quarta-feira, fevereiro 27, 2008

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Xadrez

Eu tropeço, você me ampara. Eu agradeço enquanto me esforço em parecer normal e não deixar frestas mas é sempre tarde e antes de me dar conta já estou enredada nas suas gracinhas. Você me faz um elogio qualquer, eu rio sarcástica. Você se apressa em apontar minha ironia, eu acentuo cada detalhe dela. A mesa está montada. Você logo assume seu lugar de vítima e começa o discurso de coitadinho e, mais rápido que eu, não deixa tempo pra inverter. Em menos de minutos os papéis estão definidos, tabuleiro pronto. Você me alfineta e eu devolvo, você me irrita e eu caio. Eu sempre seu algoz que te destrata, você sempre meu menino ressentido e nessa ciranda de clichês vamos dançando sem dar trégua. Eu dou um passo pra fora e você, rude, me arrasta de volta e na segunda tentativa de fuga eu já me demoro de propósito só para atestar que você não se antecipa, calculando a próxima rodada. Eu me desfaço em carinhos para pôr fim ao jogo e você ri na sua poltrona com desdém. Eu te digo desaforos, você me grita, eu sempre insensível e repelente, você se vendendo de bonzinho e quando num deslize ou num cansaço a gente esquece a fala, à tona vem um diálogo de silêncios, o meu rosto que sempre vira, a sua mão que nunca alcança. Seguimos jogando por horas, alternando charme e acusações, envolvidos numa teia de performances e ensaios, de frases feitas e coisas tão antigas e a partida termina sempre sem cheque-mate, sempre sem desmentir a farsa.

Eu tropeço, e nunca sei se é você que põe o pé na minha frente ou se sou eu.

:: "Pense uma vez sequer, Paula, na tua estranha atração por este 'velho obscurantista', nos frêmitos roxos da tua carne, nessa tua obsessão pelo meu corpo, e, depois, nas prateleiras onde você arrumou com criterioso zelo todos os teus conceitos, encontre um lugar também para esta tua paixão, rejeitada na vida."
Raduan Nassar no conto "O Ventre Seco" in Menina a Caminho

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Se ela soubesse

Sentada na mesa esperando o almoço sozinha, conversando com o garfo, mor-ren-do de saudades de um amigo que promete que vai te ligar, mor-ren-do mais ainda de vontade de perguntar pra ele se aquele outro afinal..., torcendo pra que ele responda que não, ou que sim, tanto faz, já passou, mas passou mesmo?, e cai a faca no chão fazendo um estardalhaço, não importa, o que importa mesmo é que tem menos de um mês de ballet e você se convence de que esqueceu a sapatilha em casa sem querer e por isso não pode ir à aula, como chove em janeiro, eu achava que era março, fevereiro chegando e a desculpa da sapatilha, qual vai ser a próxima?, todo mundo falando de carnaval, os blocos nas ruas e você comendo trufas na torre do Rio Sul, entendendo mais um pouco sobre cores que eu não sei o nome, um monte de pinturas que se parecem com você e nenhum tesão pra começar a ler Saramago, nenhum tesão, ponto., aquela cadeira antiga no brechó, o botão do vestido para pregar, a dedicatória nos livros e a foto na página vinte e sete, você posando de musa e ele sumindo no mundo, a única pessoa que poderia te resgatar, todo esse cuidado com a pele e todo mundo viajando e se amando e ele nunca atende o telefone quando você precisa de colo, a mala ainda no chão esperando para ser desfeita, a explicação que nunca vem, a dor de cabeça que nunca passa, ela fingindo que não liga, tentando ligar, tentando dormir, tentando culpá-lo ainda, os dois, os três, os sapatos enfileirados na varanda, o cão não gosta mais de subir na sua cama, aquele livro que ficou pela metade, um fim de semana do outro lado da ponte aérea, o tombo da outra, a risada da outra, a saudade que ela se deu conta que tinha, a felicidade de poder saciar, a tristeza de não poder conversar com o seu criador, se tivesse sido mais ousada como ele disse, se tivessem dado aquela festa, se aquele outro tivesse ficado, o perfume novo que ele não reconheceria, e como é que se consegue uma locadora de filmes decente?, todos os versos que um outro escreveu, a lente que no fim do dia resseca, o mesmo trajeto todas as manhãs, falta de apetite, mas tenho que comer, o casal da mesa ao lado conversando, ainda bem!, aquele filme no cinema Leblon e ele de sobretudo, o sapato machucando o joanete, outra desculpa, o telefone da outra escola de dança, uma certa misantropia blasé, tudo fachada, acabam acreditando, ele mesmo achava que eu era punk-metaleira, os sonhos dos dentes que se repetem, está na hora de voltar pra análise, você não pode passar a vida fugindo, e toda essa abstração, o barulho começa a fazer sentido de novo, os garçons, o suco de abacaxi que vai ficando concentrado no fundo do copo, um aceno, e aquele escritório gelado, todas as estampas penduradas e você tentando combinar azul com roxo, entre por essa porta agora e diga que me adora você tem meia hora, como rimam algumas coisas, como doem outras, o taxi de volta, caminho de sempre, aquela música deprimente no rádio, deixar de lado essas bobagens, os dias passaram, ele se mudou, guardar o recibo pra pedir reembolso, guardar sua cara pra sorrir de vez em quando, guardar um pouco de veneno pra te matar de vez, semana que vem, sem falta.

:: Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
(...)
Ah, que não seja o meu
O mundo onde o amor morreu

Vinícius e Baden em Tempo de Amor

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ladeira abaixo

Começar o Carnaval indo a bloco matutino em Santa Teresa é fazer a matemática inversa: você paga os pecados antes.

A escadaria é quase penitência, a fantasia não resiste à segunda ladeira e quando você finalmente consegue alcançar o bloco, está tão exausto que quer ir embora. Entre descer ladeiras e escadarias tudo de novo e seguir um pouco os foliões, a segunda alternativa vence, e embalado por marchinhas que você sequer distingue de tão morto, se embrenha em meio a pessoas muito, muito suadas. Mas se chegamos até aqui e é fevereiro, sigamos em frente.

