sábado, julho 25, 2009

"Estrago a pessoa amada em 3 dias"

(escrito numa camiseta em Ipanema)

Era dilúvio quando a frase do título me pegou e desde então eu já escrevi milhares de coisas sobre o assunto (na minha cabeça). Cheguei num nível de obsessão com a frase que fiz um top 5 imaginário de pessoas amadas que eu estragaria. No fim eu sempre concluí que não estragaria ninguém. Eu acho.

No fim (de novo) o melhor que consigo pensar é que é deveras mais eficaz estragar logo a pessoa amada, porque possível e provavelmente ela não te ama de volta. E até onde eu sei, mãe de santo alguma vai convencê-la do contrário. Então pense: a pessoa amada vem, nada dá certo, o relacionamento gera sofrimento pra uma das partes e está feita a cagada.

Melhor estragar antes. Em 3 dias e você descobre que a pessoa amada é uó e logo desfaz-se o sofrimento.

quinta-feira, julho 23, 2009

Carta a B.

Ma chérie,

Hoje o dia parecia que ia dar jeito, que alguma coisa ia ser boa, que alguma coisa ia ser minha. Por algumas razões nada obscuras e completamente óbvias, a quinta-feira terminou com o gosto amargo de um temaki completamente vomitável. Mas você sabe, o dia de passar mal foi sábado e é pra frente que se anda.

Eu comecei a desconfiar de todo o meu futuro quando me vi dando voltas pelo Shopping da Gávea procurando uma loja que com certeza deveria estar no terceiro piso. Eu rodei tanto que não deu tempo de ir na manicure nem de comer folhado na Chez Anne. Pra piorar, a liquidação da Osklen estava péssimae tudo continuava custando mais que o compreensível. Mas havia uma luz no fim do túnel porque a música que tocava no Shopping era "Just Another Day", do Jon Secada, o que foi o primeiro aspecto positivo do meu dia e eu até cantarolei. Você sabe, "Just Another Day" é uma das top 5 músicas pra ouvir so-zi-nha no carro, cantando aos berros, fazendo todo mundo dos outros carros se divertir um pouco ao pararem no sinal.

Poucos minutos depois, já a léguas de distância e atrasada, percebi que todos os bilhetes de metrô haviam sumido, que eu só tinha cinco reais na carteira e que eu teria que me segurar naquelas barras dentro dos trens correndo sério risco de me contaminar com gripe suína. Dez minutos depois eu já estava tossindo e panicada, sem nem mesmo ter idéia se tosse consta dos sintomas. Pouco antes de chegar ao trabalho o meu caderno foi cruelmente tragado por um bueiro imundo da Rua dos Andradas. Eu ando tão cheia de idéias e planos que desenvolvi uma técnica de escrever andando pra anotar qualquer coisa que possa virar: um catálogo, fotos de moda, textos, twitters, outro emprego, tese de mestrado. Exato, ando com desejos acadêmicos. Mas lá se foi o caderno, porque me distraí com os pastéis e ele despencou tragicamente.

Então as quarenta e três idéias do dia foram descartadas, não apenas porque o caderno ficou irremediavelmente fora de alcance, mas também porque essas coisas acontecem, né? Enfim. Quando pela janela do atelier começou a entrar o som de uma música do Coldplay eu achei que tudo poderia ficar agradável novamente. Então eu me dei conta de que a calça que eu vestia estava completamente tomada por bolinhas e fiozinhos puxados no quadril direito. Era o meu fim decretado, visto que eu comprara a calça exatamente vinte e quatro horas antes.

A minha última salvação encontrava-se no mesmo bairro em que a primeira, e lá fui eu correndo pra aula de dança, me esticar e rodopiar e terminar a aula carimbando o chão com a mancha de suor das minhas costas. E aí, ma chérie, uma coisa muito dolorosa aconteceu: a minha hérnia voltou e eu senti o lado direito todo da lombar doer como se alguém estivesse espetando agulhas num boneco de vodu que tivesse a minha cara. Era o meu fim, de novo. Rezei. Comi um temaki. Cheguei em casa, matei o porteiro três vezes, vomitei o temaki e aí você aconteceu: se você estivesse aqui a gente iria tomar uma taça de vinho qualquer safra acompanhado de pizza do supermercado. A gente ia delirar com a última campanha do perfume da Jil Sander, porque se você estivesse aqui eu saberia como é a última campanha do perfume da Jil Sander. Se você estivesse aqui ia consertar toda essa chatice de dia cheio de vírus, algas e tecidos de quinta.

Mas você não está, portanto eu coloco outro dramin pra dentro, fico absolutamente desorientada e caio na cama, não sem antes colocar um montinho de travesseiros sob as pernas, hérnia de disco, sabe como é.

No sonho a gente gargalha na estação Saint Sulpice e volta pra casa de manhã cantando “but remember this every other kiss that you ever give...” a plenos pulmões e fazendo cara de drama. No sonho a gente ainda é vizinha, tem praia em Paris, a Carol nunca fura e a ponte aérea funciona tipo a da novela das oito, toda hora os amigos vão e voltam e nunca ninguém chega a querer se matar de saudade.

Se você estivesse aqui, ma chérie, você ia saber o jeito certo de consertar tudo. Porque você não está, fico crente e canto Jon Secada como um mantra: whyyyyy can’t you stay foreeeeveeeeeeeer Just give me a reason, giiiiiiiive me a reason cause Iiiiiiii Iiiiiiiiiiii don’t wanna say it, I don’t wanna find another way...

Como se traduz isso tudo pro francês? Como se mede saudade?

Me diz, minha querida: co-mo-faz?

Bisous,


(ps. A internet não funcionou quando eu queria ter postado esse post...)

domingo, julho 19, 2009

Estação Uruguaiana

(ou: Quando porteiros e SAARA se encontram)

Ainda está lá na Estação Cinelândia a lojinha de sapatos cheias de scarpins de saltos incrivelmente altos e finos. Ainda está lá na Estaçaõ Carioca toda aquela gente que parece que vai te esmagar no metrô, que medo. Eu ainda confundo Rua da Alfândega com a Senhor dos Passos. A farmácia da esquina ficou completamente destruída. Os pastéis enormes e lindos ainda não me convenceram.

Respiro aliviada ao ver que lupas ainda são vendidas junto a bolsas plásticas de água quente (R$5,00 cada), porque isso parece fazer mais sentido que muita coisa, a maioria delas, na verdade (imagina comprar uma lupa sem uma bolsa de água quente ou vice-versa?). Descubro que os corantes Guarany não produzem mais a tinta bege, e portanto a vida no atelier frente ao fogão de tingimento complicou-se: azul, vermelho, amarelo e marrom nunca dão um bege tão bom quanto o finado. O cáqui que inventaram para substituir também não dá certo. O almoço no restaurante a quilo continua dando 15 reais. O café agora é na Pavelka, muito melhor que a Colombo. Homens de cabelo ralo e barrigas proeminentes continuam andando com pentes de dentes finos nos bolsos de camisas de algodão. A Dona Laura, essa também não mudou, e porque ela continua sendo uma pedra no caminho, e porque ela continua me dando bom dia com uma cara de vômito e um "opa" ("opa"?!), e porque ela ostenta um bigode medonho, tornou-se o meu novo porteiro da noite.

