quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Oba, não vou!
Até que esse ano alguma maldição me pegou de jeito e eu fiquei de bode: pouco me importa se Zezé e sua cabeleira são bossa-nova ou transviados, menos ainda me perturba se Aurora é sincera e tenho a mais absoluta certeza de que cachaça não é água nem aqui na China. Passei minha lista de possíveis fantasias adiante, aproveitei os útimos dias de liquidação nos shoppings e pretendo frequentar cinemas muito bem refrigerados com meus vestidos novos. Caso algo me acometa na véspera, levanto bandeira branca, tiro minha roupa de bate-bola do armário e caio no samba, encarando Boitatá e Boi Tolo mas tem que ser grave, muito grave, uma conjunção de astros daquelas que faz até Pierrot, esse mala, esquecer Colombina, verdadeiramente uma chata de galochas.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Madrugada dos mortos
O que acontece que a partir de uma certa idade a gente desaprende como freqüentar uma “night”? Por que de repente a gente começa a se sentir meio “tio”? Por que, meu deus, da noite pro dia o jogo de pac-man passa a ser muito mais emocionante que qualquer set-list dos djs da pista 2 da Casa da Matriz?
É duro. Você chega na porta do lugar e olha para os adolescentes e têm a absoluta certeza de que não é mais um deles: o seu dress-code está ultrapassado, você tem um ataque de riso quando o segurança pede seu documento e fica com medo de ser barrado por excesso de idade. Certamente o público-alvo não é mais... eu.
Lá dentro piora: um dos seus amigos pergunta pro cara do bar “mas que horas as pessoas costumam chegar?!”, o desespero estampado no rosto. Ele é o mesmo que depois perguntará ao dj “mas vem cá, não vai tocar Madonna não?”. Teremos sorte se o Dj tiver nascido na década de 80, se for um filho dos 90 as coisas vão complicar.
Num momento de total emancipação, que só os 26 permitem, abrimos a pista sem medo, arriscamos passos de dança e vibramos a cada música que conhecemos: uma do R.E.M, uma do Joy Division, e, babe: cantamos de cor e salteado, e com muita animação uma música do Gossip. Nos sentimos tão atualizados que começamos a pular. Então nos damos conta que até nosso dance-code é démodé: os adolescentes adaptaram os passos de funk para todo e qualquer ritmo, fazendo sanduíches de si mesmos enquanto se esfregam e cantam com seus drinks na mão. É bizarro. Olhamos pra eles com ares de reprovação.
Começamos a consumir água enquanto as pessoas ainda estão chegando, afinal temos que obedecer a Lei Seca. Respeitamos direitinho a área de fumantes. Lavamos as latinahs e garrafas antes de colocarmos a boca ali. De vez em quando sentamos um pouco, sabe como é, pra descansar as pernas. Então nos agarramos à manivela do Pac-Man como se não houvesse amanhã, e fase atrás de fase devoramos bolinhas amarelas e monstros. No fim, exaustos, cedemos lugar a alguém de 18 anos que nunca nem soube o que era Nintendo.
Por milagre, nenhuma pessoa desconhecida vem nos abordar, isso seria tão patético quanto o fato de que saímos da boate à 1 e meia da madrugada. Vai ver a terceira idade se chama “melhor” idade por causa disso: você finalmente aprende a se divertir, mesmo que o final da noite seja a tela de um jogo de Atari onde se lê GAME OVER.
:: Teenage Kicks, Nouvelle Vague
domingo, fevereiro 01, 2009
When only you could be the one to win out over me*
Fico perdida porque escarafunchamos tanto os itens dos debates e nunca nos preocupamos em concluir, de forma que acumulamos muito mais perguntas que soluções. E também porque me adoro quando estou perto de você, de um jeito tão novo e delicioso que, confesso, às vezes desligo um pouco das suas palavras para aproveitar essa sensação tão boa de gostar de mim tão plenamente.
E fico encantada porque a sua capacidade de argumentação sempre me surpreende, e isso me dá a dimensão exata do quanto ainda posso esperar de você – sensatez, humor, maturidade, em doses e momentos onde geralmente eu só esperaria decepção. E principalmente, me encanta essa sensibilidade, essa doçura, esse jeito de olhar que você consegue, essas descobertas todas que você faz, e que eu faço também, em horas de assuntos e risos que compartilhamos.
E fico absolutamente feliz quando concluo que essa felicidade é possível, e sujeita apenas à nossa vontade de ficar perto, à nossa convivência, tão essencial e redonda que segregamos pessoas em nome dessa sintonia.
Eu fico perdida e encantada com todas as possibilidades que você me dá, com todas as chances que você me oferece de entender e apreciar detalhes que provavelmente passariam despercebidos, fico boba ao constatar o quanto você sabe sobre milhares de coisas que eu sequer desconfio, o quanto você transforma tudo em poesia (sem ter idéia de que o faz), o quanto alguns episódios e sutilezas ganham dimensões tão especiais quando narradas de forma tão envolvente por você, fico envaidecida e ao mesmo tempo abençoada em perceber o quanto você me deixa à vontade para cantar aos berros a mesma música repetidamente enquanto você dirige, inventando a letra, mudando um pouco a melodia, desdenhando da companhia de todo mundo que não vai saber cantar junto.
* Basia Bulat in "Snakes and Ladders"
segunda-feira, janeiro 26, 2009
O dia em que assei biscoitos
Tive de prender o cachorro no dia em que assei biscoitos, porque os técnicos da refrigeração eram alvos em potencial para os dentes do cão, que é pequenino e fofo, mas morde com crueldade canelas e panturrilhas. Uma vez preso no quarto, o cão começa sua sinfonia de latidos e choros que causam: irritação, piedade, loucura.