Você escuta o seu amigo dizer que daria seu reino por uma água, que parece ser artigo de luxo, arriscam-se na cerveja, quente, e todo o resto é quente, sol a pino, homens sem
camisa, você tira a peruca e é pena que não pode tirar também os cabelos.

Em meio a tantas pessoas, não há pra onde fugir. Pierrots lambendo colombinas, confetes e purpurinas grudados, roupas idem, os dedos enrugados de suor, por que mesmo que a gente gosta disso?, grupos fantasiados que te dão esperança de que alguma coisa ainda pode ser engraçada, mas não tem jeito, o bloco se vai, você fica pra trás se revezando no banho de mangueira que um solidário e politicamente incorreto morador do bairro oferece à horda de foliões que parecem vindos de uma caravana do deserto. Alala-ô nunca fez tanto sentido e provavelmente foi escrita por alguém que teve a visão do futuro (ou do inferno?): bloco de rua em Santa Teresa às 10 da manhã de um sábado de fevereiro no Rio. Quem foi que nos sacaneou assim?


Lá pelas tantas, sentados no meio fio de uma ruazinha que parece ter aparecido para salva-los da morte por esmagamento, a mensagem de uma amiga que diz ter perdido-se do bloco. àquela altura, perdida também, eu não pretendia mais encontrá-lo...


Na volta, marchinhas na ponta da língua, mas não tem jeito: Aurora parece ser o grande hit de Momo. Na dúvida, ôô-ôô.

Almoço, banho e parte da dignidade está recuperada, mas ainda é cedo pra arriscar-se de novo, além do mais domingo às nove você precisa estar na Praça XV.

Amanhece chovendo, mas não há nada que impeça o Boitatá de sair, e sob a máxima do faça chuva ou faça sol, você entra no táxi e dá a ordem, se a canoa não virar eu chego lá. é um lugar onde chove torrencialmente, os amigos dos amigos vestidos de arca de Noé gritam “dilúvio!” , a venda de capas de chuva é maior que a de cerveja e você começa a rezar pra não ser acometido por leptospirose ou semelhantes. As pessoas brincando na praça alheias aos pingos que não dão trégua, e não há arlequim que me convença. Eu sou brasileira mas tenho um pezinho na Europa e desisto às vezes.

Meu carnaval encerrou-se prematuramente no domingo na sala quentinha com piano de uma amiga xará, me preparando para a dengue ou a pneumonia. Cervejas, prosecco, fotos dos amigos, conversas e um ipod cheio de Zero 7, Gotan Project e afins, nada que me lembrasse a horda de malucos atrás de máscaras pulando por aí em blocos, animados, felizes.

Dentro de um casaco de lã, meias e com xícara de chá em punho, a segunda de carnaval parecia pra mim a quarta-feira de cinzas, a chuva continuou caindo, seja o que deus quiser. Ano que vem tem mais e sempre bate uma loucura qualquer nessa época.

Porque só mesmo um pouco insano pra gostar dessa coisa não-higiênica que é o Carnaval.




:: ouvindo The Rolling Stones da casa do vizinho, sentindo saudades das pessoas do Carnaval de 2006!

quarta-feira, janeiro 30, 2008

*

Nos idos dos anos 90 a M.Officer lançou uma campanha cujo slogan era “beije o mundo”. Nas páginas da Capricho e nas camisetas vendidas nas lojas o que se via era uma imagem de figuras se beijando, pinceladas, coloridas e absolutamente apaixonantes.

Próximo aos anos zero eu descobri que uma das melhores amigas que tenho era filha do cara que pintava os beijos, os carros, as bicicletas e tantas outras. Esculturas, palavras, cada ida à casa dela, os livros, as exposições e era muita sorte estar próxima do homem que pintava beijos que eu tanto gostava.

Em 2006 eu virei uma figura semelhante às moças dos beijos, e era tão mais sorte ainda ter virado imagem do artista que eu tanto admirava, ter as fotos que ele fez e o meu rosto desenhado em papéis.


Em 2007 eu fui parar num de seus livros.


Em 2008, o Simpatia é Quase Amor desfilou camisetas semelhantes às da M.Officer em seu carnaval, mais uma vez o beijo pincelado estampado.

Em 2008 também, soube que ele não mais pintaria suas tão queridas séries de beijos.


Antes disso tudo, em 1978 após o incêndio no MAM do Rio a palavra “LUTE” ficou impressa numa das paredes do museu. “LUTE” fazia parte da “Cartilha do Superlativo” e era uma escultura do mesmo artista. A obra foi restaurada e integrada ao acervo do museu.


E mais do que isso seria tão difícil de contar.







domingo, janeiro 27, 2008

Arabia

Eu tinha acabado de ler um livro que eu achava que estava adorando, até a história toda dar uma amalucada e eu não entender mais nada, mas foi tão não entendido que eu nem podia pedir ajuda ou pesquisar qualquer coisa no google sobre o livro.

Então saímos para jantar, eu não sabia em que bairro estava porque eu não conseguia entender direito os limites daquela cidade onde as coisas não terminavam pra que outras começassem, ahaha, como era metafórico.

E então quando a conversa ia amena começou um papo sobre o sujeito de 30 ou 31 anos, talvez 34, que trabalhava no Societé General e fez um rombo e o economista da mesa explicou a todos algumas manobras do FMI e das bolsas e dos futuros e eu que já não estava esperta, sem entender literatura e delimitações geográficas, fiquei ainda mais burra naquele jantar.

Sem entender patavinas, entregue ao tabule, prestei atenção o máximo que pude, queria recuperar minha inteligência, moldada anos em colégio de padre.

Um bom samaritano sentado à mesa explicou como começou esse mundo de especulações usando exemplos simples de como os agricultores garantiam o preço de venda de seus produtos, evitando assim quebrarem caso houvesse um ataque de gafanhotos às plantações.

Eu que já estava burra e entediada concluí que essa gente do mercado financeiro se especializa em especular coisas e achei uma absoluta falta do que fazer que essa gente enriqueça loucamente enquanto metade do mundo está se matando.

Então eu concluí que além de burra e entediada eu estava também engraçada porque a minha conclusão gerou risos na mesa. Não sei se foram de solidariedade ou pena. Só sei que não fui eu quem dividiu a conta do restaurante, e certamente não serei a próxima milionária do grupo.

