado pelo mundo sem sair do lugar. Era o motorista que me levava até. Ele trabalhou anos num hotel. E foi lindo e triste ouvir aquilo. Eu tive vontade de comprar uma caixa de chocolates belgas para ele. Entende o que eu digo? Essas coisas me tomam, eu não sei como evitar. É o mesmo com os livros. Com as músicas também. Com os meus amigos.

Perguntei pra um deles outro dia quais eram as novidades. Um dos amigos, eu digo. Ela respondeu que havia parado de roer unhas. Eu gargalhei! E entendi. Entendi que essa era a resposta que eu podia esperar. E quis dizer a ela que a minha novidade era que voltei a dançar. Mas não voltei. Sabe, essas coisas dizem muito mais sobre as pessoas. Lembra quando me apaixonei por um cara que tinha uma rede no quarto? É isso o que acontece comigo. Eu aprecio os detalhes. E acho que eles são tão mais significativos. Talvez seja por isso que sofro tanto.

Encontrei aquele cara de novo. Não o da rede, o outro, você sabe. Não houve nada. Mas morremos de saudade em um segundo. Enquanto ele respirava no meu pescoço e eu no dele. Talvez três segundos... Eu sei que é bobagem. Continuei sentindo saudade depois, não sei ele. Mas sei que durante aquela respiração nós dois tivemos certeza um do outro e vai ver é isso... Eu sempre uso reticências quando falo dele, eu sei. Ele também usava quando falava comigo. Dava pra ouvi-las.

O que você tem escutado?

Acho que desisti daquela viagem. Na verdade não sei bem do que desistir. Sei que acabo insistindo em coisas por tempo demais, em pessoas e então de repente reavalio tudo e me bate essa dúvida. E então eu sinto aquilo que te disse no começo, uma dor nas costas, uma dor!

Hoje de manhã não consegui acordar. Ontem cheguei em casa chorando e minha mãe me deu um remédio. Acontece que hoje não houve jeito de sair da cama porque o remédio era muito forte e eu estava sonhando com a casa de Penedo. E eu precisava me esconder, precisava ficar num canto onde ninguém me encontrasse. No sonho. Eu era criança no sonho, dava passinhos pequenos. Eu não queria ir embora da casa de Penedo porque lá era muito seguro e voltar para o Rio era diminuir ainda mais o tamanho dos passos. Eu me escondia sob um lençol dentro da sauna e tentava apagar minha sombra na porta.

Eu estava apavorada no sonho. Eu estava apavorada ontem também. Entende por que eu não conseguia acordar? A minha cama era como respirar no pescoço dele, quente, seguro, feliz. E desabraçar isso tudo...

Não soube o final, se me encontraram na sauna ou se eu achei meu caminho de volta. O telefone tocou. Eu queria que fosse ele dizendo "eu também". Era do trabalho.

Sei que preciso dormir mais uma vez, está na hora de tomar o remédio de novo.

É esse o momento do dia em que penso muito em você e no seu caminho. Lembro do vôo que fizemos juntas e me pergunto quando vamos nos encontrar de novo. Não sei se estou pronta pra ir até onde você está. Acho que preciso me reconstruir primeiro. Torço pra que você não demore.
O livro eu te mando.

Espero que os cães estejam bem. O meu parece estar um pouco mais calmo. Faz alguns meses que não morde ninguém. O seu namorado eu sei que está bem. As fotos evidenciam! Dê um beijo nele. E não o desabrace, promete?

Um beijo com amor,

Sua prima.

quarta-feira, abril 23, 2008

Caminito

Encolhida na cadeira da classe econômica, a luz individual não funciona do lado direito da aeronave, menos mal, assim ninguém vê que por dentro da mochila eu tento trocar o cd do meu discman Toshiba verde. Eu estava de saco cheio da dengue, do caso Isabella, do fato das pessoas apedrejarem supostos assassinos e esquecerem dos cartões corporativos e etc, resolvi passar o feriado junto dos hermanos que são muito mais revolucionários do que nós e o meu discman verde era uma forma de protesto, a minha ego-revolta contra a mp3 e computadores e internet e a falta de calor humano e o-que-aconteceu-com-hábito-de-escrever-cartas?, sabe essas coisas?

Foi assim que fui parar em Buenos Aires, torcendo pro avião poder pousar, torcendo para que a tal fumaça que invadiu a cidade nos últimos dias não fosse tão ruim assim e torcendo pra sei lá, caminhar, ver os parques, sentar nas praças e basicamente não ter que pensar durante alguns dias, não precisar conversar seriamente com alguém, sair de casa sem relógio e sem telefone.
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Banhos de banheira, passeios pelas avenidas, pães quentinhos e deliciosos no café da manhã, confortos e mimos dos anfitriões, flores na varanda, todos os episódios de Seinfeld a meu dispor, todos os episódios de I Love Lucy idem, pilhas de Vanity Fair para folhear, Vinícius e Caio F na cabeceira improvisada, folhas do outono começando a cobrir as calçadas. Eu sei, eu devia querer dançar tango, tomar vinho, comer bifes de chorizo no Puerto Madero e comprar bolsas e botas de couro a preços ótimos. Mas nós que não temos i-pod fazemos isso na Argentina: assistimos a uma série de 1952 no sofá da casa da tia enquanto tomamos sopa. Nós somos incompreendidos. Um dia nos chamarão vanguardistas.

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Tarsila do Amaral está em cartaz no Malba. Surpreendentemente não compro nada na lojinha do museu, eu que as adoro, saio de mãos abanando. Não compro a Lomo que queria, fico perdida entre latas antigas e compro uma de talco de 1920 e um liseuse que a vendedora afirma ser Vitoriano. Não duvido. A loja, numa das esquinas da praça de San Telmo é uma viagem no tempo. Com um pouco de imaginação, a parte do subsolo reservada às roupas vira um imenso camarim das antigas óperas francesas e italianas. A qualquer momento as bailarinas estarão por ali vestindo-se a apertando as sapatilhas. Suspiro. Quero morar na loja de dois andares da praça de San Telmo. Quero comprar as meias que não estão à venda. Quero a camisola de 1890 que custa muitos dólares.

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Fotografo postes, pombos, estátuas no cemitério, árvores, placas, bonecas antigas, os potes com utensílios de cozinha, o banco perto da porta, o banco sob a árvore, meu pé.

Me esforço na série "auto-retrato com braço esticado". Lembro da Carol e das considerações que ela fez quando viajou sozinha. Concluo que, mais que gostar, preciso viajar sozinha.

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Quase que tudo vai por água abaixo quando na volta o aeroporto está lotado, as luzes individuais do lado direito da aeronave seguem defeituosas, o sujeito ao meu lado insiste em puxar conversa e faz tanto frio tanto frio dentro do avião, peço um cobertor mas não há mais mantas disponíveis, tomo uma taça de vinho em copo plástico, como é que as coisas ficam decadentes assim? eu quero matar todos da Siberian Airlines.

Abro a caixa de chocolates, o discman parece não funcionar, insisto mais um pouco, verifico a posição das pilhas, penso que um tênis Keds e um perfume CK One combinariam com o meu jeito anos 90 de ouvir música durante viagens e de repente a música começa “She says Hello! You fool, I love you! Come on join the joyride” ha ha , não era Roxette, era Adele. Não posso mudar o volume, essa função, assim como as luzes individuais, está com defeito. Me pergunto se as pessoas à minha volta estarão ouvindo a música que sai dos fones azuis. Acho que não. O meu vizinho que tentara puxar conversa parece dormir. Os gays à minha frente fazem perguntas sobre o meu brinco.

