segunda-feira, março 23, 2009

Your skin makes me cry *

Deixe que eu pense que você é do jeito exato que já conheço e que escorre bem para os menores cantos do molde que construí: deixe que eu saiba, como um cego, onde piso e onde pouso minhas mãos: deixe que eu ache que você é de um tamanho previsível, sem alardes: deixe que eu adivinhe o machucado do tombo que vou tomar: deixe que eu decida o que é cilada ou não: deixe que eu pense que armadilha é fazer seu jogo: deixe que eu resolva que é o contrário: deixe que eu possa te catalogar e te resolver em um minuto: e te imaginar com cheiros e deslizes que eu já sei: deixe que eu calcule a hora certa para ceder aos seus apelos: deixe que eu te saiba tão bem que não te precise, mas que eu te queira mesmo assim: deixe que eu te queira: deixe que eu te invente e te conduza pro final que eu escrevi: deixe que eu me dê como inventário pros seus olhos: deixe que eu me exiba como vitrine pros seus braços: deixe que eu te preencha um pouco: deixe de lado essa mania de ser tão como eu imagino que você seja: ande querido, já está na hora: venha logo: deixe que eu me surpreenda.

* So fucking special.

Radiohead em Creep.

terça-feira, março 17, 2009

Antes de dormir:

Segunda-feira só faz sentido depois que vejo o novo capítulo da série; perdi a vontade de ir àquele show, deve ser porque comprei o ingresso há tanto tempo que esqueci; me dá uma vontade de ser mulherzinha toda vez que passo creme no nariz; o relógio faz um barulho danado dos ponteiros e fico aflita enquanto não durmo, ou enquanto não acordo totalmente; o carro parece que sossegou desde que ficou todo amassado do lado direito; estou aprendendo a emprestar livros; não sei como se pede desculpas; uma pilha de revistas foi pro lixo; telecine light me vicia, por pior que sejam os filmes; acho que pedi ajuda esses dias, mais de uma vez; fico lendo um livro de 500 páginas achando que nunca vou chegar ao fim, mas já cheguei na metade; sou ecologicamente correta no super mercado e não gasto sacolas plásticas; minha máquina de fabricar água pifou, oh céus!; meu saldo bancário me odeia, e é inversamente proporcional ao meu caso de amor com a Zara; eu sei, são só besteiras; não sei o que fazer com todos os cartões postais que não tenho onde exibir; fico já antecipando as roupas que vou levar na viagem, mesmo que ainda falte um mês e eu não tenha casacos; José Luis Peixoto me fez chorar no meio do carnaval e foi por isso que meu celular se afogou na praia, porque preferi salvar o livro; tenho uma queda por dicionários antigos, daqueles que cheiram a velhice e cuja ortografia é duvidosa; ando militando a favor de suco de uva; ando acordando com o cabelo igual ao do Bozo, todo pro lado, um horror!; ando com vontade de escutar Lenny Kravitz cantando “baby it ain’t over til it’s over” só porque eu concordo totalmente, mas como é que faz pra saber que acabou?; tento matar umas pessoas, mas elas parecem ter sete vidas; são sete dias que se emendam em muito mais que sete horas de sono por noite; será que depressão dura uma semana só?; e será que é muito grave nunca ter ido a um concerto de música clássica?; a oftalmologista começou a me explicar a operação dos olhos e eu quase vomitei em cima dela de nervoso, eu não precisava de tantos detalhes assim, oras!; e aí perdi os óculos de sol dentro do carro, vê se pode; e pode fingir que ta tudo bem quando se morre de dor no pescoço?; e é possível gostar de alguma coisa quando alguém do seu lado na platéia não para de tossir?; às vezes eu lembro de uma vez que eu tinha uma estagiária e eu não tinha a mais vaga idéia do que fazer com ela, e agora eu estou que nem aquela música “I Just don’t know what to do with myself”; tanto clichê...; preciso estudar francês; sinto uma saudade tremenda da cadela da minha professora de francês, por mais estranha que seja essa frase; o protetor labial não impede que eu continue comendo a boca toda, o protetor solar não impede que às vezes descasquem as costas e essa proteção idiota que eu inventei contra as pessoas não impede que eu me desmantele toda de vez em quando, uma vez por dia, por não conseguir mais me desmantelar com elas; o som está com dificuldades para fazer os CDs tocarem; roubaram a bolsa da Jandira Fegali na Casa de Cultura Laura Alvim; a Casa da Gávea vai fechar; dizem que a Maria Bonita está falindo; esses amores platônicos perdem a graça tão rápido; não agüento mais escutar: crise, recessão, Barack Obama; e o Collor, alguém me explica?; é, eu sei, não entendo nada mesmo; detesto todos os colunistas do Globo, concluí com a Bebel; e esse sono que não me faz dormir?; meu joanete está crescendo e eu não sei o porquê; quantos baianos você conhece? Eu só conheço um, e foi sem querer; Toni me pega no colo toda vez que me encontra, mesmo que eu seja enorme; agora já chega, preciso dormir, amanhã acordo de novo ao meio-dia e nunca acerto o horário, fico bocejando até o pôr-do-sol; tenho que ligar pro despachante amanhã, sem falta; e o sono, meu deus, e o sono?; leio mais 10 páginas, só esse capítulo, ou tomo logo um remédio, daqui a pouco não consigo mais, agora já chega, jogo só mais uma partida de Tetris, busco água pro comprimido, desabo desmilinguida na cama antes que você me invada a cabeça outra vez.

:: "Sua enorme inteligência compreensiva, aquele seu coração vazio de mim que precisa que eu seja admirável para poder me admirar. Minha grande altivez: prefiro ser achada na rua. Do que neste fictício palácio onde não me acharão porque - porque mando dizer que não estou, 'ela acabou de sair'." Clarice Lispector em Para Não Esquecer

sábado, março 14, 2009

Carta a M.

Meu mais querido,

Eu começaria essa carta com um longo “aaahhh” muito suspirado que te faria entender metade das coisas – a preguiça de mais um sábado, a lentidão depois de quatro caipirinhas, a vontade de ficar na cama me espreguiçando e acordando repetidamente.

Sonhei que falávamos italiano, e com as mãos. Sei que o seu tempo anda inversamente proporcional ao meu, não se preocupe, são coisas breves e fundamentais que tenho que te dizer.

Despencou uma chuva por aqui, depois de muitos dias secos, a cidade ficou com aquele jeito escorregadio e abafado de março, foi impossível não cantarolar “É a chuva chovendo, é conversa ribeira / Das águas de março, é o fim da canseira”.

Ontem falei tanto que acho até que emagreci, ou que fiquei mais bonita. E hoje falei mais ainda, no fim do dia entendi o cachorro com sua língua pra fora, devorei garrafas d’água e pus música instrumental bem alta, mas então o próximo cd no som começou, Elizeth cantava tão lindo “Ah seu eu te pudesse fazer entender...” Às vezes acho que posso fazer qualquer um entender, e a conversa desatada de ontem foi porque encontrei alguém que, ufa!, me passou atestado de normalidade: ela sentia tudo igual. Achei que íamos nos desabotoar em choro. É claro que terminamos a noite num abraço cheio de risadas. Meio nervosas. Tipo aquelas. Você sabe.

A pele das minhas pernas descasca de tão seca, estou providenciando o conserto. Voltei a usar lentes, mas no dia seguinte é batata, fico de ressaca e não posso ver nem quadro de Van Gogh na frente. Acho que meu cabelo está morrendo. E meu braço parece catapora de tanto mosquito que anda me mordendo. A rima foi acidental. É, talvez eu não tenha ficado mais bonita coisa nenhuma. E não me arrisco a dizer que fiquei mais leve, porque posso confundir tudo e na verdade acho que eu fiquei é mais murcha. É que depois de tanta conversa e análise, ainda ficou aquela abstração que a gente guarda, entende? Nada fica apaziguado... Então as risadas nervosas. Entrei no carro e não sabia nem que música escutar. Coloquei Unfinished Sympathy. Não é hipnotizante a voz dela? Fico alucinada.

Fui ver Bruno Cezario de novo, e me encantei de novo, e sonhei com os pés dele de novo e de novo e de novo e sim, é verdade, voltei a dançar. Sinto que meu corpo está me dando trégua e que está disposto a reajustes. É uma conquista, não sei até quando aguenta. Daqui a uns anos vou precisar de mais RPG.

Você acredita que três bailarinas dançaram ao som da voz de Gabriel Garcia Marquez lendo uma parte do primeiro capítulo de Cem Anos de Solidão? “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” Comecei a reler. No fim todo mundo aplaudiu de pé, gritando “Bravo!”, foi o número mais bonito da noite. Se eu fosse um pouco cafona diria que foi mágico. Mas sabe, foi mágico mesmo.

Não me acostumo a ler estreia ou a ter ideia sem acento.
Continuo assassinando borboletas no banho. Não é culpa minha. Elas invadem o box, e são tão pequenas que acabam se afogando com os respingos que sobram pros lados. É uma catástrofe, eu sei. Mas são elas que ocupam o espaço. Outro dia apareceu um vaga-lume por aqui. O cachorro achou estranhíssimo. Ele brilhava tanto que nem sei. Me deu vontade de pique-esconde. Ou piquenique. Ou qualquer outra dessas coisas que eu sempre fazia em Penedo. Concurso de mergulhos. Brincadeira de estátua. "Mamãe posso ir?" Penedo era cheio de vaga-lumes. À noite, antes de dormir, ouço grilos lá fora. Não tenho certeza de que moro mesmo no Rio.
Bruno, o outro, voltou cheio de saudades. Ele está de barba e óculos. Mas isso é só pra você ficar com ciúme.

Assei biscoitos na casa de Maíra. Ela agora tem uma cadeira de balanço na cozinha, o que é perfeito para formar a massa do biscoito e fazer bolinhas. Ouvíamos a MPB FM e acho que foi por isso que os biscoitos ficaram meio estranhos. Ou por causa do forno que teimava em assar mais uma parte do tabuleiro que outra. A Maíra adorou os biscoitos. Mas é só porque ela não sabe que eles podem ser bem melhores.

Ando tentando gostar de muitas coisas esses dias, mas sabe o que me deixa realmente contente? Essas trocas que a gente faz, como aquele domingo de conversas em que nós funcionamos e rimos. Como a praia de hoje com ameaça de chuva e jornal compartilhado. Como a noite de ontem em que fomos sutilmente expulsas de dois restaurantes, como quando as coisas só terminam porque não têm mais pra onde ir. Tudo isso que pode se converter em inspiração, antes mesmo que a gente entenda. Parece que faz sempre sol assim.

A parte da música que mais gosto é essa “É o projeto da casa, é o corpo na cama, é o carro enguiçado, é a lama, é a lama.” Eu nunca sei se coloco ponto final depois ou antes das aspas.

Continuo recebendo mensagens que começam com “Vanessa...” e não sei como dizer que é engano. Continuo sem resposta de um email que enviei pra outra pessoa. Mas acho que a falta de uma já é tudo o que preciso. Mesmo assim dói. Acho que eu inventei tantas coisas pra mim e pra ele que acabei esquecendo de inventar um final. A gente sempre quer que as pessoas sejam diferentes do que de fato são. Algumas. Você pode ficar igual. Eu pretendo mudar algumas coisas. As pernas, por exemplo. E não falo só de hidratação. De caminhos também.

Pre-ci-so trabalhar. Estou considerando qualquer área que não seja: medicina, engenharia, odontologia. E direito. O que mais tem me tentado ultimamente é fugir com o circo.

Meu pescoço começa a falhar. Já são quase 11, estou metida numa daquelas camisetas velhas e desbotadas e gigantes. Não recusei convites para chopes porque desliguei o telefone. A única coisa que eu faria hoje seria me apaixonar. Ou receber massagem.

Me conte alguma coisa.

Sua mãe está linda no jornal!
beijos enormes e muitos,

terça-feira, março 10, 2009

Grand jeté

Eu acho que os bailarinos são deuses que suspendem suas respirações às vezes, para nos abençoarem durante o tempo em que dão suas piruetas, e acho que depois das apresentações eles sentam num banquinho, bebem uma garrafa d’água e choram. Muito, choram muito, porque sabem o esforço que têm que fazer, sabem que depois de dançar eles dividem tudo o que guardavam, sabem que distribuem para os outros as suas melhores partes, e as piores também, sabem que o suor é enxurrada, sabem que os aplausos são catarses e amor, e um pouco de inveja. Eles sabem que os aplausos são desejos.