A tarde toda do dia em que assei biscoitos foi passada, então, encasacada, entrando no quarto às vezes para que o cão entendesse que eu não iria esquece-lo (e fizesse algum minuto de silencioso alívio), e tossindo na sala enquanto os homens se penduravam em escadas.
Dada a partida dos técnicos e a libertação do cachorro, pus-me na cozinha com a mão na massa, querendo, esperando, torcendo pra que alguém ligasse e eu sujasse o telefone com as mãos de farinha só para poder dizer “não posso falar, estou assando biscoitos”. Deve ser romantismo, mania de achar bonito as coisas que não sabemos fazer, de pensar que alguma magia pode surgir do simples fato de: beber café, comer sushi, assar biscoitos.
Pronta a massa, arrumei os tabuleiros, fiz bolinhas sem padronização de tamanhos, lutei contra o forno que não queria se manter aceso e saí correndo afoita quando escutei o trim-trim lá na sala, pronto, era ela, uma amiga “você está perto do shopping?”. Não, estou assando biscoitos, eu disse enquanto limpava a mão livre no avental, e ela não entendeu nada. São para consumo próprio, pensei, mas continuaria sendo um fato totalmente descontextualizado.
Esfarelei vários dos biscoitos no chão ao passa-los do tabuleiro para a lata, num destrambelhamento típico dos ansiosos de primeira viagem. A recompensa do cachorro, que passara o dia trancado e ameaçado de abandono, foi comer do chão os biscoitinhos já mornos. Pela dedicação com que se pôs a lamber o ladrilho, arrisco o palpite de que estou aprovada na minha nova aventura.
Aproveitando o resquício do clima temperado que ainda fazia na sala, onde o ar-refrigerado teve que ficar em teste, esquentei uma xícara de água, despejei um sachet de chá e fiquei: vendo um filme pela décima vez, orgulhosa por ter assado biscoitos, engordando com o cão esquentando os meus pés.
No dia em que assei biscoitos concluí: já posso ser avó.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Garoa
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Meus suicídios (vol. 2)
IV.
Eu me suicido toda vez que corto o cabelo. É um cliché tão absurdo que nem tem graça contar. Primeiro começa uma vontade de mudança, enjôo (enjoo?) dos vestidos, das comidas, da sem gracice de dias arrastados sem nenhum sobressalto e então preciso apostar numa ousadia qualquer, e é sempre o cabelo, e é sempre libertador entrar pela porta do salão e é sempre tão corajoso confiar nas tesouras que remodelam as madeixas. Então conto 18 grampos que seguravam os cabelos no alto da cabeça, vejo os cachos caindo e engulo seco, faço cara de “tá ótimo” e viro de lado pra ver melhor, sem prestar atenção na tesoura que chega perto demais e me corta a nuca, o sangue pinga sobre os cabelos já mortos no chão e pronto, estou suicidada, e cada vez que penteio o que restou dos cabelos depois do banho escorre mais sangue da nuca, e isso dura meses até que tudo cresça novamente e eu precise mudar, da próxima vez, penso, pinto de azul.
V e VI.
Eu me suicido toda vez que escuto aquela música de manhã, ao entrar no carro, ligar o ar e ouvir a voz “Take it back, take it back...”. É um suicídio invejoso, começa com uma vontade de ter feito aquilo e parte para uma frustração tamanha de que nunca vou conseguir expressar tudo o que sinto com essa música (e outras). Então faço anotações no bloquinho do carro, penso em dizer que aquela música tem ares de fim de festa, ares daquele momento em que procuro na bolsa o último cigarro do maço e ele está completamente amassado e meio quebrado, mas não é nada disso, talvez tenha jeito de dia seguinte, de acordar e tropeçar já de cara, de topar com um móvel que sempre esteve ali no caminho, mas é muito maior e pior e então meto a cara no escapamento e fico asfixiada, com gosto de fumaça na boca, muito mais que mil cigarros desconjuntados e apago num desmaio, acordo tanto tempo depois, “I don’t wanna wonder whether you care so don't try to woo me, don’t try to fool me. I know all your tricks.”, a música continua lá me arrastando pra lugares cinzentos e fantásticos, então me rendo, canto do jeito que eu sei e pronto, me mato duplamente, dessa vez de desgosto.
VII.
Eu me suicido toda vez que quero me apaixonar de novo. É um suicídio patético porque eu nunca sei se quero me apaixonar porque a pessoa realmente merece ou se é porque já faz tanto tempo, e fico confusa pensando se é mais trágico gostar e não ser correspondida ou se é pior saber que alguém passou em branco, porque aí não uso de desculpas estúpidas para ficar boba e mole, não relembro obsessivamente o beijo que me causou calafrios e não tenho razão pra perdoar os latidos do cachorro. Então começo a comer chocolates numa velocidade assombrosa, esvazio consecutivas caixas e morro por excesso de açúcar no sangue, sozinha desse jeito não tenho por onde escoar tanta doçura.
terça-feira, janeiro 13, 2009
Considerações sobre miopia
É, é baixo, mas o suficiente pra não enxergar quase nada, o mundo todo fica como um quadro impressionista visto de perto. E quando vou à praia os óculos escorregam pelo nariz que sua. E tenho de mergulhar com eles na cara mesmo, senão não sei se as ondas estão perto ou longe, e onde encontrar as pessoas na volta pro guarda-sol.
E esse é só o menor dos problemas e dilemas estéticos.