Final e infelizmente chego em casa, cachorro late, todos conversam, querem saber, bla bla bla. Desfaço as malas, deixo tudo meio bagunçado, retiro as pilhas do Discman para não melarem, arrumo a mochila para amanhã, ponho o despertador para mais uma vez tentar ir à natação cedinho. Quando a casa atinge relativo silêncio caio na cama cansada, as costas ruins de novo, dou um suspiro. Amanhã é segunda e eu pedi demissão. Preciso organizar meus manifestos.










sábado, abril 12, 2008

E fugir com você pra Shangri-lá

- Eu tive um professor que dizia isso. Ele citava muito Arquimedes.
- E o que Arquimedes tem a ver com isso agora?
- Tudo. Ele encontrou a solução pro problema dele enquanto tomava um banho. Ele estava tão envolvido no problema que a solução só veio quando ele conseguiu se desligar, sabe? Desanuviar. - Faz sentido.
- Ele precisou se esquecer um pouco, entende?
- E o que você pretende fazer então? Tomar banhos?!
- Não sei... não... Eu tomo muitos banhos. Mas não tem fuincionado.
- É que você já entra no banho achando que vai ser a solução, você não está ajudando. E ficar aí desse jeito piora.
- Eu estou ajudando sim!
- Ah é? Hum é verdade, hoje você se ajudou muito comendo porcarias e bebendo cervejas. E ontem também se ajudou à beça embaixo daquele cobertor grosso. E anteontem
- Eu voltei pra terapia, não voltei?
- É...
- Só que eu não posso achar que em uma sessão toda a minha desordem mental vai se reorganizar também...
- É...
- Pare de dizer "é", você devia me dar conselhos!
- Arquimedes devia te dar conselhos. Eu torço pra que você se encontre logo. Gostava dos seus olhos brilhando.
- Você se encontrou?
- Sim.
- Fez o que?
- Fui pra Índia. Virei zen-budista.
- Mas você teve que se estressar antes, né? Teve que sofrer pra resolver que não era nada disso...
- Sim, tive que ficar sufocado um pouco.
- Então eu estou no camiho certo, eu acho. E além disso eu não acho que a pessoa tenha que ir pro outro lado do mundo pra se encontrar. Não se trata disso. Não é uma questão territorial..
- Já entendi, você acha que ela precisa ir pro divã.
- Ou pro banho. Ha ha.
- Esse é o seu plano então? Freud? Iung?
- Eu não tenho um.
- Então aceite o meu.
- Você me dá a passagem?
- Eu sou zen-budista. Não posso te dar nem o bilhete do circular. Só vim pra esse café porque você me deu carona. He he he.
- Você vai me dar o quê então, porra?
- Um sabonete?
- Hahahahahahahahahahahhahahah
- Não se trata disso afinal? De um apoio? De um ombro amigo? De um pouco de carinho?
- É... mas e se você me desse carona, então?
- Até onde??
- Até esse lugar onde eu preciso ir pra me esquecer e então me encontrar de novo.
- Mas como você quer se esquecer se eu vou estar lá? Digo... eu vou estar sempre te lembrando de você mesma...
- É que... eu não quero te esquecer junto, entende?







:: Dedicado à Carol Salomão, pelas conversas reais.


" C - O que você acha das quartas-feiras?
J - Acho que elas podem ser um copo meio cheio ou meio vazio."

segunda-feira, abril 07, 2008

Toda essa gente se engana

Uma das músicas que mais gosto do Cazuza é Completamente Blue. Especialmente os versos “Sou feliz em Ipanema, encho a cara no Leblon, tento ver na tua cara linda o lado bom”. Faz tempo que não encho a cara no Leblon e nem em qualquer outro bairro, a tua cara linda sumiu num piscar de olhos e me esforço para não lembrar. E eu nunca sou feliz em Ipanema rodando quarteirões à procura de vagas ou na sala da analista.

Eu gosto mesmo é de Copacabana.

Gosto de tudo em Copacabana. Gosto daquele cantinho perto do bairro Peixoto, do restaurante cheio de velhinhas e velhinhos, alguns mostrando cumplicidade até nas roupas e andando lado a lado com seus moletons combinando. Gosto das quitandas e mercadinhos que sobrevivem aos Zona Sul, gosto da loja de materiais de limpeza com suas vassouras e galões de água sanitária. Eu adoro as portinhas que escondem vilas no meio da Barata Ribeiro, gosto do fato de que a loja de moda da patricinha é ao lado da loja de calçados ortopédicos, principalmente, eu gosto do fato de Copacabana ser cafona e não kitsch (como a maioria dos mudernos diria). Copacabana, ainda bem!, não virou hype.

Eu gosto de saber que a Modern Sound convive ao lado de uma papelaria de bairro, gosto da lojinha que conserta relógios, adoro as lojas de móveis de madeira, o atendimento de vendedores que não fazem idéia do que é marketing, adoro a loja da esquina com seus maiôs e estampas absolutamente improváveis, adoro ainda mais a loja do alfaiate que fica ali ao lado, em que outro bairro você pode comprar um legging de lycra (lycra mesmo, antes da invasão de viscolycra) no mesmo quarteirão onde funciona uma alfaiataria?

Eu curto todos os contrastes de Copacabana, os albergues que deram certo, os bares suspeitos na orla, os hotéis sofisticados, as senhoras que pintam a sobrancelha, os brechós cheios de traça, os antiquários refinados, as estações de metrô, os sebos do shopping velho da Siqueira Campos, as lojas de design do shopping velho da Siqueira Campos, as mercearias azulejadas, o engarrafamento nas avenidas, as ondas e marolas da praia.

E o melhor de tudo é que num desses dias blues em que a música do Cazuza parece ter sido feita sob medida você se depara com um ser vestido de Magali anunciando as promoções da loja de colchões sob um sol inclemente e então você finalmente entende.

O melhor de Copacabana é isso: você consegue se sentir feliz mesmo sendo nonsense.

terça-feira, abril 01, 2008

... de tudo outra vez.

Um livro escorregou da prateleira e espatifou a caneca do Van Gogh no chão uma semana antes de algum músculo que liga ombro direito e pescoço pifar, tudo isso na mesma semana em que um amigo telefonou pedindo uma dica de óculos e touca de natação e eu achei isso engraçado demais e contei pra todo mundo, não faz mal, contei pra todo mundo também as alucinações que o Marcelo teve com o Osama e essa foi uma das últimas notícias que eu tive dele, do Marcelo, não do Osama, ou do Osama também, nem sei mais, e comecei a ler blogs e recomecei um livro que estava parado e percebi que em algum momento alguém entendeu que eu achava que a Paris Hilton se veste bem quando na verdade eu me referia à Suri e então me dei conta de que esse era um papo que eu só poderia bater comendo linguicinhas no Braseiro acompanhada da Bebel, que não faz natação, não tem alucinações com o Osama e também acha a Suri uma das celebridades? mais bem vestidas do mundo, ha ha ha, a gente engataria toda sorte de assuntos bobos, não os assuntos bobos do fim de semana em Penedo, aaah Penedo, a gente na piscina tentando convencer uma das amigas a não fazer permanente, a outra a não cortar mullets, de onde as minhas amigas tiram essas idéias?, e à noite eu consegui viciar uma delas em Grey's Anatomy, não foi preciso muito, muito eu precisei foi de relaxante muscular e como é que se fica em pé durante o dia, a língua começa a enrolar, a cabeça pesa, esse remédio é quase um calmante, e toda aquela conversa de O Segredo, comecei a implantar os pensamentos de manhã, quem sabe?, arranjei uma vaga bem rápido, será que o Universo já me escutou? sério, preciso melhorar, amanhã começa um curso novo, depois de amanhã começa uma nova análise, semana que vem começa o que mesmo?, uma vontade de beber litros de água e leite, uma vontade de dormir e dormir e dormir, uma vontade de dormir na rede de Penedo, ficar perto das árvores, pisar na grama, afagar a cadela, perguntar "Clara você me alcança? Será que pode me balançar?" só por preguiça de apoiar os pés no chão, uma vontade de experimentar dormir no barco, e também uma vontade quase insana de te ver, de te achar, de te procurar por aí, principalmente uma vontade mais que insana de te escrever, ou de te falar talvez, de te fazer entender, de te fazer voltar, mas que cabimento tem isso depois de tantos anos?, e então o itunes faz uma reviravolta e Freddie Mercury é substituído por Roberto Carlos e é como um tapa, eu não conseguiria escrever nada decente ou esclarecedor pra você porque foi o Rei quem compôs a música, é sempre assim e a gente pensa que queria ter escrito aquele livro ou composto aquela melodia e tantas melodias você carrega e eu também, quanto tempo, quanta vontade de te pedir pra voltar, quanta vontade de te pedir pra gente dar certo, de te fazer entender que você foi o maior dos meus casos mesmo tendo durado 5 noites, te convencer que você é a saudade que eu gosto de ter... e se eu gravasse uma fita com essa música e mandasse pra ele?, mas se ele achar Roberto Carlos uma cafonice..., como é que faz?, será que é cisma? deve ser, tem que ser, porque se não for eu faço o quê?