Terminei o jantar com o consolo de ainda conseguir fazer rir quem precisa.


:: "Descemos do ônibus pisando em poças de lama, subimos devagar as escadas (...) e lembrei que precisava achar um lugar para morar dentro de nove dias, agora oito (...) e que eu estava cansado de ser pago para guardar minha loucura no bolso oito horas por dia (...) e quis morrer, e lembrei que não conseguiria, e quis te dizer de como era bom que a gente tivesse se encontrado, assim, sem pedir, sem esperar, e soube que não saberia..."

Caio F. , O Dia de Ontem in O Ovo Apunhalado

quarta-feira, janeiro 23, 2008

A aula de ballet tem uma hora e quinze minutos. A de francês, duas horas. O almoço quase nunca dura uma hora, no máximo 20 minutos e as conversas diárias ao telefone com a Lena são sempre o mais abreviadas possível. Os banhos variam de dez a quinze minutos, sempre com certo peso por gastar tanta água. Os trajetos no Rio, nunca se sabe, depende da chuva, do sol, do humor.

É possível cronometrar o último filme que vi e marcar no calendário quanto tempo falta para as férias.

Mas pra me conformar com a partida inexplicavelmente precoce das pessoas, quanto tempo leva?

sábado, janeiro 05, 2008

01-08

Chega o momento na vida em que a pessoa começa a crer no que prega “O Segredo” e dá até mesmo trégua para o sujeito do Feng-shui. Tudo bem que é Janeiro e o clima nessa época é de renovação, o que dá margem para novas crenças e esperanças, deixando qualquer um propenso à evangelização. Janeiro é o mês em que todos estamos frágeis, fazendo um balanço do ano que passou e apostando fichas nos meses que seguem, como se a mudança de ano tivesse um poder invencível de transformar tudo.

E então, dizem, é preciso fazer uma lista por escrito dos desejos para o novo ano e imediatamente esquecê-la e não perder o sono pensando no que escreveu.

Aí é dia 4, faz muito, muito calor mesmo, a pessoa se dá conta de que não viverá tempo suficiente para pular o próximo carnaval e cumpre uma parte do que ensina “O Segredo”: esquece toda a lista de desejos, almoça junkie e fuma um cigarro.


:: Sharon Jones & The Dap Kings

sexta-feira, dezembro 28, 2007

(pequeno desvario de fim de ano)

"Ao fazê-lo, ele dava voz a sua discordância em relação à teoria do engajamento de seu amigo."
(Camus e Sartre - O polêmico fim de uma amizade no pós-guerra, Ronald Aronson, pág 161)

Continuando a brincadeira da Ana .

Se fosse a segunda frase do Prólogo seria: "Meu caro Camus: nossa amizade não era fácil, mas sentirei falta dela."

Se fosse outro livro a frase poderia ser bem mais interessante. Mas num escritório de lingerie no dia 28 de dezembro às 17:04 o único disponível era esse que estava na minha bolsa.

Eu me apaixonei por Camus no começo do ano. Foi com ele que traí Caio Fernando Abreu pela primeira vez. Mas não espalha.

domingo, dezembro 23, 2007

The end

Eu comecei a escrever textos para o fim de ano e depois de algumas semanas tentando resolvi desistir.

Eu ia contar de forma engraçada todas as maluquices do ano e de como uma lógica ao contrário e sacana se abateu sobre quase tudo.

Eu ia citar vários episódios, ia transformar tudo em histórias engraçadas. Mas depois de tantas confusões e correrias e de um dia inteiro dormindo eu lembrei de um sujeito que um dia disse “adoro seu blog de frases curtas em primeira pessoa”.

Então eu pensei que não tinha nenhuma novidade pra contar e mesmo que tivesse... os dias deste ano que se encerra foram tão caóticos que é preciso primeiro digeri-los para poder escrevê-los.

A única coisa que posso contar é que em meio ao caos que se instalou nas semanas de dezembro eu ainda arranjei um motivo pra achar que algumas experiências devem ser repassadas ao mundo.

Era tarde de alguma noite estressada e quando finalmente tirei os sapatos para dormir o celular apitou uma mensagem. O texto era uma frase curta em primeira pessoa: eu te amo. Demorou alguns dias para que eu resolvesse porque na verdade a mensagem era nitidamente engano. Pensei, pensei, reli o último post onde eu redescobria que o amor é realmente cego e finalmente respondi: eu te amo também.

Desliguei o abajur, virei pro lado e dormi, feliz por ter um novo amor!



:: o7's top 5 - Hairspray, Camus, Cordão do Boitatá, amigos lançando discos, a cura da coluna.

domingo, novembro 25, 2007

O dia em que o Béjart morreu

O dia em que o Béjart morreu foi o mesmo em que eu descobri que o ascensorista do prédio onde eu trabalho me ama. Nenhuma das duas informações foi fácil de descobrir e ambas poderiam ter passado despercebidas, não fossem algumas evidências que ocorreram antes mesmo que eu pudesse pensar em Béjart e ascensoristas de elevador de prédios onde eu trabalho.

O dia em que eu tomei conhecimento da existência do Béjart foi o mesmo dia em que eu tomei conhecimento da Lia Rodrigues e sua companhia de dança. Isso rendeu um post inteiro. E também rendeu, logo após a performance, uma conversa ao telefone com o Marcelo, que falou do Béjart. O Béjart não significava nada para mim até o exato momento em que o Marcelo, um pouco exaltado, perguntou como quem coloca muitas exclamações após a interrogação: VOCÊ NÃO CONHECE O BÉJART?!!!!!!! , e ele deve ter falado desse mesmo jeito, em caixa alta e negrito. Precisou eu ver Lia Rodrigues, comentar com o Marcelo, o Marcelo ficar decepcionado porque eu não conhecia Béjart, ver os videos do youtube enviados por ele, dar uma lida na Wikipedia e em sites de dança e ter a pergunta esfregada na minha cara repetidamente. A frase em caixa alta e negrito com exclamações VOCÊ NÃO CONHECE O BÉJART?!!!! ecoou na minha cabeça durante dias, e nem mesmo a minha tentativa de igualar meus conhecimentos de dança com o Marcelo me livraram da frustração de não ter sequer idéia de quem diabos era o Béjart.