Eu acho que as pessoas que aplaudem os bailarinos entram em seus carros e até se esquecem de ligar a música, e dirigem com calma. Acho que as pessoas-platéia chegam em suas casas, abrem uma garrafa de vinho e tiram os sapatos enquanto se acomodam na poltrona e choram. Muito, choram muito, porque sabem o esforço que têm que fazer para não se desfazerem depois, porque conseguem entender que durante os minutos em que os bailarinos estão no palco elas só precisam gostar deles e olhar para eles e usar de seu egoísmo para com o resto de tudo o que acontece. Elas aplaudem porque precisam da catarse, desejam o amor. Elas sabem que os aplausos são levezas.

Eu acho que quem fica no meio do caminho, quem assiste e depois arrisca seus passos, quem risca os pés pelo chão e depois aplaude, acho que essas pessoas conseguem ter o maravilhamento que a platéia tem, e ao mesmo tempo conseguem o esvaziamento que os bailarinos fazem. Eu acho que essas pessoas, ao fim do espetáculo, entram no carro e não sabem pra onde ir. Eu acho que essas pessoas, ao fim da aula, enxugam o suor e sabem que estão prontas pra se preencherem de novo, de tantas formas e sensações, e não sabem exatamente quais. Elas chegam em casa, abrem o jornal e choram. Muito, choram muito.

E se tudo acabar, pra onde vão os aplausos?



:: "Dei um salão aos meus pensamentos! (...) Ri! Quem foi que disse que não vivo satisfeito? Eu danço!" Mario de Andrade


(a capa do Segundo Caderno do Globo de hoje, ou ontem - 2a feira 09/03 - me deprimiu).

sexta-feira, março 06, 2009

Das coisas

Do amor

Alguém munido de uma poltrona e boas mãos oferece cafuné na praia de Ipanema a módicos preços; no fim da aula de gyrotonic (ou o que quer que seja) eu deito a cabeça num travesseiro durinho que faz massagem no pescoço quando acionado; no meio da aula de dança contemporânea o professor coça as costas com movimentos precisos para relaxar os músculos; no final da sessão de massagem a Ana faz gato e sapato das minhas orelhas e traça caminhos no meu rosto que eu nem sabia; além de me dar um beijo na testa e me deixar sozinha, barulho de água na sala escura, cobertor quentinho, abraço de cânfora.

Do calor

Passar protetor solar nas costas, pernas, braços, barriga e cara dá um calor desgraçado, sua pra caramba de modo que o mar é o único destino possível, mas a água está morna de tanto sol; a orla da Barra parece sacanagem, com degradé de turquesas e cheia de ameaças às pessoas que trabalham, e cheia de ternura com quem não tem muito o que fazer, oferecendo um mar que deixa qualquer um carente depois; até o banho não tem sido tão gelado quanto deveria; o cachorro sofre e pendura a língua entre os dentes num arfar constante que me mata de dó, mas não adianta que ele não gosta do ar; alguém ainda usa chinelos, ou todo mundo só usa Havaianas?; um mergulho que não arda os olhos está no topo da minha wishlist.

De nós

Os grampos embaralham um pouco o que sobrou dos cabelos; as coisas na varanda secam umas por cima das outras com cuidado pra não manchar; a única coisa que não se confunde são as revistas que li, porque são todas iguais.

Da pele

Fica no repeat a música, como fica a minha cabeça, pensando e repisando e refazendo cada uma das palavras, não só as da canção, as tuas também. Por fim, penso que faltou uma frase naquela carta. Por fim, penso que outras pessoas precisam conhecer a cantora, talvez funcione pra mais alguém como funciona pra mim.

Te amo, pode ser?


::
A tua ausência me causou um caos
No breu de hoje sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal


Maria Gadu in www.myspace.com/mariagadu , dica da Maíra.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Oba, não vou!

Deve ser alguma coisa no meu mapa astral, um encontro acidental de planetas e luas que juntos mexeram os pauzinhos pra que sem mais nem menos eu detestasse carnaval. Pior: fico com vontade de chorar toda vez que escuto aquela marcha fúnebre “foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros, depois morreu”. Eu juro que não é culpa minha, eu defendia os blocos e os tumultos que eles causavam, confeccionava fantasias e passava sem traumas pelos porteiros para ir aos blocos de manhã cedo (e também não tinha trauma na volta) e era capaz até de ficar bêbada na Praça XV.

Até que esse ano alguma maldição me pegou de jeito e eu fiquei de bode: pouco me importa se Zezé e sua cabeleira são bossa-nova ou transviados, menos ainda me perturba se Aurora é sincera e tenho a mais absoluta certeza de que cachaça não é água nem aqui na China. Passei minha lista de possíveis fantasias adiante, aproveitei os útimos dias de liquidação nos shoppings e pretendo frequentar cinemas muito bem refrigerados com meus vestidos novos. Caso algo me acometa na véspera, levanto bandeira branca, tiro minha roupa de bate-bola do armário e caio no samba, encarando Boitatá e Boi Tolo mas tem que ser grave, muito grave, uma conjunção de astros daquelas que faz até Pierrot, esse mala, esquecer Colombina, verdadeiramente uma chata de galochas.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Madrugada dos mortos

Não é bom sinal quando a pessoa está dentro de uma boate e sente frio, a mão congela e ela tem espaço suficiente na pista pra fazer a coreografia do jazz de 1993.

O que acontece que a partir de uma certa idade a gente desaprende como freqüentar uma “night”? Por que de repente a gente começa a se sentir meio “tio”? Por que, meu deus, da noite pro dia o jogo de pac-man passa a ser muito mais emocionante que qualquer set-list dos djs da pista 2 da Casa da Matriz?

É duro. Você chega na porta do lugar e olha para os adolescentes e têm a absoluta certeza de que não é mais um deles: o seu dress-code está ultrapassado, você tem um ataque de riso quando o segurança pede seu documento e fica com medo de ser barrado por excesso de idade. Certamente o público-alvo não é mais... eu.

Lá dentro piora: um dos seus amigos pergunta pro cara do bar “mas que horas as pessoas costumam chegar?!”, o desespero estampado no rosto. Ele é o mesmo que depois perguntará ao dj “mas vem cá, não vai tocar Madonna não?”. Teremos sorte se o Dj tiver nascido na década de 80, se for um filho dos 90 as coisas vão complicar.

Num momento de total emancipação, que só os 26 permitem, abrimos a pista sem medo, arriscamos passos de dança e vibramos a cada música que conhecemos: uma do R.E.M, uma do Joy Division, e, babe: cantamos de cor e salteado, e com muita animação uma música do Gossip. Nos sentimos tão atualizados que começamos a pular. Então nos damos conta que até nosso dance-code é démodé: os adolescentes adaptaram os passos de funk para todo e qualquer ritmo, fazendo sanduíches de si mesmos enquanto se esfregam e cantam com seus drinks na mão. É bizarro. Olhamos pra eles com ares de reprovação.

Começamos a consumir água enquanto as pessoas ainda estão chegando, afinal temos que obedecer a Lei Seca. Respeitamos direitinho a área de fumantes. Lavamos as latinahs e garrafas antes de colocarmos a boca ali. De vez em quando sentamos um pouco, sabe como é, pra descansar as pernas. Então nos agarramos à manivela do Pac-Man como se não houvesse amanhã, e fase atrás de fase devoramos bolinhas amarelas e monstros. No fim, exaustos, cedemos lugar a alguém de 18 anos que nunca nem soube o que era Nintendo.

Por milagre, nenhuma pessoa desconhecida vem nos abordar, isso seria tão patético quanto o fato de que saímos da boate à 1 e meia da madrugada. Vai ver a terceira idade se chama “melhor” idade por causa disso: você finalmente aprende a se divertir, mesmo que o final da noite seja a tela de um jogo de Atari onde se lê GAME OVER.



:: Teenage Kicks, Nouvelle Vague

domingo, fevereiro 01, 2009

When only you could be the one to win out over me*

Eu fico perdida e encantada com todas as possibilidades que você me dá, com todas as chances que você me oferece de pensar mais sobre as coisas, com todas as chances que ganho de reavaliar as relações que crio com tudo, com as pessoas, com você também. É como se a cada conversa eu tivesse tempo e lucidez para compreender melhor tantos desses questionamentos, dessas angústias e aflições que dividimos. Como se a cada divagação eu tivesse mais instrumentos e idéias para lidar com esses dias de nonsense interminável.

Fico perdida porque escarafunchamos tanto os itens dos debates e nunca nos preocupamos em concluir, de forma que acumulamos muito mais perguntas que soluções. E também porque me adoro quando estou perto de você, de um jeito tão novo e delicioso que, confesso, às vezes desligo um pouco das suas palavras para aproveitar essa sensação tão boa de gostar de mim tão plenamente.

E fico encantada porque a sua capacidade de argumentação sempre me surpreende, e isso me dá a dimensão exata do quanto ainda posso esperar de você – sensatez, humor, maturidade, em doses e momentos onde geralmente eu só esperaria decepção. E principalmente, me encanta essa sensibilidade, essa doçura, esse jeito de olhar que você consegue, essas descobertas todas que você faz, e que eu faço também, em horas de assuntos e risos que compartilhamos.

E fico absolutamente feliz quando concluo que essa felicidade é possível, e sujeita apenas à nossa vontade de ficar perto, à nossa convivência, tão essencial e redonda que segregamos pessoas em nome dessa sintonia.

Eu fico perdida e encantada com todas as possibilidades que você me dá, com todas as chances que você me oferece de entender e apreciar detalhes que provavelmente passariam despercebidos, fico boba ao constatar o quanto você sabe sobre milhares de coisas que eu sequer desconfio, o quanto você transforma tudo em poesia (sem ter idéia de que o faz), o quanto alguns episódios e sutilezas ganham dimensões tão especiais quando narradas de forma tão envolvente por você, fico envaidecida e ao mesmo tempo abençoada em perceber o quanto você me deixa à vontade para cantar aos berros a mesma música repetidamente enquanto você dirige, inventando a letra, mudando um pouco a melodia, desdenhando da companhia de todo mundo que não vai saber cantar junto.




* Basia Bulat in "Snakes and Ladders"

segunda-feira, janeiro 26, 2009

O dia em que assei biscoitos

Ameaçava chover no dia em que assei biscoitos, e fazia frio, nem tanto que merecesse meia, nem tão pouco que exigisse biquíni, aquele frio moderado que faz por aqui de vez em quando. O caso é que também não era necessário ar-condicionado, mas no dia em que assei biscoitos vieram, justamente, conserta-lo, de modo que eu tive que deixar a máquina ligada até o defeito aparecer. O defeito eram pingos que não deveriam pingar, e até que o efeito goteira começasse eu precisei de: meias, casaco, spray de garganta.

Tive de prender o cachorro no dia em que assei biscoitos, porque os técnicos da refrigeração eram alvos em potencial para os dentes do cão, que é pequenino e fofo, mas morde com crueldade canelas e panturrilhas. Uma vez preso no quarto, o cão começa sua sinfonia de latidos e choros que causam: irritação, piedade, loucura.

A tarde toda do dia em que assei biscoitos foi passada, então, encasacada, entrando no quarto às vezes para que o cão entendesse que eu não iria esquece-lo (e fizesse algum minuto de silencioso alívio), e tossindo na sala enquanto os homens se penduravam em escadas.

Dada a partida dos técnicos e a libertação do cachorro, pus-me na cozinha com a mão na massa, querendo, esperando, torcendo pra que alguém ligasse e eu sujasse o telefone com as mãos de farinha só para poder dizer “não posso falar, estou assando biscoitos”. Deve ser romantismo, mania de achar bonito as coisas que não sabemos fazer, de pensar que alguma magia pode surgir do simples fato de: beber café, comer sushi, assar biscoitos.

