domingo, agosto 29, 2010
Avenida das Américas
Dele não me basta falar: é preciso que se viva ainda alguma coisa, mesmo que agonizante, é necessário ainda escavar os peitos, todos os nossos quando se abraçam de frente, tecer enganos, tomar de novo nota das tuas palavras tão desmedidas que me faziam emigrar. É vital que ainda te escute cantar um dia, ao volante, perfil em riste, invadir tua camisa de botão, te abocanhar no sinal fechado.
segunda-feira, agosto 16, 2010
Retrato em branco e preto
Aquilo que vi em você quando abri a porta, apatia se espalhando como vento na praia, aquilo não era só o que você me disse que parecia. Aquilo que se misturava às tuas cores não era apenas, não podia ser! Aquilo que se descolava da tua pele e solidificava em nuvem cinza, aquela tempestade anunciada sobre a tua cabeça, aquilo não era o que você achava. Aquele você que me recebeu não era só o apelo minutos antes por telefone, terceiro andar, descalço em pedras frias e magricelo, aquele dia, não era só tristeza, solidão ou temperatura abaixo de zero. Aquilo que se apoderou do teu abraço, tão minguado, não era só Agosto, muito menos oito dias trabalhando sem parar. A tua cabeça tombada no caminho até o sofá da sala, seu quase sumiço por entre as almofadas, aquele resgate que se fez necessário, havia um colapso em você que era subcutâneo e que nem mesmo sopa quente, cachecol e beijo de boa noite: aquilo, meu bem, não era pedido de socorro ou saudade do meu colo: era segunda-feira.
quarta-feira, agosto 04, 2010
Nessa data querida
Fernando Gusmão me enviava cartões de felicitação todos os anos, sem deixar passar sequer um dos meus aniversários. Sua atenção ia além, e ele fazia também sua secretária me telefonar para dar voz a seus mais sinceros desejos de felicidades e realizações pessoais. Mesmo quando o meu dia caía num fim de semana o telefonema acontecia: na segunda-feira de manhã ela se desculpava pois o gabinete não abria aos sábados e aos domingos. Fernando Gusmão me estimava a ponto de se desculpar por não poder telefonar no dia correto do meu aniversário. Fernando Gusmão era bem mais atencioso que muitos dos meus (agora) amigos de facebook, que muitas vezes esquecem de olhar o calendário feito exclusivamente para que não sejam esquecidos aniversários de gente da minha importância.
Confesso que demorei a me recuperar do baque do primeiro ano em que o cartão de felicitação de Fernando Gusmão simplesmente não apareceu. Assim mesmo, Fernando Gusmão me cortou de sua lista de pessoas a serem parabenizadas, cortou meus cartões de aniversário e cortou os telefonemas à minha residência: eu nunca mais ouvi a voz de sua secretária, ela nunca mais se deu ao trabalho de se desculpar pelos fins de semana em que não pode me desejar saúde-amor-amigos e eu fiquei pensando que “o problema não é você, sou eu”, afinal certamente o Fernando Gusmão devia ter descoberto que eu nunca tive a intenção de ajuda-lo nas eleições, e parou de lutar pelo meu voto.
Tão repentino quanto o sumiço de Fernando Gusmão foi um 21 de agosto em que aterrissou sobre minha mesa um cartão comemorativo endereçado a mim e assinado pelo Sergio Cabral, o que explicava muita coisa: alguém da minha estirpe não poderia continuar recebendo cartões de um mero deputado quando o governador me felicitava. Era uma questão política, oras, simples assim.
Minha surpresa foi que os cartões do Sergio Cabral duraram somente um inverno, e no ano seguinte fiquei à espera do que o Lula pudesse me escrever. Poucas vezes me vi tão ansiosa, afinal, na linha de sucessão, ele era o próximo. Eu queria correr ao gabinete do Fernando Gusmão para esfregar-lhe na cara o cartão do presidente da república, para dizer-lhe que não precisava mais de suas frases reduzidas de deputado, ou, enfim, fazer isso tudo diante da secretária. Mas não era culpa dela, tenho certeza de que ela continuaria me telefonando todos os anos, com ou sem cartões adiantados, não fosse o fato de que Fernando Gusmão me deletou de sua agenda telefônica. Fato é que o cartão do Lula nunca chegou, o que me fez adotar uma postura de extrema direita.
Então é agosto de novo, eu me contento com os cartões impessoais que me oferecem 10% de desconto (da ótica, da loja de sapatos, nunca da Livraria da Travessa, que nem sabe o dia em que nasci) e abro animada um envelope verde que me chega via E.C.T para ler a poesia que nem Vinícius de Moraes escreveria: “A vida guarda muitas coisas para você viVER!!!”. Assim mesmo, com caixa alta no final e três exclamações, e cujo remetente, adivinha? é a clínica oftalmológica.
Ainda não sei bem onde foi que perdi a piada.
:: "What do you want me to do, to watch for you while you're sleeping? Then please don't be surprised when you find me dreaming too." The Greatful Dead in Box of Rain
Confesso que demorei a me recuperar do baque do primeiro ano em que o cartão de felicitação de Fernando Gusmão simplesmente não apareceu. Assim mesmo, Fernando Gusmão me cortou de sua lista de pessoas a serem parabenizadas, cortou meus cartões de aniversário e cortou os telefonemas à minha residência: eu nunca mais ouvi a voz de sua secretária, ela nunca mais se deu ao trabalho de se desculpar pelos fins de semana em que não pode me desejar saúde-amor-amigos e eu fiquei pensando que “o problema não é você, sou eu”, afinal certamente o Fernando Gusmão devia ter descoberto que eu nunca tive a intenção de ajuda-lo nas eleições, e parou de lutar pelo meu voto.
Tão repentino quanto o sumiço de Fernando Gusmão foi um 21 de agosto em que aterrissou sobre minha mesa um cartão comemorativo endereçado a mim e assinado pelo Sergio Cabral, o que explicava muita coisa: alguém da minha estirpe não poderia continuar recebendo cartões de um mero deputado quando o governador me felicitava. Era uma questão política, oras, simples assim.
Minha surpresa foi que os cartões do Sergio Cabral duraram somente um inverno, e no ano seguinte fiquei à espera do que o Lula pudesse me escrever. Poucas vezes me vi tão ansiosa, afinal, na linha de sucessão, ele era o próximo. Eu queria correr ao gabinete do Fernando Gusmão para esfregar-lhe na cara o cartão do presidente da república, para dizer-lhe que não precisava mais de suas frases reduzidas de deputado, ou, enfim, fazer isso tudo diante da secretária. Mas não era culpa dela, tenho certeza de que ela continuaria me telefonando todos os anos, com ou sem cartões adiantados, não fosse o fato de que Fernando Gusmão me deletou de sua agenda telefônica. Fato é que o cartão do Lula nunca chegou, o que me fez adotar uma postura de extrema direita.
Então é agosto de novo, eu me contento com os cartões impessoais que me oferecem 10% de desconto (da ótica, da loja de sapatos, nunca da Livraria da Travessa, que nem sabe o dia em que nasci) e abro animada um envelope verde que me chega via E.C.T para ler a poesia que nem Vinícius de Moraes escreveria: “A vida guarda muitas coisas para você viVER!!!”. Assim mesmo, com caixa alta no final e três exclamações, e cujo remetente, adivinha? é a clínica oftalmológica.
Ainda não sei bem onde foi que perdi a piada.
:: "What do you want me to do, to watch for you while you're sleeping? Then please don't be surprised when you find me dreaming too." The Greatful Dead in Box of Rain
terça-feira, julho 27, 2010
Meus suicídios (vol. 3)
VIII.
Eu me suicido toda vez que tento entrar numa agência do Banco Itaú porque nunca consigo passar da porta giratória, e nem mesmo de quaisquer outras portas que existam pelo caminho. É dar um passo à frente que a porta giratória trava, eu esvazio a bolsa sob olhares que me acusam de crimes gravíssimos e nunca cabe no recipiente toda a quantidade de chaves, os dois telefones, as duas câmeras fotográficas, os dois reais separados pro flanelinha, tanto plural. Suo frio até chegar ao caixa e ali, frente ao sorriso benévolo que me absolve, digo ao gerente que se dane, não quero mais. Encerro a conta, aperto a bolsa mesmo que o saldo seja negativo e numa correria dou de cara no vidro, espatifada me enterro no chão e pronto, fico morta pra não encarar o segurança que arrasta meu cadáver pra fora.
IX.
Eu me suicido toda vez que percebo que já te esqueci, porque às vezes o seu cheiro podre de decomposição me invade e eu percebo que já não sonho mais, já não penso mais, já não faço esforços para descomplicar as coisas que complicamos, já não relativizo, não perco mais o sono, não procuro entender ou ponderar ou adivinhar ou escrever ou inventar sozinha qualquer coisa que permita ainda conjugar “nós”, e me vejo frente a tanto silêncio, escassez de gargalhadas, tanta maturidade e vazio, e então te puxo pra perto de novo só pra me suicidar, porque sinto saudade de construir castelos, refúgios, abrigos, abraços, tanto plural. Eu me suicido toda vez que te esqueço porque não sei o que fazer com o que vem depois e com todo o espaço ao redor, esvazio vidros de medicamentos e agonizo sozinha, a baba escorrendo, e apodreço esquecida, meus restos de carne expostos sendo lentamente devorados por insetos que nunca param de aparecer.
X.
Eu me suicido toda vez que resolvo ler uma biografia, porque putz grila!, haja gente pra não se suicidar no mundo.