Eu continuo preferindo seda pura, e torcendo por um frio pra usar veludo, mas não tem jeito, no SAARA faz calor até nos dias de temperatura mais baixa, já dá pra sentir da escada rolante do metrô. Na volta pra casa, eu continuo errando a saída e quando vejo estou em frente ao Odeon, pensando em letreiros e filmes.

Em meio a todo o déjà-vu (não me venha sugerir psicanálise), a grande conquista do dia, quiçá do ano, foi o meu novo amor, um desses que aparecem novinho em folha quando menos se espera. Pelo interfone ele me avisou que o reboque estava chegando no meio da tarde de domingo. Desci as escadas num galope com a blusa de ontem, a saia que tinha ficado sobre a cadeira, os cabelos descontrolados, pantufa e meia-calça e salvei meu carro de mais um reboque. E então assim, ofegante e certamente reprovada por qualquer consultora de moda no quesito modelito, me apaixonei perdidamente pelo porteiro da tarde, meu novo herói.

segunda-feira, julho 13, 2009

Laranjeiras

Essa história que ficou encalacrada entre o Largo do Machado e o túnel Rebouças, ela volta em detalhes e cheiros quando perambulo pelos brechós da Rua Alice e experimento alguns vestidos verdes, que receberiam elogios quase imperceptíveis se tantas coisas... Mas não compro nada.

Na esquina da mesma rua já não como mais pastéis porque já não vivo mais aqueles dias de Cesaria Évora de manhã, de tomates secos em frente a um filme em língua estranha. Essa história de demorar a dormir pensando em desculpas pouco convincentes pra te fazer entender que a gente não dava certo, mas a gente dava certo, lembra?

Essa história cheia de razões que eu mesma escrevia, ela volta em cores quando passeio por ruas que eram suas, e que continuam no mapa apesar de mim. Essa história, cujo final eu escolhi, quando volta me pega numa saudade tão boa e pouco dramática de nem sei o quê. Essa nossa história de saudade, deve ser isso, fui eu que inventei do começo ao fim.

sexta-feira, julho 10, 2009

O twitter é aqui - vol. 2

13h15
Todo dia de manhã engulo água da pia e depois uma porção pequena de flúor oral-B azul e tenho certeza que um dia isso vai trazer algum mal. É que dá muita hipocondria no inverno

13h25
E o batom laranja que nunca sai? Infecção, na certa.

13h30
Tipo o filtro solar. Excesso de fator de proteção na pele, e mesmo assim as sardas se expandem. Não faz nenhum sentido.

13h55
( "E algum trocado pra dar garantia." )

14h22
Sexta-feira eu ganho dois centímetros no alongamento, mas hoje me estiquei tanto que tenho certeza que estou com 1m77. Segunda tudo volta ao normal pra 1m72.

15h18
Algumas coisas, porém, passam a fazer sentido tão de repente: o cd da Cibelle, o nome dos passos de ballet, havaianas (as legítimas), sashimi de salmon.

15h22
E outras ficam à espera de alguma coisa que resolva: esse dia seguinte, tentando estancar saudades.

15h24
( "Pra poesia que a gente não vive, transformar o tédio em melodia." )

15h27
E essa ausência de quadros na parede...

15h29
E esse ipod amarelo, em que momento da vida se escuta ipod?

15h31
E onde diabos foi parar o cd do Grande Circo Místico, caracolis?!

16h50
É alguma vértebra que não tá legal e que inflama desde o pescoço até o cotovelo deixando o braço direito tão pesado e o ombro completamente inútil. Penso: sofrer de amor não parece tão trágico.

16h54
( "E algum veneno anti-monotonia." )

17h00
Faz sentido também quando Tony gargalha mexendo a mandíbula, e só ele deve fazer isso.

17h04
E esses suspiros que duram o tempo exato dessas saudades, que duram bem mais que abraços esquecidos, que percorrem o exato trajeto da dor que começa na garganta e toma de assalto o cotovelo. No fim é tudo a mesma coisa: dói, e é físico.

17h41
( "Ne me quitte pas / Je ne veux plus pleurer / Je ne veux plus parler / Je me chacherai là / À te regarder / Danser et sourire / Et à t'écouter / Chanter et puis rire" )

17h45
Ne me quitte pas.

18h00
É que às vezes parece que o mundo não faz nenhum sentido quando você não participa do Twitter, sabe?

quinta-feira, julho 09, 2009

The "porteiro da noite" issue

Fazia tempos eu andava com uma certa vergonha do porteiro da noite porque passava sempre das duas quando eu chegava em casa e não importava o dia, porque vida de gente como eu é assim: passa-se a tarde de quinta na praia a beber cervejas e as noites de terça e quarta a debater relacionamentos alheios no baixo. Por causa da vergonha eu decidi ficar em casa, e por causa da aula de dança eu decidi chegar tranqüila, tomar um banho quente e terminar um livro, e por que os vizinhos andam reclamando que a garagem está excessivamente cheia de carros o porteiro da noite veio gentilmente pedir que eu entendesse que não podia seguir estacionando o carro no interior do edifício, que eu entendesse que ele não se opunha ao ato, porém que era preciso também compreender a posição do síndico e dos vizinhos e que eu não poderia ocupar mais uma vaga visto que cada apartamento tem direito a somente duas vagas e veja bem meu bem: porque eu realmente queria tomar um banho e comer eu fui tratando de retirar o veículo da garagem, de tranqüilizar o porteiro da noite dizendo que eles (quantos fossem) tinham razão (sempre), afinal eu estava (há meses) infringindo as leis do condomínio e que eu só havia tomado a drástica decisão de guardar o automóvel indoors por conta de um reboque em que na ocasião o porteiro do dia resolveu ocultar esse detalhe e eu fiquei, chave na mão e luzes de babaca piscando na testa, a procurar o carro na rua. E por causa do vizinho, aquele. O porteiro da noite disse que sim, que o porteiro do dia havia contado a ele. Pedi então que o porteiro da noite me contasse caso o porteiro do dia soubesse que meu carro fora rebocado outra vez, visto que, ao que parece, o entrosamento deles é bem maior que o meu.