Até que um dia, lendo um livro sobre a história da dança, lá estava ele: Béjart. O dia em que eu li o nome de Béjart se repetir em citações num livro que conta a história da dança eu entendi que cedo ou tarde Béjart e eu nos depararíamos num conhecimento mútuo sem fim e isso não poderia ser à tôa.

O dia em que eu tomei conhecimento do ascensorista, por sua vez, era o primeiro dia de trabalho dele, que passava a substituir o ascensorista antigo que havia morrido e a quem eu mal dava bom dia. Diferentemente da Velma Kelly que acha que foi a culpada pela morte do James Brown, eu não tive qualquer participação no falecimento do ascensorista antigo e sua morte me fez apenas acordar para a cordialidade que eu devia ter com o novo ascensorista. O que eu não podia supôr era que o novo ascensorista teria cabelo platinado e um cd gravado com as canções que ele costumava tocar nos bares e que ele emprestaria tal disco para mim. Eu não pude perguntar ao Marcelo: VOCÊ NÃO CONHECE O ASCENSORISTA?!!!! porque a resposta era bem óbvia, e a não ser que ele seja o próximo Roberto Carlos, eu jamais poderei esfregar na cara do Marcelo a sua própria ignorância.

Até que um dia, subindo ou descendo no elevador, o ascensorista platinado começou a puxar papo, eu ainda estava fragilizada pelo não-conhecimento do Béjart e acabei sendo simpática demais, de forma que a cordialidade virou-se contra mim no melhor estilo feitiço-feiticeiro e eu jamais consegui me livrar das conversas matinais que duravama 11 andares.

O dia em que o Béjart morreu foi o mesmo em que o ascensorista disse que me achava parecida com a Ana Paula Arósio. Eu levei na brincadeira porque ele também já disse que as pessoas o confundem com o Fábio Assunção e porque eu sei que com quem eu me pareço mesmo é com a Silvia Buarque. Mas quando eu percebi que ele estava falando sério o elevador parou no meu andar, eu escapei de uma conversa surreal que começava e então a epifania aconteceu. Eu entendi que tanto Béjart quanto o ascensorista, separados por léguas intermináveis de mais ou menos tudo o que eu poderia pensar (continente, profissão e principalmente tinta de cabelo) , tinham entrado na minha vida para que eu tivesse uma dupla epifania.

EU precisava saber quem era Béjart para dar a triste notícia ao Marcelo, que desolado até me perdoou pela minha quase gafe. E eu precisava saber que o ascensorista me achava parecida com a Ana Paula Arósio para lembrar de algo que há muito eu esquecera: o amor é mesmo cego.

terça-feira, novembro 20, 2007

Dedicado:

(às pessoas das fotos)

Era a aula de química, ele olhava pela janela e pensava para então quase enterrar a cabeça no caderno que só tinha poesia. Depois ele a chamava, ela lia, fazia carinho em sua cabeça até ele quase adormecer, e então despertava e dizia que a amava enquanto rabiscava coisas no seu caderno, coisas que não eram dele, músicas que ele não compôs e essas músicas ficaram irremediavelmente associadas a ele. De tudo o que mudou, uma coisa não volta atrás: ainda nos amamos. E é ouvir Sereníssima pra lembrar daqueles dias.

Era depois de algum programa e a gente chegava em casa e ligava o computador para continuar a conversa, porque a gente tinha muuuuito assunto e era mais divertido falar tudo por ICQ. E ela era a última tecnologia em pessoa e o meu computador era provavelmente um Itautec falido, empacava e não havia reza que desse jeito. Eu telefonava baixinho de madrugada e citava U2: you’ve got stuck in a moment you can’t get out of, mas não era ela, era a minha máquina na verdade. E toda vez que o Bono diz que You’ve got to get yourself together é a cara dela que vem à cabeça. E até hoje quando escuto Sarah McLachlan dizer que o amor dele é melhor que sorvete... é batata! Ela de novo.

Era de manhã, o ventilador do teto ligado e ele sempre queria que eu ficasse mais um pouco, eu nunca fiquei, mas a voz de Maria Bethânia amanhecendo uma Tarde em Itapoã meio melancólica é o tema do fim da nossa história que nunca foi trágica nem eufórica, foi apenas uma história cuja trilha sonora eu mesma providenciei. E toda vez que a escuto cantar Vinícius é dele que lembro, da vitrola no canto do quarto, do ventinho sobre os lençóis.

Era domingo, às vezes tinha ressaca, às vezes ficava nublado e sempre combinava aquele cd, aquela voz cheia de efeitos e era ela quem dizia que Moby tinha tudo a ver com a véspera de segunda, uma mood música e sempre que escuto os primeiros barulhinhos de Porcelain eu já sei que é dela que vou lembrar.

Era pós chope com os amigos, provavelmente o Baixo Gávea e a gente entrava no Peugeot de algum deles e tentávamos decidir se íamos esticar a conversa no Jobi ou no Diagonal and just when it hit me somebody turned around and shouted play that funky music white boy, ele aumentava o som, todo mundo cantava e sentia certa saudade de quando era jovem e resolvíamos ir pra casa mesmo. E uma vez por ano quando um deles dá uma festa de aniversário dançam sem parar e em rodinha til they die, e não conseguem mais ouvir a tal música sem se lembrarem um dos outros.

Eram os anos 90, eles achavam que seriam amigos pra sempre, o maior hit da banda dele era a música do sujeito que tinha um cachorro que se chamava João que comia banana e dormia no chão. Ele comprou um golden que se chamava Rock and Roll, ela arranjou um poodle que realmente se chamava João e os dois quase brigaram porque ele roubou a rilha sonora de That Thing You Do que ela tinha. E embora quase não escute mais essas músicas, quando as palmas do hit do The Wonders começam ela lembra dos seus cachinhos dourados que queriam ser um rock star, e também achavam que ela devia ser uma...

