sexta-feira, julho 27, 2007
Pro dia nascer feliz
8 e meia da manhã de sexta-feira e o único barulho que eu quero escutar é nenhum porque a essa hora desse dia da semana os meus pensamentos estão inteiramente voltados para a possibilidade de passar o sábado inteiro dormindo. Então o celular faz blim-blim e eu não quero crer que algum ser humano tenha algo tão urgente e importante pra me dizer nesse contexto. Abro a caixa de mensagens e batata!, é engano. Rio na hora: Jesus é contigo, alegra-te. Quase respondo Aleluia! mas vai que a pessoa se anima... Spam evangélico matinal pra acordar, todo dia é dia e tudo em nome do amor.
terça-feira, julho 24, 2007
(sem título)
Não tinham idéia das horas e nem se fazia sol. Não sabiam se o ar estacionava ou se o vento iria emaranhar o cabelo dela. Sequer sabiam se estavam na cidade ou na praia, não importava. Esquecidos que estavam de tudo para além da janela. A tv chiava reclamando e o telefone às vezes soava bem próximo. Deixaram alguns cacos de vidro no chão da sala, esquecidos que estavam de tudo o que não fosse parte deles dois, braços, cílios, pele. Insaciáveis, se olhavam o quanto podiam. Incansáveis, se amavam o quanto sabiam. Inesgotáveis, dividiam seus afetos o quanto precisavam. Não tinham medo se ao abrir a porta o mundo ficasse cinza e pouco se preocupavam se o chão logo abaixo cortasse seus pés. Era carinho o que queriam quando ficavam juntos e era felicidade o que encontravam.
domingo, julho 08, 2007
Apontaram uma arma e saiu todo mundo correndo do carro, morremos de sono no jantar de sexta, não posso mais nadar golfinho, tomei coragem e liguei, Luiza Brunet me chamou de gata, discutimos Lygia no café da terça-feira, boiei na mar um pouquinho e entrou água no meu ouvido, faltei a natação uma vez, comprei muitas coisas na farmácia, deixei o som no conserto o sapato no sapateiro, a saia não pode ser lavada a seco e nem no molhado, marquei a mudança, me desapaixonei um pouco de alguém, chorei quando ele cantou Proposta, ouvi Edu e Bethânia sem parar, ouvi conversas engraçadas na praia, o policial era super gente boa, o livro novo é dos bons, o Palaphitas não aceita mais Diners, fiquei olhando o céu e a Lagoa quando o papo sobre Lost começou, a gente ouvia Caetano quando os assaltantes chegaram, chorei quando ele cantou Outra Vez, ganhei uma rosa arremessada e ainda fui assediada por uma louca que roubou uma pétala, eu fiquei exausta depois da delegacia e pensando se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi, lembrei do Marc lá de Narbonne, lembrei de tanta coisa, as amigas tentaram me convencer que foi melhor assim mas Vinícius de Moraes não me deixa mentir ("Não sei se foi um mal / Não sei se foi um bem / Só sei que me fez bem / Ao coração / Sofri, você também, /Chorei, mas não faz mal / Melhor que ter ninguém / No coração / Foi a vida / Foi o amor quem quis / É melhor viver/Do que ser feliz / Foi tudo natural /Ninguém foi de ninguém / Mas me fez tanto bem / Ao coração") e assim no meio de uma confusão de coisas e de medo foi que bateu e no domingo eu fiquei terrivelmente sozinha, eu e a minha flor.
segunda-feira, julho 02, 2007
Síndrome do pânico
Eu estava realmente nervosa com alguns acontecimentos que variavam de uma espinha gigante à mudança de casa do cachorro, passando por um limpador de pára-brisa quebrado e um som que rejeita cds aleatoriamente. Achei que a gota d’água tinha sido o escangalho do meu computador no trabalho e sempre que o Marcelino mandava alguém a máquina funcionava que era uma beleza. Um dia eu resolvi tirar uma foto da tela que aparecia quando dava defeito, só por precaução, pra ninguém achar que eu era doida ou coisa assim. Isso já faz alguns dias, o Marcelino já disse que é provável que eu perca todo o conteúdo do outlook e eu já tive um enfarto do miocárdio por causa disso e até hoje ele ainda não me deu uma diagnóstico preciso. Até que veio o fim do mês, sobrou um dinheiro e eu resolvi que ia comprar um hd externo pra fazer um backup dos arquivos do meu computador pessoal. Cheguei a ver o preço e os procedimentos mas ocorre que a Zara e a Novamente estavam em promoção e nessas horas o lado mulherzinha grita. Algumas calças e sapatos depois e eu resolvo ligar o notebook pra escrever qualquer coisa sobre novos nervosismos que aconteceram, nervosismos brabos daqueles que tiram o sono, coisa pesada, esses caras, você sabe. E então de repente o notebook não aceitou a impressora. E nem o mouse. E nem mesmo o pen drive. E me dei conta de que nem a bateria ele estava aceitando. Ele simplesmente passou a rejeitar qualquer coisa que viesse de fora e num pressentimento desses infalíveis eu desliguei o notebook. A bateria indicava que me restava meia hora de uso, achei melhor guarda-la, não tinha idéia do que estava acontecendo, mas não parecia bom. Ignorei toda a minha lista de tarefas de trabalho e às 9 da manhã liguei pro Marcelino sem me importar se ele estivesse dormindo e dramaticamente descrevi o ocorrido. Então o Marcelino disse “iiiiih isso é problema de placa mãe bla bla bla é talvez você perca tudo e bla bla bla”. A frase “talvez você perca tudo” ficou martelando na minha cabeça, eu pensava na liquidação da Zara, na calça que ficou na Novamente pra fazer bainha e de repente comecei a ter um treco e a possibilidade de perder anos de fotos e músicas e tantas coisas em sua maioria inúteis me deu dor de barriga antecipada, insônia e um derrame. Eram 11 da noite e eu andava de um lado pro outro no quarto pensando que foi uma péssima hora pra parar de fumar porque sem mais nem menos eu estava sem cão, sem som, sem beijos, sem automóvel pra dirigir na chuva, sem computador, o remédio de espinha tinha acabado e nada disso importava porque o essencial mesmo era descobrir como eu poderia salvar todo o meu hd de um computador que só duraria mais meia hora. Meia hora. O que se faz em meia hora? Eu já estava de luz apagada, coberta no rosto, unhas roídas e lábios comidos de tanto nervoso, tomei todo o resto do vidro de floral (maldita hora em que eu comecei a acreditar em homeopatia), pensei em como seria bom nadar um pouco e esqueci completamente do cachorro, do som, do cara, eu só pensava no meu laptopzinho e aí me dei conta de como o Marcelino foi precipitado ao me deixar em pânico assim, ele não podia ter falado dessa forma insensível, como é que alguém anuncia o fim de outra pessoa com um “xiiiiii”? Levantei da cama na mesma hora e numa última tentativa daquelas em que a fé até volta liguei o laptop na bateria e depois de alguns aterrorizantes segundos desses que duram horas eis que plim! a luz acendeu. Ele estava se alimentando novamente e com isso pretendo ganhar uma sobrevida de uma hora e meia. Duas horas devem ser suficientes para pelo menos salvar as fotos e as músicas e pra mandar um email desaforado pro estúpido do Marcelino. Deixei o laptop na tomada e fiquei vigiando, só me separei dele quando a farmácia interfonou. Vieram me entregar o Valium.
quarta-feira, junho 27, 2007
( )
So darling, I just want to say
Just in case I don't come through
I was on to every play
I just wanted you
But oh, it's so evil, my love
The way you've no reverence to my concern
So I'll be sure to stay wary of you, love
To save the pain of once my flame and twice my burn
(Fiona Apple)
Eu andava em constante estado de alerta e lá vinha ele pra me tirar do eixo e então a qualquer momento eu podia perder a concentração e errar a conta ou me distrair e esquecer as chaves. Era aquela coisa de perder o foco, de não reparar na fumaça saindo do café e queimar a boca toda, era saber que na próxima curva o norte poderia mudar e sem querer eu iria enveredar por estradinhas de terra sem luz. Quanto mais tentava permanecer atenta, mais ele vinha me empurrando pras beiradas das coisas, da mesa se eu fosse comida e me esfarelava no chão, da piscina se eu fosse criança e me espatifava na água jogando espuma longe, do precipício se eu fosse desespero e caía flutuando em nem sei onde. E não me dava garantias, me empurrava sem nenhuma promessa de amparo, era quase como se botasse o pé pra que eu tropeçasse na calçada, mesmo que eu andasse por um lado da rua e ele pelo outro, era apenas estar presente pra que a mudança acontecesse e era quase imediato.
Eu andava segura e olhando reto e ele vinha pra me desviar dos costumes e então a qualquer momento eu podia perder a concentração e esbarrar num poste ou me distrair e perder a agenda. Era aquela coisa de sentir o coração pulando na garganta, era saber que no passo seguinte o ritmo poderia mudar e sem querer eu sairia da música num descompasso de pés. Quanto mais eu tentava dançar a melodia mais ele vinha arranhando discos, idéias se fossemos conversa e não me sobravam argumentos, minha pele se fossemos desejo e não me restavam roupas. E não me dava curativos, me deixava marcas sem qualquer cuidado, era como se me cortasse com faca, mesmo que fosse de brinquedo.
Eu andava sempre constante e olhando e ele vinha e era como se me sacudisse e quanto mais ele me chacoalhava mais eu vinha à tona e tudo de dentro ia pulando pra superfície da minha pele laminada, mudavam os eixos de tudo e eu podia tropeçar que eu não caía e nem o café feria e chave alguma faria sentido e era quase como se eu procurasse estradinhas de terra.
Eu andava segura e procurando e ele não vinha, não chegava, não me empurrava mais e as cicatrizes iam sumindo e a postura ia se desentortando. Eu o procurava por entre estradas esburacadas e beiradas de camas onde ele não me queria mais e me espatifava sem qualquer vontade em sonos sozinhos.
Cessaram as quedas, acabaram os tropeços e retalhos e também toda a graça das coisas e eu que já sabia levantar resolvi ficar deitada bem junto ao chão. Depois que ele foi embora eu fiquei parada no mesmo lugar.
Just in case I don't come through
I was on to every play
I just wanted you
But oh, it's so evil, my love
The way you've no reverence to my concern
So I'll be sure to stay wary of you, love
To save the pain of once my flame and twice my burn
(Fiona Apple)
Eu andava em constante estado de alerta e lá vinha ele pra me tirar do eixo e então a qualquer momento eu podia perder a concentração e errar a conta ou me distrair e esquecer as chaves. Era aquela coisa de perder o foco, de não reparar na fumaça saindo do café e queimar a boca toda, era saber que na próxima curva o norte poderia mudar e sem querer eu iria enveredar por estradinhas de terra sem luz. Quanto mais tentava permanecer atenta, mais ele vinha me empurrando pras beiradas das coisas, da mesa se eu fosse comida e me esfarelava no chão, da piscina se eu fosse criança e me espatifava na água jogando espuma longe, do precipício se eu fosse desespero e caía flutuando em nem sei onde. E não me dava garantias, me empurrava sem nenhuma promessa de amparo, era quase como se botasse o pé pra que eu tropeçasse na calçada, mesmo que eu andasse por um lado da rua e ele pelo outro, era apenas estar presente pra que a mudança acontecesse e era quase imediato.
Eu andava segura e olhando reto e ele vinha pra me desviar dos costumes e então a qualquer momento eu podia perder a concentração e esbarrar num poste ou me distrair e perder a agenda. Era aquela coisa de sentir o coração pulando na garganta, era saber que no passo seguinte o ritmo poderia mudar e sem querer eu sairia da música num descompasso de pés. Quanto mais eu tentava dançar a melodia mais ele vinha arranhando discos, idéias se fossemos conversa e não me sobravam argumentos, minha pele se fossemos desejo e não me restavam roupas. E não me dava curativos, me deixava marcas sem qualquer cuidado, era como se me cortasse com faca, mesmo que fosse de brinquedo.
Eu andava sempre constante e olhando e ele vinha e era como se me sacudisse e quanto mais ele me chacoalhava mais eu vinha à tona e tudo de dentro ia pulando pra superfície da minha pele laminada, mudavam os eixos de tudo e eu podia tropeçar que eu não caía e nem o café feria e chave alguma faria sentido e era quase como se eu procurasse estradinhas de terra.
Eu andava segura e procurando e ele não vinha, não chegava, não me empurrava mais e as cicatrizes iam sumindo e a postura ia se desentortando. Eu o procurava por entre estradas esburacadas e beiradas de camas onde ele não me queria mais e me espatifava sem qualquer vontade em sonos sozinhos.
Cessaram as quedas, acabaram os tropeços e retalhos e também toda a graça das coisas e eu que já sabia levantar resolvi ficar deitada bem junto ao chão. Depois que ele foi embora eu fiquei parada no mesmo lugar.
domingo, junho 24, 2007
1, 2, 3 e já:
(para ler ao som de Jorge Vercilo)
Fiquei presa dentro de uma camisola piloto (trabalhar com moda tem dessas coisas), arranjei um novo óculos de natação, descobri que a minha professora de natação não usa lingerie da Verve, quase conheci o C.A., o Cláudio Tozzi disse que me conhece muito de fotos, o André do Nirvana me telefonou oferecendo preço especial se que quisesse voltar (e eu achei que ele deve ter bebido), o Beto achou extraordinário eu ter uma irmã, a Bebel chegou, vi o Gotan no Rio sem a Bebel e sem o terceiro elemento, fiquei horas no estacionamento do Rio Sul quente e abafado conversando com uma das melhores amigas que eu tenho, derrubei uns 30 cds no chão (e agora tenho mais ou menos essa quantidade de caixas quebradas), fiquei alérgica ao desodorante, ganhei um livro, o Bola pediu pra ser meu amigo no orkut, comprei dois cds dos Beatles e o último do Gotan e ainda ganhei um cd gravado do Marcelo, que reclamou ser o coadjuvante no post anterior, comi fondue com as amigas mais finas, me empanturrei de tangerinas, marquei um pic-nic, deixei a manicure lixar a sola do meu pé pela primeira vez na vida (e ainda assim ele continua de menino), fui a Friburgo conhecer a fábrica de Lingerie, tive L.E.R no punho esquerdo, me auto-diagnostiquei com L.E.R no punho esquerdo, comprei uma saia Huis Clos, comi pavê crocante, almocei com a minha prima e o namorado que moram longe, comprei cadernos novos, chorei duas vezes, cocei muito a orelha, dormi toda a tarde de sábado, marquei e desmarquei um cinema em cinco minutos porque me deu preguiça de tirar a camiseta furada e me vestir decentemente, encontrei os amigos, ri de doer a barriga, pensei que “não é nada disso” quase todos os dias, gastei muito dinheiro com comida, me medi e me pesei (1.72m, 60 kg), engordei mais uns quinze quilos no fim de semana, sonhei que atropelava um amigo, comprei um gel hidratante para o rosto, sonhei com pessoas antigas que faziam pães para mim, me dei conta do quanto é insultante o Lobão ter gravado um acústico mtv (tão insultante quanto se o Glauber tivesse dirigido 2 Filhos de Francisco), assisti Elizabethtown e achei um horror!, abracei uma pessoa que infelizmente ainda me deixa tensa, encontrei a Danni Carlos e quase gritei de susto, desliguei o telefone na cara de um fornecedor porque tive um ataque de riso ao ouvir seu nome, cantei Crazy for You da Madonna todos os dias porque todos os dias ela toca no rádio e no domingo à noite vi uma foto e fiquei pensando nele e foi batata, a saudade bateu foi que nem maré.
Fiquei presa dentro de uma camisola piloto (trabalhar com moda tem dessas coisas), arranjei um novo óculos de natação, descobri que a minha professora de natação não usa lingerie da Verve, quase conheci o C.A., o Cláudio Tozzi disse que me conhece muito de fotos, o André do Nirvana me telefonou oferecendo preço especial se que quisesse voltar (e eu achei que ele deve ter bebido), o Beto achou extraordinário eu ter uma irmã, a Bebel chegou, vi o Gotan no Rio sem a Bebel e sem o terceiro elemento, fiquei horas no estacionamento do Rio Sul quente e abafado conversando com uma das melhores amigas que eu tenho, derrubei uns 30 cds no chão (e agora tenho mais ou menos essa quantidade de caixas quebradas), fiquei alérgica ao desodorante, ganhei um livro, o Bola pediu pra ser meu amigo no orkut, comprei dois cds dos Beatles e o último do Gotan e ainda ganhei um cd gravado do Marcelo, que reclamou ser o coadjuvante no post anterior, comi fondue com as amigas mais finas, me empanturrei de tangerinas, marquei um pic-nic, deixei a manicure lixar a sola do meu pé pela primeira vez na vida (e ainda assim ele continua de menino), fui a Friburgo conhecer a fábrica de Lingerie, tive L.E.R no punho esquerdo, me auto-diagnostiquei com L.E.R no punho esquerdo, comprei uma saia Huis Clos, comi pavê crocante, almocei com a minha prima e o namorado que moram longe, comprei cadernos novos, chorei duas vezes, cocei muito a orelha, dormi toda a tarde de sábado, marquei e desmarquei um cinema em cinco minutos porque me deu preguiça de tirar a camiseta furada e me vestir decentemente, encontrei os amigos, ri de doer a barriga, pensei que “não é nada disso” quase todos os dias, gastei muito dinheiro com comida, me medi e me pesei (1.72m, 60 kg), engordei mais uns quinze quilos no fim de semana, sonhei que atropelava um amigo, comprei um gel hidratante para o rosto, sonhei com pessoas antigas que faziam pães para mim, me dei conta do quanto é insultante o Lobão ter gravado um acústico mtv (tão insultante quanto se o Glauber tivesse dirigido 2 Filhos de Francisco), assisti Elizabethtown e achei um horror!, abracei uma pessoa que infelizmente ainda me deixa tensa, encontrei a Danni Carlos e quase gritei de susto, desliguei o telefone na cara de um fornecedor porque tive um ataque de riso ao ouvir seu nome, cantei Crazy for You da Madonna todos os dias porque todos os dias ela toca no rádio e no domingo à noite vi uma foto e fiquei pensando nele e foi batata, a saudade bateu foi que nem maré.
sábado, junho 23, 2007
No vão das coisas que a gente disse
Eu estava voltando do McDonalds, onde fui tomar um sorvete quando parei numa vitrine de uma loja qualquer pra olhar um vestido. A meu lado pararam duas mulheres, eu não as vi mas ouvi parte do diálogo:
- Eu não gosto dessa moda, não comprei nada dessa moda, acho tudo muito feio.