segunda-feira, março 03, 2008

De uma bala perdida que me encontre por aí...

A "invasão" de bandas nas esquinas do Leblon e Ipanema ocorrida no fim do mês de fevereiro e idealizada pelos rapazes do Vulgo Qinho e os Cara tinha um objetivo mais que evidente.

Ocupando o que eles genialmente batizaram de “Quadrilátero das Vaidades”, os Cara fizeram música durante meses no Leblon. Sempre no mesmo lugar, à mesma hora do mesmo dia da semana. Houve reclamações. Houve também muita curiosidade. Houve uma quantidade grande de transeuntes que parou pra escutar, gente que parou pra dançar, gente que parou pra perguntar o que era, pessoas passeando com seus cães, crianças atraídas pela banda, bicicletas que diminuíram a velocidade, apressados que diminuíram o passo, flashes de fotos de tantos amigos, da imprensa, de recordações que tantos quiseram guardar.

Cansados de subirem os vidros dos carros, de ligarem o ar-condicionado em lugar de abrir as janelas, de se armarem de muros e cercas e de se fecharem em prédios vigiados, cansados das câmeras invasoras que os pedem pra sorrir a torto e à direito, cansados de evitar conversas no elevador, os Cara iniciaram um movimento pelas ruas, pelos esbarrões, pelo convívio de pessoas, pelas relações que se estabelecem quando os seres humanos se encontram, se tocam, se sabem reais. Pela possibilidade de conversas e de entendimento entre pessoas que se isolaram de medo.

O “Dia da Rua” viu a volta dos músicos ao seu palco principal, aquela esquina do Baixo Leblon. Nas outras todas que iam da Praça Cazuza à Jangadeiros em Ipanema, outros músicos e artistas tambémncantaram, chamaram as pessoas, abraçaram quem passava. Pequenos aglomerados se fizeram no percurso, muita gente sorrindo pro céu, gente que mora nas ruas, gente que mora nos prédios, gente que cedeu o ponto de luz às bandas, gente que avisou aos amigos e gente que não tinha a mais vaga idéia de que um dia um monte de caras munidos de seus instrumentos iria fazer de um pequeno show um ato tão simbólico.

Poucos dias depois nos deparamos com a nota na coluna de Joaquim Ferreira dos Santos em O Globo:

Silêncio!!!!!!! As bandas que ocuparam com baterias e guitarras as esquinas da Ataulfo de Paiva e da Visconde de Pirajá, quinta-feira, e infernizaram a noite dos moradores de Leblon e Ipanema, não voltarão às ruas. “Elas não tinham licença”, diz Mario Filippo Jr., o subprefeito da Zona Sul. “Se insistirem, os instrumentos serão apreendidos”.

“Infernizaram a vida dos moradores”???? “não voltarão às ruas”???? “Eles não tinham licença”????

É claro que eles não tinham licença. Eles não são patrocinados pela Oi.

Eu não sei se é preguiça ou estupidez do jornalista. Ele foi a algum show? Ouviu alguma música? Ele parou em alguma esquina do Leblon ou de Ipanema e sentiu-se infernizado pelo som que saía das mãos e bocas dos músicos?

Será que se ele fosse a um dos muitos (e concorridos) shows promovidos pela Toca do Vinícius NA RUA se sentiria infernizado? Ou daria uma trégua porque é bossa-nova e não um monte de garotos "com baterias e guitarras"? E o dono dessa loja? Quais serão os objetivos dele com essas apresentações? Alguém ainda acha que vai vender discos no Brasil?

O show da Claudia Leitte na praia de Copacabana infernizou a minha vida. O show da Ivete Sangalo na praia de Copacabana em comemoração ao aniversário do sabão Omo infernizou a minha vida também. A árvore de Natal da Lagoa infernizou a minha vida e inferniza todo ano com seus engarrafamentos quilométricos, a sujeira em que as praias amanheceram após o show do Lenny Kravitz infernizou a vida de muita gente que naquele fim de semana queria mergulhar sossegado no mar, o assaltante com arma na minha cabeça infernizou a minha vida, as pessoas dizendo “graças a deus não aconteceu nada”, isso infernizou muito a minha vida.

Aconteceram muitas coisas e eu não acredito em deus.

O que torna os mega-eventos comprados mais legítimos que as intervenções urbanas independentes?

Os patrocinadores e super corporações têm sempre autorização para armar o circo que querem, a árvore de Natal causou o transtorno que quis no dia de sua inauguração, eu paguei o seguro do carro pra poder tê-lo de volta, pago sempre o guardador que nunca tem o talão, pago até o cara na praia que depois vai roubar o meu telefone.

Ler essa nota num dos jornais de maior circulação do país infernizou a minha vida de moradora inteligente da cidade. Se os jornais não apuram o que quer que seja e se vendem cobrir shows e eventos licenciados, se o jornalista desta Coluna e tantos outros acham bacana publicar fotos de celebridades no curral VIP do show dos Stones, o mesmo que emporcalha a cidade depois, se o subprefeito se acha no direito de decidir o que é válido ou não ser apreendido, então vai ver que a estupidez é minha.

Qual é a diferença? O que faz com que pessoas possam relembrar os 50 anos da bossa-nova nas areias de Ipanema sem se importarem se estão infernizando a vida de alguém ou não? Quem é que decide?

Talvez seja exagero nosso o de acreditar que atos musicais politizados ou intervenções artísticas venham a influenciar de todo no andamento das relações sociais da cidade. Talvez seja utópico. Mas não é absurdo pensar que a provocação das nossas inquietudes talvez seja um bom caminho pra gente mudar e consequentemente promover melhorias ao redor.
As bandas tocando nas ruas pra quem quisesse ouvir certamente me provocaram muito mais que a citada nota do jornal.

Não é defesa de “amiga da banda”. É achar indecente a comodidade das pessoas em categorizar o que é bom pra elas.

Tratado.

É tarde, amanhã eu trabalho, insetos esquisitos habitam a parede ao lado, eu leio um pouco enquanto procuro resenhas de dança na internet e fico presa numa conversa nonsense, sua especialidade. Rio com uma ou outra frase que pipocam na tela, guardo os sapatos espalhados pelo chão, bebo água, visto a única camisola decente que me restou e tenho a mais absoluta certeza de que, apesar da sua insistência, fofo você não é.