Pronta a massa, arrumei os tabuleiros, fiz bolinhas sem padronização de tamanhos, lutei contra o forno que não queria se manter aceso e saí correndo afoita quando escutei o trim-trim lá na sala, pronto, era ela, uma amiga “você está perto do shopping?”. Não, estou assando biscoitos, eu disse enquanto limpava a mão livre no avental, e ela não entendeu nada. São para consumo próprio, pensei, mas continuaria sendo um fato totalmente descontextualizado.

Esfarelei vários dos biscoitos no chão ao passa-los do tabuleiro para a lata, num destrambelhamento típico dos ansiosos de primeira viagem. A recompensa do cachorro, que passara o dia trancado e ameaçado de abandono, foi comer do chão os biscoitinhos já mornos. Pela dedicação com que se pôs a lamber o ladrilho, arrisco o palpite de que estou aprovada na minha nova aventura.

Aproveitando o resquício do clima temperado que ainda fazia na sala, onde o ar-refrigerado teve que ficar em teste, esquentei uma xícara de água, despejei um sachet de chá e fiquei: vendo um filme pela décima vez, orgulhosa por ter assado biscoitos, engordando com o cão esquentando os meus pés.

No dia em que assei biscoitos concluí: já posso ser avó.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Garoa

Ao barulhinho da vitamina C efervescendo no copo o olho parece que gruda sem querer abrir, não acredito que já é tão cedo de novo. Se fosse outro dia eu ia inventar uma dor de barriga ou enxaqueca pra pular as obrigações, mas hoje não, os últimos ontems foram tão bons que é melhor não arriscar perder mais um. Não sei se tem a ver com Obama ou Alexandre Herchcovitch, parece que a lâmpada acendeu com força incandescente em algum lugar dentro da minha cabeça. Quando a água fica totalmente laranja já estou com o pé no chuveiro. Quando me enrolo na toalha já fico com pena de que tudo tenha que acabar logo. Hoje vai ser um ontem de gargalhadas quando for tão cedo de novo. Tenho até medo de pensar como tudo poderia ser per-fei-to se eu tivesse um casaco de lã bem quentinho, ou você me esperando na saída.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Meus suicídios (vol. 2)

IV.

Eu me suicido toda vez que corto o cabelo. É um cliché tão absurdo que nem tem graça contar. Primeiro começa uma vontade de mudança, enjôo (enjoo?) dos vestidos, das comidas, da sem gracice de dias arrastados sem nenhum sobressalto e então preciso apostar numa ousadia qualquer, e é sempre o cabelo, e é sempre libertador entrar pela porta do salão e é sempre tão corajoso confiar nas tesouras que remodelam as madeixas. Então conto 18 grampos que seguravam os cabelos no alto da cabeça, vejo os cachos caindo e engulo seco, faço cara de “tá ótimo” e viro de lado pra ver melhor, sem prestar atenção na tesoura que chega perto demais e me corta a nuca, o sangue pinga sobre os cabelos já mortos no chão e pronto, estou suicidada, e cada vez que penteio o que restou dos cabelos depois do banho escorre mais sangue da nuca, e isso dura meses até que tudo cresça novamente e eu precise mudar, da próxima vez, penso, pinto de azul.

V e VI.

Eu me suicido toda vez que escuto aquela música de manhã, ao entrar no carro, ligar o ar e ouvir a voz “Take it back, take it back...”. É um suicídio invejoso, começa com uma vontade de ter feito aquilo e parte para uma frustração tamanha de que nunca vou conseguir expressar tudo o que sinto com essa música (e outras). Então faço anotações no bloquinho do carro, penso em dizer que aquela música tem ares de fim de festa, ares daquele momento em que procuro na bolsa o último cigarro do maço e ele está completamente amassado e meio quebrado, mas não é nada disso, talvez tenha jeito de dia seguinte, de acordar e tropeçar já de cara, de topar com um móvel que sempre esteve ali no caminho, mas é muito maior e pior e então meto a cara no escapamento e fico asfixiada, com gosto de fumaça na boca, muito mais que mil cigarros desconjuntados e apago num desmaio, acordo tanto tempo depois, “I don’t wanna wonder whether you care so don't try to woo me, don’t try to fool me. I know all your tricks.”, a música continua lá me arrastando pra lugares cinzentos e fantásticos, então me rendo, canto do jeito que eu sei e pronto, me mato duplamente, dessa vez de desgosto.

VII.

Eu me suicido toda vez que quero me apaixonar de novo. É um suicídio patético porque eu nunca sei se quero me apaixonar porque a pessoa realmente merece ou se é porque já faz tanto tempo, e fico confusa pensando se é mais trágico gostar e não ser correspondida ou se é pior saber que alguém passou em branco, porque aí não uso de desculpas estúpidas para ficar boba e mole, não relembro obsessivamente o beijo que me causou calafrios e não tenho razão pra perdoar os latidos do cachorro. Então começo a comer chocolates numa velocidade assombrosa, esvazio consecutivas caixas e morro por excesso de açúcar no sangue, sozinha desse jeito não tenho por onde escoar tanta doçura.


(ver vol. 1)

terça-feira, janeiro 13, 2009

Considerações sobre miopia

Stress da córnea, acontece com todo mundo que usa lentes por muito tempo, nada grave, uns dois meses sem elas, muita hidratação nos olhos, faça esses exames, seus olhos parecem ótimos para serem operados, é rapidíssimo, em menos de um minuto o laser conserta isso aí, seu grau é baixo.

É, é baixo, mas o suficiente pra não enxergar quase nada, o mundo todo fica como um quadro impressionista visto de perto. E quando vou à praia os óculos escorregam pelo nariz que sua. E tenho de mergulhar com eles na cara mesmo, senão não sei se as ondas estão perto ou longe, e onde encontrar as pessoas na volta pro guarda-sol.

E esse é só o menor dos problemas e dilemas estéticos.

Óculos não combinam com brinco grande, e nem dá pra usar arco. Óculos são ruim pra dirigir porque se saio com os de sol, entro no túnel e fica uma escuridão, e se troco os pares nesse momento fico confusa. E não consigo mais fazer sobrancelha, preciso estar com os óculos na cara pra enxergar os fios, o que impede o acesso a eles. E se tiro os óculos me grudo no espelho, minha respiração embaça e dá no mesmo. E também não pinto mais os cabelos, porque preciso abaixar a cabeça pra enxergar o máximo de raiz possível, portanto olho por cima da armação e não vejo mais.

E me sinto completamente vulnerável e insegura, como se a qualquer momento os óculos pudessem cair ou ser levados e então ai de mim, sento na calçada e esperneio até que alguém venha em meu socorro.

Com a proximidade do carnaval o pânico só aumenta. Vou ter que me fantasiar de nerd.

domingo, janeiro 04, 2009

Praça Pio XI

Depois de tantas horas daquela mesma conversa, ela na poltrona, eu no sofá, os copos se esvaziando na mesma velocidade em que os cinzeiros se enchiam, os planos na mesa dividindo espaço com as últimas flores do vaso, a luminária acesa no canto da parede, os sapatos largados sobre o tapete, começamos a escutar o barulho da chuva, suspiramos ao mesmo tempo e combinamos ter mais disciplina. Precisamos parar de quebrar tanta louça em casa, e saber quando é hora de trocar o óleo do motor. Precisamos conseguir guardar algum dinheiro, pra conhecer New York ou comprar à vista um vestido, um quadro para poetisar a parede, uma cortina para poder dormir até tarde aos domingos. (Precisamos de mais domingos como esse). Combinamos de combinar um jeito para termos certeza que ambas cumprirão sua parte no acordo, e de combinar também sessões de filmes bobos e alegres, depois dos quais esqueceremos um pouco de todo esse assunto sério, relembraremos antigas paixões e selaremos o contrato final: deixaremos as portas abertas, e saberemos quando esquecer o guarda-chuva em casa.




"- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.
- A coisa ou a pessoa?
- As duas. "

Caio Fernando Abreu.




obs. este blog não segue o Acordo Ortográfico (por tempo indeterminado).

sábado, dezembro 20, 2008

Keep me in mind

A conversa começa com o clássico “o problema não é você, sou eu”, e é claro que é, não estou nesse divã à tôa e nem ela me escuta de graça, e o tempo, o nosso, é caro demais pra que eu fique olhando pra ponta do sapato e dizendo que eu queria ser instrumento pra fazer música ou talvez Capitu, ou vento perdido sem rumo no meio dos cabelos dele pra sempre, ou pingo de chuva pra cair grosso da árvore e escorrer pelo rosto de uma amiga bem quando ela soltar uma gargalhada e inflar as bochechas.

Ela acha lindo, e diz que isso daria um texto, e elogia minha capacidade narrativa e repete as mesmas frases da última sessão, quando ela também achou que outro monólogo qualquer dava pra virar post de blog, e desde que eu resolvi dizer a ela que gosto de escrever ela pergunta “você já escreveu sobre isso?” “você tem um texto sobre isso?” e por aí vai. Nessas horas eu fico na dúvida se ela é psicóloga ou editora, então descruzo as pernas, miro na caneca com a cara do Van Gogh e começo outra ladainha sobre as mesmas coisas, sempre sempre sempre os mesmos nomes, os mesmos gestos, os mesmos ódios, desde quando eu aprendi a repetir o refrão assim?

Me dou conta de que ela também repete, indagações que se empilham iguais umas sobre as outras, eu rebato religiosamente com as mesmas respostas e agora já não sei mais se sou ou ela, o ovo ou a galinha, só sei que a última sessão foi igual à penúltima, que foi igual à antepenúltima e etc, parece que estamos decorando uma fala ou roteiro que não, eu não escrevi.

Preencho o horário explicando, pela terceira ou quarta vez, porque gosto tanto da Madonna (porque ela não se repete, digo em algum momento, com cara de Flora), quase começo a cantar e dançar, aí sim haveria uma grande emoção. Mas é muito arriscado, dou um sorriso, feliz natal pra você também, ano que vem a gente se vê, será?

Acabo voltando, essa falta de coragem e de ação que tanto discutimos, e escarafunchamos todos os medos, sempre ali enfileirados para serem diagnosticados e catalogados, então nos referimos a eles por nomes quase científicos, ela mexe na luminária pra ter certeza de que eu estou chorando (ou quase), eu limpo os óculos e digo "pois é", penso em "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças" e lá vamos nós, sabe? pois é, eu mesma não sei mais.

Já não garanto nada. Não garanto que eu volte, não garanto que haja sol em janeiro, não afirmo que vou seguir em frente e esquecer, não afirmo que dessa vez aprendi a dizer não e me desligar das pessoas, ela sabe que demorei muito mais tempo pra sair da fisioterapia do que eu deveria, talvez ela saiba que penso em larga-la, talvez ela tenha percebido quando respondi mais rispidamente, ou quando mudei de assunto pra não falar de suicídios ou de vontades de: andar de bicicleta, comer pudim, suar, consertar os olhos, conhecer o Peru.

Me repito tanto, e ela também, dá uma confusão de saber se é porque preciso continuar, ou se já passou do horário de botar a mochila nas costas e ir por aí, deixar de teorizar as coisas.

Vou dizer a ela que escrevi sobre isso, que deu um texto de adeus, que peguei a sapatilha já meio gasta e entrei na sala de aula, fiz um coque caprichado e resolvi os meus problemas na aula de ballet, sentindo que os músculos das pernas ainda funcionam, que a coluna aguenta e que os braços continuam leves, as mãos graciosas.

Feliz ano novo.


:: "It's only a trick if you make it a trick and you're wondering how to get yourself out of this one" Jamie Lidell in Green Light

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Bipolar

Eu sei que às vezes (muitas) esse blog fica pessoal demais, e que algumas perguntas são recorrentes. Pior: são mais perguntas a cada post, a maioria delas julietanas ao extremo.

Enfim. Existem coisas que me consomem de tal forma que não posso deixar passar, e a luz da esperança se acende quando penso que possíveis resoluções podem vir de eventuais comentários. Eu sou do tipo que acredita em letras de música, por que não em leitores virtuais?

