domingo, maio 05, 2013

5 coisas que aconteceram no ano em que voei de balão


(Para Clara M.) 


1) No primeiro dia do ano de 2006 eu acordei sobre um braço que não era meu. Catei no chão o vestido, verdadeiro obstáculo da noite anterior, e fui até o banheiro tateando um corredor que eu não conhecia. Lavei o rosto e usei uma escova de dentes de alguém que eu também não conhecia e joguei as lentes descartáveis no cesto do lixo. Voltei pro quarto, outra vez me livrei do vestido, escorreguei para debaixo do edredom. Quando fechei os olhos, vermelhos e sensíveis por causa das lentes ressecadas, quando senti o alívio por fechar os olhos, e quando, respirando devagar e mexendo levemente os pés, como sempre faço pra embalar no sono, quando aquela certeza de dormir loucamente, sem hora, feriado mundial: dois braços que não eram meus, o rosto barbado, encontro de línguas, primeiro passo pro infinito. 

2) Li Ciranda de pedra e sublinhei, entre outros, este trecho: “Ouça, Virginia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.” Li, também, todo o Caio, sem nem poder desconfiar de tudo o que essas leituras me causariam, e girfei, na página 168 da antologia que cobre a década de 1980: “Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer.”

3) Num caderno de capa dura (rosa) e folhas sem pauta (brancas) colei um silk de estrela prateada de uma camiseta que ficou velha, sendo que duas de suas pontas cobriam um pedacinho de um autógrafo do Marcelo Camelo que eu conseguira no ano anterior, numa garagem de Ipanema. Na contracapa do mesmo caderno escrevi, de caneta brilhante, um poema de Rimbaud. Das 150 páginas, 3 foram usadas para transcrever passagens dos diários do Kurt Cobain; 5 foram ocupadas com fotos de pessoas que estavam in voga naqueles tempos; 9 foram usadas para colar uma correspondência por email com um sujeito que me daria um pé na bunda em Paris no outono; metade delas poderia ter molhado de tanto que chorei por causa das separações que enfrentei e quase todas continham pelo menos uma ocorrência do nome dele (que ainda não tinha entrado na história e quando chegou, ai meu deus).

4) Clonaram meu Orkut.

5) Num outro dia em janeiro sentei-me numa cadeira Tenreiro procurando permanecer imóvel. À minha frente um artista plástico que eu admirava muito me desenhava. Eu nem sei se precisava ser tão econômica nos gestos, mas me parecia uma possibilidade coerente. Ele me traçava a carvão e eu sentia um batuque brando no peito, e esse estado presente era o que me dava a nítida sensação de que, na verdade, eu estava dançando, porque eu tinha esse ritmo, e portanto era impossível ficar imóvel. Poucos minutos depois, ao olhar para o desenho pronto, aquele desconforto de ficar olhando para si, e certo deslumbramento de, ao mesmo tempo, se reconhecer e ser estrangeiro, a desconfiança de que alguém tivesse me investigado, bem mais que F. naquele réveillon,  bem mais que os livros que me atravessaram, bem mais que roubo de senha: eu a carvão era uma possibilidade, mas tão real, como quando o mundo vai se apequenando e você vai vendo as casas de cima, os telhados e os buracos das chaminés, como quando o balão levanta voo e você vê tudo igual, mas de outro jeito, se embrenhando em azul, desviando de nuvens. 



quarta-feira, maio 01, 2013

Um bom dia para ir ao SAARA


Ela me escreveu logo pela manhã para dizer que tinha sonhado com a gente. Não sabia se era apropriado me contar, mas “não podia deixar de contar”. A gente dançava um monte, ela disse. Foi bonito, ela disse, também. E terminou com um beijo carinhoso. Lembrei de uma festa, nem sei em que estação do ano, em que vi borrões dela dançando com você. Ela estava mais loira. Você mais gordo. Eu mais míope. Desconfiei de que pudessem estar juntos e fui chorar no banheiro.

Assoei o nariz. Mais um pacote de lenços de papel acabado. De manhã é sempre pior. No meu travesseiro havia fios do meu próprio cabelo: todos impecavelmente pretos. Fios brancos não se desprendem assim. E em caso de outono, as máscaras de oxigênio também cairão?

Respondi que tinha levado um tombo idiota na véspera, porque a pista de dança da festa estava molhada demais, e que teria sido mais seguro mesmo uma valsa. Ela não especificou a dança, mas eu queria de você uma valsa, ou uma cadência que nos desse tempo suficiente para respirar e conversar tudo o que não dissemos. Que bom que nos divertimos, pensei. Ou escrevi.