Foi então que o jogo virou: já sob a tão sonhada água quente, pensei que o porteiro da noite sempre, sempre mesmo, está a dormir quando eu chego ao prédio. Ele só acorda quando eu já estou em frente ao elevador, esperando e bocejando, e então o porteiro da noite diz frases sem sentido, me chama de outros nomes e volta a dormir no sofá, imagino até que babe. E então em vez de certa vergonha me deu certa raiva desse cara que nunca, nunca mesmo, cumpre o seu papel primordial de me abrir a porta de madrugada, ou de me orientar quando entro com o carro na garagem para que eu não arranhe ainda mais a lateral direita no caminho estreito entre as pilastras. Foi então também que eu me dei conta de que o porteiro da noite sempre, eu disse sempre MESMO, deixava o vizinho, aquele imbecil, estacionar de forma errada ocupando duas vagas, uma das quais deveria ser a minha. De repente me deu o estalo, eu virei persona non grata na garagem do edifício por causa do porteiro da noite, que obviamente é cúmplice não só apenas do porteiro do dia (quiçá do reboque), como também do vizinho.

Foi então, também, que saí do banho, coloquei um vestido e um sapato de salto, daqueles bem barulhentos e irritantes que vão fazendo tec tec pelo caminho e resolvi que essa noite eu só chegaria ao prédio depois das 3 e meia, quando o porteiro da noite estivesse no melhor do sonho. E de taxi. As instruções para o taxista eram de que embicasse o carro na garagem fazendo estardalhaço e que desse uma buzinada que faria com que o porteiro da noite levantasse de um salto. Então eu adentraria a portaria pisando firme em meus saltos tec tec e falando alto como uma bêbada que chega em casa sem idéia do volume. Com sorte eu estaria realmente bêbada, e com mais sorte ainda eu passaria mal na portaria. Ou no elevador. Se fosse um dia em que os astros conspirassem a meu favor, até o vizinho acordaria diante de tamanha confusão.

terça-feira, junho 30, 2009

O dia em que a Pina Bausch morreu

O dia em que a Pina Bausch morreu foi o mesmo em que eu entendi que não poderia confiar jamais outra vez em oftalmologistas, especialmente os que dizem que no meio da cirurgia de miopia a pessoa sente um cheiro de queimado e que é normal. Normal, na minha concepção, é sentir cheiro de xampu no cabelo, de bueiros no Leblon ou de bifes na cozinha. Ou acordar e não enxergar as horas no despertador na mesinha, ou tomar banho de óculos, ou tira-los da cara e fazer uma seqüência de rolamentos míopes na aula de dança e terminar desnorteada.

O dia anterior ao da morte da Pina Bausch foi quando eu resolvi de fato que eu não faria a operação de miopia, mesmo se o especialista em retina dissesse que as degenerações do olho esquerdo não eram nada, o que de fato ele disse.

Nos minutos anteriores ao oftalmologista afirmar que minas retinas estavam aptas à cirurgia eu vislumbrei toda a cena que fatalmente aconteceria se eu adentrasse a sala de procedimentos com aquela touca protetora comprimindo os cabelos. Eu me agarraria na minha mãe, no meu pai e em quem mais estivesse pela frente gritando e chorando e tapando meus olhos com as mãos, como fez a garota loirinha de seis anos que estava na sala de espera comigo, e que não deixava pingarem nela o colírio dilatador de pupilas nem por um decreto.

Eu quis dizer a ela que o olho dela ia arder só um pouco, pior era o meu que exalaria cheiros de queimado. Eu quis dizer a ela que era melhor dilatar logo as pupilas, que pelo menos ela tinha pai e mãe para a levarem para a casa sã e salva num carro onde não precisaria se arriscar a dirigir após a consulta. Eu quis dizer a ela que pelo menos ela não tinha idéia de quem era Michael Jackson, muito menos Pina Bausch.

No dia em que a Pina Bausch morreu eu poderia ter feito uma boa ação para aquela criança, que provavelmente ficou traumatizada com a ida ao oftalmologista e que, assim como eu, provavelmente, nunca mais colocará os pés naquela clínica. Em vez disso eu entrei no carro e vim dirigindo pra casa com os olhos dilatados encolhidos com o excesso de claridade, quase me acidentando de cegueira, vertendo lágrimas dentro de um carro sem trilha sonora, pensando que talvez o meu pai tenha razão quando diz que não precisamos superar todos os nossos medos nessa vida. No dia em que a Pina Bausch morreu eu cheguei em casa viva e sem enxergar de perto, de longe ou de médio. Me tranquei sob as cobertas e dormi dez horas.

O dia em que a Pina Bausch morreu foi o mesmo em que uma aluna nova chegou à minha turma de dança, e após 40 minutos ela perguntou se eu conseguia fazer a aula toda de óculos sem problemas. Sim, eu respondi. Sem qualquer problema.

quarta-feira, junho 24, 2009

Tomar o mundo feito coca-cola

"Só falta te querer
Te ganhar e te perder
Falta eu acordar
Ser gente grande pra poder chorar"
Lulu Santos in O Último Romântico

É que às vezes acontece isso de chorar com uma mesa entre nós, de ficar sombria e engasgada e encrencada numa linha curva de pensamentos tortos, acontece às vezes de enxugar os olhos com guardanapo timbrado, de inundar hastes de óculos gastos e marrons, de esfregar os olhos e ter soluços pequeninos e contritos que tentam cessar essa torrente que se põe a desfiar histórias e lembranças tão de trás, tão de longe.

É difícil dizer se um abraço teria sido consolo, ou se mousse de chocolate, ou se meia, ou se noites clandestinas que viravam refúgios com espelhos nos tetos, tudo isso pra deixar pra lá esses redemoinhos de coisas e perguntas, pra deixar pra trás melancolias cheias de dúvidas que não terminaram e que então desse lado da mesa vêm à tona tão naturalmente como espirros em dias úmidos.

É que quando fica inverno essas coisas jorram: esses humores quase sempre tão disfarçáveis, esses prantos que geralmente sabem que o melhor horário é no meio de uma madrugada sozinha, essa carência de pele e do outro que normalmente se conforma com os suspiros de uma saudade que nunca vira nós dois, essa insegurança que habitualmente se esconde entre piadas e um jeito de ir vencendo os dias graças a risos que não têm por que.

E tosse. E essa letargia, esse estado hipocondríaco que vem com travesseiro, falta de convites para comer fondue e pancadas de chuva à tarde.

É que às vezes acontece isso quando fica inverno: esse frio, esse pulmão congestionado, lenços de papel que vão secando uma porção de lágrimas desordenadas, um medo que só mesmo roupa de flanela, "me dá um beijo então / aperta a minha mão". É que às vezes, com sorte, passa um filme de infância na "Sessão da Tarde".

quarta-feira, junho 03, 2009

Cravo bem temperado

Assim como as mães e os homens, todas as avós devem ser iguais, mas certamente nenhuma se compara com a minha. A minha avó tem um cabelo branquinho mais comestível que algodão-doce e sempre aquela voz de conforto que só as avós sabem ter. A minha avó arregala os olhos quando fica embatucada, porque ela sim sabe bem o que é ficar embatucada. Ela fica intisicada também, e só ela sabe quando alguém fica uma ou outra coisa. Quando eu penso que ela vai dizer que fulano estava embatucado ela diz intisicado e vice-versa. Só a minha avó tem sabedoria e vivência suficientes pra distinguir estados de espírito tão semelhantes.