Óculos não combinam com brinco grande, e nem dá pra usar arco. Óculos são ruim pra dirigir porque se saio com os de sol, entro no túnel e fica uma escuridão, e se troco os pares nesse momento fico confusa. E não consigo mais fazer sobrancelha, preciso estar com os óculos na cara pra enxergar os fios, o que impede o acesso a eles. E se tiro os óculos me grudo no espelho, minha respiração embaça e dá no mesmo. E também não pinto mais os cabelos, porque preciso abaixar a cabeça pra enxergar o máximo de raiz possível, portanto olho por cima da armação e não vejo mais.
E me sinto completamente vulnerável e insegura, como se a qualquer momento os óculos pudessem cair ou ser levados e então ai de mim, sento na calçada e esperneio até que alguém venha em meu socorro.
Com a proximidade do carnaval o pânico só aumenta. Vou ter que me fantasiar de nerd.
domingo, janeiro 04, 2009
Praça Pio XI
"- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.
- A coisa ou a pessoa?
- As duas. "
Caio Fernando Abreu.
obs. este blog não segue o Acordo Ortográfico (por tempo indeterminado).
sábado, dezembro 20, 2008
Keep me in mind
Ela acha lindo, e diz que isso daria um texto, e elogia minha capacidade narrativa e repete as mesmas frases da última sessão, quando ela também achou que outro monólogo qualquer dava pra virar post de blog, e desde que eu resolvi dizer a ela que gosto de escrever ela pergunta “você já escreveu sobre isso?” “você tem um texto sobre isso?” e por aí vai. Nessas horas eu fico na dúvida se ela é psicóloga ou editora, então descruzo as pernas, miro na caneca com a cara do Van Gogh e começo outra ladainha sobre as mesmas coisas, sempre sempre sempre os mesmos nomes, os mesmos gestos, os mesmos ódios, desde quando eu aprendi a repetir o refrão assim?
Me dou conta de que ela também repete, indagações que se empilham iguais umas sobre as outras, eu rebato religiosamente com as mesmas respostas e agora já não sei mais se sou ou ela, o ovo ou a galinha, só sei que a última sessão foi igual à penúltima, que foi igual à antepenúltima e etc, parece que estamos decorando uma fala ou roteiro que não, eu não escrevi.
Preencho o horário explicando, pela terceira ou quarta vez, porque gosto tanto da Madonna (porque ela não se repete, digo em algum momento, com cara de Flora), quase começo a cantar e dançar, aí sim haveria uma grande emoção. Mas é muito arriscado, dou um sorriso, feliz natal pra você também, ano que vem a gente se vê, será?
Acabo voltando, essa falta de coragem e de ação que tanto discutimos, e escarafunchamos todos os medos, sempre ali enfileirados para serem diagnosticados e catalogados, então nos referimos a eles por nomes quase científicos, ela mexe na luminária pra ter certeza de que eu estou chorando (ou quase), eu limpo os óculos e digo "pois é", penso em "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças" e lá vamos nós, sabe? pois é, eu mesma não sei mais.
Já não garanto nada. Não garanto que eu volte, não garanto que haja sol em janeiro, não afirmo que vou seguir em frente e esquecer, não afirmo que dessa vez aprendi a dizer não e me desligar das pessoas, ela sabe que demorei muito mais tempo pra sair da fisioterapia do que eu deveria, talvez ela saiba que penso em larga-la, talvez ela tenha percebido quando respondi mais rispidamente, ou quando mudei de assunto pra não falar de suicídios ou de vontades de: andar de bicicleta, comer pudim, suar, consertar os olhos, conhecer o Peru.
Me repito tanto, e ela também, dá uma confusão de saber se é porque preciso continuar, ou se já passou do horário de botar a mochila nas costas e ir por aí, deixar de teorizar as coisas.
Vou dizer a ela que escrevi sobre isso, que deu um texto de adeus, que peguei a sapatilha já meio gasta e entrei na sala de aula, fiz um coque caprichado e resolvi os meus problemas na aula de ballet, sentindo que os músculos das pernas ainda funcionam, que a coluna aguenta e que os braços continuam leves, as mãos graciosas.
Feliz ano novo.
:: "It's only a trick if you make it a trick and you're wondering how to get yourself out of this one" Jamie Lidell in Green Light
quarta-feira, dezembro 10, 2008
Bipolar
Enfim. Existem coisas que me consomem de tal forma que não posso deixar passar, e a luz da esperança se acende quando penso que possíveis resoluções podem vir de eventuais comentários. Eu sou do tipo que acredita em letras de música, por que não em leitores virtuais?
Esse é mais um caso que me aflige, daqueles em que a ambigüidade dos fatos gera sentimentos inconciliáveis, de maneira que preciso de ajuda (psiquiátrica, talvez): como faz pra conciliar a morte do Gonçalo na novela com show da Madonna no dia seguinte?!
quinta-feira, dezembro 04, 2008
The "Vizinho Issue" - parte III
Aqui na rua é assim: o seu carro que estava estacionado na calçada oposta ao prédio some à tarde depois que o reboque passa e nenhum dos porteiros avisa, afinal por que tocar em assuntos desagradáveis como esse, não é mesmo?
Então a pessoa sai do prédio, chave do carro na mão e nada, uma vaga vazia, uma interrogação na cabeça e muita confusão, até que começa a se perguntar:
1) Será que estacionei na garagem?
2) Será que eu estava bêbada ontem quando cheguei?
3) Será que eu continuo bêbada?
4) Será que roubaram?
5) Será que o carro perdeu o freio e desceu ladeira abaixo?