Eu me suicido toda vez que tento entrar numa agência do Banco Itaú porque nunca consigo passar da porta giratória, e nem mesmo de quaisquer outras portas que existam pelo caminho. É dar um passo à frente que a porta giratória trava, eu esvazio a bolsa sob olhares que me acusam de crimes gravíssimos e nunca cabe no recipiente toda a quantidade de chaves, os dois telefones, as duas câmeras fotográficas, os dois reais separados pro flanelinha, tanto plural. Suo frio até chegar ao caixa e ali, frente ao sorriso benévolo que me absolve, digo ao gerente que se dane, não quero mais. Encerro a conta, aperto a bolsa mesmo que o saldo seja negativo e numa correria dou de cara no vidro, espatifada me enterro no chão e pronto, fico morta pra não encarar o segurança que arrasta meu cadáver pra fora.
IX.
Eu me suicido toda vez que percebo que já te esqueci, porque às vezes o seu cheiro podre de decomposição me invade e eu percebo que já não sonho mais, já não penso mais, já não faço esforços para descomplicar as coisas que complicamos, já não relativizo, não perco mais o sono, não procuro entender ou ponderar ou adivinhar ou escrever ou inventar sozinha qualquer coisa que permita ainda conjugar “nós”, e me vejo frente a tanto silêncio, escassez de gargalhadas, tanta maturidade e vazio, e então te puxo pra perto de novo só pra me suicidar, porque sinto saudade de construir castelos, refúgios, abrigos, abraços, tanto plural. Eu me suicido toda vez que te esqueço porque não sei o que fazer com o que vem depois e com todo o espaço ao redor, esvazio vidros de medicamentos e agonizo sozinha, a baba escorrendo, e apodreço esquecida, meus restos de carne expostos sendo lentamente devorados por insetos que nunca param de aparecer.
X.
Eu me suicido toda vez que resolvo ler uma biografia, porque putz grila!, haja gente pra não se suicidar no mundo.
domingo, julho 25, 2010
"(...) Você diz:
- Você inventou para mim. Não tenho nada a ver com a história que você teve comigo.
- Você disse o contrário, uma vez, no início.
- Digo qualquer coisa, e depois esqueço. Você sabe - você sorri -, mas estou sempre perto de você no desespero que lhe causo."
Marguerite Duras in Emily L.
sexta-feira, julho 16, 2010
O dia em que engasguei cantando um refrão do Bon Jovi
Disciplinei meus pensamentos pra que eles viessem à tona naquela terça-feira. Primeiro porque ia chover, e angústia combina mais com céu desabotoado que com sol. E depois porque eu sabia que tinha um percurso longo a ser feito de carro, onde há anos dedico-me a cantar e a debater assuntos: em voz alta, com fervor, sozinha.
Preparei-me pra ida ser apenas o ensaio da volta, afinal eu dirigia-me a compromissos profissionais, onde não podia chegar destrambelhada, o que ocorreria caso alguma canção me pusesse a chorar. Evitei o caminho da praia e escolhi uma lista de músicas segura onde a cantoria fosse apenas digna de final feliz, e concentrei-me nas resoluções (agora) tolas: que iogurte também é leite, e portanto deve ser cortado; que gostaria de ter um par de cada cor do modelo dos meus óculos novos; que preciso investir mais que R$4,00 num xampu. E que preciso, oras, decidir um time de futebol pra chamar de meu.
Foi aí que começou o drama. Por sorte eu já estava na recepção, concentrando-me agora nas coisas sérias do trabalho, crachá na mão, atenta às placas das salas, ufa, é aqui. Interrompi qualquer divagação, fiz cara de simpática e fingi que entendia tudo de novela.
Depois de mais de seis horas de encontros eu estava de volta ao carro, confusa porque a praia da Macumba parecia a maior extensão de areia do planeta, enquanto que a orla da praia da Reserva teimava em não acabar, indiferente às minhas investidas no acelerador. O dilema, então se apoderou de mim, e da seleção musical que agora acontecia em shuffle, descontrolada. Me vi frente às seguintes considerações: não era possível a essa idade tornar-me flamenguista, que pra isso precisava ter vocação. E Vasco, bem, era impossível ser vascaína, por todas as razões óbvias que envolvem um ex-namorado e um time que não sai da condição de vice. Verdade seja dita que meu espírito competitivo se esqueceu em algum lugar distante, mas minha tolerância para piadas futebolísticas é baixíssima.
E mais essa. Torcer pra um time de futebol significa que você tem que interagir e enfrentar as risadas e coisas do tipo? Faz parte do jogo?
Pensei no Botafogo, que adotei em algum momento da vida, e guardei por alguns anos uma camisa no armário. Foi a segunda das camisas esportivas que ostentei, sendo a primeira a que levava o número do Romário e que foi exaustivamente usada na Copa de 94, e a terceira uma camisa de remo do Vasco usada nas aulas de surfe. Ok, pano rápido, pula parágrafo.
Daí que só sobra o Fluminense, que muito me seduz, porque acho o conceito todo do time super vintage. Treinos em Laranjeiras cercados por palmeiras, as cores da camisa. Mas será que são argumentos suficientes pra sustentar uma escolha dessa importância? Começo a achar que não se pode ser torcedor impunemente, da mesma forma que não é possível, do dia pra noite, querer que a Mocidade de Padre Miguel ganhe o Carnaval. São escolhas que envolvem convicções, critérios, afinidades.
Estou sendo dramática?
Chego à praia da Barra desordenada: aflição me consome, cheia de indecisões, diante dum impasse. Como é que eu posso resolver o que fazer com as minhas dores de amor se não consigo nem resolver que camisa vestir? Como pode ser possível escolher profissão se não consigo decidir em que lado da arquibancada quero estar?
É assim, diante desse retrato que agora parece tão claro, que entro no túnel em direção a São Conrado e o ipod explode em guitarras, e mesmo que a música não tivesse nada a ver com a questão da torcida (e realmente não tinha), tudo convergia pra um desabafo em choro. Numa tentativa de retardar as lágrimas, enchi os pulmões e comecei a cantar o refrão: ooooh we're half way there, ooooh living on a prayer. Take my hand and we'll make it, I swear... Mas em vez disso engasguei, e num acesso de tosse achei que morreria sufocada sem assumir uma posição, umazinha que fosse, e num nervosismo crescente estendi o engasgo até a porta de casa, sem mais saber se a música era a mesma ou se uma sinfonia de Beethoven tentava em vão me apaziguar.
Meus olhos lacrimejantes e esmagados em meio à tosse avassaladora clamavam por um tapa nas costas. Inundada de água e ar fresco, e respaldada pela futilidade das minhas atividades, achei que poderia usar como único argumento a estética, e estava prestes a anunciar aos quatro ventos que era a mais nova integrante da torcida fluminense quando o Mauro se meteu na conversa e contou uma história tristíssima sobre o time. A Ritinha por sua vez, mandou um email um pouco revoltado sobre o assunto, apresentando queixas consistentes pelas quais eu deveria descartar os argumentos do Mauro.
No dia em que engasguei cantando um refrão do Bon Jovi eu xinguei esses dois por terem tornado a minha escolha tão mais complexa do que parecia, morri de saudades da Copa do Mundo e decretei: sou América desde criancinha.
Preparei-me pra ida ser apenas o ensaio da volta, afinal eu dirigia-me a compromissos profissionais, onde não podia chegar destrambelhada, o que ocorreria caso alguma canção me pusesse a chorar. Evitei o caminho da praia e escolhi uma lista de músicas segura onde a cantoria fosse apenas digna de final feliz, e concentrei-me nas resoluções (agora) tolas: que iogurte também é leite, e portanto deve ser cortado; que gostaria de ter um par de cada cor do modelo dos meus óculos novos; que preciso investir mais que R$4,00 num xampu. E que preciso, oras, decidir um time de futebol pra chamar de meu.
Foi aí que começou o drama. Por sorte eu já estava na recepção, concentrando-me agora nas coisas sérias do trabalho, crachá na mão, atenta às placas das salas, ufa, é aqui. Interrompi qualquer divagação, fiz cara de simpática e fingi que entendia tudo de novela.
Depois de mais de seis horas de encontros eu estava de volta ao carro, confusa porque a praia da Macumba parecia a maior extensão de areia do planeta, enquanto que a orla da praia da Reserva teimava em não acabar, indiferente às minhas investidas no acelerador. O dilema, então se apoderou de mim, e da seleção musical que agora acontecia em shuffle, descontrolada. Me vi frente às seguintes considerações: não era possível a essa idade tornar-me flamenguista, que pra isso precisava ter vocação. E Vasco, bem, era impossível ser vascaína, por todas as razões óbvias que envolvem um ex-namorado e um time que não sai da condição de vice. Verdade seja dita que meu espírito competitivo se esqueceu em algum lugar distante, mas minha tolerância para piadas futebolísticas é baixíssima.
E mais essa. Torcer pra um time de futebol significa que você tem que interagir e enfrentar as risadas e coisas do tipo? Faz parte do jogo?
Pensei no Botafogo, que adotei em algum momento da vida, e guardei por alguns anos uma camisa no armário. Foi a segunda das camisas esportivas que ostentei, sendo a primeira a que levava o número do Romário e que foi exaustivamente usada na Copa de 94, e a terceira uma camisa de remo do Vasco usada nas aulas de surfe. Ok, pano rápido, pula parágrafo.
Daí que só sobra o Fluminense, que muito me seduz, porque acho o conceito todo do time super vintage. Treinos em Laranjeiras cercados por palmeiras, as cores da camisa. Mas será que são argumentos suficientes pra sustentar uma escolha dessa importância? Começo a achar que não se pode ser torcedor impunemente, da mesma forma que não é possível, do dia pra noite, querer que a Mocidade de Padre Miguel ganhe o Carnaval. São escolhas que envolvem convicções, critérios, afinidades.
Estou sendo dramática?