A minha avó faz doces politicamente incorretos que arrepiariam os cabelos de qualquer americano babaca se entendesse que eles vêm embrulhadinhos um a um e se chamam preto-de-alma-branca. A minha avó certamente iria para a corte. Muito embatucada.

Foi a minha avó que disse que eu deveria passar leite de mamão verde nas perebas da sola do pé. A minha avó é assim: ela tem netas que às vezes pisam onde não deveriam. Então, por causa de minha avó, aqui em casa de manhã todo dia tem gritaria quando o leite de mamão verde encosta na primeira ferida. Eu não fico embatucada nem intisicada porque com a dor que dá só tem um sentimento possível de se sentir: solidão. Eu dou pulinhos até o quarto, coloco o pé pra cima e faço origamis.

Verdade seja dita: eu tento fazer origamis. Origamis combinam muito bem com esse sentimento de solidão profunda que a dor te traz: ninguém, ninguém mesmo, nem sua avó nem sua mãe nem sua irmã podem te ajudar.

Avós podem fazer quantos doces indecorosos forem possíveis, que não vai melhorar a dor. Mães podem dizer quantas vezes forem necessárias pra filhas olharem por onde andam que eventualmente elas vão enfiar o pé na jaca. Irmãs podem dividir o sofá todas as noites para verem juntas a novela que não tem jeito, o pé vai continuar queimando. E nem mesmo as três juntas seriam capazes de decifrar os confusos desenhos do livro de origamis, o que me leva à conclusão de que todos os japoneses devem ser também iguais: não-embatucados, não-intisicados, felizes, tranqüilos e zens com acupuntura, yoga, medicina oriental e avós que lhes ensinam desde cedo a fazer dobraduras, porque só assim mesmo pra conseguir fazer girafas e sapinhos saltitantes.

Quando o embatucamento começa a dar lugar à solidão é que o pé já parou de doer e eu já gastei uns cinco papéis especiais e não consegui fazer um cisne. A minha avó diz ‘não se preocupa, na maciota você consegue’. Então a minha avó faz mais uma demonstração de sua experiência e me aconselha a montar meus origamis com o bisneto dela, um rapazinho de três anos, engraçado e serelepe também conhecido como meu primo. Só que meu primo, eu juro, está mais interessado em escutar óperas. Me dou por vencida: no fim de semana faço uma visita de taxi, caminho manca até o quartinho dele e resignada pergunto: quer ouvir um pouco de Bach?

sexta-feira, maio 29, 2009

Argumento

Eu não sabia
Que virar pelo avesso
Era uma experiência mortal.

Ana Cristina César, Fagulha, dentro de Inéditos e Dispersos.

Toda livraria deveria começar pela sessão de História. Mas assim como todas as outras, essa aqui também tem uma seqüência de prateleiras e corredores que não segue lógica alguma. Dobrando à direita após a Culinária, por exemplo, você chega à Literatura Nacional. Mais à frente ficam os livros de cinema. É a segunda parada, porque geralmente cortamos caminho pela sessão de Design, que é também bastante folheada quando a gente vem tomar café. Tá certo, toda livraria deveria começar pelo café. Comprar um livro sentindo todo o corpo quentinho, com aquele resquício de creme chantilly no fundo do céu da boca. E waffles: comprar um livro depois de ter comido waffles com mel num domingo chuvoso, qualquer orelha ou contra-capa fica com ares de prêmio Nobel, e os filmes dos livros ficam ainda mais clássicos, e alguns mais injustiçados pelo Oscar.

O intervalo no Cinema é seguido por uma espécie de férias, que acontece sempre que chegamos na Poesia: uma prateleira tímida que deveria durar corredores inteiros, que deveriam abrigar sofás e poltronas revestidos por camurças cor de vinho, que deveriam afagar leitores aquecidos por xícaras de chocolates-quentes. O único sofá, porém, fica ali perto da porta da entrada, dando boas vindas aos ventos frios que sopram toda vez que alguém chega aqui.

Perto da gente, sobre nossos joelhos, aterrissam versos e estrofes que nunca vamos comprar. A prateleira de poesia é tão envolvente que resolvemos nunca comprar nenhum daqueles volumes, só pra voltar sempre. A gente opta por se esparramar pelo chão em frente, e resolve colher aos poucos os poemas grudados nas páginas, a cada domingo chuvoso ou sonolento que acorda no fim de tarde com doses de cafeína e açúcar em pacotinho. Escolhemos obras distintas, passeamos pelas folhas até que um de nós comece a falar: sabe, e se eu te contasse que nunca li um livro do Ferreira Gullar? A gente resolve que não é desaforo: tudo bem, eu também não. A gente ri um pouco, olha pros lados, não queremos que ninguém pense que é deboche, não aqui, não a gente, vamos levantar? Só mais esse, peraí, é o que comecei semana passada, é curtinho.

Os livros do Shakespeare estão sempre perto da coleção do Nelson Rodrigues que toda vez eu digo que vou comprar, desde que os meus sumiram na mudança ou foram comidos pelas traças. São pesados e lindos. Os livros, não as histórias. E se eu te disser que não saco nada de Shakespeare? Oras, você não precisa me dizer tudo o que pensa. Mas que tudo bem, cada livro do Shakespeare dessa edição deve valer 3 ou 4 selos no cartão fidelidade.

No caminho até o caixa rodamos o display dos livros de bolso. Ele gira meia volta, pára meio emperrado, a gente descobre que ainda dá tempo, passa por todos os países do mundo e no fim acaba voltando: semana que vem comemos bolo de laranja de sobremesa, tomamos suco pra não entalar e terminamos aquele volume pequeno do Manuel Bandeira se os dois prometerem não revelar pecados na Literatura Estrangeira. Tem dessas coisas, a gente sempre deixa a Poesia com rimas acidentais. E se a gente completar os selos do cartão com Flaubert, de quem também não sabemos muita coisa? Mas e o Shakespeare? Mas e todos os outros? Suspiramos.

A sessão infantil fica do outro lado do caixa. Chama a atenção o colorido, a leveza, os risinhos chacoalhantes que se escutam por ali. Escolhemos aqueles cheios de brincadeiras e sensações táteis onde a língua do cachorro é de veludo, o pêlo do gatinho é de pelúcia e as ondas do mar são de algodão que nem barba de Papai Noel. O banquinho em formato de flor é pequeno demais para nossos 50 anos somados, sorte que somos dois. ‘O rapto das cebolinhas’ era livro ou peça de teatro? E o menino do dedo verde, o que ele fazia mesmo? Eu amava ‘Lúcia já vou indo’, mas quase chorava toda vez. E ‘Marcelo, Marmelo, Martelo’, que tinha o meu nome na capa, que história era essa? E ‘Mamãe Monstrinho’? Será que daqui a muito tempo a gente vai esquecer ‘A Peste’? E se um dia eu não lembrar mais como era ‘Morangos Mofados’? Será que o mundo acaba? E se a gente começar a reler todas essas prateleiras? Abandonamos a poesia, aqui o chão é macio e nunca dói. Mas os infantis ficam fora do caminho, depois do caixa, longe da porta, lado oposto do sofá, nem se vê o Cinema daqui e o cheiro do café não chega. Mas a Poesia fica ao lado da Política. Mas a Literatura Nacional fica bem ali.