Esse é mais um caso que me aflige, daqueles em que a ambigüidade dos fatos gera sentimentos inconciliáveis, de maneira que preciso de ajuda (psiquiátrica, talvez): como faz pra conciliar a morte do Gonçalo na novela com show da Madonna no dia seguinte?!

quinta-feira, dezembro 04, 2008

The "Vizinho Issue" - parte III

(ou "A vingança é um prato que se come frio")

Aqui na rua é assim: o seu carro que estava estacionado na calçada oposta ao prédio some à tarde depois que o reboque passa e nenhum dos porteiros avisa, afinal por que tocar em assuntos desagradáveis como esse, não é mesmo?

Então a pessoa sai do prédio, chave do carro na mão e nada, uma vaga vazia, uma interrogação na cabeça e muita confusão, até que começa a se perguntar:

1) Será que estacionei na garagem?

2) Será que eu estava bêbada ontem quando cheguei?

3) Será que eu continuo bêbada?

4) Será que roubaram?

5) Será que o carro perdeu o freio e desceu ladeira abaixo?

Então, cinco minutos depois, quando você pergunta pro porteiro se ele viu o seu carro por aí, ele responde, baianamente:

Ele tava aí de manhã, eu acho que o reboque deve ter levado ele porque agora não tá mais...

Ele pensa que eu sou trouxa, mas de uma coisa tenho certeza: a culpa é do vizinho.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Fale agora ou cale-se para sempre

Eu vou te explicar: o que acontece é que ele queria casar, entende? Casar mesmo, de assinar documentos, mudar de sobrenome, jogar buquê, assumir essa postura de uma vida a dois e tudo o que vem junto dela: segunda via de RG, assinatura nova no talão de cheques, respostas na segunda pessoa do plural, confusão de óculos de grau nas mesinhas de cabeceira e essas coisas todas. Eu teria que dizer que ele é o sujeito a ser comunicado em caso de acidentes. Eu teria que comprar dois tipos de shampoo no supermercado, e avisar sempre que eu saísse do trabalho mais tarde. Eu teria que telefonar da locadora pra saber se ele já tinha assistido a determinado filme. Eu teria que me convencer de que “nós dois somos um”. Provavelmente eu teria que mudar de operadora de celular pra falar de graça com ele até que a morte nos separasse. E essas não são as coisas que mais me apavoram.

Eu teria que dividir com ele as gavetas do banheiro, e fingir sempre achar normal que os meus cremes ficassem ao lado de uma loção de barba. Eu teria que adotar o hábito de deixar espaço no sofá pra ele, deixar algum tomate na salada pra ele e de repente eu teria que entender que os meus livros conviveriam pacificamente numa prateleira ao lado dos livros dele, assim como os meus discos se alternariam nas caixas de som com as músicas que ele guarda e então eu teria que achar normal que música clássica tocasse no mesmo dia em que um ícone do rock fizesse solos de guitarra. Não é pelo gosto, é uma questão de humor, eu teria que faze-lo entender que em domingos chuvosos só tolero o Bolero de Ravel na vitrola, que a poltrona do quarto é na verdade um cabideiro, que meu cabelo nunca funciona de manhã, que não suporto telefone que toca, que sou da corrente que crê piamente que só camas individuais para os seres salvam, que as pilhas de revistas que nunca vou ler de novo um dia servirão para pesquisa e que preciso, sim, de post-its espalhados pelos cantos e que nunca tenho sapatos suficientes no armário, assim como nunca há a quantidade exata de chocolates na dispensa.

É que essas manias são muito minhas pra de repente serem dele também, e as minhas coisas já estão todas certinhas nos seus lugares, e eu sou muito eu pra de repente virar uma mistura nossa. Deve ser essa insistência que eu tenho de tentar prever e de encontrar defeitos antes. Ou deve ser egoísmo mesmo, deve ser porque eu sou realmente egocêntrica, não importa. O que importa é que eu não arrumaria meus discos em ordem alfabética como ele quer que eu faça, e que eu não disfarçaria o mau-humor quando ele insistisse em achar que eu gosto de acordar. E que eu não conseguiria ter por ele o mesmo amor que tenho pelos meus dias sozinhos e calmos, não conseguiria ter por ele o mesmo amor que tenho pelo meu edredom de solteiro, ou pela mesa do escritório cheia de crayons de cera, ou pelo meu pijama de moletom furado e manchado. Ou por você. O problema é que com ele eu não consigo me acostumar a ficar boba, pelada, gripada, mole. O problema é que com ele eu não consigo me acostumar a ficar sem você. E com você eu invento tudo o que ele só quer inventar comigo, filho, tesão, máquina de lavar, mesa para dois. Com você eu sei que daria certo, que não precisaria de manual nenhum, que eu saberia soletrar o sobrenome e que poderia misturar literatura, acordes, cheiros, verbos, pernas. O problema todo é que com você, eu sei: não haveria separação total de bens.




:: este texto está na Revista EmBranco, do meu amigo Thiago.

quarta-feira, novembro 19, 2008

902


Na Fonte da Saudade, joga-se uma partida de pega-varetas antes que se comece um dia de trabalho (sem fins lucrativos). Não são tão bons quanto os da infância porque são feitos de plástico, os de madeira ficaram para trás. Não se sabe quantos pontos vale cada cor, portanto vence quem pega mais varetas, e baixa-se o rigor nas estratégias, afinal o que importa é divertir-se, e não competir.

Ali bebe-se água natural da fonte que cai direto na garagem do edifício, e muitas vezes as garrafas ficam com gosto de cachoeira. E quando o trabalho não anda, come-se chocolate, joga-se paciência, fazem-se pesquisas sem objetivo em sites, revistas e livros, ou fotografam-se bonecos de toy art.

Na cozinha encontra-se um pandeiro, um livro de poesias de Bukowsky ao lado dos livros de receitas, e panelas de cor vermelha, além de xícaras com jeito retrô para tomar café. Come-se comida de qualidade, consome-se vodca e tingi-se tecido também, desde que o ato espalhe água verde (ou rosa) pelo chão, fazendo bagunça e alegria de todos.

Na Fonte da Saudade dá medo quando chove ou há trovoadas, os ventos são uivantes e vê-se as ondas que a Lagoa começa a formar durante tempestade. Tenta-se distrair com uma caixa cheia de lápis de cera, e faz-se desenhos artísticos enquanto o email não envia as fotos. Na Fonte da Saudade o email nunca envia as fotos.

Em cima da mesa faz-se um monte de versos nonsense com ímãs de palavras, ouve-se música na maioria das vezes estranha e canta-se em coro canções de amor com letras de rimas. Ri-se de piadas sem graça ( e gargalha-se três semanas de piadas realmente boas), especula-se que tipo de coisas entupidas uma roto-rooter poderia desentupir (as que entopem, oras!) e planeja-se uma vida em Paris.

No banheiro verde traça-se um roteiro que inclua uma cena para a qual a melhor locação fosse o banheiro verde, seca-se o cabelo com cuidado e vestem-se os vestidos mais fantásticos acompanhados de arcos e laços na cabeça.

No escritório, on parle le français inventado, alguém ama pessoas inventadas e tudo o mais é imaginado também, as vozes idiotas que falam por lá, as peças de teatro que serão escritas em dez dias e as caras de choro quando o telefone não pára de tocar.

Na Fonte da Saudade há grades de proteção nas janelas. Circulam muitas crianças por ali.




segunda-feira, novembro 10, 2008

O fim das vozes no meu rádio

(para Paula)

- Às vezes eu fico enjoada de todas as músicas que eu tenho e então faço isso, fico escutando tudo o que aparece. E de repente alguma coisa faz UAU!
- E quando nada faz?
- Mas faz, acaba fazendo. Algumas músicas batem de primeira, é claro. Mas sem querer eu acabo dando uma segunda chance. Tiro um cochilo, escuto de novo num outro dia, num outro clima. Acho que tem a ver com o humor, dias chuvosos, por exemplo. Algumas músicas parecem ter sido feitas pra esses dias, devem ter sido criadas sob dilúvio.
- De fato. Eu tenho preferido as solares, as que dão vontade de aprender a tocar bateria.
- Eu ando com vontade de tocar baixo. Isso quando eu não tenho vontade de ouvir umas coisas do além. Acontece isso também, uma música que fica martelando na minha cabeça de manhã, geralmente nostálgica, quase sempre duvidosa. E é como se só a execução contínua da tal música pudesse salvar o dia. E é mais que uma vontade, é um precisar muito definitivo.
- É quase drástico, credo!
- É, é drástico...
- Exemplo?
- Ah, não, isso eu não digo.
- Por que não? Qual é o dilema?
- O dilema é que você vai me julgar.
- Você me julgaria se soubesse dos lapsos que eu tenho na vida, e alguns são bastante graves.
- Como?
- Como só ter começado a escutar David Bowie esse ano. Pior: descobrir que eu sempre adorei uma música sem saber que era dele.
- Como você só começou a escutar David Bowie esse ano?!
- Olha aí, julgamento.
- Está certo. Você merece saber: hoje acordei com muita necessidade de ouvir uma música do Kid Abelha.
- Kid Abelha! Na época dos Abóboras Selvagens ou depois? Ou quando eles tentaram se chamar só “Kid”?
- Da fase Kid Abelha mesmo, de quando cantávamos Fazer Amor de Madrugada nas festinhas. De quando jogávamos as mãos para o céu e tal. Quando a gente vivia em show do Kid Abelha no Metropolitan, lembra? Quando o Metropolitan ainda era Metropolitan.
- Claro! Quando o Prince ainda era Prince, o Jota Quest ainda era J. Quest... Por que a gente gostou tanto assim do Kid Abelha, hein?
- Vai saber. Acho que porque a gente achava tudo possível naquele tempo. Se a Paula Toller fazia sucesso com aquela voz...
- Mas por que você queria tanto ouvir Kid Abelha? Qual música? Não vá me dizer que era Grand Hotel...
- Não! Pior...
- Pior do que ter passado a vida toda gostando de O Astronauta de Mármore e deixado um cd do Nenhum de Nós na prateleira só por causa dessa música e só depois de a-nos descobrir que é uma versão do Bowie?! Você tem idéia do que eu passei pra justificar a presença daquele cd ali no meio dos outros?! E ninguém nunca me disse que era uma versão!
- Eu tive um sonho, vou te contar.
- Que sonho?!
- Não, eu tive um sonho, vou te contar, eu me atirava do oitavo andar, a música do Kid Abelha!
- Aaahhh!
- Pois é... Pelo menos eu sabia que música era, pior é quando eu acordo precisando de uma música e não sei qual. Parece que falta inventarem alguma coisa nova.
- Isso acontece sempre nos dias nublados.
- Dias nublados são bons para ouvir Hootie and The Blowfish.
- Você tem escutado alguma coisa desse século?!
-Você tem escutado Ziggy Stardust pela primeira vez na vida. Acho que você não está em condições de questionar meu momento musicalmente adolescente.
- Ok, ok, eu me rendo. E confesso que de vez em quando o Lulu Santos ainda canta por aqui.
- É melhor não resistir e se entregar... A gente tinha o que? 17, 18 anos?
- Por aí. A gente gravava fitas com as melhores músicas.
- A gente escrevia partes das letras na capa dos cadernos. O que será que as pessoas escutam hoje em dia? Às vezes eu coloco na estação de rádio pra ter uma idéia do que as pessoas ouvem. Mas me parece que até hoje todo mundo escuta O Último Romântico ou Como Uma Onda. Mas eu só escuto rádio de mãe, então não sei...
- E Carly Simon. Toda vez que toca Carly Simon no rádio eu sou tomada por um espírito revolucionário, como é que as pessoas se conformam em ligar o rádio e ouvirem essa mulher cantando? Eu fico possessa, xingo o locutor, xingo as pessoas que ainda toleram esse tipo de coisa.
- Vai ver os caras das rádios seguem essa mesma política de acordar impregnados de uma música. Mas o que a Carly Simon te fez?!
- Não é ela, é essa coisa, sabe? Uma seqüência de músicas toscas de 20 anos atrás com tanto artista por aí, então a gente tem que fazer investigações pra descobrir bandas legais e pessoas atuais. Teve uma época que eu me dei conta de que só ouvia gente morta, um horror! Minha coleção de cds só não estagnou porque volta e meia saía uma coletânea póstuma de alguém.
-Cruzes! Se a gente tivesse continuado a escutar o Kid Abelha e o Lulu Santos não teria problema, eles vivem com discos novos.
- Eles morreram também, só não querem admitir ainda.
- Pode ser... Outro dia saí pra dançar com uns amigos e não conhecia nenhuma música. Nem umazinha. Me senti uma tiazona, sabe? Por fora.
- Sei. Acho que é assim mesmo, acho que é assim que se começa a envelhecer, talvez eu esteja sendo dramática, mas acho que é por causa dessas coisas que a gente acaba voltando aos clássicos.
- Ou ao contrário? Por causa dessas coisas que eu fico dias nas lojas ouvindo discos.
- É, só que pra mim isso só piora, é o mesmo que acontece quando entro numa sorveteria, são tantas opções que acabo sempre indo para os clássicos. Acabo me dando conta de que tem tanta coisa nova no mundo e ao mesmo tempo caio na real desses lapsos, penso no Bowie, no Velvet e resolvo preencher as lacunas.
- Faz algum sentido. O problema é que eles já estão prontos pra gente gostar, né? É menos arriscado e aí acontece aquilo, uma discoteca de shows que a gente nunca vai ver.
- Eu sei. Mas imagina se numa dessa tarde de aventuras eu fico escutando as músicas da Katy Perry enquanto eu poderia ouvir todo o Supertramp?
- Ou Hootie and The Blowfish, se tiver nuvem no céu...