- O que, vestido trapézio?
- É, não gosto dessa moda.
- Mas tem outras roupas pra gente normal.
Eu fiquei muito intrigada com o fato da mulher ter sentenciado o vestido trapézio como roupa de gente anormal, mas não quis discutir. Outro dia discuti com uma senhora na Modern Sound. Eu tinha razão e ela mandou eu me enxergar. Eu mandei que ela se enxergasse também e silenciosamente mandei junto que ela fosse à merda. Mas com essa eu achei que não valia à pena porque eu estava com preguiça e o sorvete derreteria. Deixei pra debater o assunto com a Beta e a Carol Salomão, que concordou com a mulher. Todavia, quando confrontada com um vestido trapézio, ela não soube dizer o que o mesmo lhe causava. Carol Salomão tem dessas coisas, tem muita opinião pra uns assuntos e pra outros fica meio bocó. Carol Salomão, por exemplo, acha que post com tirinha de Peanuts é canastrão. E post com menos de cinco linhas idem. Carol Salomão é, provavelmente, a única pessoa que acha que um post é canastrão. E adora quando eu a cito no blog. Marcelo também adora, nunca entendi muito porque visto que o meu blog anda meio em baixa, nem a Déia passa mais por aqui... Mas eu ia dizendo que não discuti com a moça de conceitos de moda bizarros porque estava com preguiça, eu ando mesmo com preguiça. Outro dia uma amiga falou sobre um livro que eu já li e eu disse que tinha gostado só pra encurtar a conversa, às vezes eu minto pra cortar logo o assunto porque vai que eu digo que achei o livro péssimo e a pessoa amou e vai que a pessoa é do tipo que tenta te convencer do quanto o livro é bom, pior vai que ela ama o livro e odeia vestido trapézio? Tenho preguiça, muita, ando extremamente pecadora nesse sentido. Não é nem preguiça de conversar é mais uma coisa de dar explicações, sabe? O problema é que isso não funciona quando Carol Salomão está por perto porque ela sabe as verdades por trás das preguiças e sempre me desmascara. Carol Salomão é terrível, não deixa passar uma e eu deveria ficar zangada mas não consigo porque no momento em que eu digo palavras como zangada, bocó ou botão ela ri de chacoalhar e eu preguiçosamente esqueço e rio junto.
carol salomão. diz:
gagá... gosta dessa palavra,né?
Julieta diz:
gagá, traquinas, bocó... estou prestes a adotar "palerma". Palerma é bom, né?
carol salomão. diz:
palerma é ótimo.
paspalho tbm.
Julieta diz:
Paspalho é melhor que palerma.
Julieta diz:
Eu gosto também de escangalhado, tem um certo ar suburbano, não acha?
carol salomão. diz:
sim,sim.
Julieta diz:
outro dia me dei conta de que falo botão do mesmo jeito que falo comer. Com ó.
carol salomão. diz:
ai meu deus.
bOtão.
Julieta diz:
quase te liguei. Ia dizer que o botão da calça arrebentou enquanto eu comia.
mas vc ia pensar que eu estava te sacaneando...
carol salomão. diz:
isso aconteceu?
carol salomão. diz:
o botão escangalhou..enquanto vc comia?
Julieta diz:
isso não aconteceu. Vc ia achar que eu estava te sacaneando por falar bOtão.
mas não houve escangalho de bOtões enquanto eu cOmia, sua paspalha!
carol salomão. diz:
ai...q palerma q eu sou.
Julieta diz:
eu sempre desconfiei de que você fosse meio gagá mesmo...
Julieta diz:
hahahaha, você sabe que isso vai virar um post, né?
carol salomão. diz:
tudo acaba em post.
Julieta diz:
o Marcelo outro dia falou "cuidado que a Julia transforma tudo em post"
Carol Salomão só não vai achar esse post canastrão porque ela foi citada, o Marcelo vai me ligar feliz dizendo que adorou e a Déia não vai entender nada porque ela não conhece Carol Salomão, Marcelo, Beta e nem a mulher que não gosta dessa moda, muito menos a senhora que mandou que eu me enxergasse. Eu apresentaria a Déia pra todas essas pessoas (exceto a moça do vestido e a senhora do se enxerga, minha filha) mas teria que explicar a ela, por exemplo, que a gente canta Ana Carolina apenas porque acha muito engraçado e ela nos acharia totalmente paspalhos. Teria que explicar que a Beta, ao contrário da Carol Salomão e da moça, curte vestido trapézio mas já enjoou deles um pouco. Enfim, eu teria que explicar muitas coisas à Déia e eu ando tão preguiçosa que por via das dúvidas eu prefiro não promover o encontro. Digo que os telefones todos escangalharam e que a Carol anda meio cretina. É isso aí, um vendedor de flores...
:: Gotan Project!
- Eu não gosto dessa moda, não comprei nada dessa moda, acho tudo muito feio.
- O que, vestido trapézio?
- É, não gosto dessa moda.
- Mas tem outras roupas pra gente normal.
Eu fiquei muito intrigada com o fato da mulher ter sentenciado o vestido trapézio como roupa de gente anormal, mas não quis discutir. Outro dia discuti com uma senhora na Modern Sound. Eu tinha razão e ela mandou eu me enxergar. Eu mandei que ela se enxergasse também e silenciosamente mandei junto que ela fosse à merda. Mas com essa eu achei que não valia à pena porque eu estava com preguiça e o sorvete derreteria. Deixei pra debater o assunto com a Beta e a Carol Salomão, que concordou com a mulher. Todavia, quando confrontada com um vestido trapézio, ela não soube dizer o que o mesmo lhe causava. Carol Salomão tem dessas coisas, tem muita opinião pra uns assuntos e pra outros fica meio bocó. Carol Salomão, por exemplo, acha que post com tirinha de Peanuts é canastrão. E post com menos de cinco linhas idem. Carol Salomão é, provavelmente, a única pessoa que acha que um post é canastrão. E adora quando eu a cito no blog. Marcelo também adora, nunca entendi muito porque visto que o meu blog anda meio em baixa, nem a Déia passa mais por aqui... Mas eu ia dizendo que não discuti com a moça de conceitos de moda bizarros porque estava com preguiça, eu ando mesmo com preguiça. Outro dia uma amiga falou sobre um livro que eu já li e eu disse que tinha gostado só pra encurtar a conversa, às vezes eu minto pra cortar logo o assunto porque vai que eu digo que achei o livro péssimo e a pessoa amou e vai que a pessoa é do tipo que tenta te convencer do quanto o livro é bom, pior vai que ela ama o livro e odeia vestido trapézio? Tenho preguiça, muita, ando extremamente pecadora nesse sentido. Não é nem preguiça de conversar é mais uma coisa de dar explicações, sabe? O problema é que isso não funciona quando Carol Salomão está por perto porque ela sabe as verdades por trás das preguiças e sempre me desmascara. Carol Salomão é terrível, não deixa passar uma e eu deveria ficar zangada mas não consigo porque no momento em que eu digo palavras como zangada, bocó ou botão ela ri de chacoalhar e eu preguiçosamente esqueço e rio junto.
carol salomão. diz:
gagá... gosta dessa palavra,né?
Julieta diz:
gagá, traquinas, bocó... estou prestes a adotar "palerma". Palerma é bom, né?
carol salomão. diz:
palerma é ótimo.
paspalho tbm.
Julieta diz:
Paspalho é melhor que palerma.
Julieta diz:
Eu gosto também de escangalhado, tem um certo ar suburbano, não acha?
carol salomão. diz:
sim,sim.
Julieta diz:
outro dia me dei conta de que falo botão do mesmo jeito que falo comer. Com ó.
carol salomão. diz:
ai meu deus.
bOtão.
Julieta diz:
quase te liguei. Ia dizer que o botão da calça arrebentou enquanto eu comia.
mas vc ia pensar que eu estava te sacaneando...
carol salomão. diz:
isso aconteceu?
carol salomão. diz:
o botão escangalhou..enquanto vc comia?
Julieta diz:
isso não aconteceu. Vc ia achar que eu estava te sacaneando por falar bOtão.
mas não houve escangalho de bOtões enquanto eu cOmia, sua paspalha!
carol salomão. diz:
ai...q palerma q eu sou.
Julieta diz:
eu sempre desconfiei de que você fosse meio gagá mesmo...
Julieta diz:
hahahaha, você sabe que isso vai virar um post, né?
carol salomão. diz:
tudo acaba em post.
Julieta diz:
o Marcelo outro dia falou "cuidado que a Julia transforma tudo em post"
Carol Salomão só não vai achar esse post canastrão porque ela foi citada, o Marcelo vai me ligar feliz dizendo que adorou e a Déia não vai entender nada porque ela não conhece Carol Salomão, Marcelo, Beta e nem a mulher que não gosta dessa moda, muito menos a senhora que mandou que eu me enxergasse. Eu apresentaria a Déia pra todas essas pessoas (exceto a moça do vestido e a senhora do se enxerga, minha filha) mas teria que explicar a ela, por exemplo, que a gente canta Ana Carolina apenas porque acha muito engraçado e ela nos acharia totalmente paspalhos. Teria que explicar que a Beta, ao contrário da Carol Salomão e da moça, curte vestido trapézio mas já enjoou deles um pouco. Enfim, eu teria que explicar muitas coisas à Déia e eu ando tão preguiçosa que por via das dúvidas eu prefiro não promover o encontro. Digo que os telefones todos escangalharam e que a Carol anda meio cretina. É isso aí, um vendedor de flores...
:: Gotan Project!
sábado, junho 16, 2007
Peanuts
segunda-feira, junho 11, 2007
Mi corazón
Eu não quero namorar porque não quero achar legal capa de Veja Rio no inverno. Não quero ser aquela pessoa brega que em show de Los Hermanos canta no ouvido do par que “sem você sou pá furada”. Não quero ser reduzida a um apelido detestável no diminutivo. Não quero passar as noites de sábado no sofá vendo filme abraçadinho e também não faço nenhuma questão de dormir de conchinha porque não há nada mais confortável que se espalhar numa cama. Eu não quero namorar porque sou péssima pra dar presentes e já chega de datas comemorativas pra me levar à falência. Eu não quero namorar porque não quero ficar em fila de restaurante de fondue. Não quero namorar porque isso tudo é muito cafona e eu prezo a minha elegância moral. Eu não quero namorar porque não preciso que ninguém arranque minhas calcinhas de tule da Verve e as jogue sem dó nem piedade no chão. Não quero namorar porque não quero explicar coisas como o porquê de gostar de Fagner. Não quero ser uma daquelas pessoas que passam o filme todo com dor nas costas porque ficam tortos apenas pra ficarem abraçados o tempo todo com seu par, já basta rpg. Não quero falar frases como “desliga você primeiro”. Não quero ter que pedir pra tirar o alho da pizza ou a cebola da salada. Não quero ligar pra dar bom dia, boa tarde, boa noite dizer que ama e que está com saudades cinco minutos depois. Não quero namorar porque de ciúmes eu tenho o do cachorro. Não quero namorar porque não vou fazer companhia em japonês. Não quero namorar porque já tenho eventos suficientes da minha própria família. Não quero ficar olhando que nem idiota pra cara do namorado que nem é tão lindo assim, tem tanta coisa no mundo pra ser vista. Não quero namorar porque não quero perder as noites de filme na casa do amigo, não quero perder as noites de festa com um bando de gente engraçada, não quero namorar porque a probabilidade de achar alguém que vá dançar Michael Jackson comigo é remota. Eu não quero namorar porque não vou poder confessar que me apaixonei por Jack Sparrow depois de ver Piratas do Caribe. Não quero namorar porque tenho muito sono aos sábados e porque tem dias em que não gosto de conversar. Não quero ficar atada e nem quero alguém pra chamar de meu. Eu não quero namorar portanto não adianta vir com guaraná pra mim, é chocolate o que eu quero beber.
quinta-feira, junho 07, 2007
Lanterna dos afogados
Às vezes é preciso um bocado de impulsividade pra fazer as coisas acontecerem, aquelas atitudes impensadas que depois te fazem olhar pra trás e se perguntar como você foi capaz. Foi assim numa tarde lotada de Copacabana que eu entrei na loja na esquina da Siqueira Campos e sem mais delongas comprei um óculos de natação e um maiô. Tinha de ser assim, horário de almoço, cartão de crédito e saí da loja pensando em me jogar na primeira piscina que eu visse, porque o começo da atividade teria de ser dessa mesma forma. No caminho pro trabalho passei por um clube e então senti calafrios. Lembrei da minha última aula de natação e quase corri à loja pra devolver os apetrechos com medo de que a minha futura carreira aquática fosse uma sucessão de piscinas com água fervendo e de um constante escapar da morte (por calor, obviamente). E eis que a segunda aula de natação aconteceu em piscina indoor e quente como da primeira vez (faz tempo que saí da análise...). Havia, contudo, dois fatores essenciais que tonificaram a minha força de vontade para com o esporte: muita, muita dor nas costas e uma professora diferente que tinha o nome da minha mãe. Fui com a cara dela. Um ponto pra mim. Após a avaliação (uma chegada de cada um dos três estilos que eu sei nadar) ela disse que eu tinha muita potência de pernada. Dois pontos pra mim. Dez minutos depois de começada a aula eu tive um déjà vu dos brabos: muito ofegante e com muito calor eu achei que ia morrer sufocada e não havia liberação de bolhas que me convencesse do contrário. Fiz minha melhor cara de sofrimento e a Cláudia então me mandou intercalar as chegadas com mergulhinhos que ativamente recuperariam minha respiração em ritmo normal. Bullshit, eu pensei. E fui mergulhando enquanto pensava que natação seria muito mais bacana se houvesse alguma projeção no fundo da piscina, um filme mudo talvez de alguém em terra firme. Não compartilhei a idéia com a Cláudia porque acho que ela não ia entender e além disso ela estava muito entusiasmada em me ensinar a nadar. Como se eu realmente quisesse aprender isso, mas também não discuti com ela. Ao fim da aula ela disse que gostaria que eu voltasse, o que era compreensível porque além de mim só havia mais dois alunos na turma e a outra menina tinha um maiô muito mais horripilante que o meu. Milagrosamente eu voltei e na segunda aula aprendi como se nada peito de verdade e também aprendi a como andar depois de muitas chegadas de peito e lá pela metade da aula quando eu já começava a rezar internamente (natação devolve a fé perdida, eu juro) a Cláudia me deu um pé de pato. E então pela segunda vez em menos de dois meses eu me apaixonei de novo. Excel e pé de pato, eu poderia passar semanas nadando de pé e pato e fazendo contas no Excel. Eu poderia fazer planilhas no Excel que organizassem minha rotina de exercícios com pé de pato. Eu poderia, enfim, gostar de natação só por causa do pé de pato, mas o mundo é cruel e o pé de pato me deu câimbras horríveis no pé direito. A Cláudia alongou meus dedinhos e me separou do pé de pato e lá fui eu nadar crawl com os meus humildes pés que para meu pequeno consolo, segundo a Cláudia, são muito bem articulados. Voltei a odiar natação, a respiração ofegante e pensei que a única coisa que poderia me livrar desse purgatório é uma bursite no ombro. Mas não chego a deseja-la, porque esse tipo de coisa acontece...