Eu poderia atribuir tantas outras características. Senso de humor, inteligência, um charme indestrutível, certa insegurança. Fofura certamente não faria parte da sua cartela de adjetivos. Fofura não combina com o seu jeito rude e com a sua quase doçura que às vezes sem querer escapa. Fofo você seria se se deixasse ser doce sempre, mas num deslize minúsculo você já recupera sua pose, limpa a garganta, pisca um olho e vem com uma frase de efeito, um beliscão na perna.

Fofura não poderia coexistir com a mordida daquele dia. Ou com a sua mão ávida por debaixo da minha saia. Fofura não teria o seu cheiro. Fofura não teria me levado pr’uma cama no andar de baixo, não teria sua barba malfeita e nem esse sorriso largo e safado que tantas vezes eu vi (ainda bem!). Fofura seria o telefonema do dia seguinte, o carinho no meio da noite, certa hipocrisia até.

Fofura não faz parte das lembranças que eu tenho de você.

E se um dia você quiser me provar o contrário, espero que eu tenha razão porque fofura nenhuma seria melhor que o Carnaval que você me deu.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Xadrez

Eu tropeço, você me ampara. Eu agradeço enquanto me esforço em parecer normal e não deixar frestas mas é sempre tarde e antes de me dar conta já estou enredada nas suas gracinhas. Você me faz um elogio qualquer, eu rio sarcástica. Você se apressa em apontar minha ironia, eu acentuo cada detalhe dela. A mesa está montada. Você logo assume seu lugar de vítima e começa o discurso de coitadinho e, mais rápido que eu, não deixa tempo pra inverter. Em menos de minutos os papéis estão definidos, tabuleiro pronto. Você me alfineta e eu devolvo, você me irrita e eu caio. Eu sempre seu algoz que te destrata, você sempre meu menino ressentido e nessa ciranda de clichês vamos dançando sem dar trégua. Eu dou um passo pra fora e você, rude, me arrasta de volta e na segunda tentativa de fuga eu já me demoro de propósito só para atestar que você não se antecipa, calculando a próxima rodada. Eu me desfaço em carinhos para pôr fim ao jogo e você ri na sua poltrona com desdém. Eu te digo desaforos, você me grita, eu sempre insensível e repelente, você se vendendo de bonzinho e quando num deslize ou num cansaço a gente esquece a fala, à tona vem um diálogo de silêncios, o meu rosto que sempre vira, a sua mão que nunca alcança. Seguimos jogando por horas, alternando charme e acusações, envolvidos numa teia de performances e ensaios, de frases feitas e coisas tão antigas e a partida termina sempre sem cheque-mate, sempre sem desmentir a farsa.

Eu tropeço, e nunca sei se é você que põe o pé na minha frente ou se sou eu.

:: "Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este 'velho obscurantista', nos frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida."
Raduan Nassar no conto "O Ventre Seco" in Menina a Caminho

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Se ela soubesse

Sentada na mesa esperando o almoço sozinha, conversando com o garfo, mor-ren-do de saudades de um amigo que promete que vai te ligar, mor-ren-do mais ainda de vontade de perguntar pra ele se aquele outro afinal..., torcendo pra que ele responda que não, ou que sim, tanto faz, já passou, mas passou mesmo?, e cai a faca no chão fazendo um estardalhaço, não importa, o que importa mesmo é que tem menos de um mês de ballet e você se convence de que esqueceu a sapatilha em casa sem querer e por isso não pode ir à aula, como chove em janeiro, eu achava que era março, fevereiro chegando e a desculpa da sapatilha, qual vai ser a próxima?, todo mundo falando de carnaval, os blocos nas ruas e você comendo trufas na torre do Rio Sul, entendendo mais um pouco sobre cores que eu não sei o nome, um monte de pinturas que se parecem com você e nenhum tesão pra começar a ler Saramago, nenhum tesão, ponto., aquela cadeira antiga no brechó, o botão do vestido para pregar, a dedicatória nos livros e a foto na página vinte e sete, você posando de musa e ele sumindo no mundo, a única pessoa que poderia te resgatar, todo esse cuidado com a pele e todo mundo viajando e se amando e ele nunca atende o telefone quando você precisa de colo, a mala ainda no chão esperando para ser desfeita, a explicação que nunca vem, a dor de cabeça que nunca passa, ela fingindo que não liga, tentando ligar, tentando dormir, tentando culpá-lo ainda, os dois, os três, os sapatos enfileirados na varanda, o cão não gosta mais de subir na sua cama, aquele livro que ficou pela metade, um fim de semana do outro lado da ponte aérea, o tombo da outra, a risada da outra, a saudade que ela se deu conta que tinha, a felicidade de poder saciar, a tristeza de não poder conversar com o seu criador, se tivesse sido mais ousada como ele disse, se tivessem dado aquela festa, se aquele outro tivesse ficado, o perfume novo que ele não reconheceria, e como é que se consegue uma locadora de filmes decente?, todos os versos que um outro escreveu, a lente que no fim do dia resseca, o mesmo trajeto todas as manhãs, falta de apetite, mas tenho que comer, o casal da mesa ao lado conversando, ainda bem!, aquele filme no cinema Leblon e ele de sobretudo, o sapato machucando o joanete, outra desculpa, o telefone da outra escola de dança, uma certa misantropia blasé, tudo fachada, acabam acreditando, ele mesmo achava que eu era punk-metaleira, os sonhos dos dentes que se repetem, está na hora de voltar pra análise, você não pode passar a vida fugindo, e toda essa abstração, o barulho começa a fazer sentido de novo, os garçons, o suco de abacaxi que vai ficando concentrado no fundo do copo, um aceno, e aquele escritório gelado, todas as estampas penduradas e você tentando combinar azul com roxo, entre por essa porta agora e diga que me adora você tem meia hora, como rimam algumas coisas, como doem outras, o taxi de volta, caminho de sempre, aquela música deprimente no rádio, deixar de lado essas bobagens, os dias passaram, ele se mudou, guardar o recibo pra pedir reembolso, guardar sua cara pra sorrir de vez em quando, guardar um pouco de veneno pra te matar de vez, semana que vem, sem falta.

:: Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
(...)
Ah, que não seja o meu
O mundo onde o amor morreu

Vinícius e Baden em Tempo de Amor

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ladeira abaixo

Começar o Carnaval indo a bloco matutino em Santa Teresa é fazer a matemática inversa: você paga os pecados antes.

A escadaria é quase penitência, a fantasia não resiste à segunda ladeira e quando você finalmente consegue alcançar o bloco, está tão exausto que quer ir embora. Entre descer ladeiras e escadarias tudo de novo e seguir um pouco os foliões, a segunda alternativa vence, e embalado por marchinhas que você sequer distingue de tão morto, se embrenha em meio a pessoas muito, muito suadas. Mas se chegamos até aqui e é fevereiro, sigamos em frente.

Você escuta o seu amigo dizer que daria seu reino por uma água, que parece ser artigo de luxo, arriscam-se na cerveja, quente, e todo o resto é quente, sol a pino, homens sem
camisa, você tira a peruca e é pena que não pode tirar também os cabelos.

Em meio a tantas pessoas, não há pra onde fugir. Pierrots lambendo colombinas, confetes e purpurinas grudados, roupas idem, os dedos enrugados de suor, por que mesmo que a gente gosta disso?, grupos fantasiados que te dão esperança de que alguma coisa ainda pode ser engraçada, mas não tem jeito, o bloco se vai, você fica pra trás se revezando no banho de mangueira que um solidário e politicamente incorreto morador do bairro oferece à horda de foliões que parecem vindos de uma caravana do deserto. Alala-ô nunca fez tanto sentido e provavelmente foi escrita por alguém que teve a visão do futuro (ou do inferno?): bloco de rua em Santa Teresa às 10 da manhã de um sábado de fevereiro no Rio. Quem foi que nos sacaneou assim?