Era feriado, eu tinha pilhas para ler. Livros para ocupar. Mandei mil beijos para ela. Estendi a canga no nosso pedaço. O prólogo dizia: potência. E tinha a ver com mar. Na praia o nariz fica ainda mais escorregadio. 


quarta-feira, abril 24, 2013

The suco verde issue


2 maçãs orgânicas, 3 folhas de couve orgânica, 1 cenoura ou inhame orgânicos, 1 mão de grãos germinados, 1 pepino médio (já entendemos que tudo é orgânico), um punhado de agrião, 3 ramos de hortelã, 1 lasca de gengibre. Há controvérsias, diriam alguns: no armazém do Marcos Palmeira a moça coloca salsa e pergunta se você quer adicionar clorofila. Fora todas as outras variantes da receita de suco verde. A minha veio de um livro de um médico, e mesmo que eu tenha tido um namorado atleta e saudável que tomava o suco verde diariamente foi preciso todo esse tempo (uma década) para eu me render a ele (o suco, obviamente).

Há justificativas possíveis: o ex-namorado mostrou-se um equívoco, o que significa que durante anos não comi coisas verdes; durante anos, também, tomei milk-shake no café da manhã, o que é muitas vezes mais delicioso que suco verde; acordar sempre foi uma tarefa complicada e portanto sempre quis facilitar a vida matinal (e o suco verde, como se verá, só a dificulta).

O milk-shake: lá em casa sempre o chamamos “leite batido” – leite, colheres de sorvete de creme e achocolatado de sua preferência (Nescau para minha irmã, Toddy para mim) e estava pronta a bomba de açúcar, gordura hidrogenada e muco. Pareceu absurdo a todos os meus amigos do trabalho que eu tomasse milk-shake no café, e eles tinham mesmo razão. O fato é que antes da pressão social eu já havia diminuído consideravelmente o consumo de milk-shake, incentivada pela promessa da redução da alergia caso eu parasse de beber leite. Aos poucos, e à medida que fui editando livros de saúde, pareceu mesmo descabido tomar tudo isso de manhã. O milk-shake foi substituído por sucos em geral.

Acordar: a minha irmã me ensinou a dormir com o uniforme da escola. Era uma estratégia para barganhar 15 ou 20 minutos de sono pela manhã. A calça não amassava e a gente não tinha tanto critério assim em relação à blusa, questão que no inverno era resolvida com um casaco de moletom por cima. A dificuldade resiste ao tempo, e até hoje funciono com 2 despertadores e ações cronometradas para que tudo seja feito da maneira mais rápida possível: o banho não ultrapassa 7 minutos, a escovação dos dentes é dinâmica e aboli o secador de cabelos. A roupa é resolvida na véspera, a bolsa idem. E já nem me importo mais com as olheiras, porque querer disfarça-las significaria mais 8 minutos acordada. Não há vaidade que sucumba.

O suco verde: foi uma conjuntura de fatores, nenhum dos quais relacionado ao ex-namorado, posto que grande parte dos fatores envolveram leituras e livros editados por mim. E por mais que isso deponha contra mim, é tempo da verdade emergir: meu ex-namorado falava “seje”. Eu sabia. Tanto é que não durou muito.

Eis que, por vias outras, o suco verde voltou. A logística do mesmo, porém, ainda não está consolidada. Encontrar todos os ingredientes no mesmo estabelecimento não é tarefa que se cumpra com facilidade. Onde tem maçã não tem couve, onde tem couve não tem hortelã e assim sucessivamente. Hay que peregrinar, não tem sido fácil. Hay, também, que acordar com antecedência: o meu primeiro preparo do suco consumiu cerca de 40 minutos entre lavar, descascar, cortar, bater e coar tudo. Uma vez que todos os ingredientes estavam dentro do liquidificador, fechá-lo foi uma missão: não cabia. Desiludida, fui tomar o suco no armazém do Marcos Palmeira, onde a atendente enfiou tudo numa centrífuga (exceto a clorofila), e de onde o suco saiu, líquido, espumante e verdinho, em menos de 4 minutos. Delirei. Era muita rapidez e eficácia, e tudo por causa de uma centrífuga, que foi imediatamente comprada.

Tivesse um diário do suco verde, a entrada do dia em que usei a centrífuga pela primeira vez seria uma piegas, cafona e laudatória. Eu escreveria versinhos para a centrífuga depois que me vi com cerca de 30 minutos de uma manhã sobrando. A centrífuga realizava um trabalho mais limpo, prático e saboroso por apenas 10 minutos. Comoção na cozinha. O final feliz esperado estaria aí, não fosse a segunda entrada imaginária num diário idem uma de tristeza e decepção quando, no segundo dia, a centrífuga não funcionou. Eu não estou preparada pra lidar com intempéries tão cedo. Não tenho estrutura emocional para driblar esse tipo de contratempo. Atarantada, depois de montar e desmontar a centrífuga duas vezes – operação que durou cerca de 35 minutos - mastiguei o gengibre até chorar e, sem querer, joguei as couves no lixo junto com a casca da banana que me serviu de consolo. Eu, que já tinha fumado um cigarro de nervoso naquela semana, não hesitei: parei o carro no posto de gasolina e pedi “mal batido”. Adentrei minha sala do trabalho meio escondida, tomando um belo Ovomaltine.  