segunda-feira, junho 04, 2007
o desabotoado céu - vol. 2
Os elásticos de cabelo continuam sumindo. Os grampos, ao contrário, não param de dar cria, não sei o que acontece, só sei que eles estão por toda parte: na mesinha, na escrivaninha, na pia do banheiro, na gaveta do banheiro, na gaveta do escritório, no carro, no bolso da mochila, nas bolsas, nos bolsos de calças e casacos e desconfio que eles sejam fruto de geração espontânea, escaparam à evolução darwinista. Desconfio também dos sábados. De uns tempos pra cá os sábados viraram uma ameaça constante aos meus sapatos e agora só saio de casa com galochas, o que exclui qualquer possibilidade de ficar elegante na estação do ano mais propícia para isso. É triste porque usando galochas as chances de conhecer alguém legal caem pela metade e juntando o fato de que na fila pra vacina de rubéola as chances de conhecer alguém legal caem pela mesma proporção então pronto, está feita a matemática: mais um sábado chuvoso e encalhado, ainda por cima de galochas (de onde veio, aliás, a expressão “chata de galochas”?). Depois de passar quase uma hora na fila do posto de saúde lendo um livro chatérrimo (é o segundo livro chatérrimo que leio de maio pra cá, talvez porque depois de Camus seja impossível que algo seja bom de novo) eu achei melhor entender logo o recado e procurar ajuda num lugar seguro, antes de dar chance pra que os sábados virassem uma novela tão chata quanto a das oito (que me causou arrepios no sábado anterior) onde eu teria muita quantidade (de chuva e grampos de cabelo) e pouca qualidade (galochas de plástico não são exatamente scarpins do Manolo Blahnik). E então veio o lugar seguro e mudou o rumo da prosa, eu voltei pra casa onde podia me livrar das galochas e do livro chato e ainda prender os cabelos com grampos, o que na verdade eu posso fazer em todo e qualquer lugar. E eu ainda tinha Buñuel e um telefone que com alguma sorte poderia não tocar naquela noite onde o que mais queria era ficar em casa no sofá porque a essa altura a minha maior felicidade era ter um pijama de flanela e meias quentinhas. E só porque era sábado e esse dia da semana tem sido sacana comigo o telefone tocou e depois de hesitar eu resolvi dar uma chance. Com muita dificuldade eu saí do pijama e quando voltei pra ele já era domingo, eu tinha falado, cochilado, rido e bebido bastante com a minha versão tupiniquim de Jules et Jim (salvo restrições), além de ter roubado filmes da videoteca de Jules (ou Jim?). E também ouvido Jim (ou Jules?) cantar bêbado no caminho de volta, numa língua que deve ter sido inspirada no francês. Acordei certa de que a maldição dos sábados havia passado e com certo receio de que o domingo traria a vingança. Me armei como pude: galochas, grampos e um chocolate quente com creme em companhia de uma amiga para quem eu não conseguiria achar personagem equivalente. E não me interessava mais conhecer alguém legal no domingo, ou eu não me iludia mais achando que isso seria possível com o tipo de calçado que eu usava. O domingo acabou bem, com a única esquisitice d’eu ter saído da livraria sem qualquer aquisição. Foi quando cheguei em casa e comecei a arrumar a mochila do dia seguinte, coisas de trabalho e grampos de cabelo que fazem as vezes de clipes que me dei conta, tolamente eu tinha esquecido: marquei aula de natação na segunda-feira. Galocha pouca é bobagem...
quarta-feira, maio 30, 2007
Frente fria
Era inverno, sua mão gelava e tudo acontecia num tempo lento. Levantar era doído e pouco dava motivo. Atrasava-se com frequência numa tentativa de diminuir o tempo das coisas. Queria inverter relógios enquanto executava funções que lhe causavam bocejos. Sentia vontade de apagar desenhos em vez de fazê-los. Tinha pouca fome, os chocolates sobravam. Tudo envolvia um esforço hercúleo, desde entrar no banho a conversar com um amigo. A apatia alastrava-se: cabelos enroscados em elásticos, botões faltando na camisa e uma brancura melancólica. Tropeçava em pedras portuguesas e numa dessas caiu a poucos centímetros de uma poça. Sorte, pensou. E ficou por ali deitada, virou-se e teve certeza de que o céu continuava carregado de nuvens. Era terça-feira, ia chover de novo, mais uma noite sem dormir. Não chorava porque havia perdido uma paixão, mas porque não se permitia mais encontrar uma.
:: Anda-se triste, anda-se vão. Os Subterrâneos in Aos Nossos Amores
www.myspace.com/ossubterraneos
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domingo, maio 27, 2007
A Godiva do Irajá
Uma calcinha média consome cerca de 0,13 m de tecido e 2 m de elástico frufru. O nome científico do elástico eu não sei, só sei que uma calcinha tanga consome 0,07 m de tecido e 2,3 m de elástico vulgarmente chamado de sanduíche. Essas foram as minhas bases de cálculo. Depois de contar todo o estoque de elásticos da casa (tarefa que durou uma semana porque havia muitos outros tipos além dos acima citados) pude efetivamente usar a fórmula e calculei que tínhamos matéria-prima para mais de 10 mil calcinhas. É lingerie que não acaba mais e descobri também que era planilha idem. O meu arquivo de excel tinha umas cinco abas: a primeira da contagem do estoque de elásticos, a segunda da contagem do estoque de aviamentos, a terceira da contagem do estoque de tecidos, a quarta da possível combinação de tecidos com elásticos de diversas cores, a quinta com os números finais e ainda uma sexta com os números de sobras de tecidos. Cada uma das abas do meu arquivo entitulado projeto calcinha continha um sem-número de cálculos e fórmulas e somas que por vezes achei que eu trabalhava num instituto de matemática e que fazer estilo requer tanto conhecimento de operações lógicas quanto de moda.
Essa foi a minha primeira grande tarefa, organizar toda a matéria-prima parada no estoque e nas fábricas e cruzar dados para que houvesse algum sentido estético nas roupas íntimas que formarão futuros kits-calcinha. E para a combinação das cores eu fui acumulando calcinhas antigas que me serviam de referência de estampas e mais um bocado de amostrinhas de elásticos grampeados num papel formando um arco-íris de elastano. Minha mesa virou uma pequena montanha de tangas e médias básicas e eu tenho quase certeza de que elas dão cria. O computador foi ficando soterrado e eu não achava sequer um lápis sob a pilha de peças íntimas.
Foi assim que ganhei a alcunha de Kátia Flávia e conquistei definitivamente meu espaço no escritório.
Essa foi a minha primeira grande tarefa, organizar toda a matéria-prima parada no estoque e nas fábricas e cruzar dados para que houvesse algum sentido estético nas roupas íntimas que formarão futuros kits-calcinha. E para a combinação das cores eu fui acumulando calcinhas antigas que me serviam de referência de estampas e mais um bocado de amostrinhas de elásticos grampeados num papel formando um arco-íris de elastano. Minha mesa virou uma pequena montanha de tangas e médias básicas e eu tenho quase certeza de que elas dão cria. O computador foi ficando soterrado e eu não achava sequer um lápis sob a pilha de peças íntimas.
Foi assim que ganhei a alcunha de Kátia Flávia e conquistei definitivamente meu espaço no escritório.
domingo, maio 20, 2007
o desabotoado céu
Era sábado e chovia forte e apenas com a segunda informação você já deduz que o caos instalou-se na aldeia. Pois bem. Tudo começou a dar errado antes: uma amiga furou o jantar, acordei sem querer às 7 da manhã, o cachorro comeu parte de um sapato verde, eu errei toda a concordância do passe composé e a cera de depilação acabou na metade da perna esquerda. O toró desabou no meio do caminho e eu quase desisti de ir ao show com medo do meu sapatinho cor de rosa se desmantelar na chuva, eu não podia me dar ao luxo de perder dois sapatos em menos de 24 horas, mas quando uma amiga disse que me buscava no Leblon eu achei que a sorte estava mudando e fui. Fato é que a chuva apertou, o show foi cancelado e a amiga resolveu se aventurar pelas ladeiras de Santa, eu procurei abrigo no shopping e lembrei que não se arranja carona impunemente. O shopping parecia festa de criança, sabe como é, sábado chuvoso e as mães levam os filhos ao teatro, uma barulheira, muitas babás e criancinhas correndo de lá pra cá e eu tive que me abrigar ainda mais, no cabeleireiro enquanto resolvia se voltava pra casa pra salvar meu sapatinho ou se usava o celular pra tentar salvar a minha noite. Achei que ambos estavam perdidos no exato momento em que a manicure sem querer derrubou o pote de água em cima do meu sapato. Quase chorei porque a contabilidade não estava a meu favor: dois sapatos agonizantes, metade de uma perna não-depilada, olheiras e uma lista quilométrica de exercícios de francês. Saí do shopping correndo com medo de que mais uma tragédia acontecesse e fui buscar abrigo na casa da vovó, por alguns segundos pensei em ser recebida por uma vó que me ofereceria uma mantinha, acenderia a lareira e me traria biscoitos saídos do forno junto com uma xícara de chá, ha-ha, a vida não é filme você não entendeu. Sentamos pra ver o jornal e de repente começou a novela das oito e aí sim é que coisa ficou preta, poucas vezes eu senti tanta vergonha pelos outros e quando numa cena em que o casal se encontrava no aeroporto tudo ficou em câmera lenta eu achei que era hora de ir pra casa dormir. E foi assim numa noite de tempestade em pleno sábado que eu tirei meu Santo Antonio do fundo do armário mas na última hora fiquei na dúvida se pedia pra ele um namorado ou pra São Pedro um solzinho e porque a sorte me fugia pedi pro meu pai um edredom e um travesseiro de pena de ganso e agora está resolvido: dia de chuva eu fico em casa.
quarta-feira, maio 09, 2007
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Primeiro tentou o bar, que era o lugar mais certo. Procurou com olhos de águia e o garçom confirmou: ele não estava lá. Já estava tarde, continuou a busca no dia seguinte. Tentou a padaria poucos minutos depois da primeira fornada, na sobremesa do almoço comeu carolinas de creme e o sol já ia longe quando ela foi pra casa carregando um pacote de sonhos. Era domingo e o sol a levou às praias, muitas, caminhou sem pressa no limite onde a espuma vinha refrescar os pés, sorvete de manga e uma água de côco no quiosque de costume mas ele não havia sequer passado por ali. Na segunda-feira tentou a livraria e entre um café e outro folheou poemas e ensaios e fazia tempo que os livreiros não o viam entrar. Pela banca de jornal ele também não passava há dias. Então arriscou lugares improváveis. Na quarta-feira foi ao Planetário da cidade e ele não estava entre as constelações. Mais cedo estivera no museu do Segundo Reinado e não o encontrara. No dia seguinte ele também não estava no concerto do Teatro Municipal. No dia em que uma semana de busca se completaria ela foi ao Shopping e não cruzou com ele nas escadas rolantes e nem mais tarde na sala escura do cinema, e ela o saberia mesmo num blecaute. Os dias se passavam e ela não desistia. Foi à Feira de Antiguidades, às rodas de samba da Lapa, foi aos centros culturais do Centro Histórico, percorreu pequenas ruelas, subiu as ladeiras de Santa Teresa e quando chegou ao topo ele não estava. Freqüentou diversos cineclubes e até algumas reuniões de grupos de apoio, doou sangue regularmente, descobriu os sebos de Copacabana. Assistiu belas apresentações de choro, finalmente conheceu Parati e aprendeu a dançar, mas ele não estava na gafieira para aplaudir seu début. Começou a nadar, praticou meditação e foi a melhor aluna das aulas de culinária. Foi aos restaurantes da moda e também aos mais tradicionais bares da cidade. Matriculou-se nas aulas de artes e fez um curso de tradução simultânea, mas não o achava por lá. Trabalhou numa grande empresa, mudou-se para o Horto e cultivou um jardim que ele nunca ia ver. Fez curso de fotografia, aprendeu alemão e começou a estudar política internacional. Descobria tantas coisas novas e interessantes que aos poucos esquecia de procura-lo em todo canto. Foi só quando resolveu aprender esgrima que finalmente o encontrou. Era a primeira aula de ambos e num impulso que culminou em golpe desajeitado ela lhe enfiou a espada pela barriga. Ele caiu duro no chão e ela então reparou: ele não sangrava.
:: "Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone" in Esquadros
:: "Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone" in Esquadros
sábado, maio 05, 2007
autobiografia vol. 2
Meu cabelo cai no outono e eu tenho uma tendência a gostar somente dos biscoitos que a minha avó faz pra mim, portanto não me ofereça aqueles que vêm em saquinhos fofos de lojas e cafés porque eu não vou comer. Deve ser preconceito e eu não ligo de ser politicamente incorreta com isso. Eu também não ligo muito de ficar um mês sem ir a manicure, acho um porre ficar sentada no salão e nunca entendi porque que eles nos dão revistas se as nossas mãos ficam ocupadas, acho uma sacanagem dessa gente. Também não ligo quando a minha mãe diz que eu devia tirar o esmalte com acetona em vez de ficar descascando aos poucos.
Eu não gosto de dividir chocolates e talvez isso seja péssimo, o fato é que chocolates se adequam perfeitamente à minha classe de coisas indivizíveis, assim como sorvete. As frases “vamos dividir um chocolate?!” ou “vamos rachar um sorvete?!” apenas não procedem, desconfio de gente que sugere esse tipo de coisa. Também desconfio de gente que é feliz demais o tempo todo e além de desconfiada esse tipo de comportamento me deixa bastante irritada. Pedestre me irrita também porque a maioria deles é suicida em potencial e muito egoísta: se querem morrer tudo bem, eu não me oponho, mas prefiro não fazer parte do ritual. Com o tempo eu descobri que o carro é o melhor lugar pra ouvir música e dependendo do trânsito eu consigo ouvir Edu e Bethânia do começo ao fim. Às vezes até quero que São Conrado esteja meio lento porque assim dá tempo de ouvir Transa todinho. Eu acho um saco essa gente que não usa seta, me pergunto se os carros deles têm seta. Não precisa fazer como eu, que às vezes uso seta dentro da garagem, mas acho que não custa nada sinalizar uma curva ou uma ultrapassagem e tal. Xingo essas pessoas mentalmente, às vezes verbalizo, mesmo que eles não ouçam. Os chamo de bocós, quase sempre. Eu canto no carro. E interpreto. Eu choro quase sempre que ouço Cazuza ou o Chet Baker cantando My Funny Valentine. Eu adoro dar carona às pessoas, mas às vezes eu preferiria se elas ficassem quietas e não atrapalhassem a música.
Eu gosto muito de música mas larguei o violão porque não sabia fazer pestana. E não, não é questão de treino, é uma questão de que algumas mãos conseguem, outras não, simples assim. Eu queria aprender piano, mas ficar sentada é ruim. Ficar sentada no cinema é péssimo e até hoje nenhuma cadeira é totalmente confortável. Cadeira de ônibus é a pior espécie. Tenho pavor de ônibus, estando dentro ou fora de um. Tenho medo de injeções e agulhas também e fiz um piercing uma vez em Camdem Town nem sei como. Eu tenho paixão por Londres. E adoro os ingleses, especialmente o Hugh Grant.
Eu amei todos os filmes que vi do Fellini e nunca entendi porque que a Mônica queria ver um filme do Godard. Eu fiquei muito irritada quando li O Estrangeiro e também O Livro dos Prazeres e adoraria ler uma conversa entre Mersault e Lóri, tento imaginar como seria. Eu imagino muitos diálogos e muitos encontros e na prática a coisa acontece exatamente toda ao contrário. Eu como salada depois da refeição e empilho pepinos no prato, aprendi a gostar de cebola mas aquelas coisas que parecem alpiste eu não engulo, literalmente. Eu engulo muito sapo e vou guardando e guardo também uma quantidade absurda de coisas que variam de agendas velhas e amareladas à medalha de um ex-namorado que eu nunca mais vi. Eu sou um pouco extremista em algumas coisas e acabo cortando relações radicalmente.
Eu sou muito encalhada, desde sempre. Eu prefiro os malucos/perturbados e quando começo a me interessar por alguém eu já sei um pouco o que esperar. Eu tenho conseguido não esperar nada e tenho tido muita preguiça disso então mudo logo de assunto quando algumas pessoas sem piedade soltam a frase “VOCÊ está solteira? Mas como???” e tenho vontade de mandar essa gente ir dividir chocolate com alguém, se não vai ajudar pelo menos não piora. Toda vez que conheço alguém novo eu penso se seria bacana ficar presa no elevador com essa pessoa e isso não tem a ver com qualquer fantasia sexual, apenas acho que existe gente com quem eu conversaria por horas enquanto outras eu preferiria jogar no poço.
Eu odeio casal que fica se beijando no cinema. E gente que fica tirando foto em show, apesar de fazer isso eventualmente. Câmera de celular é algo que não faz sentido na minha vida. Eu também nunca entendi porque que o Seu Jorge resolveu cantar com a Ana Carolina. E acho um saco esse troço de mp3, ipods e afins, eu adoro cds, encartes que vão amassando com o uso, caixas que vão se quebrando com os deslocamentos, eu gosto de ver a marca do tempo nas coisas. Mas acho desnecessário foto desbotar, cabelo ficar branco e discos vertebrais desidratarem. Eu acho o Grupo Corpo fenomenal e tenho inveja das bailarinas invertebradas que fazem parte da companhia. Eu morro de saudade de fazer aula de sapateado e também dos amigos que eu vejo pouco. Eu tento ver todo mundo sempre, mas tem dias que só o George Clooney me faria sair de casa.