Lá pelas tantas, sentados no meio fio de uma ruazinha que parece ter aparecido para salva-los da morte por esmagamento, a mensagem de uma amiga que diz ter perdido-se do bloco. àquela altura, perdida também, eu não pretendia mais encontrá-lo...


Na volta, marchinhas na ponta da língua, mas não tem jeito: Aurora parece ser o grande hit de Momo. Na dúvida, ôô-ôô.

Almoço, banho e parte da dignidade está recuperada, mas ainda é cedo pra arriscar-se de novo, além do mais domingo às nove você precisa estar na Praça XV.

Amanhece chovendo, mas não há nada que impeça o Boitatá de sair, e sob a máxima do faça chuva ou faça sol, você entra no táxi e dá a ordem, se a canoa não virar eu chego lá. é um lugar onde chove torrencialmente, os amigos dos amigos vestidos de arca de Noé gritam “dilúvio!” , a venda de capas de chuva é maior que a de cerveja e você começa a rezar pra não ser acometido por leptospirose ou semelhantes. As pessoas brincando na praça alheias aos pingos que não dão trégua, e não há arlequim que me convença. Eu sou brasileira mas tenho um pezinho na Europa e desisto às vezes.

Meu carnaval encerrou-se prematuramente no domingo na sala quentinha com piano de uma amiga xará, me preparando para a dengue ou a pneumonia. Cervejas, prosecco, fotos dos amigos, conversas e um ipod cheio de Zero 7, Gotan Project e afins, nada que me lembrasse a horda de malucos atrás de máscaras pulando por aí em blocos, animados, felizes.

Dentro de um casaco de lã, meias e com xícara de chá em punho, a segunda de carnaval parecia pra mim a quarta-feira de cinzas, a chuva continuou caindo, seja o que deus quiser. Ano que vem tem mais e sempre bate uma loucura qualquer nessa época.

Porque só mesmo um pouco insano pra gostar dessa coisa não-higiênica que é o Carnaval.




:: ouvindo The Rolling Stones da casa do vizinho, sentindo saudades das pessoas do Carnaval de 2006!

quarta-feira, janeiro 30, 2008

*

Nos idos dos anos 90 a M.Officer lançou uma campanha cujo slogan era “beije o mundo”. Nas páginas da Capricho e nas camisetas vendidas nas lojas o que se via era uma imagem de figuras se beijando, pinceladas, coloridas e absolutamente apaixonantes.

Próximo aos anos zero eu descobri que uma das melhores amigas que tenho era filha do cara que pintava os beijos, os carros, as bicicletas e tantas outras. Esculturas, palavras, cada ida à casa dela, os livros, as exposições e era muita sorte estar próxima do homem que pintava beijos que eu tanto gostava.

Em 2006 eu virei uma figura semelhante às moças dos beijos, e era tão mais sorte ainda ter virado imagem do artista que eu tanto admirava, ter as fotos que ele fez e o meu rosto desenhado em papéis.


Em 2007 eu fui parar num de seus livros.


Em 2008, o Simpatia é Quase Amor desfilou camisetas semelhantes às da M.Officer em seu carnaval, mais uma vez o beijo pincelado estampado.

Em 2008 também, soube que ele não mais pintaria suas tão queridas séries de beijos.


Antes disso tudo, em 1978 após o incêndio no MAM do Rio a palavra “LUTE” ficou impressa numa das paredes do museu. “LUTE” fazia parte da “Cartilha do Superlativo” e era uma escultura do mesmo artista. A obra foi restaurada e integrada ao acervo do museu.


E mais do que isso seria tão difícil de contar.







domingo, janeiro 27, 2008

Arabia

Eu tinha acabado de ler um livro que eu achava que estava adorando, até a história toda dar uma amalucada e eu não entender mais nada, mas foi tão não entendido que eu nem podia pedir ajuda ou pesquisar qualquer coisa no google sobre o livro.

Então saímos para jantar, eu não sabia em que bairro estava porque eu não conseguia entender direito os limites daquela cidade onde as coisas não terminavam pra que outras começassem, ahaha, como era metafórico.

E então quando a conversa ia amena começou um papo sobre o sujeito de 30 ou 31 anos, talvez 34, que trabalhava no Societé General e fez um rombo e o economista da mesa explicou a todos algumas manobras do FMI e das bolsas e dos futuros e eu que já não estava esperta, sem entender literatura e delimitações geográficas, fiquei ainda mais burra naquele jantar.

Sem entender patavinas, entregue ao tabule, prestei atenção o máximo que pude, queria recuperar minha inteligência, moldada anos em colégio de padre.

Um bom samaritano sentado à mesa explicou como começou esse mundo de especulações usando exemplos simples de como os agricultores garantiam o preço de venda de seus produtos, evitando assim quebrarem caso houvesse um ataque de gafanhotos às plantações.

Eu que já estava burra e entediada concluí que essa gente do mercado financeiro se especializa em especular coisas e achei uma absoluta falta do que fazer que essa gente enriqueça loucamente enquanto metade do mundo está se matando.

Então eu concluí que além de burra e entediada eu estava também engraçada porque a minha conclusão gerou risos na mesa. Não sei se foram de solidariedade ou pena. Só sei que não fui eu quem dividiu a conta do restaurante, e certamente não serei a próxima milionária do grupo.

Terminei o jantar com o consolo de ainda conseguir fazer rir quem precisa.


:: "Descemos do ônibus pisando em poças de lama, subimos devagar as escadas (...) e lembrei que precisava achar um lugar para morar dentro de nove dias, agora oito (...) e que eu estava cansado de ser pago para guardar minha loucura no bolso oito horas por dia (...) e quis morrer, e lembrei que não conseguiria, e quis te dizer de como era bom que a gente tivesse se encontrado, assim, sem pedir, sem esperar, e soube que não saberia..."

Caio F. , O Dia de Ontem in O Ovo Apunhalado

quarta-feira, janeiro 23, 2008

A aula de ballet tem uma hora e quinze minutos. A de francês, duas horas. O almoço quase nunca dura uma hora, no máximo 20 minutos e as conversas diárias ao telefone com a Lena são sempre o mais abreviadas possível. Os banhos variam de dez a quinze minutos, sempre com certo peso por gastar tanta água. Os trajetos no Rio, nunca se sabe, depende da chuva, do sol, do humor.

É possível cronometrar o último filme que vi e marcar no calendário quanto tempo falta para as férias.

Mas pra me conformar com a partida inexplicavelmente precoce das pessoas, quanto tempo leva?

sábado, janeiro 05, 2008

01-08

Chega o momento na vida em que a pessoa começa a crer no que prega “O Segredo” e dá até mesmo trégua para o sujeito do Feng-shui. Tudo bem que é Janeiro e o clima nessa época é de renovação, o que dá margem para novas crenças e esperanças, deixando qualquer um propenso à evangelização. Janeiro é o mês em que todos estamos frágeis, fazendo um balanço do ano que passou e apostando fichas nos meses que seguem, como se a mudança de ano tivesse um poder invencível de transformar tudo.

E então, dizem, é preciso fazer uma lista por escrito dos desejos para o novo ano e imediatamente esquecê-la e não perder o sono pensando no que escreveu.

Aí é dia 4, faz muito, muito calor mesmo, a pessoa se dá conta de que não viverá tempo suficiente para pular o próximo carnaval e cumpre uma parte do que ensina “O Segredo”: esquece toda a lista de desejos, almoça junkie e fuma um cigarro.