segunda-feira, abril 15, 2013

S101


— Parece que Black Keys é uma banda famosa —, eu disse a ela sem entender como é que pode uma festa não tocar Caetano Veloso. A gente não dançou nem uma vez aquela noite. Nenhuma. Cheguei em casa e os sapatos nem me apertavam. Fiquei a metade da festa descalça, porque sentada. Ela ficou a metade do tempo bêbada e eu passei metade do domingo de ressaca, com aquela cara de síndrome do intestino irritável, e quando acordei segunda eu estava dois quilos a menos. — Também não tocou Michael Jackson —, ela piorou, e eu, que tinha uma leve recordação de Thriller, fiz minha coreografia de ombros, mãos e braços no banco de trás do taxi que nos levou até a Gávea. — Não sei o que acontece, não conheço nenhuma música de agora —, confessei. O dia ameaçava, a gente ouvia Marcelo Camelo na sala e concluía que, apesar da beleza, faltava borogodó. — Te-são — , ela diria, mas já não estava conosco para debater, separados por túneis e um taxista duvidoso. — Já te contei que o conheço desde 1985? —, perguntei, numa noite cortada por travessões, delírios, devires, vírgulas que nunca estão onde deveriam.





sábado, abril 13, 2013

Efeméride - vol. 3


O curioso, no entanto, é que esta soma infinita do que não fará continue sendo aplicada a ele, como uma sentença. Quem morre não tem perdoada a vida que deixou de ter. Não fica isento do aquém, do dia-a-dia que ainda nos domina, descansando num respeito solene dentro do túmulo. Não, nós o prendemos em nossa culpa e em nosso amor, procurando lembrá-lo (mas quem é ele agora?) de cada gesto que não fez, de cada entardecer que não viu. O morto torna-se aos poucos um devedor, e quanto mais tempo passa, maior a vida que nos deve (porque morreu). Sei que não há como lembrá-lo disso, mas não importa – sua surdez é apenas mais uma de suas dívidas: Hoje você não ouviu minhas queixas. Assim, se houver um Além, somos nós que assombramos os que passaram, enchendo sua eternidade de cobranças e lamentos.

Nuno Ramos, Ó



segunda-feira, abril 08, 2013

Hoje

(há 3 ou 4 anos atrás)

Somos 4 num boteco xexelento em Ipanema. A mesa, repleta de garrafas de cerveja, está molhada. Ameaço ir embora, coloco o dinheiro num espaço ainda não alagado. E fico além da hora. As notas se afogam. A gente fala do novo filme do Tarantino, que agora é só o penúltimo. Eu tiro fotos que ficarão mais escuras que o desejado. Nenhum negativo captura você, sentado à minha frente. Separo e organizo as notas molhadas, o que dura alguns segundos. Você fica vidrado nas minhas mãos, sem ar ou batimentos pelo tempo que leva contar 16 ou 18 reais em notas de 2. Isso foi uma dança da Pina Bausch, você diz. Eu te amo, penso em responder.

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(hoje mesmo)

Antonio me abraça suado no fim do espetáculo. Cansado e grisalho, reparo. Passa lá em casa, eu tenho livros e vídeos que podem te ajudar. Bloco 5, 118. Ainda estão lá: aquele rumor de vento e árvores; o salão de festas onde por meses dançamos; o futon vermelho na sala; Antonio. Eu tenho uma saudade de Antonio! Ele não adivinha e eu não quero confessar. Fazemos aquelas promessas de sempre. Tenho livros e filmes a devolver, e portanto pelo menos mais um pedaço de Antonio garantido. Em casa assisto: sobre fundo negro, as mãos de Pina dançam. Eu sinto aquela coisa que se sente quando, por um momento muito passageiro (o tempo de contar 16 ou 18 reais em notas molhadas de 2), você perde a força de controlar seus órgãos. Os segundos antes de um vômito, de um orgasmo, de um choro; os segundos em que a linguagem escapa.

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(em 2011)

Quando os bailarinos esvaziam o palco para o intervalo e a cena permanece aberta e a neve que começara em meados do primeiro ato continua a cair; quando as pessoas deixam as poltronas para se encaminhar para os banheiros, os bares e os corredores; quando as campainhas soam para o segundo ato e ainda neva, e de repente os bailarinos voltam à cena e neva mais e mais e mais e os cabelos se arrastam na neve e dançam, e os vestidos levantam a neve do chão e de repente tudo é branco e é preciso quase imaginar os corpos que ali estão, atrás dessa cortina de flocos; quando os aplausos não se cansam, quando outra vez os assentos ficam para trás; quando eu fico para trás, sentada numa poltrona da fila H do balcão nobre; quando eu, desnorteada, ainda vejo neve cair, sentada numa poltrona da fila H do balcão nobre que parece ser o limite do mundo; quando eu desço as escadas do Theatro e não sei nem mesmo pensar: tem uma corrente que passa sob a pele, um buraco que se abre num ponto impreciso entre a compreensão e o meu estômago.