Toda livraria deveria começar pela sessão de História, e se a gente trocar de café? Sabe, tem um ali do outro lado da rua, na calçada, sem livraria acoplada, sem sustos ou tropeços, moço, onde fica a auto-ajuda?

domingo, maio 24, 2009

O dia em que eu (não) matei o blog

Então sexta-feira o Carlos disse que o caso do vizinho tinha sido um bom momento no meu blog. O Carlos disse que eu devia escrever mais, ao que eu argumentei que estava sofrendo de falta de assunto. Carlos fez, portanto, o comentário que trouxe à tona o tão falado vizinho, e ele não deve imaginar o que este ato inofensivo de encorajamento a uma blogueira em crise fez com a minha confusa cabeça.

Antes do Carlos, porém, eu já sofria pressões de todos os lados. Começou quando fiz o Gabriel chorar. Fazer o Gabriel chorar é muita responsabilidade, porque eu nunca vi o Gabriel na vida e de repente ele chegou aqui e se emocionou ao saber que eu transformava sussurros ao pé do ouvido, proclamados por um sujeito loiro, em suicídios. Imagina se o Gabriel descobre que há sei lá quantos anos atrás eu escrevia sobre bolinhas-de-queijo? Seria um leitor a menos, na certa.

Houve então a questão do ciúme dos amigos. Depois do texto que escrevi pro Bruno, os amigos clamaram por declarações semelhantes, coisa que nunca se repetiu. Todos se julgavam merecedores de textos e estudos sobre suas adoráveis pessoas, e eu até concordava, mas nada que eu escrevesse sobre eles parecia ser bom o suficiente, eles ainda se ressentiam do Bruno ter abocanhado os melhores parágrafos. A coisa piorou quando eu comecei a romancear conversas que eu tinha com a Carol. A Bebel entrou numa crise tão grave que há três semanas atrás eu era a principal suspeita no caso da morte (por asfixia) do peixe dela, que morava num aquário daqueles de história em quadrinho, muito vintage e assassino sem renovação de ar. Tenho certeza que a acusação foi um reflexo dessas mágoas ainda guardadas.

Até que veio o Omar, roubou um texto pro site da banda dele e indicou o blog para pessoas importantes que ao lerem os parágrafos seguintes vão achar que estão consumindo posts de uma adolescente emo.

O fato é que os sussurros ao pé do ouvido cessaram de tal forma que meu estado civil mudou de solteira pra encalhada e eu nunca mais consegui falar sobre amores ou paixões, e comecei a espalhar a notícia de que atearia fogo ao blogspot. Eu estava decidida, e ninguém me convenceria do contrário, nem o Gabriel me faria mudar de idéia, nem a perspectiva de ser lida por pessoas importantes, nem se eu ganhasse fãs no Orkut, nem por toda bolinha-de-queijo do Jobi eu continuaria escrevendo.

Até que o Carlos veio com essa. O caso do vizinho foi um ponto alto do seu blog, ele disse. Aí eu paniquei. Eu não quero matar um blog cujo ponto alto foi o vizinho. Eu não posso matar um blog cujo ponto alto foi uma história que aconteceu há sei lá quantos meses atrás. Onde foram parar todas as coisas interessantes que eu tinha pra dizer? Cade meu senso de humor que fazia rir gente desavisada que vinha parar nesse http? O que aconteceu que eu não faço mais o Gabriel chorar?

De uns tempos pra cá eu virei essa pessoa estranha que quer obedecer as leis e rebatizar um blog agonizante de Campos de Morangos. Eu me transformei em alguém que deleta seus próprios textos antes deles virarem arquivo de word, e que escuta música clássica nas tardes de segunda-feira com o tio. Eu de repente acordei e era essa pessoa que vira musa na praia numa foto em que só aparece a minha mão e se acha narcisista de te-la, a foto, na parede do quarto. De lá pra cá eu virei uma pessoa comprometida com o cartão fidelidade da livraria que divido com o melhor amigo. Virei uma pessoa que dorme com travesseiro da NASA e que discute o sexo dos anjos no Keb. Eu virei uma pessoa que come no Keb.

Eu virei uma pessoa que precisa ser convencida a não matar seu próprio blog, que precisa ser convencida de que a falta de tinta de cabelo pode ser poética e trágica, de que a falta de amores e paixões pode ser sarcástica, de que suicídios podem acontecer por causa de um livro ou do Bolero de Béjart, mas seria bom se pelo menos um fosse por causa de arrepios provocados por um beijo no pescoço. Eu virei essa pessoa que precisa ser convencida a superar o ponto alto de seu blogspot, que precisa ser convencida a inventar mais tantos conflitos imaginários quanto forem possíveis. Eu virei essa pessoa que precisa ver de novo assunto nas coisas, e que precisa acreditar no potencial de todas as piadas que são contadas e recontadas nas mesas do Baixo Gávea. Eu virei essa pessoa que cansou da análise e agora precisa ser convencida de que costumava ser boa nessas coisas de contar histórias. Eu preciso inventar novos vizinhos, assim em negrito. Eu preciso de alguém que me defenda, e de dois ou três aplausos inteirinhos pra mim, e então prometo: não mato blog nenhum.

segunda-feira, maio 18, 2009

O twitter é aqui

(ou: Pensamentos cruciais de segunda-feira)

16h30
Com soluço. Tomar água de cabeça pra baixo funciona?

16h42
Ainda com soluço. Alguém me dá um susto?

17h00
Meus álbuns de foto estão grudando, será que talco resolve?

18h50
Depois de percorrer 5 farmácias, concluo: minha tinta de cabelo está em falta. Isso sim é grave.

18h59
Ouvindo Secos e Molhados, organizando as fotos de dentro da caixa, que também estão grudando. Haja talco!

19h01
O verme passeia na lua cheia...

19h10
Doces Bárbaros, preparando a invasão.

19h11
Tem cantora melhor que a Bethânia???

19h12
Tudo ainda é tal e qual.

19h24
Cachorro tentando comer meu creme hidratante de mãos.

19h32
Indo jantar.

20h40
Seriously. Cabelos brancos ocupando 1/3 da cabeça.

20h45
Soluço de novo. Como faz?

21h00
Indo pro shopping comprar chapéus.