:: Sharon Jones & The Dap Kings

sexta-feira, dezembro 28, 2007

(pequeno desvario de fim de ano)

"Ao fazê-lo, ele dava voz a sua discordância em relação à teoria do engajamento de seu amigo."
(Camus e Sartre - O polêmico fim de uma amizade no pós-guerra, Ronald Aronson, pág 161)

Continuando a brincadeira da Ana .

Se fosse a segunda frase do Prólogo seria: "Meu caro Camus: nossa amizade não era fácil, mas sentirei falta dela."

Se fosse outro livro a frase poderia ser bem mais interessante. Mas num escritório de lingerie no dia 28 de dezembro às 17:04 o único disponível era esse que estava na minha bolsa.

Eu me apaixonei por Camus no começo do ano. Foi com ele que traí Caio Fernando Abreu pela primeira vez. Mas não espalha.

domingo, dezembro 23, 2007

The end

Eu comecei a escrever textos para o fim de ano e depois de algumas semanas tentando resolvi desistir.

Eu ia contar de forma engraçada todas as maluquices do ano e de como uma lógica ao contrário e sacana se abateu sobre quase tudo.

Eu ia citar vários episódios, ia transformar tudo em histórias engraçadas. Mas depois de tantas confusões e correrias e de um dia inteiro dormindo eu lembrei de um sujeito que um dia disse “adoro seu blog de frases curtas em primeira pessoa”.

Então eu pensei que não tinha nenhuma novidade pra contar e mesmo que tivesse... os dias deste ano que se encerra foram tão caóticos que é preciso primeiro digeri-los para poder escrevê-los.

A única coisa que posso contar é que em meio ao caos que se instalou nas semanas de dezembro eu ainda arranjei um motivo pra achar que algumas experiências devem ser repassadas ao mundo.

Era tarde de alguma noite estressada e quando finalmente tirei os sapatos para dormir o celular apitou uma mensagem. O texto era uma frase curta em primeira pessoa: eu te amo. Demorou alguns dias para que eu resolvesse porque na verdade a mensagem era nitidamente engano. Pensei, pensei, reli o último post onde eu redescobria que o amor é realmente cego e finalmente respondi: eu te amo também.

Desliguei o abajur, virei pro lado e dormi, feliz por ter um novo amor!



:: o7's top 5 - Hairspray, Camus, Cordão do Boitatá, amigos lançando discos, a cura da coluna.

domingo, novembro 25, 2007

O dia em que o Béjart morreu

O dia em que o Béjart morreu foi o mesmo em que eu descobri que o ascensorista do prédio onde eu trabalho me ama. Nenhuma das duas informações foi fácil de descobrir e ambas poderiam ter passado despercebidas, não fossem algumas evidências que ocorreram antes mesmo que eu pudesse pensar em Béjart e ascensoristas de elevador de prédios onde eu trabalho.

O dia em que eu tomei conhecimento da existência do Béjart foi o mesmo dia em que eu tomei conhecimento da Lia Rodrigues e sua companhia de dança. Isso rendeu um post inteiro. E também rendeu, logo após a performance, uma conversa ao telefone com o Marcelo, que falou do Béjart. O Béjart não significava nada para mim até o exato momento em que o Marcelo, um pouco exaltado, perguntou como quem coloca muitas exclamações após a interrogação: VOCÊ NÃO CONHECE O BÉJART?!!!!!!! , e ele deve ter falado desse mesmo jeito, em caixa alta e negrito. Precisou eu ver Lia Rodrigues, comentar com o Marcelo, o Marcelo ficar decepcionado porque eu não conhecia Béjart, ver os videos do youtube enviados por ele, dar uma lida na Wikipedia e em sites de dança e ter a pergunta esfregada na minha cara repetidamente. A frase em caixa alta e negrito com exclamações VOCÊ NÃO CONHECE O BÉJART?!!!! ecoou na minha cabeça durante dias, e nem mesmo a minha tentativa de igualar meus conhecimentos de dança com o Marcelo me livraram da frustração de não ter sequer idéia de quem diabos era o Béjart.

Até que um dia, lendo um livro sobre a história da dança, lá estava ele: Béjart. O dia em que eu li o nome de Béjart se repetir em citações num livro que conta a história da dança eu entendi que cedo ou tarde Béjart e eu nos depararíamos num conhecimento mútuo sem fim e isso não poderia ser à tôa.

O dia em que eu tomei conhecimento do ascensorista, por sua vez, era o primeiro dia de trabalho dele, que passava a substituir o ascensorista antigo que havia morrido e a quem eu mal dava bom dia. Diferentemente da Velma Kelly que acha que foi a culpada pela morte do James Brown, eu não tive qualquer participação no falecimento do ascensorista antigo e sua morte me fez apenas acordar para a cordialidade que eu devia ter com o novo ascensorista. O que eu não podia supôr era que o novo ascensorista teria cabelo platinado e um cd gravado com as canções que ele costumava tocar nos bares e que ele emprestaria tal disco para mim. Eu não pude perguntar ao Marcelo: VOCÊ NÃO CONHECE O ASCENSORISTA?!!!! porque a resposta era bem óbvia, e a não ser que ele seja o próximo Roberto Carlos, eu jamais poderei esfregar na cara do Marcelo a sua própria ignorância.

Até que um dia, subindo ou descendo no elevador, o ascensorista platinado começou a puxar papo, eu ainda estava fragilizada pelo não-conhecimento do Béjart e acabei sendo simpática demais, de forma que a cordialidade virou-se contra mim no melhor estilo feitiço-feiticeiro e eu jamais consegui me livrar das conversas matinais que duravama 11 andares.

O dia em que o Béjart morreu foi o mesmo em que o ascensorista disse que me achava parecida com a Ana Paula Arósio. Eu levei na brincadeira porque ele também já disse que as pessoas o confundem com o Fábio Assunção e porque eu sei que com quem eu me pareço mesmo é com a Silvia Buarque. Mas quando eu percebi que ele estava falando sério o elevador parou no meu andar, eu escapei de uma conversa surreal que começava e então a epifania aconteceu. Eu entendi que tanto Béjart quanto o ascensorista, separados por léguas intermináveis de mais ou menos tudo o que eu poderia pensar (continente, profissão e principalmente tinta de cabelo) , tinham entrado na minha vida para que eu tivesse uma dupla epifania.

EU precisava saber quem era Béjart para dar a triste notícia ao Marcelo, que desolado até me perdoou pela minha quase gafe. E eu precisava saber que o ascensorista me achava parecida com a Ana Paula Arósio para lembrar de algo que há muito eu esquecera: o amor é mesmo cego.

terça-feira, novembro 20, 2007

Dedicado:

(às pessoas das fotos)

Era a aula de química, ele olhava pela janela e pensava para então quase enterrar a cabeça no caderno que só tinha poesia. Depois ele a chamava, ela lia, fazia carinho em sua cabeça até ele quase adormecer, e então despertava e dizia que a amava enquanto rabiscava coisas no seu caderno, coisas que não eram dele, músicas que ele não compôs e essas músicas ficaram irremediavelmente associadas a ele. De tudo o que mudou, uma coisa não volta atrás: ainda nos amamos. E é ouvir Sereníssima pra lembrar daqueles dias.