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(todo dia)

Quando eu não sei nem mesmo pensar: danço, e é sempre com você.  



domingo, março 31, 2013

Desvairadamente


quando tem o seu cheiro
dentro de um livro
Dentro da Noite Veloz.

Adriana Calcanhotto em Vambora

 

“Pela passagem de uma grande dor”, página 36: é o quarto conto de Morangos mofados, reeditado há 8 anos atrás. Meu exemplar já guarda certo cheiro de tempo.

Li Morangos dia 15 de novembro. Em dezembro uma amiga leu o meu livro: eu pedi que ela escrevesse seu nome e a data na folha de rosto, debaixo da minha própria marca. Acho lindo livro de biblioteca, daqueles que contém cartões datilografados por máquina de escrever, onde se listam os usuários e empréstimos. Daqueles que não existem mais. Eu achava que o meu Morangos podia tentar ser antigo. Em julho de 2007 foi a vez da Carol deixar sua assinatura.

10 páginas antes, e que é a segunda de “Os sobreviventes”, há 14 linhas sublinhadas a lápis: é o recorde de intervenções. Talvez eu ainda respondesse que este é o meu conto preferido da vida. O que pode ser falso. O que pode ser verdadeiro. O que eu posso nunca saber. Mas quando penso num momento fundador da minha trajetória de leitora, é para estas páginas que eu volto.

Eu estava apaixonada por um sujeito que era apaixonado por Caio. Isso interfere? Ambos se foram. O amor ficou. Os amores, todos.

A edição traz, nas páginas finais, uma carta de 22 de dezembro de 1979, endereçada a Zézim. Outro dia, à saída da aula, Beatriz e eu concordamos que é a mais bonita de Caio. Ela está, também, na coletânea de cartas, um volume que roubei da biblioteca de uma amiga em 2010, e cuja falta ela nunca sentiu. Heresia: a indiferença, não o furto.

Pouco antes da conclusão com Beatriz, Rodrigo dizia da sua experiência em ler o livro seguindo as orientações sonoras de Caio. “Pela passagem” pede Satie. “Os sobreviventes”, Angela Ro Ro. Jacques Loussier Trio executando as Gymnopédies é Satie o suficiente? Ou seria melhor o Nelson Freire? É a mesma coisa? E especificamente: qual música da Ro Ro?

Complicado fazer duas coisas ao mesmo tempo, e o meu livro me causa espirros. E uma saudade, do tipo que rasga: há 8 anos atrás, no café de uma livraria, conta paga, cadeiras arrastadas para trás: ele tirou do bolso uma flor, dessas roubadas de um canteiro na esquina. Murcha e despetalada, foi a primeira de uma série.

Na parte interna da contracapa de Morangos mofados anotei o telefone de alguém. Semana passada apaguei o número dele do meu celular.

Nem sei se a Carol gostou do Caio. Provavelmente não tanto quanto eu. 

2005 foi um ano bom.


 

quinta-feira, março 28, 2013

Huis Clos

Diante da perda da Clô Orozco, minha estilista brasileira preferida, ressuscitei o Meu paletó para um pequeno texto. Meio bobo, meio triste, uma breve homenagem. Aqui.



segunda-feira, março 25, 2013

Quem mexeu no meu pavê



A piada é óbvia, clichê e manjada, mas inevitável em se tratando de uma pequena ode a doces: madeleines não me fariam escrever sequer 7 linhas, quanto mais o grande romance da modernidade. Não que eu tenha pretensões. O que eu queria mesmo era engordar, e no meu cânone alimentício não há espaços para delícias proustianas. Meu elenco seria feito de uma torta-mousse inesquecível, exageradamente consumida entre os anos de 1996 e 1998. Ou um pouco antes, ou um pouco depois.

Do que me lembro dela: o preço exorbitante de R$ 5,00 por fatia obrigava-nos a dividir uma, a minha melhor amiga e eu. Com o mesmo valor, naquele tempo, comprava-se uma oferta inteira do Mcdonalds por pessoa, um festival de açúcar e gordura trans individual, pra agora ou pra viagem. A torta-mousse era bicolor, composta de chocolates preto e branco, e ainda carregava outro binarismo, porque era uma mistura de bolo com camadas mais pastosas. Era recoberta por raspas de chocolate que se volteavam nas extremidades, e sempre pedíamos “uma raspinha a mais”. Sentávamos na mesa redonda e pequenina que imitava mármore. Talvez fosse de mármore. Não sei se é possível descrever sabores, e talvez muito menos o deleite que aquilo proporcionava. As sextas-feiras eram feitas daquele momento, as quintas-feiras eram esperas e os sábados suspiros, nunca literatura.