Era a última aula do dia, sala quente perto da praia, um gole rápido de água porque emendava ballet-sapateado-contemporâneo e ele mandava todo mundo deitar no chão e aquela voz suave numa melodia que só servia de fundo para os alongamentos e ela pedia e então ele deixava Aimee Mann cantar mais um pouco and so for the sake of momentum ela deixava seus medos ficarem mais largos que a vida e dançava. E sempre que escuta o disco lembra dele, dos relaxamentos do fim das aulas malucas em que corriam e riam feito doidos.

Era num inferninho enfumaçado, todo mundo apertado e feliz, o chão parecia que ia desabar mas não importava. A gente já quase sabia a ordem das músicas e também não importava, no fundo era ótimo, enfrentávamos a fila do banheiro sem correr risco de perder Lobão e os Ronaldos iluminando um céu cinzento. Até o dia em que a gente preparava o fôlego para o Pixies que começava e coincidentemente entrava na pista ele, Here comes your man, mas ele já não era mais meu e a gente ria, não era tão engraçado mas tinha caipirinha, coração partido e logo depois tinha Pretenders back on the chain gang. It brings me to my knees de ver como nos afastamos, mas toda vez que o shuffle do itunes cai nessa música é para elas que quero telefonar com aquele velho celular que não tirava fotos.

Sim, algumas coisas até que continuam iguais, o caos segue em frente com toda a calma do mundo, I’m just trying to find a decent melody, a song that I can sing, my own company. Ainda sinto preguiça no corpo, in my dreams eu às vezes morro o tempo todo, a gente ainda acha que should go back there pra ver se eles continuam dançando e cantando e movin’ to the groovin’, gosto de acreditar que we’ll be happy can’t you see?. E eu sei que life is getting shorter, que essas pessoas talvez não permaneçam para criarem novas lembranças em novos tons, que talvez seja como os Beatles cantavam, there are places I remember...

Essas músicas ficaram irreversivelmente ligadas a essas pessoas, isso sem falar das outras. Foi num dia desses de reorganizar os discos e as caixas, I found a picture of you. Those were the happiest days of my life.
:: ouvindo as matching-músicas

domingo, novembro 18, 2007

A pessoa é para o que nasce

(vol. 2 e tardio)

Sean Penn nasceu pra ser o único cara que poderia ter batido na Madonna enquanto que ela nasceu pra ser a única cinquentona que não fica ridícula dançando num collant lilás. A Irene Cara nasceu pra nos animar na pista da dança e a maioria dos djs nasceu para ignorar esse fato por completo. O Pedro Mariano nasceu pra dar vergonha alheia e a Maria Rita nasceu pra ser chatonilda, e os dois nasceram da mesma mãe, não é bizarro? O Capitão Jack Sparrow nasceu para nos fazer acreditar em piratas de novo. Paul McCartney nasceu para ser o Beatle mais adorável e lindo. A Kate Moss nasceu porque um dia alguém teria que ter muito poder pra rasgar um vestido Galliano só porque ficou bêbada numa festa. O Nando Reis nasceu para fazer uma música cuja palavra mundo se repete três vezes no refrão e a Zoe nasceu para ser a homenageada da mesma, vai ver ela era a única pessoa nascida que não teria vergonha da duvidosa homenagem. Caetano Veloso nasceu porque só ele poderia compor Odeio Você. A Chorus Line nasceu para ser um daqueles musicais que só você, a sua tia e uma amiga viram. O Bon Jovi nasceu pra que as pessoas assumam em plenos anos 00, ainda que ligeiramente envergonhados, que ainda gostam dele. O Steven Tyler nasceu para ter a maior boca do mundo. A Suri nasceu pra ser a filha de casal celebridade mais linda. O sistema de reconhecimento ocular para entrada de pessoas na Torre do Rio Sul nasceu para me fazer acreditar que um dia terei um carro igual ao de James Bond. Gene Kelly nasceu para cantar na chuva apaixonado. O Estrangeiro nasceu para ser um livro divisor de águas literárias. As vacas da Cow Parade nasceram para quê mesmo? Médicos dermatologistas nasceram para nos levar à falência. A Amy Winehouse nasceu porque faz um tempão que um astro não morre no auge de sua carreira. A Amazon.com nasceu para você achar cds improváveis e os amigos nasceram para fazerem compras e racharem esse frete junto com você. Cole Porter nasceu porque Ella Fitzgerald fez o mesmo e o que seria do mundo sem os songbooks que ela gravou? Egon Schiele nasceu para fazer os desenhos mais maravilhosos do planeta. Impressoras nasceram para suas tintas acabarem sempre que necessário. Mãe Valéria de Oxossi, além de trazer a pessoa amada em três dias, nasceu para conhecer a pessoa mais eficiente em colar cartazes na cidade. Hairspray nasceu para levantar o astral de qualquer um e o Zac Effron nasceu para usar mais maquiagem no filme que o John Travolta. Frank Sinatra nasceu para cantar Mac the Knife. Os Outros nasceram para ser a minha banda preferida do mês e um monte de gente nasceu, embora a gente ainda não saiba bem o porquê...

domingo, outubro 28, 2007

O incompreensível mundo da moda

Alguns especialistas de moda afirmam que vivemos a era do fim de tendências macro. Que o minimalismo conviverá com o retrô que conviverá com o punk que conviverá. E que isso se vê claramente na última temporada de desfiles, que havia referências e peças para todos os gostos e que as micro-tendências permitem uma moda mais democrática e menos pasteurizada, tanto para o mercado quanto para o consumidor.

Gostando ou não de moda, sabendo ou não quem é Suzie Menkes, você, como todos nós que não somos índios ou a mulher de branco de Ipanema, compra roupas eventualmente. E a maioria de nós deve discordar desses que se dizem especialistas porque faz tempo que não consigo encontrar nada que não seja a) de malha, b) uma fortuna, c) rosa, laranja ou roxo. Se micro-tendência é sinal de ditadura da moda e isso é, de acordo com os entendidos, democracia, então o meu dicionário perdeu a validade.

Os especialistas concordavam, porém, que havia uma coincidência (inconsciente coletivo?) em desfiles “importantes” que apontava para o esquisito, para o visual que causava certo estranhamento.