Chego à praia da Barra desordenada: aflição me consome, cheia de indecisões, diante dum impasse. Como é que eu posso resolver o que fazer com as minhas dores de amor se não consigo nem resolver que camisa vestir? Como pode ser possível escolher profissão se não consigo decidir em que lado da arquibancada quero estar?
É assim, diante desse retrato que agora parece tão claro, que entro no túnel em direção a São Conrado e o ipod explode em guitarras, e mesmo que a música não tivesse nada a ver com a questão da torcida (e realmente não tinha), tudo convergia pra um desabafo em choro. Numa tentativa de retardar as lágrimas, enchi os pulmões e comecei a cantar o refrão: ooooh we're half way there, ooooh living on a prayer. Take my hand and we'll make it, I swear... Mas em vez disso engasguei, e num acesso de tosse achei que morreria sufocada sem assumir uma posição, umazinha que fosse, e num nervosismo crescente estendi o engasgo até a porta de casa, sem mais saber se a música era a mesma ou se uma sinfonia de Beethoven tentava em vão me apaziguar.
Meus olhos lacrimejantes e esmagados em meio à tosse avassaladora clamavam por um tapa nas costas. Inundada de água e ar fresco, e respaldada pela futilidade das minhas atividades, achei que poderia usar como único argumento a estética, e estava prestes a anunciar aos quatro ventos que era a mais nova integrante da torcida fluminense quando o Mauro se meteu na conversa e contou uma história tristíssima sobre o time. A Ritinha por sua vez, mandou um email um pouco revoltado sobre o assunto, apresentando queixas consistentes pelas quais eu deveria descartar os argumentos do Mauro.
No dia em que engasguei cantando um refrão do Bon Jovi eu xinguei esses dois por terem tornado a minha escolha tão mais complexa do que parecia, morri de saudades da Copa do Mundo e decretei: sou América desde criancinha.
Anomalia
(Bilhete a M., desses para serem encontrados sobre a pia do banheiro pela manhã.)
Já percebeu que toda vez que você me deixa em casa a gente desata a conversar e fica mais meia hora (no mínimo) a falar? Carro embicado na garagem, o porteiro da noite a roncar no sofá de entrada, música escolhida por mim de pano de fundo.
Deve ser que a gente não entende direito esse lance de despedidas, ou que a gente nunca aprendeu a dizer "tchau".
Já percebeu que toda vez que você me deixa em casa a gente desata a conversar e fica mais meia hora (no mínimo) a falar? Carro embicado na garagem, o porteiro da noite a roncar no sofá de entrada, música escolhida por mim de pano de fundo.
Deve ser que a gente não entende direito esse lance de despedidas, ou que a gente nunca aprendeu a dizer "tchau".
terça-feira, julho 13, 2010
domingo, julho 11, 2010
Vestígios
As gotas de suor que marcavam o chão de linóleo da sala de dança, aqueles fios de cabelo que grudavam na nuca em questão de minutos, pensar que o mundo estava de cabeça pra baixo, rodar pela diagonal e se apoiar na barra ao final de uma série de piques, bater palmas ofegantes, pegar a blusa que ficou empapada esquecida a um canto da sala, gostar de gatorade às 21h15 de segunda-feira no verão: uma saudade avassaladora de chegar em casa depois da aula de ballet, deitar no chão com as pernas pra cima, entrar no banho e cantar Alanis Morissette embaixo do chuveiro.
Saudade imensa de 14 graus em outubro, vestido novo com meia grossa, trenchcoat emprestado, inspirar e expirar de olhos fechados mais uma vez antes de abrir a porta antiga do prédio, os ecos do salto atravessando a Rue de Mezières até qualquer café na esquina, uma mesa apertada que encoraja nosso encontro, sentados na vitrine sem querer saber das ruas, o caminho de volta, beijos urgentes imprensados na parede, mistura de suspiros, subir os 6 andares de uma escada atapetada refazendo mentalmente todo o percurso que me fez cair naqueles braços: cair naqueles braços.
Ler pela primeira vez as linhas 12, 13 e 14 da página 31 de um determinado livro e ter uma retumbante certeza de que é possível guardar deslumbramentos em prateleiras. Saudade doída de escutar o Bolero de Ravel pela primeira vez e me sentir suspensa.
Trança no cabelo, frio de julho na beira do mar, fechar o zíper nas costas do macacão e sentir gelar toda a espinha quando as primeiras espumas de onda batem no pé. Remar com os braços aflitos, achar o equilíbrio e deslizar suavemente, guardar essa saudade de entender o fim da linha e se jogar pra trás, espatifar-me n’água, buscar a areia, deitar sobre a prancha e ter uma certeza retumbante de que presente bom é fitar as nuvens sem se importar com o tempo.
Perceber-se apaixonada e tentar conter aquele sorriso bobo que não respeita horários, caramba!, que saudade que dá de gostar mais de tudo, de demorar a dormir, de ter uma fome de banquetes, de ter um abraço esperando, de poder beijar sem parar.
Uma saudade que me atravessa, impiedosa, de saltar do carro para abrir o portão, pisar descalça na grama e avistar os cães correndo em minha direção. De ver as marcas das patas imundas sobre minha camiseta tão branca. De estender toalha de pique-nique, folhear o jornal, lembrar do repelente depois de dois ou três mosquitos, adormecer escutando as vozes dos amigos, contar flores nas copas das árvores. Saudade tão forte de correr e pular pra dentro da piscina, de se apoiar em bóias e fica à deriva, da sopa em frente à TV, dos ruídos de lenha queimando na lareira, do ranger da rede. Essa saudade que me alucina: do cobertor que provocava espirros, daquela casa, de nossos dentes manchados de vinho, de dormir só no dia seguinte, daquela parte da estrada onde as árvores, pareciam, nunca iam morrer.
Saudade imensa de 14 graus em outubro, vestido novo com meia grossa, trenchcoat emprestado, inspirar e expirar de olhos fechados mais uma vez antes de abrir a porta antiga do prédio, os ecos do salto atravessando a Rue de Mezières até qualquer café na esquina, uma mesa apertada que encoraja nosso encontro, sentados na vitrine sem querer saber das ruas, o caminho de volta, beijos urgentes imprensados na parede, mistura de suspiros, subir os 6 andares de uma escada atapetada refazendo mentalmente todo o percurso que me fez cair naqueles braços: cair naqueles braços.
Ler pela primeira vez as linhas 12, 13 e 14 da página 31 de um determinado livro e ter uma retumbante certeza de que é possível guardar deslumbramentos em prateleiras. Saudade doída de escutar o Bolero de Ravel pela primeira vez e me sentir suspensa.
Trança no cabelo, frio de julho na beira do mar, fechar o zíper nas costas do macacão e sentir gelar toda a espinha quando as primeiras espumas de onda batem no pé. Remar com os braços aflitos, achar o equilíbrio e deslizar suavemente, guardar essa saudade de entender o fim da linha e se jogar pra trás, espatifar-me n’água, buscar a areia, deitar sobre a prancha e ter uma certeza retumbante de que presente bom é fitar as nuvens sem se importar com o tempo.
Perceber-se apaixonada e tentar conter aquele sorriso bobo que não respeita horários, caramba!, que saudade que dá de gostar mais de tudo, de demorar a dormir, de ter uma fome de banquetes, de ter um abraço esperando, de poder beijar sem parar.
Uma saudade que me atravessa, impiedosa, de saltar do carro para abrir o portão, pisar descalça na grama e avistar os cães correndo em minha direção. De ver as marcas das patas imundas sobre minha camiseta tão branca. De estender toalha de pique-nique, folhear o jornal, lembrar do repelente depois de dois ou três mosquitos, adormecer escutando as vozes dos amigos, contar flores nas copas das árvores. Saudade tão forte de correr e pular pra dentro da piscina, de se apoiar em bóias e fica à deriva, da sopa em frente à TV, dos ruídos de lenha queimando na lareira, do ranger da rede. Essa saudade que me alucina: do cobertor que provocava espirros, daquela casa, de nossos dentes manchados de vinho, de dormir só no dia seguinte, daquela parte da estrada onde as árvores, pareciam, nunca iam morrer.
domingo, julho 04, 2010
Blood on the dancefloor
"because my love for you would break my heart in two, if you should fall into my arms and tremble like a flower." David Bowie in Let's Dance
Do sofá tenho a melhor vista da festa: ali no canto pode ser o começo de uma grande paixão, ali na janela pode ser só enfisema, à direita prevejo roncos e sonhos barulhentos, à esquerda, indiscutível: vômitos no banheiro antes de dormir, nenhum engov vai melhorar. À minha frente se abre o espaço sob o decreto do dj e os olhares imperativos dos amigos que exigem minha presença na pista de dança. Desfilo meu mini vestido até o centro das atenções, encontro lugar seguro para os óculos, exibo meus melhores passos de dança e num rompante eufórico começo a pular alucinadamente, quase sacudo a cabeça como num show de rock. Oito saltos depois alguma coisa falha entre L5 e S1, apóio a mão nas costas e me rastejo até a porta de saída.
Dia seguinte, na cama, uma bolsa de água quente como aliada e dois vidros de remédios esvaziados: não sei se salvação ou tentativa de suicídio.
quarta-feira, junho 16, 2010
Waffles com mel - cena 1
Sentam-se na mesa de sempre, isto é, sempre que o salão está vazio o suficiente para escolherem seus lugares cativos: ela prefere o sofá, ele senta na cadeira e volta e meia não resiste ao espelho em frente. Já sabem que morrem de frio no verão, por isso levam um casaquinho na bolsa, mesmo em janeiro. O primeiro comentário é, portanto, uma discreta revolta contra a potência dos aparelhos de ar-refrigerado nessa época do ano. Um exagero: prevêem gripes para o final de semana, convalescência na piscina. Ela tira da bolsa o caderno de anotações, tá aqui o nome do livro que te falei, como você tá inquieto, o que foi?