Era depois de algum programa e a gente chegava em casa e ligava o computador para continuar a conversa, porque a gente tinha muuuuito assunto e era mais divertido falar tudo por ICQ. E ela era a última tecnologia em pessoa e o meu computador era provavelmente um Itautec falido, empacava e não havia reza que desse jeito. Eu telefonava baixinho de madrugada e citava U2: you’ve got stuck in a moment you can’t get out of, mas não era ela, era a minha máquina na verdade. E toda vez que o Bono diz que You’ve got to get yourself together é a cara dela que vem à cabeça. E até hoje quando escuto Sarah McLachlan dizer que o amor dele é melhor que sorvete... é batata! Ela de novo.

Era de manhã, o ventilador do teto ligado e ele sempre queria que eu ficasse mais um pouco, eu nunca fiquei, mas a voz de Maria Bethânia amanhecendo uma Tarde em Itapoã meio melancólica é o tema do fim da nossa história que nunca foi trágica nem eufórica, foi apenas uma história cuja trilha sonora eu mesma providenciei. E toda vez que a escuto cantar Vinícius é dele que lembro, da vitrola no canto do quarto, do ventinho sobre os lençóis.

Era domingo, às vezes tinha ressaca, às vezes ficava nublado e sempre combinava aquele cd, aquela voz cheia de efeitos e era ela quem dizia que Moby tinha tudo a ver com a véspera de segunda, uma mood música e sempre que escuto os primeiros barulhinhos de Porcelain eu já sei que é dela que vou lembrar.

Era pós chope com os amigos, provavelmente o Baixo Gávea e a gente entrava no Peugeot de algum deles e tentávamos decidir se íamos esticar a conversa no Jobi ou no Diagonal and just when it hit me somebody turned around and shouted play that funky music white boy, ele aumentava o som, todo mundo cantava e sentia certa saudade de quando era jovem e resolvíamos ir pra casa mesmo. E uma vez por ano quando um deles dá uma festa de aniversário dançam sem parar e em rodinha til they die, e não conseguem mais ouvir a tal música sem se lembrarem um dos outros.

Eram os anos 90, eles achavam que seriam amigos pra sempre, o maior hit da banda dele era a música do sujeito que tinha um cachorro que se chamava João que comia banana e dormia no chão. Ele comprou um golden que se chamava Rock and Roll, ela arranjou um poodle que realmente se chamava João e os dois quase brigaram porque ele roubou a rilha sonora de That Thing You Do que ela tinha. E embora quase não escute mais essas músicas, quando as palmas do hit do The Wonders começam ela lembra dos seus cachinhos dourados que queriam ser um rock star, e também achavam que ela devia ser uma...

Era a última aula do dia, sala quente perto da praia, um gole rápido de água porque emendava ballet-sapateado-contemporâneo e ele mandava todo mundo deitar no chão e aquela voz suave numa melodia que só servia de fundo para os alongamentos e ela pedia e então ele deixava Aimee Mann cantar mais um pouco and so for the sake of momentum ela deixava seus medos ficarem mais largos que a vida e dançava. E sempre que escuta o disco lembra dele, dos relaxamentos do fim das aulas malucas em que corriam e riam feito doidos.

Era num inferninho enfumaçado, todo mundo apertado e feliz, o chão parecia que ia desabar mas não importava. A gente já quase sabia a ordem das músicas e também não importava, no fundo era ótimo, enfrentávamos a fila do banheiro sem correr risco de perder Lobão e os Ronaldos iluminando um céu cinzento. Até o dia em que a gente preparava o fôlego para o Pixies que começava e coincidentemente entrava na pista ele, Here comes your man, mas ele já não era mais meu e a gente ria, não era tão engraçado mas tinha caipirinha, coração partido e logo depois tinha Pretenders back on the chain gang. It brings me to my knees de ver como nos afastamos, mas toda vez que o shuffle do itunes cai nessa música é para elas que quero telefonar com aquele velho celular que não tirava fotos.

Sim, algumas coisas até que continuam iguais, o caos segue em frente com toda a calma do mundo, I’m just trying to find a decent melody, a song that I can sing, my own company. Ainda sinto preguiça no corpo, in my dreams eu às vezes morro o tempo todo, a gente ainda acha que should go back there pra ver se eles continuam dançando e cantando e movin’ to the groovin’, gosto de acreditar que we’ll be happy can’t you see?. E eu sei que life is getting shorter, que essas pessoas talvez não permaneçam para criarem novas lembranças em novos tons, que talvez seja como os Beatles cantavam, there are places I remember...

Essas músicas ficaram irreversivelmente ligadas a essas pessoas, isso sem falar das outras. Foi num dia desses de reorganizar os discos e as caixas, I found a picture of you. Those were the happiest days of my life.
:: ouvindo as matching-músicas

domingo, novembro 18, 2007

A pessoa é para o que nasce

(vol. 2 e tardio)

Sean Penn nasceu pra ser o único cara que poderia ter batido na Madonna enquanto que ela nasceu pra ser a única cinquentona que não fica ridícula dançando num collant lilás. A Irene Cara nasceu pra nos animar na pista da dança e a maioria dos djs nasceu para ignorar esse fato por completo. O Pedro Mariano nasceu pra dar vergonha alheia e a Maria Rita nasceu pra ser chatonilda, e os dois nasceram da mesma mãe, não é bizarro? O Capitão Jack Sparrow nasceu para nos fazer acreditar em piratas de novo. Paul McCartney nasceu para ser o Beatle mais adorável e lindo. A Kate Moss nasceu porque um dia alguém teria que ter muito poder pra rasgar um vestido Galliano só porque ficou bêbada numa festa. O Nando Reis nasceu para fazer uma música cuja palavra mundo se repete três vezes no refrão e a Zoe nasceu para ser a homenageada da mesma, vai ver ela era a única pessoa nascida que não teria vergonha da duvidosa homenagem. Caetano Veloso nasceu porque só ele poderia compor Odeio Você. A Chorus Line nasceu para ser um daqueles musicais que só você, a sua tia e uma amiga viram. O Bon Jovi nasceu pra que as pessoas assumam em plenos anos 00, ainda que ligeiramente envergonhados, que ainda gostam dele. O Steven Tyler nasceu para ter a maior boca do mundo. A Suri nasceu pra ser a filha de casal celebridade mais linda. O sistema de reconhecimento ocular para entrada de pessoas na Torre do Rio Sul nasceu para me fazer acreditar que um dia terei um carro igual ao de James Bond. Gene Kelly nasceu para cantar na chuva apaixonado. O Estrangeiro nasceu para ser um livro divisor de águas literárias. As vacas da Cow Parade nasceram para quê mesmo? Médicos dermatologistas nasceram para nos levar à falência. A Amy Winehouse nasceu porque faz um tempão que um astro não morre no auge de sua carreira. A Amazon.com nasceu para você achar cds improváveis e os amigos nasceram para fazerem compras e racharem esse frete junto com você. Cole Porter nasceu porque Ella Fitzgerald fez o mesmo e o que seria do mundo sem os songbooks que ela gravou? Egon Schiele nasceu para fazer os desenhos mais maravilhosos do planeta. Impressoras nasceram para suas tintas acabarem sempre que necessário. Mãe Valéria de Oxossi, além de trazer a pessoa amada em três dias, nasceu para conhecer a pessoa mais eficiente em colar cartazes na cidade. Hairspray nasceu para levantar o astral de qualquer um e o Zac Effron nasceu para usar mais maquiagem no filme que o John Travolta. Frank Sinatra nasceu para cantar Mac the Knife. Os Outros nasceram para ser a minha banda preferida do mês e um monte de gente nasceu, embora a gente ainda não saiba bem o porquê...

domingo, outubro 28, 2007

O incompreensível mundo da moda

Alguns especialistas de moda afirmam que vivemos a era do fim de tendências macro. Que o minimalismo conviverá com o retrô que conviverá com o punk que conviverá. E que isso se vê claramente na última temporada de desfiles, que havia referências e peças para todos os gostos e que as micro-tendências permitem uma moda mais democrática e menos pasteurizada, tanto para o mercado quanto para o consumidor.