Se o feio é o novo preto, então talvez isso explique o fato de que a maior parte do público do Tim Festival parecia saída do Almanaque Anos 80. E não era uma releitura como se costuma fazer, era mesmo um retrocesso. Mullets para todas as cabeças, bolsinhas matelassê com alças de correntes douradas, esmalte e maquiagem néon, bijouterias de acrílico e até faixas de cabelo daquelas que a Olívia Newton John usava em Let’s get Physical. Havia mesmo um sujeito cujo cabelo, tenho certeza, era uma nada discreta homenagem a Robert Smith. E o assustador, além do resgate fashion da década que tentamos esquecer, era que muitas vezes não conseguíamos saber se tal pessoa era menino ou menina.

Por sorte eu não esbarrei com ninguém de polaina ou ombreira, isso realmente teria me apavorado, mas acho que não seria tarefa difícil. Por sorte também eu ia ver o show da Cat Power. Mas não teria sido bizarro se o A-ha tivesse subido ao palco.

sábado, outubro 13, 2007

that's me in the corner...

João Caetano começou a tomar calmantes, passei a chantagear com tortas e bolos os fornecedores para que eles sejam legais comigo e me entreguem produtos no prazo, a lavagem de um vestido em lavanderia é praticamente um assalto e por essas e outras me aventurei no mundo do tanque, comecei a passar o caderno de telefones da minha mãe a limpo, as coisas continuam mofando, a professora de natação agora me usa para impressionar os alunos que vão fazer aula teste e por essa e outras eu finalmente consigo fazer três braçadas de golfinho seguidas, quase morri engasgada com um morango quando fui contar uma história hilária para o meu pai porque comecei a rir antes da hora, passei também a ameaçar fornecedores que atrasam tudo dizendo que os apresentarei a João Caetano off medicação, a fisioterapeuta boa voltou antes mesmo que eu tivesse chance de gongar a antiga, um sujeito quer porque quer que eu pague $4.500 pelo notebook que alguém comprou com o meu cheque roubado e eu juro que fico penalizada mas já inventaram serviço de consulta a cheques, tsá?, o Papel Pobre acabou e o luto terminou quando descobri o Modellon e agora eu e a minha dupla no trabalho temos novamente alguma distração fútil, reencontrei pessoas que não via há uns 7 anos por opção e elas sequer mudaram seus cortes de cabelo e ainda exclamavam o quanto eu estava sumida, wonder why – eu pensei, tive que explicar para alguns fornecedores que João Caetano é um pitbull encarnado em poodle ou lobo em pele de cordeiro para os que preferem expressões populares, dois dias depois de assistir A Chorus Line pela centésima vez recebei de uma amiga um trecho de um filme do Fred Astaire e quase, quase mesmo chorei muito de saudades, descobri como colocar músicas no celular que virou quase um ipod, agora tenho traças no quarto também, fui atingida por um pombo desgovernado que após bater em minha cabeça saiu voando inabalável e depois desse fato aparentemente corriqueiro (embora eu não conheça alguém que tenha sido pombado) uma série de coisas começou a desandar e quando eu vi eu tinha comprado uma peça na Farm, tiha gostado do desfile do Roberto Cavalli, todo mundo furou o chope, o carro voltou a fazer barulhos, a coleção não foi aprovada porque era bonita demais pra ficar tão pouco tempo na loja e de lá pra cá recebemos 347 ordens e direções diferentes por minuto, o ascensorista do prédio me emprestou um cd para escutar cuja capa era estampada com a foto dele mesmo e ele canta Elvis no cd e imagine!, o nivel de stress subiu 80% nos últimos dias e eu que já quase não sentia dores fiquei atacada das juntas, não consegui entender mais nada do livro de francês, os pés das meias têm sumido e como perdi os critérios mesmo passei a usar meias descasadas, perdi também o saco com o cabelo e faz tempo que tá precisando de uma tinta nele, perdi o saco em geral, ando perdendo papéis no meio da bagunça e ando perdendo muito a hora, ando perdendo o interesse e a vontade de bater papo com as pessoas, that's me in the spotlight losing my religion.

segunda-feira, outubro 08, 2007

I sing the body electric

(ou Quero Ser Irene Cara)

Dizer que seu filme preferido é Cidadão Kane é o mesmo que dizer que seu prato preferido é pato laqueado. Todo mundo sabe que bife com batata frita é melhor. Da mesma forma como todo mundo sabe que nenhum scarpin da Miu Miu substitui o seu bom e velho par de havaianas. Da mesma maneira que todo mundo sabe que existe um incontável número de filmes infinitamente melhores do que C. K. E todo mundo sabe também que o filme da sua vida não é aquele cujo diretor ganhou o Oscar ou a palma de ouro. O filme da sua vida sequer foi fotografado por um sujeito aclamado ou inovou a história do cinema. O filme da sua vida poderia até mesmo te envergonhar um pouco numa roda de cinéfilos inteligentes e letrados onde eventualmente alguém diria que Cidadão Kane é o melhor filme de todos os tempos, talvez seja, provavelmente não é. O sujeito que afirma categoricamente que C.K é seu filme preferido é o mesmo que, minutos depois com a evolução natural da conversa, vai dizer que MacBeth é seu livro de cabeceira. E é também o mesmo que vai te dar sono em menos de meia hora. É fácil convencer alguém mais distraído de que o filme de Welles é a obra-prima da sétima arte, difícil é convencer esse cara presunçoso e chato de que o filme da sua vida não tem nada a ver com isso. Filmes, livros e músicas tornam-se especiais não por causa de seus preciosismos técnicos, caso contrário o Nirvana não teria sido o fenômeno que foi e nem mesmo a Xuxa teria sido a Rainha dos Baixinhos. Os filmes e livros e músicas das nossas vidas são os que nos refletem sem qualquer tipo de máscara, são os que nos arrepiam os cabelinhos dos braços, são as músicas até mesmo cafonas que cantamos no carro quando ninguém pode nos ouvir, são aquelas histórias quase bobas que nos dão nós na garganta. São aqueles que te denunciam de cara, são aqueles diante dos quais não dá pra disfarçar. É muito mais honesto conversar com alguém cujo filme preferido é Um Sonho de Liberdade, com pessoas que não resistem ao Roberto Carlos e com gente que a-do-rou O Código da Vinci. E mais interessante também. Essas pessoas são as mesmas que provavelmente não vão saber explicar o porquê dessas escolhas e talvez não te convençam de coisa nenhuma, na verdade elas não querem te convencer de nada e exatamente por isso você vai querer ver os tais filmes e ler os tais livros. É claro que adoramos Paulinho da Viola e apreciamos um bom filme de autor. Mas quando a Irene Cara canta ao piano e quando os bailarinos invadem a rua pra dançar ao som da música-tema numa das cenas de Fame não tem pra ninguém!