Eu tenho gostado muito de estudar e anotar idéias e tenho mania de cadernos. Faço top 5 lists por causa do Rob de Alta Fidelidade e poucas vezes concluo porque acho que seria injustiça se o Acabou Chorare ficasse de fora dos melhores discos de música brasileira da década de 70 então institui que a quinta posição é mutante. Posso afirmar, porém, que a primeira posição vitalícia das músicas dos Beatles em que dá vontade morar é A Day in The Life. Sim, eu creio que algumas canções são habitáveis.
Eu sou assim. E se você me acha completamente dispensável e insípida e quiser evitar riscos, use as escadas.
Eu não gosto de dividir chocolates e talvez isso seja péssimo, o fato é que chocolates se adequam perfeitamente à minha classe de coisas indivizíveis, assim como sorvete. As frases “vamos dividir um chocolate?!” ou “vamos rachar um sorvete?!” apenas não procedem, desconfio de gente que sugere esse tipo de coisa. Também desconfio de gente que é feliz demais o tempo todo e além de desconfiada esse tipo de comportamento me deixa bastante irritada. Pedestre me irrita também porque a maioria deles é suicida em potencial e muito egoísta: se querem morrer tudo bem, eu não me oponho, mas prefiro não fazer parte do ritual. Com o tempo eu descobri que o carro é o melhor lugar pra ouvir música e dependendo do trânsito eu consigo ouvir Edu e Bethânia do começo ao fim. Às vezes até quero que São Conrado esteja meio lento porque assim dá tempo de ouvir Transa todinho. Eu acho um saco essa gente que não usa seta, me pergunto se os carros deles têm seta. Não precisa fazer como eu, que às vezes uso seta dentro da garagem, mas acho que não custa nada sinalizar uma curva ou uma ultrapassagem e tal. Xingo essas pessoas mentalmente, às vezes verbalizo, mesmo que eles não ouçam. Os chamo de bocós, quase sempre. Eu canto no carro. E interpreto. Eu choro quase sempre que ouço Cazuza ou o Chet Baker cantando My Funny Valentine. Eu adoro dar carona às pessoas, mas às vezes eu preferiria se elas ficassem quietas e não atrapalhassem a música.
Eu gosto muito de música mas larguei o violão porque não sabia fazer pestana. E não, não é questão de treino, é uma questão de que algumas mãos conseguem, outras não, simples assim. Eu queria aprender piano, mas ficar sentada é ruim. Ficar sentada no cinema é péssimo e até hoje nenhuma cadeira é totalmente confortável. Cadeira de ônibus é a pior espécie. Tenho pavor de ônibus, estando dentro ou fora de um. Tenho medo de injeções e agulhas também e fiz um piercing uma vez em Camdem Town nem sei como. Eu tenho paixão por Londres. E adoro os ingleses, especialmente o Hugh Grant.
Eu amei todos os filmes que vi do Fellini e nunca entendi porque que a Mônica queria ver um filme do Godard. Eu fiquei muito irritada quando li O Estrangeiro e também O Livro dos Prazeres e adoraria ler uma conversa entre Mersault e Lóri, tento imaginar como seria. Eu imagino muitos diálogos e muitos encontros e na prática a coisa acontece exatamente toda ao contrário. Eu como salada depois da refeição e empilho pepinos no prato, aprendi a gostar de cebola mas aquelas coisas que parecem alpiste eu não engulo, literalmente. Eu engulo muito sapo e vou guardando e guardo também uma quantidade absurda de coisas que variam de agendas velhas e amareladas à medalha de um ex-namorado que eu nunca mais vi. Eu sou um pouco extremista em algumas coisas e acabo cortando relações radicalmente.
Eu sou muito encalhada, desde sempre. Eu prefiro os malucos/perturbados e quando começo a me interessar por alguém eu já sei um pouco o que esperar. Eu tenho conseguido não esperar nada e tenho tido muita preguiça disso então mudo logo de assunto quando algumas pessoas sem piedade soltam a frase “VOCÊ está solteira? Mas como???” e tenho vontade de mandar essa gente ir dividir chocolate com alguém, se não vai ajudar pelo menos não piora. Toda vez que conheço alguém novo eu penso se seria bacana ficar presa no elevador com essa pessoa e isso não tem a ver com qualquer fantasia sexual, apenas acho que existe gente com quem eu conversaria por horas enquanto outras eu preferiria jogar no poço.
Eu odeio casal que fica se beijando no cinema. E gente que fica tirando foto em show, apesar de fazer isso eventualmente. Câmera de celular é algo que não faz sentido na minha vida. Eu também nunca entendi porque que o Seu Jorge resolveu cantar com a Ana Carolina. E acho um saco esse troço de mp3, ipods e afins, eu adoro cds, encartes que vão amassando com o uso, caixas que vão se quebrando com os deslocamentos, eu gosto de ver a marca do tempo nas coisas. Mas acho desnecessário foto desbotar, cabelo ficar branco e discos vertebrais desidratarem. Eu acho o Grupo Corpo fenomenal e tenho inveja das bailarinas invertebradas que fazem parte da companhia. Eu morro de saudade de fazer aula de sapateado e também dos amigos que eu vejo pouco. Eu tento ver todo mundo sempre, mas tem dias que só o George Clooney me faria sair de casa.
Eu tenho gostado muito de estudar e anotar idéias e tenho mania de cadernos. Faço top 5 lists por causa do Rob de Alta Fidelidade e poucas vezes concluo porque acho que seria injustiça se o Acabou Chorare ficasse de fora dos melhores discos de música brasileira da década de 70 então institui que a quinta posição é mutante. Posso afirmar, porém, que a primeira posição vitalícia das músicas dos Beatles em que dá vontade morar é A Day in The Life. Sim, eu creio que algumas canções são habitáveis.
Eu sou assim. E se você me acha completamente dispensável e insípida e quiser evitar riscos, use as escadas.
sábado, abril 28, 2007
A minha casa
Um dia eu tive que desmontar a casa. Foi um dia comum, desses que começam com o despertador tocando, a idéia de mais cinco minutos te fazendo levantar depressa, o café forte pra acordar e uma parte do jornal que acaba ficando esquecida no banco do ônibus. Antes do dia em que desmontei a casa houve uma seqüência quase interminável de dias em que eu sabia que teria que desmontar a casa, mas nos dias anteriores ao definitivo eu sabia também que podia adiar mais um pouco e por causa disso as semanas foram passando, e meses até e eu podia jurar que não mais teria de desmontar a casa, mesmo sabendo que isso era uma mentira. O dia em que eu teria que desmontar a casa foi ficando distante porque a cada outro dia em que tudo continuava em seu lugar eu desejava mais e mais que o dia do desmonte não chegasse. E embora eu soubesse que tudo caminhava em direção ao dia de desmontar a casa, eu queria que as coisas permanecessem assim quietas porque essa era a minha casa e a outra casa não. E a minha casa que seria desmontada se parecia cada vez mais com o lugar onde eu queria viver, enquanto a outra casa ficava sempre parecida com uma outra coisa que não a minha casa. Eu adiei o máximo que pude, e depois de dias e semanas e meses, de cafés fortes engolidos no atraso da manhã, de pedaços de notícias em ônibus e bancos e solavancos, de cinco minutos que se acumulavam como os dias em que eu não desmontava nada, um dia eu tive que desmontar a casa. E porque eu sabia que tantas coisas viriam à tona, porque eu sabia que desmontar a casa seria como um desabamento de caixas que eu não queria abrir, e porque a outra casa não era a minha enquanto a minha casa que seria desmontada ainda era o meu lugar, porque eu sabia que não estava ou não queria estar preparada pra isso, cheguei ao dia limite do qual eu não poderia mais fugir. Um dia eu tive que desmontar a casa, um dia comum, marcado no calendário, talvez fosse aniversário de um amigo com quem há muito não falo, talvez fosse o dia de pagar a conta do telefone, um dia eu tive que começar a remexer nos muitos objetos e troços que entupiam gavetas, que enchiam prateleiras e armários da minha casa e que um dia iriam preencher os espaços ainda vazios da outra casa que talvez um dia eu pudesse chamar de minha casa, mas que por enquanto era só o algoz que me fazia prisioneira de uma resistência que eu tinha em deixar a minha casa. Um dia eu tive que desmontar a casa e me desfazer de parte das coisas que eu não poderia levar para a outra casa e aos poucos e aos prantos eu tive que ir rasgando papéis e enchendo sacos de lixo, torcendo pra que aquilo tudo ficasse bem guardado na memória pra se um dia na outra casa eu quisesse lembrar dessas coisas eu pudesse fechar os olhos e pensar nas gavetas e estantes da minha casa que então já seria de outrem. No dia em que eu desmontei a casa eu me encontrei por meio de cartas e revistas, livros e cartões, fotografias desbotadas e quadros com tanta gente, gargalhei lendo histórias dessas pessoas, ri das promessas de amor efêmeras e fui bailarina, cantora, médica, andarilha, estilista e todas as outras profissões que eu não tive, mas que agendas e diários contam e entendi que me desfazer das coisas que eu guardava me doía tanto porque essas coisas tinham muito de mim e a minha casa tinha todas essas coisas. No dia em que desmontei a minha casa eu senti o meu peito encolhido, batendo arrastado, querendo parar um pouco porque deixar a minha casa desmontada e vazia seria como abandonar uma parte de mim. No dia em que eu desmontei a minha casa eu entendi que todo o dilaceramento vinha da idéia de que na minha casa eu guardava todas as referências de quem eu era e de quem eu tinha sido e a idéia da outra casa que ainda não era minha me apavorava pela possibilidade d’eu ser tantas outras coisas, mas sobretudo eu tinha medo de não ser mais aquela pessoa que eu conhecia tão bem na minha casa e de não saber me sentir confortável na casa que um dia eu poderia chamar de minha, ou nunca. Um dia eu tive que desmontar a minha casa. Foi um dia triste e sem graça, com nuvem carregada e poças de lama, desses que começam com o despertador tocando e a idéia de cinco minutos se transformando na idéia de uma vida inteira.
quinta-feira, abril 26, 2007
de trabalho
Tenho tido muito assunto, muitas noites mal-dormidas, algumas epifanias, muito calor, muitas novidades, um pânico específico, velhas compulsões que aparentemente me perseguem e, confesso, uma nova paixão.
De assuntos, noites, novidades e epifanias, converso com algumas pessoas, às vezes falo sozinha no carro, às vezes enterro na areia.
De calor, um dia morrerei (no Saara, provavelmente).
De compulsões que me perseguem, a culpa não é minha: trabalho tão perto da Modern Sound que se tropeçar caio lá dentro e se me distraio saio de lá com três cds e menos dinheiro na conta.
Do pânico específico, me agarro o quanto posso nas barras dos ônibus em que tenho andado, traço estratégias e planos pra quando subir, pra quando passar pela roleta e pra quando descer, mas o medo e os perigos iminentes não me enganam: um dia me esborracho dentro de um ônibus e quebro um dente (ou a cara, literalmente) (e uma observação: em quatro dias ainda não repeti um ônibus, o que indica que tudo vai a Copacabana e, saravá! tudo volta de lá).
Da nova paixão, eu sei, é um pouco ridículo, mas depois de algumas planilhas e macetes fantásticos, caí de amores pelo Excel e já não posso conceber a existência sem ele.
:: Killing an arab, The Cure
De assuntos, noites, novidades e epifanias, converso com algumas pessoas, às vezes falo sozinha no carro, às vezes enterro na areia.
De calor, um dia morrerei (no Saara, provavelmente).
De compulsões que me perseguem, a culpa não é minha: trabalho tão perto da Modern Sound que se tropeçar caio lá dentro e se me distraio saio de lá com três cds e menos dinheiro na conta.
Do pânico específico, me agarro o quanto posso nas barras dos ônibus em que tenho andado, traço estratégias e planos pra quando subir, pra quando passar pela roleta e pra quando descer, mas o medo e os perigos iminentes não me enganam: um dia me esborracho dentro de um ônibus e quebro um dente (ou a cara, literalmente) (e uma observação: em quatro dias ainda não repeti um ônibus, o que indica que tudo vai a Copacabana e, saravá! tudo volta de lá).
Da nova paixão, eu sei, é um pouco ridículo, mas depois de algumas planilhas e macetes fantásticos, caí de amores pelo Excel e já não posso conceber a existência sem ele.
:: Killing an arab, The Cure
sábado, abril 21, 2007
Nadando contra a corrente
Um dia eu concluí que algumas das coisas que lemos são mais confiáveis que pessoas, e por causa de uma edição da Piauí eu fui fazer uma aula de natação (mesmo que, meses antes o médico tivesse recomendado o mesmo). Eu desconfiei que minha conclusão fora precipitada no momento em que o relógio marcava 8:05, a aula tinha começado às 7:50 e eu já achava que ia morrer. De calor. E olha que de calor eu tenho vivência... Eram 8:05 da manhã quando eu senti que suava dentro da piscina e essa incongruência foi apenas um dos fatores que me levaram a concluir, dessa vez com conhecimento de causa, que natação na Piauí é poesia que a gente não vive.
Pra começar que o traje de natação é qualquer coisa de deprimente e todo ser metido numa toca e num óculos perde parte de sua credibilidade. Pra sorte ou desespero, não sei ainda, o professor (no meu caso professora) não entra na piscina em momento algum. Além de não ter que passar pelo ridículo do figurino, o cara também não ferve. Sim, porque piscina aquecida é eufemismo, aquela água estava mais para fervida.
Fazia aproximadamente 17 anos que eu não nadava nem cachorrinho e o primeiro comando que a professora deu foi: ida e volta de crawl, ida e volta de peito, ida e volta de costas, ida e volta de golfinho. Eu disse que golfinho pra mim era aquele bicho que a gente vê em passeio de barco em Noronha, passeio no Sea World ou foto na Wikipedia e parti pra desbravar o tedioso mundo dos azulejos enfileirados. Seis braçadas e estava cumprida a rota de ida, mais seis na rota da volta e então o nado peito e depois o nado costas. Descobri que nadar é que nem andar de bicicleta, não só no sentido de que não se esquece mas também no sentido de que não vale a pena pagar por isso. O resto da aula foi mais ou menos igual ao começo: nada pra cá, nada pra lá. É claro que eu não esperava aprender como cozinhar um pato no vapor, mas achei que depois de quase 20 anos sem praticar, alguém me daria pelo menos um alento.
Ainda, eu pensava que nadar era atividade calma e apaziguadora. Ledo engano. Sai da piscina mal me equilibrando nas minhas pernas, que tremiam e ameaçavam me deixar na mão a qualquer passo. Fui pra casa, confesso, com uma sensação de relaxamento, caí na cama e dormi que nem um bebê. Esse era o único argumento que poderia me fazer mudar de idéia mas então lembrei-me de rede, vinho, relaxante muscular e vi que algumas boas horas de sono podem ser mais facilmente conseguidas através de meios pouco nobres, mas ainda assim menos aterrorizantes.
E foi assim, num modelito horripilantemente démodé que eu fervi, quer dizer, nadei durante quase 40 minutos numa piscina enquanto repassava mentalmente diversos trechos das matérias da Piauí, lembrava dos relatos entusiasmados e apaixonados que lera e comecei a me indagar se seria um problema do esporte em si ou da minha falta de romantismo. Achei melhor não concluir porque da última vez que fiz isso fui parar numa aula de natação.
Pra começar que o traje de natação é qualquer coisa de deprimente e todo ser metido numa toca e num óculos perde parte de sua credibilidade. Pra sorte ou desespero, não sei ainda, o professor (no meu caso professora) não entra na piscina em momento algum. Além de não ter que passar pelo ridículo do figurino, o cara também não ferve. Sim, porque piscina aquecida é eufemismo, aquela água estava mais para fervida.
Fazia aproximadamente 17 anos que eu não nadava nem cachorrinho e o primeiro comando que a professora deu foi: ida e volta de crawl, ida e volta de peito, ida e volta de costas, ida e volta de golfinho. Eu disse que golfinho pra mim era aquele bicho que a gente vê em passeio de barco em Noronha, passeio no Sea World ou foto na Wikipedia e parti pra desbravar o tedioso mundo dos azulejos enfileirados. Seis braçadas e estava cumprida a rota de ida, mais seis na rota da volta e então o nado peito e depois o nado costas. Descobri que nadar é que nem andar de bicicleta, não só no sentido de que não se esquece mas também no sentido de que não vale a pena pagar por isso. O resto da aula foi mais ou menos igual ao começo: nada pra cá, nada pra lá. É claro que eu não esperava aprender como cozinhar um pato no vapor, mas achei que depois de quase 20 anos sem praticar, alguém me daria pelo menos um alento.
Ainda, eu pensava que nadar era atividade calma e apaziguadora. Ledo engano. Sai da piscina mal me equilibrando nas minhas pernas, que tremiam e ameaçavam me deixar na mão a qualquer passo. Fui pra casa, confesso, com uma sensação de relaxamento, caí na cama e dormi que nem um bebê. Esse era o único argumento que poderia me fazer mudar de idéia mas então lembrei-me de rede, vinho, relaxante muscular e vi que algumas boas horas de sono podem ser mais facilmente conseguidas através de meios pouco nobres, mas ainda assim menos aterrorizantes.