A sentença se materializou em faixas vermelhas na vitrine: queima total. Godiva-less. Detalhes da despedida se ofuscaram nas minhas lembranças, ensombrecidos pelo luto do qual nunca me refiz completamente. A derradeira fatia da torta-mousse: diria que choramos, o que daria uma ficção overdramática. Comemos, este é o fato. E nos apegamos como pudemos ao pavê de chocolate branco do Amor aos Pedaços.

É claro que não foi do dia pra noite, pois essas transições levam tempo. Fizemos o jejum necessário para que o novo vício se consolidasse. O pavê do Amor aos Pedaços oferecia algumas poucas vantagens em relação à defunta: era possível escolher o tamanho, logo era mais fácil controlar as despesas. Era possível também pedir a tal raspinha, que muitas vezes era acrescentada depois da atendente já ter pesado o doce. E havia mais lojas do Amor aos Pedaços pela cidade, e portanto não éramos mais reféns da expansão do Barra Shopping. Não que nos aventurássemos para o desconhecido, mas havia um alento geográfico na nossa gula.

Não foi apenas a (minha) mudança de colégio que interrompeu as sextas-feiras glicêmicas com a minha melhor amiga. Por uma série de fatores, nebulosos como o último pedaço da torta-mousse da Godiva, comer o pavê de chocolate branco do Amor aos Pedaços deixou de ser um programa, e com o tempo, a idade, os hábitos, etc. deixou de ser algo que eu me lembrasse de fazer. Brigadeiros começaram a parecer a opção mais fácil, e tudo na vida passou a ter esse tipo de funcionamento: mais fácil.

“Tente a torta alemã”, alegaram alguns, em momentos em que confessei meu passado de Amor e Godiva. Tolos. A torta alemã, vulgarizada e massificada, exposta nas mais duvidosas vitrines de padarias e biroscas, jamais teria efeito semelhante ao que os antecessores provocavam. De certa forma, continuei fiel ao pavê de chocolate branco, frequentando mais shows do que gostaria no Canecão, apenas para degustar a iguaria na loja do Shopping Rio Sul. Vezes mesmo houve em que fui ao tal shopping apenas para isso: um pedaço de doce. 

Qual então, foi minha surpresa (e minha conclusão) quando, numa terça-feira, disposta a faltar aula e não jantar para ir até Botafogo, estacionar o carro e apontar pra vitrine onde estariam, lado a lado, o pavê de chocolate branco e o preto, entre merengues, tortas, bolos e afins e declarar: quero inteiro, como outras vezes fiz, a fim de presentear os amigos do trabalho, da universidade e quem mais tivesse estômago, insulina e créditos com a balança; qual foi minha surpresa quando descobri que não existe mais Amor aos Pedaços no Rio de Janeiro. O pavê de chocolate branco mais próximo custa, agora, o preço da ponte aérea mais o táxi de Congonhas até o Itaim.

Neste desfecho desolador, a certeza: toda a trajetória gulosêimica é como aquela das bolinhas-de-queijo: uma luta injusta contra o mundo. 



domingo, março 17, 2013

Efeméride - vol. 2


Queria estar onde ele está, e o único âmbito em que me consta que nos encontraríamos é o passado, o não ser e no entanto ter sido. Se fosse passado, pelo menos eu me igualaria a ele nisso, já é alguma coisa, e não estaria na situação de sentir sua falta nem de me lembrar dele. Estaria em seu mesmo nível nesse aspecto, ou em sua dimensão, ou em seu tempo, e já não permaneceria neste mundo precário que vai tirando nossos costumes. Nada mais se tira de nós se nos tiram de cena. Nada mais se acaba para nós se alguém já acabou.

Javier MARÍAS. Os enamoramentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, março 15, 2013

Efeméride

“Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”
José GIL. Movimento total. O corpo e a dança. Lisboa: Relógio d`Água, 2001.

Filha, anote meu telefone. Eu sou espírita e tenho uma coisa pra você. Foi o que disse, ipsis literis, a senhora que emparelhou ao meu lado, em Botafogo, a caminho da volta às aulas. O ceticismo decide que é golpe, mas a vontade acelera um pouco a cadência do peito. Perco a mulher de vista. Na Casa da Empada um temporal se arma, e entre Deleuze, Artaud e Pina um planeta retrógrado indica que é um tempo favorável para releituras – foi o professor que disse, rindo encabulado por resolver acreditar em astrologia. Duas semanas depois, Deleuze guarda os seus ecos, sua voz, e eu não encontro estômago pra estudar.