:: She's uncertain if she likes him
But she knows she really loves him

David Bowie in Drive-in Saturday

quarta-feira, novembro 05, 2008

Marcha ré

Quando a gente se encontra e você é glacial, quando a gente se encontra sob nuvens esparsas em céu cinzento, quando a pele não gruda e o abraço não derrete e o olho não brilha, quando a gente se encontra e tudo fica turvo, o cabelo fica fosco, quando você olha através pra ver quem vem atrás, quando a gente se encontra e vê que não sobrou nem fagulha nem destroço, quando a gente se encontra e não faz mais diferença, quando a gente se encontra e eu fico à beira do abismo gritando sem escutar meu próprio eco, quando a gente se encontrar de novo finja, cole teus lábios na minha bochecha por mais algum segundo, quando a gente se encontrar de novo disfarce um pouco, quando a gente se encontrar me atordoe, pode ser teatro, não suporto me sentir tão comum.

segunda-feira, outubro 27, 2008

Snakes and ladders

Uma neblina se abate sobre a cidade e não se vê São Conrado da Av. Niemeyer; uma manicure carioca diz que votou no Trivella no primeiro turno e que, portanto, votaria no Paiva no segundo, sendo ela menos uma eleitora do Gabeira, ou seria Caveira?; o Panorama de Dança anuncia nomes de teatros dos quais nunca ouvi falar; o Tim Festival parece ser o único dentro da categoria “festivais” com o qual eu consigo lidar; já faço planos para a próxima fantasia de carnaval; fico apavorada a cada conto de Andersen que termino de ler; me pergunto se a cor bege dos corantes Guarany está em falta no mercado; escuto repetidamente uma música que foi definida por um amigo como trilha sonora de um filme imaginário numa cena de passagem de tempo; olho, minutos a fio, a foto de Bruno Cezario no programa do ballet e não me convenço de que ele seja desse mundo; sonho com cachorro-quente; tenho urgência de mar; após o duelo onde fatalmente um dos cavaleiros sempre perde, uma criança na platéia do teatro diz “perdeu” e é realmente engraçado estar perto delas; perder-se em Santa Teresa requer um casaquinho, caso você vá parar acidentalmente nas paineiras; é sempre melhor ir embora quando todo mundo quer que você fique, seja do mundo ou do bar; volto ao Saara, nunca ao jardim; tem goteira no carro; arranhões também, e as pessoas insistem em me lembrar que eles estão ali; alguém já reparou que a acústica do Bar Lagoa é péssima?; as histórias escritas têm ficado todas pela metade; existe saudade de sentir com um o que sempre sinto com outro, e vice-versa, nunca dá pra misturar os dois num só; o show termina e muitas pessoas continuam cantando em coro; a pele fica bem melhor depois de uma noite dormida com a cara empastelada de Hipoglós, mas se a pessoa é casada, como faz?; nadar é preciso; isso que vem pela fresta da janela do carro à noite deve ser o verão; cortar unhas é uma arte para poucos; Acautele seus objectos, dizem duas placas dentro da igreja antiga da Av. Passos; pulo alto quando escuto aquela marchinha; libélula é uma palavra legal enquanto que suvaco é inaceitável, ela diz, mas eu adoro suvaco e gosto também de ampola; são lindas as bolhas de sabão voando e estourando nos fuços dos cachorros; e quando o ar-condicionado quebra?; e quando a casa começa a fazer barulhos no meio da escuridão sozinha?; e quando eu fico com esse jeito de quem quer fazer besteiras e soltar fogos por aí é quando encosta no meu pescoço a tua língua; vem à tona sempre uma dúvida cruel e eterna, um dia quero gente, noutro quero edredom pra me esconder, noutro quero continuar o encontro; antes de dormir esfrego sempre os olhos e penso que as lentes não servem mais; o espaço é o suficiente pra ela ficar tão próxima que até gruda; tem sempre mais alguma bobagem pra ser dita no fim da noite e ser tão engraçado que a gente estoura de tanto gargalhar na escada dizendo tchau; tem outra música repetida também que diz "eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro", mas não era pra ser o contrário?

quinta-feira, outubro 16, 2008

The "Vizinho Issue" - parte II

Já faz algumas semanas que não encontro o carro do vizinho ocupando uma parte da minha vaga. O que deveria ser motivo de alívio virou uma angústia ainda maior que antes. O fato é que em tempos de mansidão, a possibilidade de encontrar o carro do vizinho ocupando espaços alheios gerava uma série de hipóteses que emocionavam meus dias. Na minha cabeça eu chegaria no prédio quase ao mesmo em que o vizinho e me espantaria ao descobrir que: a) o vizinho é na verdade uma vizinha mais magra que eu, ultrajantemente cafona e míope; b) o vizinho é um senhor de idade que mora com seu labrador cor de caramelo; c) o vizinho é o príncipe encantado e vamos nos amar no elevador até o primeiro andar. E na minha fantasia mais ousada o vizinho continuaria sendo um sujeito mal-educado que, com um pouco de sorte, me destrataria de novo e então começaríamos um bate-boca exaltado sobre respeito ao próximo, política de boa vizinhança etc, juntaria gente pra ver e a minha analista acharia que fiz progressos emocionais profundos ao enfrentar o sujeito assim.

Mas com essa chuva que faz, o vizinho deve estar parando o carro na garagem, onde não há vaga disponível pra mim, de forma que estaciono sem maiores percalços. Toda a graça que poderia haver se dissipa no momento em que faço a curva da rua e vejo três vagas livres e desimpedidas à minha espera. Meus batimentos cardíacos imediatamente caem, é um tédio.

Agora sou eu quem pára o carro sem respeitar a marcação, na esperança de que o vizinho, ou algum outro, quem sabe até mesmo o porteiro, me chame atenção. Enquanto meu ato transgressor não tem nenhum feedback, preparo um plano mais agressivo de ataque: invadir a garagem e deixar o carro ali em qualquer canto. E enquanto tomo coragem, me concentro numa outra questão igualmente importante e que pode trazer de volta o vizinho, seu carro e uma série de revoltas engajadas de minha parte: o sol, há de brilhar mais uma vez?

segunda-feira, outubro 06, 2008

Atrás de mandinga de amor

- Era uma mistura de sete quiabos com mel, tinha que colocar todos ao lado de uma vela na quarta-feira. Mas não me lembro de tudo e além disso só vale pra filhos de Xangô, e não acredito que você seja um deles...
- Então é ainda mais complicado do que eu imaginava. Existem ritos que variam de acordo com a filiação?!
- Isso. Depois da limpeza que ela me fez, por exemplo, disse que eu tinha que ficar uma semana sem comer feijão, arroz, milho e canjica. E que eu deveria evitar lugares abertos ao meio-dia ou à meia-noite, talvez com filhos de Ogum fosse outra recomendação.
- Entendi. Eu ficaria uma vida toda sem comer feijão e milho, nem precisava de mãe de santo pra isso. Mas como era a limpeza?
- Era à noite, na praia, perto do mar,ela me mandou ficar de olhos fechados e passava alimentos em mim enquanto cantava. Ela cantava o tempo todo, coisas lindas, em yorubá... você escutou os cantos? São os cantos dos meus dois orixás.
- Escutei, mas por que ela ficou tão encantada com a combinação dos seus orixás?
- Ela disse que é uma combinação rara. Teve que consultar os búzios para confirmar e um tempo depois ela ainda perguntou o que Oxossi tava fazendo comigo, que esse não é meu orixá.
- Como assim?
- Eu sou filho de Xangô e Oxalá. E de Exu também, é o terceiro. E Oxossi ta comigo também, mas não é meu, ela viu nos búzios que Oxossi é coisa de família, alguém me deu, sabe? E Exu ela disse que é brabeira...
- Peraí, uma coisa de cada vez... Alguém te deu um orixá? E por que Exu é brabeira?
- Porque Exu é o mais indomável de todos, é o orixá da comunicação, é o começo e o fim de tudo. E é arteiro, sacaneia os outros pro seu próprio prazer, engana os outros.
- Sei. E quais são as características dos outros dois?
- Xangô é o orixá da justiça, da pedra e do trovão, é guerreiro, teve três esposas ao mesmo tempo, é explosivo. E Oxalá é Deus, é o pai de toda criação.
- E Oxossi?
- Oxossi e Exu são irmãos, mas eu não sou filho de Oxossi, só estou com ele porque me deram.
- Ainda não estou convencida de que você não tenha roubado esse Oxossi de alguém. Mas então, resumidamente você é estressado, mulherengo e sacaneia os outros. E precisou uma mãe de santo na Bahia pra concluir.
-Tchau.
-Tchau nada que agora eu quero saber de quem sou filha.
- Você deve ser filha de Nanã, que é avózinha que nem você, nisso você combina bem com ela, duas avozinhas.
- Há há.
- Ela é o orixá mais velho do mundo e foi amaldiçoada por Oxalá depois que rejeitou o filho que tiveram juntos.
- Credo! Não, não quero ser filha de Nanã, até porque a gente é filho de orixá que tem as mesmas características, né?
- É. Talvez você seja Iemanjá. Foi mulher de Oxalá também. E é muito poderosa. Ou Oxumaré, que é confusa pacas, metade do ano é mulher, metade é homem, ele que faz a ponte entre Xangô e Oxum. Talvez você tenha alguma coisa de Oxum, Oxum é tão bonita...
- Humm Oxumaré tá fora que eu não sou tão confusa assim e tenho certeza de que sou mulher o ano todo. O que mais Oxum tem?
- Eu já vi uma Oxum dançar, é muito bonito, escorrem lágrimas dos olhos dela. Durante um tempo eu achei que pudesse ser de Oxum também, porque ela é muito doce.
- Eu também sou doce, acho que estou gostando de Oxum.
- Mas ela é meio escrota também, era a preferida de Xangô e sacaneou Obá.
- Obá é quem mesmo?
- Era uma das esposas de Xangô, que caiu na conversa da Oxum e cortou a própria orelha, botou na sopa de Xangô porque a Oxum disse que assim ele iria se apaixonar mais por ela. Só que ele ficou p da vida e a Oba disse que tinha seguido os conselhos de Oxum.
- Putz, coitada... mas também, com tanta concorrência, né?
- E Oxum ainda tirou o turbante da cabeça só pra mostrar as duas orelhas lá, e ainda riu. Eu acho que no fundo eram todos meio sacanas, sabe? Tipo Macunaíma. Tem Iansã, talvez ela se pareça mais, deixa eu ver...
- Já sei, ela também era mulher de Xangô.
- Sim.
- Mas não existiam mais orixás homens? Ou Xangô era irresistível?!
- Xangô era foda mesmo. Mas olha aqui o que dizem sobre Iansã: Os filhos de Iansã são pessoas propensas a dar grandes guinadas em suas próprias vidas, a qualquer momento, sem se importarem com ninguém. Não gostam de se prender a ninguém pois são livres como o vento Acho que você é mais parecida com Oxum, embora tenha um pouquinho de Iansã também.
- Eu acho que sou órfã. Pelo menos não sou filha de Ossanha.
- Você nem conhece Ossanha e ta implicando, por que essa birra agora?
- Sei lá, mas tem aquela música “Se é canto de Ossanha não vá que muito vai se arrepender”. Eu boto fé no Vinícius.
- A minha mãe de santo está vindo esse mês.
- Então ela vai poder resolver quem é meu orixá.
- Você acha que vou dividir minha mãe de santo com alguém?
- E por que não iria? Não vou poder nem ver a mãe de santo?
- Não.
- Tudo bem, eu invento um orixá que esteja à minha altura. E nem adianta insistir que não te dou o meu, você que fique com esses seus três e o quarto roubado porque o meu ficará guardado a sete chaves.
- Durante um tempo eu achei que podia ser Oxossi também.
- São muitas opções, é bem confuso isso, não? E se você mostrar meu perfil do orkut pra mãe de santo, vale? Já que você não pode dividir...
- Mas sou Xangô mesmo!
- Alô, eu to falando com você!
- É que Oxossi gosta muito de mulheres doces, e como ele foi casado com Oxum eu achei que poderia se-lo também. Oxum é a coisa mais doce do mundo.
- Tchau.
- Mas que explosivinha. Oxum não faria isso. Iansã faria. Iemanjá talvez.
- Sou órfã, pronto. E além do mais, eu preferiria ser filha de 68, ou filha de alguma revolução. Combina mais comigo. A sua mãe de santo me odiaria, certamente.
- É, acho que vocês não se dariam bem mesmo, ela ia ficar magoada quando soubesse que você confia mais no Vinícius do que nela.
- E você não?!
- Eu falei com ela esses dias, eu queria roubar uma mulher. Acabei não pedindo nada e a mulher me ligou todos os dias da semana. Eu liguei pra ela depois, pra mainha, e contei tudo, ela disse que tinha colocado um melzinho pra mim.
- E não sobrou nada desse mel aí?
- Querida, nossos orixás não são os mesmos, o mel não funciona pra todos, é como aquela história do quiabo.
- Ah é... Bom, ela envenenaria o mel de qualquer jeito. Ou haveria um revertério e o efeito seria tão estranho que me faria voltar pra você.
- Você acha que a minha mãe de santo faria isso?!
- Eu espero que não, mas por via das dúvidas é melhor não arriscar.