quarta-feira, setembro 26, 2007

Polyana

Você acha que anda estressada e com muito trabalho e só se dá conta do quanto as coisas podem ser divertidas quando um casal de representantes de tecidos e aviamentos chineses vai até seu escritório e em pouco tempo você já sabe como os dois se conheceram e em menos tempo ainda eles já sabem quem eles vão convidar para a futura casa de Búzios para ensinar a surfar (e aí você se dá conta também do quanto as pessoas se acarioquizam facilmente).

Você acha que não consegue mais ser engraçada e quando menos espera tem alguém ao seu lado gargalhando porque você tenta convencer essa pessoa de que teve mais uma idéia genial que vai ajudar a salvar o mundo, tudo isso porque você não só descobriu como eliminar o mofo de casa como também passou a produzir água em quantidade graças à máquina desumidificadora que acumula de 5 a 10 litros de água proveniente da umidade do ambiente por noite. Sim, por noite, e do dia pra noite muito literalmente você descobre que fabrica água dentro do seu próprio quarto e os seus amigos acham que você faz piada quando diz que vai montar um negócio de venda de água ou que vai fornecer água pro Nordeste (isso antes de chegar na parte megalomaníaca da história quando você começa a traçar uma meta de convencer todos os moradores do Alto Leblon e Alto Jardim Botânico a desumidificarem suas casas e juntos salvarem o planeta e os sedentos).

Você acha que a sua professora de natação é uma cretina que só te elogia quando está prestes a te perder e no fim das contas você conclui que ela é somente carente e usa de clichês pra você não deixa-la, no que ela tem certa razão pois que a turma de quatro reduziu-se drasticamente a apenas você e ao mesmo tempo acha que ela não precisava pegar tão pesado e dizer que como-é-lindo-quando-você-nada-golfinho-,-você-tem-um-alongamento-perfeito, tudo isso porque você ameaçou largar o golfinho para sempre, mas enfim, cada um faz chantagem com o que pode.

Você acha que tornou-se uma pessoa desinteressante quando vai visitar um possível novo fornecedor em sua casa que faz as vezes de showroom e em pouco tempo essa pessoa diz que “vou botar um som” haha você ri meio nervosa porque você não está ali a passeio e a pessoa não é homem e nem sequer lembra a Madonna.

Você acha que está infeliz e no dia em que uma outra fornecedora vai te buscar chique e moderna em seu new beatle e começa a contar da mãe que sofre de um mal e de como ela e o irmão choraram a manhã toda e logo depois ela emenda na história da casa que pegou fogo... você quase chora só por solidariedade.

Você acha que é uma pessoa coerente e incapaz de cometer heresias até o dia em que se vê anotando números de pesquisas de concorrente do mercado de lingerie nas folhas de rosto de um livro de Jean-Paul Sartre.

Você acha que se deixa levar muito por conceitos de moda e até se deprime quando sem querer se pega dizendo coisas como montação ou fashionista ou bafón e então se depara com um ser que combina ankle boot com meia, short, blusa trapézio, corte desconectado bolsa vintage de corrente e óculos à la Curtindo a Vida Adoidado e até se benze de alívio de estar combinando sapatilha e vestido.

Você acha que virou celibatária por sua única e exclusiva incapacidade até que se dá conta de que grande parte da culpa é dos seus amigos e do nível de concentração e foco que você dispensa a eles e somente a eles e talvez a única maneira de remediar o caso seja brigar com algumas dessas pessoas que afinal te roubam de qualquer possibilidade de efetivamente sair com alguém que não eles.

Você acha que é metódica e organizada com certos assuntos até o exato momento em que recebe por email uma planilha da organização dos custos da compra comunitária na Amazon (!) da sua amiga dona do cartão de crédito.

Você acha prozac em tudo!

:: "(...) mas que era preciso sempre começar por enxergar a própria pata, o corpo antes da roupa, uma sentida descoberta antes da comunhão (...) não que eu fosse ingênuo a ponto de lhe exigir coerência, não esperava isso dela, nem arrotava isso de mim, tolos ou safados é que apregoam servir a um único senhor..." Raduan Nassar in Um Copo de Cólera.

domingo, setembro 16, 2007

Pois já vai terminando o verão

Era tão óbvio que não resistiria a ele que pra não fazer desfeita ao acaso obedeceu. E se de primeira não detectou seus encantos, de mais duas ou três olhadas ela cedeu por completo. Ele lhe parecia tão absurdamente adorável que passou batida pelos clichês mais gritantes e percorreu com aguçada voracidade seus atrativos mais lógicos, a franja caída sobre os olhos, os rodopios na pista e um pedaço de sua saia ficava sempre enroscado na perna esquerda dele. E no fim da noite já tanto querendo o convite e num piscar de olhos já era manhã de agosto, já era ressaca de festa e já era um roçar de mãos, um roer de unhas, um cantar Cartola pela tarde adentro. E dançar.

E era tão óbvio que se apaixonaria por ele que sem haver jeito de acontecer o contrário cumpriu distraidamente o papel.

Ele lhe parecia então tão completamente aceitável em todos os detalhes. E era irritantemente encantador com seus galanteios e os sapatos que largava no meio do caminho enquanto ia falando e falando e sempre usava os adjetivos que ela nunca conseguia encaixar e quando então com resquícios de vinho na saliva se esqueciam na rede e ele alisava suas costas e entrelaçavam as mãos num enredamento de corpos até quase. E levados por um gostar. E música. Ele contava as idéias e usava pausas, ela já tanto querendo que ele quisesse também e ele lhe parecia que se movia num ritmo que era o dela também e tinham tantos motivos pra rir que às vezes gargalhavam. Ele tinha todo o charme que ela julgava ser impossível. E inverno, ele tinha cheiro de inverno. E gosto também. E tudo nele lembrava lareira acesa e manta nos pés, fogo crepitando. E lã. E nesse casulo de si mesmos, bêbados um do outro, embalados pelo frio que vinha pela janela e pelo leve balançar da rede, sem sequer saber, se despediam.