21h50
Seriously. Quem se importa?

sábado, maio 16, 2009

Novembro

O que acorda o teu desejo deve ser a fermentação do álcool no sangue, e por isso prefiro te encontrar quando os teus níveis de sobriedade são completamente duvidosos. Nessa embriaguez nos amamos sem censura até que venha o dia seguinte, com seus raios de manhã e copos d’água incessantes, uma ressaca que tenta apagar esse sentimento vazio de consumação imediata. Um sussuro quase morto de ‘bom dia’, tão estúpido, prazeres sem depois, os preservativos no lixo, até parece com a gente, fingindo dormir por falta de assunto.

domingo, maio 10, 2009

Air France

Se alguém perguntar por mim diz que ando andando pacas, dentro e fora de estações de metrô que nunca estão onde deveriam. Diz que o único problema por aqui é a minha pele, que não suporta frio e que se rasga e se descola das pernas e do rosto. E o meu tênis, que está tentando me matar. Diz que minhas mãos estão morrendo e que meus olhos ficam encolhidinhos quando venta, e que pingo uma porção de colírio que felizmente os fazem arregalar-se nas horas certas. Diz que ando cometendo todos os pecados possíveis: que saltito pela Rive Gauche, que uso boina no Marais e que suspiro nas escadas rolantes do Pompidou. Diz que ando comendo pães por convicção, e bebendo vinhos por precaução. Diz que atravesso a London Bridge escutando The Smiths (até o ipod é clichê) e embarco no Eurostar cantarolando Rolling Stones. Diz que fico com mania de tirar fotos de crianças de bochechas vermelhas nos Jardins de Luxemburgo. Diz que sento nos cafés de Saint Germain e fico com uma vontade louca de escrever alguma coisa, nem que seja qualquer coisa, um postal, um diário, uma página pequenina do caderninho amarelo que divide a bolsa com a câmera. Diz que ando apaixonada pelo Capitão Haddock. Diz que desisti de usar os mapas que comprei ou as lentes de contato, aqui os óculos combinam. Diz que quase choro quando entro na Saint Sulpice e tem missa de domingo. Diz que começo a acreditar de novo nessa fé irracional que me faz acender vela na igreja medieval, que me faz achar graça em fila e nos preços em euros. Diz que até a Beatriz Milhazes passou a fazer sentido pra mim. Se alguém perguntar por mim, diz que piso em poças, atravesso pontes e olho para os canais de Veneza pensando em Charles Aznavour: adieu Pont des Soupirs, adieu rêves perdus*. Diz que encho as malas de máscaras enfeitadas e souvenirs cafonas que vão entulhar ainda mais as estantes. Diz que me desapeguei de revistas e de telefones, e que me divirto tanto sem poder ser encontrada. Diz que pouco importa se não entendo muito do que dizem no filme, e que não quero voltar, não agora, não ainda. Diz também que ando comprando cadernos, muitos, de todas as cores e tamanhos, e que por isso faço planos para escrevê-los, pode ser no meu quarto mesmo, pode ser na esquina da Rue de Rennes, pode ser no terraço de uma casinha branca em Santorini.

* Que c'est triste Venise, na voz de Aznavour.

sexta-feira, abril 03, 2009

E-mail

(enviado há 10 minutos, ainda sem resposta)

::

Hoje vi um pedaço da novela das Índias, isso acontece pela terceira ou quarta vez, e todo capítulo é batata: os indianos estão em suas casas na sala, conversando e de repente outros membros da família vão descendo as escadas e todos começam a dançar. A Laura Cardoso fica sentada na sua poltrona dançando com os braços, as crianças dançam sorrindo, as mulheres dançam sorrindo, até o Caio Blat dança sorrindo!, a Juliana Paes começa seus passos e mexe aqueles olhos esbugalhados pra lá e pra cá (e dá muita aflição), e então o Raj (não sei o nome do ator) aparece com aquela roupa de colonizador inglês pós-Nicolas Gesquière para Balenciaga e se esforça muito pra sorrir e encarar tudo com normalidade e entra na dança, literalmente. Então ficam todos assim, dançando loucamente como se não houvesse amanhã, com uma música nas alturas que ninguém sabe muito bem de onde vem.

me pergunto se no próximo jantar em sua residência devemos todos, do nada (porque é sempre do nada, tipo: ei, me passa um brigadeiro? e aí todos começam a dançar) começar a sambar ensandecidamente até o sol raiar.

digo isso por que você já foi à Índia, pode elucidar essa questão?

de qualquer forma, o Xexéo já deve ter comentado sobre o caso em alguma de suas colunas. De qualquer forma, também, baixei sambas diversos, só pra garantir. E por último, de qualquer forma, vai ver nem é tão bizarro assim, vai ver isso é coisa de gente que não consegue entender pra que diabos serve um twitter.

segunda-feira, março 23, 2009

Your skin makes me cry *

Deixe que eu pense que você é do jeito exato que já conheço e que escorre bem para os menores cantos do molde que construí: deixe que eu saiba, como um cego, onde piso e onde pouso minhas mãos: deixe que eu ache que você é de um tamanho previsível, sem alardes: deixe que eu adivinhe o machucado do tombo que vou tomar: deixe que eu decida o que é cilada ou não: deixe que eu pense que armadilha é fazer seu jogo: deixe que eu resolva que é o contrário: deixe que eu possa te catalogar e te resolver em um minuto: e te imaginar com cheiros e deslizes que eu já sei: deixe que eu calcule a hora certa para ceder aos seus apelos: deixe que eu te saiba tão bem que não te precise, mas que eu te queira mesmo assim: deixe que eu te queira: deixe que eu te invente e te conduza pro final que eu escrevi: deixe que eu me dê como inventário pros seus olhos: deixe que eu me exiba como vitrine pros seus braços: deixe que eu te preencha um pouco: deixe de lado essa mania de ser tão como eu imagino que você seja: ande querido, já está na hora: venha logo: deixe que eu me surpreenda.

* So fucking special.

Radiohead em Creep.

terça-feira, março 17, 2009

Antes de dormir:

Segunda-feira só faz sentido depois que vejo o novo capítulo da série; perdi a vontade de ir àquele show, deve ser porque comprei o ingresso há tanto tempo que esqueci; me dá uma vontade de ser mulherzinha toda vez que passo creme no nariz; o relógio faz um barulho danado dos ponteiros e fico aflita enquanto não durmo, ou enquanto não acordo totalmente; o carro parece que sossegou desde que ficou todo amassado do lado direito; estou aprendendo a emprestar livros; não sei como se pede desculpas; uma pilha de revistas foi pro lixo; telecine light me vicia, por pior que sejam os filmes; acho que pedi ajuda esses dias, mais de uma vez; fico lendo um livro de 500 páginas achando que nunca vou chegar ao fim, mas já cheguei na metade; sou ecologicamente correta no super mercado e não gasto sacolas plásticas; minha máquina de fabricar água pifou, oh céus!; meu saldo bancário me odeia, e é inversamente proporcional ao meu caso de amor com a Zara; eu sei, são só besteiras; não sei o que fazer com todos os cartões postais que não tenho onde exibir; fico já antecipando as roupas que vou levar na viagem, mesmo que ainda falte um mês e eu não tenha casacos; José Luis Peixoto me fez chorar no meio do carnaval e foi por isso que meu celular se afogou na praia, porque preferi salvar o livro; tenho uma queda por dicionários antigos, daqueles que cheiram a velhice e cuja ortografia é duvidosa; ando militando a favor de suco de uva; ando acordando com o cabelo igual ao do Bozo, todo pro lado, um horror!; ando com vontade de escutar Lenny Kravitz cantando “baby it ain’t over til it’s over” só porque eu concordo totalmente, mas como é que faz pra saber que acabou?; tento matar umas pessoas, mas elas parecem ter sete vidas; são sete dias que se emendam em muito mais que sete horas de sono por noite; será que depressão dura uma semana só?; e será que é muito grave nunca ter ido a um concerto de música clássica?; a oftalmologista começou a me explicar a operação dos olhos e eu quase vomitei em cima dela de nervoso, eu não precisava de tantos detalhes assim, oras!; e aí perdi os óculos de sol dentro do carro, vê se pode; e pode fingir que ta tudo bem quando se morre de dor no pescoço?; e é possível gostar de alguma coisa quando alguém do seu lado na platéia não para de tossir?; às vezes eu lembro de uma vez que eu tinha uma estagiária e eu não tinha a mais vaga idéia do que fazer com ela, e agora eu estou que nem aquela música “I Just don’t know what to do with myself”; tanto clichê...; preciso estudar francês; sinto uma saudade tremenda da cadela da minha professora de francês, por mais estranha que seja essa frase; o protetor labial não impede que eu continue comendo a boca toda, o protetor solar não impede que às vezes descasquem as costas e essa proteção idiota que eu inventei contra as pessoas não impede que eu me desmantele toda de vez em quando, uma vez por dia, por não conseguir mais me desmantelar com elas; o som está com dificuldades para fazer os CDs tocarem; roubaram a bolsa da Jandira Fegali na Casa de Cultura Laura Alvim; a Casa da Gávea vai fechar; dizem que a Maria Bonita está falindo; esses amores platônicos perdem a graça tão rápido; não agüento mais escutar: crise, recessão, Barack Obama; e o Collor, alguém me explica?; é, eu sei, não entendo nada mesmo; detesto todos os colunistas do Globo, concluí com a Bebel; e esse sono que não me faz dormir?; meu joanete está crescendo e eu não sei o porquê; quantos baianos você conhece? Eu só conheço um, e foi sem querer; Toni me pega no colo toda vez que me encontra, mesmo que eu seja enorme; agora já chega, preciso dormir, amanhã acordo de novo ao meio-dia e nunca acerto o horário, fico bocejando até o pôr-do-sol; tenho que ligar pro despachante amanhã, sem falta; e o sono, meu deus, e o sono?; leio mais 10 páginas, só esse capítulo, ou tomo logo um remédio, daqui a pouco não consigo mais, agora já chega, jogo só mais uma partida de Tetris, busco água pro comprimido, desabo desmilinguida na cama antes que você me invada a cabeça outra vez.

:: "Sua enorme inteligência compreensiva, aquele seu coração vazio de mim que precisa que eu seja admirável para poder me admirar. Minha grande altivez: prefiro ser achada na rua. Do que neste fictício palácio onde não me acharão porque - porque mando dizer que não estou, 'ela acabou de sair'." Clarice Lispector em Para Não Esquecer

sábado, março 14, 2009

Carta a M.

Meu mais querido,

Eu começaria essa carta com um longo “aaahhh” muito suspirado que te faria entender metade das coisas – a preguiça de mais um sábado, a lentidão depois de quatro caipirinhas, a vontade de ficar na cama me espreguiçando e acordando repetidamente.

Sonhei que falávamos italiano, e com as mãos. Sei que o seu tempo anda inversamente proporcional ao meu, não se preocupe, são coisas breves e fundamentais que tenho que te dizer.

Despencou uma chuva por aqui, depois de muitos dias secos, a cidade ficou com aquele jeito escorregadio e abafado de março, foi impossível não cantarolar “É a chuva chovendo, é conversa ribeira / Das águas de março, é o fim da canseira”.

Ontem falei tanto que acho até que emagreci, ou que fiquei mais bonita. E hoje falei mais ainda, no fim do dia entendi o cachorro com sua língua pra fora, devorei garrafas d’água e pus música instrumental bem alta, mas então o próximo cd no som começou, Elizeth cantava tão lindo “Ah seu eu te pudesse fazer entender...” Às vezes acho que posso fazer qualquer um entender, e a conversa desatada de ontem foi porque encontrei alguém que, ufa!, me passou atestado de normalidade: ela sentia tudo igual. Achei que íamos nos desabotoar em choro. É claro que terminamos a noite num abraço cheio de risadas. Meio nervosas. Tipo aquelas. Você sabe.

A pele das minhas pernas descasca de tão seca, estou providenciando o conserto. Voltei a usar lentes, mas no dia seguinte é batata, fico de ressaca e não posso ver nem quadro de Van Gogh na frente. Acho que meu cabelo está morrendo. E meu braço parece catapora de tanto mosquito que anda me mordendo. A rima foi acidental. É, talvez eu não tenha ficado mais bonita coisa nenhuma. E não me arrisco a dizer que fiquei mais leve, porque posso confundir tudo e na verdade acho que eu fiquei é mais murcha. É que depois de tanta conversa e análise, ainda ficou aquela abstração que a gente guarda, entende? Nada fica apaziguado... Então as risadas nervosas. Entrei no carro e não sabia nem que música escutar. Coloquei Unfinished Sympathy. Não é hipnotizante a voz dela? Fico alucinada.

Fui ver Bruno Cezario de novo, e me encantei de novo, e sonhei com os pés dele de novo e de novo e de novo e sim, é verdade, voltei a dançar. Sinto que meu corpo está me dando trégua e que está disposto a reajustes. É uma conquista, não sei até quando aguenta. Daqui a uns anos vou precisar de mais RPG.

Você acredita que três bailarinas dançaram ao som da voz de Gabriel Garcia Marquez lendo uma parte do primeiro capítulo de Cem Anos de Solidão? “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” Comecei a reler. No fim todo mundo aplaudiu de pé, gritando “Bravo!”, foi o número mais bonito da noite. Se eu fosse um pouco cafona diria que foi mágico. Mas sabe, foi mágico mesmo.

Não me acostumo a ler estreia ou a ter ideia sem acento.
Continuo assassinando borboletas no banho. Não é culpa minha. Elas invadem o box, e são tão pequenas que acabam se afogando com os respingos que sobram pros lados. É uma catástrofe, eu sei. Mas são elas que ocupam o espaço. Outro dia apareceu um vaga-lume por aqui. O cachorro achou estranhíssimo. Ele brilhava tanto que nem sei. Me deu vontade de pique-esconde. Ou piquenique. Ou qualquer outra dessas coisas que eu sempre fazia em Penedo. Concurso de mergulhos. Brincadeira de estátua. "Mamãe posso ir?" Penedo era cheio de vaga-lumes. À noite, antes de dormir, ouço grilos lá fora. Não tenho certeza de que moro mesmo no Rio.
Bruno, o outro, voltou cheio de saudades. Ele está de barba e óculos. Mas isso é só pra você ficar com ciúme.