A mesma garçonete loira, oi tudo bem? Ué, hoje não vai querer chocolate quente? Ah já sei, no calor é melhor milk-shake, né? Ela se encolhe no banco, pondera: um suco. Dois sucos, dois waffles, uma água sem gás para dividir. Ele muda de idéia: traz um café no lugar do suco?
Como até hoje não sabemos o nome dela? Ele interrompe suas divagações: tenho uma proposta que você não pode recusar. Ela escuta atenta até ser interrompida pelo celular. É minha mãe, preciso atender. Ele passa a mão pelos cabelos três vezes, chacoalha um pouco os pés. Manda um beijo pra ela também. Pronto. Ele começa a sua introdução seriíssima sobre o novo projeto, e antes de explicar efetivamente sobre do que se trata, elege as razões pelas quais ela é a parceira ideal para a empreitada. Envaidecida, se esparrama pelo sofá.
Eclode na mesa ao lado uma briga , um casal já em crise avançada que decide tornar públicas suas amarguras. A mulher, muito nervosa, explode em choros e soluços, o homem percebe que foram longe demais. A garçonete loira desvia o chá de camomila que levava para o senhor dos fundos e o pousa sobre a mesa da discussão, numa tentativa solidária de acalmar a mulher, que segura a bolsa e sai apressada sem olhar pros lados. O homem, constrangido, deixa um dinheiro além do necessário sobre um pires e vai atrás da mulher.
O silêncio se dissolve e o barulho costumeiro do lugar recomeça. Diante do espelho, colherzinha suspensa no ar, imobilizado pelos gritos do casal, ele inunda o título do livro e todas as outras frases do caderno dela: nuvens no café.
A mesma garçonete loira, oi tudo bem? Ué, hoje não vai querer chocolate quente? Ah já sei, no calor é melhor milk-shake, né? Ela se encolhe no banco, pondera: um suco. Dois sucos, dois waffles, uma água sem gás para dividir. Ele muda de idéia: traz um café no lugar do suco?
Como até hoje não sabemos o nome dela? Ele interrompe suas divagações: tenho uma proposta que você não pode recusar. Ela escuta atenta até ser interrompida pelo celular. É minha mãe, preciso atender. Ele passa a mão pelos cabelos três vezes, chacoalha um pouco os pés. Manda um beijo pra ela também. Pronto. Ele começa a sua introdução seriíssima sobre o novo projeto, e antes de explicar efetivamente sobre do que se trata, elege as razões pelas quais ela é a parceira ideal para a empreitada. Envaidecida, se esparrama pelo sofá.
Eclode na mesa ao lado uma briga , um casal já em crise avançada que decide tornar públicas suas amarguras. A mulher, muito nervosa, explode em choros e soluços, o homem percebe que foram longe demais. A garçonete loira desvia o chá de camomila que levava para o senhor dos fundos e o pousa sobre a mesa da discussão, numa tentativa solidária de acalmar a mulher, que segura a bolsa e sai apressada sem olhar pros lados. O homem, constrangido, deixa um dinheiro além do necessário sobre um pires e vai atrás da mulher.
O silêncio se dissolve e o barulho costumeiro do lugar recomeça. Diante do espelho, colherzinha suspensa no ar, imobilizado pelos gritos do casal, ele inunda o título do livro e todas as outras frases do caderno dela: nuvens no café.
quarta-feira, junho 09, 2010
Carta a O.
Querido,
A gente combinou que ninguém mais ia embora, e eu combinei que nunca ia escrever pra um poeta. Confesso: morro de inveja de quem escreve poesia – todo o resto fica parecendo auto-ajuda, e ai que vergonha te falar por escrito. Além disso, eu não elucidei nenhum dos questionamentos: ir ou não ir, você pergunta, e eu caio em contradições: não, eu não acredito mais em paixões ou amores, mas não acredito neles pra mim e, de verdade? acho linda essa história de se juntar, desde que não seja comigo. O meu romantismo ficou todo para terceiros.
O fato dessas linhas serem endereçadas a você abre um precedente pra que eu seja compreensiva quando você enviar cartões postais do cerrado. Porque sabe, acho mesmo que de alguma forma você é bem mais coerente que eu, ou ao menos elabora mais objetivamente as perguntas que eu sequer ouso fazer: de quê serve tanta sensatez, raciocínio ou lógica?
Eu empacaria de cara na hipótese de dar tudo errado, mesmo sabendo que os vôos vão e vêm. Eu acharia todos os motivos possíveis que me impediriam de tentar, e citaria até mesmo a umidade do ar como uma das implicações pelas quais não ir atrás de um grande amor. Eu não construiria as bases dos meus dias no outro, não confiaria meu bom humor matinal a alguém, eu não daria chance a um relacionamento que envolvesse um complicado e um outro perdido, e que ainda tivesse miopia, desemprego e toda essa distância cruel do Jobi no meio.
Eu optaria pela praticidade de continuar minha vida por aqui: evito aquele trecho da praia, passo a preferir o bar ao lado, exploro a sessão de livros infantis em boas companhias numa tarde de segunda-feira em Ipanema e mudo de assunto toda vez que for necessário. Finjo que não preciso de musos pra escrever, não tento te explicar a minha relação com aquele cara porque me convenço pra sempre de que não existe uma. Perco meu bigode na esquina e tudo bem.
Mas a ida é tua, e a coerência também: quantas pessoas transformam tatuagem em poema ou enxergam corações em fios de cabelo? Quantas pessoas viram à esquerda e dão significados a caderninhos e papéis fotográficos? Quem ainda alcança o tamanho do teu sorriso?
Você poderia ir e se descobrir de tantos outros jeitos, ou ver que realmente não daria certo. Poderia aprender a cozinhar, a dirigir, a usar lentes de contato, a manter o banheiro em ordem. Poderia pegar quantos ônibus errados fossem possíveis, encontrar uma turma de cineastas boêmios, usar barba. Se impacientar menos com burocracia e passar a gostar de sapatos. Você poderia ir e descobrir que é capaz de se acostumar às contas de luz, gás e telefone. Ou entender que algumas inquietudes são indomáveis, e voltar por uns tempos, e procurar outros destinos. Ou andar.
Eu acho que você vai acabar descobrindo que precisa andar, e que vai encontrar uma forma de conviver bem com isso.
Se você, afinal, não comprovar (ou desmentir) nenhum dos meus palpites, seja por excesso de ponderação ou por promessas de novas histórias dilacerantes aqui mesmo nessa nossa província, então, por favor: encaixote tuas palavras tão lindas, me dê uma obra de presente que assim, quem sabe, com tanta paixão pra inspirar, eu não amoleça um pouco essa minha cabeça descrente e veja no mundo um pouco dessas belezas todas que você enxerga.
Se eu tiver que te desejar boa viagem, lembre-se de dar sinal de vida quando estiver por essas paragens, e por favor: uma pizza, uma fuga de festa, um bloco de carnaval. Ou caipirinhas esquisitas em bares duvidosos.
Qualquer que seja a decisão, entenda: a questão não é o que o amor pode te trazer, e sim o que você procura: se um caminho de tijolos amarelos e promessas oníricas cheio de incertezas e desníveis, ou um pavimento de concreto e documentos em dia, repleto de praticidades e cálculos, onde talvez seja mais difícil encontrar tua poesia, e nem por isso ela será menos impactante.
As coisas estão aqui, pouco cambiáveis. Se a tua ilusão for tão volátil quanto orgasmos, compre a passagem de volta. Certamente as risadas estarão à tua espera, sentindo tua falta na cabeceira da mesa.
(já dá saudade, só de pensar, mas acho que posso - e todos podemos - encontrar um ou outro drible pra ver como crescem os amigos queridos)
um beijo enorme!
A gente combinou que ninguém mais ia embora, e eu combinei que nunca ia escrever pra um poeta. Confesso: morro de inveja de quem escreve poesia – todo o resto fica parecendo auto-ajuda, e ai que vergonha te falar por escrito. Além disso, eu não elucidei nenhum dos questionamentos: ir ou não ir, você pergunta, e eu caio em contradições: não, eu não acredito mais em paixões ou amores, mas não acredito neles pra mim e, de verdade? acho linda essa história de se juntar, desde que não seja comigo. O meu romantismo ficou todo para terceiros.
O fato dessas linhas serem endereçadas a você abre um precedente pra que eu seja compreensiva quando você enviar cartões postais do cerrado. Porque sabe, acho mesmo que de alguma forma você é bem mais coerente que eu, ou ao menos elabora mais objetivamente as perguntas que eu sequer ouso fazer: de quê serve tanta sensatez, raciocínio ou lógica?
Eu empacaria de cara na hipótese de dar tudo errado, mesmo sabendo que os vôos vão e vêm. Eu acharia todos os motivos possíveis que me impediriam de tentar, e citaria até mesmo a umidade do ar como uma das implicações pelas quais não ir atrás de um grande amor. Eu não construiria as bases dos meus dias no outro, não confiaria meu bom humor matinal a alguém, eu não daria chance a um relacionamento que envolvesse um complicado e um outro perdido, e que ainda tivesse miopia, desemprego e toda essa distância cruel do Jobi no meio.
Eu optaria pela praticidade de continuar minha vida por aqui: evito aquele trecho da praia, passo a preferir o bar ao lado, exploro a sessão de livros infantis em boas companhias numa tarde de segunda-feira em Ipanema e mudo de assunto toda vez que for necessário. Finjo que não preciso de musos pra escrever, não tento te explicar a minha relação com aquele cara porque me convenço pra sempre de que não existe uma. Perco meu bigode na esquina e tudo bem.
Mas a ida é tua, e a coerência também: quantas pessoas transformam tatuagem em poema ou enxergam corações em fios de cabelo? Quantas pessoas viram à esquerda e dão significados a caderninhos e papéis fotográficos? Quem ainda alcança o tamanho do teu sorriso?