Então, cinco minutos depois, quando você pergunta pro porteiro se ele viu o seu carro por aí, ele responde, baianamente:
Ele tava aí de manhã, eu acho que o reboque deve ter levado ele porque agora não tá mais...
Ele pensa que eu sou trouxa, mas de uma coisa tenho certeza: a culpa é do vizinho.
sexta-feira, novembro 28, 2008
Fale agora ou cale-se para sempre
Eu teria que dividir com ele as gavetas do banheiro, e fingir sempre achar normal que os meus cremes ficassem ao lado de uma loção de barba. Eu teria que adotar o hábito de deixar espaço no sofá pra ele, deixar algum tomate na salada pra ele e de repente eu teria que entender que os meus livros conviveriam pacificamente numa prateleira ao lado dos livros dele, assim como os meus discos se alternariam nas caixas de som com as músicas que ele guarda e então eu teria que achar normal que música clássica tocasse no mesmo dia em que um ícone do rock fizesse solos de guitarra. Não é pelo gosto, é uma questão de humor, eu teria que faze-lo entender que em domingos chuvosos só tolero o Bolero de Ravel na vitrola, que a poltrona do quarto é na verdade um cabideiro, que meu cabelo nunca funciona de manhã, que não suporto telefone que toca, que sou da corrente que crê piamente que só camas individuais para os seres salvam, que as pilhas de revistas que nunca vou ler de novo um dia servirão para pesquisa e que preciso, sim, de post-its espalhados pelos cantos e que nunca tenho sapatos suficientes no armário, assim como nunca há a quantidade exata de chocolates na dispensa.
É que essas manias são muito minhas pra de repente serem dele também, e as minhas coisas já estão todas certinhas nos seus lugares, e eu sou muito eu pra de repente virar uma mistura nossa. Deve ser essa insistência que eu tenho de tentar prever e de encontrar defeitos antes. Ou deve ser egoísmo mesmo, deve ser porque eu sou realmente egocêntrica, não importa. O que importa é que eu não arrumaria meus discos em ordem alfabética como ele quer que eu faça, e que eu não disfarçaria o mau-humor quando ele insistisse em achar que eu gosto de acordar. E que eu não conseguiria ter por ele o mesmo amor que tenho pelos meus dias sozinhos e calmos, não conseguiria ter por ele o mesmo amor que tenho pelo meu edredom de solteiro, ou pela mesa do escritório cheia de crayons de cera, ou pelo meu pijama de moletom furado e manchado. Ou por você. O problema é que com ele eu não consigo me acostumar a ficar boba, pelada, gripada, mole. O problema é que com ele eu não consigo me acostumar a ficar sem você. E com você eu invento tudo o que ele só quer inventar comigo, filho, tesão, máquina de lavar, mesa para dois. Com você eu sei que daria certo, que não precisaria de manual nenhum, que eu saberia soletrar o sobrenome e que poderia misturar literatura, acordes, cheiros, verbos, pernas. O problema todo é que com você, eu sei: não haveria separação total de bens.
:: este texto está na Revista EmBranco, do meu amigo Thiago.
quarta-feira, novembro 19, 2008
902
Na Fonte da Saudade, joga-se uma partida de pega-varetas antes que se comece um dia de trabalho (sem fins lucrativos). Não são tão bons quanto os da infância porque são feitos de plástico, os de madeira ficaram para trás. Não se sabe quantos pontos vale cada cor, portanto vence quem pega mais varetas, e baixa-se o rigor nas estratégias, afinal o que importa é divertir-se, e não competir.
Ali bebe-se água natural da fonte que cai direto na garagem do edifício, e muitas vezes as garrafas ficam com gosto de cachoeira. E quando o trabalho não anda, come-se chocolate, joga-se paciência, fazem-se pesquisas sem objetivo em sites, revistas e livros, ou fotografam-se bonecos de toy art.
Na cozinha encontra-se um pandeiro, um livro de poesias de Bukowsky ao lado dos livros de receitas, e panelas de cor vermelha, além de xícaras com jeito retrô para tomar café. Come-se comida de qualidade, consome-se vodca e tingi-se tecido também, desde que o ato espalhe água verde (ou rosa) pelo chão, fazendo bagunça e alegria de todos.
Na Fonte da Saudade dá medo quando chove ou há trovoadas, os ventos são uivantes e vê-se as ondas que a Lagoa começa a formar durante tempestade. Tenta-se distrair com uma caixa cheia de lápis de cera, e faz-se desenhos artísticos enquanto o email não envia as fotos. Na Fonte da Saudade o email nunca envia as fotos.
Em cima da mesa faz-se um monte de versos nonsense com ímãs de palavras, ouve-se música na maioria das vezes estranha e canta-se em coro canções de amor com letras de rimas. Ri-se de piadas sem graça ( e gargalha-se três semanas de piadas realmente boas), especula-se que tipo de coisas entupidas uma roto-rooter poderia desentupir (as que entopem, oras!) e planeja-se uma vida em Paris.
No banheiro verde traça-se um roteiro que inclua uma cena para a qual a melhor locação fosse o banheiro verde, seca-se o cabelo com cuidado e vestem-se os vestidos mais fantásticos acompanhados de arcos e laços na cabeça.
No escritório, on parle le français inventado, alguém ama pessoas inventadas e tudo o mais é imaginado também, as vozes idiotas que falam por lá, as peças de teatro que serão escritas em dez dias e as caras de choro quando o telefone não pára de tocar.