Gostando ou não de moda, sabendo ou não quem é Suzie Menkes, você, como todos nós que não somos índios ou a mulher de branco de Ipanema, compra roupas eventualmente. E a maioria de nós deve discordar desses que se dizem especialistas porque faz tempo que não consigo encontrar nada que não seja a) de malha, b) uma fortuna, c) rosa, laranja ou roxo. Se micro-tendência é sinal de ditadura da moda e isso é, de acordo com os entendidos, democracia, então o meu dicionário perdeu a validade.

Os especialistas concordavam, porém, que havia uma coincidência (inconsciente coletivo?) em desfiles “importantes” que apontava para o esquisito, para o visual que causava certo estranhamento.

Se o feio é o novo preto, então talvez isso explique o fato de que a maior parte do público do Tim Festival parecia saída do Almanaque Anos 80. E não era uma releitura como se costuma fazer, era mesmo um retrocesso. Mullets para todas as cabeças, bolsinhas matelassê com alças de correntes douradas, esmalte e maquiagem néon, bijouterias de acrílico e até faixas de cabelo daquelas que a Olívia Newton John usava em Let’s get Physical. Havia mesmo um sujeito cujo cabelo, tenho certeza, era uma nada discreta homenagem a Robert Smith. E o assustador, além do resgate fashion da década que tentamos esquecer, era que muitas vezes não conseguíamos saber se tal pessoa era menino ou menina.

Por sorte eu não esbarrei com ninguém de polaina ou ombreira, isso realmente teria me apavorado, mas acho que não seria tarefa difícil. Por sorte também eu ia ver o show da Cat Power. Mas não teria sido bizarro se o A-ha tivesse subido ao palco.

sábado, outubro 13, 2007

that's me in the corner...

João Caetano começou a tomar calmantes, passei a chantagear com tortas e bolos os fornecedores para que eles sejam legais comigo e me entreguem produtos no prazo, a lavagem de um vestido em lavanderia é praticamente um assalto e por essas e outras me aventurei no mundo do tanque, comecei a passar o caderno de telefones da minha mãe a limpo, as coisas continuam mofando, a professora de natação agora me usa para impressionar os alunos que vão fazer aula teste e por essa e outras eu finalmente consigo fazer três braçadas de golfinho seguidas, quase morri engasgada com um morango quando fui contar uma história hilária para o meu pai porque comecei a rir antes da hora, passei também a ameaçar fornecedores que atrasam tudo dizendo que os apresentarei a João Caetano off medicação, a fisioterapeuta boa voltou antes mesmo que eu tivesse chance de gongar a antiga, um sujeito quer porque quer que eu pague $4.500 pelo notebook que alguém comprou com o meu cheque roubado e eu juro que fico penalizada mas já inventaram serviço de consulta a cheques, tsá?, o Papel Pobre acabou e o luto terminou quando descobri o Modellon e agora eu e a minha dupla no trabalho temos novamente alguma distração fútil, reencontrei pessoas que não via há uns 7 anos por opção e elas sequer mudaram seus cortes de cabelo e ainda exclamavam o quanto eu estava sumida, wonder why – eu pensei, tive que explicar para alguns fornecedores que João Caetano é um pitbull encarnado em poodle ou lobo em pele de cordeiro para os que preferem expressões populares, dois dias depois de assistir A Chorus Line pela centésima vez recebei de uma amiga um trecho de um filme do Fred Astaire e quase, quase mesmo chorei muito de saudades, descobri como colocar músicas no celular que virou quase um ipod, agora tenho traças no quarto também, fui atingida por um pombo desgovernado que após bater em minha cabeça saiu voando inabalável e depois desse fato aparentemente corriqueiro (embora eu não conheça alguém que tenha sido pombado) uma série de coisas começou a desandar e quando eu vi eu tinha comprado uma peça na Farm, tiha gostado do desfile do Roberto Cavalli, todo mundo furou o chope, o carro voltou a fazer barulhos, a coleção não foi aprovada porque era bonita demais pra ficar tão pouco tempo na loja e de lá pra cá recebemos 347 ordens e direções diferentes por minuto, o ascensorista do prédio me emprestou um cd para escutar cuja capa era estampada com a foto dele mesmo e ele canta Elvis no cd e imagine!, o nivel de stress subiu 80% nos últimos dias e eu que já quase não sentia dores fiquei atacada das juntas, não consegui entender mais nada do livro de francês, os pés das meias têm sumido e como perdi os critérios mesmo passei a usar meias descasadas, perdi também o saco com o cabelo e faz tempo que tá precisando de uma tinta nele, perdi o saco em geral, ando perdendo papéis no meio da bagunça e ando perdendo muito a hora, ando perdendo o interesse e a vontade de bater papo com as pessoas, that's me in the spotlight losing my religion.

segunda-feira, outubro 08, 2007

I sing the body electric

(ou Quero Ser Irene Cara)

Dizer que seu filme preferido é Cidadão Kane é o mesmo que dizer que seu prato preferido é pato laqueado. Todo mundo sabe que bife com batata frita é melhor. Da mesma forma como todo mundo sabe que nenhum scarpin da Miu Miu substitui o seu bom e velho par de havaianas. Da mesma maneira que todo mundo sabe que existe um incontável número de filmes infinitamente melhores do que C. K. E todo mundo sabe também que o filme da sua vida não é aquele cujo diretor ganhou o Oscar ou a palma de ouro. O filme da sua vida sequer foi fotografado por um sujeito aclamado ou inovou a história do cinema. O filme da sua vida poderia até mesmo te envergonhar um pouco numa roda de cinéfilos inteligentes e letrados onde eventualmente alguém diria que Cidadão Kane é o melhor filme de todos os tempos, talvez seja, provavelmente não é. O sujeito que afirma categoricamente que C.K é seu filme preferido é o mesmo que, minutos depois com a evolução natural da conversa, vai dizer que MacBeth é seu livro de cabeceira. E é também o mesmo que vai te dar sono em menos de meia hora. É fácil convencer alguém mais distraído de que o filme de Welles é a obra-prima da sétima arte, difícil é convencer esse cara presunçoso e chato de que o filme da sua vida não tem nada a ver com isso. Filmes, livros e músicas tornam-se especiais não por causa de seus preciosismos técnicos, caso contrário o Nirvana não teria sido o fenômeno que foi e nem mesmo a Xuxa teria sido a Rainha dos Baixinhos. Os filmes e livros e músicas das nossas vidas são os que nos refletem sem qualquer tipo de máscara, são os que nos arrepiam os cabelinhos dos braços, são as músicas até mesmo cafonas que cantamos no carro quando ninguém pode nos ouvir, são aquelas histórias quase bobas que nos dão nós na garganta. São aqueles que te denunciam de cara, são aqueles diante dos quais não dá pra disfarçar. É muito mais honesto conversar com alguém cujo filme preferido é Um Sonho de Liberdade, com pessoas que não resistem ao Roberto Carlos e com gente que a-do-rou O Código da Vinci. E mais interessante também. Essas pessoas são as mesmas que provavelmente não vão saber explicar o porquê dessas escolhas e talvez não te convençam de coisa nenhuma, na verdade elas não querem te convencer de nada e exatamente por isso você vai querer ver os tais filmes e ler os tais livros. É claro que adoramos Paulinho da Viola e apreciamos um bom filme de autor. Mas quando a Irene Cara canta ao piano e quando os bailarinos invadem a rua pra dançar ao som da música-tema numa das cenas de Fame não tem pra ninguém!