Você poderia ir e se descobrir de tantos outros jeitos, ou ver que realmente não daria certo. Poderia aprender a cozinhar, a dirigir, a usar lentes de contato, a manter o banheiro em ordem. Poderia pegar quantos ônibus errados fossem possíveis, encontrar uma turma de cineastas boêmios, usar barba. Se impacientar menos com burocracia e passar a gostar de sapatos. Você poderia ir e descobrir que é capaz de se acostumar às contas de luz, gás e telefone. Ou entender que algumas inquietudes são indomáveis, e voltar por uns tempos, e procurar outros destinos. Ou andar.
Eu acho que você vai acabar descobrindo que precisa andar, e que vai encontrar uma forma de conviver bem com isso.
Se você, afinal, não comprovar (ou desmentir) nenhum dos meus palpites, seja por excesso de ponderação ou por promessas de novas histórias dilacerantes aqui mesmo nessa nossa província, então, por favor: encaixote tuas palavras tão lindas, me dê uma obra de presente que assim, quem sabe, com tanta paixão pra inspirar, eu não amoleça um pouco essa minha cabeça descrente e veja no mundo um pouco dessas belezas todas que você enxerga.
Se eu tiver que te desejar boa viagem, lembre-se de dar sinal de vida quando estiver por essas paragens, e por favor: uma pizza, uma fuga de festa, um bloco de carnaval. Ou caipirinhas esquisitas em bares duvidosos.
Qualquer que seja a decisão, entenda: a questão não é o que o amor pode te trazer, e sim o que você procura: se um caminho de tijolos amarelos e promessas oníricas cheio de incertezas e desníveis, ou um pavimento de concreto e documentos em dia, repleto de praticidades e cálculos, onde talvez seja mais difícil encontrar tua poesia, e nem por isso ela será menos impactante.
As coisas estão aqui, pouco cambiáveis. Se a tua ilusão for tão volátil quanto orgasmos, compre a passagem de volta. Certamente as risadas estarão à tua espera, sentindo tua falta na cabeceira da mesa.
(já dá saudade, só de pensar, mas acho que posso - e todos podemos - encontrar um ou outro drible pra ver como crescem os amigos queridos)
um beijo enorme!
quinta-feira, maio 20, 2010
Diários de São Paulo
(vol. II ou - o atropelamento segundo Caetano Veloso)
Acordo, pisco os olhos e me encaminho pra cozinha para devorar castanhas e é o suficiente para sentir a pele abrir-se em esgarços: pequenas feridas se depositam no topo das dobras dos dedos, a textura toda do rosto é agreste e o nariz sangra: pela manhã, à saída do ônibus, o vento frio na cara faz parecer NY, os combustíveis fazem parecer o inferno, o ipod faz parecer coincidência demais essas coisas sobre as quais não ouso pensar.
Em meio a tantas galerias, ilustrações e cores, decidimos que tão importante quanto o poder aquisitivo é a extensão das paredes, e mais grave é a dimensão das molduras: discutimos a necessidade do “paspatur” e mais tarde, entre chillis e cervejas com limão, debatemos a ética profissional, seguramos as lágrimas que se disfarçam em risadas, ensaiamos embriaguez no final do domingo.
À tarde no escritório as pessoas comem bolachas, nunca biscoitos. Nos finais de semana as pessoas “dão risada”, nunca gargalham. Algumas coisas em São Paulo são “embaçadas”, e não são necessariamente vidros ou lentes. Outras ficam “zoadas”. Tem gente que “causa” na balada. E todo mundo atende pela primeira sílaba do nome, até mesmo Ana pode ser reduzido a “Ô. Em São Paulo é assim: acostume-se com o dialeto, imite o sotaque, faça parte. Alguém vai te sacanear quando você falar “treix” ou “meixmo”. É a sua chance de sacanear de volta, com requintes irônicos que nem o mais erudito paulistano alcançaria: quer que eu te imito?, pergunte, e ria por último e melhor (e sozinho).
Fim de semana em Higienópolis, Aderbal e eu nos fazemos companhia. Em poucos minutos entendo seus miados e chamados, e em questão de duas ou três trocas de olhares nos gostamos tanto que ele deita no meu colo, se esparrama, fica dengoso e meu. É uma delícia, não fosse o pequeno acidente que ocorre depois de cerca de uma hora: sem querer, eu como o Aderbal. Ele solta tanto pêlo que começo a sentir na minha garganta seus cabelos, entro em pânico pensando que os pêlos todos do Aderbal se alojarão na minha garganta. Percebo, porém, que ele não encolhe, ufa. Saio do apartamento aliviada, e então, rá!, como minhas luvas e o cachecol, e, dependendo do figurino, como o meu casaco também. E comeria qualquer coisa que fosse feita de lã e se desfizesse aos poucos encontrando trajetos que levam o tecido a se acumular diretamente na minha garganta. Comeria outros bichos também. Papo estranho, melhor mudar de parágrafo.
Ando atenta pelas barracas da feira e aumento para 3 o número de itens da minha coleção de latas de talco antigas, questiono se de fato a denominação procede. Acho que sim. Quero que sim. As barracas de brinquedos antigos afirmam nosso saudosismo, e compro um Snoopy vintage para o sobrinho, que provavelmente terá mais interesse em coisas que piscam. Suspiro. Quem sabe?
Apita no meu celular uma mensagem enquanto atravesso o viaduto do chá: “ainda na terra dos bandeirantes?”. Certamente. Fugindo da multidão que invadiu a Liberdade no domingo de feira, e acho tudo naquele bairro um horror, de modo que nem um sashimi me salva.
Tiro fotografias sem ter qualquer noção de que elas mostrarão tudo o que quero lembrar e, num descuido, queimo 24 poses de recordações. Desconsolo na Sé.
Fico com uma enorme vontade de me apaixonar por alguém, pior: preciso me apaixonar por alguém.
Tento: entro na Catedral, dou bom dia a um monge na porta do Mosteiro de São Bento, cruzo a Ipiranga e a Av. São João e o máximo que me ocorre é um espirro. Há que ser muito Caetano para mapear poesia em cruzamentos no nervo da cidade, e então um estalo. A maioria das ruas por onde tenho circulado não tem sinal (ou farol?) para pedestres e portanto a cada rua que cruzo, prevejo minha própria morte. O máximo que eu poderia sentir no coração ao me deparar com tal cruzamento deve ser algo parecido com a dor do fim. Não há romantismo que resista a tanta ameaça.
Pausa. Fico cansada no fim do dia, me reconcilio com os óculos, pego um ônibus errado mesmo assim. Consigo estabelecer uma rotina para toda a homeopatia e sem mais determino: estou melhor, estou esquecendo, estou voltando.
Canto: desafino, dou gritinhos, rio no meio da letra e tenho uma inveja estúpida de quem sabe tocar violão.
É o fim do exílio: malas prontas a serem entupidas de tudo o que adquiri, responsabilidades e funções novinhas em folha, um ainda não saber como viver longe do Nintendo Wii, uma preguiça de deixar aqui toda essa gente querida que eu adoraria carregar no bolso: sentir saudades de novo, calor de novo, e atravessar os mesmos rostos nos velhos bares, evitar as mesmas farpas e limpar o armário toda semana por causa do mofo.
Saudade eu tenho dessa cidade que ainda mal conheço, da Paulista quando é noite ou dia, das árvores de Higienópolis, do avesso do avesso do avesso do avesso.
Alguma coisa acontece no meu coração quando pego a ponte aérea, vejo os termômetros de São Paulo marcando 14 graus e sinto que pertenço.
Acordo, pisco os olhos e me encaminho pra cozinha para devorar castanhas e é o suficiente para sentir a pele abrir-se em esgarços: pequenas feridas se depositam no topo das dobras dos dedos, a textura toda do rosto é agreste e o nariz sangra: pela manhã, à saída do ônibus, o vento frio na cara faz parecer NY, os combustíveis fazem parecer o inferno, o ipod faz parecer coincidência demais essas coisas sobre as quais não ouso pensar.
Em meio a tantas galerias, ilustrações e cores, decidimos que tão importante quanto o poder aquisitivo é a extensão das paredes, e mais grave é a dimensão das molduras: discutimos a necessidade do “paspatur” e mais tarde, entre chillis e cervejas com limão, debatemos a ética profissional, seguramos as lágrimas que se disfarçam em risadas, ensaiamos embriaguez no final do domingo.
À tarde no escritório as pessoas comem bolachas, nunca biscoitos. Nos finais de semana as pessoas “dão risada”, nunca gargalham. Algumas coisas em São Paulo são “embaçadas”, e não são necessariamente vidros ou lentes. Outras ficam “zoadas”. Tem gente que “causa” na balada. E todo mundo atende pela primeira sílaba do nome, até mesmo Ana pode ser reduzido a “Ô. Em São Paulo é assim: acostume-se com o dialeto, imite o sotaque, faça parte. Alguém vai te sacanear quando você falar “treix” ou “meixmo”. É a sua chance de sacanear de volta, com requintes irônicos que nem o mais erudito paulistano alcançaria: quer que eu te imito?, pergunte, e ria por último e melhor (e sozinho).
Fim de semana em Higienópolis, Aderbal e eu nos fazemos companhia. Em poucos minutos entendo seus miados e chamados, e em questão de duas ou três trocas de olhares nos gostamos tanto que ele deita no meu colo, se esparrama, fica dengoso e meu. É uma delícia, não fosse o pequeno acidente que ocorre depois de cerca de uma hora: sem querer, eu como o Aderbal. Ele solta tanto pêlo que começo a sentir na minha garganta seus cabelos, entro em pânico pensando que os pêlos todos do Aderbal se alojarão na minha garganta. Percebo, porém, que ele não encolhe, ufa. Saio do apartamento aliviada, e então, rá!, como minhas luvas e o cachecol, e, dependendo do figurino, como o meu casaco também. E comeria qualquer coisa que fosse feita de lã e se desfizesse aos poucos encontrando trajetos que levam o tecido a se acumular diretamente na minha garganta. Comeria outros bichos também. Papo estranho, melhor mudar de parágrafo.