E foi assim, num modelito horripilantemente démodé que eu fervi, quer dizer, nadei durante quase 40 minutos numa piscina enquanto repassava mentalmente diversos trechos das matérias da Piauí, lembrava dos relatos entusiasmados e apaixonados que lera e comecei a me indagar se seria um problema do esporte em si ou da minha falta de romantismo. Achei melhor não concluir porque da última vez que fiz isso fui parar numa aula de natação.
quinta-feira, abril 12, 2007
O ministério da saúde adverte:
Sempre fora um homem discreto, mesmo quando usava de galanteios que a faziam corar, os dizia longe dos ouvidos de terceiros. Foi o que a convenceu. Por anos tinha visto inúmeros tipos de cafajestes que desfilavam por sua casa e a discrição deste, o seu jeito comedido, seus gestos, contidos até, a conquistaram. Mesmo em suas demonstrações de afeto, que com o passar dos dias tornavam-se mais freqüentes, era um homem de pouco teatro. Suas falas eram sempre simples, quase espontâneas e poucas vezes vinham acompanhadas de caixas de bombons ou buquês de flores. Até quando usava clichês parecia mais original: lhe presenteava com discos em datas sem qualquer significado, a levava para almoços surpresas em segundas-feiras ensolaradas e até metereologicamente se diferenciava dos outros. Jamais comeram pipoca em noite chuvosa ou fizeram pic-nic na primavera. Era o que a encantava e o que ele tinha de mais charmoso, esse jeito de ir caminhando devagar, apontando cores, desviando da grama. Era um homem paciente e expressava sua delicadeza sem os constrangimentos da maioria dos outros que conhecera, falava de seus medos, emocionava-se com filmes antigos e era capaz de passar horas alisando os cabelos dela enquanto conversavam banalidades no sofá da sala. Até terapia já tinha feito, existencialista. Tivera um cão quando criança, lera quadrinhos e sonhara ser super-herói com capa colorida. Quebrara o braço uma ou duas vezes, tinha o avô como ídolo, namorava as meninas de sua idade. Fora punk por rebeldia, tocara guitarra em banda com os amigos do colégio e admitia até ter tido dor de cotovelo. Quis ser gauche quando leu Drummond, quis ser picareta quando descobriu Godard, foi exagerado quando escutou Cazuza e quase foi poeta por convicção quando descobriu Cartola. Resolveu que por fim, teria de ser aquilo mesmo que era, teria que ir pisando manso pelas calçadas, teria que desviar dos jardins e olhar com calma as cores quando o sol se punha. Ela o ouvia com atenção e sorria ao ouvir suas histórias, sempre tão possíveis e se arrepiava lentamente quando ele a beijava no pescoço, seus lábios macios que ressecavam um pouco no inverno, até nisso era um homem comum e por ser tão alcançável e sincero é que ela gostava e se envolvia cada vez mais com ele, que de tão tão mortal acabou por se tornar uma espécie de raridade, de incompatível com o resto das coisas que ela conhecia. Tentava, em vão, achar nele defeitos graves, traições e por vezes até o seguiu pra ver se se encontrava com outras às escondidas. Devia ficar aliviada cada vez que apenas confirmava a lealdade daquele sujeito mas ao contrário, sua angústia crescia a ponto de ficar cada vez mais irritada e com isso esperava ansiosamente pelo dia em que ele também se irritaria com ela e falaria palavrões e baixarias e confessaria seus crimes, mas nada. Amava um chinês, pensou, e zen, um homem cuja calma e tranqüilidade não se abalavam. E não havia jeito, por mais que tentasse, por mais que procurasse, nada. Sabia que tinha nas mãos o que sempre quisera, um companheiro de verdade e pensando bem conseguia lembrar-se de pequenos delitos dele, alguns atrasos, um dia ou dois de preguiça e uma vez chegaram mesmo a discutir, os tons de voz se elevaram. Ponderou. Não poderia passar o resto dos anos privando-se das alegrias de uma vida a dois só porque constava em sua ficha um sem-número de desilusões amorosas. Virou a página, comprou um vestido novo e ingressos pra sessão das oito, telefonou pra ele e marcou de se encontrarem na esquina. Ele chegou com um disco que há muito ela procurava, finalmente o conseguira na feira de antiguidades. Dividiram uma coca, aplaudiram o filme no final e foram pra casa dela onde passaram o resto da noite bebendo conhaque, dançando de rosto colado, ele cantando baixinho em seu ouvido e Billie Holliday na vitrola. Os dias se seguiram assim, cheios de momentos de intensa paixão até o dia em que, saindo do banho de manhã ele disse que a amava. Abraçou-a como de costume, o corpo ainda úmido e lhe disse: te amo. Ela sentiu as pernas fraquejarem e por um instante quis soca-lo, quis mata-lo, quis chorar, quis que aquela frase nunca tivesse sido dita mas ao invés disso o beijou com doçura e o envolveu com seus braços finos, fez um carinho em sua nuca e entrou no boxe. Era sábado. Ela entrou no banho. Soltou os cabelos e sem conseguir mais conter as lágrimas, deixou-se inundar. Era um choro triste e amargo, o contrário do que deveria ser. Finalmente agora ela sabia, ninguém podia ser tão perfeito quanto aquele menino. Ele gritou-lhe do quarto que ia ao mercado comprar cigarros. Foi a última vez que.
quarta-feira, abril 04, 2007
(sem título 2)
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara
(...)
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.
nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender
(...)
torquato neto, 1969.
que a gente mais se depara
(...)
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.
nem sei se eu sou o caso
que mais mereço entender
(...)
torquato neto, 1969.
sábado, março 31, 2007
sem título
Preguiça ou solidão, tédio ou ressaca, por alguma razão resolvi passar o dia enfiada na camisola, olhava as formigas que andavam pelo chão e ouvia uma música quase triste que me lembrou você e enquanto eu tentava resolver se devia me lembrar sorrindo ou te odiando bateu um ventinho e eu cochilei.
Quando levantei já era noite e você tinha deixado um bilhetinho, a música tinha mudado. As formigas continuavam por ali, o cachorro me dava a barriga pra fazer carinho e eu segurava o seu bilhete sem entender muito como é que aquilo tinha ido parar ali.
Sua caligrafia torta, tinta azul, uma folha de caderno mal arrancada, fim do disco e sem querer assassinei duas ou três das formiguinhas que iam e vinham num tropeço como uma bêbada esgueirando-me pela parede.
Quando realmente acordei entendi como era fácil que você pudesse consertar tudo em sonho, o disco já acabara há meia hora, a luz da secretária eletrônica indicava um recado que não era o seu e eu não era uma criminosa.
Preguiça ou solidão, tédio ou ressaca, por alguma razão resolvi passar o dia enfiada na cama, o cachorro guardando a porta do meu quarto, as formigas em seu vai-e-vem habitual e eu ouvia a mesma música quase triste que me lembrou você e entendi que eu só podia fazer isso com uma saudade dilacerante.
:: I wish I was in a suitcase on my way back home to you... The Magic Numbers em Which Way to Happy
Quando levantei já era noite e você tinha deixado um bilhetinho, a música tinha mudado. As formigas continuavam por ali, o cachorro me dava a barriga pra fazer carinho e eu segurava o seu bilhete sem entender muito como é que aquilo tinha ido parar ali.
Sua caligrafia torta, tinta azul, uma folha de caderno mal arrancada, fim do disco e sem querer assassinei duas ou três das formiguinhas que iam e vinham num tropeço como uma bêbada esgueirando-me pela parede.
Quando realmente acordei entendi como era fácil que você pudesse consertar tudo em sonho, o disco já acabara há meia hora, a luz da secretária eletrônica indicava um recado que não era o seu e eu não era uma criminosa.
Preguiça ou solidão, tédio ou ressaca, por alguma razão resolvi passar o dia enfiada na cama, o cachorro guardando a porta do meu quarto, as formigas em seu vai-e-vem habitual e eu ouvia a mesma música quase triste que me lembrou você e entendi que eu só podia fazer isso com uma saudade dilacerante.
:: I wish I was in a suitcase on my way back home to you... The Magic Numbers em Which Way to Happy
quinta-feira, março 29, 2007
T.O.C
duas trufas tradicionais, dois pães-de-queijo simples, duas garrafinhas de água sem gás, duas bolhas em cada pé, duas olheiras que aumentam, dois travesseiros, duas músicas que eu quero compôr, duas pastas de trabalho, duas semanas de shopping, duas ilhas pra conquistar, duas amigas que eu quero perto, duas casas, duas unhas quebradas, dois remédios na mochila, duas ressonâncias, dois pés atrás, dois joelhos cansados, duas lentes insuficientes, um par de elásticos, dois pedaços de fruta, duas chaves, dois telefonemas constantes, duas aulas por semana, um par de livros, dois graus de astigmatismo, será?, duas tintas faltando na impressora, dois passos lentos, dois erros, duas listas enviadas por email, duas vontades: é matar ou morrer.
quinta-feira, março 22, 2007
É uma ave no chão
“O problema não é você, sou eu” é a frase que eu mais tenho desejado ouvir e, clichês à parte, a esperança é a última que morre; é impossível subir escadas rolantes sem olhar para as pessoas que descem na escada ao lado e vice-versa; a capacidade de fazer baliza é inversamente proporcional ao tamanho da vaga; natação é a próxima tentativa e a grande questão é como ficar decente dentro de uma touca; 1/3 da vida dormindo, 1/3 dirigindo e 1/3 tentando; “ ‘não entender’ era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado.” na página 43 eu me apaixonei definitivamente por Clarice Lispector; achar o carro no estacionamento do shopping Leblon é tarefa árdua o bastante pra tirar o bom-humor; o shopping Leblon, por si só cumpre bem esse papel: para ir à administração do shopping você passa, ora veja, pelo estacionamento, não faz sentido algum; a vontade de comer crayons ataca toda vez que os vejo coloridos e enfileirados; para uns, “ralação” está exclusivamente ligada à capacidade que a pessoa tem de carregar sacolas, manequins e afins, bem como de ouvir grosseria o dia todo; ortopedista novo é o suficiente pra você se iludir outra vez só para então constatar que a medicina ainda não achou solução legal pro seu caso e sim, você terá que encarar toda aquela chatice; tylenol é tão tão tão bom que eu desconfio que haja alguma substância anti-depressiva em sua fórmula; o Parque Lage é um dos lugares mais quentes do mundo; lá vem as águas de março e o que me anima mesmo é a promessa de vida; alguém tem que avisar a esses seres de cabelo esquisito que mullets não é cool, é só horrendo; eu sou art-nouveau, dê uma olhada nas figuras do Schiele (e do Klimt) e lá estou eu; eu costumo errar a verificação de palavras que os blogs pedem quando deixo comentários, o que me desanima às vezes; o melhor de Marie Antoinette, o filme, é a trilha sonora e quando você a escuta sem ver o filme ela fica ainda melhor; Marie Antoinette até o começo do mês era apenas a rainha que havia inspirado Sofia Coppola e de repente essa mulher virou uma perseguição; noite de sábado vendo curtas com os amigos e a gente tentando achar uma solução, noite de quarta a caminho do curso com amiga e a gente tentando achar uma solução, noite de terça no bar com amiga e a gente tentando achar alguma solução, quando foi que todo mundo entrou em crise?; parece letra de Belchior e a música fica repetindo na cabeça eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens mas também pode ser aquela do Renato vamos sair mas não temos mais dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego e haverá sempre o otimista insuportável que vai dizer que é um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão e prefiro crer que é um pouco sozinho; é possível abastecer o carro na Zona Sul?; e Wikipedia, é possível viver sem Wikipedia?; havia vida antes de Targus?; e The Magic Numbers, é possível não ouvi-los?; o bom de voltar a estudar é que você pode dar a incrível sorte de ter aula com um cara fabuloso e esse cara pode te abrir os olhos e até mesmo arregalar seus olhos e de repente tudo aquilo que você sabia cai por terra e você tem a oportunidade de pensar tudo de novo e optar por deixar as coisas como estão ou pegar o caminho mais longo e a música dessa vez é Candeia: deixe-me ir, preciso andar.
sexta-feira, março 16, 2007
Shadowboxer
Todo esse tempo foi como um duelo imaginário que eu travei pra dar sentido às coisas que você jamais me explicou. Foi uma luta de forças que eu inventei pra me distrair porque não houve nenhuma resposta à minha simples questão que você ignorou categoricamente. Nisso você caprichou: foi o meu melhor fora não dado, o meu melhor sono perdido e a minha melhor perturbação durante dias a fio. Você foi a melhor desculpa que eu achei pra não me apaixonar de novo por qualquer pessoa e também foi a promessa que eu me auto-impus de jamais me deixar capturar de novo por jogos parecidos com o seu, principalmente o seu. Você foi a melhor pessoa pra decidir tudo por nós dois de forma egoísta e todo esse tempo foi como um exercício de esquecimento, de tentar desesperadamente apagar qualquer resquício que você possa ter deixado. Você foi o maior responsável pela minha decisão tão certa de agir com um mínimo de sanidade e todo esse tempo foi como se a minha saúde mental tivesse sido definida quase que exclusivamente por causa da sua partida e por isso eu nunca fui à sua procura. Você foi a reticência mais longa e arbitrária que me atropelou de surpresa e todo esse tempo foi como um tempo em suspenso em que eu desenvolvi uma máscara protetora capaz de convencer qualquer pessoa de que você tinha sido apenas um acidente de percurso em vez de uma perseguição que me atormentava à ligeira menção do seu nome. Você foi a melhor fuga que eu testemunhei e que eu quis apelidar de tal forma pelo simples pavor de encarar a verdade inalienável de que você, de fato, não presta. Você foi a minha melhor invenção de tantas noites porque você foi a melhor coisa que não se concretizou e portanto tornou-se o mais cativante personagem da minha alucinação particular. Você foi a minha melhor decepção e a que eu mais quis proteger, para a que eu mais procurei subterfúgios e desculpas e por sua causa eu tentei de todas as formas crer que havia um sentido oculto e que você devia estar tão dilacerado quanto eu me sentia e eu precisei desenvolver essa fé dia a dia. Você foi o meu pesadelo mais constante e todo esse tempo que você me deu sem mesmo eu opinar se queria ou não, todo esse tempo que não nos cruzamos uma só vez, todo esse tempo de uma obstinação cega de te expulsar de mim por completo, todo esse tempo de uma sede insaciável que eu tive de te ter de novo, todo esse tempo em que eu queria tanto te encontrar pra que você pudesse ter se transformado em você mesmo mas sem a confusão que até hoje eu não sei exatamente qual foi, todo esse tempo foi você que armou e quis e você foi a perseguição mais insistente da qual eu tentei desesperadamente me libertar e depois de todo esse tempo e de quase, quase mesmo conseguir achar que foi melhor assim e que talvez só pudesse ter sido assim, depois disso tudo, depois de você ter me arruinado completa e totalmente você aparece e em trinta segundos...
:: But oh it's so evil, my love, the way you've no reverence to my concern. So I'll be sure to stay wary of you, love, to save the pain of once my flame and twice my burn. (Fiona Apple na música que dá título ao post.)
:: But oh it's so evil, my love, the way you've no reverence to my concern. So I'll be sure to stay wary of you, love, to save the pain of once my flame and twice my burn. (Fiona Apple na música que dá título ao post.)
domingo, março 11, 2007
Alá meu bom Alá
Borrachas e lápis são os objetos mais duradouros que existem. Pense em quantos desses você já viu chegarem ao fim e verá que lápis e borrachas parecem não acabar nunca. São como as minhas idas ao Saara. A diferença sutil entre esses dois exemplos é que ir ao Saara, concluo, é karma enquanto que borrachas e lápis são apenas intermináveis (eu não me atreveria a elevar a condição desses utensílios a karma).
O Saara entrou mais uma vez em minha vida numa manhã de quarta-feira e eu desconfio que a minha sina, karma, chame do que preferir, é andar pelas ruas estreitas mais cheias da cidade. No verão.
35 metros de acrilon, 2 tubos de hair spray, 12 tintas de tingimento, 2 tubos de cola prego, cerca de 100 metros de fitas de veludo, uns 200 metros de fitas de organza, flores de massa, 40 metros de arame, tesouras de picote, 30 carretéis de linhas para pesponto, tudo isso eu comprei e mais um monte de itens que iam de fita dupla-face a fibra de cabelo para fazer perucas dos tempos de rainhas. Tudo isso porque uma coleguinha, sabendo do meu ócio demasiadamente prolongado, me recrutou para a missão de ajudar na produção da exposição sobre Maria Antonieta, portanto esse tem sido meu trabalho: comprar trecos e coisas que só encontramos no mercado popular ou nas cercanias. Calor e sacolas à parte (e bolhas nos pés, que ficam pretos ao longo do dia), há diversão no fim do túnel.