- Mas que desprezo é esse agora?!
- Beibe, eu aconselhei Obá a cortar a orelha por sua causa, isso parece mais tragédia grega que mitologia de Candomblé, não acha? E além do mais você me amaldiçoou por causa de um filho rejeitado. Fora todo o resto que você não deve ainda saber. E você ainda quer que eu fique com você mais uma encarnação?! Não acha que já tivemos emoções suficientes?
- É, pode ser... talvez seja melhor mesmo você ficar longe de mim.
- E da sua mãe de santo também. E é melhor irmos dormir também.
- Com certeza.
- Boa noite.
- Boa noite.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Chez moi

As coisas lá dentro estão dispostas de forma cuidadosa: livros, filmes, discos, revistas e objetos são enfileirados de acordo com a minha lógica que não explico.

Charles Aznavour convive pacificamente entre Carlos Gardel e The Cardigans da mesma forma que Ariano Suassuna nunca briga com Marguerite Duras. Um Woodstock encardido está bem acomodado entre os livros sobre música e a parede. Uma garrafa vazia de coca-cola parece confortável entre uma caixa de alumínio cheia de velhos Vhs e uma quase ridícula sessão de livros de quadrinhos, que devem ser seis no máximo. Santo Antônio ampara os dvds, e deve estar muito distraído tentando entender o que Kill Bill faz ao lado de Chorus Line. Uma cestinha de palha esmaga revistas de moda que nunca vou abrir de novo. Uma vaquinha engraçada resolveu ficar em cima do livro de receitas de comida Indiana. Acontece sempre um deslizamento nas pequenas montanhas de bolachas de apoiar copos (todas emprestadas de bares), que são refeitas em lugares diferentes a cada nova construção: na escrivaninha, em cima do som ou na mesinha de cabeceira. Duas caixas de chapéus guardam fotos.Uma lata de café que não guarda nada apóia livros velhos que nunca li e certamente nunca vou ler, e que estão possivelmente comidos por traças, mas que ficaram muito bem perto de uma outra cesta de palha numa estante alta. No pote de lápis e canetas duas multas de trânsito aguardam para serem recorridas. Um peso de um quilo que não levanto mais fica ao lado de uma vela de cheiro que acabou, mas continuam morando atrás da caixa de som. Uma saia cinza de pregas que não me cabe está sobre a cadeira há meses junto com uma bandana que usei pra ir à praia. Um mini chapéu de Veneza sumiu faz algum tempo, ele morava pendurado na quina de um livro do Basquiat. Uma caixa velha de charutos fica perto da pequena e acidental coleção de livros sobre pintores da Taschen, que por sua vez fica sob um copo de vidro Campbells. Um ímã vermelho ficou meio grudado bem sobre a minha cabeça numa foto em que visto saia estampada e danço. Um despertador cujo fundo é povoado de fotos de misses e que não funciona fica sobre os livros de moda, que por sua vez adotaram um filho único de ícones de fotografia. Um postal de uma tapeçaria medieval está a apenas outros dois de um japonês contemporâneo. Incensos estão afogados entre os lápis de cor que nunca vão acabar. A trinca de livros de amigos parece fazer algum sentido, porque são poetas conversando empurrados por um bonequinho que lembra uma figura do Keith Haring, é pena que falte uma dedicatória. Um pendurador de coisas em formato de flor carrega um guarda-chuva, a bolsa de praia, a bolsa de dia e um par de sapatos que preciso trocar por outro igual mas que não esteja com a tira arrebentada. Os ímãs de palavrinhas formam as frases “tenho o coração doce e quente / pensa e fala urgente / está sempre melhor no sonho” e depois não rima mais nada. O tapete não combina com as almofadas em cima da cama. No cantinho perto da porta tem um desenho de mim mesma. Pendurado na porta um móbile que veio da África divide o espaço com um penduricalho que veio do Japão. Os álbuns de foto daqui a pouco não caberão mais. Debaixo de um ímã que reproduz um mini cartaz de Singin in the Rain, Mãe Valéria de Oxossi me promete a pessoa amada, mas já se vão quase três anos em vez de três dias. No cantinho entre a viga de madeira e as prateleiras dos cds, três fotos me lembram que já fui bailarina enquanto uma faixa de silicone de fisioterapia dentro de um saquinho me lembra que tenho uma série de alongamentos para fazer. Uma gravura de um beijo está pendurada sobre a cama. Um adesivo da Company não quer sair do vidro que dá pra varanda. O sapato que usei anteontem está do lado de fora do armário enquanto não encontro o pé esquerdo dele. A última gaveta do móvel quase não fecha de tanta folha. Um moletom cinza mora na cadeira da escrivaninha. Um livro grande e pesado serve de apoio para o notebook ficar mais alto. Uma miniatura de um personagem de South Park olha para um mini guarda de Londres e os dois não parecem se aborrecer. Uma coleção abandonada de caixas de fósforos fica ao lado de um compasso que não me serve mais. Amostras de cor de uma antiga cartela mostram como chantilly não é igual a bege, grudadas na parede em cima de uma foto onde nós sete sorrimos. Calvin faz uma cara de pânico no ímã que fica ao lado da imagem também imantada do Hitchcock e uma outra do cartaz de Laranja Mecânica, que nem sei se gosto (do filme). Um dicionário cuja capa está remendada com durex está ao lado do guia turístico do Brazil com Z. O carregador do celular está constantemente plugado na tomada ao lado da porta onde um benjamim dá espaço ao fio da bolsa quente elétrica. Uma flor artificial envolvida por tule ficou esquecida na prateleira de livros de design. Duas calculadoras estão sobre a escrivaninha, ao lado de dois sachets de chá que ganhei junto da promessa de serem bons para olheiras. Uma parte do jornal de ontem está sobre a lata de lixo. Canetas parecem dar cria em todos os cantos.

Quando tem festa em casa fecho as cortinas e deixo a porta trancada, as pessoas sempre confundem antipatia com timidez e não é qualquer um que vai entender tanta coisa junta.




"Guardo sempre o traço
Jovem, nobre, bravo
D'um farejador amoroso
Pra quem o longe é sempre perto
Que nunca esquecerei "
Waly Salomão

terça-feira, setembro 16, 2008

The "Vizinho Issue" - parte I

A carta é formal, o tom é polido. O problema acontece quando preciso sutilmente dizer que o vizinho de quem reclamo é um imbecil. São muitas as perguntas que envolvem o vizinho e o fato dele ter desligado o interfone na minha cara quando eu pedi “por gentileza será que você podia estacion...” CLACK do interfone alto ali do sétimo andar.

1) É possível xingar alguém elegantemente?

2) É válido formalizar uma reclamação para o síndico porque o vizinho estaciona seu carro ocupando duas vagas (sendo uma delas a que você quer estacionar)?

3) Custa o vizinho estacionar dentro dos limites?

4) Alguém reclamaria de um carro mal posicionado se estivesse chegando ao prédio de bicicleta ou a pé?

5) O incômodo só incomoda mesmo quando você e seu umbigo são atingidos diretamente?

6) É por isso que o país não vai pra frente?

7) Desde quando o vizinho virou alguém que me deixa extremamente irritada?

8) A fúria que o vizinho me provoca, seria ela uma tentativa de descontar em algo palpável uma mágoa mais abstrata?

9) Estaria eu transferindo para o vizinho frustrações e questões psicológicas mais graves?

10) O fato de não concluir a carta para o síndico tem a ver com o fato de não ter concluído muitas coisas na vida?

11) E os porteiros, por que eles não ajeitam a porra do carro?

12) E Freud, explica?

sexta-feira, setembro 05, 2008

If you're feeling sinister*

(ou "I don't see what anyone can see in anyone else but you")

Faz algumas semanas já que acho que estou comendo chocolates mofados, não é uma tentativa de plágio, é só que eles estão com gosto amanteigado demais e a aparência mudou, antes pareciam conchas lustrosas e de repente, parece, ficaram foscas, ninguém sabe me dizer, eu continuo comendo e até agora não morri e nem fiquei verde, por isso sigo devorando a caixa: foi a notícia que dei a eles. Mas o que eu ia mesmo contar era a nossa história. No primeiro parágrafo eu ia dizer como nos conhecemos e, com alguma pretensão, dizer que nosso primeiro beijo foi, na verdade, o encontro das nossas salivas alternadas no gargalo de uma cerveja e que todo o nosso rumo estava destinado a esse eterno desencontro. Mas reli, achei piegas e cafona e, pior!, achei que alguém já começou escrevendo uma história assim. E também a gente se desencontra tanto mesmo porque eu te inventei de um jeito que não tem jeito: a gente nunca vai ficar junto no final porque eu cismei que ia ser assim, não sei o que você pensa e é provável que eu nunca pergunte porque eu já tenho tanta certeza do meu pensamento que o seu poderia estragar tudo e aí, como seria? Eu teria que baixar a guarda e dar uma chance, me dar uma chance e isso não, não mesmo, fica você aí inventado e eu aqui fugindo e te fazendo voltar de vez em quando pra continuar te culpando... do que era mesmo?