Perto da impressora do trabalho, depois de uma reunião cujo tema era Clarice, encontro uma barata morta. “Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu” – está lá, na primeira página da Paixão segundo G.H. Se isso é coincidência demais?

E não é coincidência também que, depois de ouvir “Space oddity” pela centésima vez, só ontem eu tenha me dado conta de que o Major Tom morre no fim da música? Achei tristíssimo.  Chorei potes.

As pessoas morrem. E chega o dia que faz um ano que elas morreram.



quarta-feira, fevereiro 20, 2013

O novo porteiro da noite - vol. 2


Data de agosto meu último relato sobre o novo porteiro da noite, e a proximidade do fim do mês de fevereiro por si só já pauta o assunto evidente: a nova safra de férias escolares e o meu reencontro com tal funcionário noturno, numa temporada estendida que atende pelo nome de verão. Confesso, tenho encontrado mais os porteiros diurnos, porque minha popularidade despenca, a temperatura se eleva e hay que boiar no mar, que até ali pelo posto 12 anda com cores que mais parecem artificiais, e ainda que band-aids, embalagens de iogurte e afins continuem lutando por um pedaço de onda, já dá pra chamar de paraíso aquela faixa marinha. Numa próxima vida eu quero saber pegar jacaré, tomar eventuais caldos, me virar pra segurar as partes dos biquínis enquanto os cabelos se enchem de areia. 

Deve ser desejo dos porteiros diurnos também, derretidos pela portaria abafada e pela ineficácia do ventilador. Notei que mudaram até a cadeira, dispensando almofadas e estofados por um reles modelo de plástico, mais fresco, menos grudante e tais condições climáticas e mobiliárias só reforçam a insistência do novo porteiro da noite em permanecer acordado. Pudera. 

Portanto lá estava ele: na primeira noite de férias em dezembro, abrindo a porta do carro quando cheguei do trabalho carregada dos livros que o patrão não queria mais, me ajudando com as sacolas, sentindo meu bafo de chá depois de uma noite agradável na minha livraria preferida. Também não falhou quando, dias depois, cheguei ao prédio de madrugada, depois de um vôo latino e de dias que me deixaram subnutrida, quatro quilos a menos para carregar as malas, que ele prontamente tirou do taxi e alocou no elevador. O novo porteiro da noite testemunhou a minha chegada da festa de réveillon, sóbria como nunca, depois de uma overdose de água de coco. Testemunhou, ainda, os momentos em que mais valorizo a minha solidão: a cantoria que faço no carro, o meu show particular pra mim mesma, uma performance que envolve pulmões, mãos, braços e, sobretudo, a certeza de que ninguém me escuta. Até que veio ele, sempre: o novo e eficaz porteiro da noite. 

Comecei a ficar incomodada com a mania do novo porteiro da noite de se antecipar à minha chegada no terceiro pavimento da garagem: toda vez que eu estacionava o carro, lá estava ele, posicionado para abrir a porta. Começou a bater um constrangimento, e uma irritação pela interrupção que o cavalheirismo do novo porteiro da noite causava. Pense bem: são 11 da noite, o Caetano ainda nem chegou no refrão de “Eclipse oculto” e você tem que desligar sua música, sua voz e descer do automóvel. Em outros prédios onde morei ou dormi, e que eram desprovidos de porteiros da noite, eu era capaz de esperar o disco todo acabar pra subir pra casa. Música tem dessas coisas: às vezes é preciso ouvir o grito final, o suspiro derradeiro, os acordes últimos pra ela fazer sentido. Pra sua vida, naquele momento, fazer sentido. Eu andava super tropicalista, e fiquei realmente puta quando, numa quinta-feira, o porteiro abriu minha porta e a Gal ainda nem tinha se descabelado e afirmado que era o amor da cabeça aos pés. Mais furiosa ainda foi quando, no auge de “Back to Bahia”, eu já quicando no banco, o porteiro se postou ao meu lado e ficou olhando pra minha cara com aquele sorriso permanente que ele tem. Foi quando me dei conta de que o novo porteiro da noite era meio parecido com o Russell Crowe. 

Então passei a me programar pra chegar em casa só no momento que eu julgava propício, musicalmente falando. Eu fazia hora na esquina, diminuía radicalmente a velocidade ou dava uma volta no quarteirão antes de entrar na garagem. Não deu tão certo, porque às vezes a música terminava antes do tempo. A magia da cantoria automotiva ficou seriamente comprometida com as gentilezas do porteiro da noite, a quem eu, obviamente, passei a detestar. Depois de quase dois meses de férias, saindo para jantar, para dançar (cof cof) e/ou para tantos outros compromissos sociais da minha badalada vida, acertei o timing e reconquistei o prazer de deixar o carro no G3. 