Na Fonte da Saudade há grades de proteção nas janelas. Circulam muitas crianças por ali.
segunda-feira, novembro 10, 2008
O fim das vozes no meu rádio
- Às vezes eu fico enjoada de todas as músicas que eu tenho e então faço isso, fico escutando tudo o que aparece. E de repente alguma coisa faz UAU!
- E quando nada faz?
- Mas faz, acaba fazendo. Algumas músicas batem de primeira, é claro. Mas sem querer eu acabo dando uma segunda chance. Tiro um cochilo, escuto de novo num outro dia, num outro clima. Acho que tem a ver com o humor, dias chuvosos, por exemplo. Algumas músicas parecem ter sido feitas pra esses dias, devem ter sido criadas sob dilúvio.
- De fato. Eu tenho preferido as solares, as que dão vontade de aprender a tocar bateria.
- Eu ando com vontade de tocar baixo. Isso quando eu não tenho vontade de ouvir umas coisas do além. Acontece isso também, uma música que fica martelando na minha cabeça de manhã, geralmente nostálgica, quase sempre duvidosa. E é como se só a execução contínua da tal música pudesse salvar o dia. E é mais que uma vontade, é um precisar muito definitivo.
- É quase drástico, credo!
- É, é drástico...
- Exemplo?
- Ah, não, isso eu não digo.
- Por que não? Qual é o dilema?
- O dilema é que você vai me julgar.
- Você me julgaria se soubesse dos lapsos que eu tenho na vida, e alguns são bastante graves.
- Como?
- Como só ter começado a escutar David Bowie esse ano. Pior: descobrir que eu sempre adorei uma música sem saber que era dele.
- Como você só começou a escutar David Bowie esse ano?!
- Olha aí, julgamento.
- Está certo. Você merece saber: hoje acordei com muita necessidade de ouvir uma música do Kid Abelha.
- Kid Abelha! Na época dos Abóboras Selvagens ou depois? Ou quando eles tentaram se chamar só “Kid”?
- Da fase Kid Abelha mesmo, de quando cantávamos Fazer Amor de Madrugada nas festinhas. De quando jogávamos as mãos para o céu e tal. Quando a gente vivia em show do Kid Abelha no Metropolitan, lembra? Quando o Metropolitan ainda era Metropolitan.
- Claro! Quando o Prince ainda era Prince, o Jota Quest ainda era J. Quest... Por que a gente gostou tanto assim do Kid Abelha, hein?
- Vai saber. Acho que porque a gente achava tudo possível naquele tempo. Se a Paula Toller fazia sucesso com aquela voz...
- Mas por que você queria tanto ouvir Kid Abelha? Qual música? Não vá me dizer que era Grand Hotel...
- Não! Pior...
- Pior do que ter passado a vida toda gostando de O Astronauta de Mármore e deixado um cd do Nenhum de Nós na prateleira só por causa dessa música e só depois de a-nos descobrir que é uma versão do Bowie?! Você tem idéia do que eu passei pra justificar a presença daquele cd ali no meio dos outros?! E ninguém nunca me disse que era uma versão!
- Eu tive um sonho, vou te contar.
- Que sonho?!
- Não, eu tive um sonho, vou te contar, eu me atirava do oitavo andar, a música do Kid Abelha!
- Aaahhh!
- Pois é... Pelo menos eu sabia que música era, pior é quando eu acordo precisando de uma música e não sei qual. Parece que falta inventarem alguma coisa nova.
- Isso acontece sempre nos dias nublados.
- Dias nublados são bons para ouvir Hootie and The Blowfish.
- Você tem escutado alguma coisa desse século?!
-Você tem escutado Ziggy Stardust pela primeira vez na vida. Acho que você não está em condições de questionar meu momento musicalmente adolescente.
- Ok, ok, eu me rendo. E confesso que de vez em quando o Lulu Santos ainda canta por aqui.
- É melhor não resistir e se entregar... A gente tinha o que? 17, 18 anos?
- Por aí. A gente gravava fitas com as melhores músicas.
- A gente escrevia partes das letras na capa dos cadernos. O que será que as pessoas escutam hoje em dia? Às vezes eu coloco na estação de rádio pra ter uma idéia do que as pessoas ouvem. Mas me parece que até hoje todo mundo escuta O Último Romântico ou Como Uma Onda. Mas eu só escuto rádio de mãe, então não sei...
- E Carly Simon. Toda vez que toca Carly Simon no rádio eu sou tomada por um espírito revolucionário, como é que as pessoas se conformam em ligar o rádio e ouvirem essa mulher cantando? Eu fico possessa, xingo o locutor, xingo as pessoas que ainda toleram esse tipo de coisa.
- Vai ver os caras das rádios seguem essa mesma política de acordar impregnados de uma música. Mas o que a Carly Simon te fez?!
- Não é ela, é essa coisa, sabe? Uma seqüência de músicas toscas de 20 anos atrás com tanto artista por aí, então a gente tem que fazer investigações pra descobrir bandas legais e pessoas atuais. Teve uma época que eu me dei conta de que só ouvia gente morta, um horror! Minha coleção de cds só não estagnou porque volta e meia saía uma coletânea póstuma de alguém.
-Cruzes! Se a gente tivesse continuado a escutar o Kid Abelha e o Lulu Santos não teria problema, eles vivem com discos novos.
- Eles morreram também, só não querem admitir ainda.
- Pode ser... Outro dia saí pra dançar com uns amigos e não conhecia nenhuma música. Nem umazinha. Me senti uma tiazona, sabe? Por fora.
- Sei. Acho que é assim mesmo, acho que é assim que se começa a envelhecer, talvez eu esteja sendo dramática, mas acho que é por causa dessas coisas que a gente acaba voltando aos clássicos.