Ando atenta pelas barracas da feira e aumento para 3 o número de itens da minha coleção de latas de talco antigas, questiono se de fato a denominação procede. Acho que sim. Quero que sim. As barracas de brinquedos antigos afirmam nosso saudosismo, e compro um Snoopy vintage para o sobrinho, que provavelmente terá mais interesse em coisas que piscam. Suspiro. Quem sabe?
Apita no meu celular uma mensagem enquanto atravesso o viaduto do chá: “ainda na terra dos bandeirantes?”. Certamente. Fugindo da multidão que invadiu a Liberdade no domingo de feira, e acho tudo naquele bairro um horror, de modo que nem um sashimi me salva.
Tiro fotografias sem ter qualquer noção de que elas mostrarão tudo o que quero lembrar e, num descuido, queimo 24 poses de recordações. Desconsolo na Sé.
Fico com uma enorme vontade de me apaixonar por alguém, pior: preciso me apaixonar por alguém.
Tento: entro na Catedral, dou bom dia a um monge na porta do Mosteiro de São Bento, cruzo a Ipiranga e a Av. São João e o máximo que me ocorre é um espirro. Há que ser muito Caetano para mapear poesia em cruzamentos no nervo da cidade, e então um estalo. A maioria das ruas por onde tenho circulado não tem sinal (ou farol?) para pedestres e portanto a cada rua que cruzo, prevejo minha própria morte. O máximo que eu poderia sentir no coração ao me deparar com tal cruzamento deve ser algo parecido com a dor do fim. Não há romantismo que resista a tanta ameaça.
Pausa. Fico cansada no fim do dia, me reconcilio com os óculos, pego um ônibus errado mesmo assim. Consigo estabelecer uma rotina para toda a homeopatia e sem mais determino: estou melhor, estou esquecendo, estou voltando.
Canto: desafino, dou gritinhos, rio no meio da letra e tenho uma inveja estúpida de quem sabe tocar violão.
É o fim do exílio: malas prontas a serem entupidas de tudo o que adquiri, responsabilidades e funções novinhas em folha, um ainda não saber como viver longe do Nintendo Wii, uma preguiça de deixar aqui toda essa gente querida que eu adoraria carregar no bolso: sentir saudades de novo, calor de novo, e atravessar os mesmos rostos nos velhos bares, evitar as mesmas farpas e limpar o armário toda semana por causa do mofo.
Saudade eu tenho dessa cidade que ainda mal conheço, da Paulista quando é noite ou dia, das árvores de Higienópolis, do avesso do avesso do avesso do avesso.
Alguma coisa acontece no meu coração quando pego a ponte aérea, vejo os termômetros de São Paulo marcando 14 graus e sinto que pertenço.
sábado, maio 08, 2010
Top 5
Características da linguagem regional:
1. “Brigada eu” – é um esquisito sinônimo para o “de nada” que falamos após um agradecimento. Eu, que pensava detestar gente que diz “por nada”, me vejo agora às voltas com “brigada eu” naquele sotaque anasalado de São Paulo.
2. “Imagina” – é mais um sinônimo para o “de nada” ou o “brigada eu” e na maioria das vezes é dito "magina", ocultando-se a primeira vogal, como no "brigada eu".
3. “De quinta” – ou “de” + qualquer outro dia da semana. Ao chegar ao trabalho e fazer um comentário sobre o trânsito daquela manhã, alguém diz que “de sexta é um caos”. Ao perguntar a alguém sobre os horários de um museu, “de segunda não abre”. Ou qualquer outra coisa: “de domingo tem feira aqui na esquina”, “de quinta é mais caro pra entrar” e etc.
4. Plural – por alguma razão obscura, os paulistas não aprenderam a usar o plural na escola. Nenhum paulista: do trocador de ônibus às pessoas que passaram pelo ensino superior, todos adotaram o singular como número absoluto. O curioso é que tal regra vale para substantivos, porém cai em desuso para artigos, o que acarreta frases recheadas de: as blusa, os carro, os vestido, os mano, as mina.
5. Subjuntivo – deve ser alguma emenda especial na pasta da Secretaria de Educação: os paulistas também não aprenderam a usar o subjuntivo na escola, e o que se escuta o tempo todo é uma espécie de dialeto verbal: quer que eu telefono? Quer que eu levo? Quer que eu busco? Eu não sei ainda como reagir a essas perguntas, na dúvida digo sempre que não porque estou convencida de que existe um significado oculto em tudo isso. Quer que eu te mostro?, me perguntou alguém outro dia, e eu saí correndo de medo pela av. Paulista.
1. “Brigada eu” – é um esquisito sinônimo para o “de nada” que falamos após um agradecimento. Eu, que pensava detestar gente que diz “por nada”, me vejo agora às voltas com “brigada eu” naquele sotaque anasalado de São Paulo.
2. “Imagina” – é mais um sinônimo para o “de nada” ou o “brigada eu” e na maioria das vezes é dito "magina", ocultando-se a primeira vogal, como no "brigada eu".
3. “De quinta” – ou “de” + qualquer outro dia da semana. Ao chegar ao trabalho e fazer um comentário sobre o trânsito daquela manhã, alguém diz que “de sexta é um caos”. Ao perguntar a alguém sobre os horários de um museu, “de segunda não abre”. Ou qualquer outra coisa: “de domingo tem feira aqui na esquina”, “de quinta é mais caro pra entrar” e etc.
4. Plural – por alguma razão obscura, os paulistas não aprenderam a usar o plural na escola. Nenhum paulista: do trocador de ônibus às pessoas que passaram pelo ensino superior, todos adotaram o singular como número absoluto. O curioso é que tal regra vale para substantivos, porém cai em desuso para artigos, o que acarreta frases recheadas de: as blusa, os carro, os vestido, os mano, as mina.
5. Subjuntivo – deve ser alguma emenda especial na pasta da Secretaria de Educação: os paulistas também não aprenderam a usar o subjuntivo na escola, e o que se escuta o tempo todo é uma espécie de dialeto verbal: quer que eu telefono? Quer que eu levo? Quer que eu busco? Eu não sei ainda como reagir a essas perguntas, na dúvida digo sempre que não porque estou convencida de que existe um significado oculto em tudo isso. Quer que eu te mostro?, me perguntou alguém outro dia, e eu saí correndo de medo pela av. Paulista.
quarta-feira, maio 05, 2010
O dia em que cortei cebolas
Teve garoa à tarde no dia em que cortei cebolas, e porque desde que cheguei nessa terra só fazia calor e sol eu pensei que a chuva fina tinha um quê de especial porque anunciava o frio, o casaco de lã, um guarda-chuva novinho em folha e quiçá epifanias.
Desci a Rua Augusta cantando e, distraída que estava, fui andando pra casa sem me importar com a poluição. Não arrisquei respirar fundo, porém, seria um descuido e uma impossibilidade, visto que por volta das 18 horas o nariz começa a entupir: em São Paulo, parece, até a alergia é profissional e cumpre horário de trabalho. E junto da alergia vem essa coisa que dá nos olhos, e que é um misto de coceira e ardência, e atravessei a 9 de Julho pingando colírio, aquele prescrito cheio de substâncias e que promete aumentar a produção de lágrimas, essas que haviam sido decretadas escassas e insuficientes para meus olhos.
Eu já andava pelas ruas engarrafadas do Itaim quando entrei no supermercado, uma vontade de comer massa ou qualquer outra comida que ficasse pronta depois do simples e sublime ato de ferver água: brócolis para acompanhar, queijo derretido pra jogar por cima e gelatina de sobremesa. E uma salada de tomates e cebolas, que aí é mais mágico ainda e só precisa de azeite. Com sorte haveria ainda alguns goles de vinho no armário, e mesmo que não houvesse, eu ficaria enrolada em cachecol, esquecida no sofá. Com mais sorte ainda, dessas que nem amuletos ou simpatias garantem, a gata passaria mais um dia sem me atacar.
Panelas no fogão e abridor de vinho decifrado: seriam necessários mais lenços de papel, mais gotas do suposto milagroso colírio e em outros dias seria preciso, também, janelas anti-ruído que silenciassem os esperançosos torcedores do Corinthians.
Mas no dia em que eu cortei cebolas nada poderia estragar minha noite, tamanha foi a especialidade do evento anunciado pela garoa.
No dia em que cortei cebolas o porteiro me deu boa noite me chamando pelo nome, eu fui útil na Alameda Lorena e o risoto do almoço compensou a espera. O ponto alto do dia em que cortei cebolas teria sido o fato de que a gata lambeu meus dedos da mão, selando o começo de algo que pode vir a ser uma grande amizade de 3 semanas. A revelação, porém, era outra: no dia em que cortei cebolas chorei lágrimas em abundância.
Desci a Rua Augusta cantando e, distraída que estava, fui andando pra casa sem me importar com a poluição. Não arrisquei respirar fundo, porém, seria um descuido e uma impossibilidade, visto que por volta das 18 horas o nariz começa a entupir: em São Paulo, parece, até a alergia é profissional e cumpre horário de trabalho. E junto da alergia vem essa coisa que dá nos olhos, e que é um misto de coceira e ardência, e atravessei a 9 de Julho pingando colírio, aquele prescrito cheio de substâncias e que promete aumentar a produção de lágrimas, essas que haviam sido decretadas escassas e insuficientes para meus olhos.