Era tão certo que viriam outros com seus outonos, suas flores de primavera e verões ensolarados cheios de suor, era tão óbvio que viriam outros com seus dias amenos e chuvas mansas ou frios piedosos. Era tão óbvio que os outros não fariam diferença que sem haver jeito de ser o contrário guardou a rede até que voltasse a nevar.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Réu confesso

É tão fácil fantasiar sobre os mundos desconhecidos que uma vez dentro deles a decepção é quase inevitável. Eu sempre associei um fórum de direito, por exemplo, a pessoas elegantes com suas pastas de couro e ar sério, barulho de saltos ritmados pelos corredores amplos, homens e mulheres com imensos copos de café, réus e acusadores, ou melhor, autores, roendo unhas e sendo orientados aos cochichos por seus advogados e representantes legais vestindo ternos de corte impecável e organização invejável. Eu imaginava termos jurídicos e álibis, testemunhas sendo protegidas por agentes parrudos e trocas de olhares fulminantes entre as partes envolvidas de um processo. Fórum e advogados eram, na minha cabeça de criativo, lugar e seres superiores e intimidadores, tão rebuscados e bem sucedidos que eram praticamente inatingíveis. Era de se desconfiar visto que até hoje nenhum dos pintores que conheço usa boina, eu não tenho no escritório uma mesa-prancheta cheia de lápis Stabilo e certamente os plantonistas do Lourenço Jorge não lembram em nada o Dr Carter.

Poucas horas no fórum do Centro da Cidade são suficientes para nos dar a exata noção do quanto, na prática, a lei mais popular ainda é a de Murphy. Os fatos: a juíza chegou hora e meia atrasada e errou a ata ou o qualquer que seja o nome do papel que os advogados e réu e autor tiveram de assinar ao fim da não-audiência, isso tudo porque a mesma juíza ou talvez o advogado do autor, provavelmente cometeu um erro e a audiência foi remarcada; os corredores amplos são mal iluminados e carecem de cadeiras, que por suas vezes seriam reprovadas em quaisquer testes de ergonomia; os homens e mulheres da lei provavelmente nunca folhearam uma revista de moda e certamente desconhecem a palavra Armani; vendedores ambulantes transitam por toda a parte anunciando mate, refrigerante, sanduíche, o que confere certo clima de botequim/praia ao local; toda essa gente, sob a péssima iluminação, tem as costuras repuxadas de sua indumentária realçadas; não há cochichos, não há testemunhas em perigo, não há nada que lembre nem de longe todo o clima hollywoodiano e não há pessoa que possa me convencer de que advocacia e felicidade possam ser conjugados juntos, ao menos não dentro daquele prédio uó. Essas poucas horas desmistificaram por completo toda a imagem que eu tinha do povo do direito e as qualidades heróicas e arrogantes (arrogantes chic, que fique claro) que eu achava que essa gente de terno tinha caíram por terra. Até mesmo a linguagem complexa e atraente me soou apenas complicada e até agora eu não entendi porque a tal da audiência foi adiada. Eu saí do fórum dando suspiros de decepção e chateada com tanta realidade, voltei pro meu mundinho parte satisfeita de não ser um deles e parte revoltada por não ter visto sequer um tailleur decente. A única ponta de inveja é dos salários que eu sei que nunca vou ganhar. Nada que uma promoção de calças risca de giz da Zara não cure.

segunda-feira, setembro 03, 2007

It's been a hard day's night

Eu estava nadando peito, a aula tinha começado há cerca de 3 minutos e enquanto ia pra lá e pra cá a minha cabeça só conseguia pensar nas peças que a fábrica deveria entregar naquela semana. Eu estava preocupada também com as blusas dos uniformes das vendedoras das lojas que tinham que ficar prontas tão rápido quanto eu chegava do outro lado da piscina. Normal, pensei, tive um dia estressante mas tenho ainda 37 minutos de aula pra me concentrar nas bolhinhas e ladrilhos.

Nessa mesma semana eu sonhei com lingeries algumas vezes. Achei pertinente visto que trabalho cercada delas o dia todo e minha ocupação é justamente fazê-las.

Mas alguma coisa bateu quando eu disquei o número do Samuel sem olhar na agenda. Samuel não é meu namorado, não é meu pai, não é um pretendente a caso amoroso, não é meu amigo e nem mesmo meu cabeleireiro. Samuel é o representante da indústria de tecidos de quem geralmente compro sedas que futuramente viram camisolas e robes. Quando eu descobri que sabia o telefone do Samuel de cór fiquei meio deprê. Eu já sabia mais uns oito números de telefone de cór, alguns com ddd e mais ou menos todos relacionados a trabalho.

Não que o Samuel seja um chato ou coisa assim, tudo o que sei dele é que ele tem sempre que verificar o estoque antes de me dar uma resposta (o que julgo ser muito prudente) e que ele nunca atende o telefone de primeira, o que certamente colabora para a fixação do número na minha mente.

Eu fiquei um pouco frustrada por ver o quanto que essas coisas que a gente não ama acabam nos consumindo. De repente eu virei uma daquelas pessoas que nadam porque faz bem pras costas, que não vão tomar um chope depois do trabalho porque precisam acordar cedo no dia seguinte, que usam creme hidratante com protetor solar no rosto e combinam a calcinha com o sutiã.

Eu fiquei quase histérica quando me dei conta disso tudo porque entendi que virei uma chatonilda. E em vez de:
a) largar tudo e fazer o que realmente gosta
b) fingir afogamento na piscina e ter esse trauma como álibi pro resto da vida
c) ligar pra analista
d) queimar lingerie em passeatas,
eu adotei uma medida drástica e definitiva. Quando eu decorar o telefone do químico que nos fornece o sabonete líquido antibactericida com aroma exclusivo eu peço demissão.

:: "Foi bom te ter mais uma vez / Poder te abandonar / E dar por finda a mágoa / Desse mal amar"