Assei biscoitos na casa de Maíra. Ela agora tem uma cadeira de balanço na cozinha, o que é perfeito para formar a massa do biscoito e fazer bolinhas. Ouvíamos a MPB FM e acho que foi por isso que os biscoitos ficaram meio estranhos. Ou por causa do forno que teimava em assar mais uma parte do tabuleiro que outra. A Maíra adorou os biscoitos. Mas é só porque ela não sabe que eles podem ser bem melhores.

Ando tentando gostar de muitas coisas esses dias, mas sabe o que me deixa realmente contente? Essas trocas que a gente faz, como aquele domingo de conversas em que nós funcionamos e rimos. Como a praia de hoje com ameaça de chuva e jornal compartilhado. Como a noite de ontem em que fomos sutilmente expulsas de dois restaurantes, como quando as coisas só terminam porque não têm mais pra onde ir. Tudo isso que pode se converter em inspiração, antes mesmo que a gente entenda. Parece que faz sempre sol assim.

A parte da música que mais gosto é essa “É o projeto da casa, é o corpo na cama, é o carro enguiçado, é a lama, é a lama.” Eu nunca sei se coloco ponto final depois ou antes das aspas.

Continuo recebendo mensagens que começam com “Vanessa...” e não sei como dizer que é engano. Continuo sem resposta de um email que enviei pra outra pessoa. Mas acho que a falta de uma já é tudo o que preciso. Mesmo assim dói. Acho que eu inventei tantas coisas pra mim e pra ele que acabei esquecendo de inventar um final. A gente sempre quer que as pessoas sejam diferentes do que de fato são. Algumas. Você pode ficar igual. Eu pretendo mudar algumas coisas. As pernas, por exemplo. E não falo só de hidratação. De caminhos também.

Pre-ci-so trabalhar. Estou considerando qualquer área que não seja: medicina, engenharia, odontologia. E direito. O que mais tem me tentado ultimamente é fugir com o circo.

Meu pescoço começa a falhar. Já são quase 11, estou metida numa daquelas camisetas velhas e desbotadas e gigantes. Não recusei convites para chopes porque desliguei o telefone. A única coisa que eu faria hoje seria me apaixonar. Ou receber massagem.

Me conte alguma coisa.

Sua mãe está linda no jornal!
beijos enormes e muitos,

terça-feira, março 10, 2009

Grand jeté

Eu acho que os bailarinos são deuses que suspendem suas respirações às vezes, para nos abençoarem durante o tempo em que dão suas piruetas, e acho que depois das apresentações eles sentam num banquinho, bebem uma garrafa d’água e choram. Muito, choram muito, porque sabem o esforço que têm que fazer, sabem que depois de dançar eles dividem tudo o que guardavam, sabem que distribuem para os outros as suas melhores partes, e as piores também, sabem que o suor é enxurrada, sabem que os aplausos são catarses e amor, e um pouco de inveja. Eles sabem que os aplausos são desejos.

Eu acho que as pessoas que aplaudem os bailarinos entram em seus carros e até se esquecem de ligar a música, e dirigem com calma. Acho que as pessoas-platéia chegam em suas casas, abrem uma garrafa de vinho e tiram os sapatos enquanto se acomodam na poltrona e choram. Muito, choram muito, porque sabem o esforço que têm que fazer para não se desfazerem depois, porque conseguem entender que durante os minutos em que os bailarinos estão no palco elas só precisam gostar deles e olhar para eles e usar de seu egoísmo para com o resto de tudo o que acontece. Elas aplaudem porque precisam da catarse, desejam o amor. Elas sabem que os aplausos são levezas.

Eu acho que quem fica no meio do caminho, quem assiste e depois arrisca seus passos, quem risca os pés pelo chão e depois aplaude, acho que essas pessoas conseguem ter o maravilhamento que a platéia tem, e ao mesmo tempo conseguem o esvaziamento que os bailarinos fazem. Eu acho que essas pessoas, ao fim do espetáculo, entram no carro e não sabem pra onde ir. Eu acho que essas pessoas, ao fim da aula, enxugam o suor e sabem que estão prontas pra se preencherem de novo, de tantas formas e sensações, e não sabem exatamente quais. Elas chegam em casa, abrem o jornal e choram. Muito, choram muito.

E se tudo acabar, pra onde vão os aplausos?



:: "Dei um salão aos meus pensamentos! (...) Ri! Quem foi que disse que não vivo satisfeito? Eu danço!" Mario de Andrade


(a capa do Segundo Caderno do Globo de hoje, ou ontem - 2a feira 09/03 - me deprimiu).

sexta-feira, março 06, 2009

Das coisas

Do amor

Alguém munido de uma poltrona e boas mãos oferece cafuné na praia de Ipanema a módicos preços; no fim da aula de gyrotonic (ou o que quer que seja) eu deito a cabeça num travesseiro durinho que faz massagem no pescoço quando acionado; no meio da aula de dança contemporânea o professor coça as costas com movimentos precisos para relaxar os músculos; no final da sessão de massagem a Ana faz gato e sapato das minhas orelhas e traça caminhos no meu rosto que eu nem sabia; além de me dar um beijo na testa e me deixar sozinha, barulho de água na sala escura, cobertor quentinho, abraço de cânfora.

Do calor

Passar protetor solar nas costas, pernas, braços, barriga e cara dá um calor desgraçado, sua pra caramba de modo que o mar é o único destino possível, mas a água está morna de tanto sol; a orla da Barra parece sacanagem, com degradé de turquesas e cheia de ameaças às pessoas que trabalham, e cheia de ternura com quem não tem muito o que fazer, oferecendo um mar que deixa qualquer um carente depois; até o banho não tem sido tão gelado quanto deveria; o cachorro sofre e pendura a língua entre os dentes num arfar constante que me mata de dó, mas não adianta que ele não gosta do ar; alguém ainda usa chinelos, ou todo mundo só usa Havaianas?; um mergulho que não arda os olhos está no topo da minha wishlist.

De nós

Os grampos embaralham um pouco o que sobrou dos cabelos; as coisas na varanda secam umas por cima das outras com cuidado pra não manchar; a única coisa que não se confunde são as revistas que li, porque são todas iguais.

Da pele

Fica no repeat a música, como fica a minha cabeça, pensando e repisando e refazendo cada uma das palavras, não só as da canção, as tuas também. Por fim, penso que faltou uma frase naquela carta. Por fim, penso que outras pessoas precisam conhecer a cantora, talvez funcione pra mais alguém como funciona pra mim.

Te amo, pode ser?


::
A tua ausência me causou um caos
No breu de hoje sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal


Maria Gadu in www.myspace.com/mariagadu , dica da Maíra.