Eu já andava pelas ruas engarrafadas do Itaim quando entrei no supermercado, uma vontade de comer massa ou qualquer outra comida que ficasse pronta depois do simples e sublime ato de ferver água: brócolis para acompanhar, queijo derretido pra jogar por cima e gelatina de sobremesa. E uma salada de tomates e cebolas, que aí é mais mágico ainda e só precisa de azeite. Com sorte haveria ainda alguns goles de vinho no armário, e mesmo que não houvesse, eu ficaria enrolada em cachecol, esquecida no sofá. Com mais sorte ainda, dessas que nem amuletos ou simpatias garantem, a gata passaria mais um dia sem me atacar.
Panelas no fogão e abridor de vinho decifrado: seriam necessários mais lenços de papel, mais gotas do suposto milagroso colírio e em outros dias seria preciso, também, janelas anti-ruído que silenciassem os esperançosos torcedores do Corinthians.
Mas no dia em que eu cortei cebolas nada poderia estragar minha noite, tamanha foi a especialidade do evento anunciado pela garoa.
No dia em que cortei cebolas o porteiro me deu boa noite me chamando pelo nome, eu fui útil na Alameda Lorena e o risoto do almoço compensou a espera. O ponto alto do dia em que cortei cebolas teria sido o fato de que a gata lambeu meus dedos da mão, selando o começo de algo que pode vir a ser uma grande amizade de 3 semanas. A revelação, porém, era outra: no dia em que cortei cebolas chorei lágrimas em abundância.
sábado, maio 01, 2010
Diálogos com um(a) sobrinho(a) - vol. I
Era um baldinho em forma de peixe, desses que as crianças levam para a praia cheio de ferramentas dentro: pás e forminhas para fazer bolinhos de areia. Ou buracos que nos levariam ao Japão, à China, e a um monte de outros países que ainda nem sei se aprendi direito: um dia sentaremos juntos em frente a um globo iluminado e escolheremos todos os destinos que couberem em nossos cadernos de viagem: sim, é bacana manter cadernos de viagens, e outros tantos um pouco inúteis.
Depois foi uma caixinha pequena, de papelão e cheia de cores, de onde juntos puxaríamos diversos cartões, e em cada um deles haveria o começo de uma história: era uma vez. E então caberia a nós continuarmos: poderíamos separar príncipes de princesas, inventar bruxas dóceis, fabricar céus de marmelada e árvores de tangerinas (um dia, fatalmente, você descobriria que os Beatles já tinham inventado isso antes, mas tudo bem).
E os casacos de plush: com capuzes e aconchegantes, mesmo que a nossa cidade seja esse exagero de calor e suor, e os sapatinhos: olhando os sapatinhos eu pensei que era mais lógico que bebês andassem (ou não) descalços, com os pezinhos sempre acima das cabeças, ensaiando passos de dança acrobático enquanto alguém já crescido empurra o carrinho.
Aí eu comecei a perceber que já estava elitizando ensinamentos e lições para você: eu tinha pronta uma lista de verdades e mentiras sobre o mundo, prós e contras sobre tantos aspectos da existência, e dicas para economizar água. Quanta besteira: seu mundo vai ser outro, vai ser, exatamente, o que você escolher.
Foi quando eu resolvi que qualquer coisa seria piegas, e porque essa é a nossa primeira despedida, resolvi enfiar o pé na jaca. Pra você, neném, eu afirmo isso: invente o seu deus, escove os dentes toda noite antes de dormir, escute toda a música que puder, cultive paixões e escolha sempre as pessoas que vão te ajudar a fabricar sonhos: são elas as melhores, as mais especiais, e as que vão te servir de bússola.
São só 3 semanas: eu voltarei cheia de presentes, saudades e essa felicidade sobre a qual ainda não aprendi a escrever.
Depois foi uma caixinha pequena, de papelão e cheia de cores, de onde juntos puxaríamos diversos cartões, e em cada um deles haveria o começo de uma história: era uma vez. E então caberia a nós continuarmos: poderíamos separar príncipes de princesas, inventar bruxas dóceis, fabricar céus de marmelada e árvores de tangerinas (um dia, fatalmente, você descobriria que os Beatles já tinham inventado isso antes, mas tudo bem).
E os casacos de plush: com capuzes e aconchegantes, mesmo que a nossa cidade seja esse exagero de calor e suor, e os sapatinhos: olhando os sapatinhos eu pensei que era mais lógico que bebês andassem (ou não) descalços, com os pezinhos sempre acima das cabeças, ensaiando passos de dança acrobático enquanto alguém já crescido empurra o carrinho.
Aí eu comecei a perceber que já estava elitizando ensinamentos e lições para você: eu tinha pronta uma lista de verdades e mentiras sobre o mundo, prós e contras sobre tantos aspectos da existência, e dicas para economizar água. Quanta besteira: seu mundo vai ser outro, vai ser, exatamente, o que você escolher.
Foi quando eu resolvi que qualquer coisa seria piegas, e porque essa é a nossa primeira despedida, resolvi enfiar o pé na jaca. Pra você, neném, eu afirmo isso: invente o seu deus, escove os dentes toda noite antes de dormir, escute toda a música que puder, cultive paixões e escolha sempre as pessoas que vão te ajudar a fabricar sonhos: são elas as melhores, as mais especiais, e as que vão te servir de bússola.
São só 3 semanas: eu voltarei cheia de presentes, saudades e essa felicidade sobre a qual ainda não aprendi a escrever.
domingo, abril 11, 2010
Diários de São Paulo
(vol. I ou - O Amor Segundo Hélio Oiticica)
Estou aqui nesse lugar onde tudo é comprável e tanta coisa acontece no meu coração que fica difícil priorizar: eu ainda te odeio, mas tenho uma vontade de te participar de cada passo que dou quando cruzo avenidas bem mais largas que as nossas, eu ainda te adoro, mas tenho ímpetos violentos e irreversíveis à mera menção do teu nome: te xingo, por via das dúvidas.
Através da vitrine não conseguimos ver muitas coisas, mas eu já sei quais são os livros que elas precisam ver, e quais são os trecos e coisas divertidos que nos farão rir e emendar piadas: nos deliciamos em almofadas bordadas de John-Paul-George-Ringo e cobertas de veludos: faz frio, eu coloco as mãos nos bolsos da minha jaqueta de couro e digo a elas que não, gente como nós nunca vai parar de tomar Prozac ou de fazer listas.
Fico ligeiramente preocupada no avião: será que essa mania é de fato tão neurótica quanto eu penso que é? E se ninguém mais me agüentar? Tanto faz, decido: tem gente que bebe, tem os que jogam paciência no computador, tem gente que faz aula de artesanato e pronto: eu faço listas, é minha terapia ocupacional.
Chamo de mau gosto as vitrines do Bom Retiro, e guardo delas fotografias que me provam o contrário, não sei explicar, mas é assim que ocorre.
Sex is an illusion. The most exciting thing is not making it., diz o Andy Warhol. Será?
Passeio pelo Museu do Futebol e, confesso: choro. Duas vezes.
Meu guarda-chuva quebra na Augusta.
Me reconcilio com Hélio Oiticica na Av Paulista porque finalmente faz sentido penetrar uma de suas obras, e entendo pra que servem, afinal, as Cosmococas. Não são epifânicas, não superestimulam seus sentidos, não te fazem cruzar a porta de saída pensando em questões da arte ou do mundo, não te deixam hipnotizado por cores ou traços, não provocam rupturas, não causam o impacto da sessão de quadrinhos da Livraria Cultura, não, não, não: no escurinho de uma Cosmococa casais espalhados em colchões trocam beijos estalados e melados, eu saio de fininho encabulada porque não sei amar, prevejo um baby-boom e nenéns vestidos em Parangolés, e compreendo: all you need is love.
Na bancada de uma cozinha em Higienópolis ouço a melhor definição que se pode fazer sobre alguém: ele não tem super-ego. E crio uma cumplicidade tão boa e grande que me esparramo no sofá, fico com as bochechas rosadas de vinho e me enrosco num gatinho ruivo que minutos antes tentava comer meu cabelo e que agora ataca meu pulso esquerdo com mordidinhas e miados.
Almoço risoto na Livraria da Vila, onde sempre sou feliz.
Sempre sou feliz em São Paulo, concluo, e cada vez mais, sobretudo quando há uma lareira ao lado de um quarto com papel de parede retrô. Ou um flamingo de acrílico quebrado na sala. Ou todos os livros do Snoopy em inglês. E toda essa gente que me faz chacoalhar em gargalhadas revigorantes, os dias passam tão rápidos e sedutores aqui que só me dou conta no avião a caminho de volta pra casa que não penso em você há três dias, e rezo pra finalmente chegar o dia em que eu possa perder as contas e nem precise mais somar.
Já em casa, ela me conta que perdeu o vôo de novo, sempre, que coisa insistente. Combinamos voltar em breve, aproveitar o frio, paquerar almofadas milionárias e comer como rainhas. com sorte, quem sabe, e com todo esse bom-humor, se esbaldar na Tropicália de braços dados com alguém.
Estou aqui nesse lugar onde tudo é comprável e tanta coisa acontece no meu coração que fica difícil priorizar: eu ainda te odeio, mas tenho uma vontade de te participar de cada passo que dou quando cruzo avenidas bem mais largas que as nossas, eu ainda te adoro, mas tenho ímpetos violentos e irreversíveis à mera menção do teu nome: te xingo, por via das dúvidas.
Através da vitrine não conseguimos ver muitas coisas, mas eu já sei quais são os livros que elas precisam ver, e quais são os trecos e coisas divertidos que nos farão rir e emendar piadas: nos deliciamos em almofadas bordadas de John-Paul-George-Ringo e cobertas de veludos: faz frio, eu coloco as mãos nos bolsos da minha jaqueta de couro e digo a elas que não, gente como nós nunca vai parar de tomar Prozac ou de fazer listas.