Foi o que me perguntaram e eu não soube dizer, eu soube sim, mas só disse pra eles, que me faziam confortável o suficiente, entre um chope e outro, fui relembrando como quem não quer nada e quando vi tinha contado tudo o que aconteceu comigo enquanto nada acontecia com a gente e quando dei por mim estavam lá, todas as linhas, tudo o que te disse, tudo o que você me falou, e então tudo na mesa, a gente se engalfinhando entre copos e guardanapos e as pessoas ali como expectadores tentando des-inventar todo o meu roteiro e querendo construir alguma coisa mais original, menos autoritária onde você pudesse (e quisesse) mudar as regras. Eles não procuravam um final feliz, não necessariamente, eles queriam é que eu deixasse pra lá toda essa mania de fazer de você imutável e insensível, só que no fundo eu fazia, ou pensava que fazia, e quando eu quase me convencia de que você era mesmo, como?, possivelmente diferente do quadro que pintei, por que não?, pedia outro bolinho de aipim, mudava de assunto, lembra de quando vimos aquele filme?, eu perguntava a eles, nos deixando de lado em reticências, que era a minha forma de ponto final quando dizia o seu nome e assim ficávamos (sempre) pra depois porque qualquer coisa era melhor que ter de te enfrentar e qualquer outro enfrentamento era mais seguro que confirmar que eu caibo direitinho no seu abraço. Eles me acatavam ainda com aquele resto de conversa entre os dentes, uma frase na metade em que diriam pra eu não ter medo, mas eu tinha, e com eles não tinha problema de assumir toda essa resistência. No caminho de volta colocava uma música que dizia que I'm in love with how you feel, os dois, como eles podiam ser tão absolutos e seguros? Eu poderia por horas esquadrinhar tudo o que eu não ouso pensar de você. E como nós três ficávamos confortáveis em nossos devaneios conjuntos, como somos aconchegantes, ia dando uma alegria no final, curava distensão e dor de cotovelo, nem precisávamos de relaxante muscular para dormir depois.



* Belle and Sebastian

:: Para a Carol e o Marcelo.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Touched for the very first time

Parte da madrugada foi numa conversa insana com mais 5 pessoas que, como eu, xingavam em tempo integral o esquema de compra de ingressos para o show da Madonna. Numa tentativa de nos mantermos acordadas e alertas para qualquer sinal de que o site avançasse, elegemos Like a Prayer nosso mantra, nos comparamos às pessoas que, pré-internet, ficavam horas em cadeiras de praia na imensas filas (sorte nossa não aparecer no RJTV com olheiras e bafo dizendo "estamos aqui há dois dias"), e nos perguntamos por que será que o Rodrigo Santoro está tão ofegante em Os Desafinados (que, by the way, des-recomendo ferrenhamente).

No México, os bilhetes se esgotaram em oito horas. No Canadá, em 9 minutos (apesar de achar que isso é humana e computador-mente impossível). A possibilidade de não conseguir comprar um ingresso me deixou histérica e descabelada e já de manhã, num momento de completa desolação, concluí que não havia motivo para pânico pois os ingressos para o show no Rio jamais acabariam visto que ninguém conseguiria comprar pelo site ou pelo telefone e, de acordo com o Globo online, só havia cerca de 300 pessoas na fila do Maracnã para comprar os 75 mil tickets disponíveis.

Entoando um mantra na cabeça, não desisti nunca e quase chorei quando recebi por email a confirmação da compra do meu ingresso. Agora é torcer pra que a entrega funcione, porque até isso me pareceu complexo.

Enquanto a adrenalina não baixa e não volto a dormir, concluo mais uma vez o que as 5 pessoas já sabem: comprar ingressos para show da Madonna é tão tenso quanto o primeiro beijo, só que com muito mais erro de servidor.




:: I'm down on my knees, I wanna take you there!

domingo, agosto 24, 2008

Almoço de domingo

Amontoados na varanda estreita, percebemos que há algo errado com as coberturas do prédio ao lado: as escadas que ligam o primeiro piso à varanda descampada não têm qualquer tipo de proteção, de forma que, em caso de chuva, o primeiro andar deve ficar alagado. Há também uma varanda bastante esquisita com piso vazado, ou será que ali devem ficar os motores de ar-condicionado?

Esquisito também é o terceiro andar de um outro edifício onde se vê, além de um adesivo com número de político no vidro, uma árvore de natal que, não sabemos, ainda ou está montada? Alguém arrisca um palpite de que o dono do apartamento está morto desde dezembro ou que então alguém faleceu no dia de Noel e a árvore virou uma espécie de quarto do defunto em que ninguém consegue entrar. Os outros palpites provocam risada.

Uma prima nos presenteia com fotos que ela tirou num almoço ocorrido semanas antes. A mais importante é a que reúne todos os primos, uns esmagados, uns por cima dos outros, e que é uma tradição antiga dos tempos em que se conseguia enquadrar todo mundo junto numa 10 X 15. Não só ficamos grandes, mas ficamos muitos também. Uns tiveram filhos, outros casaram e de repente viramos um grupo de primos que precisa de uma panorâmica para nos capturar.

Não por acaso, nos espalhamos por sofás, poltronas, braços de cadeiras e chão e eventualmente nos enfurnamos no quarto de alguém e fazemos interrogatórios uns aos outros enquanto uma das primas loiras chama o pai, carinhosamente, de Obeso. Descobrimos que a tartaruga da irmã, a quem ela chama Stupid, come prancha de surfe e fios elétricos. Alguém sugere que ela está com verme, alguém sugere que ela seja alimentada adequadamente, alguém sugere que ela vá ao Lâmina fazer exame de sangue. Lembramos de quando um dos primos, que agora é ex-veterinário, cuidou de um passarinho que, desgovernado, entrara janela adentro. A ave não durou muito e até hoje especulamos o quanto a morte do bichinho influenciou sua decisão de mudar de carreira.

Um outro primo que ficou tão grande que escondia papéis de bombons no alto das portas (“sabe quando você vai comendo bombons pelo corredor e coloca os papéis na quinas do alto das portas?”) diz aos pais que a lei seca acabou, e eles acreditam. É o mesmo primo que dá um susto em todo mundo quando aparece fugindo de tiro no noticiário e também o escolhido para ficar na fila do ingresso do show da Madonna, afinal estagiário deve cumprir esse tipo de tarefa.

Cantamos “Parabéns pra você” e “Com quem será?” no almoço de noivado e fazemos maracutaia no amigo-oculto de fim de ano.

Achamos graça quando o primo atrasado consegue ser o último a chegar no almoço que acontece em sua própria casa. Fazemos piada com o primo que já é pai de três porque achamos que ele já pertence à categoria tio. Caímos na pele da tia que resolveu fazer aula de teatro e não economizamos gargalhadas quando ela nos convida para sua apresentação de fim de ano.

Mas engraçado mesmo é quando, num momento de (milagroso) silêncio, escutamos a prima mais velha dizer à mais nova que, por ano, morrem mais pessoas de ataque de hipopótamos que de leão. Nos entreolhamos assustados, imaginamos que exista um contexto para a frase mas pensando bem, em se tratando de nós, nem precisaria. Sabe quando você tem uma família grande e hilária que parece nonsense?...





obs. O Meu paletó virou estopa ressuscitou por tempo indeterminado.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Signo: leão. Ascendente: não sei.

Certo como dois e dois, aos vinte e cinco anos eu seria uma pessoa bem resolvida, segura e determinada que saberia diferenciar esmalte renda de misturinha branca. Tantos enganos, mais ou menos importantes que esse, continuaram aqui quando acordei na minha primeira manhã completando os tais. Os vinte e cinco chegaram sem que eu tivesse resolvido qual era meu livro preferido, qual meu filme de cabeceira ou quem eu levaria para uma ilha deserta. Mantive, porém, uma esperança moura de acordar mais velha e mais sabida até o último minuto da véspera do meu aniversário, e essa era uma característica que eu não queria perder. Quando chegassem meus vinte e cinco eu queria continuar otimista. Às vésperas dos vinte e seis reconheço que otimismo nada tem a ver com ilusões bobas ou com os desejos que os outros nos desejam e então, perto da nova idade, em vez de querer emprego-amor-saúde (e coragem e sonhos e flores, como desejam os mais poéticos), resolvi querer algumas coisinhas mais simples, portanto mais possíveis.

Quero, por exemplo, aprender onde se usa mau com “u” e mal com “l”. Quero poder entrar numa loja de travesseiros e responder, sem pestanejar, que prefiro travesseiros baixos não deformáveis, que detesto a tecnologia da Nasa aplicada neles e que não confio em penas de ganso. Quero conseguir ler pelo menos um caderno de algum jornal sem morrer de sono, e sem ser o de moda. Quero achar legal gente que come alimentos vivos e que estuda Cabala. Quero parar de arranhar o carro na pilastra da garagem e acertar qual o ônibus volta pra casa sem precisar andar metade do bairro. Quero visitar todos os amigos que moram fora e conhecer o Peru. Quero ter alguma opinião sobre política. Aos vinte e seis eu espero que meu astigmatismo pare de crescer, que os preços dos shows parem de aumentar e quero, muito, parar de comprar revistas. Espero também que virar o lado do colchão seja o suficiente, que eu não desmaie no show da Madonna (ou na fila para o ingresso do show da Madonna), que eu ainda veja muitos filmes que poderiam ser os que eu queria ter criado, que a Amy Winehouse não morra e continue fazendo músicas maravilhosas. Aos vinte e seis, o que eu queria mesmo era poder voltar pros 25 para não estar, então, mais perto dos 30 que dos vinte, ou pelo menos queria ficar no meio do caminho, ganhar tempo pra solucionar algumas coisas, preparar algumas respostas de forma que algumas pessoas entendessem melhor quando, finalmente aos 26, eu dissesse simplesmente: não sei.

Certo como dois e dois, amanhã quando eu acordar terei vinte e seis anos e estarei ridiculamente igual a quando eu tinha vinte e cinco. Vou levantar muito depois que tocar o despertador, tomar o mesmo leite no café da manhã, passar protetor solar mesmo dentro de casa e ficar sentada ao alcance do telefone, aguardando os desejos de todos enquanto invento um jeito menos angustiante de não saber. E começar um novo livro, que com alguma sorte será o preferido.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Fiquei pensando antes de responder...

... porque de fato pouco mudou desde a última vez em que nos vimos. A cor do cabelo está um pouco diferente sim, me distraí na hora de comprar a tinta e ainda bem que gostei. Mantenho o mesmo formato, não engordei muito e nem emagreci demais. Ah claro, tenho ido mais à praia, é circunstancial, mas o sol pouco me afeta, de forma que continuo usando o bom e velho pó de arroz. Pensei em comprar uma bicicleta, mas creio que esse tipo de pensamento não realizado é descartado do quesito novidades, né? Foi o que eu imaginei, mas só pra você saber, se eles valessem, eu poderia te escrever por horas.

Começou com a bicicleta porque de repente me veio uma necessidade incontornável de querer estar ao ar livre. Acho que é inevitável depois de se trabalhar por meses dentro de escritório. E também algumas amigas passeiam por aí em suas magrelas, levando suas coisas dentro das cestinhas. É quase romântico pensar em se locomover por aqui montado em bicicleta. Por fim, acabei achando arriscado, eu sou tão desligada que poderia ser atropelada facilmente e aí sim eu teria novidades emocionantes, talvez trágicas, para contar. Então eu optei por teatro, que era mais estável e seguro que a primeira idéia, não era bem ao ar livre, mas era uma chance de desabafar sem precisar falar nada. O que mais me atraiu nesse plano era a possibilidade de aprender a chorar. E de aprender a parar de chorar, principalmente. Mas e o que eu ia fazer na hora em que tivesse que dizer alguma coisa na frente de outros alunos? É esse o problema. Eu sempre acho que as pessoas da turma de teatro vão ser aquelas que usam calças molinhas, que são anti-emails e que, claro, andam por aí de bicicletas. E pior: não seguram o guidon quando em linha reta. Sim, desisti do teatro, até porque cada vez que pensava nisso me dava um ataque de timidez que ficava com vergonha até de ligar pra pedir informações.

Continuo na aula de inglês, agora faço aula tripla, a conversação flui melhor. Desde a primeira aula abolimos alguns temas como Olimpíadas, religião, futebol, política. Uma das pessoas pediu também para não falarmos muito sobre animais de estimação pois ela acabara de perder seu cão adorado. A segunda pessoa mostrou-se um pouco radical quando falamos de cinema outro dia, quase me agrediu só porque eu disse que gostava de musicais. Ele defende filmes de autor quase como quem defenderia Jesus. É realmente impressionante. Desde esse dia passamos a evitar também esse tópico. Temos conversado muito sobre música e destinos de viagens, esses parecem ser de interesse comum e até agora têm funcionado. Mas convém não abusar. Tenho tentado inserir dança na conversa pra ver se o público aumenta, mas quando eles me pedem indicações de espetáculos para ver eu fico receosa. Como é que poderia recomendar espetáculos de dança contemporânea para eles, por exemplo? Até pouco tempo eles achavam que Nureyev era uma cidade russa. É cedo demais para inicia-los.