Meu top 3. Os anúncios da rádio Saara são impagáveis, essa talvez seja a minha melhor distração. As idéias e vozes e slogans que saem das caixas de som são melhores do que qualquer spot de FM feito por estudantes da ESPM. As lojas de cabelo humano. Elas ficam no comecinho da Sete de Setembro e na Praça Tiradentes onde há mocinhas posicionadas pra te oferecer cabelo e mão-de-obra quando você passa. Confesso que fiquei tentada, já me imaginava ruiva com um cabelão liso ou com os cabelos loiros e anelados, as lojas de cabelo são quase tão lúdicas quanto o Carnaval. Por fim, as Igrejas. A da Avenida passos ocupa a primeira posição no meu ranking, seguida de uma bem mais modesta cuja localização exata me escapa. A Igreja da Passos é de uma beleza impressionante enquanto que a menorzinha, também bonita, me ganhou quando li os bilhetes deixados pelos fiéis em um dos altares. Eram muitos bilhetes repletos de erros ortográficos, todos de gente humilde e crente na religião, uma fé latente que chegou a me comover.
Depois de quatro dias de andanças no Saara mais uma missão derretedora me foi dada: tingir veludo. Depois de quatro dias de Saara e cerca de 8 horas no fogão tingindo eu comecei a achar que essa história de trabalho é muito perigosa e agora terei mais cuidado ao querer e pedir coisas em voz alta. Amanhã tem mais, e até quinta-feira deve ser assim. Quando tudo ficar lindo e pronto eu vou esquecer que quase morri de calor e só o que vai ficar vai ser mais uma vez a sensação de dever cumprido e certeza de que estou mais que preparada para o aquecimento global. Quando tudo ficar lindo e pronto eu vou estar tão torta com dor nas costas que vou precisar de um dia inteiro de massagem e mais um dia inteiro de sauna e mais um dia inteiro de natação (ahãm) e mais um dia inteiro de paracetamol na veia. Quando tudo ficar lindo e pronto e eu chegar em casa e concluir que essa loucura vale à pena eu vou pingar 30 gotinhas de tylenol, ligar o ar-condicionado e me conformar com o fato de que o Saara é dessas coisas que não terminam nunca.
O Saara entrou mais uma vez em minha vida numa manhã de quarta-feira e eu desconfio que a minha sina, karma, chame do que preferir, é andar pelas ruas estreitas mais cheias da cidade. No verão.
35 metros de acrilon, 2 tubos de hair spray, 12 tintas de tingimento, 2 tubos de cola prego, cerca de 100 metros de fitas de veludo, uns 200 metros de fitas de organza, flores de massa, 40 metros de arame, tesouras de picote, 30 carretéis de linhas para pesponto, tudo isso eu comprei e mais um monte de itens que iam de fita dupla-face a fibra de cabelo para fazer perucas dos tempos de rainhas. Tudo isso porque uma coleguinha, sabendo do meu ócio demasiadamente prolongado, me recrutou para a missão de ajudar na produção da exposição sobre Maria Antonieta, portanto esse tem sido meu trabalho: comprar trecos e coisas que só encontramos no mercado popular ou nas cercanias. Calor e sacolas à parte (e bolhas nos pés, que ficam pretos ao longo do dia), há diversão no fim do túnel.
Meu top 3. Os anúncios da rádio Saara são impagáveis, essa talvez seja a minha melhor distração. As idéias e vozes e slogans que saem das caixas de som são melhores do que qualquer spot de FM feito por estudantes da ESPM. As lojas de cabelo humano. Elas ficam no comecinho da Sete de Setembro e na Praça Tiradentes onde há mocinhas posicionadas pra te oferecer cabelo e mão-de-obra quando você passa. Confesso que fiquei tentada, já me imaginava ruiva com um cabelão liso ou com os cabelos loiros e anelados, as lojas de cabelo são quase tão lúdicas quanto o Carnaval. Por fim, as Igrejas. A da Avenida passos ocupa a primeira posição no meu ranking, seguida de uma bem mais modesta cuja localização exata me escapa. A Igreja da Passos é de uma beleza impressionante enquanto que a menorzinha, também bonita, me ganhou quando li os bilhetes deixados pelos fiéis em um dos altares. Eram muitos bilhetes repletos de erros ortográficos, todos de gente humilde e crente na religião, uma fé latente que chegou a me comover.
Depois de quatro dias de andanças no Saara mais uma missão derretedora me foi dada: tingir veludo. Depois de quatro dias de Saara e cerca de 8 horas no fogão tingindo eu comecei a achar que essa história de trabalho é muito perigosa e agora terei mais cuidado ao querer e pedir coisas em voz alta. Amanhã tem mais, e até quinta-feira deve ser assim. Quando tudo ficar lindo e pronto eu vou esquecer que quase morri de calor e só o que vai ficar vai ser mais uma vez a sensação de dever cumprido e certeza de que estou mais que preparada para o aquecimento global. Quando tudo ficar lindo e pronto eu vou estar tão torta com dor nas costas que vou precisar de um dia inteiro de massagem e mais um dia inteiro de sauna e mais um dia inteiro de natação (ahãm) e mais um dia inteiro de paracetamol na veia. Quando tudo ficar lindo e pronto e eu chegar em casa e concluir que essa loucura vale à pena eu vou pingar 30 gotinhas de tylenol, ligar o ar-condicionado e me conformar com o fato de que o Saara é dessas coisas que não terminam nunca.
terça-feira, março 06, 2007
Sobre ser mãe
Aquecimento global, crimes brutais, falta de bolinhas-de-queijo, previsões alarmistas sobre a falta d’água potável, internet wireless, cinema a dezoito reais, fila no consulado americano pra visto que será provavelmente negado, homens que não ligam no dia seguinte, falta de verba pro cinema nacional, contentamento em sentar-se no Diagonal porque o Jobi vive cheio, trânsito caótico, RH que não liga nunca, roupas na Maria Bonita a preços indecentes, mercado de trabalho saturado, falta de espaço pra exibição de curtas, salários fictícios, spams, falta de grana pra sair de casa, Farminização (da loja Farm, não da Rua GLS), multidão nos blocos de carnaval, perda de fãs no orkut, praia lotada e outros temas fizeram parte de recentes conversas sobre o que nos aflige. Chegamos à conclusão que botar mais gente nesse mundo é um ato insano. Eu já sabia disso e finalmente ganhei adeptos.
Foi no meio de uma conversa com amigas que uma delas afiliou-se à minha causa. Ela queria ter três filhos mas confessou que já pensa em ter um só. Foi mais radical: pensa em adotar o único filho. Do Camboja. Quando este completar 18 anos e quiser conhecer seu país de origem ela lhe dará apenas a passagem de ida.
Desenvolvendo o assunto e pensando que a maternidade pode ser uma experiência incrível concluí que só vale a pena povoar o mundo com filhos se você puder garantir que no futuro ele seja (e se puder ser tudo ao mesmo tempo é ainda mais vantajoso) evangélico, dono de botequim, grafiteiro, economista ou gay. Isso não o impedirá de desmilingüir-se quando no inverno ele enfrentar temperaturas de 35 graus. Ao menos ele será bem-sucedido o suficiente pra sair da casa dos pais, fazer um curso em Paris e comprar uma cadeira Barcelona sem ter de gastar todas as folhas do talão de cheques. Além disso, é menos uma aflição pra nós, que não teremos de nos preocupar com o destino que nosso filho tomará. Vai por mim. Filho gay e evangélico ou adote um cachorro da Suípa.
Foi no meio de uma conversa com amigas que uma delas afiliou-se à minha causa. Ela queria ter três filhos mas confessou que já pensa em ter um só. Foi mais radical: pensa em adotar o único filho. Do Camboja. Quando este completar 18 anos e quiser conhecer seu país de origem ela lhe dará apenas a passagem de ida.
Desenvolvendo o assunto e pensando que a maternidade pode ser uma experiência incrível concluí que só vale a pena povoar o mundo com filhos se você puder garantir que no futuro ele seja (e se puder ser tudo ao mesmo tempo é ainda mais vantajoso) evangélico, dono de botequim, grafiteiro, economista ou gay. Isso não o impedirá de desmilingüir-se quando no inverno ele enfrentar temperaturas de 35 graus. Ao menos ele será bem-sucedido o suficiente pra sair da casa dos pais, fazer um curso em Paris e comprar uma cadeira Barcelona sem ter de gastar todas as folhas do talão de cheques. Além disso, é menos uma aflição pra nós, que não teremos de nos preocupar com o destino que nosso filho tomará. Vai por mim. Filho gay e evangélico ou adote um cachorro da Suípa.
segunda-feira, março 05, 2007
Sobre como a Globo me fez chorar (por duas semanas seguidas)
Muitos são os dilemas da minha atribulada vida, dentre eles o principal é o eterno confronto entre praia e piscina. A piscina vence quando a preguiça é muita e a praia quando a consciência pesa, donde conclui-se que a segunda opção devia ganhar sempre visto que preguiça em demasia causa dor de consciência. Seria assim, mas depois de tanto tempo de inércia os critérios vão pro brejo e você se apega ao que está mais próximo do seu alcance.
Foi por essa e outras que acabei acompanhando os últimos capítulos da novela do horário nobre. Assistir novela quando ela está com seus dias contados é batata e sendo o autor o Manoel Carlos, pronto, está aí a cena. Sofá, controle na mão e de repente a mãe da Gabi morre tragicamente num incêndio de ônibus, o Renato finalmente fica com a Isabel, a Nanda aparece pros filhos e o Alex consegue a guarda do Francisco. Sim, eu chorei e não foi só uma vez. Sim, senti-me um pouco idiota, bastante até e repensei uma série de conceitos, achei que essa história de chorar em novelas era dramático demais até pra mim, além de ser um bocado cafona. Mas pior do que esse episódio foi outro que ocorrera semana antes e eu deveria ter vergonha, mas diante dos meus dias tão intensos e promissores eu resolvi achar graça: chorei com o paredão do Big Brother. Tem salvação?
Foi por essa e outras que acabei acompanhando os últimos capítulos da novela do horário nobre. Assistir novela quando ela está com seus dias contados é batata e sendo o autor o Manoel Carlos, pronto, está aí a cena. Sofá, controle na mão e de repente a mãe da Gabi morre tragicamente num incêndio de ônibus, o Renato finalmente fica com a Isabel, a Nanda aparece pros filhos e o Alex consegue a guarda do Francisco. Sim, eu chorei e não foi só uma vez. Sim, senti-me um pouco idiota, bastante até e repensei uma série de conceitos, achei que essa história de chorar em novelas era dramático demais até pra mim, além de ser um bocado cafona. Mas pior do que esse episódio foi outro que ocorrera semana antes e eu deveria ter vergonha, mas diante dos meus dias tão intensos e promissores eu resolvi achar graça: chorei com o paredão do Big Brother. Tem salvação?
quinta-feira, março 01, 2007
a arte de viver da fé
A auto-escola foi pra mim uma evolução de “isso é impossível”. A frase adquiriu motivos diferentes com o passar das aulas, mas esteve presente durante o começo do meu aprendizado. Primeiro era a troca de marchas, depois a baliza e por último subir o Alto da Boa Vista em dia de chuva. Eu acreditava piamente que seria impossível dirigir sem bater em outros veículos ou em postes, árvores e até mesmo atropelar pessoas. Dirigir me parecia uma tarefa árdua que aos poucos foi se revelando tão fácil que o meu julgamento sobre a impossibilidade mudou completamente: era impossível que algumas pessoas dirigissem tão horrivelmente mal.
O mesmo ocorreu com wings. Wings era o passo mais improvável de ser realizado pelas minhas pernas e pés nas aulas de sapateado. Era um fato pra mim que eu quebraria ambos os pés em fratura exposta, no mínimo uma torção que me deixaria dois meses sem pisar. Passadas duas ou três semanas o wings atingiu o status de flap e eu podia faze-lo com as duas pernas e até mesmo em uma perna só. Fazer wings nunca me deu nem calos.
Com o CPE foi bem parecido. Essa é uma das mais difíceis (e inúteis, hoje sei) provas de Cambridge. Do tipo de prova que o sujeito tem de saber a diferença entre glare, glance e gaze além de ter de usar termos como nevertheless e hence em uma carta imaginária formal ao seu vizinho comunicando-lhe as novas leis de segurança predial. Haha, eu pensava. Passei com o conceito C, o mínimo que se deve tirar pra ser aprovado e concluí que o CPE não era tão inatingível assim.
As sessões de RPG também me deixaram incrédula no início. Eu achava impossível que a pessoa deixasse de sentir dores nas costas depois de passar uma hora fazendo 4 ou 5 posturas onde em cada uma dessas você não faz mais do que respirar. Passados seis meses, fui vencida pela técnica quase imóvel e melhorei 70 por cento da coluna.
Com o tempo eu descobri como tantas dessas e outras coisas eram possíveis e no fim das contas o que eu não consegui de fato fazer foi um desenho decente na aula de modelo vivo. E seqüência de frapê de ballet aceitável (se o ballet fosse como o CPE minha nota não seria satisfatória).
A bola da vez é trabalho. Será possível arranjar emprego ou isso é tarefa pra Nijinsky?
O mesmo ocorreu com wings. Wings era o passo mais improvável de ser realizado pelas minhas pernas e pés nas aulas de sapateado. Era um fato pra mim que eu quebraria ambos os pés em fratura exposta, no mínimo uma torção que me deixaria dois meses sem pisar. Passadas duas ou três semanas o wings atingiu o status de flap e eu podia faze-lo com as duas pernas e até mesmo em uma perna só. Fazer wings nunca me deu nem calos.
Com o CPE foi bem parecido. Essa é uma das mais difíceis (e inúteis, hoje sei) provas de Cambridge. Do tipo de prova que o sujeito tem de saber a diferença entre glare, glance e gaze além de ter de usar termos como nevertheless e hence em uma carta imaginária formal ao seu vizinho comunicando-lhe as novas leis de segurança predial. Haha, eu pensava. Passei com o conceito C, o mínimo que se deve tirar pra ser aprovado e concluí que o CPE não era tão inatingível assim.
As sessões de RPG também me deixaram incrédula no início. Eu achava impossível que a pessoa deixasse de sentir dores nas costas depois de passar uma hora fazendo 4 ou 5 posturas onde em cada uma dessas você não faz mais do que respirar. Passados seis meses, fui vencida pela técnica quase imóvel e melhorei 70 por cento da coluna.
Com o tempo eu descobri como tantas dessas e outras coisas eram possíveis e no fim das contas o que eu não consegui de fato fazer foi um desenho decente na aula de modelo vivo. E seqüência de frapê de ballet aceitável (se o ballet fosse como o CPE minha nota não seria satisfatória).
A bola da vez é trabalho. Será possível arranjar emprego ou isso é tarefa pra Nijinsky?
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Eu fui às touradas em Madrid
(ou o rei mandou cair dentro da folia)
Eu havia sentado por dois minutos num banco típico de praça que quase não existe mais. Era um daqueles banquinhos de cimento que rodeiam uma mesa onde há um tabuleiro quadriculado desenhado na pedra. A cerca de 50 metros estava o palco e mais um pouco adiante o Bip Bip e tudo naquela rua sem saída parecia ter um toque saudosista. Foi quando uma garotinha vestindo saia jeans e top rosa se aproximou e me perguntou se eu queria um. Eu perguntei se ela vendia, ela disse que não, que se eu quisesse me dava. Ela estendeu sua mão e me deu um saquinho recheado de confete e serpentina. Foi assim que eu conheci Vitória, uma pequena foliã de 7 anos que distribuía alegremente os artefatos de papel a quem quisesse. Em pouco tempo ela se perdeu em meio às pernas dos que dançavam e rapidamente voltou para me entregar mais saquinhos, e também às minhas amigas fanáticas por confete e que competiam pra ver quem acertaria algum galho da árvore com as serpentinas. Havia um concorrente que devia ter a mesma idade de Vitória e percebemos que ele era um novato na arte de jogar serpentina: mirava seus rolinhos de papel, que batiam em duas ou três cabeças próximas e caíam quase inteiros a menos de cinco passos. Foi quando resolvemos incentivar o garoto e lá pelas tantas o menino subiu em cima da mesa, de onde seus arremessos poderiam alcançar distâncias maiores. O Rancho da Flor do Sereno foi assim: marchinhas e crianças convivendo em harmonia, o bloco mais familiar e também o que concentrou a maior quantidade de confete e serpentina.
O Bola Preta, ao contrário, foi uma experiência quase traumática. Se o Rancho concentrou a maior quantidade de papel em forma de artefato carnavalesco e foliões mirins e fofos, o Bola concentrou a maior quantidade de pessoas que eu já vi. Pessoas suadas, devo ressaltar. Pessoas suadas e esmagativas e para ir embora do cordão foi preciso coragem e audácia. Escapar da multidão foi como renascer em meio a um sol escaldante no melhor estilo atravessando o deserto de Saara o sol estava quente e queimou a nossa cara. Uma vez no metrô de volta você conclui que burgueses são os outros e você tem mesmo um pézinho na aristocracia. Bem, alguns concluem isso.
O mais posto-novista dos blocos, por sua vez, foi o responsável pela destruição de parte da minha fantasia (ok, na verdade foi um pitoco desses de rua). A Rocha é apenas isso: um grande Baixo Gávea que segue mais adiante. Ele está ali todo dia na praça esperando por você. Com menos samba talvez, mas certamente bem menos pretensioso.