Fico ligeiramente preocupada no avião: será que essa mania é de fato tão neurótica quanto eu penso que é? E se ninguém mais me agüentar? Tanto faz, decido: tem gente que bebe, tem os que jogam paciência no computador, tem gente que faz aula de artesanato e pronto: eu faço listas, é minha terapia ocupacional.
Chamo de mau gosto as vitrines do Bom Retiro, e guardo delas fotografias que me provam o contrário, não sei explicar, mas é assim que ocorre.
Sex is an illusion. The most exciting thing is not making it., diz o Andy Warhol. Será?
Passeio pelo Museu do Futebol e, confesso: choro. Duas vezes.
Meu guarda-chuva quebra na Augusta.
Me reconcilio com Hélio Oiticica na Av Paulista porque finalmente faz sentido penetrar uma de suas obras, e entendo pra que servem, afinal, as Cosmococas. Não são epifânicas, não superestimulam seus sentidos, não te fazem cruzar a porta de saída pensando em questões da arte ou do mundo, não te deixam hipnotizado por cores ou traços, não provocam rupturas, não causam o impacto da sessão de quadrinhos da Livraria Cultura, não, não, não: no escurinho de uma Cosmococa casais espalhados em colchões trocam beijos estalados e melados, eu saio de fininho encabulada porque não sei amar, prevejo um baby-boom e nenéns vestidos em Parangolés, e compreendo: all you need is love.
Na bancada de uma cozinha em Higienópolis ouço a melhor definição que se pode fazer sobre alguém: ele não tem super-ego. E crio uma cumplicidade tão boa e grande que me esparramo no sofá, fico com as bochechas rosadas de vinho e me enrosco num gatinho ruivo que minutos antes tentava comer meu cabelo e que agora ataca meu pulso esquerdo com mordidinhas e miados.
Almoço risoto na Livraria da Vila, onde sempre sou feliz.
Sempre sou feliz em São Paulo, concluo, e cada vez mais, sobretudo quando há uma lareira ao lado de um quarto com papel de parede retrô. Ou um flamingo de acrílico quebrado na sala. Ou todos os livros do Snoopy em inglês. E toda essa gente que me faz chacoalhar em gargalhadas revigorantes, os dias passam tão rápidos e sedutores aqui que só me dou conta no avião a caminho de volta pra casa que não penso em você há três dias, e rezo pra finalmente chegar o dia em que eu possa perder as contas e nem precise mais somar.
Já em casa, ela me conta que perdeu o vôo de novo, sempre, que coisa insistente. Combinamos voltar em breve, aproveitar o frio, paquerar almofadas milionárias e comer como rainhas. com sorte, quem sabe, e com todo esse bom-humor, se esbaldar na Tropicália de braços dados com alguém.
quarta-feira, abril 07, 2010
O desabotoado céu - volume definitivo
(para Betinha, Bruna e Clara, pelos lenços de papel)
As coisas começaram a desabar todas juntas: eu tropecei numa pedra portuguesa num domingo, engasguei quando entendi que eu tinha inventado muito mais dele do que devia, perdi diversos botões de tantas roupas e uma motosserra rangeu por três dias e três noites me deixando numa insônia devastadora onde desaprendi a ouvir música. Caiu, então, uma chuva que pedia uma sequência inevitável de clichês: guarda-chuva virado ao contrário, água nas canelas, RJTV filmando gente de barquinho pelas ruas, preocupação de mãe, coração estilhaçado e um choro desatinado que demandava abraços, colo e vodca.
Era sábado, minhas roupas encharcadas pendiam no varal da casa dela (sempre ela!) enquanto eu me esforçava para parar de gaguejar, alguma coisa escorria de mim numa velocidade surpreendente, e minhas mãos tremiam. Aquele dia voltei pra casa a 10 por hora, coloquei um cd no som do carro, mas eu apenas não sabia mais como fazer: para ouvir música, para ouvir histórias, para achar que tudo ia ficar bem, para entender que agora era eu sem ele.
Quando as águas baixaram e a cidade começou a secar eu já estava enjaulada em obsessões habituais: listar músicas com a palavra “olhos” (ou eyes – mais ou menos 20 de cada), discutir relação por email, mimar o cão e, aos poucos, colocar no som os cds e lembrar que algumas músicas são como navalhas.
Aconteceu, então, que depois de muitos dias de calor e mar, a rua começou a despencar, com lamas e folhas que desciam nem sei de onde, e barulhos tão próximos e assustadores que pensei em fugir no meio da noite, sem nem dar tempo de inventariar o que eu carregaria comigo. A cidade toda começou a cair de novo, meus remendos se rasgaram com a mesma violência com que as encostas deslizaram e então tudo ficou em alerta. Dessa vez foi o prefeito quem decretou que evitássemos sair, e sem álcool, bobagens ou ânimos, vimos os dias cinzas separadas em nossas janelas sempre com o telefone ao alcance. Lemos quadrinhos e poesia, pregamos os botões das camisas e das calças e por fim juntamos nossas obsessões numa lista que somou 96 canções, umas com a palavra “rain”, outras com a palavra “chuva” no título. E porque aqui as coisas estavam realmente tristes e doloridas, e porque o Morrissey insistia em cantar “come back to Camdem”, comprei minha passagem para onde por duas vezes fui extraordinariamente feliz. Chove sempre na Inglaterra, me disseram. Tudo bem, em mim também.
As coisas começaram a desabar todas juntas: eu tropecei numa pedra portuguesa num domingo, engasguei quando entendi que eu tinha inventado muito mais dele do que devia, perdi diversos botões de tantas roupas e uma motosserra rangeu por três dias e três noites me deixando numa insônia devastadora onde desaprendi a ouvir música. Caiu, então, uma chuva que pedia uma sequência inevitável de clichês: guarda-chuva virado ao contrário, água nas canelas, RJTV filmando gente de barquinho pelas ruas, preocupação de mãe, coração estilhaçado e um choro desatinado que demandava abraços, colo e vodca.
Era sábado, minhas roupas encharcadas pendiam no varal da casa dela (sempre ela!) enquanto eu me esforçava para parar de gaguejar, alguma coisa escorria de mim numa velocidade surpreendente, e minhas mãos tremiam. Aquele dia voltei pra casa a 10 por hora, coloquei um cd no som do carro, mas eu apenas não sabia mais como fazer: para ouvir música, para ouvir histórias, para achar que tudo ia ficar bem, para entender que agora era eu sem ele.
Quando as águas baixaram e a cidade começou a secar eu já estava enjaulada em obsessões habituais: listar músicas com a palavra “olhos” (ou eyes – mais ou menos 20 de cada), discutir relação por email, mimar o cão e, aos poucos, colocar no som os cds e lembrar que algumas músicas são como navalhas.
Aconteceu, então, que depois de muitos dias de calor e mar, a rua começou a despencar, com lamas e folhas que desciam nem sei de onde, e barulhos tão próximos e assustadores que pensei em fugir no meio da noite, sem nem dar tempo de inventariar o que eu carregaria comigo. A cidade toda começou a cair de novo, meus remendos se rasgaram com a mesma violência com que as encostas deslizaram e então tudo ficou em alerta. Dessa vez foi o prefeito quem decretou que evitássemos sair, e sem álcool, bobagens ou ânimos, vimos os dias cinzas separadas em nossas janelas sempre com o telefone ao alcance. Lemos quadrinhos e poesia, pregamos os botões das camisas e das calças e por fim juntamos nossas obsessões numa lista que somou 96 canções, umas com a palavra “rain”, outras com a palavra “chuva” no título. E porque aqui as coisas estavam realmente tristes e doloridas, e porque o Morrissey insistia em cantar “come back to Camdem”, comprei minha passagem para onde por duas vezes fui extraordinariamente feliz. Chove sempre na Inglaterra, me disseram. Tudo bem, em mim também.
terça-feira, março 30, 2010
Era uma vez
Me convenceram de que pizza fica melhor com guaraná, que um raio-laser me faria enxergar o mundo desembaçado em no máximo 48 horas, que mentos com coca-cola explode, que beber água de cabeça pra baixo cura soluço, que oferecer ovos a Santa Clara pode ser eficaz, que São Longuinho devolve as coisas perdidas por apenas 3 pulinhos, que Elvis não morreu, que tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas, que o que não mata engorda, que o cão é o melhor amigo do homem, que se deve entrar o ano de pé direito, que os Beatles são mais famosos que Jesus Cristo, que se não for infinito então que seja eterno enquanto dure, que o Obina era melhor... do que quem mesmo?, que antes tarde do que nunca, que antes só do que mal acompanhada, que aqui em se plantando tudo dá, que ovo faz mal, depois que ovo faz bem, que tudo se acaba na quarta-feira, um engov antes e outro depois, o sonho acabou, e, comprovadas ou não, é bom se apegar a essas certezas, quaisquer que sejam, quando a vida fica assim, fora do lugar e irreal.
:: By my side - INXS
:: By my side - INXS
segunda-feira, março 08, 2010
Manual para conquistar pequenos mundos,
de Michel Zózimo
- Não descarte nada que respire;
- Considere as coisas que não se movem;
- Trace mapas imaginários que não escapem do presente;
- Calcule a distância da ponta dos seus dedos da mão até o infinito;
- Descubra a medida do esquecimento;
- Encontre o centro do oceano, imaginando que isto é impossível.
de Michel Zózimo
- Não descarte nada que respire;
- Considere as coisas que não se movem;
- Trace mapas imaginários que não escapem do presente;
- Calcule a distância da ponta dos seus dedos da mão até o infinito;
- Descubra a medida do esquecimento;
- Encontre o centro do oceano, imaginando que isto é impossível.
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