Continuo também dormindo pra caramba, ainda mais agora que não tenho que escutar despertador. Eu sei que é temporário, como a praia, então faço o melhor dueto: tiro cochilos na areia, sob o guarda-sol, quando começa a esfriar um pouquinho. Ainda insisto, também, nos cds, compro cds a toda hora. As caixinhas, por sua vez, ainda insistem em se esborrachar no chão na primeira semana, acho que já faz parte do ritual. É isso o que tenho pra contar, acho que fico fazendo e desfazendo planos para ter assunto, mas no fundo não tenho tanto assim. Prefiro sempre responder que ta tudo bem, tudo mais ou menos igual e emendar, exclamando, você é que deve ter uma porção de histórias bacanas pra dividir! Fico com vergonha de falar sobre o musical infantil que me fez chorar. E adio a hora, enquanto não tomo coragem, de te dizer a novidade mais nova e óbvia, que já faz uns dias: você virou assunto na terapia.


:: Nina Simone

quarta-feira, julho 30, 2008

Meus suicídios (em 3 atos)

I.

Eu me suicido toda vez que uso arco. É burro esse meu suicídio. É uma espécie de insistência vaidosa. Começa naqueles dias em que o cabelo está tão disponível para arcos que caio mais uma vez na armadilha dolorosa que eles fazem e então coloco um na cabeça e já está próximo o abismo. Em poucas horas eu estou completamente possuída por uma vontade de saltar pro fundo e o fim do abismo, as têmporas latejando, a cabeça toda começa a doer e a pulsar e de repente não há mais luz ou barulho à minha volta, somente sinto uma dor sincopada que cresce e PÁ! me estatelo no chão. É tarde demais pra tirar o arco da cabeça e também tarde demais para jurar nunca mais comprimi-la com um deles: o dia já está mal-humorizado, eu já não penso em nada senão quebrar o acessório.

II.

Eu me suicido toda vez que como tangerina. É inevitável esse meu suicídio. É uma espécie de rotina necessária. Começa quando entro na cozinha e o ar está impregnado pelo cheiro laranja da tangerina e então, segurando-a com a mão direita, cravo o dedão esquerdo na casca e divido a fruta em duas partes. A partir daí a corda está pendurada: o cão ao lado começa a subir pelas minhas pernas, os gomos se enfileiram no prato para serem descascados, arranco os fiapos um a um até que cada um fique o mais limpo possível para só então degusta-los. Mas aí o cão já está latindo, implorando por seus pedaço, me olhando com cara de desespero e fazendo todo o barulho que consegue, eu como os gomos afoita sem quase sentir o suco, encho o cachorro com um ou dois que nunca são suficientes, e no fim eu também não me satisfaço, com tanta inveja alheia e de repente, pronto: o prato está vazio, a casca está de lado e o nó já está sufocando meu pescoço. É muito cedo pra tentar de novo e além disso o cão está sempre aqui a pedir mais.

III.

Eu me suicido toda vez que tento te ter. É reincidente o meu caso e eu me suicido com uma persistência espantosa. É deprimente, repetitivo e ultimamente tenho receado ser um pouco obsessivo também, e é como se o meu suicídio estivesse condicionado à sua mera aparição. Eu carrego as armas quando você me enlaça para o cumprimento e é quando seu rosto toca o meu que descarrego a primeira bala, a que suspende a respiração acertando um pulmão. Eu atiro nos meus pés quando você me tira pra dançar e dilacerados eles tentam seguir o ritmo da música e se esbarram nervosos contra os seus. Eu acerto minhas mãos quando você me abraça e me diz coisas lindas e não consigo nunca acariciar seus cabelos em retribuição aos elogios que você sussurra, então eu atiro no meu peito e começo a sentir tanto frio, tanto frio e vou chegando mais perto, já na ponta dos pés machucados pra alcançar os teus lábios e BANG! acerto a cabeça quando você se desvencilha do meu beijo e resolve ir embora sem porquê. Eu caio ensangüentada no chão quando te vejo partir depois de ter me conquistado de novo e não consigo atirar em você porque uso as últimas balas do revólver contra os meus olhos, pra não te ver com ela, pra não te ver com outra. Eu me suicido toda vez que você está por perto, te odeio no dia seguinte e te amaldiçôo até te encontrar de novo, me suicidar outra vez. Não dói, fazer o quê?



domingo, julho 13, 2008

Como se fora brincadeira de roda

Almoçando com a minha irmã, ela notou que na mesa ao lado uma criança em seus 5 ou 6 anos assistia, enfeitiçada, a um filme num aparelho portátil de dvd. A criança, loira, arco de lacinho no cabelo, estava sentada à mesa com seus pais, que pareciam muito à vontade com o método que descobriram para fazer comportar-se sua filha. A menina era uma estátua resignada que sequer piscava, tão absorvida que estava em seu mundo particular com seus fones de ouvido.

Imediatamente, lembrei-me de um livro que acabara de ler e que, tal qual o filme da criança, me absorveu durante toda uma tarde. O Verão do Chibo, escrito a quatro mãos pela Vanessa Bárbara e pelo Emilio Fraia. Os dois nasceram no mesmo ano que eu. O Verão do Chibo é uma novela narrada por um garoto que é o caçula da turma com quem passa as férias de verão. Embrenhado num milharal, às voltas com colônias de formigas e espionagens secretas de agentes da Rainha da Bulgária, os garotos fazem de seu QG uma casa na árvore e de suas armas balas de goma. Em meio a fantasias e descobertas, as crianças do livro brincam de circo, se sujam na terra e desafiam o mundo tirando casquinhas de machucados antes da hora.

Lendo entrevistas dos jovens autores descobri que eles fazem menção a diversas brincadeiras e jogos que eu e minha irmã também gostávamos: elefantinho colorido, amarelinha, vaca-amarela, esconde-esconde e tantas mais, algumas mais especiais que as outras, algumas que de fato só recordo o nome e cujas regras foram totalmente armazenadas numa parte da cabeça à qual não tenho senha para entrar.

Parte dos motivos pelos quais adorei o livro são estes, estas memórias de infância que todos temos e que cada vez mais visitamos menos. Através do verão dos outros lembrei-me de tantos verões brincando nos gramados das casas na serra e até na praia perto de casa mesmo. Escalar árvores como se fossem montanhas altíssimas, construir castelos onde princesas à prova d’água poderiam morar, rodar até ficar tonta e cair na grama sem machucar, morrer de medo de ser encontrado no esconde-esconde, deixar de ser café com leite, ficar de altos, comer frutas do pé, tomar banho de chuva com direito a xampu. Correr era fácil. Sujar-se era permitido. E ser leve era natural.

É dessa leveza que sinto falta, dos espaços que nos pareciam enormes, das pessoas que nos pareciam gigantes, da luminosidade que nos parecia infinita. Talvez seja saudosismo, ou nostalgia. Desconfio de que a minha geração teve a sorte de ter uma infância pré-tecnologia, tivemos a sorte de conhecer lama, rua de terra, guerra de travesseiro, bonecos e carrinho de rolimã e de poder incluir outras crianças nas brincadeiras. Pudemos extrapolar todos os níveis de nossa imaginação, tínhamos que construir nossos refúgios e não comprá-los prontos em formato digital. É quando fico com pena da criança de lacinho no cabelo, que escreverá sobre o verão em que conseguiu baixar todos os filmes e jogos no seu computador sem a ajuda de ninguém. Com alguma sorte os filmes serão de aventura, mas que jamais serão suas de verdade.

domingo, julho 06, 2008

My Lasanha de Palmito Nights

Quantas panelas existem em Paraty? – foi a pergunta que nos fizemos enquanto esperávamos a sobremesa que já demorava mais de 40 minutos para chegar à mesa. Não foi só a sobremesa. A média de espera de qualquer prato na maioria dos restaurantes é de 40 minutos, o que nos fez questionar a existência de fogões e panelas nas cozinhas de cada estabelecimento. A demora em conseguirmos a conta também foi um mistério. O refrigerante, a entrada e os peixes, por que tudo demora tanto? Será que os peixes são pescados no momento em que se faz um pedido aos atendentes?

Para comer em Paraty são necessários bons amigos, paciência, bom humor e eventualmente uma (ou mais) rodada de pôquer. Essa talvez seja a primeira das dicas de nosso guia especial de sobrevivência na Flip, que foi esboçado entre um bobó e outro. Que não se deve olhar pra frente ao caminhar pelas ruas do Centro Histórico, isso todo mundo sabe. O que nós revelamos, porém, nem o Lonely Planet desconfia.

Os restaurantes, em sua maioria, não fazem reservas e não organizam lista de espera com o incompreensível argumento de que a mesma causaria confusão. A aventura já começa aí: conseguir uma mesa requer astúcia e vigilância. Ou um bom guardador, foi o que descobrimos no restaurante tailandês. Uma vez sentados, entre tosses e espirros (causados pelos fortes aromas que impossibilitavam qualquer frase longa sem obstáculos), observamos a poucas mesas de distância um homem que ocupava 6 lugares. Ele estava sozinho, falava ao celular e não consumia sequer um copo d’água. Pouco depois, cerca de 5 pessoas chegaram e o homem calma, e quem sabe famintamente?, se foi. O mesmo homem foi visto no dia seguinte guardando um lugar na fila de autógrafos para seus contratantes. Uma bela sacada.

Idéia genial, também, é perguntar se o prato que você escolheu está realmente disponível, literal e metaforicamente falando. Pode acontecer de você descobrir, depois de cinqüenta minutos de espera, que o seu pedido não chegou porque faltou arroz na casa. Ou água na cozinha e por isso as louças não puderam ser lavadas ainda. Não é piada. Depois de ter perguntado três vezes sobre o meu picadinho que não chegava nunca fui informada de que não havia picadinho na casa, o famoso tem...mas acabou!. É nesse momento, então, que se tem a maior revelação: Paraty fica mesmo é na Bahia.

No caso da água que acaba, carregue seus talheres, copos e pratos descartáveis, ou tenha sempre um balde água para contribuir. O mesmo balde pode servir para o banho, visto que 90% dos chuveiros das pousadas e hotéis da região são elétricos daqueles de água ralinha, o que faz com que nós possuidores de cabelos cacheados demoremos o triplo de tempo na função. Baterias para secadores de cabelos também são boas opções para não causar curto-circuitos indesejáveis. Mas pra não haver perigo mesmo, duas soluções práticas: escova progressiva antes da viagem (daquelas em que a pessoa é proibida de lavar os cabelos por três ou quatro dias) ou uma coleção de chapéus.

Tenha certeza de que pelo menos um dos chapéus possui abas que encobrirão parcialmente seu rosto, isso evita olhares reprovadores de vizinhos de cadeiras quando você acordar de um cochilo no meio de uma palestra arrastada, sem graça e complicada, elas existem, felizmente não tanto quanto as portas coloridas que enfeitam a cidade. Os chapéus também servirão para você tentar enterrar-se nele quando as declamações constrabgedoras de poesia começarem, essa dica é quente: fique longe do sarau da casa do príncipe. Fique longe também da praça decorada por artesãos e crianças locais, isso pode ser ainda mais assustador que as pessos amalucadas fazendo performances de versos. Se for inevitável passar pela praça e se o tema for "personagens da infantil" por favor, faça de tudo para não se deparar com o poeta Gentileza. Sim, ele está lá, deve ter algo a ver com o não-fazer lista de espera, vai entender...

Tenha a certeza também de que todo e qualquer mau humor, fome, susto ou leitura dramática (no pior sentido) será recompensado por coisas muito simples: você terá tempo para papear com um bocado de gente bacana, as ruas tem nomes como "Rua do Fogo" ou "Rua do Comércio", o que a todo momento nos remete aos tempos de império, os passeios de charrete sobrevivem por lá, pintores de paisagens ingênuas montam seus cavaletes nos caminhos de pedras antigas, cachorros dormem no meio de filas para palestras sem se incomodar. O melhor, porém, é que em Paraty, algumas flores crescem sobre os telhados das antigas casas.