Aí veio o Oscar, eu fui assistir Les Misérables num domingo, e na sexta-feira a Anne Hathaway continuava cantando na minha cabeça. Meu carro virou um silêncio até eu comprar a trilha sonora do filme. Tomada pelo desespero de Fantine, engasgada da emoção dos tempos pré-Revolução Francesa e descabelada pelo fim inesperado do antifrizz e da volta às aulas de ballet, chorei copiosamente na primeira execução da canção no meu Volkswagen. O porteiro da noite, a partir de então apelidado Javert, pela semelhança já citada com o ator, e pela falta de sensibilidade, estava com aquele sorriso, dessa vez ligeiramente mais esgarçado, segurando a porta aberta, enquanto eu chorava lágrimas sinceras e cantava, sem acertar nenhuma nota, a música belíssima e cortante da personagem de Anne Hathaway. 

Por sorte março já se aproxima, assim como uma monografia e uma promoção no trabalho que sinalizam que só volto a encontrar o porteiro da noite em setembro, quando as férias de verdade chegarão. Até lá, espero, a Anne Hathaway terá lentamente se dissipado e terei recuperado as rédeas do meu espetáculo. Ainda assim, já penso em tentar o Mestrado.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

dispensa


"Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?"
Alejandra Pizarnik via Alexandra Lucas Coelho, no livro e a noite roda (Tinta da China, 2012).


Na minha mesa agora habita um cardápio do Lamas. Uma pasta de cardápio do Lamas.  A pasta de cardápio do Lamas, há poucos meses, abrigou um mapa de Paraty, tickets para mesas de debate, cartões de restaurantes. Agora vazia. Agora um intervalo.

Não quero falar como se você tivesse morrido. Mas é que quando nos arrancam coisas é assim mesmo que ficamos: sem coisas, porque tomadas.

Nunca me puxaram o tapete, mas a sensação que tenho é essa, a de estar com o nariz colado ao chão, a cara tão próxima da madeira que mesmo uma aspiração tímida vai fazer entrar em mim poeiras repousadas durante anos. Não quero me entupir disso, não disso. Não quero mais encontrar buracos: nas roupas assaltadas, nas baias desocupadas, na minha barriga instável, nas brigas silenciosas, nos suicídios repentinos, no primeiro ano sem ele que se completa, e nunca tão real o para sempre como agora. Um para sempre sinônimo de nunca mais.

Falam de agostos. Caio se escondia deles. Não sabem dos janeiros.


domingo, janeiro 20, 2013


Sartre disse bem: “Por que se leem romances? Falta alguma coisa na vida da pessoa que lê, e é isso que ela procura no livro. O sentido, evidentemente, é o sentido de sua vida, dessa vida que para todo mundo é torta, mal vivida, explorada, alienada, enganada, mistificada, mas acerca da qual, ao mesmo tempo, aquele que a vive sabe muito bem que poderia ser outra coisa.”

Ricardo Piglia, O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. (trad. Heloisa Jahn)

quarta-feira, janeiro 09, 2013

2 links

O ano começa bem, com a descoberta de um blogue amável (Alexandra Lucas Coelho, aqui) e o tumblr das pessoas mais divertidas que conheci em 2011, neste outro aqui.

sábado, dezembro 22, 2012

ho ho ho

 A tirinha veio daqui.

Um bom fim de ano a todos, obrigada pela audiência e até logo!


terça-feira, dezembro 18, 2012

retrospectiva 2012


Envoi

O tempo, que a tudo distorce,
às vezes alisa, conserta,
e a golpes cegos acerta:

em seu tosco código Morse
de instantes sem rumo e roteiro
então dá forma a algo de inteiro.

Não um verso, que em folha esquiva
a gente retoca e remenda
até ser coisa que se entenda,

mas algo que na carne viva
se esboça, se inscreve
bem mais a fundo, ainda que breve –

pois todo poema é murmúrio
frente ao amor e sua fúria. 

Paulo Henriques Britto, Formas do nada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.  

E se alguém objetar que não vale à pena tanto esforço, citarei Cioran: "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. 'Para que lhe servirá?', pergutaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer.'"

Italo Calvino, Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Danço eu, dança você


Ficou tudo muito complicado pra mim esse ano: perdi os 2 shows da Baby, não frequentei o Arpex, não fui a nenhum comício político, não vi o Stevie Wonder ao vivo e não me empolguei com a ideia da Praça São Salvador como local de socialização, mesmo porque lá estão todas as pessoas que certamente me achariam boçal, visto que moro no Leblon e sou proprietária de um veículo automotivo. Pra piorar, não acho tanta graça assim no Fábio Porchat, não postei nenhum almoço no instagram e outro dia, ao rapidamente conhecer a dupla que lançou a moda das plaquinhas “respeite: um carro a menos”, sugeri que eles deviam lançar uma campanha pelo uso de capacete dos usuários de magrelas. Ficaram desarmados com meu mau humor.