Já o Boitatá veio acompanhado de café-da-manhã com pão quentinho na casa de amigos e uma revelação: é preciso ter um mínimo de disciplina pra pular carnaval. E também: blocos que não saem muito do lugar são mais divertidos que os que traçam percursos. Pense só: é domingo, são 9 da manhã, o sol começa a fritar as cabeças, não há qualquer lugar decente para fazer xixi, você pula e dança e canta enquanto sente o suor escorrer impiedoso por todas as partes da sua pele (e olha o protetor solar indo embora), você bebe cerveja e também não há lugar próprio para passar mal. A sua sorte é que o Cordão do Boitatá está sobre um palco em vez de sobre um carro de som, o que significa que além disso tudo você não terá que acompanhar o trio elétrico. É nesse momento que você tem a epifania e resolve que bloco bom mesmo é aquele que não anda. Melhor ainda seria se o discurso engajado no começo do baile na praça não tivesse existido. Não me leve a mal, hoje é carnaval e a gente quer marchinhas e não conversa mole para boi dormir.
Outros blocos à parte, eu nem sei bem como acabei gostando de carnaval, só sei que quando bateu a quarta-feira de cinzas e 2007 finalmente deu ares de começo me deu uma tristeza grande, senti o coração apertado e uma lágrima de pierrot querendo escapar.
Findo o Carnaval, não sei o que será pior: esperar pelo próximo ou tirar os confetes do cabelo...
Eu havia sentado por dois minutos num banco típico de praça que quase não existe mais. Era um daqueles banquinhos de cimento que rodeiam uma mesa onde há um tabuleiro quadriculado desenhado na pedra. A cerca de 50 metros estava o palco e mais um pouco adiante o Bip Bip e tudo naquela rua sem saída parecia ter um toque saudosista. Foi quando uma garotinha vestindo saia jeans e top rosa se aproximou e me perguntou se eu queria um. Eu perguntei se ela vendia, ela disse que não, que se eu quisesse me dava. Ela estendeu sua mão e me deu um saquinho recheado de confete e serpentina. Foi assim que eu conheci Vitória, uma pequena foliã de 7 anos que distribuía alegremente os artefatos de papel a quem quisesse. Em pouco tempo ela se perdeu em meio às pernas dos que dançavam e rapidamente voltou para me entregar mais saquinhos, e também às minhas amigas fanáticas por confete e que competiam pra ver quem acertaria algum galho da árvore com as serpentinas. Havia um concorrente que devia ter a mesma idade de Vitória e percebemos que ele era um novato na arte de jogar serpentina: mirava seus rolinhos de papel, que batiam em duas ou três cabeças próximas e caíam quase inteiros a menos de cinco passos. Foi quando resolvemos incentivar o garoto e lá pelas tantas o menino subiu em cima da mesa, de onde seus arremessos poderiam alcançar distâncias maiores. O Rancho da Flor do Sereno foi assim: marchinhas e crianças convivendo em harmonia, o bloco mais familiar e também o que concentrou a maior quantidade de confete e serpentina.
O Bola Preta, ao contrário, foi uma experiência quase traumática. Se o Rancho concentrou a maior quantidade de papel em forma de artefato carnavalesco e foliões mirins e fofos, o Bola concentrou a maior quantidade de pessoas que eu já vi. Pessoas suadas, devo ressaltar. Pessoas suadas e esmagativas e para ir embora do cordão foi preciso coragem e audácia. Escapar da multidão foi como renascer em meio a um sol escaldante no melhor estilo atravessando o deserto de Saara o sol estava quente e queimou a nossa cara. Uma vez no metrô de volta você conclui que burgueses são os outros e você tem mesmo um pézinho na aristocracia. Bem, alguns concluem isso.
O mais posto-novista dos blocos, por sua vez, foi o responsável pela destruição de parte da minha fantasia (ok, na verdade foi um pitoco desses de rua). A Rocha é apenas isso: um grande Baixo Gávea que segue mais adiante. Ele está ali todo dia na praça esperando por você. Com menos samba talvez, mas certamente bem menos pretensioso.
Já o Boitatá veio acompanhado de café-da-manhã com pão quentinho na casa de amigos e uma revelação: é preciso ter um mínimo de disciplina pra pular carnaval. E também: blocos que não saem muito do lugar são mais divertidos que os que traçam percursos. Pense só: é domingo, são 9 da manhã, o sol começa a fritar as cabeças, não há qualquer lugar decente para fazer xixi, você pula e dança e canta enquanto sente o suor escorrer impiedoso por todas as partes da sua pele (e olha o protetor solar indo embora), você bebe cerveja e também não há lugar próprio para passar mal. A sua sorte é que o Cordão do Boitatá está sobre um palco em vez de sobre um carro de som, o que significa que além disso tudo você não terá que acompanhar o trio elétrico. É nesse momento que você tem a epifania e resolve que bloco bom mesmo é aquele que não anda. Melhor ainda seria se o discurso engajado no começo do baile na praça não tivesse existido. Não me leve a mal, hoje é carnaval e a gente quer marchinhas e não conversa mole para boi dormir.
Outros blocos à parte, eu nem sei bem como acabei gostando de carnaval, só sei que quando bateu a quarta-feira de cinzas e 2007 finalmente deu ares de começo me deu uma tristeza grande, senti o coração apertado e uma lágrima de pierrot querendo escapar.
Findo o Carnaval, não sei o que será pior: esperar pelo próximo ou tirar os confetes do cabelo...
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Alegorias e adereços - II
A idéia é de um folião aposentado e assustado com a horda de gente que invadiu os cordões. Além de fundador, ele também será fiscal do bloco mais vanguarda do próximo carnaval. Eu gostei tanto que resolvi ser co-autora da proposta. Precisamos de adeptos. O nome do bloco é auto-explicativo: Se encher acaba.
Volto depois da quarta-feira de cinzas.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Le cinéma - II
"People just have an affair or even entire relationships, they break up and they forget. They move on like they would have changed brand of cereals. I feel I was never able to forget anyone I've been with because each person had their own specific qualities. You can never replace anyone. What is lost is lost. Each relationship when it ends, really damages me. I never fully recover. That's why I'm very careful with getting involved because it hurts too much. Even getting laid, I actually don't do that because I will miss of the person the most mundane things. Like I'm obsessed with little things."
Celine em Antes do Pôr-do-sol.
Celine em Antes do Pôr-do-sol.
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
girl afraid *
Uma fantasia de colombina consome 7 metros de filó (3 metros de filó roxo, 3 metros de filó lilás e 1 metro de filó preto a 0,99 centavos cada metro), cerca de 5 metros de fita de cetim larga, 2 metros de fita de cetim fina, um ganchinho, mais ou menos 2 metros de elástico, 5 potinhos pequenos de purpurina, uma avó, uma neta, 10 pompons compostos por 30 círculos de filó (sendo 10 círculos roxos, 10 círculos lilás e 10 pretos em cada pompon o equivalente a 300 círculos de filó recortados pela neta) e um mês de trabalho árduo. Até a data de hoje, esse foi o meu maior feito do ano: uma fantasia de colombina. Tudo bem que ninguém sabe do que eu estou vestida. Não importa. Sem contar as roupas de barbie e bonecas, essa é minha primeira incursão no mundo da alta-costura e isso me basta.
Um caderno para a aula de francês constitui-se de folhas brancas sem linhas, capa de papel reciclado e fitinha preta para marcar as páginas. No final do caderno estão os verbos. Os títulos são escritos à caneta (Stabilo) verde; os exemplos e regras à caneta preta de tinta nanquim 0.2 e os exercícios de casa à lapiseira grafite 2B. Fiquei um pouco tensa quando a professora quebrou o padrão cromático escrevendo vocabulários azuis. Os livros de conjugação e exercícios foram comprados essa semana juntamente com um romance clássico nível 1 resumido para estudantes da língua. Dedico cerca de uma hora por dia aos estudos. Me esforço para ser a melhor da classe, mesmo que a aula seja particular.
Uma ida à Travessa do Leblon custa (fora o estacionamento do shopping) cerca de 90 reais e acrescenta 3 livros à mesinha (e futuramente à prateleira). Lavoura Arcaica foi o primeiro, Leminski está quase no fim e Clarice espera sua hora. Um novo Nick Hornby veio juntar-se à turma, que conta ainda com um Vargas Llosa e um Suassuna que é brasileiro e não desiste nunca (esse está na espera há um bom tempo, coitado).
Uma aula de dança depois de dois anos parada te obriga a beber gatorade (a mesma quantidade de tempo sem consumir a bebida), te lembra como seu joelho (e outras partes) ficava roxo, como o collant ficava molhado, como o joanete dói e como essa atividade é completamente anti-anatômica. Te lembra também como essas coisas todas tornam-se detalhes insignificantes pois que no fim da aula você se joga no chão da sala e sorri discretamente.
Em tempos de desemprego, encalhação e êxodo de amigos, são essas as coisas que salvam.
* The Smiths
Um caderno para a aula de francês constitui-se de folhas brancas sem linhas, capa de papel reciclado e fitinha preta para marcar as páginas. No final do caderno estão os verbos. Os títulos são escritos à caneta (Stabilo) verde; os exemplos e regras à caneta preta de tinta nanquim 0.2 e os exercícios de casa à lapiseira grafite 2B. Fiquei um pouco tensa quando a professora quebrou o padrão cromático escrevendo vocabulários azuis. Os livros de conjugação e exercícios foram comprados essa semana juntamente com um romance clássico nível 1 resumido para estudantes da língua. Dedico cerca de uma hora por dia aos estudos. Me esforço para ser a melhor da classe, mesmo que a aula seja particular.
Uma ida à Travessa do Leblon custa (fora o estacionamento do shopping) cerca de 90 reais e acrescenta 3 livros à mesinha (e futuramente à prateleira). Lavoura Arcaica foi o primeiro, Leminski está quase no fim e Clarice espera sua hora. Um novo Nick Hornby veio juntar-se à turma, que conta ainda com um Vargas Llosa e um Suassuna que é brasileiro e não desiste nunca (esse está na espera há um bom tempo, coitado).
Uma aula de dança depois de dois anos parada te obriga a beber gatorade (a mesma quantidade de tempo sem consumir a bebida), te lembra como seu joelho (e outras partes) ficava roxo, como o collant ficava molhado, como o joanete dói e como essa atividade é completamente anti-anatômica. Te lembra também como essas coisas todas tornam-se detalhes insignificantes pois que no fim da aula você se joga no chão da sala e sorri discretamente.
Em tempos de desemprego, encalhação e êxodo de amigos, são essas as coisas que salvam.
* The Smiths
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
708.
Deu um fim em todas as comidas que tinha em casa. Encarregou-se dos iogurtes e do sorvete que estava pela metade. Deu a carne congelada ao vizinho, que levou também os queijos. Tomou o ônibus pra Gávea onde morava um amigo e juntos tomaram as 5 latas de cerveja que ele ainda tinha. Era janeiro e não pode ligar o ar-condicionado naquela noite e não poderia nas próximas 29 seguintes. Acordou de ressaca e suado, o dedão do pé ensangüentado, a mesinha derrubada, livros e luminária no chão. A bateria do ipod acabou no terceiro dia e ele imediatamente entendeu que esse seria o seu maior contratempo durante os próximos 27 dias. Em pouco tempo a bateria do celular teria o mesmo destino. No quarto dia comprou um relógio antigo. Arranjou uma caixa onde guardou a televisão e colocou o grande relógio no local do aparelho. Assistia as horas como quem contempla o horizonte e pouco a pouco foi tomado inteiramente pela idéia de viver sem eletricidade. Suas mudanças cotidianas atingiram níveis drásticos. Comprou um pequeno isopor onde mantinha garrafas de água. Encaixotou o computador e pôs a caixa na prateleira mais alta onde não havia possibilidade de topadas ou tropeços. Em apenas 6 dias havia chutado móveis a ponto de quase perder a unha do dedão. O vizinho do 709 o acudia sempre que ouvia seus gemidos e tentava persuadi-lo do plano. Idéia mais sem cabimento, ele dizia. Não lhe dava ouvidos. Depois da primeira semana comprou uma máquina de escrever. Queria relatar os pormenores de sua nova rotina. A máquina ocupava agora o lugar que antes fora do computador. Ficava ao lado do relógio antigo. Uma pilha de papel estava sempre à disposição, alguns com resquícios de cera de vela, que por sua vez estavam em toda parte: na mesinha, sobre a geladeira, na pia do banheiro, perto do relógio, junto à janela. O único lugar pra onde não carregava velas era o closet, o que acabou por lhe custar risos dos pedestres que giravam as cabeças para ver melhor aquele sujeito que vestia calças e camisas tantas vezes descombinadas. Virou piada entre os amigos quando estes começaram a receber suas cartas. Eram cartas escritas à máquina, descrições minuciosas de seu novo estilo de vida, detalhes importantes de como fazia a barba, de seus longos banhos de banheira quando lia páginas e páginas dos livros que comprava em sebos, enfim, suas cartas eram como suas confidências, suas descobertas de pequenos prazeres há tanto esquecidos. Passou a beber vinho, que não precisava gelar e seus lençóis e roupas manchavam com a mesma facilidade com que topava os pés na primeira semana. Em três semanas seu ritmo foi mudando: andava a passos vagarosos, quase não via os amigos e movia-se como um pêndulo. Quem entrasse em seu pequeno apartamento veria ali um cenário: a máquina de escrever e o relógio lado a lado, as ceras de velas que cobriam parte dos móveis e davam ao lugar certo ar sinistro, os livros que se empilhavam pelos cantos no chão e ele sentado à beira da cama trajando vestes amassadas. Tinha se transformado num personagem e em cobaia de seu próprio experimento. Ao final de um mês sua mãe fez o que ele tanto adiara: pagou a conta de luz.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
namastê.
Chega ao fim a saga da yoga. Depois de três meses convivendo com o curioso mundo das posturas da cobra, do guerreiro 1, da criança e afins eu me sento (costas não eretas, respiração descompassada e Jane Monheit cantando ao fundo, nada de Mahavir ou qualquer outro dessa laia) para contar que as amarras da matrícula trimestral se partiram. Final e felizmente, é o fim da era de tapetinhos verdes. Depois de cantar o derradeiro mantra me despeço da prática com a plena satisfação de ter tentado ao máximo gostar da coisa. Falhei. Deixo pra trás o Nirvana e volto pro lugar de onde eu nuca devia ter saído. Minha coluna que se dane.
quinta-feira, janeiro 25, 2007
As bolinhas-de-queijo do meu tempo
As primeiras bolinhas-de-queijo que comi foram provavelmente as de uma festa cujo tema era a She-ra. Talvez antes. De lá pra cá parece que houve uma reviravolta no mundo: as festas não têm mais mesas cheias de brigadeiros e nem o Tio Tom para animar, não têm mais brindes dentro de copos enfeitados e algumas nem comida servem, quiçá bolinhas-de-queijo. As mudanças comportamentais e conceituais de festas eu posso entender e até aprovar afinal, existe música além do Trem da Alegria e drinks além da fanta laranja. Já o sumiço das bolinhas-de-queijo me deixa inconsolável.
Finda a era das festinhas infantis, bolinhas-de-queijo viraram artigo de luxo e bolinhas-de-queijo boas eram quase como achar água no deserto. Foram longos anos sem a convivência com essas pequenas delícias engorduradas, até que a adolescência veio e a W também. A W era uma boate que, se contemporânea, seria prima da Prelude. Eu não tinha ainda tanto escrúpulo assim pra sacar que a W era o ó. Já as bolinhas-de-queijo da W... Eu tolerei noites além do que eu seria capaz e tudo por causa dessa guloseima. Cheguei a ponto de entrar na W, achar um banquinho no segundo andar e gastar toda a minha consumação com elas. O melhor de tudo é que o prato era grande, generoso, eram dois ou três andares de bolinhas-de-queijo e eu as devorava sozinha enquanto meus amigos dançavam e conheciam gente que vivia num mundo bolinha-de-queijo-less. Eu os achava loucos. Eles me achavam um caso perdido. Como tudo o que é bom dura pouco, a W fechou e lá se foram as bolinhas-de-queijo mais deliciosas que já comi.
Anos depois, já refeita do luto, eu descobri que o Manuel e Joaquim fazia bolinhas-de-queijo quase tão boas quanto as da W. Elas vinham em menor quantidade, mas em compensação eu não tinha que aturar música alta e eventuais garotos pós-adolescentes me puxando pelo braço e, ainda, estava livre dos olhares reprovadores dos meus amigos que nunca entenderam o valor de uma boa bolinha-de-queijo. De lá pra cá o impensável aconteceu: o Manuel e Joaquim retirou as bolinhas-de-queijo do seu cardápio. Não houve qualquer satisfação ou comunicação prévia, um belo dia elas simplesmente deixaram de existir. Eu parei de freqüentar o local. Eu não poderia continuar sustentando um botequim excludente de bolinhas-de-queijo boas. Mais uma vez tive de me conformar que teria que viver num mundo sem bolinhas-de-queijo, embora dentro de mim eu ainda me perguntasse até quando isso seria possível.
Eis que o Jobi entrou na minha vida e as bolinhas-de-queijo voltaram. Confesso que as bolinhas do Jobi não são a nona maravilha do mundo (a oitava eram as bolinhas-de-queijo da W), mas num planeta onde a coisa é cada vez mais escassa, as que existem acabam ganhando mais status do que deveriam. É aquele velho ditado: em terra de cego quem tem um olho é rei. O Jobi é como um palácio para mim.