- Ou ao contrário? Por causa dessas coisas que eu fico dias nas lojas ouvindo discos.
- É, só que pra mim isso só piora, é o mesmo que acontece quando entro numa sorveteria, são tantas opções que acabo sempre indo para os clássicos. Acabo me dando conta de que tem tanta coisa nova no mundo e ao mesmo tempo caio na real desses lapsos, penso no Bowie, no Velvet e resolvo preencher as lacunas.
- Faz algum sentido. O problema é que eles já estão prontos pra gente gostar, né? É menos arriscado e aí acontece aquilo, uma discoteca de shows que a gente nunca vai ver.
- Eu sei. Mas imagina se numa dessa tarde de aventuras eu fico escutando as músicas da Katy Perry enquanto eu poderia ouvir todo o Supertramp?
- Ou Hootie and The Blowfish, se tiver nuvem no céu...
:: She's uncertain if she likes him
But she knows she really loves him
David Bowie in Drive-in Saturday
quarta-feira, novembro 05, 2008
Marcha ré
segunda-feira, outubro 27, 2008
Snakes and ladders
quinta-feira, outubro 16, 2008
The "Vizinho Issue" - parte II
Mas com essa chuva que faz, o vizinho deve estar parando o carro na garagem, onde não há vaga disponível pra mim, de forma que estaciono sem maiores percalços. Toda a graça que poderia haver se dissipa no momento em que faço a curva da rua e vejo três vagas livres e desimpedidas à minha espera. Meus batimentos cardíacos imediatamente caem, é um tédio.
Agora sou eu quem pára o carro sem respeitar a marcação, na esperança de que o vizinho, ou algum outro, quem sabe até mesmo o porteiro, me chame atenção. Enquanto meu ato transgressor não tem nenhum feedback, preparo um plano mais agressivo de ataque: invadir a garagem e deixar o carro ali em qualquer canto. E enquanto tomo coragem, me concentro numa outra questão igualmente importante e que pode trazer de volta o vizinho, seu carro e uma série de revoltas engajadas de minha parte: o sol, há de brilhar mais uma vez?
segunda-feira, outubro 06, 2008
Atrás de mandinga de amor
- Era uma mistura de sete quiabos com mel, tinha que colocar todos ao lado de uma vela na quarta-feira. Mas não me lembro de tudo e além disso só vale pra filhos de Xangô, e não acredito que você seja um deles...
- Então é ainda mais complicado do que eu imaginava. Existem ritos que variam de acordo com a filiação?!
- Isso. Depois da limpeza que ela me fez, por exemplo, disse que eu tinha que ficar uma semana sem comer feijão, arroz, milho e canjica. E que eu deveria evitar lugares abertos ao meio-dia ou à meia-noite, talvez com filhos de Ogum fosse outra recomendação.
- Entendi. Eu ficaria uma vida toda sem comer feijão e milho, nem precisava de mãe de santo pra isso. Mas como era a limpeza?
- Era à noite, na praia, perto do mar,ela me mandou ficar de olhos fechados e passava alimentos em mim enquanto cantava. Ela cantava o tempo todo, coisas lindas, em yorubá... você escutou os cantos? São os cantos dos meus dois orixás.
- Escutei, mas por que ela ficou tão encantada com a combinação dos seus orixás?
- Ela disse que é uma combinação rara. Teve que consultar os búzios para confirmar e um tempo depois ela ainda perguntou o que Oxossi tava fazendo comigo, que esse não é meu orixá.
- Como assim?
- Eu sou filho de Xangô e Oxalá. E de Exu também, é o terceiro. E Oxossi ta comigo também, mas não é meu, ela viu nos búzios que Oxossi é coisa de família, alguém me deu, sabe? E Exu ela disse que é brabeira...
- Peraí, uma coisa de cada vez... Alguém te deu um orixá? E por que Exu é brabeira?
- Porque Exu é o mais indomável de todos, é o orixá da comunicação, é o começo e o fim de tudo. E é arteiro, sacaneia os outros pro seu próprio prazer, engana os outros.
- Sei. E quais são as características dos outros dois?
- Xangô é o orixá da justiça, da pedra e do trovão, é guerreiro, teve três esposas ao mesmo tempo, é explosivo. E Oxalá é Deus, é o pai de toda criação.
- E Oxossi?
- Oxossi e Exu são irmãos, mas eu não sou filho de Oxossi, só estou com ele porque me deram.
- Ainda não estou convencida de que você não tenha roubado esse Oxossi de alguém. Mas então, resumidamente você é estressado, mulherengo e sacaneia os outros. E precisou uma mãe de santo na Bahia pra concluir.
-Tchau.
-Tchau nada que agora eu quero saber de quem sou filha.
- Você deve ser filha de Nanã, que é avózinha que nem você, nisso você combina bem com ela, duas avozinhas.
- Há há.
- Ela é o orixá mais velho do mundo e foi amaldiçoada por Oxalá depois que rejeitou o filho que tiveram juntos.
- Credo! Não, não quero ser filha de Nanã, até porque a gente é filho de orixá que tem as mesmas características, né?
- É. Talvez você seja Iemanjá. Foi mulher de Oxalá também. E é muito poderosa. Ou Oxumaré, que é confusa pacas, metade do ano é mulher, metade é homem, ele que faz a ponte entre Xangô e Oxum. Talvez você tenha alguma coisa de Oxum, Oxum é tão bonita...