Senti a exclusão na pele: os convites para chopes foram ficando cada vez mais escassos, a praia cada vez mais solitária, as idas à livraria cada vez mais diárias. Não é fácil ser equivocada nessa vida, e numa tentativa desesperada de integração, comprei um smartphone. Julguei que tal ato fosse me colocar no centro da pós-modernidade onde todo mundo usa whatsapp, twitter da Lei Seca e fotos mirabolantes de seus pés, pugs e plantas. Eu, que ainda vivo na era dos poodles, achei que bastava um pacote de dados para me atualizar.

Os primeiros sinais de infelicidade pós-smartphone vieram no mesmo dia que saí com ele na bolsa pela primeira vez: não pude me comunicar com ninguém por incapacidade de teclar. As poucas palavras que acertei foram prontamente corrigidas pelo aparelho, e rapidamente “lindona” (a nova cadeira da minha irmã), virou “linfoma”, o apelido da Julia – “xará” – virou “cara” e eu nem pude atualizar meu status do facebook com um versinho porque o meu Samsung jamais entenderia minha poesia. Às 3 da tarde a bateria já dava sinais de falência e eu resolvi comprar um relógio. No dia seguinte, depois de uma noite na tomada, o alarme, batizado de “todo dia” (no smartphone você pode nomear seus alarmes, veja só), não tocou, eu perdi a hora e às 10h15 estava no camelô que me vendera o relógio de pulso, dessa vez procurando por um de mesa, daqueles cuja pecinha você levanta antes de dormir e abaixa quando se põe de pé. Salve a tradição.

Os segundos sinais de que algo não ia bem vieram na praia de sábado, quando o celular transformou-se num espelho: não se via nada na tela além do meu rosto refletido. Eu fazia sombra com as mãos, colocava o aparelho e a minha cabeça dentro da bolsa e nada, não se enxergava nada. Eu queria telefonar pra Bruna pra avisar que estava ali em frente à JL, que o mar parecia um presente, mas nada parecia possível e só um milagre nos reuniria naquela manhã de sol. Fui pra casa e liguei o ar-condicionado no máximo, mandei 3 mensagens pra ver se descolava companhia pra jantar, mas acabei comendo uma salada do Gula-gula em frente à tv, desejando que Elaine e George fossem reais, porque nem as séries certas eu assisti esse ano.

Veio domingo e uma chuva de espantar os habituais bailarinos, digo, skatistas da orla, e calcei os tênis para sair à caça de uma bici. Na terceira estação havia algumas disponíveis, e um crowd de gente na disputa. Perdi qualquer chance quando, depois de discar o número praticamente debaixo de um carro que me dava sombra suficiente pra enxergar a tela, a mocinha eletrônica disse “digite o número da estação” e não havia teclado disponível. Derrotada, me arrastei pra fora do carro, me levantei com dificuldade e fui me consolar comendo waffles na Argumento: eu estava ficando patética e gorda, e a possibilidade de fazer amigos no Vigilantes do Peso me deu ânimo. Quem dera. Depois de 15 minutos esperando uma mesa, tomei o caminho de casa, rumei ladeira acima e postei uma foto da capa de um livro no instagram.

Faz 2 dias que choro sem parar pensando no meu velho Nokia, na minha velha vida, naqueles dias românticos pré-3G em que eu conseguia falar com as pessoas. Meu único consolo tem sido a faixa 3 do novo cd do Caetano, uma tão miserável quanto a minha conversão à tecnologia e que diz: “estou triste tão triste / e o lugar mais frio do Rio / é o meu quarto.”

segunda-feira, novembro 05, 2012

Meus subúrbios


Tem essa tosse que vem de tempos em tempos. Explode junto com uma mancha rosada na bochecha. Todas as soluções disponíveis, das sementes ao silêncio, não vão resolver: a tosse é a tentativa de expulsão, ainda que você não esteja mais aqui. A mancha na bochecha, dizem, não tem cura. Como se alguma coisa tivesse. 

É lindo como os portugueses não usam gerúndio e precisam do infinitivo do verbo.  Outro dia, em aula, alguém disse: o infinito do verbo. Não só o texto, mas a palavra também: descosturada, a esfiapar: sem ponto de chegada. 

Tem essa tosse que me deixa sem voz, e ainda que eu quisesse conversar com alguém. Sem fala,  sem o seu barulho e sem o seu me enxergar: passo em branco, eventualmente acordo a chorar, como é que te deixei morrer assim? 

Implosão sobre travesseiros, saudade entranhada, lembranças que não desgrudam, e essa tosse a insistir na impossibilidade. Você, infinito: a única coisa que eu sei.