Finda a era das festinhas infantis, bolinhas-de-queijo viraram artigo de luxo e bolinhas-de-queijo boas eram quase como achar água no deserto. Foram longos anos sem a convivência com essas pequenas delícias engorduradas, até que a adolescência veio e a W também. A W era uma boate que, se contemporânea, seria prima da Prelude. Eu não tinha ainda tanto escrúpulo assim pra sacar que a W era o ó. Já as bolinhas-de-queijo da W... Eu tolerei noites além do que eu seria capaz e tudo por causa dessa guloseima. Cheguei a ponto de entrar na W, achar um banquinho no segundo andar e gastar toda a minha consumação com elas. O melhor de tudo é que o prato era grande, generoso, eram dois ou três andares de bolinhas-de-queijo e eu as devorava sozinha enquanto meus amigos dançavam e conheciam gente que vivia num mundo bolinha-de-queijo-less. Eu os achava loucos. Eles me achavam um caso perdido. Como tudo o que é bom dura pouco, a W fechou e lá se foram as bolinhas-de-queijo mais deliciosas que já comi.
Anos depois, já refeita do luto, eu descobri que o Manuel e Joaquim fazia bolinhas-de-queijo quase tão boas quanto as da W. Elas vinham em menor quantidade, mas em compensação eu não tinha que aturar música alta e eventuais garotos pós-adolescentes me puxando pelo braço e, ainda, estava livre dos olhares reprovadores dos meus amigos que nunca entenderam o valor de uma boa bolinha-de-queijo. De lá pra cá o impensável aconteceu: o Manuel e Joaquim retirou as bolinhas-de-queijo do seu cardápio. Não houve qualquer satisfação ou comunicação prévia, um belo dia elas simplesmente deixaram de existir. Eu parei de freqüentar o local. Eu não poderia continuar sustentando um botequim excludente de bolinhas-de-queijo boas. Mais uma vez tive de me conformar que teria que viver num mundo sem bolinhas-de-queijo, embora dentro de mim eu ainda me perguntasse até quando isso seria possível.
Eis que o Jobi entrou na minha vida e as bolinhas-de-queijo voltaram. Confesso que as bolinhas do Jobi não são a nona maravilha do mundo (a oitava eram as bolinhas-de-queijo da W), mas num planeta onde a coisa é cada vez mais escassa, as que existem acabam ganhando mais status do que deveriam. É aquele velho ditado: em terra de cego quem tem um olho é rei. O Jobi é como um palácio para mim.
Eu tentei substituir bolinhas-de-queijo por bolinhos de aipim, de bacalhau, filé aperitivo, linguicinha e mais uma série de incontáveis petiscos que encontramos por aí mas o fato é que desde que as bolinhas caíram em desuso que eu nunca mais fui plenamente feliz num bar.
O que eu não consigo entender, meu deus!, é por que diabos o mundo quer se livrar dessa iguaria?
quarta-feira, janeiro 24, 2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
Le cinéma
- O que quer ser?
- Diplomata.
- Tem uma fortuna?
- Não.
- Tem relacionamento com alguém famoso ou ilustre?
- Não.
- Esqueça a diplomacia.
- Mas o que posso ser?
- Um curioso.
-Isso não é profissão.
-Ainda não. Viaje, escreva, traduza. Aprenda a viver em todo lugar. Comece agora.
in Jules et Jim.
- Diplomata.
- Tem uma fortuna?
- Não.
- Tem relacionamento com alguém famoso ou ilustre?
- Não.
- Esqueça a diplomacia.
- Mas o que posso ser?
- Um curioso.
-Isso não é profissão.
-Ainda não. Viaje, escreva, traduza. Aprenda a viver em todo lugar. Comece agora.
in Jules et Jim.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Essa maravilha de cenário
Sente-se na Pizzaria Guanabara às quatro da manhã de uma terça-feira pós Circo Voador vestida de Branca de Neve. De preferência, esteja acompanhada de um amigo tão ou mais engraçado que você. Chame todos que exclamarem “Branca de Neve!” para sentar-se à mesa também. Confirme quando o seu amigo disser que você é socióloga e que parte da sua pesquisa comportamental consiste em vestir-se de princesas da Disney para estudar as diversas reações de pessoas. Diga que mora na Floresta da Tijuca com os Sete Anões, que ficaram em casa porque têm de acordar cedo no dia seguinte para trabalhar (“Just whistle while you work”, lembram-se?). Diga também que substituiu a saia amarela pela bermuda jeans porque assim é mais prático e que a capa esquentava muito. Saia de lá com a barriga doendo de rir, tome um banho quente antes de dormir e aguarde ansiosamente mais um baile da Orquestra Imperial.
domingo, janeiro 14, 2007
Meu caro amigo:
antes de prosseguir sua leitura neste humilde blógui, marque a sua opção verdadeira.
Sua fé estipula que:
a) Chico Buarque é uma entidade suprema e fenomenal de quem não se pode falar um ai sequer e ele figura na minha top 5 list de pessoas com quem eu sonho em ficar presa no elevador;
b) Chico Buarque tem seu valor, é um grande letrista mas creio que o cara acorda com remelas nos olhos e é passível de ter chulé e além do mais ficar presa no elevador com o Johnny Depp deve ser bem mais interessante.
Se você marcou a opção "a" por favor saia deste blógui imediatamente e não olhe para trás.
Eu sou fã confessa do dono dos olhos de ardósia. Muitas de suas canções têm lugar assegurado no meu cd imaginário contenedor das melhores músicas do mundo. Fico embasbacada com algumas de suas composições e em ver como elas resistem ao tempo. Gosto também do Chico intérprete, embora eu ache que Construção foi feita pra ser cantada pelo Ney e Atrás da Porta pela Elis. Reconheço o charme do moço e ainda mais seu carisma. Acho que Chico roubou todas as cenas de Vinícius, o filme.
Mas no palco ele apenas não funcionou para mim. O intérprete ficou morno, o repertório atual não me emociona e o antigo me soa melhor em cd ou na Casa da Matriz com espaço pra (tentar) sambar e abrir os braços que nem nossos pais fazem quando dançam.
Talvez porque o Chico tenha virado uma entidade eu esperasse dele um show arrebatador.
Sem mais delongas, respiro fundo e afirmo sem medo de ser jurada de morte: fui ao show do Chico Buarque, não gostei e fiquei triste.
Sua fé estipula que:
a) Chico Buarque é uma entidade suprema e fenomenal de quem não se pode falar um ai sequer e ele figura na minha top 5 list de pessoas com quem eu sonho em ficar presa no elevador;
b) Chico Buarque tem seu valor, é um grande letrista mas creio que o cara acorda com remelas nos olhos e é passível de ter chulé e além do mais ficar presa no elevador com o Johnny Depp deve ser bem mais interessante.
Se você marcou a opção "a" por favor saia deste blógui imediatamente e não olhe para trás.
Eu sou fã confessa do dono dos olhos de ardósia. Muitas de suas canções têm lugar assegurado no meu cd imaginário contenedor das melhores músicas do mundo. Fico embasbacada com algumas de suas composições e em ver como elas resistem ao tempo. Gosto também do Chico intérprete, embora eu ache que Construção foi feita pra ser cantada pelo Ney e Atrás da Porta pela Elis. Reconheço o charme do moço e ainda mais seu carisma. Acho que Chico roubou todas as cenas de Vinícius, o filme.
Mas no palco ele apenas não funcionou para mim. O intérprete ficou morno, o repertório atual não me emociona e o antigo me soa melhor em cd ou na Casa da Matriz com espaço pra (tentar) sambar e abrir os braços que nem nossos pais fazem quando dançam.
Talvez porque o Chico tenha virado uma entidade eu esperasse dele um show arrebatador.
Sem mais delongas, respiro fundo e afirmo sem medo de ser jurada de morte: fui ao show do Chico Buarque, não gostei e fiquei triste.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Mas não leve isso tudo tão a sério
Você não pode ligar pra ele no dia seguinte porque isso parece desespero, aliás você não pode ligar pra ele porque isso quem deve fazer é o homem.
Você também não pode achar que ele vai ligar no dia seguinte, você não pode contar com isso gera expectativas e você aprendeu desde cedo que não se deve esperar nada de ninguém, assim evita se decepcionar. Mas tome cuidado pra não demonstrar indiferença porque isso pode botar tudo a perder, você deve saber disfarçar na dose certa senão ele acaba te achando independente demais e some. Mas também não fique achando que ele vai sumir de primeira porque pensamento negativo atrai e essa coisa de esperar logo o pior porque o que vier é lucro é tão teórica quanto ineficaz pois numa dessas você deixa de fazer as coisas por medo. Ok, também não se convença você que o telefone vai tocar dentro de três ou quatro dias e se passado esse prazo o rapaz ainda não tiver telefonado nem pense em se adiantar e cumprir a missão, em hipótese alguma você deve telefonar, nem se o motivo for um velório e se o cara não ligar não derrame uma lágrima e nem ache ruim, ficar triste por causa de homem babaca (porque o homem que não liga alcança imediatamente esse status) é o fim e você deve subir no salto e dar a volta por cima, fazer uma hidratação de queratina, pintar as unhas de rubi, trata-lo com educação se esbarrar com ele por aí, enfim, mostrar que é superior. Caso ele ligue, você não pode se mostrar muito disponível porque assim o cara perde o interesse logo. É necessário um charminho, mas não caia no exagero. Você também não pode estar sempre ocupada porque aí ele desiste mesmo, se sente desprezado, acha que você está esnobando e nunca mais dá as caras.
Você não pode sair muito arrumada no segundo encontro porque ele vai achar que você quis impressionar e se você quis impressionar é porque está amarradona e essa é a última coisa que você quer que ele descubra. Você não pode ser muito fofa e meiga porque aí ele vai achar que você é carente. Você também não pode ser muito fria e distante. Ao mesmo tempo não deve ser muito eufórica, você tem que achar aquele meio termo que vai faze-lo ficar na dúvida, o que gera uma grande possibilidade de um terceiro encontro, quando acaba o mistério eles perdem a curiosidade e aí murcha mesmo.
Você não pode dar de primeira e nem de segunda, na verdade meu bem, você não pode dar nunca porque essa é sua passagem de volta pra casa. Você também não pode não dar porque eles se cansam e procuram outra mais fácil. Você não pode ter um relacionamento puramente carnal porque estaria se desvalorizando e poderia parecer meio piranha, mas você também não pode fazer planos de relacionamentos sérios porque o sujeito se sentiria pressionado. Você também não pode ser a eterna ficante, mas não deve achar que vai ser logo namorada.
Você não pode fazer cobranças porque os moços sempre fogem de compromissos, não pode carregar na maquiagem sob risco de parecer perua, você não pode demonstrar toda a sua sofisticação sob pena de assustar o cara, você não pode busca-lo em casa pra não parecer feminista, você não pode aceitar carona sempre pra não parecer submissa, você não pode usar batom porque homem não gosta, você não pode demonstrar ciúme, você não pode reclamar do futebol, você não pode agir impulsivamente, você não pode querer ser emancipada e nem Amélia, nem oito e nem oitenta e só o que você pode é ter muita, muuuuuuuita preguiça dessas regras antiquadas e chatas demais, pode bocejar e inventar uma brincadeira nova.
E quem é que vai saber jogar?
Você também não pode achar que ele vai ligar no dia seguinte, você não pode contar com isso gera expectativas e você aprendeu desde cedo que não se deve esperar nada de ninguém, assim evita se decepcionar. Mas tome cuidado pra não demonstrar indiferença porque isso pode botar tudo a perder, você deve saber disfarçar na dose certa senão ele acaba te achando independente demais e some. Mas também não fique achando que ele vai sumir de primeira porque pensamento negativo atrai e essa coisa de esperar logo o pior porque o que vier é lucro é tão teórica quanto ineficaz pois numa dessas você deixa de fazer as coisas por medo. Ok, também não se convença você que o telefone vai tocar dentro de três ou quatro dias e se passado esse prazo o rapaz ainda não tiver telefonado nem pense em se adiantar e cumprir a missão, em hipótese alguma você deve telefonar, nem se o motivo for um velório e se o cara não ligar não derrame uma lágrima e nem ache ruim, ficar triste por causa de homem babaca (porque o homem que não liga alcança imediatamente esse status) é o fim e você deve subir no salto e dar a volta por cima, fazer uma hidratação de queratina, pintar as unhas de rubi, trata-lo com educação se esbarrar com ele por aí, enfim, mostrar que é superior. Caso ele ligue, você não pode se mostrar muito disponível porque assim o cara perde o interesse logo. É necessário um charminho, mas não caia no exagero. Você também não pode estar sempre ocupada porque aí ele desiste mesmo, se sente desprezado, acha que você está esnobando e nunca mais dá as caras.
Você não pode sair muito arrumada no segundo encontro porque ele vai achar que você quis impressionar e se você quis impressionar é porque está amarradona e essa é a última coisa que você quer que ele descubra. Você não pode ser muito fofa e meiga porque aí ele vai achar que você é carente. Você também não pode ser muito fria e distante. Ao mesmo tempo não deve ser muito eufórica, você tem que achar aquele meio termo que vai faze-lo ficar na dúvida, o que gera uma grande possibilidade de um terceiro encontro, quando acaba o mistério eles perdem a curiosidade e aí murcha mesmo.
Você não pode dar de primeira e nem de segunda, na verdade meu bem, você não pode dar nunca porque essa é sua passagem de volta pra casa. Você também não pode não dar porque eles se cansam e procuram outra mais fácil. Você não pode ter um relacionamento puramente carnal porque estaria se desvalorizando e poderia parecer meio piranha, mas você também não pode fazer planos de relacionamentos sérios porque o sujeito se sentiria pressionado. Você também não pode ser a eterna ficante, mas não deve achar que vai ser logo namorada.
Você não pode fazer cobranças porque os moços sempre fogem de compromissos, não pode carregar na maquiagem sob risco de parecer perua, você não pode demonstrar toda a sua sofisticação sob pena de assustar o cara, você não pode busca-lo em casa pra não parecer feminista, você não pode aceitar carona sempre pra não parecer submissa, você não pode usar batom porque homem não gosta, você não pode demonstrar ciúme, você não pode reclamar do futebol, você não pode agir impulsivamente, você não pode querer ser emancipada e nem Amélia, nem oito e nem oitenta e só o que você pode é ter muita, muuuuuuuita preguiça dessas regras antiquadas e chatas demais, pode bocejar e inventar uma brincadeira nova.
E quem é que vai saber jogar?
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Te adorando pelo avesso
Eu queria ligar pra ela e dizer o buraco que eu sentia e queria que ela entendesse e sentisse o mesmo e queria que ela tivesse a fórmula que consertasse tudo. Eu queria que ela encontrasse um jeito, um traço, um lugar onde tudo pudesse ser de novo do jeito que era antes dela estragar o jogo. Eu queria que ela me pegasse no colo e dissesse que ia passar, mas não está passando, não vê que não está passando? Eu queria gritar no ouvido dela todos os insultos e barbaridades que eu pudesse lembrar e queria que doesse tanto nela quanto doeu em mim. Eu queria que ela visse como eu vejo, eu queria que ela enxergasse o quanto todo mundo perdeu, eu queria que ela visse como eu sofro e eu queria que ela se importasse, eu queria que ela fizesse um esforço qualquer que não surtisse efeito mas que demonstrasse algum sinal de preocupação, algum resquício de decência. Eu queria que ela sentisse o cheiro do que ela fez, eu queria enfiar uma faca nas costas dela que nem ela fez na minha, eu queria que ela comesse azedo, queria jogar em cima dela toda a lama onde ela me deixou, eu queria ver na cara dela uma tristeza profunda e irremediável. Eu queria que ela sentisse os mesmos golpes que me deu no estômago, queria que em cada som que lembrasse o meu nome ela sentisse o enjôo subindo pela garganta. Eu queria que ela não mais pudesse ouvir as músicas que a gente dançava, eu queria que um dia ela se visse engasgada e magra como eu fui no dia quando. Eu queria que ela caísse numa rua imunda, joelhos contra a calçada e uma dor tremenda, mãos raladas e uma humilhação impiedosa. Eu queria que ela entendesse que confiança é definitivo e que eu não saberia continuar uma conversa com ela, não depois de tudo, eu queria que ela me desse a resposta, eu queria que tivesse resposta.
Eu queria ligar pra ela e dizer o buraco que eu sentia e queria que ela tivesse o jeito certo e que todas as coisas boas que eu sentia por ela voltassem à tona, eu queria ao menos poder pensar nela sem achar que é tudo tão radical. Eu queria não sentir raiva por ter tanta memória de carinho, eu queria sufocar um gostar dela.
Eu queria que ela voltasse a fazer sentido.
Eu queria ligar pra ela e dizer o buraco que eu sentia e queria que ela tivesse o jeito certo e que todas as coisas boas que eu sentia por ela voltassem à tona, eu queria ao menos poder pensar nela sem achar que é tudo tão radical. Eu queria não sentir raiva por ter tanta memória de carinho, eu queria sufocar um gostar dela.
Eu queria que ela voltasse a fazer sentido.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
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