- Humm Oxumaré tá fora que eu não sou tão confusa assim e tenho certeza de que sou mulher o ano todo. O que mais Oxum tem?
- Eu já vi uma Oxum dançar, é muito bonito, escorrem lágrimas dos olhos dela. Durante um tempo eu achei que pudesse ser de Oxum também, porque ela é muito doce.
- Eu também sou doce, acho que estou gostando de Oxum.
- Mas ela é meio escrota também, era a preferida de Xangô e sacaneou Obá.
- Obá é quem mesmo?
- Era uma das esposas de Xangô, que caiu na conversa da Oxum e cortou a própria orelha, botou na sopa de Xangô porque a Oxum disse que assim ele iria se apaixonar mais por ela. Só que ele ficou p da vida e a Oba disse que tinha seguido os conselhos de Oxum.
- Putz, coitada... mas também, com tanta concorrência, né?
- E Oxum ainda tirou o turbante da cabeça só pra mostrar as duas orelhas lá, e ainda riu. Eu acho que no fundo eram todos meio sacanas, sabe? Tipo Macunaíma. Tem Iansã, talvez ela se pareça mais, deixa eu ver...
- Já sei, ela também era mulher de Xangô.
- Sim.
- Mas não existiam mais orixás homens? Ou Xangô era irresistível?!
- Xangô era foda mesmo. Mas olha aqui o que dizem sobre Iansã: Os filhos de Iansã são pessoas propensas a dar grandes guinadas em suas próprias vidas, a qualquer momento, sem se importarem com ninguém. Não gostam de se prender a ninguém pois são livres como o vento Acho que você é mais parecida com Oxum, embora tenha um pouquinho de Iansã também.
- Eu acho que sou órfã. Pelo menos não sou filha de Ossanha.
- Você nem conhece Ossanha e ta implicando, por que essa birra agora?
- Sei lá, mas tem aquela música “Se é canto de Ossanha não vá que muito vai se arrepender”. Eu boto fé no Vinícius.
- A minha mãe de santo está vindo esse mês.
- Então ela vai poder resolver quem é meu orixá.
- Você acha que vou dividir minha mãe de santo com alguém?
- E por que não iria? Não vou poder nem ver a mãe de santo?
- Não.
- Tudo bem, eu invento um orixá que esteja à minha altura. E nem adianta insistir que não te dou o meu, você que fique com esses seus três e o quarto roubado porque o meu ficará guardado a sete chaves.
- Durante um tempo eu achei que podia ser Oxossi também.
- São muitas opções, é bem confuso isso, não? E se você mostrar meu perfil do orkut pra mãe de santo, vale? Já que você não pode dividir...
- Mas sou Xangô mesmo!
- Alô, eu to falando com você!
- É que Oxossi gosta muito de mulheres doces, e como ele foi casado com Oxum eu achei que poderia se-lo também. Oxum é a coisa mais doce do mundo.
- Tchau.
- Mas que explosivinha. Oxum não faria isso. Iansã faria. Iemanjá talvez.
- Sou órfã, pronto. E além do mais, eu preferiria ser filha de 68, ou filha de alguma revolução. Combina mais comigo. A sua mãe de santo me odiaria, certamente.
- É, acho que vocês não se dariam bem mesmo, ela ia ficar magoada quando soubesse que você confia mais no Vinícius do que nela.
- E você não?!
- Eu falei com ela esses dias, eu queria roubar uma mulher. Acabei não pedindo nada e a mulher me ligou todos os dias da semana. Eu liguei pra ela depois, pra mainha, e contei tudo, ela disse que tinha colocado um melzinho pra mim.
- E não sobrou nada desse mel aí?
- Querida, nossos orixás não são os mesmos, o mel não funciona pra todos, é como aquela história do quiabo.
- Ah é... Bom, ela envenenaria o mel de qualquer jeito. Ou haveria um revertério e o efeito seria tão estranho que me faria voltar pra você.
- Você acha que a minha mãe de santo faria isso?!
- Eu espero que não, mas por via das dúvidas é melhor não arriscar.
- Mas que desprezo é esse agora?!
- Beibe, eu aconselhei Obá a cortar a orelha por sua causa, isso parece mais tragédia grega que mitologia de Candomblé, não acha? E além do mais você me amaldiçoou por causa de um filho rejeitado. Fora todo o resto que você não deve ainda saber. E você ainda quer que eu fique com você mais uma encarnação?! Não acha que já tivemos emoções suficientes?
- É, pode ser... talvez seja melhor mesmo você ficar longe de mim.
- E da sua mãe de santo também. E é melhor irmos dormir também.
- Com certeza.
- Boa noite.
- Boa noite.
quinta-feira, setembro 25, 2008
Chez moi
Charles Aznavour convive pacificamente entre Carlos Gardel e The Cardigans da mesma forma que Ariano Suassuna nunca briga com Marguerite Duras. Um Woodstock encardido está bem acomodado entre os livros sobre música e a parede. Uma garrafa vazia de coca-cola parece confortável entre uma caixa de alumínio cheia de velhos Vhs e uma quase ridícula sessão de livros de quadrinhos, que devem ser seis no máximo. Santo Antônio ampara os dvds, e deve estar muito distraído tentando entender o que Kill Bill faz ao lado de Chorus Line. Uma cestinha de palha esmaga revistas de moda que nunca vou abrir de novo. Uma vaquinha engraçada resolveu ficar em cima do livro de receitas de comida Indiana. Acontece sempre um deslizamento nas pequenas montanhas de bolachas de apoiar copos (todas emprestadas de bares), que são refeitas em lugares diferentes a cada nova construção: na escrivaninha, em cima do som ou na mesinha de cabeceira. Duas caixas de chapéus guardam fotos.Uma lata de café que não guarda nada apóia livros velhos que nunca li e certamente nunca vou ler, e que estão possivelmente comidos por traças, mas que ficaram muito bem perto de uma outra cesta de palha numa estante alta. No pote de lápis e canetas duas multas de trânsito aguardam para serem recorridas. Um peso de um quilo que não levanto mais fica ao lado de uma vela de cheiro que acabou, mas continuam morando atrás da caixa de som. Uma saia cinza de pregas que não me cabe está sobre a cadeira há meses junto com uma bandana que usei pra ir à praia. Um mini chapéu de Veneza sumiu faz algum tempo, ele morava pendurado na quina de um livro do Basquiat. Uma caixa velha de charutos fica perto da pequena e acidental coleção de livros sobre pintores da Taschen, que por sua vez fica sob um copo de vidro Campbells. Um ímã vermelho ficou meio grudado bem sobre a minha cabeça numa foto em que visto saia estampada e danço. Um despertador cujo fundo é povoado de fotos de misses e que não funciona fica sobre os livros de moda, que por sua vez adotaram um filho único de ícones de fotografia. Um postal de uma tapeçaria medieval está a apenas outros dois de um japonês contemporâneo. Incensos estão afogados entre os lápis de cor que nunca vão acabar. A trinca de livros de amigos parece fazer algum sentido, porque são poetas conversando empurrados por um bonequinho que lembra uma figura do Keith Haring, é pena que falte uma dedicatória. Um pendurador de coisas em formato de flor carrega um guarda-chuva, a bolsa de praia, a bolsa de dia e um par de sapatos que preciso trocar por outro igual mas que não esteja com a tira arrebentada. Os ímãs de palavrinhas formam as frases “tenho o coração doce e quente / pensa e fala urgente / está sempre melhor no sonho” e depois não rima mais nada. O tapete não combina com as almofadas em cima da cama. No cantinho perto da porta tem um desenho de mim mesma. Pendurado na porta um móbile que veio da África divide o espaço com um penduricalho que veio do Japão. Os álbuns de foto daqui a pouco não caberão mais. Debaixo de um ímã que reproduz um mini cartaz de Singin in the Rain, Mãe Valéria de Oxossi me promete a pessoa amada, mas já se vão quase três anos em vez de três dias. No cantinho entre a viga de madeira e as prateleiras dos cds, três fotos me lembram que já fui bailarina enquanto uma faixa de silicone de fisioterapia dentro de um saquinho me lembra que tenho uma série de alongamentos para fazer. Uma gravura de um beijo está pendurada sobre a cama. Um adesivo da Company não quer sair do vidro que dá pra varanda. O sapato que usei anteontem está do lado de fora do armário enquanto não encontro o pé esquerdo dele. A última gaveta do móvel quase não fecha de tanta folha. Um moletom cinza mora na cadeira da escrivaninha. Um livro grande e pesado serve de apoio para o notebook ficar mais alto. Uma miniatura de um personagem de South Park olha para um mini guarda de Londres e os dois não parecem se aborrecer. Uma coleção abandonada de caixas de fósforos fica ao lado de um compasso que não me serve mais. Amostras de cor de uma antiga cartela mostram como chantilly não é igual a bege, grudadas na parede em cima de uma foto onde nós sete sorrimos. Calvin faz uma cara de pânico no ímã que fica ao lado da imagem também imantada do Hitchcock e uma outra do cartaz de Laranja Mecânica, que nem sei se gosto (do filme). Um dicionário cuja capa está remendada com durex está ao lado do guia turístico do Brazil com Z. O carregador do celular está constantemente plugado na tomada ao lado da porta onde um benjamim dá espaço ao fio da bolsa quente elétrica. Uma flor artificial envolvida por tule ficou esquecida na prateleira de livros de design. Duas calculadoras estão sobre a escrivaninha, ao lado de dois sachets de chá que ganhei junto da promessa de serem bons para olheiras. Uma parte do jornal de ontem está sobre a lata de lixo. Canetas parecem dar cria em todos os cantos.
Quando tem festa em casa fecho as cortinas e deixo a porta trancada, as pessoas sempre confundem antipatia com timidez e não é qualquer um que vai entender tanta coisa junta.
"Guardo sempre o traço
Jovem, nobre, bravo
D'um farejador amoroso
Pra quem o longe é sempre perto
Que nunca esquecerei "
Waly Salomão
terça-feira, setembro 16, 2008
The "Vizinho Issue" - parte I
1) É possível xingar alguém elegantemente?
2) É válido formalizar uma reclamação para o síndico porque o vizinho estaciona seu carro ocupando duas vagas (sendo uma delas a que você quer estacionar)?
3) Custa o vizinho estacionar dentro dos limites?
4) Alguém reclamaria de um carro mal posicionado se estivesse chegando ao prédio de bicicleta ou a pé?
5) O incômodo só incomoda mesmo quando você e seu umbigo são atingidos diretamente?
6) É por isso que o país não vai pra frente?
7) Desde quando o vizinho virou alguém que me deixa extremamente irritada?
8) A fúria que o vizinho me provoca, seria ela uma tentativa de descontar em algo palpável uma mágoa mais abstrata?
9) Estaria eu transferindo para o vizinho frustrações e questões psicológicas mais graves?
10) O fato de não concluir a carta para o síndico tem a ver com o fato de não ter concluído muitas coisas na vida?
11) E os porteiros, por que eles não ajeitam a porra do carro?
12) E Freud, explica?